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AULA 2 TECNOLOGIAS ASSISTIVAS Profª Paula Mitsuyo Yamasaki Sakaguti 2 INTRODUÇÃO Aqui, estudaremos sobre a temática dos fundamentos legais da Educação Especial no contexto da educação inclusiva. Mas “qual a diferença entre a educação especial e educação inclusiva?”. São duas expressões muitas vezes consideradas pelo senso comum como sinônimas. Responderemos a essa questão na discussão dos conteúdos que serão abordados: educação especial e educação inclusiva seguida dos fundamentos legais da Educação Especial no Brasil e documentos internacionais. TEMA 1 – EDUCAÇÃO ESPECIAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA Para entendermos os dois conceitos, educação especial e educação inclusiva, precisamos compreender o real sentido do termo “inclusão”. Para algumas pessoas, inclusão escolar significa integrar o outro no mesmo ambiente, na mesma sala de aula para a socialização. No entanto, a inclusão escolar vai além dessa convivência e ao direito de frequentar uma sala de aula regular com os demais pares etários. Podemos afirmar, então, que a inclusão pressupõe uma sociedade em que todas as pessoas têm acesso ao bem comum e lhes são dadas as condições para que participem e possam exercer sua cidadania. Iniciaremos conversando sobre as confusões e ideias equivocadas respeito da educação inclusiva. Em relato de pesquisa realizada por Santos e Mendes (2018) sobre a história da expansão da inclusão escolar e as demandas para o ensino comum veiculadas por um jornal a respeito de experiências de escolas particulares com exemplos bem-sucedidos de inclusão, observamos a presença do senso comum a respeito da compreensão de educação especial e educação inclusiva. Nas matérias jornalísticas, a Educação Inclusiva é confundida como mais um serviço ofertado pela escola juntamente com as atividades extracurriculares; o uso do termo Educação Inclusiva parece substituir o termo Educação Especial. É preciso refletir se apenas a convivência e a socialização das crianças “seriam capazes de acabar com preconceitos e estereótipos e se seria apenas esta a função da escola para com essa população, ou seja, a de promover a socialização e a mudança nas atitudes dos alunos sem deficiência” (Santos; Mendes, 2018, p.125). 3 Para Santos e Mendes (2018), a organização da proposta pedagógica deve permitir que o alunado efetivamente aprenda a respeitar as diferenças. No entanto, essas questões não eximem as escolas de darem acesso ao currículo a todos os alunos, pois a presença dos alunos público-alvo da Educação Especial nas escolas comuns deve ir além da convivência e da socialização. Do mesmo modo, são equivocadas o uso de expressões como “aluno de inclusão” e “sala de inclusão”, pois todos devem estar incluídos nas propostas curriculares e pedagógicas da escola. Ou mesmo quando afirmamos que em uma sala de 30 alunos, quatro são especiais. Pergunta-se: e os 26 não seriam igualmente especiais? Nesse caso, parece haver uma confusão com os alunos público-alvo da Educação Especial. O conceito de inclusão não se restringe aos estudantes com deficiência, transtornos do espectro autista e altas habilidades. Desta forma, quando nos referimos à inclusão escolar, fazemos referência a todo o processo educacional e social visando à aprendizagem e participação de todos os alunos respeitados em suas diferenças culturais, áreas de habilidades e dificuldades, estilos e ritmos de aprendizagem. Ou seja, é papel da escola inclusiva modificar-se para atender a todos, garantindo o acesso ao conhecimento historicamente produzido para toda a população de estudantes. Assim como o ambiente escolar, os recursos didáticos e metodologias devem atender a toda população de estudantes. Para Camargo (2017, p. 1), na inclusão educacional, “o trabalho com identidade, diferença e diversidade é central para a construção de metodologias, materiais e processo de comunicação que deem conta de atender o que é comum e o que é específico entre os estudantes”. Como já afirmava o professor Boaventura (Santos, 2003, p. 56), “as pessoas e os grupos sociais têm o direito a ser iguais quando a diferença os inferioriza, e o direito a ser diferentes quando a igualdade os descaracteriza”. O conceito de inclusão educacional apresenta conotações amplas e vinculados aos diferentes grupos, minorias sociais e não se restringe ao alunado- alvo da Educação Especial. Já, conforme a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (Brasil, 2008), o atendimento educacional especializado dado pela Educação Especial tem como seu público- alvo estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. 4 O grande desafio para a implementação de sistemas inclusivos é a de prever e disponibilizar recursos de acessibilidade na educação, oferecer condições estruturais de ensino para todos os alunos, por exemplo, indígenas, quilombolas, órfãos, ciganos, imigrantes e as pessoas com deficiência (intelectual, física, sensorial), altas habilidades/superdotação, transtorno do espectro autista. Além enfoque dado ao alunado-alvo a que se destina, é importante considerar a natureza da Educação Especial na atualidade. No sistema educacional atual, com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (Brasil, 2008), a Educação Especial se insere na transversalidade de todos os níveis e modalidades de ensino, da Educação Infantil ao Ensino Superior, integrada a um projeto político-pedagógico mais amplo de educação inclusiva. Ao reconhecer que as dificuldades enfrentadas nos sistemas de ensino evidenciam a necessidade de confrontar as práticas discriminatórias e criar alternativas para superá-las, a educação inclusiva assume espaço central no debate acerca da sociedade contemporânea e do papel da escola na superação da lógica da exclusão. A partir dos referenciais para a construção de sistemas educacionais inclusivos, a organização de escolas e classes especiais passa a ser repensada, implicando uma mudança estrutural e cultural da escola para que todos os alunos tenham suas especificidades atendidas. (Brasil, 2008, p. 5) Assim sendo, pelo paradigma da educação inclusiva, o compromisso da escola é com todos os alunos e a Educação Especial se alia a ela, oferecendo enriquecimento curricular, serviços e arsenal da Tecnologia Assistiva para os estudantes que destes necessitarem para o sucesso de seu aprendizado. Uma escola inclusiva é aquela que se mostra aberta e disposta a criar condições pedagógicas, curriculares e ambientais para acolher e promover a escolarização de todos os estudantes, ou seja, por meio do princípio da equidade educacional garantiremos educação para todas as pessoas. TEMA 2 – CONCEPÇÃO DE EDUCAÇÃO ESPECIAL Kassar, Rebelo e Oliveira (2019) destacam que foi no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, em 2001, que na análise das Diretrizes nacionais para a educação especial na educação básica (Parecer CNE/CEB 17/2001 e Resolução CNE/CEB 02/2001) chamou a atenção de que muitas “crianças e adultos com deficiência não estavam sendo escolarizados, portanto, o Estado não estaria cumprindo seu compromisso com a universalização da educação obrigatória” (p. 6). 5 A privação desta escolarização já era conhecida, conforme pontuam Kassar, Rebelo e Oliveira (2019), pois se tinha ciência que muitas instituições privado-assistenciais, apesar de se apresentarem como instituições de educação especial, muitas tinham foco clínico-terapêutico, não garantindo escolarização adequada. A pressão por escolarização de estudantes com deficiência deu origem à elaboração e criação da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE). Assim, contextualiza-se o caráter substitutivo da Educação Especial como uma das finalidades da Educação Especial, prescrevendo a “existência deescolas especiais, o que deixava as instituições especializadas em situação confortável, de certo modo” (Kassar; Revelo; Oliveira, 2019, p. 7). Então, a organização tradicional da Educação Especial como atendimento educacional especializado substitutivo ao ensino regular levou à criação de escolas e classes especiais. Essa organização se fundamenta no conceito de normalidade/anormalidade, determinando, desta forma, o modelo de atendimento focado na reabilitação e ênfase no diagnóstico, muitas vezes ancorado por testes de QI e outras escalas psicométricas que definiam, por meio de laudos, as práticas educacionais para estudantes com deficiência (Brasil, 2008). No documento das Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica, promulgado pela Resolução n. 02/2001 do Conselho Nacional de Educação, define-se que: Art. 3º Por educação especial, modalidade da educação escolar, entende-se um processo educacional definido por uma proposta pedagógica que assegure recursos e serviços educacionais especiais, organizados institucionalmente para apoiar, complementar, suplementar e, em alguns casos, substituir os serviços educacionais comuns, de modo a garantir a educação escolar e promover o desenvolvimento das potencialidade dos educandos que apresentam necessidades educacionais, em todas as etapas e modalidades da educação básica. (Brasil, 2001a) Garcia (2017) ressalta que há muitas mudanças desde a promulgação da Resolução n. 02/2001 (Brasil, 2001a), com destaque para a força mobilizadora de documentos como a implantação da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva no ano de 2008 (Brasil, 2008) e do movimento de embate entre instituições especializadas e os defensores da escola regular para todos. 6 Anteriormente, pela Resolução 02/2001, a Educação Especial cumpria quatro finalidades (apoio, complementação, suplementação e substituição dos serviços educacionais comuns), a saber: (i)apoiar a inclusão, prestando auxílio ao professor e ao aluno no ensino regular, por meio de recursos materiais, físicos e humanos; (ii) complementar a base curricular nacional comum, oferecendo conteúdos, metodologias e práticas diferenciadas, com atendimento em contraturno; (iii) suplementar o currículo comum com atividades de aprofundamento ou enriquecimento curricular para alunos superdotados. Além disso, havia a previsão de oferta substitutiva, em classes e escolas especiais, classes hospitalares e atendimento domiciliar. (Fernandes, 2013, p. 127) Com a implantação da Política de 2008, há uma mudança na compreensão da educação especial que defendia a função substitutiva dos serviços educacionais comuns com a manutenção de escolas e classes especiais destinados aos estudantes que apresentassem “deficiências mais significativas do ponto de vista orgânico e funcional, as quais acarretassem prejuízos a sua aprendizagem acadêmica e ao convívio social” (Fernandes, 2013, p. 129). Nisto, foi implantada a Resolução n. 4, de 2 de outubro de 2009 do Conselho Nacional de Educação-Câmara de Educação Básica (Brasil, 2009) que “institui as Diretrizes Operacionais para o Atendimento Educacional Especializado na Educação Básica, modalidade Educação Especial”, considerando-se que o “atendimento educacional especializado passa a ser um conceito-chave relativo à gestão da educação especial após a divulgação da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva de 2008” (Baptista, 2015, p. 21). Em conformidade com Resolução n. 4/2009, estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação terão seu lócus de educação na sala de aula comum/regular e no atendimento educacional especializado a concepção atual de Educação Especial. Essas Diretrizes Operacionais se baseiam na concepção de atendimento educacional especializado e não devem ser entendidas como substitutivas à escolarização, sendo realizada no contraturno em articulação com os professores da sala de aula comum, visando à disponibilização dos serviços e apoios complementares e suplementares à formação dos alunos, dos recursos pedagógicos e uso de Tecnologia Assistiva na promoção de autonomia e participação (Brasil, 2009). 7 Baptista (2015, p. 22) destaca ainda que “quando analisamos a legislação brasileira relativa à educação, essa tendência que corrobora a inclusão como diretriz é evidente”. Neste sentido, temos a Resolução n. 4 de 13 de julho de 2010 do Conselho Nacional de Educação-Câmara de Educação Básica que define as Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica, reafirmando, em seu art. 29, a concepção de Educação Especial como uma “modalidade transversal a todos os níveis, etapas e modalidades de ensino, é parte integrante da educação regular, devendo ser prevista no projeto político-pedagógico da unidade escolar” (Brasil, 2010). TEMA 3 – LEI BRASILEIRA DE INCLUSÃO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA Você já deve ter ouvido falar sobre o Estatuto da Pessoa com Deficiência, mais conhecido como a Lei Brasileira de Inclusão (LBI). Trata-se da Lei n. 13.146, aprovada em 6 de julho de 2015, institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência e aborda os diversos aspectos relacionados à inclusão das pessoas com deficiência (Brasil, 2015). Rocha e Oliveira (2022) descrevem que foi no ano 2000 que o texto da LBI foi apresentado, e até a sua aprovação final, um longo caminho de 15 anos foi trilhado num processo de construção coletiva do texto com a sociedade civil, dialogando com movimentos sociais tradicionais, favoráveis ao modelo biomédico e discurso da tutela bem como os movimentos ligados aos direitos humanos e modelo social. Sendo que, segundo os mesmos autores, as “disputas políticas e ideológicas para a publicação da LBI, em 2015, foram acirradas, pois, em jogo, estavam a vida de milhões de brasileiros com alguma deficiência (p. 2). É importante considerar que a LBI representa, sobretudo, uma conquista social e apresenta a pessoa com deficiência como um ser independente, autônomo, tendo as suas escolhas, não sendo reduzido a uma doença numa vertente clínica ou numa perspectiva meramente biomédica (Rocha; Oliveira, 2022). No primeiro capítulo da LBI, encontramos as disposições gerais com definições para os profissionais que atuam junto às pessoas com deficiência apresentados no quadro a seguir: 8 Quadro 1 – Definição de funções Profissional Definição Atendente pessoal Pessoa, membro ou não da família, que, com ou sem remuneração, assiste ou presta cuidados básicos e essenciais à pessoa com deficiência no exercício de suas atividades diárias, excluídas as técnicas ou os procedimentos identificados com profissões legalmente estabelecidas. Profissional de apoio escolar Pessoa que exerce atividades de alimentação, higiene e locomoção do estudante com deficiência e atua em todas as atividades escolares nas quais se fizer necessária, em todos os níveis e modalidades de ensino, em instituições públicas e privadas, excluídas as técnicas ou os procedimentos identificados com profissões legalmente estabelecidas. Acompanhante Aquele que acompanha a pessoa com deficiência, podendo ou não desempenhar as funções de atendente pessoal. Fonte: elaborado com base em Brasil, 2015. O capítulo IV da lei supra referenciada trata sobre a educação da pessoa com deficiência, com base na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência adotada pela ONU em 2006 (Brasil, 2007), garantindo-lhe o direito à educação inclusiva e de qualidade em todos os níveis e modalidade de ensino. Em relação ao acesso à educação, observamos que traz avanços importantes como em seu art. 28, parágrafo primeiro, a proibição de cobrança de valores adicionais de qualquer natureza nas mensalidades e matrículas em escolas particularespela implementação de recursos e serviços de acessibilidade para a aprendizagem (Brasil, 2015). No texto da LBI, temos em seu art. 28: §1º Às instituições privadas, de qualquer nível e modalidade de ensino, aplica-se obrigatoriamente o disposto nos incisos I, II, III, V, VII, VIII, IX, X, XI, XII, XIII, XIV, XV, XVI, XVII e XVIII do caput deste art., sendo vedada a cobrança de valores adicionais de qualquer natureza em suas mensalidades, anuidades e matrículas no cumprimento dessas determinações. A título de ilustração, vejamos, a seguir, alguns dos incisos do art. 28 sobre as incumbências do poder público – assegurar, criar, desenvolver, implementar, incentivar, acompanhar e avaliar: III – projeto pedagógico que institucionalize o atendimento educacional especializado, assim como os demais serviços e adaptações razoáveis, para atender às características dos estudantes com deficiência e garantir o seu pleno acesso ao currículo em condições de igualdade, promovendo a conquista e o exercício de sua autonomia; VII – planejamento de estudo de caso, de elaboração de plano de atendimento educacional especializado, de organização de recursos e serviços de acessibilidade e de disponibilização e usabilidade pedagógica de recursos de tecnologia assistiva; 9 XI – formação e disponibilização de professores para o atendimento educacional especializado, de tradutores e intérpretes da Libras, de guias intérpretes e de profissionais de apoio; XII – oferta de ensino da Libras, do Sistema Braille e de uso de recursos de tecnologia assistiva, de forma a ampliar habilidades funcionais dos estudantes, promovendo sua autonomia e participação. Para fins de aplicação da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, consideram-se os seguintes apontamentos: Apesar de a lei tornar obrigatório o aceite da matrícula de crianças com deficiência, os setores público e privado lidam diferentemente com as solicitações de pais no que tange ao cumprimento do que está na lei. Isso se refere não apenas às matrículas, mas também ao apoio especializado, em contraturno a que o aluno deve ter direito, mas igualmente em relação às atividades de apoio escolar e metodologias didáticas alternativas que precisam ser readequadas às especificidades do aluno com deficiência. Ainda, se somam a essas questões, o trabalho pedagógico da escola, que deve formar para o respeito à alteridade. (Miranda; Hashizume, 2020, p. 38-39) Assim sendo, não basta promovermos a socialização e integrarmos o alunado com deficiência no espaço físico da escola, é preciso romper com as barreiras que obstruem, limitam ou impedem a participação e o acesso ao conhecimento. Destacamos também o capítulo III que trata da Tecnologia Assistiva, em seu art. 74 afirma que é “garantido à pessoa com deficiência acesso a produtos, recursos, estratégias, práticas, processos, métodos e serviços de tecnologia assistiva que maximizem sua autonomia, mobilidade pessoal e qualidade de vida” (Brasil, 2015). TEMA 4 – EDUCAÇÃO ESPECIAL NA LEGISLAÇÃO Propomos uma incursão na legislação federal na área da educação de estudantes com deficiência. O nosso ponto de partida desta linha do tempo é o ano de 1988 com a promulgação da Constituição Federal (CF) conhecida também como constituição cidadã justamente “pelos avanços em direção à cidadania e à dignidade da pessoa humana, a sétima Carta da história do país deu voz à sociedade civil organizada e consolidou o Estado Democrático de Direito” (TSE, 2022). Inclusive garantiu direitos a grupos sociais até então discriminados, como a das pessoas com deficiência, que também participaram ativamente de sua construção (Gil, 2017). Nesta direção, Fernandes (2013) nos afirma que o final da década de 1980 foi um período em que os ideais da inclusão começaram a pairar sobre o contexto 10 brasileiro. Vejamos, a seguir, as principais leis e diretrizes nacionais para a implementação de políticas públicas relacionadas à Educação Especial (Brasil, 2008; Fernandes, 2013; Gil, 2017; Pernambuco, 2019). • Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n. 4.024/1961: deu suporte ao movimento pela integração de alunos com deficiência, sendo que “a educação de excepcionais” deve “no que for possível” ser praticada junto ao contexto comum de educação. • Lei n. 5.692/1971: segunda lei de diretrizes e bases educacionais do Brasil. Afirma que os alunos com “deficiências físicas ou mentais e os superdotados deverão receber tratamento especial”. Esta lei “não promove a organização de um sistema de ensino capaz de atender as necessidades educacionais especiais e acaba reforçando o encaminhamento de alunos para as classes e escolas especiais” (Brasil, 2008, p. 7). • Constituição Federal (CF) de 1988: no art. 205 a CF define a educação como um direito de todos e em seu art. 206, inciso I, estabelece como um de seus princípios, a igualdade de condições de acesso e permanência na escola. Por fim, garante que é dever do Estado oferecer o AEE (Atendimento Educacional Especializado) preferencialmente na rede regular de ensino. • Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069/1990): no capítulo IV, art. 54, inciso III estabelece o Atendimento Educacional Especializado para os “portadores de deficiência”, preferencialmente na rede regular de ensino. • Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n. 9.394/1996, em sua nova redação pela Lei n. 12.796, de 2013, afirma no capítulo V, art. 58: “entende-se por educação especial a modalidade de educação escolar oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação”. • Resolução CNE/CEB n. 2/2001: institui as diretrizes nacionais para a educação especial na educação básica, em todas as suas etapas e modalidades. Afirma que os sistemas de ensino devem matricular todos os alunos e cabe às escolas se organizarem para atender “educandos com necessidades educacionais especiais”. • Lei n. 10.436/2002: reconhece como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais (Libras), bem como a inclusão da 11 disciplina de Libras como parte integrante dos currículos nos cursos de formação de professores e de fonoaudiologia. • Decreto n. 6.094/2007: o documento dispõe sobre a implementação do Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação. Em seu art. 1º, inciso IX, destaca o acesso e a permanência de “pessoas com necessidades educacionais especiais” e reforça a inclusão educacional delas nas escolas públicas. • Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008): documento que apresenta as diretrizes para uma educação inclusiva em todos os níveis e modalidades de ensino, aborda o histórico do processo de inclusão no contexto brasileiro para nortear as “políticas públicas promotoras de uma Educação de qualidade para todos os alunos”. • Resolução CNE/CEB n. 4/2009: orienta o estabelecimento do atendimento educacional especializado na Educação Básica, que deve ocorrer no contraturno escolar, • Lei n. 12.764/2012: institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. • Lei n. 13.005/2014, Plano Nacional de Educação (PNE). A Meta 4 traz em sua redação universalizar, para estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, o acesso à educação básica e ao AEE preferencialmente na rede regular de ensino. Nesta última referência à Meta 4 do PNE (Brasil, 2014), que define as bases da política educacional nestes dez anos, Gil (2017) chama a atenção para o termo preferencialmente em relação ao atendimento educacional especializado para estudantes com deficiência o que contraria a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência, a Constituição Federal e o textovotado anteriormente à redação final desta meta: universalização da educação básica para todas as pessoas entre 4 e 17 anos em escolas comuns. Destacamos a análise sobre as alterações nas políticas educacionais direcionadas ao atendimento da pessoa com deficiência apontada por Raiol, Costa e Guimarães (2021): As disputas entre os favoráveis e contrários ao princípio de inclusão escolar acabam reforçando a impressão de que há uma política efetiva em curso e que o problema, agora, consiste em decidir em qual local os alunos serão escolarizados. Enquanto os lados se confrontam e o debate 12 se acirra, os principais problemas que estão relacionados à equidade e à qualidade permanecem à margem das soluções. (p. 14) Como vemos, a organização da Educação Especial no âmbito da legislação nos permite compreender a concepção desta modalidade de ensino e o seu público-alvo, bem como do processo histórico que balizam as reflexões sobre a natureza e as finalidades da educação especial. Nas palavras de Fernandes (2013, p. 148-149), “a construção de propostas pedagógicas inclusiva não se faz apenas por leis. Elas são decorrentes de mudanças estruturais da sociedade”. A título de conhecimento citamos o Decreto n. 10.502, de 30 de setembro de 2020, que trata sobre a criação de uma nova Política Nacional de Educação Especial: Equitativa, Inclusiva e com Aprendizado ao Longo da Vida, sendo a mesma suspensa por decisão liminar do ministro do Supremo Tribunal Federal (Brasil, 2020). O Decreto se tornou alvo de inúmeras críticas por parte de senadores e da sociedade civil que pediram sua revogação por seu conteúdo corroborar para um atendimento escolar segregador, revelando a perda de direitos conquistados em décadas de lutas por movimentos sociais e pelas pessoas com deficiência, ferindo os tratados internacionais incorporados no ordenamento jurídico brasileiro (Senado Notícias, 2020; AMPID, 2020). TEMA 5 – DOCUMENTOS INTERNACIONAIS De acordo Kassar, Rebelo e Oliveira (2019), o movimento que se fortalecia pela escolarização de estudantes com deficiência ganhou destaque no Brasil, por compromissos e acordos internacionais, com metas estabelecidas a partir da Jomtien, em 1990, e a de Nova Delhi sobre Educação para todos, em 1993. A Declaração de Jomtien (Unesco, 1990), proclamada na Conferência Mundial sobre Educação para Todos, na Tailândia, destacou os altos índices de crianças e adultos que não conseguem concluir a escolarização, o analfabetismo funcional que assola países industrializados ou em desenvolvimento. Diante desse contexto, reafirma que a educação é um direito de todos, favorecendo o desenvolvimento social, econômico e cultural, propôs transformações nos sistemas de ensino com o objetivo de assegurar o acesso à educação e promover a equidade. O Brasil, enquanto signatário do documento, “compromete-se com a erradicação do analfabetismo e a universalização do ensino fundamental em dez 13 anos, como metas oficializadas na Lei n. 10.172 de 9 de janeiro de 2001, que institui o Plano Nacional de Educação” (Fernandes, 2013, p. 81). A Declaração de Nova Delhi sobre Educação para Todos, em 1993, tem seu importante papel, juntamente com a Declaração de Jomtien, no processo histórico de consolidação de ações para eliminar disparidade de acesso à educação básica, melhoria de condições de trabalho do magistério e implementação de reformas dos sistemas educacionais em prol da educação para todos. O Brasil é signatário deste compromisso juntamente com Indonésia, China, Bangladesh, Egito, México, Nigéria, Paquistão e Índia (UNESCO, 1998). Além destes, temos em nossos documentos legais a influência da Declaração de Dakar, resultante da Cúpula Mundial de Educação realizada na cidade de Dakar, Senegal, em 2000. É também uma conferência organizada e publicada pela UNESCO (2001); aliando-se ao compromisso de uma “educação para todos” apoiada pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, ratificou a equidade e a qualidade na educação para a população em situação de vulnerabilidade. Como forma de ampliar a discussão sobre a educação para todos, realizou- se na cidade de Salamanca, Espanha, a Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais, onde foi elaborada a Declaração de Salamanca em 1994 para reforçar os encaminhamentos educativos visando à educação inclusiva. Para Breitenbach, Honnef e Costas (2016, p. 373), a proposta de educação inclusiva, pela Declaração de Salamanca, “em sua primeira tradução, implica na garantia de acesso, permanência e qualidade no ensino para as pessoas que, historicamente, ficaram fora da escola ou nela não aprenderam”. Na mesma direção, temos a Convenção de Guatemala, em 1999, transformada no Decreto n. 3.956/2001 reafirma que as pessoas com deficiência têm os mesmos direitos humanos e liberdades fundamentais, repudiando todas as formas de discriminação. Define discriminação como: Toda diferenciação, exclusão ou restrição baseada em deficiência, antecedente de deficiência, consequência de deficiência anterior ou percepção de deficiência presente ou passada que tenha o efeito ou propósito de impedir ou anular o reconhecimento, gozo ou exercício por parte das pessoas portadoras de deficiência de seus direitos humanos e suas liberdades fundamentais. (Brasil, 2001b) Com base no Decreto n. 6.949/2009 que ratifica a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência assinado em Nova York, em 30 de março de 2007 (Brasil, 2009), aprovada pela ONU em 2006 e o Brasil como um 14 dos países signatários, estabelece em seu art. 24 que os Estados Partes reconhecem o direito das pessoas com deficiência à educação garantindo-se, dentre outras medidas, que a educação de crianças cegas, surdocegas e surdas, seja ministrada nas línguas e nos modos e meios de comunicação mais adequados ao aluno e em ambientes que favoreçam ao máximo o desenvolvimento acadêmico e social, além de garantir um sistema de educação inclusiva em todos os níveis de ensino. Fundamentada no legado de Jomtien e Dakar, nasce a Declaração de Incheon. Em 2015, o Brasil participou do Fórum Mundial de Educação ocorrido na cidade de Incheon, na Coréia do Sul, assinando a “Declaração de Incheon. Educação 2030: rumo a uma educação de qualidade inclusiva e equitativa e à educação ao longo da vida para todos”, comprometendo-se com uma agenda conjunta por uma educação de qualidade e inclusiva, com ações inovadoras que se consubstanciou na Agenda Internacional 2030 (UNESCO, 2015). Raiol, Costa e Guimarães (2021) ressaltam que o termo ao longo da vida da referida declaração traz consigo a necessidade de formação para todas as pessoas, de todas as faixas etárias, modalidades de ensino a fim de atender ao interesse capital. 15 REFERÊNCIAS AMPID – Associação Nacional dos Membros do Ministério Público de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência e Idosos. Nota Técnica AMPID nº01/2020. Disponível em: <https://ampid.org.br/site2020/analise-do-decreto-no-10-502-de- 30-de-setembro-de-2020-que-institui-a-politica-nacional-de-educacao-especial- equitativa-inclusiva-e-com-aprendizado-ao-longo-da-vida-a-luz-dos- instrumentos-constit/>. Acesso em: 13 jan. 2023. BAPTISTA, C. R. 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