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REGÊNCIA DE BANDA, CORO E ORQUESTRA AULA 4 Prof. José Luis Manrique 2 CONVERSA INICIAL O estudo da regência pode ser aplicado a vários estilos musicais e formações instrumentais, mas cada gênero possui suas particularidades. Quando levamos à prática os conceitos da regência, os padrões de movimento e os estudos socioculturais da música, nos encontramos com uma verdadeira diversidade de possiblidades, onde cada caso particular será abordado de maneira diferente a partir dos mesmos princípios. Assim, cada regente aprofundará, em maior ou menor grau, nos estilos e formações musicais que irá liderar. Como exemplo concreto no Brasil, uma formação bastante difundida atualmente é a chamada Big Band, que carrega similaridades com a banda e a fanfarra principalmente nos elementos percussivos e de sopro. Com uma tradição enraizada em terras estrangeiras, a Big Band é capaz de interpretar diversos repertórios sem deixar para atrás sua origem no jazz. Nesta aula faremos a análise e preparação de alguns fragmentos de obras arranjadas para Big Band: Gonna fly now e The Incredibles, dos compositores Bill Conti e Michael Giacchino, respectivamente. A partir deste estudo veremos o aquecimento, preparação do grupo e como seria a execução da regência para estes trechos. Por último, exploraremos algumas ideias de emissão e recepção do capital artístico e avaliaremos os resultados da nossa prática. TEMA 1 – ANÁLISE E PREPARAÇÃO DE UMA OBRA DE BANDA, FANFARRA OU SIMILAR Como foi proposto anteriormente, seguiremos com os passos básicos da preparação de uma interpretação musical, concretamente para as duas obras escolhidas em formação de Big Band. 1.1 Investigar sobre as obras O primeiro passo é investigar sobre as obras a serem executadas. As duas obras foram compostas especificamente para serem trilha sonora de filmes. Gonna fly now foi composta por Bill Conti para o filme Rocky, enquanto The Incredibles foi composta por Michael Giacchino para o filme com o mesmo nome. Bill Conti é um compositor reconhecido em temas de filmes, dentre seus trabalhos mais importantes podemos mencionar The Karate Kid, He-Man - Masters of the Universe e 007 - For Your Eyes Only. A trilha de Rocky foi 3 composta em 1976, contribuindo com o perfil emocional do protagonista Rocky Balboa, um boxeador de bairro pobre em Filadélfia, Estados Unidos da América, que depois de muita derrota, desmotivado e com tensões na vida pessoal consegue ganhar o Campeonato Mundial de Pesos Pesados. Como menciona o compositor numa entrevista, “é um filme sobre um perdedor, [...] mas começa a treinar para uma grande luta e queremos manipular ao público para que eles acreditem que ele pode ganhar” (ABC10 News, 2021). Essa é a emoção norteadora da música, a firmeza por alcançar coisas que parecem impossíveis. No caso de Michael Giacchino, ele é um compositor de trilhas sonoras com um sucesso mais recente que Conti e que também compõe para seriados e jogos de videogame. Dentre seus trabalhos mais importantes podemos mencionar Mission: Impossible III, Jurassic World: Fallen Kingdom e Spider-Man: Far From Home. “O estilo de Michael Giachino é caraterizado por uma sensibilidade musical à moda antiga e nostalgia pela música dos Anos Dourados de Hollywood” (Wixon Music Works, 2011). Assim, a música do filme The Incredibles, que estreou em 2004, “tem a elegância distintiva dos anos 60, que ajuda a estabelecer a atmosfera retro e configuração desejada para o filme” (Ibidem). Neste sentido, a obra “exorta ao público a aceitar o mundo estiloso de super-herói, espionagem e aventura” (Ibidem). Com isto podemos ter uma ideia da emoção a ser transmitida na execução da peça musical. 1.2 Escolha da partitura As duas obras contempladas foram escritas originalmente para Orquestra Sinfônica de Trilha Sonora, mas devido ao estilo são compatíveis sem nenhum problema com a formação de Big Band. Por esse motivo, a escolha será por arranjos para Big Band disponíveis no mercado ou elaborados pelo próprio regente ou arranjador do grupo musical. Para Gonna fly now será utilizado o arranjo de Jay Chattaway1 e para The Incredibles será utilizado o arranjo de Stephen Bulla2, em ambos os casos para Jazz Ensemble. Esta formação comercialmente aceita conta com a configuração típica de Big Band: 2 sax alto, 1 Partitura oferecida no site: <https://www.jwpepper.com/Gonna-Fly- Now/2011641.item#/submit>. Acesso em: 8 jul 2021. 2 Partitura oferecida no site: <https://www.halleonard.com/product/7011109/the-incredibles>. Acesso em: 8 jul 2021. https://www.halleonard.com/product/7011109/the-incredibles 4 2 sax tenor, 1 sax barítono, 4 trompetes, 4 trombones, 1 guitarra, 1 piano, 1 baixo, 1 bateria e percussão (auxiliar). É possível que em alguns casos a nossa formação instrumental seja um pouco diferente à comercialmente aceita. Nesses casos o arranjador local ou regente terá que adaptar as partes obtidas para o grupo de forma conveniente, cuidando para não modificar muito as intenções musicais e não descaracterizar a ideia geral do arranjador e compositor. 1.3 Estudo da partitura Para o estudo da partitura, dentro dos limites desta aula, analisaremos alguns trechos importantes de cada obra separadamente. Nesta etapa serão aplicados os três elementos mencionados por Labuta: exploração geral da partitura, antecipar desafios de regência e identificar desafios para o grupo (Labuta, 2010, p.74-76). No arranjo de Chattaway da obra Gonna fly now, de modo geral não apresenta grandes dificuldades, a não ser pelos agudos do trompete superior considerado solista. Se não tivermos um trompetista que alcance confortavelmente esses agudos ou a possibilidade de executá-lo com um trompete piccolo, esta linha aguda poderia ser substituída por outro instrumento embora perdendo o timbre ardido do trompete nos agudos. Inclusive, uma opção de troca poderia ser um teclado sintetizador com som de brasses, bastante utilizado nos anos 70 e contemporâneo ao estilo composicional da obra. Respeitando os fins pedagógicos desta aula, trabalharemos os primeiros 9 compassos, onde já encontramos passagens interessantes para o estudo da regência. Apenas por uma simplificação gráfica, utilizaremos uma redução para piano da parte dos metais em som real, não transposto, como mostra-se na Figura 1. 5 Figura 1 – Gonna fly now – redução do naipe de metais – compassos 1-9 Fonte: Manrique, 2014. O arranjo inicia com fortíssimos enérgicos nas cabeças dos compassos (c.) 1, 3, 5, 6, 7 e 8, e o quarto tempo ativo nos c. 2 e 5. Também podemos notar ataques em contratempo nos c. 6 e 8. A partir do c. 9 inicia o tema principal da música em anacruse e dinâmica mezzo-forte. No caso do arranjo de Bulla da obra The Incredibles, a peça demanda um maior nível de preparo tanto do regente como também do grupo musical, pois conta com várias mudanças de fórmula de compasso e pulsação, entradas rápidas em contratempo, elementos estilísticos de jazz e outras dificuldades de performance. Isto se deve principalmente ao fato da obra recolher vários momentos musicais diferentes utilizados ao longo do filme. Assim, na continuação trabalharemos com alguns trechos diversos na partitura original do arranjo. Figura 2 – The incredibles – Anotação inicial de tempo e interpretação Fonte: Hal Leonard, 2021. As indicações iniciais, mostradas na Figura 2, comunicam o tema do filme a ser tratado que é Os dias de gloria (The Glory Days), a intenção interpretativa que é “rápida com excitação” (fast with excitement), a velocidade do pulso ou 6 tempo em batidas por minuto, e outras caraterísticas básicas de notação musical como fórmula de compasso e armadura. Figura 3 – The incredibles – Naipe de sax – compassos 4-8 Fonte: Hal Leonard, 2021. Nos c. 4 e5, mostrados na Figura 3, aparecem duas frases sugerindo a melodia do tema principal a modo de pergunta e resposta entre os sax alto e tenor, com a anotação entre parênteses de “colcheias exatas” (straight 8ths). Esta anotação é para alertar aos músicos que não se trata da prática estilística do jazz de ler uma dupla de colcheias como se fosse colcheia pontuada mais colcheia em ritmo interno de tercinas, comumente chamado “com swing”. Tal jogo de pergunta e resposta finaliza num forte-piano dos sax tenores que permite o início em bloco da dinâmica em crescendo do c. 6, o qual também contempla um acelerando (accel.). Logo depois disto aparece a troca de fórmula de compasso para 5/4 inaugurando outro tema que se chama Os Incredits (The Incredits), que recebe a aceleração anterior num pulso mais rápido (faster) de aproximadamente 192 bpm para mais. Na cabeça do c.7 temos o ataque dos 4 sax superiores caindo em glissando sem altura definida enquanto o sax barítono inicia o novo motivo musical junto com os graves dos outros instrumentos e a base harmônica-rítmica, como aparece na Figura 4. 7 Figura 4 – The incredibles – Piano, baixo, bateria e percussão – compassos 6-8 Fonte: Hal Leonard, 2021. Complementarmente à análise anterior, é necessário observar também que a bateria entra na cabeça do c. 6 com um “preenchimento enérgico” (busy fill) enquanto o piano inicia seu glissando no terceiro tempo do c. 6, dois elementos que precisariam de atenção no meio do acelerando e crescendo. Já no c. 7 inicia a parte rítmica propriamente com notação para bateria e congas. A notação de bateria não está totalmente definida atualmente, mas podemos ver uma possibilidade de interpretação bastante aceita na Figura 5. Figura 5 – Notação geral para bateria Fonte: Drum Magazine, 2021. A única questão desta interpretação de notação de bateria que não encaixaria com a nossa partitura é a atribuição dos pratos, pois estilisticamente produziria um resultado pouco esperado. Se verificarmos o áudio de amostra da página da editora da partitura, escutaremos que o c. 7 inicia com um crash e continua com o chimbal nas colcheias. Por esse motivo, assumiremos na nossa 8 partitura que o xis do quarto espaço é o chimbal e o primeiro espaço suplementar superior é o crash. Figura 6 – Notação geral para congas Fonte: Rhythm Notes, 2021. No caso das congas, na Figura 6 mostra-se similarmente uma convenção de notação, embora também possa ser subjetiva. Neste caso, a nossa partitura só utiliza a “tumba” que é um som grave e o “quinto” que é um som agudo. Dessa forma, a noção de agudo-grave pode ser aplicada indistintamente a qualquer outro instrumento de percussão similar às congas que consiga diferenciar essas duas batidas. Figura 7 – The incredibles – Melodia principal nos trombones – compassos 15- 17 Fonte: Hal Leonard, 2021. A melodia do tema principal é apresentada pela primeira vez integralmente pelos trombones nos c. 15, 16 e 17, como mostrado na Figura 7. Vemos que a agrupação rítmica interna do 5/4 está organizada nos agrupamentos de pulsos 3-2, como acontece similarmente nos graves dos c. 7 e 8. Isto com uma exceção na segunda metade do c. 17 que pode ser assumido como uma síncope. 9 Figura 8 – The incredibles – Mudança de andamento “com swing” – compassos 82-83 Fonte: Hal Leonard, 2021. Na Figura 8 mostra-se a mudança de andamento incluindo a interpretação “com swing” mencionada anteriormente, mas agora em fórmula de compasso 3/4. Este tipo de interpretação típica do jazz se manterá até o final da obra. Figura 9 – The incredibles – Naipe de sax, compassos 113-115 Fonte: Hal Leonard, 2021. 10 No c.113 retoma-se o tema principal de maneira muito especial, como aparece na Figura 9. Tomando apenas um instrumentista de cada linha de sax por causa da anotação “soli”, a melodia é executada “com swing” em mezzo- forte com um ornamento de grupeto descendente no tempo 3 do c. 113. Na continuação, a melodia é amolecida ritmicamente na primeira metade do c. 114 onde aparece uma tercina de semínimas e que na segunda metade sobe em glissando. Claramente, este é o trecho mais delicado da obra onde a regência será de suma importância. 1.4 Referências interpretativas Como referência interpretativa, que serve para enriquecer a nossa visão particular da obra, para Gonna fly now podemos citar a interpretação de Maynard Ferguson3 e grupo, por ser uma das mais consagradas e lembradas no imaginário coletivo. No caso de The Incredibles podemos citar a interpretação da Big Belas Band4 da Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP-UNESPAR), com a condução do maestro José Luis Manrique. Além de bons resultados sonoros, a importância desta interpretação para o nosso estudo recai na aproximação à realidade brasileira dentro das graduações em música no país. TEMA 2 – AQUECIMENTO E PREPARAÇÃO DO GRUPO Cada instrumentista da Big Band, e de outras formações instrumentais similares, possui aquecimentos específicos para cada caso. Por exemplo, os instrumentistas de sopro precisam principalmente ativar o músculo diafragma, relaxar língua e lábios e preparar a digitação dos dedos, articulando notas longas e curtas numa sequência apropriada para cada nível. Enquanto isso, o próprio instrumento também atinge a sua temperatura de execução para garantir a afinação. O ideal é que o processo de aquecimento para cada caso seja orientado pelo professor de instrumento e/ou trazido pelo próprio instrumentista como parte da sua rotina. Por esse motivo é recomendado que o instrumentista 3 A interpretação está disponível aqui: <https://open.spotify.com/album/7F6b82HkyRu3optHM2WGcX>. Acesso em: 8 jul 2021. 4 A interpretação está disponível aqui: <https://youtu.be/IztEwV7y4lw>. Acesso em: 8 jul. 2021. 11 chegue com antecedência para finalizar seu processo de aquecimento antes da hora de início do ensaio. É necessário que cada instrumentista chegue com suas partes estudadas previamente e as pratique momentos antes do ensaio, já aquecidos. Para isto, as partes precisam ser enviadas aos instrumentistas com antecedência e de acordo ao nível de execução de cada um. A distribuição dos instrumentistas no espaço de ensaio pode ser variada segundo o número de participantes e o resultado sonoro desejado pelo regente, mas recomenda-se que seja a mesma que será utilizada no momento da apresentação com público. Uma distribuição de Big Band bastante utilizada que serve de referência aparece na Figura 10. Figura 10 – Distribuição básica de uma Big Band Fonte: Donald, 2021/ Crédito: Smile Ilustras. A respeito da afinação, na Big Band é usual que cada instrumentista afine pessoalmente seu instrumento com algum dispositivo mecânico ou eletrônico no padrão de 440hz antes do início do ensaio. Em caso de trabalhar com piano 12 acústico, o mais recomendável será afinar segundo a nota “la” deste instrumento, para não correr o risco de ter diferenças de afinação por causa das condições climáticas do ambiente e da conservação do instrumento. TEMA 3 – EXECUÇÃO DE ALGUNS TRECHOS Nesta seção analisaremos os trechos abordados anteriormente desde a ótica da execução gestual da regência. As soluções que serão apresentadas seguem o estudo gestual apresentado anteriormente, mas também possuem a subjetividade do professor e, logicamente, são apenas possibilidades norteadoras para o estudo. No caso do Gonna fly now, o c. 1 pode ser inaugurado com uma preparação em dois tempos fazendo uso do movimento de munheca chamado “click”. Este movimento consiste em iniciar no plano de regência com as mãos paralelas e perpendiculares em relação a este, marcando com um rápido giro de munheca o pulso anterior à preparação propriamente deixando as mãos alinhadas sobre o plano. Este gesto precisa ser vigorosopara obter em resposta o fortíssimo inicial. No quarto tempo do c. 2, observamos um acento nos trombones que precisará de um gesto claramente ativo e atacando na sequência a segunda frase que inicia no c. 3, sem perder a dinâmica do fortíssimo. No c. 5 a frase musical muda, mas mantém a estrutura rítmica do c. 3. No c. 6 continuamos com o primeiro tempo ativo, mas no segundo tempo aparecem elementos rítmicos em contratempo, os quais será preciso marcar na cabeça do tempo enfaticamente e receber a resposta sonora uma colcheia depois. A marcação de um contratempo se faz na cabeça do tempo ao qual ele pertence, a não ser que a musicalidade do trecho justifique o contrário. Nos compassos seguintes se segue o mesmo padrão até marcar a entrada do tema principal no anacruse do c.9. Estes movimentos garantirão a exatidão das entradas dos instrumentistas e a expressividade desejada no resultado sonoro. Agora abordaremos as possibilidades gestuais para os trechos selecionados de The Incredibles. Mesmo que não apareça na Figura 2, sabemos que outros instrumentos entram na cabeça do tempo já no início, o que levará a assumir gestos similares aos que foram propostos no início de Gonna fly now, só que desta vez em dinâmica forte, na expressividade sugerida e marcando a entrada dos saxofones no quarto tempo ativo. Nos c. 4 e 5 uma marcação de tempos sólida em 4/4 funciona bem, acentuando o forte-piano e logo em seguida 13 deixando o gesto pequeno, preparando-o para o crescendo. Antes de analisar o c. 6 precisamos definir a marcação de tempos do 5/4 que aparecerá na sequência. Este 5/4, além de ser em andamento rápido, tem a organização interna de 3-2. Uma possibilidade é marcá-lo como binário irregular em dois arcos, o primeiro de 3 tempos e o segundo de 2 tempos. Definida a marcação a partir do c. 7, agora teremos maior clareza para definir uma transição que prepare para esse momento. Assim, o c. 6 pode ser assumido como binário, neste caso regular, em movimento crescente e acelerando. O modelo binário será interessante também para mostrar o tempo ativo na entrada do piano e deixar um pouco mais livre ao baterista para o crescente preenchimento enérgico. A dinâmica pode ser marcada por um dos braços em abertura diagonal enquanto o outro braço marca o tempo, tirando proveito da independência dos nossos membros superiores. O tema principal nos trombones do c. 15 pede para manter o mesmo gestual do 5/4, auxiliando as dinâmicas com uma das mãos e cortando a frase no final do c. 17. Já no c. 113 o gesto pede outras caraterísticas além de ter a marcação de 4/4. O gesto deve ser leve e legato durante todo o trecho. Nas tercinas da primeira metade do c. 114 será conveniente arredondar completamente a marcação do segundo tempo para não atrapalhar o fluxo natural das tercinas e reencontrar a precisão do pulso no terceiro tempo. A batuta no caso de Big Band será opcional, dependendo da abordagem do regente, da quantidade de instrumentistas e da distribuição destes no espaço. Com estas breves orientações e planejamentos estaremos minimamente capacitados para encarar a execução das obras. Devemos lembrar também que assim como os instrumentistas ensaiam previamente, os gestos do regente já devem estar incorporados ao corpo de maneira automática na hora do ensaio, para que toda a capacidade de atenção esteja dedicada ao resultado sonoro e não à preocupação por acertar movimentos. TEMA 4 – PLANEJAMENTO DE EMISSÃO E RECEPÇÃO DO CAPITAL ARTÍSTICO Por serem obras relativamente atuais, os códigos musicais utilizados não se afastam muito da nossa realidade cultural, diferentemente de obras do século 19 e anteriores. Não obstante, a elaboração de um programa de concerto é recomendada em todo caso, onde as obras devem aparecer na ordem em que 14 serão apresentadas com um mínimo de informações que auxiliem ao público entrar na poética. A ordem das músicas precisa ser escolhida pelo regente, seja pelo grau de dificuldade, seja por ordem cronológica de composição ou por elementos estilísticos específicos. No nosso caso concreto, Gonna fly now apresenta traços estilísticos dos anos 70 enquanto The Incredibles possui traços dos anos 60, o que diferiria se optarmos pela ordem cronológica de composição. As duas obras a serem executadas pertencem ao repertório de trilha sonora, o que poderia ser valorizado como coesão poética do concerto. Isto sugere adicionar ao programa outras músicas que também sejam deste mesmo gênero. Algumas possibilidades de fluxo de capital artístico passam pela projeção de imagens dos filmes junto à execução do grupo e podem ir até ter os personagens fantasiados contracenando com os músicos, como é o caso da proposta de The Music of Pixar Live!5, mostrado na Figura 11. São muitas as possibilidades de planejamento de fluxo de capital artístico. Estes subsídios complementares à experiência sonora estão atrelados normalmente à capacidade financeira e logística que o projeto musical possui e ao público específico a que será direcionado o evento. É importante notar que os cuidados do regente estarão presentes em todas estas decisões. TEMA 5 – AVALIAÇÃO E CRÍTICA DOS RESULTADOS Dentro das possibilidades gestuais propostas, tem uma que pode apresentar um problema se não for adequadamente controlado. O gesto binário irregular de 5/4 aplicado a partir do c. 7 de The Incredibles apresenta um primeiro arco subdividido em três pulsações seguido de um segundo subdividido em duas pulsações. Pode ocorrer que no primeiro, por ter uma duração métrica maior, a amplitude do gesto tenda a ser maior em relação ao segundo. Isto seria contraproducente pois é o segundo arco que precisa ter mais amplitude, preparando o gesto que marcará a cabeça dos compassos. 5 Este exemplo está disponível em vídeo aqui: <https://youtu.be/qxECsmXu2qA>. Acesso em: 8 jul 2021. 15 NA PRÁTICA Esta aula e as próximas desta disciplina caracterizam-se por serem essencialmente práticas. O que “na prática” significa que o estudante de regência precisa procurar espaços de desenvolvimento e situações reais de ensaio e execução musical, para testar no próprio corpo as soluções apresentadas e pôr à prova suas capacidades de comunicação verbal e gestual com algum grupo musical concreto. FINALIZANDO A música propõe sinergia, comunhão, emotividade, caridade e outras caraterísticas humanas que precisam estar presentes no ensaio dos grupos. O perfil humano de cada grupo é diferenciado, mas também influenciado principalmente pela personalidade do regente, quem com entrega espiritual e profissionalismo guiará aos músicos nos percursos das interpretações musicais, propiciando vivências significativas e comprometidas com a construção social do seu entorno. 16 REFERÊNCIAS ABC 10 NEWS. Famed composer Bill Conti explains birth of 'Rocky' theme. Disponível em: <https://youtu.be/hKFEckIt-h8>. Acesso em: 6 jul. 2021. DIS, T. The Music of Pixar Live! | Disney's Hollywood Studios. Disponível em: < https://youtu.be/qxECsmXu2qA>. Acesso em: 6 jul. 2021. DONALD, E. Jazz Big Band seating placement. Disponível em: < http://www.earlmacdonald.com/jazz-big-band-seating-placement/>. Acesso em: 6 jul. 2021. DRUM MAGAZINE. Drum Notation Guide. Disponível em: https://drummagazine.com/drum-notation-guide/>. Acesso em: 6 jul. 2021. GRUPO EDUCACIONAL BOM JESUS. The Incredibles - Coral da FAE e Big Belas Band. Disponível em: <https://youtu.be/IztEwV7y4lw>. Acesso em: 6 jul. 2021. FERGUSON, Maynard. Gonna Fly Now. Disponível em: < https://open.spotify.com/album/7F6b82HkyRu3optHM2WGcX>. Acesso em: 6 jul. 2021. HAL LEONARD. The Incredibles. Jazz Ensemble Library. Disponível em: < https://www.halleonard.com/product/7011109/the-incredibles>. Acesso em: 6 jul 2021. JWPEPPER. Gonna Fly Now. Conti/arr. Chattaway - Alfred Publishing Co.,Inc. Disponível em: < https://www.jwpepper.com/Gonna-Fly- Now/2011641.item#/submit >. Acesso em: 6 jul. 2021. LABUTA, J A. Basic Conducting Techniques. 6º Edição. New Jersey: Prentice Hall, 2010. MANRIQUE, J. Gonna fly now (redução). Redução para piano. Curitiba, 2014. RHYTHM NOTES. 10 Conga Patterns Every Percussionist Should Know Disponível em: <https://rhythmnotes.net/conga-patterns/>. Acesso em: 6 jul 2021. WIXON MUSIC WORKS. The Incredibles: Musical Representations of “New Man” Masculinity (Part 1). Disponível em: <http://wixonmusicworks.com/blog/the- incredibles-musical-representations-of-new-man-masculinity-part-1>. Acesso em: 6 jul. 2021. http://wixonmusicworks.com/blog/the-incredibles-musical-representations-of-new-man-masculinity-part-1 http://wixonmusicworks.com/blog/the-incredibles-musical-representations-of-new-man-masculinity-part-1