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CONSELHO EDITORIAL ACADÊMICO Luna Antunes Costa Monalisa Dias de Siqueira Cláudio Umpierre Carlan Cultura Acadêmica Editora Praça da Sé, 108 CEP 01001-900 – São Paulo, SP www.culturaacademica.com.br Semíramis Corsi Silva Flávia Regina Marquetti Pedro Paulo A. Funari organizadores MAGIA, ENCANTAMENTOS E FEITIÇARIA Copyright © 2023 organizadores CIP – Brasil. Catalogação na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ _____________________________________________ M194 Magia, encantamentos e feitiçaria/ organização Semíramis Corsi Silva ... [et al.]. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2023. 594 p.: il.; 16 x 23 cm. Vários autores. ISBN 978-65-5954-401-1 (DIGITAL) 1. Antiguidade Clássica. 2. Antropologia - História. 3. Diversidade Cultural. 4. Rituais. 5. Práticas mágicas. 6. Oráculos. I. Silva, Semíramis Corsi, 1982- II. Marquetti, Flávia Regina, 1960- III. Funari, Pedro Paulo Abreu, 1959 CDD 930 _____________________________________________ Índices para catálogo sistemático: Praça da Sé, 108 01001-900- São Paulo – SP Tel. (0xx11)3242-7171 Fax. (0xx11) 3242-7172 www.editoraunesp.com.br feu@editora.unesp.br SUMÁRIO Prefácio Ivan Esperança Rocha ------------------------------------------------------------------------1 Introdução Semíramis Corsi Silva, Flávia Regina Marquetti e Pedro Paulo A. Funari -----------5 Parte 1 Rituais, oráculos e objetos mágicos Amuletos Mágicos Mesopotâmicos: entre religião e arte Katia Maria Paim Pozzer -------------------------------------------------------------------21 Íynx: o feitiço de amor e a religião de Afrodite e Eros na iconografia dos vasos ápulos (séc. IV AEC) Fábio Vergara Cerqueira --------------------------------------------------------------------44 Feitiçaria e Alquimia na China Antiga André da Silva Bueno ----------------------------------------------------------------------93 Escravidão e adivinhação no Império Romano: uma aproximação a partir das Sortes Astrampsychi Filipe Noé da Silva ------------------------------------------------------------------------119 Magia como Fenômeno transcultural: Lição I – como fazer um anel mágico (Libro de Astromagia, séc. XIII) Aline Dias da Silveira ---------------------------------------------------------------------133 Pomadas, poções e unguentos: as reuniões secretas diabólicas em manuscritos Alpinos do século XV Lívia Guimarães Torquetti dos Santos --------------------------------------------------165 Magia, truque e feitiço: as muitas faces do encantamento na literatura oral de Ifá Rogério Athayde ---------------------------------------------------------------------------194 Raios e ventos: narrativas mágicas sobre Santa Bárbara e Iansã Debora Simões de Souza -----------------------------------------------------------------214 Mulheres encantadas e os lagos mágicos: as estatuetas femininas das estearias do Maranhão Alexandre Guida Navarro ----------------------------------------------------------------231 O uso da magia egípcia no ensino: os amuletos em sala de aula Raquel dos Santos Funari -----------------------------------------------------------------263 Parte 2 Magos, feiticeiras e suas práticas O Corpo encantado. Do mito aos contos maravilhosos Flávia Regina Marquetti ------------------------------------------------------------------287 Gênero e Magia em Roma: as feiticeiras Canídia e Ságana na Sátira I, 8 de Horácio Semíramis Corsi Silva ---------------------------------------------------------------------327 Maria, a mãe de Jesus, como uma maga: gênero, poder e magia entre os primeiros cristãos Juliana Batista Cavalcanti ----------------------------------------------------------------361 As tabellae defixionum de Nomento, no Lácio (I AEC – I EC): um estudo de caso sobre as inscrições e os lugares de depósito Carlos Eduardo da Costa Campos -------------------------------------------------------376 Sem perdão: em busca de justiça (ou vingança?) usando defixiones na antiga Mogontiacum (Mainz) Renata Cazarini de Freitas ----------------------------------------------------------------398 Druidismo e Magia: Rituais Sagrados entre os Celtas Silvana Trombetta -------------------------------------------------------------------------434 Barrados no baile. A Península Ibérica e a festa das bruxas Carlos Roberto Figueiredo Nogueira ----------------------------------------------------466 “Essa é a mais perfeita e principal ciência, a mais sagrada e sublime espécie de filosofia”: reflexões sobre as relações entre magia e scientia nos renascimentos dos séculos XV-XVI Francisco de Paula Souza de Mendonça Júnior ----------------------------------------501 O Catimbó Nordestino Sandro Guimarães de Salles --------------------------------------------------------------534 “Evoé”: do delírio dionisíaco em Eurípides à macumba antropofágica na obra Bacantes do Teatro Oficina Dolores Puga -------------------------------------------------------------------------------559 Prefácio Ivan Esperança Rocha 1 Toda a rica discussão apresentada nesse livro envolve os processos de encantamento, desencantamento do mundo e suas diversas abordagens religiosas, filosóficas, antropológicas e sociológicas, indicando suas imbricações no passado e permanências no presente, inclusive no Brasil. O berço natural do encantamento do mundo pode ser identificado nas sociedades primitivas, onde a relação dos indivíduos com forças indômitas instigou o uso de ritos mágicos em seu enfrentamento. A preocupação com a saúde das pessoas e dos animais, com a fertilidade dos campos e dos rebanhos, com o enfrentamento das adversidades climáticas e de vários outros obstáculos conduziu naturalmente num primeiro momento, ao exercício de práticas mágicas que, se por um lado, têm traços comuns a diferentes sociedades, também apresentam nuanças que as distinguem no tempo e no espaço, como visto nas culturas mesopotâmica, chinesa, romana, grega, judaica, dentre outras. Mesmo quando o movimento da “revolução urbana” exigiu o desenvolvimento de tecnologias para responder aos novos desafios sociais, políticos, administrativos, arquitetônicos, militares e diplomáticos, a magia, aliada ou não à religião, foi um caminho Possui doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo e livre 1 docência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/Assis). Atualmente é Professor Doutor da Universidade Estadual Paulista (UNESP/Assis). É co- coordenador do Núcleo de Estudos Antigos e Medievais da UNESP (NEAM). Foi cofundador da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR). De 2007 a 2011 foi vice-diretor e de 2011 a 2015 foi diretor da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP/Assis. Presidente do Conselho Curador da VUNESP de 2017 a 2022. concomitante percorrido em busca de soluções. No entanto, quando as práticas mágicas começaram a contradizer as expectativas dos indivíduos, bem como das instituições políticas e religiosas, elas começam a encontrar oposição formal e informal. Neste livro, os autores tratam da presença da magia, do encantamento e da feitiçaria ao longo da história e discutem as diversas abordagens que foram feitas sobre o tema desde a Antiguidade, passando pelos mundos oriental, grego, romano e cristão, com uma ênfase no avivamento das discussões pautadas pelo racionalismo iluminista, que por algum momento assumiu o papel de responsável pelo desencantamento do mundo e combateu não apenas a religião, mas outras formas de expressão mística consideradas “irracionais” e até doentias. Os autores transitam com maestria nas obras de importantes autores que se debruçaram sobre o tema, como James Frazer que traça a partir de uma perspectiva evolucionista uma trajetória que começa na magia, passando pela religião e que culmina na ciência, e Webere Nietzsche, que propõem um desencantamento do mundo que inclui o declínio das crenças mágicas e a dessacralização das atitudes humanas. Entende-se, no entanto, que este alinhamento teórico se distancia da realidade em que magia, religião e ciência não se excluem mutuamente. O movimento de banimento da magia inclui também tudo aquilo que se contrapõe ao instituído, ao estabelecido, a um status quo. O preconceito e a marginalização aumentam principalmente quando a magia, o encantamento e a feitiçaria são associados à ação de mulheres, minorias ou grupos subalternos, como visto claramente na Inquisição, mas ainda hoje manifestos. Há, portanto, uma longa e complexa história da magia e temas relacionados que identificam os responsáveis pela sistematização teórica mais densa do assunto nos primeiros autores cristãos. Justino, já no século II EC inicia uma forte polêmica entre a vida cristã e o paganismo, enfatizando as diferenças entre os milagres de Cristo e as práticas mágicas consideradas demoníacas, como as dos gnósticos Simão e Menandro da Samaria. Segundo este último, a gnose ajudava a entender e controlar as forças da natureza. Em consonância com Justino, Orígenes e Agostinho também se opõem às práticas mágicas. Entre os fundamentos bíblicos que sustentavam ideias sobre a magia está o episódio das pragas do Egito, em que a ação de Moisés se confronta com as dos magos da corte do Faraó no longo relato de Êxodo 8-11. Na Idade Média, surge uma distinção entre certas magias de índole natural, expressas por exemplo no exorcismo cristão, e magias consideradas demoníacas, o que levará a reavivar a sua incriminação pela Igreja a par da heresia e da bruxaria, responsáveis por alterações climáticas, econômicas e sociais. Magos, hereges e bruxas – no compasso da Reforma Protestante, sofreriam forte repressão, juntamente com judeus e outros grupos minoritários sendo demonizados e perseguidos, como registrado no Malleus Maleficarum, ou O Martelo das Bruxas, que definia as estratégias de combate à magia agora centrada na figura das bruxas, embora o Malleus fosse criticado pela própria Igreja por exageros e heterodoxias. Este trabalho mostra a presença abundante do tema da magia na literatura, no teatro, no cinema e nos quadrinhos, o que mostra o apelo que ainda desperta na sociedade atual, como é o caso dos livros de Harry Potter traduzidos para o cinema e para o teatro, que apresentam um embate entre práticas de bruxaria que mantêm a oposição entre o “mundo das luzes” e o “mundo das trevas”. A cultura material que emerge das escavações traz à luz elementos ligados ao mundo mágico antigo, como é o caso dos amuletos muito difundidos na Mesopotâmia e no Egito, prescritos para superar problemas nas mais variadas situações da vida quotidiana envolvendo todas as camadas sociais, e que se somam aos textos de encantamentos e fórmulas mágicas em várias línguas como a suméria, acádica e elamita. A Cabala judaica iria incorporar também muitos aspectos dos amuletos. O tema do encantamento e desencantamento do mundo tem sido associado a um movimento de reencantamento, que rompe com uma visão objetiva e causal do mundo, mas que ao mesmo tempo é interpretado como derivado da ciência e da tecnologia. Finalmente, é preciso dizer que esta coletânea reúne contribuições de importantes pesquisadores em discussões que têm levado a acalorados questionamentos e a buscas de alternativas para um mundo positivista e mecanicista que vê a ideia de progresso contínuo contraposta a fortes retrocessos em diversas frentes. Ao final da leitura, sentimos que, apesar da ampla discussão realizada pelos autores, ainda há espaços a serem explorados como a forma com que o islamismo se relaciona com a magia, ou a serem ampliados como a maneira com que as crenças e visões de mundo colonialistas marcaram sua relação com as comunidades indígenas. Introdução Semíramis Corsi Silva, Flávia Regina Marquetti e Pedro Paulo A. Funari Desde a Antiguidade Clássica, escritores tentam definir o que é magia. Plínio, o Velho, escritor e oficial romano, já identificava a magia como a arte composta pela medicina, religião e astrologia (História Natural, XXX, 11). Lembrando que a medicina, em sua origem grega, era associada à religião, possuindo diversas práticas e ritos, e oficializada nos santuários de Asclépio. Segundo Hubert (1887, p. 1494-1945), a palavra magia tem emprego variável, podendo indicar a ocupação e a religião dos magos ou dos sacerdotes da seita de Zoroastro. Mas a essa magia se opõe, geralmente, à pharmakeia, ciência das plantas maravilhosas, da astrologia, da alquimia e da adivinhação, e à goeteia, caracterizada pela prestidigitação e necromancia, ou mesmo associada às carpideiras (HUBERT, 1904, p. 1494). Foi a partir do Império Romano que os ritos e as práticas divergentes da religião oficial passaram a ser associados às práticas maléficas e tornam-se ilegais (HUBERT, 1904, p. 1500). O Dicionário Aurélio (1986, p. 1064) traz dentre as suas definições três que nos interessam: 1. de arte ou ciência oculta com que se pretende produzir, por meio de certo atos e palavras, e por interferência de espíritos, gênios e demônios, efeitos e fenômenos extraordinários, contrários às leis naturais. 2. Religião ou doutrina dos magos. 3. Sociol. Instituição baseada na crença da força sobrenatural, regulada pela tradição, e constituída de práticas, ritos e cerimônias em que se apela para as forças ocultas e se procura alcançar o domínio do homem sobre a natureza. A magia corresponde assim à tentativa de alterar uma ordem estabelecida e tida como natural por meio de ações ou agentes que operam em segredo. O aspecto maravilhoso, improvável e a incompreensibilidade são características das visões sobre tais práticas. Se observarmos a definição de milagre na religião dada pelo Dicionário Aurélio (1986, p. 1133), vemos que é “qualquer manifestação da presença ativa de Deus na história humana, ou sinal dessa presença, caracterizado sobretudo por uma alteração repentina e insólita dos determinismos naturais.” Grosso modo, o que difere a mágica dos milagres religiosos aceitos como presença ou sinal de Deus é ela estar fora dos cultos e religiões oficiais, regrados pelo Estado e pela sociedade de forma mais ampla. A magia assume contornos negativos ao longo dos séculos em um longo caminho de demonização do conhecimento e cura pelas ervas, dos ciclos da terra e, mesmo de saberes superiores que possibilitavam a compreensão das leis do universo, há uma aversão ao que é diferente, ao que não participa do mesmo grupo sócio-político- religioso. O desejo de poder e manutenção do status quo fez surgir nas sociedades, por meio de manipulação, o medo de culturas, conhecimentos, visões de mundo e religiões díspares, levando ao ataque a todo aquele que se encontra fora dos padrões adotados como naturais ou normais pelo seu grupo. Sabendo disso, este livro surge de uma inquietação: a bruxa continua a assustar. O uso espontâneo da expressão corrente “ela é uma bruxa” demonstra a persistência no imaginário do medo irracional. Esse sentimento de medo irracional pode levar e tem levado, ao longo do tempo, à estigmatização e mesmo a destruição do diferente. Teme-se o diferente dotado de poderes sobrenaturais que nos podem afetar. Esses sentimentos estão presentes em sociedades as mais diversas, em todos os continentes e em diferentes épocas, culturas e momentos. A morte de pessoas acusadas de bruxaria e que prejudicariam os outros é atestada em toda parte. Isso se aplica às sociedades atuais, em meio à difusão de que grupos ou indivíduos, por seu comportamento ou convicções, têm o poder de prejudicar os outros, o que chega a justificar a violência e até mesmo a sua destruição. Um exemplo brasileiro recente foi o famoso caso dasBruxas de Guaratuba, divulgado em diferentes mídias, resultando em um longo Podcast de 2018, em uma série de 2021 do canal de streaming Globoplay e nos livros O Caso Evandro: Sete acusados, duas polícias, o corpo e uma trama diabólica (2021) e Malleus: relatos de tortura, injustiça e erro judiciário (2021). Tratou-se da acusação do brutal assassinato de uma criança, ocorrido em 1992, contra um grupo de sete pessoas, tendo duas mulheres, as chamadas Bruxas da cidade de Guaratuba/PR, como principais mandantes e acusadas pelo crime. Após sentenciados e presos por anos, em um processo que envolveu a opinião pública em torno do tema da bruxaria e o preconceito contra práticas de matriz africana no Brasil, foi descoberto que os acusados confessaram sob tortura. Tal processo é o mais longo júri da história da justiça brasileira. Em janeiro de 2022, as duas mulheres condenadas receberam, por parte do estado do Paraná, um pedido de desculpas pelas torturas e erros processuais. Esse caso atesta como ainda permanecem vivas antigas crenças de bruxas assassinando crianças a fim de realizar seus rituais, presentes já em uma literatura bem remota, como em Horácio (Epodo 5) e Lucano (Farsália, VI, 558-559). Além disso, o caso de Guaratuba mostra como, no Brasil, o imaginário negativo em torno da magia se ressignifica cruzado com o preconceito contra as religiosidades afro-brasileiras. Sociedades ou grupos humanos auto definidos como agnósticos ou ateus não deixam de apresentar a crença em poderes ocultos de pessoas para prejudicar os outros. Esse tipo de sentimento tem sido acentuado no ambiente virtual tão propício ao medo conspiratório. A inquietação induziu-nos à reflexão, a pensar nos múltiplos e contraditórios aspectos da bruxaria em suas manifestações, narrativas e percepções. Há uma grande diversidade de aspectos sobre o tema, a começar por sua associação às mulheres, a tal ponto que chega a haver títulos hilários como: Na Rússia ortodoxa, as bruxas eram homens (https://zap.aeiou.pt/russia-ortodoxa-bruxas-homens-487307). “A bruxas eram homens”, não eram bruxos! Isso mostra tanto que há um viés de gênero, quanto sua delimitação cultural e histórica. Há bruxos também, claro. Além disso, a bruxaria não precisa ser ameaça, pode ser a favor do bem dos outros, às vezes chamada de “magia branca”, o que remete a uma oposição entre negro/negativo e branco/positivo. Negro não se refere, neste caso, à cor da pele, mas à dificuldade de enxergar o perigo, e branco à luz que tudo esclarece, mas não muda o uso racista de branco e negro aplicado à magia. Tudo isso inquieta-nos e pareceu-nos apropriado e importante juntar um grupo de estudiosas e estudiosos que pudessem refletir sobre os diversos e contraditórios aspectos da bruxaria ou da mágica, em diferentes culturas e épocas, a partir de diversas disciplinas acadêmicas, mas também tendo em vista a repercussão social do tema hoje no mundo e no Brasil, em particular. Convém tratar um pouco sobre como a magia/bruxaria foi (mal)dita pela ciência acadêmica, em busca da objetividade e da isenção. As últimas perseguições ou caça às bruxas oficiais ou sancionadas pelas instituições, na Europa, ocorreram no século XVIII. Isso já indica como o racionalismo iluminista foi marcante para a substituição da estigmatização religiosa e institucional pela moderna classificação cientificista da bruxaria como forma de perturbação mental. O filósofo Michel Foucault trata bem dessa passagem de uma sociedade moderna ocidental fundada no que chamou de poder soberano para o poder disciplinar (MUHLE, 2002/2003). Este funda- se na razão, na classificação e controle. Ainda que a bruxaria continue a ser praticada em toda parte, inclusive na Europa, a razão iluminista viria a moldar o estudo acadêmico do tema por longo tempo. Prevaleceu uma contraposição entre religião e magia, ambas consideradas irracionais e ilusórias, mas diferenciadas de algo superior: a institucionalização da religião frente à atomização da bruxaria. Também, e como consequência, a religião pôde ser interpretada como normativa e estabilizadora das relações sociais, à diferença da bruxaria e sua função destrutiva da ordem. Havia, ainda, uma percepção imperialista e colonialista, para opor a religião institucional, se possível ocidental, mas não só, frente às práticas de indígenas africanas, americanas, asiáticas ou da Oceania. Napoleão apresentou-se como defensor do Islã, no Egito, pelo princípio prático de uma religião institucionalizada, qualquer uma, a favorecer o domínio (SPILLMAN, 1969). A magia fugia do controle. Napoleão defendia a religião institucionalizada, frente ao descontrole da magia. Edward Burnett Tylor (2012) em seu Cultura Primitiva (1871) teorizava a magia como perniciosa ilusão. James Frazer (1890), no seu O Ramo Dourado (1890) estabelecia uma ordem em uma visão evolucionista, da magia, para a religião, culminando na ciência. Os primeiros sociólogos e antropólogos, como Durkheim (2003) (As formas elementares da vida religiosa, 1912), Radcliffe Brown e Malinowski enfatizaram as funções sociais das práticas mágicas (HOMANS, 1941), com Evans-Pritchard (2013) completando com a inclusão da magia no âmbito da religião e na cultura. Max Weber (1919) chegou a propor um desencantamento (Entzauberung) do mundo, um declínio das crenças mágicas, frente à racionalização da modernidade ocidental. O conceito agenciado por Weber é Zauber, relacionado com a noção de poder, dýnamis, daí mágica, encanto, força superior. Até hoje, esse conceito weberiano de uma modernidade desencantada tem gerado muita discussão. Como quer que seja, as ciências sociais foram as grandes animadoras do estudo do tema, que tardaria mais a chegar à História, Filologia, Filosofia ou Arqueologia, sempre com grande influxo da teoria social proveniente da Antropologia, da Sociologia e mesmo da Ciência Política. Alguns momentos históricos mereceram particular atenção, com destaque para a modernidade, quando os ambientes católicos e protestantes perseguiram as bruxas (e os bruxos), aquelas pessoas todas acusadas de bruxaria. Pouco a pouco, ampliou-se esse interesse para outras épocas e culturas, da Sibéria e o seu xamanismo à África, Ásia, América, do presente ao passado pré-histórico mais recuado. Há, pois, muitos desafios ao tentar pensar sobre a inquietação mencionada logo de início. São diferentes disciplinas, diversas temporalidades e culturas, uma diversidade de perspectivas, o que mostra bem, a nosso juízo, a fertilidade e relevância do tema. A começar pelo fato de que a perseguição hoje, aqui e em muitas partes do mundo, continua a apresentar-se como uma caça às bruxas, às vezes com o uso aberto e explícito desse termo, outras vezes não, mas sem deixar de usar os mesmos conceitos. O adversário ou inimigo (satan, em hebraico, é o obstáculo, o advogado do diabo, aquele encarregado de apresentar um obstáculo, aproximado do persa Angra Mainyu, ou Espírito Destrutivo) é apresentado como manipulador de forças sobrenaturais para prejudicar os outros. Por isso, deve ser eliminado. Essas bruxas podem ser as de Salem, os judeus, os comunistas, os pequenos agricultores (kulaks), os praticantes de Umbanda e de Candomblés, entre tantos outros. Este volume insere-se neste contexto acadêmico e social de estudo e reflexão sobre estes e outros tantos aspectos da magia. Nossa reflexão parte, assim, tanto em termos de representações, como também de práticas. Os vinte capítulos que compõem este volume estão reunidos em dois grandes grupos: “Rituais, oráculos e objetos mágicos” e “Magos, feiticeiras e suas práticas”, buscando, desta forma, congregar discussões que se complementam, apesar de abordarem culturas e períodos divergentes. Abrindo o primeiro bloco de textos, em Amuletos Mágicos Mesopotâmicos: entre religiãoe arte, Katia Maria Paim Pozzer analisa o amuleto conhecido como a “Placa dos Infernos”, objeto artístico-mágico-religioso de grande excepcionalidade que pertence às práticas religiosas no mundo mesopotâmico. A “Placa dos Infernos” é uma placa em bronze fundido e esculpido, com duas faces e uma complexa iconografia, associando, em um único amuleto, as entidades demoníacas antagônicas Lamaštu e Pazuzu. Abordando a Íynx, instrumento mágico, Fábio Vergara Cerqueira nos brinda com um texto sobre essa pequena roda, por vezes adornada de pássaros, usada em rituais propiciatórios ao amor. Em Íynx: o feitiço de amor e a religião de Afrodite e Eros na iconografia dos vasos ápulos (séc. IV AEC), o autor analisa a iconografia encontrada no período e de como o objeto seria utilizado tanto por prostitutas quanto por jovens nubentes para propiciar os dons de Afrodite. André da Silva Bueno apresenta um tema pouco conhecido do público: Feitiçaria e Alquimia na China Antiga. Segundo o autor, a feitiçaria é indissociável da história chinesa desde suas origens. Os termos “feitiçaria”, “magia” e “bruxaria” são usados de forma sinonímica, na China, para designar as tradições mágico-xamânicas herdadas e desenvolvidas desde o neolítico, e que continuam a acompanhar a sociedade até os dias de hoje. No capítulo Escravidão e adivinhação no Império Romano: Uma aproximação a partir das Sortes Astrampsychi, Filipe Noé da Silva examina as Sortes de Astrampsico, um texto oracular composto por 91 perguntas (elencadas entre os números 12 e 103) e 103 dezenas de respostas, com o intuito de compreender os interesses associados à consulta oracular realizada por pessoas escravizadas. Já Aline Dias da Silveira brinda-nos com uma lição sobre como fazer um anel mágico, ensinamento que se encontra no Libro de Astromagia, século XIII. Produzido durante o reinado de Afonso X, de Castela e Leão, o Libro de Astromagia também é um livro de imagens, entendidas como talismãs, e esta é a função do anel de Mercúrio analisado neste capítulo intitulado Magia como Fenômeno transcultural: Lição I – como fazer um anel mágico (Libro de Astromagia, séc. XIII). Passando do século XIII para o XV, o capítulo Pomadas, poções e unguentos: as reuniões secretas diabólicas em manuscritos Alpinos do século XV, de Lívia Guimarães Torquetti dos Santos, aborda os relatos oriundos de diversos julgamentos sobre os sabás e feitiçaria, nos quais indivíduos são transportados pelos ares com a ajuda de pomadas e unguentos. Em um texto repleto de encantamento, Rogério Athayde nos oferece uma visão sobre a literatura oral de Ifá em Magia, truque e feitiço: as muitas faces do encantamento na literatura oral de Ifá. Segundo o autor, são muitas as coisas que encontramos em Ifá: (i) Ifá é outro nome de Orunmilá, a divindade iorubana da inteligência, do conhecimento e da sabedoria; (ii) Ifá é igualmente o sistema de divinação, organizado a partir de 256 Odu, ou “livros volumosos”; (iii) Ifá é o corpo literário, onde podem ser encontradas as histórias e o conhecimento ancestral dos iorubás; (iv) Ifá é a medicina tradicional, o conhecimento do herbário iorubano; (v) Ifá são os poemas, os esé Ifá, que os sacerdotes da religião são treinados a recitar longamente; (vi) Ifá, por fim, é também a capacidade de proferir “palavras de poder”, os ofó, encantamentos que assegurem a efetiva realização dos rituais sagrados. Em Raios e ventos: narrativas mágicas sobre Santa Bárbara e Iansã, Debora Simões de Souza, utilizando a metodologia da observação participante, analisa um conjunto de narrativas mágicas e míticas que contêm possíveis acontecimentos da vida de Santa Bárbara e Iansã, feitas por devotas da santa e da orixá, moradoras de Salvador, na Bahia. Na leitura proposta pela pesquisadora, as narrativas sobre a vida de Santa Bárbara e da orixá Iansã são forças, ou seja, são expressões que se configuram como elementos da magia. Com Alexandre Guida Navarro descortinamos o universo das Mulheres encantadas e dos lagos mágicos presentes nas estatuetas femininas das estearias do Maranhão. Fruto de seus últimos trabalhos de campo nas estearias maranhenses, o autor discute as diferentes possibilidades de interpretação sobre as estatuetas à luz das teorias arqueológicas e etnológicas das Terras Baixas da América do Sul, como, por exemplo, o xamanismo. Fechando o primeiro grupo de textos, Raquel dos Santos Funari nos oferece um material didático sobre como trabalhar O uso da magia egípcia no ensino: os amuletos em sala de aula. A partir do conceito de inventário das diferenças, a autora explora a particularidade dos amuletos egípcios antigos e as diferenças com o mundo contemporâneo, abordando, a partir deles, conceitos como historicidade e diversidade. O segundo grupo de capítulos, “Magos, feiticeiras e suas práticas”, principia com o texto O corpo encantado. Do mito aos contos maravilhosos, de Flávia Marquetti, que faz um levantamento, desde a Antiguidade Clássica até o século XIX, da imagem de magos, feiticeiras e do espaço que ocupam na sociedade. Correlacionando informações históricas e antropológicas ao imaginário e à tradição literária sobre as bruxas. Na sequência, Semíramis Corsi Silva discute, em Gênero e Magia em Roma: as feiticeiras Canídia e Ságana na Sátira I, 8 de Horácio, a criação literária das primeiras feiticeiras de Roma e, consequentemente, personagens de grande valor para nossa percepção de elementos de gênero na criação do estereótipo da mulher praticante de magia. Horácio é considerado o poeta romano que mais escreveu sobre o tema da magia, sendo Canídia e Ságana personagens literárias que contribuíram para o desenvolvimento de um imaginário sobre a magia, mais especificamente sobre a mulher feiticeira, que acabou ultrapassando as fronteiras do antigo Império Romano, constituindo-se como um protótipo da bruxa velha e má. Juliana Batista Cavalcanti aborda um tema pouco difundido e de grande interesse: Maria, a mãe de Jesus, como uma maga: gênero, poder e magia entre os primeiros cristãos. A partir da coleção de treze códices contendo cinquenta e dois textos diferentes, todos escritos em copta, oriundos da Biblioteca de Nag Hammadi, a autora explora como Maria, a mãe de Jesus, personifica um dos três pares místicos presentes na gnose valentiniana, carregando consigo mistérios ou conhecimentos que estão disponíveis apenas aos iniciados por meio de rituais como o batismo, a ceia, a câmara nupcial e a unção. Carlos Eduardo da Costa Campos e Renata Cazarini de Freitas abordam em seus respectivos capítulos as defixiones, textos de conteúdo mágico, geralmente contendo maldições que eram escritas em tábuas ou folhas de chumbo gravadas com incisões, do período romano. Em As tabellae defixionum do Lácio (I AEC – II EC): uma análise sobre os lugares de depósito, Carlos Eduardo da Costa Campos mostra-nos os caminhos percorridos pelas inscrições presentes nas áreas portuárias de Óstia e Minturno, assim como nas Vias Ostiense, Ápia e Nomentana. A análise dos locais de depósitos das defixiones indicam áreas de vinculação de forças energéticas que eram consideradas capazes de transportar a solicitação materializada na placa de maldição aos deuses ou espíritos, de modo a conectar os agentes da magia. Renata Cazarini de Freitas em Sem perdão: em busca de justiça (ou vingança?) usando defixiones na antiga Mogontiacum (Mainz), traduz e analisa seis placas encontradas em Mainz, estas evocam a figura dos sacerdotes de Cibele (Mater Magna) conhecidos como galli, que se castravam em rituais delirantes. Outros elementos compositivos do repertório das defixiones de Mainz são a punição com morte em espaço público e a impossibilidade de redimir-se pelo crime cometido em um santuário murado. Em Druidismo e Magia: rituais sagradosentre os celtas, Silvana Trombetta analisa como eram feitas as predições do futuro pelos druidas, realizadas através da leitura de vísceras de animais sacrificados, voos de pássaros, utilização de plantas alucinógenas e uso de objetos especificamente confeccionados para tal fim, como as runas ou as colheres divinatórias. Essas práticas eram comumente utilizadas entre os povos germânicos e escandinavos e seu uso associava-se às práticas de cura. Em Barrados no baile. A Península Ibérica e a festa das bruxas, de Carlos Roberto Figueiredo Nogueira, o foco são os sabbats e as crenças do final da Idade Média e início dos tempos modernos na Espanha, quando todas as crenças que dão vida e solidez à existência da bruxaria europeia inexistem ou estão deformadas. Em sua análise, o autor estabelece a correlação entre bruxaria, grupos estrangeiros e culturas diferentes das autóctones. Francisco de Paula Souza de Mendonça Júnior nos brinda, em seu texto “Essa é a mais perfeita e principal ciência, a mais sagrada e sublime espécie de filosofia”: reflexões sobre as relações entre magia e scientia nos renascimentos dos séculos XV-XVI, com a discussão sobre as fronteiras entre religião, magia e ciência, apresentando o quanto essa relação não é tão linear como geralmente alguns teóricos apresentam. Com grande embasamento teórico, o autor faz um extenso levantamento do pensamento sobre magia e alquimia no Renascimento, demonstrando que a habilidade técnica era semelhante à potência mágica no esforço de criação de maravilhas, ambas tinham como objetivo compreender e direcionar as relações simpáticas que moviam o mundo a fim de energizar seus próprios projetos. Em O catimbó nordestino, Sandro Guimarães de Salles discute o Catimbó, uma das primeiras manifestações da prática da Jurema em contextos não indígenas, e que ainda se mantém como uma das principais referências no cenário das religiões populares nordestina. Sandro explica que a Jurema, cujo nome deriva de uma planta de igual nome, consiste em um complexo semiótico e religioso, com origem nos povos indígenas no Nordeste, fundamentado no culto a entidades denominadas de mestres, caboclos ou reis. As imagens e os símbolos presentes nesse complexo remetem a um lugar sagrado, descrito pelos juremeiros como “reino encantado”, “encantos”, “cidades da Jurema”, entre outros. A planta de cujas raízes ou cascas se produz a bebida tradicionalmente consumida durante as sessões é o símbolo maior do culto. É ela a “cidade” do mestre, sua “ciência”, simbolizando ao mesmo tempo morte e renascimento. O Catimbó e a prática da Jurema entre os povos indígenas (do período colonial à contemporaneidade) expressam uma resistência à colonialidade, segundo o autor. Fechando o segundo bloco de textos, Dolores Puga nos traz para o contemporâneo e o universo da arte com “Evoé”: do delírio dionisíaco em Eurípides à macumba antropofágica na obra Bacantes do Teatro Oficina. Discorrendo sobre os ritos dionisíacos, thiasos, e as tragédias gregas, sobretudo As Bacantes, de Eurípedes, Puga apresenta o lado estrangeiro do mito/rito e de como ele chega ao Brasil atual com o Grupo Oficina. O grupo do diretor Zé Celso Martinez Corrêa construiu um vínculo de identificação sustentado pelo viés de práticas culturais julgadas, como as religiosidades africanas e afro-brasileiras, bem como os rituais Tupinambás. O exercício de apropriação cultural, Grécia/Brasil, apontado pela autora, dialoga com vários textos presentes na coletânea, ao apontarem a xenofobia e o desprezo por culturas diferentes como mote para a feitiçaria, compreendida grosso modo como coisa do demônio. Este livro traz contribuições brasileiras ao tema, com textos de pesquisadores e pesquisadoras nacionais. Esperamos, com isso, desvendar algumas questões ligadas à magia e revelar que o correto seria falarmos de atos mágicos e não de uma magia única, uma vez que essas práticas existem em diferentes sistemas culturais e compõem a trama de suas sociedades. Semíramis Corsi Silva Flávia Regina Marquetti Pedro Paulo A. Funari Referências Documentação HORACE. Odes and Epodes. Edited and Translated by Niall Rudd. Cambridge/London: Harvard University Press, 2004 (Loeb Classical Library). LUCAN. The Civil War (Pharsalia). Translated by J. D. Duff. Cambridge/London: Harvard University Press, 1928 (Loeb Classical Library). PLINIO. 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A crença em forças sobrenaturais que regiam a vida humana se expressou em inúmeras preces e rituais mágicos. Eles eram executados por especialistas, com o auxílio de amuletos que adquiriam propriedades apotropaicas graças a enunciação de encantamentos e a realização de gestos ritualísticos. Neste capítulo propomos analisar um objeto artístico-mágico-religioso de grande excepcionalidade, o amuleto conhecido como a “Placa dos Infernos” (ENGLER; STANBERG, 2020). Introdução A configuração política baseada nas cidades-Estado mesopotâmicas contribuiu para a formação de concepções religiosas múltiplas, com inúmeros divindades. Cada cidade-estado possuía uma divindade protetora e um panteão próprio, onde a sucessão no poder e as características espirituais dessas divindades se alteravam ao longo Bacharel e licenciada em História pela UFRGS, obteve Diplôme d'Études 1 Approfondies em Histoire et Civilisations de L'Antiquité pela Université Paris I (Panthéon-Sorbonne) em 1993, concluiu doutorado em História na Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne) em 1996 e Pós-doutorado na Université de Paris X - Nanterre em 2011. Atualmente é Professora Adjunta do Curso de História da Arte, no Instituto de Artes e do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Katia Maria Paim Pozzer do tempo (POZZER, 2008). Segundo o imaginário mesopotâmico, essas divindades estavam divididas em dois grupos: as que habitavam os céus e aquelas que residiamno mundo inferior, também chamado de infernos. O primeiro grupo era formado por deuses responsáveis pelos acontecimentos na vida terrena dos homens. Já o segundo grupo era composto por entidades de categoria inferior, que ali se encontravam como punição por terem infringido regras morais e éticas que regiam a vida divina e que eram o espelho para o comportamento humano. Segundo essa concepção, o mundo inferior também era a morada definitiva dos mortos, um lugar do qual ninguém poderia sair. Na antiga Mesopotâmia, a magia fazia parte da vida cotidiana. Ela era usada para proteção contra os demônios, curar doenças, aumentar a potência sexual, conquistar a paixão de alguém, acalmar o choro das crianças, impedir os malefícios oriundos das atividades de divindades demoníacas, além de muitas outras funções. Assim, eles acreditavam que o gesto e a palavra possuíam capacidade de intervenção no meio natural que o cercava através da magia. Os conjuros repousavam na força da palavra, uma vez que na tradição semita, o verbo era criador. Assim, a enunciação de um bem ou de um mal era suficiente para garantir sua gênese. Já os ritos manuais tinham sua origem no poder do gesto, na capacidade destrutiva ou transformadora de diversos produtos naturais ou elementos primordiais como a água e o fogo (POZZER, 2017). 22 Amuletos Mágicos Mesopotâmicos Muitos dos textos preservados são encantamentos e fórmulas mágicas nas línguas suméria, acádica, elamita, entre outras, que descrevem rituais dirigidos ao mago, as ações que ele deveria fazer, as listas dos encantamentos a serem usados para cada caso, o que deveria ser dito por ele ou pelo paciente, e os amuletos contendo excertos de magia. Os encantamentos eram ritos orais complementares às operações e gestos mágico-religiosos, realizados para combater o mal que os afligia. Estes textos eram recitados por técnicos em curandeirismo e magia, os exorcistas, āšipu , encarregados também de 2 levar a cabo as ações ritualísticas mágicas que poderiam ser feitas em domicílios privados ou no templo e receitar os ingredientes e os fármacos (JOANNÈS, 2000, p. 43). O propósito do ritual mágico era revogar o sofrimento que impedia o bem-estar e o desfrute normal da vida concedida a cada um. E eles eram executados com o auxílio de amuletos de caráter apotropaico (BOTTÉRO, 1987-1990, p. 201). Os mesopotâmicos acreditavam que esses infortúnios eram uma punição divina, causada por uma ação contrária aos princípios éticos da sociedade ou, por alguma ofensa aos deuses. Assim, a literatura mágica tinha por objetivo a eliminação dos males que acometiam o homem, fossem eles causados pela possessão demoníaca ou decretados por quem administrava o destino, os deuses. CAD A/II 431, em sumério chamado de lú.maš.maš/lú.ka.pirig ou lú.mu7.mu7, e 2 em acádico de mašmaššu/(w)âšipu. 23 Katia Maria Paim Pozzer Os Amuletos e o Poder das Imagens A discussão sobre o status da representação visual na Mesopotâmia é uma questão fundamental para a história da arte do Antigo Oriente Próximo. A noção axiomática de que a representação é um meio de imitação de coisas reais do mundo não é válida para entendermos a arte da antiguidade oriental, uma vez que eles acreditavam no poder dos significantes e de seu status como parte integrante do real (BAHRANI, 2003, p. 122.) No vocabulário mesopotâmico a palavra acádica Ṣalmu é utilizada para se referir a representação, podendo ser traduzida por estátua, relevo, monumento, pintura e imagem. A eminente assirióloga Irene Winter (2010, p. 80) diz que a imagem não é uma réplica natural, mas sim um código convencionado, culturalmente mediado, uma representação idealizada da realidade. A imagem na antiga Mesopotâmia não era considerada como semelhante à uma realidade original que estava presente em outro lugar, mas ela continha a realidade em si mesma (imagem). Esta noção de representação seja possível era baseada na ideia que o domínio do real incluía, por definição, múltiplas camadas e um complexo sistema de signos que Bahrani (2003, p. 127) descreve como “realmetasemiótico”. O que para o pensamento moderno é ilusão, para eles está no campo do conhecimento empírico. Esta é a razão porque os textos de adivinhação são lidos literalmente como os signos cuneiformes incorporados ao real. Para os mesopotâmicos tudo pode ser lido com 24 Amuletos Mágicos Mesopotâmicos um signo que se refere a algo além da superfície aparente. Assim, a representação visual pode ser codificada, incorporada ao real e ter uma influência profética. Não existem palavras em língua acádica para nomear amuletos ou talismãs. Os amuletos mesopotâmicos poderiam ter a forma de colares de pedra, de placas em metal com cenas figurativas gravadas, de pequenas estatuetas ou ainda de selos-cilindros. Estes objetos adquiriam valor mágico a partir da sua consagração, através de encantamentos e rituais realizados a este fim. O suporte material no qual o amuleto foi confeccionado também conservava propriedades apotropaicas que poderiam ser intensificadas pela aposição de pequenas inscrições de conjuros. Estes talismãs serviam para obter a proteção particular de uma divindade, para afastar elementos maléficos e para influenciar beneficamente a vida cotidiana. Os deuses citados nestes objetos estavam entre os mais importantes do panteão: Anu (deus do céu), Enlil (rei dos deuses), Ea (divindade responsável pela criação da humanidade), Adad (deus da tempestade), Šamaš (deus sol), Ištar (deusa do sexo e da guerra) e Gula (protetora da saúde), dentre outros (BLACK; GREEN, 1998). A iconografia dos monstros Nos estudos de arte mesopotâmica, a palavra demônio é usada para identificar representações híbridas, antropozoomorfas, já o termo monstro é utilizado para nomear criaturas formadas a partir de composições de diferentes animais. Segundo E. Porada (1987, p. 2-3) 25 Katia Maria Paim Pozzer o desenvolvimento da representação de monstros e de demônios na arte mesopotâmica se deu ao longo de cinco fases cronológicas. O período de Ubaid e Uruk (3700-2900 AEC) foi a fase formativa, quando elementos de diferentes animais se combinaram pela primeira vez para compor criações híbridas. No período acádico (2334-2004 AEC), os seres maléficos eram mostrados sendo capturados ou julgados, evocando uma visão otimista da realidade, baseada na estabilidade política. Na arte paleobabilônica (2004-1595 AEC) há muitas representações mesclando motivos benéficos e maléficos da humanidade. No período cassita e médioassírio (1796-1077 AEC) a ênfase é dada às imagens de seres híbridos, com corpo humano e cabeça de animal. Já a arte neoassíria e neobabilônica (911-539 AEC) acentua a representação de divindades maléficas e de demônios que seriam índices de um novo conceito de vida após a morte, onde o mundo inferior era habitado por essas criaturas (GREEN, 2006, p. 1847). Como seres irreais, os monstros são abstrações personificadas. Essas abstrações podem ser derivadas de suas associações com certos deuses e de seu comportamento descrito na arte e na literatura, onde um conjunto de elementos, com valores simbólicos naturais, compõem suas características. Em seu estudo sobre os espíritos protetores mesopotâmicos, Wiggermann (1992, p. 150) conclui que a formação de monstros foi um processo contínuo que começou no período protoliterado (4000-3000 AEC) e continuou ao longo do terceiro e do segundo milênio. 26 Amuletos Mágicos Mesopotâmicos O antropomorfismo foi um processo longo e contínuo que não afetou todo o panteão de uma única vez. A primeira divindade que assumiu a forma humana foi Inanna, ainda que uma de suas origens seja Vênus, a estrela da manhã. Um dos mitos que confere legitimidade ao governante na cidade de Uruk é baseado no casamento do rei com a deusa, e isto seria inconcebívelsem o aspecto antropomorfo da divindade. A iconografia deste mito é representada no chamado Vaso de Uruk que mostra um homem trazendo presentes para a deusa (ou sua representante humana) e recebendo em troca o poder monárquico (BAHRANI, 2011, p. 136). No final do período Akkad (2334-2200 AEC), os deuses mais importantes como Nanna, Utu, Inanna, Enki, Ninurta, se tornaram antropomórficos. O estabelecimento da complementaridade formal entre seres divinos e animais revela uma característica essencial dos monstros e dos fenômenos inspiradores que eles representam. Ao contrário dos deuses antropomórficos, os monstros estão fora da ordem natural do mundo, eles são aberrações sobrenaturais, inesperadas, imprevisíveis e ameaçadoras. Essa alteridade determina as relações entre deuses e monstros até o final da civilização mesopotâmica. O monstro é um ser híbrido por natureza que tem como atribuição primordial perturbar a ordem cósmica e, secundariamente, ter funções apotropaicas (OUMI, 2019/2020, p. 158). Cada monstro está associado a um deus que opera no mesmo campo de ação, mas enquanto a divindade abrange o todo, o monstro 27 Katia Maria Paim Pozzer se restringe a uma parcela. Enquanto os deuses eram responsáveis por uma estabilidade duradoura, os monstros intervinham nos assuntos humanos, como a preservação da vida, a morte súbita e violenta, a proteção da paz e também a guerra e as ocorrências climáticas. Essa construção conceitual se organiza em torno da própria noção de monstruosidade, que surge como resultado de questões estéticas e críticas. A entidade mitológica aparece como uma construção metafísica, ideológica e figurativa que se refere a uma certa forma de ameaça, acidental e condicional, ou a um processo de deformação que visa alterar a relação com os outros, bem como o reconhecimento da humanidade desta alteridade. Assim, o conceito de construção monstruosa gira principalmente em torno da ideia da natureza do monstro e possibilita questionar sua relação com uma determinada sociedade, permitindo uma análise histórica dessas concepções e mentalidades (WIGGERMAN, 1992, p. 168). Essas criaturas monstruosas aparecem como o espelho de reflexos e concepções das sociedades antigas e como representação simbólica da alteridade. No Oriente, os monstros se situam em um território distante da comunidade de referência que veicula os mitos sobre eles, ou em um ambiente ctônico infernal. Esta localização geográfica do monstro remete à ideia de que o Outro é diferente, porque não compartilha o mesmo espaço físico da civilização urbana. Ainda que não tenham sido encontrados textos que orientem modelos iconográficos para a composição dos amuletos e das imagens dos demônios, verifica-se que os animais presentes nas composições 28 Amuletos Mágicos Mesopotâmicos monstruosas fazem referências à fauna local, como por exemplo o escorpião, o cão, a águia, o leão, entre outros. Os Demônios Lamaštu e Pazuzu Nos períodos neoassírio e neobabilônico, veremos surgir o mito que evoca duas divindades malignas do submundo Lamaštu e Pazuzu. A iconografia da deusa Lamaštu, filha de Anu, pode ser reconhecida pela sua presença em placas de pedra e cobre, algumas das quais com inscrições que a nomeiam. Da mesma forma, o deus Pazuzu, filho do deus Hanbu e rei dos demônios do vento, é representado por um grande número de estatuetas de pedra, cobre e barro cozido, contendo encantamentos e se referindo ao seu nome. Na Placa dos Infernos, o deus Pazuzu é mostrado ameaçando Lamaštu e forçando-a a voltar para o submundo, claramente indicado pelo rio do submundo em que seu barco flutua. Trata-se de um mito literário perdido, mas que pôde ser inferido a partir da arte. A iconografia dos amuletos mudou ao longo do tempo e tornou-se cada vez mais complexa. No início do III milênio AEC, a figura de Lamaštu ocupava toda a superfície do objeto, tinha poucos detalhes e, às vezes era acompanhada de um friso de triângulos profiláticos. No decorrer da segunda metade do II milênio AEC surgem mais variantes de sua representação, sendo os triângulos substituídos por emblemas simbolizando outras divindades. Masson (2014/2015, p. 24) aponta que no I milênio AEC Lamaštu é 29 Katia Maria Paim Pozzer acompanhada também de uma cena de exorcismo e uma série de sete cabeças de animais em posição de ataque. Não existe consenso quanto a origem desta divindade. Alguns defendem que ela tenha origem em uma figura presente na mitologia proto-elamita. Nos textos das lamentações há referências a ela como “uma mulher elamita” ou “amorrita” que podem ser interpretados como a constituição de uma alteridade, onde a figura do outro é monstruosa. No período de Ur III (2140-2004 AEC) seu nome sumério era DIM.ME, que pode ser traduzido por “corpo”, “figura” ou “fantasma” e ela fazia parte de um grupo de sete demônios que não possuíam características individuais. Seu nome acádico, Lamaštu, aparece nos textos bilíngues do final do III milênio e início do II milênio AEC e passa a receber o determinativo divino “dingir” antecedendo o seu nome próprio como indicativo de sua condição divina (MASSON, 2014/2015, p. 25, n. 85 e 86). Lamaštu é uma divindade importante pois é filha de Anu, deus dos céus e irmã de Ištar, a principal divindade feminina do panteão. Segundo a mitologia, Anu, seu pai, decide expulsá-la dos céus por mau caráter e afronta a princípios éticos e morais, quando ela pede para jantar a carne e o sangue dos humanos. Lamaštu torna-se, assim, uma divindade expulsa dos céus, por sua natureza malvada e cruel, pois ao cair na terra ela passa a atacar e assassinar bebês recém- nascidos. Esse ato é repudiado pelos deuses uma vez que, segundo a mitologia mesopotâmica, os homens poderiam ser castigados por não 30 Amuletos Mágicos Mesopotâmicos servirem corretamente os deuses, regra que não se aplica às crianças evidentemente, incapazes de realizarem essas tarefas (WIGGERMAN, 2000, p. 243). Atualmente o conceito de demônio é um termo com conotação judaico-cristã, bastante diferente do imaginário antigo-oriental. Na Bíblia, o demônio era um anjo caído do céu. Segundo J. Baschet (2002, p. 321) a queda dos anjos constitui o ato de nascimento do Diabo e marca o ingresso do mal no Universo: (...) esse mito é narrado em 2 Pedro 2,4; Judas 6 e explica que a queda dos anjos se deu porque foram seduzidos pela beleza das mulheres e queriam se unir carnalmente a elas. Assim, os demônios eram anjos que habitavam os céus e foram punidos por seus desejos, foram criados bons, mas transformaram-se em maus por vontade própria. Os demônios levam os homens ao pecado pela tentação e pelo vício. Já os demônios mesopotâmicos são espíritos maus que prejudicam os mortais, são seres sobrenaturais de segunda classe que agiriam sob as ordens dos deuses para punir os homens por suas ofensas (BOTTÉRO, 1987, p. 277). Os textos mencionam que Lamaštu, às vezes, se fazia passar por ama-de-leite e seu leite era um veneno, outras vezes ela estrangulava seus mártires. Ainda que os recém-nascidos fossem suas vítimas favoritas, ela podia atacar pessoas de todas as idades, provocar depressão e febre e ainda destruir o meio ambiente (ARUZ, 2014, p. 264). Lamaštu ocupa uma posição única no panteão mesopotâmico como filha do deus Anu (céu) e arquétipo das forças do caos depois de 31 Katia Maria Paim Pozzer sua expulsão do céu. Seus crimes específicos são desconhecidos, mas o mito sugere que ela tenha pedido para se alimentar da carne dos bebês. Acredita-se que ela teria sido enviada a terra como punição por desrespeitar as regras da ordem cósmica, atacando mortais com intencionalidade e sem causa evidente e que este também seria um método de controle de natalidade, segundo o imaginário da época (SAID, 2020, p. 102). Outra entidade demoníaca damaior importância no imaginário mesopotâmico é Pazuzu. Documentos de cunho religioso identificam Pazuzu como filho do deus ctônico Hanbu e como rei dos demônios alados. Wiggerman (1992, p. 72) sustenta que o nome de Hanbi/Hanpa venha da raiz linguística oeste-semítica para HNP, significando “claudicar, ser pervertido” e que essas características corresponderiam a aparência monstruosa de Pazuzu. Existem algumas hipóteses que tentam explicar a origem de seu nome. Uma delas propõe que seu nome derivaria da raiz PZZ em aramaico e que pode ser traduzida como “ser impetuoso, ágil”. Outra sugere originar-se do babilônico “pessû”, cujo significado é anão. Esta interpretação propõe ainda uma associação iconográfica com a divindade egípcia Bes, um anão disforme, protetor das mulheres grávidas e dos recém-nascidos. Pazuzu possui o determinativo divino dingir precedendo seu nome e este é um caso único entre os demônios (BLOTTIÈRE, 2005, p. 42). 32 Amuletos Mágicos Mesopotâmicos Masson (2014/2015, p. 74) avança que o demônio Pazuzu surgiu no final do II milênio AEC como antagonista de Lamaštu, uma 3 entidade demoníaca feminina que se individualizou e ganhou destaque na mitologia, neste mesmo período. O mito de Pazuzu, constantemente evocado na documentação, descreve uma confrontação dele com a “montanha potente” que resiste à sua autoridade. Ele é comparado à um “vento furioso” que acaba por submeter a montanha e seus habitantes maléficos. Assim, este demônio-deus vence seus inimigos utilizando-se de forças da natureza e de sua potência destruidora. A Placa dos Infernos Atualmente conservada pelo Departamento de Antiguidades Orientais do Museu do Louvre, em Paris, a placa do conjuro, conhecida como a “Placa dos Infernos” e identificada pelo código AO 22205, foi confeccionada na Assíria, entre 911 e 604 AEC e encontrada na Síria, segundo o catálogo online do museu. Trata-se de uma placa em bronze fundido e esculpido, com duas faces e uma complexa iconografia, associando, em um único amuleto, as entidades demoníacas antagônicas Lamaštu e Pazuzu (Musée du Louvre, 2022). Ele está presente em um grande número de amuletos apotropaicos deste período.3 33 Katia Maria Paim Pozzer Figura 1: Placa dos Infernos c. 911-604 AEC Bronze, 13,8 X 8,8 X 2,5 cm. Paris, Museu do Louvre Fonte: Aruz; Graff; Rakic, 2014, p. 264 Esta placa de bronze apresenta, no verso, quatro registros, demarcados com linhas entre eles. Na linha superior observamos um friso com os símbolos de importantes divindades (da esquerda para a 4 direita): a tiara com chifres do deus Anu ; o bastão com cabeça de 5 carneiro de Enki ; o raio de Adad ; a pá de Marduk ; o duplo estilete 6 7 8 do deus Nabû ; a estrela de oito pontas de Ištar ; a lua crescente de 9 10 Sîn ; a lamparina de Nuska e os sete círculos das Pleiades . A 11 12 13 O simbolismo associado às divindades é tema amplamente estudado e grande parte 4 deles está estabelecido (Black; Green, 1998). Anu, rei dos deuses.5 Enki, aquele que concebeu a humanidade.6 Adad, o deus da tempestade.7 Marduk, o deus supremo de Babilônia.8 Nabû, o deus da escrita.9 Ištar, deusa do sexo e da guerra.10 Sîn, o deus-lua.11 Nuska, deus associado ao fogo e à luz.12 Pleiades, a constelação astral, símbolo dos 7 demônios.13 34 Amuletos Mágicos Mesopotâmicos segunda linha mostra sete demônios antropozoomorfos, com corpos humanos e cabeças de animais (da esquerda para a direita): pantera; leão; lobo; carneiro; íbex; águia e serpente. Os sete demônios, em posição de ataque, são representados com a cabeça de perfil e o tórax em posição frontal, portando um longo vestido, com o braço direito levantado. O terceiro registro contém uma cena de exorcismo ou de cura de um doente. Da esquerda para a direita vê-se uma lamparina que repousa sobre um tripé, o doente está em decúbito dorsal, com o braço direito elevado a frente, sobre uma estrutura que pode ser uma cama ou mesa. Ele está cercado por dois ašipu, representados de perfil e vestidos com a capa de homens-peixe , segurando na mão esquerda 14 um pequeno balde, tendo a mão direita levantada à frente. Ao lado, observa-se dois seres com corpo humano, cabeça de leão e garras de ave de rapina no lugar dos pés, representados um de frente para o outro, com as mãos direitas se tocando e a esquerda levantada, que podem ser identificados como ugallu, figuras protetoras de doenças ou demônios maléficos e ao seu lado vemos o deus Lulal-irra (BLACK; GREEN, 1998, p. 119-121). A linha inferior possui muitos elementos, mas destaca-se, no centro, a figura de Lamaštu, com cabeça de leão, corpo recoberto de pelos e garras no lugar dos pés. Ela está com a perna direita flexionada sobre um asno, que por sua vez, tem as patas dianteiras ajoelhadas dentro de uma embarcação que flutua em um rio com cinco peixes, e segura duas serpentes, uma em cada mão. Lamaštu amamenta um cão e um porco e sob sua perna esquerda há uma tênue figura de um escorpião, sua perna direita parece estar Um tipo de exorcista, geralmente representado em dupla.14 35 Katia Maria Paim Pozzer amarrada a um pequeno arbusto na beira do rio e duas tamargueiras (MASSON, p. 71, n. 325). No canto superior direito deste registro observa-se uma jarra de óleo, um cálice, uma fíbula, um pé de asno, um par de sapatos e um cobertor simbolizando as provisões necessárias para Lamaštu realizar sua viagem ao mundo dos mortos. Contudo, outro elemento traz grande originalidade a este amuleto. Sobre a parte superior da placa, temos uma escultura de vulto representando a cabeça e os dedos de Pazuzu, com a boca aberta em posição frontal e ameaçadora, literalmente agarrando a placa. O reverso mostra as costas de Pazuzu, suas quatro asas, o rabo de escorpião, o pênis em forma de cabeça de cobra e as garras de águia nas patas traseiras. A confecção da placa foi realizada com uso de técnica mista. Inicialmente o bronze foi derretido e depositado em um molde e, posteriormente, com a escultura fria, foi feita a gravação da imagem do reverso. Podemos sugerir uma leitura simbólica da iconografia deste amuleto, destacando alguns aspectos ali evocados. O primeiro elemento que chama a atenção é a associação entre Lamaštu e Pazuzu em um único objeto, onde a gestualidade deste último realça sua função protetora, uma vez que ele “segura fortemente” a placa e grita para espantar a demônio (sua boca aberta, com as presas à mostra remete ao ato de gritar). O segundo elemento é composto pelas duas primeiras linhas do verso, onde estão representados os principais atributos de divindades supremas do panteão. Na primeira linha, a evocação de símbolos e/ou objetos seriam suficientes para informar 36 Amuletos Mágicos Mesopotâmicos todos aqueles que visualizassem a placa sobre os deuses envolvidos nos rituais relacionados à Lamaštu. A segunda linha traz a versão antropozoomorfa dos setes demônios da qual, segundo a mitologia do período arcaico, Lamaštu fazia parte e estaria na sua origem, antes de seu processo de individualização nos textos. O terceiro elemento mimetiza um ritual de exorcismo, onde o paciente está cercado pelos sacerdotes e guardiões, que representa uma prática mágico-medicinal bastante difundida na Mesopotâmia. O último registo condensa os principais conjuros contra a demônio, representando Pazuzu em gesto de ataque. Lamaštu, por sua vez, está cercada de animais referenciados nos textos de sua mitologia. A vegetação, os objetos e a embarcação fazem uma clara alusão à viagem que Lamaštu é conjurada a realizar, para o mundo inferior, desfazendo, assim, a ameaça aos humanos. Ao contrário de outros demônios do antigo Oriente Próximo, Lamaštu tem uma mitologia composta por uma série de encantamentos e rituais em textos do II e do I milênio AEC acompanhada de uma rica iconografia. Emseu estudo sobre a Placa dos Infernos, Masson (2014/2015) apresenta algumas das inscrições dos amuletos de conjuros contra Lamaštu. O autor identifica três tipos de amuletos, segundo os diferentes períodos históricos. O tipo 1, do período paleobabilônico ao médio-babilônico e o tipo 2, do médioassírio contêm, em sua maioria, um encantamento que apresenta os méritos de Lamaštu, depois anuncia que ela é uma ameaça para a humanidade e encerra com um 37 Katia Maria Paim Pozzer conjuro dirigido diretamente a ela. A seguir apresentamos um excerto (MASSON, 2014/2015, p. 62): 15 Oh Lamaštu, filha de Anu, eminente entre os deuses. Innin, a maior princesa Mas também pegajosa, grande demônio asâkku, Fantasma que oprime fortemente a humanidade: Esta Lamaštu exaltada não deveria se aproximar do homem, Possas tu estares ligada pelo destino dos céus, Ligada pelos destinos da terra! O terceiro tipo, prevalente nos períodos neoassírio e neobabilônico, apresenta a entidade maléfica diferentemente. O texto enuncia os sete nomes de Lamaštu e depois dirige um conjuro diretamente a ela, para enviá-la aos céus. A maioria dos conjuros menciona sua viagem ao mundo dos mortos, nas profundezas da terra. Exortá-la a ir para os céus rompe com a tradição textual, mas ao mesmo tempo alude à sua situação original de divindade superior que habitava os céus. O excerto diz (MASSON, 2014/2015, p. 62): 16 “Dimme, criança de Anu”, é seu primeiro nome, O segundo é “irmã dos deuses das ruas”, O terceiro é “espada que corta o crânio”, O quarto é “ela que acende o fogo”, O quinto é “deusa do rosto furioso”, O sexto é “aquela que confiamos, a filha adotiva de Irnina”, O sétimo é “pelo poder dos grandes deuses tu possas ser conjurada” Com os pássaros do céu, voe! Uma cabeça em terracota conservada no Museu do Louvre (AO 2490) contém uma inscrição que diz: “Eu sou Pazuzu, o Traduzido e adaptado pela autora.15 Traduzido e adaptado pela autora.16 38 Amuletos Mágicos Mesopotâmicos deformado, filho de Hanpa, o rei dos maus demônios de lilû [...].” 17 Porém Pazuzu é uma criatura ambígua, ao mesmo tempo que ele é considerado como uma entidade demoníaca assustadora, também é tido como uma divindade protetora, venerada no âmbito doméstico. Seu aspecto monstruoso seria responsável por sua eficaz capacidade de espantar os males. Daí decorre, também, a importância de sua iconografia e explicaria as centenas de amuletos encontrados em toda a Mesopotâmia, com sua representação plástica. Inúmeros exemplares de amuletos em argila, pedra, selos-cilindros, placas de bronze, etc., atestam seu caráter de devoção popular. Conclusão O antigo Oriente Próximo apresenta uma infinidade de práticas religiosas ligadas ao aspecto apotropaico dos demônios, como os rituais para afastar espíritos malignos e criaturas monstruosas que são evocados na Placa dos Infernos. Lamaštu, criatura híbrida, cujo corpo é o de uma mulher dotada de garras de ave de rapina e cabeça de leoa, aterroriza a humanidade, causando abortos e mortalidade infantil. A documentação Tríade de demônios noturnos composto por Lilû e Lilitû, um par de entidades 17 demoníacas privadas de maridos e esposas, em busca de um parceiro. Lilû, demônio masculino, ataca mulheres durante o sono enquanto Lilitû, figura feminina estéril, ataca os homens. O terceiro membro é Ardat-Lili, uma virgem que nunca conheceu nenhum dos aspectos do amor e está destinada à esterilidade perpétua. Ela representa o fantasma de meninas que morreram antes de se casarem e terem filhos. Seus ataques visam romper casamentos, mas também ataca crianças pequenas para devorá-las (MASSON, 2014/2015, p. 74, n. 334). 39 Katia Maria Paim Pozzer textual revelou ritos de conjuros, onde o sacerdote colocava um colar de pedras no pescoço da mulher grávida a ser protegida, recitava um encantamento para afastar o monstro e descrevia seus inúmeros poderes. Um dos encantamentos dá a seguinte descrição do monstro: "Grande é a filha do altíssimo que tortura bebês [...] seu abraço é mortal, ela é cruel, furiosa, raivosa, predatória [...] ela toca as barrigas das mulheres que dão à luz, ela arrebata seus bebês de mulheres grávidas [...] sua cabeça é a cabeça de um leão, seu corpo é o corpo de um burro, ela ruge como um leão, ela uiva incessantemente como uma cadela demoníaca (WIGGERMAN, 2000, p. 242). A invocação lembra a origem do monstro e seus poderes. A cerimônia encerra com a oferta de provisões de comida ao monstro para que este deixe o corpo da vítima e fuja para longe, encontrando, assim, a escuridão. O anverso da Placa do Infernos celebra essa viagem de Lamaštu aos infernos, com o deus Pazuzu em posição de ataque, forçando-a a voltar para o submundo, representado pelo rio do mundo inferior, no qual seu barco flutua. O demônio Pazuzu é uma figura ambígua, pois ao mesmo tempo que é um monstro disforme e perigoso, simbolizando os ventos frios do Norte, é uma divindade popular com grande capacidade protetora contra Lamaštu. Fontes epigráficas atestam encantamentos usados para pedir sua proteção contra os ventos pestilentos vindos do Oeste, que se destaca na inscrição: “Eu sou Pazuzu, filho de Hanpa, rei dos demônios lilû. Eu mesmo subirei a poderosa montanha trêmula, os ventos que sopram contra ela são direcionados para o 40 Amuletos Mágicos Mesopotâmicos oeste. Eu mesmo quebrei suas asas […]” (FINKEL; GELLER, 1997, p. 137). Outros conjuros, ainda, pedem que Pazuzu interfira no contexto de práticas mágicas relacionadas à remoção do mal, e em particular, no exorcismo para cura de certas doenças infecciosas. A placa também evoca práticas de culto atestadas no antigo Oriente Próximo, com os homens-peixe, exorcistas especializados em rituais mágico-medicinais, como àqueles presentes na Placa do Infernos. A Placa do Infernos se constitui em um objeto artístico ímpar na iconografia mesopotâmica, pela sua beleza plástica, exímia técnica e por evocar uma complexa mitologia de monstros e demônios que aterrorizavam e protegiam a humanidade. Referências Documentação Musée du Louvre. Plaque de conjuration. AO 22205. Disponível em: https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010120479. Acesso em: 06 jun. 2022. Bibliografia ARUZ, J.; GRAFF, S.; RAKIC, Y. (Eds.). Assyria to Iberia – at the Dawn of the Classical Age. New York: Metropolitan Museum of Art, 2014. BASCHET, J. Diabo. In: LE GOFF, J.; SCHMITT, J.-C. (Orgs.). 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IV AEC, associando-se a cenas de conotação amorosa, ligadas com frequência a Eros e a Afrodite, de quem este é um atributo, como em um loutrophoros conservado no Paul Getty Museum, em que vemos a deusa, identificada por uma inscrição acima de sua cabeça, em companhia de Zeus, identificado também por inscrição, sentado sobre seu trono, no interior do seu palácio – ela segura com a mão direita uma íynx, enquanto um pequeno Eros repousa sobre seu braço (Fig. 1). No entorno, relatos míticos visuais de várias das conquistas amorosas de Zeus, justificando assim por que Agradeço o suporte financeiro recebido da Humboldt-Foundation, Alemanha / 1 Programa Pesquisador Experiente e Programa Alumni, da École française de Rome / Programa Pesquisador Residente, e do CNPq / Programa Bolsa Produtividade - PQ-1d em Arqueologia Histórica. Sou grato ao apoio institucional do Instituto de Arqueologia Clássica e Arqueologia Bizantina / Universidade de Heidelberg, e ao Centre Jean Bérard, Nápoles. Meu agradecimento especial à colaboração de Reinhard Stupperich, Nicolas Laubry e Claude Pouzadoux. Os argumentos e conclusões são de responsabilidade exclusiva do autor. Professor Titular do Departamento de História da Universidade Federal de Pelotas 2 (UFPel). Bolsista Produtividade CNPq PQ1d em Arqueologia e Membro do COSAE/CNPQ - Comitê de Assessoramento em Antropologia, Arqueologia, Ciência Política, Direito, Relações Internacionais e Sociologia. Pesquisador Visitante na Universidade de Heidelberg - Instituto de Arqueologia Clássica. Pesquisador da Fundação Humboldt/Alemanha - modalidade Pesquisador Experiente - Arqueologia Clássica (desde 2014). Chercheur résident / pesquisador residente na École française de Rome. 44 Íynx o pintor escolheu usar como atributo da deusa esta rodinha mágica que simboliza seu poder de sedução. Figura 1: Loutrophoros ápulo de figuras vermelhas. Pintor de Louvre MNB 1148. c. 330 AEC Malibu, J.Paul Getty Museu, 86.AE.680. Public Domain. @ Paul Getty Museum - Open Content Program. Disponível em: https:// www.getty.edu/art/collection/object/103WEG. Acesso em: 30 mai 2023. Um exemplo de como o objeto costuma ser representado na iconografia ápula pode ser apreciado na peliké Dresden 526, datada de 340-330 AEC (Fig. 2a), em que uma mulher, à direita, no papel de oficiante de ritual de iniciação amorosa de futuros noivo e noiva (CASSIMATIS, 1993, p. 103-111; VERGARA CERQUEIRA, 2018a, p. 190), segura um espelho, com a mão esquerda apoiada sobre o joelho, e, com a direita estendida, uma íynx, suspensa por um fio duplo. 45 Fábio Vergara Cerqueira Figura 2a-b: Peliké ápula de figuras vermelhas. The Egnazia Group (RVAp 18/140). c. 340-330 BC. Dresden, Staatliche Kunstsammlungen, DR526. CVA Dresden 1, pr. 4-5. ©Skulpturensammlung, Staatliche Kunstsammlungen. Foto: Elke Estel/Hans-Peter Klut. Agradeço a colaboração de Barbara Anderson. A íynx que analisamos aqui, como parte do repertório iconográfico ápulo, é um dos signos recorrentes na constituição da semântica visual que representa o imaginário do amor na pintura de vasos da Magna Grécia, integrando uma rede de signos/objetos que compõem esta teia de significação (CASSIMATIS, 2000, p. 47; BAGGIO,2013; VERGARA CERQUEIRA, 2013), tais como o sistro ápulo, o espelho (VERGARA CERQUEIRA, 2018), a bola (SCHNEIDER-HERRMANN, 1971), o leque (BAGGIO, 2018, p. 43; SCHNEIDER-HERRMANN, 1977, p. 35), a phiale, a patera, a pia lustral (louterion) (CASSIMATIS, 2014, p. 155; GIACOBELLO, 2020, p. 199), a fita (tainia), a coroa (stéphanos), as aves (como o pato, o cisne, o pombo e o próprio passarinho chamado igualmente 46 Íynx íynx), as flores (como a rosa), as plantas (como o mirto, na forma de arbusto ou ramalhete) e frutas (como a romã e a maça) (GIACOBELLO, 2020, p. 199; LAMBRUGO, 2018, p. 248-249; TOUZÉ, 2009). A peliké de Dresden exemplifica bem, em suas duas faces, a representação destes signos/objetos nas cenas de rituais de iniciação amorosa (Fig. 2a-b). O mesmo sistema de signos, com as variações de seus arranjos, pode ser apreciado na pronochoe Londres F373, datada de 340-320 AEC (Fig. 3) O vaso do Museu Britânico apresenta a própria deusa Afrodite, sentada, ao centro, como amante, com um cisne no colo, que ela acaricia, diante da figura de seu amado Adônis, e, na sua retaguarda, Eros com uma bola e uma íynx. Entre ele e o diphros okladias (banco dobrável) em que se senta a deusa, um sistro ápulo, instrumento musical que na iconografia ápula vale também como atributo da deusa. No canto direito, no chão, uma rosa, no campo, uma rosácea, e, ainda, uma tainia e um stéphanos de folhas aberto. Figura 3: Pronochoe ápula de figuras vermelha. Proveniência: Ruvo, Apúlia. Grupo de Copenhague 4223. c. 340-320 AEC Londres, BM, F373 (1856,1226.50). 47 Fábio Vergara Cerqueira Compreender melhor a íynx, em suas várias dimensões, pode contribuir para uma melhor interpretação do imaginário do amor representado de modo tão frequente na pintura de vasos de tradição grega do Sul da Itália ao longo do século IV AEC – interpretação não só do imaginário, como da mística e das crenças, da magia e dos rituais praticados na esperança da felicidade amorosa. Figuras 4 e 5: pássaro íynx 4 e 5 prints de tela, do canal Animal Narrado, do youtube, minutagem 4’’48’ e 5’’20’ Na sequência veremos, porém, que o termo íynx não se referia somente a este objeto, mas também a um animal (GOW, 1934), a uma entidade religiosa (uma ninfa, que era uma maga) e a um feitiço (SEGAL, 1973; DETIENNE, 1972, p. 160) – além de outros 48 Íynx significados que incorpora com o passar do tempo – e que esses diferentes significados, ligados ao mesmo significante íynx, articulavam-se em um mesmo campo cultural de significação. O vocábulo íynx continha vários significados. A palavra, em si, era usada também para encantamentos amorosos. O termo designava ao mesmo tempo o objeto circular e um passarinho, que na verdade dava nome a esta rodinha. O pássaro íynx pertence a uma espécie de pica-pau eurasiano conhecida como Jynx torquilla, ou simplesmente “torcicolo”, medindo cerca de 16cm de comprimento. Com frequência é visto com o pescoço esticado (Fig. 4) e se caracteriza por um movimento singular ao torcer o pescoço em até 180º (Fig. 5), o que lhe permite e atémesmo simular uma cobra quando precisa defender- se (PIRENNE-DELFORGE, 1993, p. 283) , como aponta a descrição 3 de Aristóteles (História dos Animais, II.12.504a ; cf. Eliano, Da Natureza dos Animais, VI.19): Poucas são as [aves] que têm dois dedos voltados para a frente e dois para trás, como é o caso do chamado pica- pau [íynx]. Esta é uma ave pouco maior do que o tentilhão, com penas matizadas, e são seus traços particulares a disposição dos dedos e a língua, que se parece com a da serpente. De facto, pode projectá-la numa extensão de quatro dedos, e voltar a dobrá-la sobre si própria. É capaz de virar o pescoço para trás sem mover o resto do corpo, como as cobras. Tem garras grandes, mas de estrutura semelhante às da gralha. Solta gritos estridentes. Para uma descrição da espécie e seus movimentos singulares de cabeça, sugiro o 3 vídeo “Torcicolo – o pássaro que imita serpente?! (Jynx Torquilla)”, no Canal “Animal Narrado” do Youtube (veja os movimento de pescoço a partir de 4’50’’). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ro1YbQ5GCcU Acesso em: 30 mai 2023. 49 Fábio Vergara Cerqueira A Íynx como objeto, como pássaro, como ninfa e como encantamento Como objeto mágico, podia ser usado por mulheres (Nico) ou homens (Jasão), apesar de que, na pintura de vasos, este dispositivo aparece como uma prerrogativa feminina (TORRES, 2002, p. 203). Um epigrama amoroso anônimo (Antologia Palatina, V.205) nos revela alguns aspectos sociais sobre a roda mágica: A íynx de Nico, que sabia atrair um homem do além-mar e tirar jovens do seu quarto, que era talhada na ametista diáfana e toda cravejada de ouro, Nico lhe consagrou, ó Cípria, como seu bem, seu tesouro, com a lã vermelha de um cordeiro macio em que está enrolada; ela recebeu de presente de uma maga de Larinse . 4 Assim, Nico era uma mulher, não uma maga, que recebeu a íynx de presente de uma feiticeira. Ela sabia manuseá-lo para satisfazer suas vontades sexuais, e, talvez quando o avanço da idade impõe, ela a dedicou como oferenda a Afrodite. Então, tratava-se de um objeto mágico usado por pessoas comuns, não exclusivamente por magos ou magas. Possivelmente, Nico era uma cortesã, que fazia uso da rodinha mágica para conquistar seus clientes sexuais, e assim, é grata a Afrodite, a quem oferece o instrumento quando já não faz mais uso dele. Sobre a materialidade, o objeto se compunha de um pequeno aro, perpassado por fios (Fig. 6), que, em sendo esticados, faziam-no girar (Fig. 7) daí a relação com o movimento de torção da cabeça do passarinho. Esticando e relaxando levemente os fios, girava para um lado, e depois para outro (GOW, 1934, p. 3; PIRENNE-DELFORGE, Tradução livre.4 50 Íynx 1993, p. 284). Esta roda giratória possuía uma finalidade mágica diretamente ligada à natureza mítica do pássaro que lhe dá nome. No mito narrado em Píndaro, Píticas 4.380, Afrodite presenteia esse pássaro a Jasão, conferindo-lhe poderes mágicos para conquistar a princesa Medeia. Esse poderoso encantamento de amor era do tipo agoge, ou seja, que fazia a vítima do feitiço perder o controle, e ir ao encontro de quem aplicava a magia (FARAONE, 1999, p. 56-57). Afrodite teria inventado este objeto mágico, prendendo o passarinho a uma pequena roda giratória, suspensa por quatro ou seis fios, que giraria e produziria um som. Figura 6: Proposta de reconstituição de uma íynx de acordo com pintura de vasos ápulos, em Gow, 1934, p. 1-13, fig. 4-5. Figura 7a-b: Peliké ápula de figuras vermelhas. Pintor de Licurgo. c. 360-345 AEC Ruvo, Museo Jatta, inv. 36727 (J 415). Foto: Fábio Vergara Cerqueira (2022). 51 Fábio Vergara Cerqueira No objeto em si, tal como testemunhado na iconografia da pintura de vasos e de outros suportes, diferentemente do referencial mitológico, não haveria um pássaro preso a ele (Fig. 2a, detalhe). Mas, em alguns objetos de terracota remanescentes do período arcaico, passíveis de identificação como a íynx enquanto roda mágica, há cabeças de passarinho ajustadas à roda (Fig. 8), que têm sentido funcional e simbólico ao mesmo tempo, com base em referências míticas. Figura 8: Íynx. Cerâmica. Período geométrico tardio. Proveniência: Faleron, Ática. 750–700 B.C. Boston, Museum of Fine Arts, 28.49. Disponível em: www.mfa.org. Acesso em: 30 mai 2023. Píndaro, Nemésias 4.56 relata ainda outra história, que teria cronologia anterior ao mito envolvendo Afrodite: Íynx na origem seria uma ninfa arcadiana, filha de Pan e de Eco, cujos encantamentos teriam feito Zeus se apaixonar por Io (ou pela própria ninfa), razão pela qual Hera a transformou neste pássaro. No loutrophoros de Malibu (Fig. 1), a presença de Afrodite, junto a Zeus em seu palácio no Olimpo, com a íynx, é ao mesmo tempo uma referência mítica à conquista de Io por Zeus e à garantia de sedução que o encantamento 52 Íynx de amor provocado por este objeto propiciaria. Lembra ainda, conforme Píndaro Píticas IV.10.212-215sq, que foi Afrodite que inventou este objeto mágico, prendendo o pássaro íynx a uma roda de madeira com quatro raios. Para Chantraine, o torcicolo seria um pássaro apropriado para ser usado na “magia amorosa precisamente em razão deste movimento de torsão que ele pode fazer ao redor de si, atrelado a uma roda que é posta em rotação para segurar a pessoa amada” (CHANTRAINE, 1968, p. 473). O vocábulo Íynx e seu campo de significação Vale olharmos com mais atenção a semântica e etimologia vinculadas à palavra ἴυγξ (íynx), bem como a termos a ela ligados por derivação a partir de seu radical. Além disso, os termos trcochístos e rhómbos são por vezes empregados com significados compartilhados ou cruzados. O primeiro significado de íynx apontado por Little, Scott, Jones (1940) é do pássaro chamado “torcicolo”, pica-pau eurasiano descrito acima, que leva o nome científico Jynx torquilla, como referência à denominação grega. Para Anatole Bailly, a designação serviria também em geral para “passarinho”. Ao mesmo tempo, o pássaro íynx, ao ser fixado a uma roda giratória, seria usado para restaurar o amor entre amantes infiéis, corroborando o relato mítico em Píndaro, Píticas, IV.10.212-215, que compreende também por derivação a denominação do objeto em si, a roda mágica. 53 Fábio Vergara Cerqueira Por conseguinte, o termo designa ainda “encantamento”, como em em Filóstrato, Vida de Apolônio de Tiana, VIII.7, onde usa ἴυγγας (íyngas) como “feitiço” para cura de doença, mas também “encantar” como poder de sedução, como aquele que o olhar da mulher exerce sobre o homem para persuadi-lo (HELIODORO, Etiópicas, VIII.5). Bailly (2020), mais explicativo, indica o uso do termo para designar “feitiço de amor”, “por que se serviam deste pássaro nos encantamentos mágicos”, como em Píndaro, Píticas IV.380. Xenofonte, Memoráveis, III.11.17 referia-se ao uso combinado das rodas mágicas (iýngōn), das poções (phíltron) e dos mantras entoados (epōdōn): εὖ ἴσθι ὅτι ταῦτα οὐκ ἄνευ πολλῶν φίλτρων τε καὶ ἐπῳδῶν καὶ ἰύγγων ἐστί. eu garanto que estas coisas não acontecem sem a ajuda de muitas poções mágicas, de encantamentos e de rodinhas mágicas . 5 Por extensão, o termo pode conotar atração, sedução, capacidade de encantar (ARISTÓFANES, Lisístrata, 1110), aproximando-se da deusa Peitó, elencada como sua mãe; ou, ainda, desejo afetivo arrebatador por alguém, não necessariamente sexual como em Ésquilo, Persas, 988-89. Ao longo do tempo, a sobrevida do termo conheceu outras apropriações místicas. No período tardio, encontra-se o uso do termo para designar divindades caldeias (PROCLUS, Comentário à República de Platão, II.213.). Tradução livre.5 54 Íynx O substantivo ἴυγξ (íynx) deriva do verbo ἰύζω (iýzō), “emitir um grito agudo” (BAILLY, 2020), e alto, conforme Homero, Iliada, XVII.66, ἰύζουσιν (iýzousin), e Odisseia, XV.162, οἱ δ᾽ ἰΰζοντες ἕποντοἀνέρες ἠδὲ γυναῖκες, “e homens e mulheres saíram gritando” . 6 Mais tarde, “gritos lamentosos”, lúgubres, de tristeza ou de dor, como em Ésquilo, Persas, 280, pelo sofrimento diante da notícia da derrota diante dos gregos, ou em Sófocles, Traquínias, 782, onde Héracles “uiva” de dor, ἰύζων (iýzōn), por causa da túnica envenenada presenteada por Dejanira, em razão de sua traição. O substantivo ἰυγή designa, na mesma direção, “grito de dor” ou “lamento”, por exemplo em Heródoto, IX.43, mas também, um sibilar nervoso de alguns animais marinhos em razão da dor causada por um parasita (OPIANO DE APAMEIA, A Pesca, I.565). O substantivo ἰυγµός (iygmós), derivando igualmente de ἰύζω (iúzō) pode ser um grito de alegria (HOMERO, Ilíada, XVIII.572) Bailly (2020) traz ainda ἰυκτά (iyktá), “aquilo que faz um barulho agudo”, que canta gritando alto, como em Teócrito, Idílios, VIII.30, termo que deriva de ἰύζω (iúzō). Há dois outros termos que aparecem nas fontes com características que possam ser associadas ao pequeno objeto circular que analisamos aqui. O termo τροχίσκος (trochískos), diminuitivo de trochos, refere-se a uma pequena roda ou pequeno círculo, como em Apolodoro de Damasco, Poliorcéticas, 155.9. Neste caso, a possibilidade de ser associado à íynx é pela sua forma. Aristóteles, em Tradução livre.6 55 Fábio Vergara Cerqueira Mecânica, 848a.25, emprega o termo trochískos como referência às “pequenas rodas feitas de bronze e de ferro que oferecem como ex- votos nos templos”. O segundo termo é ῥόµβος (rhómbos), aqui havendo uma sobreposição maior com o significado de íynx¸ visto que compartilham, entre outros aspectos, a condição de objeto sonoro que se faz soar na medida em que é posto em rotação. Era um instrumento atado à extremidade de uma corda e assim se fazia girar (FARAONE, 1993, p. 2), usado tanto no pastoreio, para atrair o gado, como nos mistérios. Recebia o mesmo nome um brinquedo de criança que era uma espécie de pião (Antologia Palatina [Leônidas], VI.309), incluído entre os brinquedos de Dioniso (LEVANIOUK, 2007). Bailly (2020) considera que todo objeto de forma circular seria, genericamente, um rhómbos. A palavra sugere o ato de girar, dar a volta em torno de si (ῥόµβον - rhómbon), em Píndaro, Ístmicas, IV.81[48]). Dada esta característica, em diferentes ocasiões é lembrado como um termo alternativo a íynx para designar a rodinha mágica. A confusão acontece já em Teócrito, que emprega íynx em Idílio, II.17, e rhómbos em II.30. Tavenner (1933) entende que o poeta usa os dois termos para se referir ao mesmo objeto. Penso que, com o segundo termo, Teócrito tem em mente mais a roda em si, que identifica a forma circular, do que o nome que identifique o objeto propriamente. Mas é principalmente em autores gregos e latinos do período imperial que o termo se torna mais comum como designação da 56 Íynx rodinha mágica, como em Ovídeo, Arte de Amar, I.8.7, que usa rhómbo para se referir a um dispositivo mágico, que a anciã chamada Dipsa – conhecedora da arte da magia, dos encantamentos da Cólquida e das virtudes das plantas – sabia como usá-lo, enrolando-o em um linho vermelho. Com o tempo, entre os latinos, consolida-se a forma rhómbus. Em Luciano, Diálogo das Cortesãs, IV.5, ao falar das hetairas Melitta e Bacchis, comenta como esta tirou do seu peito uma roda mágica (ῥόµβου - rhómbou) e a fez girar, recitando um encantamento composto por palavras bárbaras que fazem estremecer. Como objeto sonoro circular, o termo rhómbos foi empregado também para designar uma espécie de tambor ou pandeiro, como um týmpanon de maiores dimensões, usado no culto à deusa Reia e a Dioniso (Antologia Palatina [Faleco], VI.165; Ateneu. Banquete dos Sábios, 636a.38). Ao se chamar o týmpanon sagrado de grandes dimensões do culto de Cíbele como rhómbos, o foco está sendo colocado sobre o seu grande aro. Vê-se que a sonoridade apropriada a cultos mistéricos, assim como a práticas místicas e de magia, é um traço em comum entre a íynx e o rhómbos, nada obstante, em sua natureza musical, possam ser instrumentos distintos. A evidência arqueológica da Íynx Grace Nelson identificou uma íynx em um objeto circular raiado de terracota, proveniente do distrito de Faleron na Ática, decorado em estilo geométrico, datado do final do século VIII. A autora identifica as onze cabeças de pássaro como sendo da íynx, com 57 Fábio Vergara Cerqueira “pescoço longo esticado e cordas vocais inchadas, que indicam que os pássaros estão fazendo o seu chamado”, que, no caso da íynx, era um “chamado claro, flautado e com tom elevado”, que “podia ser ouvido a uma longa distância” (NELSON, 1940, p. 443). O grau de conservação da peça de Boston permitiu a proposição de como se apresentaria esta roda, com seus fios de suspensão, para fazê-la girar (Fig. 9). Figura 9: Proveniência: Faleron, Ática. 750–700 B.C. Boston, Museum of Fine Arts, 28.49. Disponível em: www.mfa.org. Acesso em: 30 mai 2023. Objetos semelhantes encontram-se conservados em outras coleções (PASQUIER, 1977, p. 377-378). Vassos Karageorgis (1989) publicou artigo acerca de duas rodas votivas encontradas em Chipre, hoje em Nicósia, uma no museu arqueológico, outra em uma coleção particular (Fig. 10a-b). De datação mais elevada que o exemplar de Boston, têm uma estrutura diferenciada, pois são dois aros não raiados. Mas, em comum, além dos pássaros ajustados sobre o aro, possuem também furos de suspensão. 58 Íynx Figura 10a-b: Íynx, terracota (“Roda 2 de Chipre”). Período Geométrico Cipriota III (850-750 AEC). Nicósia, Chipre, coleção particular. Karageorghis, 1989, p. 263-268, esp. p. 268, fig. 4-5. Cf. Íynx, terracota (“Roda 1 de Chipre). Período Geométrico Cipriota III (850-750 AEC). Nicósia, Chipre, Cyprus Museum. Karageorghis, 1989, p. 263-268, esp. p. 266, fig. 1-2. Uma rodinha beócia conservada no Museu do Louvre, de dimensões reduzidas (altura de 8 cm e diâmetro de 13,2 cm), datada da segunda metade do século VI AEC, é de estrutura mais simples, com três pássaros ajustados ao aro, sem furos de suspensão (Fig. 11). Figuras 11 e 12: Figura 11 - Roda de argila, com três pássaros. Prov.: Beócia. 550-500 AEC Paris, Louvre, CA 1512. © 2009 Musée du Louvre. Foto: Anne Chauvet. Disponível em: https://collections.louvre.fr/ark:/53355/ cl010259386#. Acesso em: 31 mai 2023 Figura 12: Roda de bronze, com cinco aves. Proveniência: santuário de Atena em Tegea. Dugas, 1921, p. 367, fig. 20, n. 201. 59 Fábio Vergara Cerqueira Também ocorrem rodas de bronze com cabeças de pássaro, como o exemplar encontrado no santuário de Atena Alea em Tegeia (Fig. 12). Nelson (1940) aponta como a roda enquanto tal, com seu formato circular, simboliza o sol, o que lhe potencializa enquanto objeto mágico. Em particular, a roda com quatro raios, enquanto objeto místico, possuía poderes mágicos por sua associação com o sol, sendo comum que estes objetos circulares se encontrassem em templos, suspensos, assim girando e produzindo som. Um exemplo é a rodinha de bronze do santuário de Dódona, com sua estrutura de suspensão, para fazer girar (Fig. 13) cujos efeitos sonoros são analisados por Charalampos B. Charisis (2017): uma íynx fazia parte das sessões oraculares, suspensa e girando ao vento, produzindo assim um som. Figura 13: Roda de bronze. Museu Arqueológico de Joanina (Épiro), inv. 617. Charisis, 2017, fig. 1. Foto: à esquerda, P.Tsikules - Museu Arqueológico de Joanina; à direita, Χ. Charisis. 60 Íynx Aristóteles (Mecânica, 848a.25) menciona essas pequenas rodas de metal dadas como oferendas nos templos. Assim, do ponto de vista do papel místico destes objetos nos santuários, essas rodas suspensas, combinadas ao uso também de sinos de vento (Fig. 14), contribuíam para compor uma atmosfera sonora propícia às potências espirituaisque se auspicia nestes ambientes, do que se acreditava ser uma música vinda do divino. Já no período arcaico, tornou-se uma oferenda comum em santuários a divindades variadas esta rodinha, de metal ou terracota, com número variado de passarinhos empoleirados no aro, às vezes um só (NELSON, 1940, p. 346). Figura 14: Sino de vento, de bronze. Prov. Itália meridional, séc. VIII AEC Charisis, 2017, fig. 2γ. O ajuste do pássaro íynx a esta rodinha, que poderia ser genericamente denominada um rhómbos – ou mesmo uma íynx, visto 61 Fábio Vergara Cerqueira que passou a significar simplesmente roda (em razão da prática de se ajustar a ela a representação da ave de mesmo nome) – somaria a potência mágica dos dois objetos (a ave e a roda), ganhando assim um efeito mágico cumulativo (TAVENNER, 1933, p. 117). A singuralidade desta ave, não só pela rapidez dos movimentos circulares e histriônicos de sua cabeça, pela comprida e ágil língua retrátil que faz pensar em uma serpente, por seus gritos altos, algo flautados, algo sibilados, potencializou no imaginário grego antigo uma interpretação mística de sua natureza, tornando-lhe uma ave mágica. Não há um acordo entre os autores modernos sobre a ligação entre estas rodas encontradas no registro arqueológico – com pássaros empoleirados, feitas em metal ou cerâmica – e a íynx como roda mágica conhecida da literatura (Píndaro, Teócrito), a qual pode ser associada à rodinha presente na iconografia italiota. Enquanto alguns encontram elementos suficientes para identificá-las como exemplares da roda-íynx (NELSON, 1940; KARAGEORGIS, 1989), outros são mais céticos (DETIENNE, 1972, p. 162; Genière, 1958), por exemplo propõem tratar-se simplesmente de um kérnos. Percebe-se de qualquer modo uma razoável variedade nestes objetos circulares reportados pelo registro arqueológico, de metal ou terracota, com ou sem raios, com um ou vários pássaros, ou mesmo desprovidos destes. Porém, compartilham de um papel mágico-místico a eles associado, quer pelo 62 Íynx movimento giratório em ficando suspensos por fios (PASQUIER, 1977, p. 378), quer pelo som produzido (CHARISIS, 2017). É possível se pensar em uma linha de ancestralidade entre as rodas mágicas do período arcaico, arqueologicamente evidenciadas, e aquelas evidenciadas iconograficamente, no período clássico e proto- helenístico, pela pintura de vasos e outros suportes, como os brincos e anéis, além dos espelhos etruscos. A estrutura raiada e a presença das aves sobre o aro guardam semelhança visual importante. Mas estes exemplares arqueológicos, alguns deles comprovadamente objetos associados a santuários, giravam pendurados por fios (como nos sinos de vento), diferentemente do que ocorria com o objeto testemunhado pela pintura de vasos. A evidência iconográfica da Íynx A evidência visual da íynx nos permite observar diferentes aspectos, tais como sua estrutura física, seu uso e manuseio, assim como as personagens e contextos a ela associados. Forma física da íynx Na pintura dos vasos ápulos, a íynx aparece como este objeto circular raiado, por via de regra com quatro raios (Fig. 3 detalhe e Fig. 15), mas às vezes o pintor sugere a possibilidade de um número maior (ou seria efeito do movimento?) (Fig. 1, detalhe). Pelo contraste de coloração, parece que a roda seja de metal, de bronze ou dourada, 63 Fábio Vergara Cerqueira enquanto a estrutura raiada devia ser de outro material, provavelmente madeira (Fig. 24). Essa rodinha é atravessada por uma longa cordinha dupla – na verdade, um único fio amarrado em uma das pontas. Na peliké Ruvo 36727 (Fig. 7), percebemos duas pontas do fio, na extremidade que a moça segura com a sua mão direita, indicando que ali foi dado o nó. Esse fio podia ser feito de uma “macia linha de lã vermelha de um cordeiro macio”, como lemos em um epigrama amoroso anônimo (Antologia Palatina, V.205). Figura 15: Peliké ápula de figuras vermelhas. The Tarrytown Group (RVAp p.542/354). c. 330-310 AEC Cremona, Museo Archeologico, D46. Castoldi; Volonté, 2022, p. 261-262, n. 402, pr. XXVII-XXVIII. A observação de um conjunto ampliado de iýnges aponta um aspecto dentado no perímetro do círculo, o que sugere um elemento estilizado que remete às cabecinhas do pássaro íynx (Fig. 16). Em alguns vasos, porém, a aparência difere. A rodinha aparece como uma circunferência com seu interior branco e rodeada por uma linha circular preta (Fig. 7). Não se trata de outro objeto, mas do efeito 64 Íynx visual quando posta em movimento giratório. Interessante observar que, mesmo ao representá-la em movimento, o pintor mantém o cuidado de mostrar as cabecinhas do passarinho que ornamentaria a roda mágica, como podemos constatar na peliké de Ruvo, apesar do apagamento parcial deste detalhe feito com adição de branco. Figuras 16 e 17: Figura 16 - Desenhos de íynx de acordo com pintura de vasos ápulos, em Gow, 1934, p. 1-13, fig. 4-5. Figura 17: Hydria ápula de figuras vermelhas. The Tarpoley Painter (RVAp 3/58). 400-380 AEC Londres, British Museum, F94 (1824,0501.20). CC BY-NC-SA 4.0 © The Trustees of the British Museum. Os p in to res de vaso fazem re fe rênc ia t ambém, alternativamente, a íynx como pássaro, como na hydria Londres F94 (Fig. 17) onde sua presença, identificada pelo pescoço esticado, visa ao mesmo efeito mágico que o uso da rodinha mágica. 65 Fábio Vergara Cerqueira Uso e manuseio da Íynx Um aspecto bastante interessante, em que a análise iconográfica permite avançar, é quanto ao modo de manuseio da íynx. É pouco comum ela aparecer suspensa no campo – mais adiante analisaremos um caso. Ela aparece mais usualmente sendo segurada pela mão de uma personagem, e basicamente de dois modos: com uma mão só, suspensa, quando notamos ser perpassada por um fio duplo (Fig. 1, 2, 3), ou sendo segurada com as duas mãos, pelas pontas deste fio duplo. Neste caso, o pintor pode representar a íynx em repouso ou sendo acionado o seu movimento giratório. Quando uma personagem segura a íynx pelos fios, em repouso, ela não pega a linha pela extremidade, como na peliké de Cremona (Fig. 15). Nesta posição, claramente o dispositivo não pode ser posto a girar. Já quando o pintor quer mostrar o dispositivo sendo usado na prática da magia, para efetuar o feitiço de amor, vemos que o fio duplo é preso aos dedos, especificamente com o indicador ou, às vezes, com o médio. Na peliké proto-lucânica de Metaponto (Fig. 18), um dos exemplares mais recuados da série italiota, datada do final do século V AEC, a noiva prende as pontas do fio usando o dedo indicador das duas mãos, mas o indicador da esquerda dobra-se para frente, parecendo ser uma posição realizada com o intento de gerar uma alteração no movimento giratório da íynx, ao puxar o fio. Na peliké de 66 Íynx Ruvo (Fig. 7), a noiva prende a extremidade direita do dispositivo com o indicador e a extremidade esquerda com o dedo médio. Figura 18a-b: Peliké proto-lucânica de figuras vermelhas. Proveniência: Metaponto, tumba 798. Pintor de Creusa. Final do séc. V AEC Metaponto, Museu Arqueológico. Foto: Fábio Vergara Cerqueira (2015). De excepcional interesse a cena representada em uma pyxis ática atribuída ao Pintor de Erétria, datada do último terço do séc. V AEC (Fig. 19). No entorno da kylix figuram cenas variadas de interesse nupcial, mostrando preparativos da noiva, com as personagens identificadas por inscrição. À direita da porta da casa, vemos a matrona Pontomedeia instruindo a jovem noiva, chamada Doso, em como manipular a roda mágica íynx. Figura 19a-b: Pyxis ática de figuras vermelhas. The Eretria Painter. Londres, British Museum, E744 (1874,0512.1). CCBY-NC-SA 4.0 - © The Trustees of the British Museum. 67 Fábio Vergara Cerqueira O mais comum era a posição horizontal ou levementeinclinada para esticar o duplo fio e fazer girar a roda. Mas encontramos também representações em que o movimento é feito com uma inclinação acentuada, praticamente vertical. Em um espelho etrusco hoje em Berlim, datado da segunda metade do século IV AEC, uma moça, sentada junto a um altar, faz a íynx girar, com os braços em uma posição bastante inclinada (Fig. 20). Em outro espelho etrusco, hoje em Perugia, datado do final do mesmo século, vemos no canto esquerdo a figura de Eros sentado, fazendo a íynx girar, em uma posição praticamente vertical (Fig. 21) Figura 20: Espelho etrusco de bronze decorado com incisão. Proveniência: Praeneste (Palestrina). Segunda metade séc. IV AEC Berlim, Staatliche Antikesammlungen, Fr 54. Zimmer, 1995, p. 156, fig. 35a. 68 Íynx Figura 21- Espelho etrusco inciso. Perugia, Museo Archeologico Nazionale, inv. 1004. 325-300 AEC Frascarelli, 1995, p. 74, fig. 6. Figura 22: Cratera em cálice ápula de figuras vermelhas. Pintor de Dario. 340-330 AEC Boston, Museum of Fine Arts, 1989.100. A peliké de Ruvo (Fig. 7) informa ainda outro detalhe importante: o duplo fio está enroscado (observamos com clareza na metade esquerda, pois no restante a coloração branca adicionada não se conservou). Isto resulta do seu movimento giratório, de sorte que a rodinha, após a linha dupla ter sido esticada com veemência, girará com força para um lado, até que o efeito deste movimento se esgote; e, como o fio ficou enroscado, iniciará então um movimento no sentido 69 Fábio Vergara Cerqueira oposto, e assim por diante, a cada vez com menos força, até que o impulso para este movimento giratório se esgote. Personagens mitológicos associados à Íynx: Eros e Afrodite Como apontamos inicialmente, a íynx é um atributo iconográfico da deusa Afrodite, como está claramente denotado no loutrophoros de Malibu (Fig. 1). Em uma cratera atribuída ao Pintor de Dario, hoje em Boston (Fig. 22), temos, no canto superior direito, uma cena de diálogo entre um rapaz sentado, com sandálias aladas, chapéu na mão esquerda e caduceu abaixado na mão direita, diante de um gênio alado, com um bambolê, apoiando-se no joelho da mulher sentada, à direita, que segura com a direita elevada um ramalhete e com a esquerda abaixada uma íynx. Podemos identificar aqui uma cena de diálogo entre Hermes e Afrodite, acompanhada por Eros. De tal modo a íynx se liga a Afrodite enquanto atributo, que mesmo seu paralelo etrusco, a deusa Thalna (identificada por inscrição), aparece representada com uma rodinha mágica em um espelho gravado por incisão do segundo quartel do século IV AEC . 7 Entretanto, é Eros que, tomando-a de empréstimo de sua mãe, aparece com mais frequência empunhando a rodinha mágica, chegando a Espelho de bronze etrusco, gravado por incisão. Segundo quartel do século IV AEC 7 Paris, Louvre, inv. 1723. Emmanuel-Rebuffat, 1988, 3a-d. 70 Íynx tornar-se até mesmo um atributo seu, como veremos em alguns exemplares da joalheria grega proto-helenística. Na pronochoe de Londres (Fig. 3), nesta cena que representa o amor entre Afrodite e Adônis, Eros tem numa mão a íynx e na outra uma bola, enquanto no campo, suspenso, está um sistro ápulo. Aqui os três objetos se combinam como símbolos da potência amorosa e funcionam assim como metáfora de uma felicidade conjugal idealizada. Já nestas cenas em que Eros se desloca, voando, por vezes ocupando a narrativa de todo um lado do vaso, trazendo objetos ligados ao culto a Afrodite, ele muitas vezes leva uma íynx entre estes objetos . É o caso da taça de Varsóvia (Fig. 23), em que, de um lado, 8 Eros voa para a esquerda, levando consigo um sistro ápulo e uma íynx, dirigindo-se ao encontro da figura feminina do lado oposto da taça, sentada no chão diante de uma planta arbustiva (mirto), portando um stéphanos com fitas e uma bandeja com oferendas, entre elas um ramalhete de mirto. Aqui, o sistro ápulo e a íynx, em vez de símbolos, são parte dos sacra enquanto instrumental de culto, utilizados na performance do ritual a Afrodite – o primeiro, como instrumento musical, o último, como um objeto mágico, mas ao mesmo tempo sonoro. A janela ao fundo indica que o ritual, de natureza pré-nupcial, Eros na iconografia ápula com frequência funciona como uma ponte de ligação 8 entre Afrodite e Dioniso, e este papel cultual dele como articulador das esferas destas duas divindades fica caracterizado pelos objetos que carrega, eventualmente combinando atributos das duas divindades, ou enfatizando um ou outro (HOFFMANN, 1966, p. 115-116; VERGARA CERQUEIRA, 2018, p. 291, 308). 71 Fábio Vergara Cerqueira ocorreria em um espaço externo próximo à unidade doméstica (VERGARA CERQUEIRA, 2022, p. 171). Figura 23: Taça ápula de figuras vermelhas. Varsóvia, Museu Nacional, 198126. CVA Varsóvia - Musée National V, pl. 10.3-4,7. Em alguns casos, o sistro ápulo dá lugar ao espelho, como objeto que acompanha a íynx. É o que nos mostra uma oinochoe trilobada do Vaticano, na qual vemos Eros apoiado em uma pilha de pedras, usando a íynx, ao mesmo tempo em que segura o espelho . 9 Novamente, aqui, os objetos representados não são apenas símbolos do domínio de Afrodite, mas sim parte do instrumental de culto. O que o pintor nos mostra, então, é Eros na ação de usar a íynx como dispositivo que alcança seu poder de magia da sedução ao girar, tendo aqui também o espelho um papel ritualístico. Oinochoe trilobada ápula de figuras vermelhas. Vaticano, Museu Gregoriano 9 Etrusco, inv. 18070. c. 340-320 AEC The Patera Painter. 72 Íynx Figura 24: Peliké ápula em estilo di Gnathia. Grupo de Konakkis, Grupo de Harpa de Nápoles (C) (Webster, 1968, n. 9 / 1). c. 340-330 AEC São Petersburgo, Hermitage, B.4571. CVA Hermitage VI, pr. 2.1. Foto: Fábio Vergara Cerqueira (2017). Em uma ânfora ápula em estilo di Gnathia conservada em São Petersburgo (Fig. 24), vemos Eros representado como adolescente, nu, sentado sobre o manto vermelho jogado sobre o solo. Aparatado com colar e braceletes no braço e perna direita, tem na mão esquerda erguida um tympanon, enquanto, com a direita abaixada, traz uma íynx. Um detalhe significativo aqui: a membrana do tympanon é decorada com o desenho de um aro raiado, duplicando assim a mensagem do aro com quatro raios, reforçando o valor mágico desta forma, impregnado aqui também a este instrumento de percussão que podia acompanhar a íynx em determinados usos ritualísticos. Seguindo a interpretação de Gisela Schneider-Herrmann (1970, p. 100), aqui talvez tenhamos não propriamente a representação do gênio alado, mas sim de um oficiante de culto. 73 Fábio Vergara Cerqueira A relação do objeto mágico íynx com Eros está evidenciada não só na pintura de vasos, mas também em outros suportes, como no brinco de ouro Museu Britânico 1877,0910.16 (Fig. 25), proveniente de Cuma, na Eólia, do último terço do século IV, etruscos analisados acima. Em cada brinco o ourives representou, como delicados pingentes, pares de Erotes segurando uma íynx com as mãos, esticando o fio e, portanto, no ato de fazê-la girar para alcançar seu efeito mágico. Data da mesma época um anel de cobre dourado, encontrado em uma tumba na necrópole da cidade grega de Náucratis, no Delta do Nilo (Fig. 26), que representa Eros agachado, voltado para a esquerda, enquanto aciona o movimento giratório da íynx, logo, performando seu uso mágico para uma conquista amorosa. Figuras 25a-b e 26: Figura 25 - Brinco em disco-pirâmide, com dois pares de Erotes com íynx. Proveniente de Cuma, Eólia. c. 330-300 AEC Londres, British Museum 1877,0910.16 (J1672-3). CC BY-NC-SA 4.0 - ©Trustees of the British Museum. Figura 26: Anel de cobre dourado. c. 350-300 AEC Proveniência: Necrópole de Náucratis, Egito. Londres, British Museum, 1888,0601.1. CC BY-NC-SA 4.0 - ©Trustees of the BritishMuseum. 74 Íynx Contextos associados à Íynx Na iconografia dos vasos ápulos, a presença da íynx se dá na maioria dos casos em cenas de rituais pré-nupciais, consorciando-se assim a uma série de outros signos/objetos que são articulados nas representações visuais destes rituais, os quais carecem de testemunho literário (VERGARA CERQUEIRA, 2022, p. 150;. SCHENEIDER HERRMANN, 1996, p. 113-116). A peliké de Dresden (Fig. 2) mostra em sua face secundária um ritual de iniciação amorosa do rapaz, oficiado por uma senhora. Nestas cenas, a íynx não costuma ser representada. Na cena principal, noivo e noiva já passaram pelos rituais próprios a cada gênero, e realizam uma das etapas do noivado, ele com um strigilis, ela com um espelho, objetos que indicam que ambos estão preparados para o casamento. Na retaguarda da noiva, uma senhora acompanha o ritual, abençoado pela presença de Afrodite (com sistro ápulo e espelho) e Eros, dispostos no campo superior. A senhora que monitora esta fase inicial do ritual de noivado, traz dois objetos usados em determinadas fases do ritual, o espelho e a íynx. Está presente aqui não como símbolo de Afrodite, mas como parte do instrumental ritualístico. Na peliké de Ruvo (Fig. 7), novamente Afrodite e Eros observam do alto o ritual, que agora é performado junto a uma pia lustral, abaixo da qual vemos uma roseira e, mais à direita, um mirto, plantas próprias ao reino da deusa do amor (TOUZÉ, 2009; LAMBRUGO, 2018, p. 343, 347-349). Aqui o pintor representa 75 Fábio Vergara Cerqueira exatamente o momento do ritual pré-nupcial em que a íynx é usada pela noiva, fazendo-a girar, para mobilizar sua potência mágica em prol da felicidade amorosa e sexual, a ser conquistada na vida conjugal pelas graças de Afrodite. Percebe-se como seu uso nos rituais pré- nupciais cabe à noiva e não ao noivo. Exemplo disto encontramos em um lebes gamikos de Nova Iorque (Fig. 27a-b), que representa cenas pré-nupciais em suas duas faces. Em um lado, temos (Fig. 27a) a noiva sentada sobre uma pilha de pedras, ao centro, ostentando em modo protocolar um espelho, diante do noivo, de pé, que lhe dirige uma coroa, pausada no ar acima do espelho – observe-se que Eros se aproxima para coroar o noivo. No lado oposto (Fig. 27b), estamos em um estágio mais da união entre os nubentes. Figura 27a-b: Lebes gamikos ápulo de figuras vermelhas. Group of New York 28.57.10 (RVAp II 18/190). c. 335-320 AEC Nova Iorque, Metropolitan 76 Íynx Museum, 17.46.2. Domínio Público. Disponível em: www.metmuseum.org. Acesso em: 30 ma 2023. Aqui a noiva, novamente a figura central, está sentada em um thronos, que representa o reconhecimento de seu status social de esposa – portanto avançou de nymphe para gyne. Quando o pintor coloca a noiva no thronos, seria uma indicação de que a cena ocorra no dia do casamento (SÖLDNER, 1993, 306; CAIN, 1989, p. 93; VERGARA CERQUEIRA, 2023). Abençoados por Afrodite e um par de Erotes dispostos no campo superior, noivo e noiva performatizam o ritual junto a um louterion, em presença da oficiante de culto, uma senhora, na retaguarda da noiva, com a mão levada ao espaldar do thronos. Esta senhora tem na mão uma bola, que representa a vida de infância que a futura esposa deixou para trás, mas o jogo de bolo possui também uma relação com o amor (recordando seu papel como ritual de transição de moças, para acessar à vida amorosa adulta), e até com a íynx, com um efeito de magia do amor, pelo movimento giratório (SCHNEIDER-HERRMANN, 1971, p. 125-126). O ato ritualístico desta etapa avançada da união entre os noivos se dá pelo encontro de dois objetos, a phiale, erguida pela noiva com a mão direita, e um stephanos, que o noivo segura acima da tigela com a sua direita. Cada um deles traz um objeto com a mão esquerda abaixada: ele, uma tainia (fita); ela, a íynx, o que indica o uso deste objeto em algum momento do noivado. A peliké de Cremona (Fig. 15) mostra-nos uma etapa avançada do noivado, realizada no espaço aberto, em que ambos, noivo e noiva, 77 Fábio Vergara Cerqueira sentam-se, lado a lado, ele sobre um diphros okladias e ela sobre um par de almofadas acomodadas sobre o solo . O casal está flanqueado 10 por duas senhoras, oficiantes do culto. A senhora diante da noiva traz uma bola e um sistro ápulo. Eros figura no campo superior, que é usualmente o campo das entidades neste esquema iconográfico, onde estas comparecem como símbolo visual de que as divindades aprovam o ritual. O deus, representado na forma infantil, traz um ramalhete de mirto e uma guirlanda, a qual ele aponta para um cisne, que simboliza a presença de Afrodite. Quero destacar aqui que o pintor representou o momento em que a noiva se prepara para acionar a íynx, pegando-a pelas pontas, para em seguida prender as extremidades em seu indicador ou médio, dar um estiraço no fio, e assim fazê-la girar. Algumas imagens deixam mais claro o uso da íynx durante ritual. Na peliké de Metaponto (Fig. 18), a noiva, sentada sobre um thronos, faz a íynx girar, voltando-se para um thymiaterion (incensário). Observe-se que o thronos e o incensário acomodam-se sobre um tablado (bema). Vinda da esquerda, uma mulher aproxima- se, trazendo uma phiale com oferendas. Também sobre o tablado, entre a noiva e o thymiaterion, um garoto, no qual podemos identificar a figura do pais amphitales. Este menino tem igualmente uma phiale A iconografia indica que a realização dos cultos a Eros e Afrodite podiam ocorrer 10 com frequência em santuários abertos, sem monumentalidade arquitetônica, na natureza, em bosques, de uso não permanente (LIPPOLIS, 2001, p. 233-239; SCHNEIDER-HERRMANN, 1971, p. 91; TODISCO, 2010, p. 267; VERGARA CERQUEIRA, 2022, p. 170). 78 Íynx na mão, de onde pega a oferenda fumegante que deposita sobre o incensário. Mesmo que o thymiaterion e a fumigação sejam ligados à veneração de diversas divindades, guardam uma relação especial com Afrodite, pois seu culto envolve perfumes ligados a seu reino (PROST, 2008, p. 98-99; HERMANY et al., 2005, p. 68-69; SIMON et al., 2005, p. 258-259). Assim, a peliké proto-lucânica metapontina mostra a possibilidade de associação entre o uso mágico da íynx e a fumigação, como formas de se buscar os favores de Afrodite para a felicidade amorosa. Em uma peliké hoje no Vaticano, vemos uma mulher, vestindo chiton acinturado e aparatada com colar de pérolas no colo e envolvendo o coque . Ela avança na direção de um altar, sobre o qual 11 ela projeta, com a mão direita, um espelho. Com a mão esquerda, traz uma cista, com um ramalhete de mirto, cujas folhas podem ser jogadas sobre o altar, para exalarem sua fragrância apreciada pela deusa. Na mesma mão, traz uma íynx, suspensa pelo fio duplo. Ela está se dirigindo ao altar para usar estes objetos no ritual que incluirá, como elemento central, o acionamento da íynx, colocando-a em rotação, para obter da deusa Afrodite os favores amorosos desejados. Já no espelho de Praeneste (Fig. 20), nós vemos a personagem feminina acionando a íynx sentada ao lado do altar. Pelike ápula de figuras vermelhas. The Painter of Vatican Z3 (vaso epônimo). c. 11 340-320 AEC Vaticano, Museu Gregoriano Etrusco, inv. 18130 (Z3). 79 Fábio Vergara Cerqueira Figura 28: Prato ápulo de figuras vermelhas. The Alabastra Group. c. 330-325 a. C. Leiden, Rijksmuseum von Oudheden, Coleção Schneider- Herrmann, n. 198. Desenho: Lidiane Carderaro. Todisco, 2002, p. 99, pl. XXVII.3. O último testemunho visual que analisaremos neste estudo é um prato da coleção de Gisela Schneider-Herrmann (Fig. 28), doado em 1992 pela própria arqueóloga ao final de sua longa vida ao Rijksmuseum von Oudheden, de Leiden . Pertence na verdade a um 12 par de pratos com representação da dança com véu, que era uma dança circular, caracterizada pelo movimentogiratório do corpo envolvido pelo manto esticado pelos braços escondidos sob este, e com o interesse especial despertado pelos diferentes graus de ocultação do rosto pelo véu ou pelo próprio manto (VERGARA CERQUEIRA, 2023; MARTIN, 2019; FRIESLÄNDER, 2001; HEYDEMANN, 1879). Era, portanto, uma dança que oscilava entre a pudicícia do corpo ocultado e a sensualidade das curvas que se revelavam sob o Doação feita como agradecimento, pois foi aí que ela e sua coleção se esconderam 12 da perseguição nazista durante a Segunda Guerra Mundial. 80 Íynx manto. O prato de Leiden é o único exemplar da pintura de vasos ápulos que vincula esta dança claramente a um espaço sagrado, de realização de culto, visto que a dança ocorre em frente a um pilar com funcionalidade de altar (CASSIMATIS, 2014, p. 167-169; SCHNEIDER-HERRMANN, 1971 , p . 125 ; VERGARA CERQUEIRA, 2018, p. 307-308), sobre o qual foram depositados dois pequenos objetos como sacrifício (ovos?). O prato da coleção Schneider-Herrmann mostra-nos que as comunidades do Sul da Itália do século IV AEC conheciam o uso ritualístico da dança com véu diante de altares. Mas o contexto espacial do prato ápulo não remete necessariamente a um santuário com monumentalidade arquitetônica edificada: o altar e a dançarina estão em um espaço aberto, na natureza, como indica a planta no chão, um mirto, que remete ao domínio de Afrodite. No entanto, no campo superior direito se vê uma janela ao longe, assim como na taça de Varsóvia (Fig. 23), que alude mais a um espaço edificado doméstico, como uma casa, do que a uma edificação templária. É possível então que esta moça performatizasse a dança com véu em um espaço religioso mais informal, ao ar livre e fora dos muros de um santuário, em altar posicionado mais próximo à residência (LIPPOLIS, 2001, p. 235; 2005, p. 95-101; VERGARA CERQUEIRA, 2022, p. 170), do mesmo modo que em outros cultos representados na pintura de vasos ápulos, sobretudo aqueles ligados à iniciação amorosa e à esfera de adoração à Afrodite e Eros 81 Fábio Vergara Cerqueira No prato de Leiden, seguindo o padrão de representação da dançarina velada (VERGARA CERQUEIRA, 2023; MARTIN, 2019; FRIESLÄNDER, 2001; HEYDEMANN, 1879), o manto cobre a cabeça e esconde os braços, o que é um dos aspectos essenciais desta coreografia. Mas, no momento da dança que o pintor quis representar, o rosto está completamente livre, de modo a vermos inclusive sua boca. Em frente à cabeça da dançarina, suspensa no campo, o pintor representou a íynx. Porém, tem mais um detalhe a ser observado: entre as cenas de dançarina velada na pintura dos vasos ápulos, trata-se do único caso em que a dançarina tem a boca claramente aberta, indicando que enquanto dança pronuncia palavras cantadas ou faladas – talvez algum encantamento, como aquele proferido pela cortesã Simaeta, conhecedora dos feitiços de amor (FARAONE, 2021, p. 651) , personagem central do Idílio II (“As Magas”), de Teócrito (c. 310 – 250 AEC), poeta natural de Siracusa, que viveu certo tempo na Magna Grécia, antes de se radicar por longo tempo em Cós, e, mais tarde, em Alexandria. Lembremos que entre o prato de Leiden e o Idílio de Teócrito a diferença é de pouco mais ou pouco menos de meio século. Há então um compartilhamento de ambiente geográfico e cultural próprio ao período helenístico inicial. Vale analisarmos neste prato um grau mais concreto de simbolismo do movimento giratório: gira a dançarina velada, gira a rodinha mágica, gira o pássaro mágico. Assim, o rodopio da dançarina 82 Íynx e da íynx aludem-se mutuamente, do ponto de vista simbólico, mas reforçam-se um ao outro, duplicando suas forças no campo mágico- místico. Há então um efeito mais profundo na associação entre a dança velada e a íynx neste ritual de performance coreográfica, ligado à finalidade mágica do objeto e à natureza mítica do pássaro que lhe dá nome. A presença da íynx então indica que a performance dançada diante do altar, representada no nosso prato, tem o escopo mágico- místico de um feitiço de amor, sendo compatível com o campo de ação de Afrodite e de Eros. Considerações finais: a Íynx, o feitiço de amor e seu uso ritualístico Em diferentes ocasiões algum personagem segura uma íynx em um ritual pré-nupcial, o que reforça a crença no seu poder místico propiciatório às conquistas amorosas e à esperança de felicidade na vida conjugal. O uso mágico da íynx, empregado em feitiços que demandam dádivas amorosas (PÍNDARO, Píticas, IV.10.216-220.), está exemplificado em Teócrito, Idílio, II.17sq., em que a palavra é usada em um mantra repetido por nove vezes, ῏Ιυγξ, ἕλκε τὺ τῆνον ἐµὸν ποτὶ δῶµα τὸν, “Íynx [roda mágica], traga para minha casa o meu homem” . Trata-se do feitiço de amor que Simaeta pronuncia por 13 dez vezes, evocando os poderes de íynx para trazer de volta o homem Tradução livre pelo autor. “Ó îunks, arrasta tu aquele homem até minha casa!”, na 13 tradução de Giuliana Ragusa (2004, p. 22), muito próxima de “Ó íynx, arraste aquele homem até a minha casa”, de Milton Torres (2002, p. 188-189). 83 Fábio Vergara Cerqueira que ela ama, chamado Delphis. Cada refrão equivale a uma nova volta da íynx, que completa assim dez voltas ao todo, enquanto o encantamento é entoado (SEGAL, 1973, p. 33). Os usos e representações da íynx indicam uma situação em que as fronteiras entre magia e religião se dissolvem. Esse poder de dissolver fronteiras é de resto algo que o amor tem a capacidade de aplacar. E a natureza sonora da íynx guarda ainda um aspecto a ser considerado quanto esta potência mágica. A sua genealogia, sendo filha de Peitó e de Eco, a inscreve no domínio do som, aquele articulado pela palavra que seduz e aquele que é todas as vozes (DETIENNE, 1972, p. 162). Como lembra Pierre Chantraine (1968, p. 473), quanto à etimologia do termo, íynx é uma “formação expressiva, com em certos nomes de pássaros ou de instrumentos musicais: πῶυνξ (pōynx), στρίυξ (stríyx), σύρυνξ (sýrinx)”. De fato, o sufixo -ynx é recorrente na denominação de instrumentos musicais: além da sýrinx (flauta de Pã) apontada por Chantraine, podemos incluir a salpinx (trombeta) e a phorminx (cítara de tradição homérica com base arredondada). Daí que a natureza sonora é uma característica que é quase imanente à íynx. É possível que o tipo de som produzido pelo movimento giratório aplicado à íynx – som soprado, zumbido, flautado, sibilado, como sugerem as qualidades sonoras associadas ao termo – tivesse algum papel nos rituais ligados Afrodite e Eros, evocados pela 84 Íynx iconografia italiota, ou a outras divindades, como Sêmele, Ártemis e Hécate, evocadas no Idílio de Teócrito sobre as feiticeiras. Para Vesa Matteo Piludo (2010), “a roda ao girar faz um zumbido. A íynx produz um som acelerado, ventoso e zumbido. O resultado final soa como uma respiração pesada, que, no contexto, novamente tem conotações apaixonadas óbvias”. Ele acrescenta, “o som ventoso da íynx pode ser associado com o pneuma divino (onde se mesclam vento, respiração, espírito e, assim por diante, inspiração)”. Acredito que estas qualidades sonoras se somaram a outros aspectos analisados acima, para reforçar a crença na sua magia do amor. Nas fontes literárias, o poder mágico da íynx é solicitado para satisfazer vontades sexuais externas ao casamento, relacionamentos complicados, pouco duradouros, instáveis e malfadados, objetivando a sedução sexual e o desejo de reconquistar um amor perdido (TORRES, 2002, p. 195; p. 202; SEGAL, 1981, p. 76; 1973, p. 33). A magia de amor da íynx, na análise de Marcel Detienne (1972, p. 159-172), marcaria a antítese entre o casamento e a sedução, entre o amor legítimo e o ilegítimo. Ora, essa interpretação, balizada nas referências mitológicas e na evidência literária não encontra respaldo na iconografia dos vasosápulos, que vincula o uso da íynx sim ao amor matrimonial. A pintura dos vasos italiotas dá ênfase ao uso mágico da íynx em rituais em que a futura esposa se prepara para a vida conjugal, expressando sua crença na intercessão mágica de Afrodite e Eros para alcançar sua felicidade amorosa... e sexual. 85 Fábio Vergara Cerqueira Referências Documentação Imagens Loutrophoros ápulo de figuras vermelhas.Pintor de Louvre MNB 1148. c. 330 AEC Malibu, J.Paul Getty Museu, 86.AE.680. Public Domain. @ Paul Getty Museum - Open Content Program. Disponível em https://www.getty.edu/art/collection/object/103WEG. Acesso em: 30 mai 2023. Peliké ápula de figuras vermelhas. The Egnazia Group (RVAp 18/140). c. 340-330 BC. Dresden, Staatliche Kunstsammlungen, DR526. CVA Dresden 1, pr. 4-5. ©Skulpturensammlung, Staatliche Kunstsammlungen. Foto: Elke Estel/Hans-Peter Klut. Agradeço a colaboração de Barbara Anderson. Pronochoe ápula de figuras vermelha. Proveniência: Ruvo, Apúlia. Grupo de Copenhague 4223. c. 340-320 AEC Londres, BM, F373 (1856,1226.50). 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Foi quando o ministro dos espiões Jiang Chong 江充 levou até o imperador a suspeita de que atos de magia estavam sendo praticadoscontra ele e, possivelmente, contra outros membros do governo. Wudi autorizou uma busca no palácio por objetos que pudessem indicar a prática da feitiçaria, e vários bonecos [‘Tongmu ouren’ 桐⽊偶⼈] foram desenterrados no jardim, junto com pequenos retalhos de seda com imprecações escritas. O soberano ficou apavorado: faziam anos que ele tinha pesadelos recorrentes com fantoches mágicos que vinham atacá-lo, e encontrar esses objetos apenas confirmava seus receios mais profundos. Anos antes, Wudi já decretara leis mais Tem graduação em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1997), 1 mestrado em História pela Universidade Federal Fluminense (2002), doutorado em Filosofia pela Universidade Gama Filho (2005) e Pós-Doutorado em História Antiga pela UNIRIO. É professor adjunto de História Oriental na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). 93 André da Silva Bueno severas para regular e supervisionar a prática da magia, e sentia que isso deixara muitos feiticeiros descontentes, relegando-os a um papel de segundo plano no cenário religioso. Parecia, pois, que o momento de uma grande vingança ou golpe se desenhava. A histeria tomou conta da corte, e as investigações tomaram proporções inimagináveis. Acusações foram feitas contra a imperatriz Wei Zifu 衛⼦夫 e seu filho, o príncipe herdeiro Liuju 刘据, e o processo descambou numa guerra civil aberta pelas ruas da capital imperial, que culminou na morte da imperatriz, do príncipe e de Jiang Chong, além de milhares de pessoas. Pouco tempo depois, Wudi descobriu que as concubinas do seu harém faziam avidamente os mais diversos tipos de feitiços para serem favorecidas e prenderem sua atenção. Com a ajuda de bruxos especialmente convocados para debelar esse ataque mágico, foram identificadas as mulheres e outros membros da corte envolvidos no caso, e mais centenas de pessoas – e até mesmo alguns clãs inteiros – foram condenados e executados. Antes de falecer poucos anos depois, Wudi ainda endureceria um pouco mais as leis contra feitiçaria, praticamente afastando-a da esfera imperial durante um bom tempo. Esse episódio ficou bastante conhecido não apenas por suas implicações políticas, mas por revelar a dimensão que a magia possuía no imaginário chinês antigo. Ele foi extensamente analisado por especialistas como Michael Loewe (1974), Hu Xinsheng 胡新⽣ 94 Fei=çaria e Alquimia na China An=ga (1997), Xin Deyong ⾟德勇 (2016) e Chen Chao 陈超 (2017), que concordam que a feitiçaria teve aí um papel fundamental na definição das acusações, medos e paranoias que conduziram o processo de investigação do caso. Embora houvesse uma série de outras conspirações envolvidas nessa trama, os atos mágicos serviram como a grande causa e o problema fundamental a ser resolvido. Esse episódio mostra um aspecto pouco conhecido pelos leitores ocidentais sobre a história chinesa: a importância das práticas de feitiçaria [Wushu 巫术]. Como veremos, elas estavam intimamente ligadas às origens da civilização, e compunham um elemento importantíssimo na construção das crenças religiosas. Seria no período Qin 秦 - Han 漢 que uma mudança gradual se imporia na relação da sociedade com a feitiçaria, pelos mais diversos motivos. Nosso objetivo neste breve ensaio será, pois, apresentar um pouco sobre esse tema tão rico nas tradições culturais chinesas, fazendo um pequeno percurso histórico na antiguidade e apresentando algumas de suas práticas mais conhecidas. Origens históricas A feitiçaria é indissociável da história chinesa desde suas origens. Os termos ‘feitiçaria’, ‘magia’ e ‘bruxaria’ [Wushu 巫术] são usados de forma sinonímica, na China, para designar as tradições 95 André da Silva Bueno mágico-xamânicas herdadas e desenvolvidas desde o neolítico, e que continuam a acompanhar a sociedade até os dias de hoje [um outro termo, ‘Mofa’ 魔法 tem sido usado para indicar ‘mágica’ ou ‘magia’ ocidental, tendo surgido somente no século 19 ou 20 EC, e por isso não será usado aqui]. A historiografia tradicional chinesa produziu trabalhos importantes sobre o tema (LIN, 2016; YANG, 2018), mas a fundação da República em 1912 e depois, a ascensão do Marxismo em 1949 na China continental relegou as pesquisas sobre feitiçaria a um segundo plano. Foi no final do século 20 que estudos como ‘Feitiçaria na dinastia Han’ 漢代的巫者 de Lin Fujin 林富⼠ [1987], ‘Bruxaria Chinesa’ 中国巫术 de Zhang Zichen 张紫晨 (1990) ou ‘História da Feitiçaria Chinesa’ 中国巫术史 de Gao Guofan ⾼国藩 (1999) marcaram uma renovação nas pesquisas sobre as conexões entre as crenças mágicas chinesas e as origens ancestrais da cultura chinesa; mais recentemente, o mesmo Lin Fuji publicou ‘O Mundo dos Feiticeiros’ 巫者的世界 (2016), considerado o mais completo e seminal trabalho sobre o tema na historiografia contemporânea, no qual ele apresentava uma radiografia completa sobre a história e as práticas da bruxaria na China. Dois anos depois, o destacado pensador Li Zehou 李泽厚 publicou um importante estudo sobre as relações entre o desenvolvimento da filosofia chinesa e o xamanismo, 96 Fei=çaria e Alquimia na China An=ga ampliando esse campo em novas e férteis direções (LI, 2018; ROSKER, 2021). O que esses trabalhos têm em comum? Eles exploram como a feitiçaria estava na base da organização cultural desde os primórdios da civilização chinesa. Para eles, os xamãs contribuíram significativamente para a construção do imaginário social e religioso, elaborando as primeiras crenças religiosas e explicando suas implicações no cotidiano da comunidade. Obras como O Xamanismo e as técnicas arcaicas do êxtase, de Mircea Eliade (1998), serviram para nortear nossa compreensão epistêmica sobre o papel dos xamãs nas comunidades antigas; mas no caso chinês, elas precisam ser modificadas e ampliadas em certa medida. Li Yujie 李禹阶 (2020) mostrou como o crescente número de achados arqueológicos em tumbas neolíticas revela uma forte identidade entre as lideranças comunitárias e os xamãs, expressa por ornamentos e objetos ritualísticos como joias de jade, ossos e marfins esculpidos, máscaras e cerâmicas com pinturas de cunho mágico. Esses objetos integravam o arsenal do qual o bruxo se valia para desempenhar seu papel junto à sociedade, que se desdobrava em várias atividades diferentes [mas integradas], como veremos agora. Em primeiro lugar, cabia ao xamã a tarefa crucial de manter contato com o mundo espiritual, tanto no nível divinal [manifesta nas forças e símbolos naturais, como a Lua, o Sol, os rios, os ventos, o 97 André da Silva Bueno trovão, os animais] quanto com as almas desencarnadas dos membros da comunidade. Para isso, ele entrava em transe mediúnico, que podia se dar de duas formas diferentes: saindo do corpo físico para conversar diretamente com os espíritos e divindades, ou deixando que as mesmas assumissem seu corpo para manifestar suas vontades e avisos [usualmente conhecido como ‘possessão’]. Note-se que nesse momento da história chinesa – que os especialistas estimam entre o 8.000 a 7.000 anos atrás – as pessoas escolhidas para serem xamãs manifestavam desde a infância sinais de sensibilidade especial, e iniciavam cedo o treino na tarefa de se tornarem especialistas em artes mágicas, estudando-as ao longo de vários anos. Por isso, não havia distinção de sexo, e tanto mulheres quanto homens podiam ser xamãs, em chinês designados genericamente pelo termo ‘Wu’. Mas continuemos com as atividades dos xamãs: o intercâmbio com o mundo espiritual era fundamental para administrar a vida comunitária. Zhao Rongjun (2004) afirmou que o contato com as divindades servia para garantir a proteção e a continuidade da vida, expressa pelo conhecimento dos ritmos da natureza [a variação das estações, os ciclos dos astros], o desempenho das cerimônias e sacrifícios às divindades, e pela invocação da chuva. Em uma sociedadeagrícola, tais conhecimentos eram cruciais para a sobrevivência. No mesmo sentido, as divindades podiam ajudar em processos de cura; elas podiam orientar o uso e a fabricação de 98 Fei=çaria e Alquimia na China An=ga remédios e poções a partir de materiais naturais [dando partida a milenar farmacopeia chinesa], ou auxiliar no tratamento de doenças espirituais. Numa delas, por exemplo, a alma de uma pessoa ‘fugia’ para o mundo espiritual, e cabia ao xamã ir buscá-la em transe, guiado pelas divindades e espíritos familiares, trazendo-a novamente para seu próprio corpo. No dia-a-dia, xamãs também interpretavam sonhos, aconselhavam as pessoas em suas dúvidas particulares, davam orientações e agiam como uma espécie de ‘psicanalista’. Quanto aos espíritos que foram membros da comunidade, eles continuavam a supervisionar e auxiliar a vida de suas famílias, desenvolvendo-se aí a base do culto aos ancestrais, que se tornaria um pilar da mentalidade chinesa. Não raramente, eles vinham em sonhos dar avisos, ajudavam no processo de cura das doenças espirituais e auxiliavam os xamãs em suas tarefas. Ocasionalmente, eles podiam interferir [até certo ponto] na vida cotidiana, atuando sobre os indivíduos de modo benéfico ou maléfico, o que mantinha uma relação contínua do mundo material com o espiritual. Isso teria profundas implicações éticas, gradualmente delineando padrões de moralidade e ritualidade que estruturaram as regras sociais (CHU, 2008; ROSKER, 2021). Se xamãs podiam ser curandeiros, também podiam defender a comunidade ou servir a interesses particulares por meio de ações mágicas. Um dos conhecimentos que precisavam dominar era o da produção de venenos e poções mágicas, como filtros amorosos ou 99 André da Silva Bueno estimulantes para guerreiros. Também realizavam predições por meio dos mais variados oráculos, tais como o transe, sonho, o jogo de ossos, leitura de sinais da natureza, entre muitas outras formas. Além disso, eles expulsavam fantasmas e espíritos malévolos da comunidade, mas também sabiam como convocá-los para prejudicar alguém; e os chineses já conheciam o feitiço de imantação, no qual uma pequeno boneco de madeira [Tongmu ouren 桐⽊偶⼈] era produzido como réplica de alguém para gerar efeitos mágicos indiretos mediante a aplicação de agulhas, facas ou calor [o mesmo que teria sido usado contra Wudi, como citamos no início]. A compreensão dos ciclos naturais lhes permitiria, ainda, realizar feitiços para invocar pragas, pestes, secas, inundações, provocar tempestades ou causar desastres aos inimigos em meio a uma guerra. Como podemos notar, a feitiçaria xamânica abrangia os mais variados aspectos da vida, articulando as crenças em uma existência espiritual após a morte com a condução dos negócios cotidianos. Xamãs contribuíam dentro da comunidade para organizar os costumes, definir conceitos éticos norteadores, estabelecer relações políticas e econômicas e interpretar o imaginário religioso (WU, 1999; LI, 2020, p. 170). Podemos conectar as raízes de várias tradições chinesas com essas expressões da feitiçaria, tal como o culto aos ancestrais, derivado do contato com os espíritos familiares; a tradição fitoterápica herdada das experiências de curandeirismo; ou o pensamento cosmológico, 100 Fei=çaria e Alquimia na China An=ga inferido pela gradual construção de sistemas que explicassem o ritmo da natureza. Wu Jindong (2002) defendeu que a feitiçaria seria a base das concepções religiosas e sociais da China antiga, e que teria continuamente servido de alicerce para o imaginário religioso dessa civilização; no mesmo sentido, Li Tiandao (2009) propôs que a estruturação estética dos elementos culturais chineses teria uma profunda conexão com a mundivisão cósmica do xamanismo chinês, estabelecendo padrões simbólicos que se reproduziriam nos mais diversos campos como música, poesia, arte e ciências naturais. Entre o popular e o institucional Em torno do terceiro milênio AEC, o processo de urbanização levou a uma complexificação das relações sociais, com o surgimento de novos grupos, classes e estamentos em ambientes cada vez mais diversos. O surgimento de clãs governantes nessas cidades gradualmente deslocou o espaço de poder do campo para as áreas urbanas, embora a China se mantivesse uma civilização agrária. O desenvolvimento tecnológico deu um grande salto, com um manejo sofisticado de metais, escultura e cerâmica que deu aos chineses, em torno do séc. 17 AEC, a capacidade de produção em massa de vários objetos (LEDDEROSE, 2000, p. 25-50). Os efeitos do surgimento das cidades e da formação de uma classe política reconfigurou a relação da sociedade com os xamãs- 101 André da Silva Bueno feiticeiros. Como vimos, a escolha desses especialistas se dava desde a infância a partir de um perfil específico, e esse processo de identificação-iniciação era evidentemente mais fácil de ser realizado dentro de uma comunidade aldeã. Nas cidades, a situação tornara-se diferente. O grande número de pessoas, bem como a formação de um corpo administrativo com bases clânicas, ensejou mudanças nas relações com os especialistas no sagrado. Eles mantiveram um prestígio significativo, e continuaram a ser convocados nas cortes para prestar sua assistência em assuntos mágicos, mas sua capacidade de atuação e influência ficou reduzida, em face do seu número limitado. Um dos resultados mais evidentes desse conjunto de mudanças foi o surgimento da escrita e seu oracular em carapaças de tartaruga e patelas bovinas no período Shang 商朝 [1500-1027 AEC], o que transferiu a capacidade de realizar augúrios para as mãos de não- feiticeiros (Keightley, 1985). Vários dos conhecimentos xamânicos, como a astronomia, o calendário, o cerimonial e a farmacopeia se disseminaram na sociedade, e passaram por um processo de institucionalização [ainda que lento e relativamente limitado] que transferia, para o governo, a sua manutenção, difusão e reprodução. Ao longo da extensa dinastia Zhou [1027-221 AEC], a feitiçaria cedeu espaço à formação de uma religião oficial governamental, que pretendia conectar as divindades diretamente a classe governante, instituindo uma visão racionalizada da natureza que 102 Fei=çaria e Alquimia na China An=ga a compreendia como um sistema ecológico complexo, mas não necessariamente mágico (BUENO, 2014). A atuação de xamãs ficou bastante restrita aos ambientes extra-urbanos, e suas concepções religiosas mantiveram-se mais presentes nos meios popular e rural. Um texto do séc. 5 AEC, o Guoyu 國語, explicava numa breve passagem como o desenvolvimento histórico da civilização chinesa havia dissipado a importância dos xamãs, através da mudança dos padrões religiosos: Antigamente, pessoas e espíritos não se misturavam. Nessa época, havia pessoas que eram sensíveis, determinadas e reverentes, e elas conseguiam alcançar a compreensão do que está acima e do que está abaixo, do que estava longe e do que é profundo. Por essa razão, os espíritos desciam neles. Os possuidores de tais poderes eram, se homens, chamados Xi 覡, e, se mulheres, Wu 巫. Eles cuidavam dos espíritos nos rituais, sacrificavam a eles e ensinavam as coisas espirituais. [...] Assim, o mundo dos espíritos e o mundo das pessoas permaneciam separados. Os espíritos enviavam suas bênçãos sobre as pessoas e aceitavam suas oferendas. Não havia calamidades naturais, e os pedidos eram atendidos. Mas no tempo do famigerado Shaohao 少昊 [imperador que teria reinado no século 26 AEC] os Jiuli 九黎 [tribos antigas semi-lendárias que teriam se tornado célebres por suas práticas de feitiçaria malévola] transformaram a virtude em desordem. Pessoas e espíritos começaram a se misturar, e cada família começou a fazer rituais que até então só os xamãs faziam. As pessoas passaram a desrespeitar os espíritos, e os espíritospassaram a incomodar as pessoas, surgindo aí as calamidades naturais. O sucessor de Shaohao, Zhuanxu 顓頊 [2514 AEC? – 2436 AEC?] [...] encarregou Chong, Governador do Sul, de cuidar dos assuntos do céu para determinar o lugar apropriado dos espíritos, e Li, Governador do Fogo, de cuidar dos assuntos da Terra, a fim de determinar o lugar próprio dos humanos. E é isso que significa ‘cortar a comunicação entre o Céu e a Terra’ (Guoyu 國語, 楚語下 10). 103 André da Silva Bueno Como podemos notar, o xamãs teriam tido um papel importante numa Era idealizada do passado chinês, mas a corrupção dos costumes e do uso da magia havia feito sua posição declinar, e fora necessário a intervenção de oficiais da corte para instituir o monopólio sobre a conexão com o mundo espiritual, o ato de ‘cortar a comunicação entre o Céu e a Terra’ [Jueditiantong 绝地天通]. Esse conceito se tornaria uma peça chave nas políticas públicas sobre a bruxaria no futuro, como veremos adiante. Mesmo assim, é preciso cuidado em delimitar radicalmente essas diferenças; como podemos perceber, mesmo a cultura ritual urbana derivava, em muitos aspectos, das tradições surgidas na feitiçaria, e a religiosidade chinesa antiga pode ser apropriadamente denominada como ‘Wujiao’ 巫教 [Ensinamento dos Xamãs] ou ‘Shenjiao’ 神教 [Ensinamento dos Espíritos]. O que começaria a mudar então a partir do século 3 AEC, durante o período Qin-Han? A feitiçaria no período Qin e Han A dinastia Qin [221-206 AEC] constituiu um breve, porém importantíssimo, período da história chinesa. Após uma demorada guerra civil, que se arrastou de 481 até 221 AEC [Zhanguo 戰國], o estado de Qin conseguiu reunificar o país em torno de um estado centralizado, imprimindo uma nova ordem burocrática de poder no 104 Fei=çaria e Alquimia na China An=ga país. Nesse meio tempo, a China atravessou momentos importantes, como a revolução do pensamento ético-político promovida por pensadores como Laozi ⽼⼦[séc. 6 AEC], Confúcio 孔⼦[551-479 AEC], Mozi 墨⼦[470-391 AEC] e Hanfeizi 韓⾮⼦[280-233 AEC], entre outros, que trouxeram a luz o problema da racionalização filosófica sobre o conhecimento e a existência humana. Esse movimento contribuiu fortemente para a formação de uma intelectualidade atuante, que se distinguia dos xamãs por entender que os problemas do mundo se situavam em um plano imanente, ou seja, voltado para as relações entre os seres humanos e a natureza no plano físico da existência. Ainda que o primeiro monarca de Qin, Qinshi Huangdi 秦始皇 帝 [260-210 AEC] perseguisse as divergências políticas e filosóficas ao seu regime (Bueno, 2015), o princípio fundamental de manter o monopólio de uma razão de estado em suas mãos consolidou-se, e suas políticas públicas se conduziram a partir de um pensamento filosófico legalista. Isso significou um afastamento cada vez maior entre a esfera religiosa tradicional e popular, representada pela feitiçaria, e as instâncias governamentais urbanizadas. Qinshi Huangdi tentou construir para si uma dimensão messiânica, pretendendo reformular-se divinamente no imaginário chinês em um projeto malsucedido, mas que gerou impactos significativos na ideologia de governança (PINES, 2014). Mesmo assim, o soberano Qin não 105 André da Silva Bueno desprezava a magia de forma alguma, e investiu assiduamente em poções e remédios que pudessem estender sua vida [e que foram provavelmente, a causa de sua morte] (NEEDHAM, 1970). Foi nesse período que o governo imperial começou também a impor legislações mais severas sobre as práticas mágicas, pretendendo controlar seus efeitos e sua influência. Aparentemente, no desejo de controlar a sociedade, Qinshi Huangdi entendia que os feiticeiros poderiam agir de forma sutil contra o Estado e seu aparelho, e por isso, precisavam ser vigiados de perto (DUAN, 2014; YANG, 2018). Essas ações revelam que a elite burocrática imperial, apesar de intelectualizada, continuava a acreditar firmemente na feitiçaria, e é provável que recorressem a ela usualmente. A pressão política e social sobre os feiticeiros pode ter sido responsável pela disseminação mais intensa, nesse período, da magia Gu 蠱, um conjunto de práticas e feitiços malévolos que se tornaram muito comuns na China, como analisado por Li Hongru 李鸿儒, 2021, cujo trabalho explica a cultura do veneno Gu na antiguidade. As evidências da existência de Gu remontam ao período Shang e Zhou, e aparecem pontualmente nos oráculos e textos, mas sem uma explicação mais detalhada (LI, 2021; DU, 2016). É em Qin que começamos a saber no que consistia exatamente a prática Gu: acreditava-se que era possível produzir um veneno terrível a partir da mistura de várias toxinas naturais. Para isso, os magos despejavam em 106 Fei=çaria e Alquimia na China An=ga um mesmo recipiente fechado animais peçonhentos como cobras, sapos, aranhas e escorpiões e deixavam que eles exterminassem uns aos outros. No final, o animal que sobrevivesse deveria ser o mais resistente, o mais venenoso, e seu corpo conteria uma mistura letal de toxinas. Sua peçonha [ou seu sangue] seria então retirada, guardada e usada em poções ou administrada contra as possíveis vítimas. Gu podia ser usado para envenenar inimigos e eliminá-los de modo fulminante, mas também podia ser diluído para criar feitiços de amarração amorosa. Supõe-se que o veneno Gu podia ser usado para dominar a mente das pessoas ou criar zumbis/vampiros [Jiangshi 殭 屍] sobre o controle do feiticeiro; para isso, deixava-se que lesmas nascessem dos corpos dos animais mortos na produção da peçonha. Elas eram recolhidas e então buscava-se um meio para que uma delas fosse inserida no corpo da vítima, fosse por alimentos ou por uma cavidade do corpo. Esse parasita, controlado magicamente a distância pelo feiticeiro, passaria a habitar dentro da pessoa infectada, tomando sua consciência e tornando-a submetida à vontade do mestre Gu. Para combater o feitiço Gu, havia dezenas de meios diferentes, que envolviam desde exorcismos aos mais diversos tipos de remédios herbais e minerais, mas o tratamento era considerado difícil e sofrido (YUAN, 1995). É possível que o grande número de parasitoses causadas por alimentos contaminados fosse o principal subsídio para a crença na efetiva ação dos feitiços Gu; seja como for, essa prática se 107 André da Silva Bueno consolidou como uma das principais ameaças mágicas na civilização chinesa. O potencial de perigo representado pela magia Gu atravessou o período Qin e chegou a dinastia Han [221 AEC – 206 EC], período em que viveu Wudi, o soberano citado na abertura deste capítulo. Embora a dinastia Han fosse muito mais condescendente e liberal do que Qin, em grande parte graças a adoção do Confucionismo com ideologia imperial, a feitiçaria continuou a ser uma preocupação central nas instâncias políticas. Uma legislação severa foi criada e aplicada após o incidente com o imperador, aumentando o controle e a supervisão sobre xamãs e pessoas que praticassem bruxaria (XIN, 2016, p. 122-124). Pessoas que fossem pegas praticando Gu deveriam ser executadas e esquartejadas, e as partes de seu corpo queimadas – descobriu-se, com o tempo, que os praticantes de magia tentavam obter partes desses mesmos corpos para realizar seus encantamentos e poções, por acreditar que eles continham o poder acumulado em vida, o Qi 氣[energia, pneuma] do feiticeiro. Ao mesmo tempo, a burocracia incorporou feiticeiros ‘oficiais’ na corte, especialistas em detectar e evitar ataques mágicos aos soberanos. Apesar deles serem recrutados entre os tradicionais xamãs, a magia continuaria sobrevivendo cada vez mais nos meios rurais, sendo rigorosamente filtrada nas práticas religiosas institucionalizadas. Como Lin Fuji [1987] observou, a teoria ‘Jueditiantong’ [Cortar a comunicação entre o Céu e a Terra] se 108 Fei=çaria eAlquimia na China An=ga tornaria o centro de uma mudança nas atitudes estatais em relação à magia, marcando uma nova fase na vivência religiosa dessas crenças. A dinastia Han demarca o mais baixo nível de status da bruxaria na antiguidade chinesa frente a burocracia e as camadas intelectualizadas da sociedade [HU, 1996; MA, 2001]. Wang Chong 王充 [27-100 EC], uma dos críticos mais ativos desse longo período, afirmava que ‘quando se fala de exorcismos e sacrifícios, ele são inúteis; quando se fala de feiticeiros, eles não têm poder; tudo depende do ser humano e de suas virtudes, e não de fantasmas e de sacrifícios’ [Lunheng 論衡, 解除:12]. Tamanho desprestígio não era o único problema com que os feiticeiros teriam que lidar. Eles ainda enfrentariam uma nova ameaça a sua já combalida autoridade: os ‘Fangshi’ ⽅⼠. Da Feitiçaria à Alquimia Os eventos que atingiram a corte Han durante o reinado de Wudi não apontavam somente para um ‘declínio’ da magia, mas envolviam também a ascensão do ‘Fangshi’ ⽅⼠, um novo tipo de especialista mágico que começou a frequentar as altas rodas da sociedade chinesa. Desde a época de Qin, surgira um interesse renovado em métodos para prolongamento da vida e manutenção da saúde. Esse movimento vinha tanto da racionalização intelectual, que ensejou a 109 André da Silva Bueno construção de uma ciência médica, quanto da preocupação palpável contra conspirações e envenenamentos, uma prática comum nos meios políticos. Enquanto isso, o período de guerra civil que precedera a ascensão de Qin havia lançado ao mundo milhares de pensadores que estavam agora desempregados, com exceção daqueles que haviam se submetido ao regime severo da nova burocracia imperial. Isso significou um importante movimento de disseminação de saberes na sociedade, disponibilizando ao público um imenso acervo de conhecimentos e preocupações filosóficas, que permitiram a uma vasta parcela de pessoas repensar suas relações com o imaginário cultural e religioso. Os Fansghi surgiram na esteira desses acontecimentos. Embora seja difícil rastrear ou construir um perfil social de suas origens, sabemos que eles compartilhavam um conjunto de saberes estruturados de forma muito similar [para isso, podemos consultar o ainda referencial trabalho de De Woskin, 1983]. Não por acaso, os sinólogos ocidentais começaram a traduzir o termo como ‘alquimista’, já que algumas das propostas dos Fangshi iriam coincidir, inclusive, com seus homólogos da Europa. A concepção geral que permeava as ações e ideias desse grupo era de uma racionalização cientificizada das crenças e sistemas propostos pelos xamãs, afastando-as da esfera espiritual para a do mundo material (ELIADE, 1995, p. 63-65). Ou seja: segundo eles, seria possível elaborar medicamentos ou métodos 110 Fei=çaria e Alquimia na China An=ga de cuidado com a saúde que não envolvessem relações com os espíritos ou qualquer tipo de compromisso moral. Essa proposta atendia diretamente a uma camada privilegiada da sociedade que pretendia viver mais e melhor, mas sem ter que se preocupar com deveres e ofícios religiosos mais austeros. Os Fangshi ainda elevaram ao máximo o expoente do curandeirismo, afirmando que seria possível obter alguma forma de imortalidade física [Xian 仙] pelos métodos por eles defendidos; e isso, nem mesmo os feiticeiros ou os médicos foram capazes de propor em qualquer momento. Qinshi Huangdi permitiu que alguns Fangshi frequentassem sua intimidade, e experimentou algumas de suas fórmulas. Depois dele, o mundo chinês entrou na dinastia Han mais aberto e tolerante, mas não menos desejoso de soluções miraculosas. O imperador Wudi, de quem já falamos antes, foi também um vívido interessado nos métodos Fangshi, e recebeu a visita de um mestre famoso, Li Shaojun 李少君, que teria explicado a ele alguns dos segredos da longevidade, conforme nos conta Sima Qian 司⾺遷 (145-86 AEC) no capítulo 28 do Shiji 史記; contudo, a morte de Li alguns anos depois deixou no ar a impressão de que os Fangshi poderiam ser charlatões. Parece improvável para nós, hoje, que alguém realmente acreditasse ser possível tornar-se imortal; mas naquela época a ciência ainda engatinhava, e os relatos folclóricos de pessoas que haviam conseguido obter esse privilégio abundavam na literatura. Por exemplo, o livro Biografias dos imortais (Liexian Zhuan 列仙傳), de 111 André da Silva Bueno Liu Xiang 劉向 (77-6 AEC) trazia uma série de relatos e personagens históricos que teriam conseguido alcançar a longevidade ou a imortalidade através de métodos secretos. Os Fangshi formavam uma espécie de rede iniciática que compartilhava seus conhecimentos com discípulos seletos e vendia suas artes a quem pudesse pagar bem; apesar disso, temos algumas evidências de como funcionavam suas ideias centrais, expressas no primeiro manual de alquimia chinesa, o Cantongqi 參同契 (também chamado de Zhouyi Cantongqi 周易參同 契), de Wei Boyang 魏伯陽 (séc. 3 EC). A diferença marcante entre a feitiçaria Wu e essa mesma alquimia era o ponto de partida teleológico. Como vimos, a feitiçaria entendia uma série de eventos físicos [como as doenças e as dificuldades da vida] atrelados à influência dos espíritos, e somente mediados pela intervenção dos xamãs/bruxas. Os Fangshi agiam de forma diferente; para eles, a maior parte desses problemas poderia ser resolvida pelo uso de técnicas que podiam ser compartilhadas com pessoas sem qualquer habilidade mágica especial, e que se atinham essencialmente à existência material. A busca pela imortalidade era um processo físico, que pretendia reproduzir condições análogas a da natureza. Isso ficava evidente pelo objetivo central dos sistemas Fangshi, a criação de um ‘elixir de ouro’ [Jindan ⾦丹]. Assim como o ouro tinha qualidades especiais, como pureza e durabilidade, pretendia-se 112 Fei=çaria e Alquimia na China An=ga uma transmutação do corpo físico em uma condição análoga a do metal precioso. Isso podia ser feito de forma literal, com a ingestão de pó de ouro; mas essa era apenas uma entre centenas de opções que esses especialistas desenvolveram. Para uma descrição mais ampla dos métodos alquímicos, veja meu texto (BUENO, 2022), sobre os quais faremos um breve resumo a seguir. Uma das formas mais comuns de produzir o elixir era a cozedura de elementos herbais e minerais para a produção de pílulas ou poções que conseguissem produzir o efeito de transformação do corpo físico. Ouro, prata, cinábrio e jade eram apenas algumas das muitas substâncias empregadas, além da vasta farmacopeia importada dos xamãs e dos médicos. Uma teoria central no processo de cozimento era tentar produzir um elemento novo que congregasse todos os cinco estados da matéria – água, fogo, metal, madeira e terra – e sua aparência deveria ser, ao final, similar ao dourado. Outra proposta defendida pelos Fangshi era de que a harmonia corporal poderia ser atingida pela combinação equilibrada das essências yin 陰 e yang 陽 através de uma série de exercícios físicos especiais, como as respirações Qigong 氣功, ou pela alquimia sexual, que consistia em uma espécie de cópula técnica entre parceiros com o fim de permutar energias. Uma notável literatura sobre essas técnicas foi encontrada nas tumbas Han de Mawangdui ⾺王堆, e tem sido continuamente estudada pelos seus aspectos inovadores no campo da educação física, das artes marciais e da sexualidade. 113 André da Silva Bueno Como podemos notar, os métodos alquímicos chineses iam bastante além dos seus congêneres posteriores da Europa medieval, e estiveram na raiz de várias formas e modalidades de conhecimento nas ciências chinesas tradicionais. Um amplo diálogo com áreas como a medicina e a química permitiram que algumas experiências alquímicas fossem incorporadas aos saberes comuns, transformando-se numa importante herança imaterial.Desdobramentos históricos E o que aconteceu com esses Fangshi? Apesar de inúmeros ensaios e tentativas malsucedidas, os alquimistas chineses conseguiam emprestar uma aura de credibilidade a suas ideias, oferecendo-as como uma espécie de ‘magia racional’ ou ‘medicina sutil’, sem exigir contrapartidas morais. É notável pensar que, apesar do seu desejo em afastar-se dos feiticeiros, a alquimia acabou sendo gradualmente absorvida pela religião daoísta, profundamente interessada nos métodos de equilíbrio natural do corpo. Assim, quando Zhang Daoling 张道陵 [34?-156? EC] fundou o primeiro movimento religioso do Daoísmo, o Caminho dos Mestres Celestias [Tianshidao 天師道], a alquimia era já um elemento presente no corpo dos conhecimentos religiosos, junto a uma série de práticas – como exorcismos – emprestados diretamente da feitiçaria (BUENO, 2021, p. 30-33). As crises no século 3 EC que envolveram a dinastia Han não diminuíram 114 Fei=çaria e Alquimia na China An=ga o interesse pelas experiências alquímicas, ao contrário: elas se tornaram um assunto profundamente estudado pelos intelectuais das dinastias posteriores, se tornando um importante ramo do conhecimento sagrado da civilização chinesa. Quanto à feitiçaria, apesar de ter cedido muito de seus conhecimentos para a construção de todas essas vertentes religiosas, continuou a sofrer com um esvaziamento sistemático de seu poder por parte das camadas privilegiadas da população. Para muitas pessoas, era profundamente incômoda a sensação de depender de um especialista ‘escolhido pelas divindades’ para resolver problemas que pareciam não ter fundamento na esfera humana. Nas áreas rurais, porém, onde o acesso à escola era reduzido, os xamãs continuaram a desfrutar de certo prestígio, mas sem um papel de liderança como o vivenciado do neolítico até o período Shang. Esses feiticeiros angariaram para si uma função/imagem muito parecida com o que conhecemos aqui no Brasil como o dos curandeiros e benzedeiras, herdando e preservando tradições antigas e conhecimentos da natureza que não foram filtrados pela cultura urbanizada e pela religiosidade institucional. Por outro lado, os estudos de Zhao Xiaohuan 赵晓欢 [2016] e Yang Qianqian 杨千千 (2018) mostram um endurecimento das leis, ao longo da história, contra a bruxaria, colocando-a em um entrelugar problemático de marginalização e ao mesmo tempo, de poder oculto e latente. Foi no período Han, por fim, que se delineariam esses espaços de bruxos, alquimistas e das doutrinas 115 André da Silva Bueno religiosas no imaginário chinês, fomentando uma estrutura relacional que atravessaria os séculos e teria profundas implicações nas leis e na sociedade. Referências Documentação 2 Guoyu 國語. Disponível em: https://ctext.org/guo-yu. Acesso em: 21 jul. 2022. Shiji 史記. Disponível em: https://ctext.org/shiji. Acesso em: 21 jul. 2022. Lunheng 論衡. Disponível em: https://ctext.org/lunheng. Acesso em: 21 jul. 2022. Liexian Zhuan 列仙傳. Disponível em: https://ctext.org/lie-xian- zhuan. Acesso em: 21 jul. 2022. Cantongqi 參同契. Disponível em: https://www.goldenelixir.com/ jindan/ctq_index.html. Acesso em: 21 jul. 2022. 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Acesso em: 17 jul. 2022. 118 Escravidão e adivinhação no Império Romano: uma aproximação a partir das Sortes Astrampsychi Filipe Noé da Silva 1 Introdução De acordo com os Atos dos Apóstolos (16:16), Paulo e Silas, em suas missões na cidade de Filipos, teriam encontrado uma jovem mulher em condição servil que, possuída por um espírito pitônico 2 (πνεῦµα Πύθωνα), realizava adivinhações (µαντευοµένη) e assim gerava lucros para seus proprietários. Após bradar por vários dias que os apóstolos estariam a serviço da divindade judaico-cristã, a serva, então, teria sido libertada (por Paulo) do espírito que a possuía. Incomodados por já não mais poderem lucrar com os ‘serviços oraculares’ da mulher escravizada, seus senhores voltaram-se, então, contra os pregadores cristãos e, com o apoio da multidão e dos estrategos locais, os submeteram à violência e ao cárcere. Doutor em História Cultural pela Universidade Estadual de Campinas 1 (UNICAMP). Em sua tese de doutorado investigou as práticas de munificênciacívica (evergetismo) fomentadas por libertas e libertos nas cidades romanas da Baetica. Durante o doutorado, foi pesquisador visitante no CEIPAC (Universitat de Barcelona). Possui mestrado em História Cultural, também pela UNICAMP, com estudos sobre sexualidade no Império Romano e teorias de gênero aplicadas à Antiguidade Clássica. É professor universitário, atuante nas Faculdades Integradas Maria Imaculada. Sobre a suposta origem da serpente Píton, a subsequente vitória de Apolo, o deus 2 arcitenens, e a instituição de jogos sagrados em sua homenagem veja-se: Ovídio, Met. I. 431-447. 119 Filipe Noé da Silva Apesar de seu teor proselitista e teológico (NOGUEIRA, 2020, p. 53), a narrativa dos Atos dos Apóstolos, repleta de elementos da historiografia e da novela gregas, se ancorava (WICKHAM, 2019, p. 52) em experiências reconhecíveis, características de sua própria época e repletas de “(...) informações que demonstram conhecimento 3 de primeira mão e antigo” (FUNARI; VASCONCELLOS, 2013, p. 20). Sua menção à prática da adivinhação oracular, bem como sua referência à conhecida (COBB, 2019, p. 180) Pítia de Delfos, não é fortuita e tampouco ocasional. Como demonstrado por Jean-Pierre Vernant (1991, p. 304), as práticas divinatórias estavam atreladas à religiosidade, à medicina, à lei e à política quotidianas, impactando de maneira significativa sobre a vida coletiva nas cidades do Mediterrâneo Antigo e em sua produção cultural. Em decorrência de sua ubiquidade, as práticas de adivinhação oracular constituíam uma manifestação da religiosidade popular (JENNINGS, 2017, p. 193) que estava ao alcance dos mais distintos grupos sociais (VERNANT, 1991, p. 311): inclusive das pessoas escravizadas (EIDINOW, 2011). Além do já mencionado episódio narrado pelo Atos dos Apóstolos (16:16), a proximidade entre oráculos e escravizados também foi tema da Vida ou Romance de Esopo (G. 89-91 passim): a pedido da assembleia de Samos, Esopo (a Embora narre as experiências das comunidades cristãs da década de 60 da Era 3 Comum, não há consenso quanto à datação da obra Atos dos Apóstolos. Entre os estudiosos brasileiros, admite-se que a narrativa tenha sido produzida entre os anos de 80 (FUNARI; VASCONCELLOS, 2013, p. 20) e 120 (NOGUEIRA, 2020) da Era Comum. 120 Escravidão e adivinhação no Império Romano contragosto de seu mestre, o filósofo Xanto, que foi obrigado a conceder-lhe a liberdade nesta ocasião) teria interpretado um presságio que anunciava guerra, derrota e escravização para a população desta cidade. Assumindo, portanto, o pressuposto de que as adivinhações oraculares também eram manipuladas por pessoas em situação servil, o presente capítulo examina as Sortes de Astrampsico com o intuito de compreender os interesses associados à consulta oracular realizada por pessoas escravizadas. Por meio desta empreitada, espera-se conhecer, ainda que de maneira preambular, algumas das expectativas dessas pessoas em relação à escravidão praticada no Império Romano. As Sortes Astrampsychi e a escravidão romana Composto por 91 perguntas (elencadas entre os números 12 e 103) e 103 dezenas de respostas, o livro das Sortes de Astrampsico é um texto oracular, pseudoepigráfico, redigido em língua grega sobre um papiro (EIDINOW, 2011) e que reivindica sua autoria para um mago chamado Astrampsico . Endereçado ao rei Ptolomeu, o tomo em 4 questão salienta que as previsões ali contidas teriam sido propostas pelo filósofo Pitágoras e beneficiaram até mesmo Alexandre o Grande em muitas de suas conquistas militares. Apesar da alegação favorável Ao mencionar os chamados “filósofos bárbaros”, Diógenes Laércio (Prólogo I, II) 4 inclui Astrampsico em uma lista de magos e sábios persas: além de Zoroastro, são apresentados pensadores que teriam vivido até o período anterior à conquista de Alexandre, o Grande. 121 Filipe Noé da Silva a uma datação mais longínqua, a crítica contemporânea tem reconhecido que as Sortes Astrampsychi teriam sido compostas em um período posterior, de modo que sua datação foi atribuída ao século II da Era Comum (STEWART, 1995, STEWART; MORRELL, 1998; EIDINOW, 2011; VLASSOPOULOS, 2021). O oráculo de Astrampsico é apresentado como um sistema de prognósticos a partir dos números e sua utilização, conforme as instruções descritas no seu prólogo, ocorreria da seguinte forma: o/a consultante deveria selecionar uma dentre as 91 questões (numeradas de maneira crescente de 12 a 103) oferecidas de antemão pelo livro oracular. Esta pessoa também deveria indicar (inspirada por uma divindade!) um número de 1 a 10. O valor numérico da questão escolhida seria, então, somado à quantia indicada pelo/a consultante, e o resultado dessa soma deveria ser conferido em uma tabela numérica do oráculo: esta última indicaria em qual dezena se encontrava a resposta à adivinhação pretendida. Na dezena, a resposta do oráculo seria aquela correspondente ao número “inspirado”, indicado pela pessoa interessada na adivinhação. Em geral, o funcionamento das Sortes de Astrampsico se assemelha ao de outros oráculos antigos de base numérica, nos quais as respostas já estavam fixadas de maneira prévia. Seu acesso aos prognósticos, no entanto, prescindia da utilização dos dados (ἀστράγαλος, ou alea, em latim): objetos confeccionados com ossos, madeira, conchas, metal ou marfim, e que eram utilizados em consultas oraculares com o intuito de assegurar randomização e 122 Escravidão e adivinhação no Império Romano imparcialidade (PURCELL,1995) à mensagem transmitida pela divindade (GRAF, 2005). Sua utilização requeria, ao que tudo indica, a intermediação de um sacerdote, mago ou adivinho responsável por operacionalizar, diante da pessoa consultante, a complexa e misteriosa combinação numérica deste oráculo (BROWNE, 1970). Como observado por Stewart e Morrell (1998), as questões disponibilizadas pelo oráculo incluíam temas diversos, tais como: busca por riqueza, amores, saúde, trabalho. As perguntas também se mostram compatíveis com os interesses de indivíduos pertencentes a distintos grupos sociais: homens e mulheres, livres e escravizados, ricos e pobres. Em estudo recente, Kostas Vlassopoulos (2021, p. 154-155) identificou três adivinhações a serem utilizadas por pessoas que se encontravam em servidão. A primeira delas, a questão 46 das Sortes Astrampyschi, indaga sobre uma possível reconciliação entre a pessoa escravizada e seus proprietários: εἰ καταλλάσσοµαι τοῖς κυρίοις ; Irei me reconciliar com os donos? (Sortes Astrampsychi, 46. Tradução nossa). O oráculo oferecia uma dezena de respostas a esta indagação. O/A consultante, neste caso, saberia que sua proposta oscilava entre a reconciliação imediata (ou posterior) com seus superiores, ou até mesmo sua negativa (VLASSOPOULOS, 2021, p. 155). Diante dessa indagação, é interessante questionar: por qual(is) motivo(s) uma pessoa escravizada estaria interessada em reaver o convívio harmonioso com seu proprietário? 123 Filipe Noé da Silva Ainda que caracterizada por episódios de violência resultantes de um poder exercido de maneira unilateral (PATTERSON, 1982), a relação entre escravizados e proprietários se caracterizava por negociações, imposições e resistências, sempre de acordo com os interesses dos indivíduos envolvidos. Para além do uso indiscriminado da força, a manutenção da escravidão também era realizada por meio da concessão de benefícios, imediatos ou iminentes, às mulheres e aos homens escravizados. A curto prazo, um proprietário poderia permitir o arranjo de casamentos extraoficiais (contubernia) àquelas e àqueles que, segundo seu juízo, se mantivessem produtivos e fiéis ao trabalho e à disciplina da escravidão. Do mesmo modo, as alforrias eram oferecidas aos indivíduos escravizados como forma de recompensar (HOPKINS, 1978) sua suposta fidelidadee comprometimento. Alguns exemplos preservados pela documentação epigráfica latina, composta por inscrições transmitidas de maneira direta da Antiguidade, tornam patente a complexidade subjacente ao convívio entre proprietários e escravizados. A seguir, a título de exemplo, apresentamos uma inscrição referente à união conjugal entre um homem livre e uma mulher alforriada: D(is) M(anibus) / C(aio) Prastinae Nereo / coniugi et patrono / optimo fecit / Prastinia Quinta / cum quo vixit / annis XVIII (CIL 14, 01506). Local: Ostia. Aos deuses manes. A Caio Prastina Nereu, o melhor cônjuge e patrono. Prastinia Quinta, com quem viveu por dezoito anos, fez [este sepulcro]. (Tradução nossa). A inscrição funerária de Caio Prastina Nereu apresenta o caso de um proprietário escravista que alforriou uma mulher e a ela se 124 Escravidão e adivinhação no Império Romano juntou em uma união conjugal que perdurou por dezoito anos. Conforme indicado pelo registro funerário, o indivíduo homenageado nesta lápide, a um só tempo, ocupava a posição de patrono e cônjuge. Embora utilize uma fórmula epigráfica recorrente, é interessante notar a presença do adjetivo optimo (neste caso, significando para o melhor), demonstrando sua reverência e sentimento à memória do antigo companheiro. A harmonia pretendida pelo registro epigráfico, contudo, negligencia a permanência de relações desiguais e paternalistas (GENOVESE, 1974) entre os personagens envolvidos: não sabemos por quanto tempo Prastinia Quinta esteve em situação de submissão e dependência em relação ao seu proprietário, e tampouco de que forma essa dominação era exercida. Ademais, não se pode perder de vista que escravizados e libertos também poderiam se indispor aos arranjos propostos por patronos. De acordo com Tácito (Ann. 13.27), o Senado, à época de Nero, discutiu a possibilidade de reescravizar os chamados libertos ingratos (liberti ingrati), indivíduos egressos da servidão que resistiam ao cumprimento das tarefas impostas por seus respectivos patronos. Além das práticas de resistência, a eventual ascensão social e econômica por meio do trabalho (FUNARI; SILVA, 2021), do comércio (REMESAL, 2004) e das benfeitorias cívicas (SILVA, 2021), revela situações de protagonismo mesmo diante da exploração e dominação a que estavam submetidos. Considerados propriedade de outrem, os escravizados viviam sob a iminente possibilidade de serem vendidos. Essa condição, como 125 Filipe Noé da Silva destacou Vlassopoulos (2021, p. 156), poderia suscitar sentimentos diversos (de medo ou esperança) entre os escravos que, em última instância, viviam diante de um amplo repertório de incertezas e desconhecimentos sobre seu próprio futuro. As Sortes de Astrampsico apresentam uma questão sobre este tema aos consultantes desejosos de uma resposta oracular: εἰ πωλοῦµαι; Serei vendido? (Sortes Astrampsychi,74. Tradução nossa). Além das já conhecidas respostas sobre a realização (ou não) imediata ou posterior da previsão, o oráculo também predizia que o indivíduo negociado poderia se deparar com prejuízos, arrependimentos (VLASSOPOULOS, 2021, p.156), mas também ser vendido e até libertado após sua venda (πωλῇ καὶ ἐλευθεροῦσαι. Sortes Astrampsychi, 85.09). O tema da liberdade, aliás, ocupa papel de destaque dentre as questões apresentadas pelas Sortes de Astrampsico: ao dirigir esta pergunta ao oráculo, o consultante esperava por uma uma predição positiva ou negativa sobre sua eventual manumissão: εἰ ελευθεροῦµαι τῆς δουλείας; Serei libertado da servidão? (Sortes Astrampsychi, 32. Tradução nossa). Dentre as respostas relacionadas a essa pergunta, figuram, como em outras predições oferecidas pelo oráculo, opções positivas (em que a libertação ocorreria de maneira imediata ou no futuro) e presságios negativos, sugerindo que o consultante não alcançaria sua 126 Escravidão e adivinhação no Império Romano liberdade (VLASSOPOULOS, 2021, p.161). Em uma de suas réplicas (Sortes Astrampsychi, 53.05), o oráculo prevê a alforria do indivíduo mediante apelo e posterior realização de um pagamento em dinheiro: fazendo referência explícita, portanto, à possibilidade de um escravizado acumular peculium durante sua permanência sob o jugo da servidão. A presença desta questão em um documento oracular é reveladora quanto às expectativas e esperanças de liberdade (VLASSOPOULOS, 2021, p. 159) dos escravizados. Ainda que a escravidão praticada no Império Romano seja reconhecida pela alta incidência de manumissões, quando comparada a outros contextos históricos escravistas (HOPKINS, 1978, p. 115; MOURITSEN, 2011, p. 8), não se pode presumir que a efetivação da alforria estivesse ao alcance de todo e qualquer indivíduo reduzido à condição servil, como se a escravização constituísse um prejuízo temporário a ser superado por uma manumissão iminente e inevitável. As prerrogativas associadas à libertação de escravos tampouco foram imutáveis entre os romanos: na época de Augusto, por exemplo, foram promulgadas leis que diminuíram a quantidade de alforrias a serem concedidas dentro de uma mesma casa (lex Fufia Canina), e que restringiam a eventual transmissão da cidadania (lex Aelia Sentia) às pessoas egressas da escravidão (BUCKLAND, 1908, p. 547; Joly, 2010, p. 70; MOURITSEN, 2011, p. 84). 127 Filipe Noé da Silva Submetidos à robustez da instituição escravista e à arbitrariedade dos interesses e arranjos oferecidos por seus proprietários, os escravizados romanos, contudo, nunca deixaram de buscar alternativas que os permitissem superar as máculas (MOURITSEN, 2011) advindas da servidão. O recurso ao oráculo, à prática popular de adivinhação (JENNINGS, 2011), constitui uma tentativa de se apoderar, tornar-se consciente, ainda que de maneira parcial, de um destino marcado pelas múltiplas incertezas instauradas pela escravização. Considerações finais No século XIX, sob o influxo do pensamento antropológico evolucionista de James Frazer (1854-1941) e de tantos outros, as práticas mágicas (e mesmo as religiosidades) foram colocadas em um patamar intelectual inferior ao conhecimento advindo das ciências (Gosden, 2020). A diferenciação entre religião, magia e ciência, como demonstrado por Fritz Graf (1997) e Semíramis Corsi Silva (2014), tiveram grande influência sobre os estudos que se dedicaram à compreensão das múltiplas manifestações de práticas mágicas na Antiguidade. A Antropologia desenvolvida na segunda metade do século XX, por sua vez, produziu os subsídios que permitiram à História da Antiguidade e às demais Ciências Humanas uma compreensão sobre 128 Escravidão e adivinhação no Império Romano as práticas mágicas antigas sem depender do crivo hierárquico de outrora. Claude Lévi-Strauss (1962 [1989]) considerava que o pensamento mágico e ciência ficavam lado a lado no que concerne às operações mentais e à racionalidade: O pensamento mágico não é uma estreia, um começo, um esboço, a parte de um todo realizado; ele forma um sistema bem articulado; independente, nesse ponto, desse outro sistema que constitui a ciência (...) (LÉVI-STRAUSS, 1962 [1989], p. 28). Admitida como uma tentativa de humanização do universo a magia, a tentativa de alinhar os desejos humanos com as forças visíveis e invisíveis do universo, tem acompanhado a humanidade desde o seu passado mais longínquo (GOSDEN, 2020): a Cultura Material, objeto de estudo da Arqueologia, torna patente essa consideração e oferece inúmeros exemplos. Gregos e romanos acreditavam na eficácia de suas práticas mágicas: seus amuletos, objetos apotropaicos e defixiones atestam seu apego e também seu temor em relação à eficácia das forças espirituais: daí a recorrente proibição de certas práticas mágicas sob força de lei. Por fim, pode-se constatar que tampouco o futuro lhes parecia inacessívelsem o auxílio da magia, do recurso ao sobrenatural: a leitura correta dos agouros, a ornitomancia, a oniromancia e os oráculos mereceram a atenção de filósofos, sábios, médicos e gente de toda a sorte. Inclusive dos escravizados: pessoas que facultavam ao futuro a esperança de uma vida melhor e em liberdade. 129 Filipe Noé da Silva Agradecimentos Agradeço o apoio de Jessica Regina Brustolim, Claudio Umpierre Carlan, Pedro Paulo Abreu Funari, Flávia Marquetti e Semíramis Corsi Silva. Menciono também o apoio institucional do IFCH/Unicamp e do CEIPAC (Universitat de Barcelona). A responsabilidade pelas ideias restringe-se ao autor. 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XIII) Aline Dias da Silveira 1 “Dizemos e mostramos sobre as obras que fazem os espíritos de Mercúrio por força de palavras e de orações. E agora queremos aqui mostrar outra obra de Mercúrio, que se faz com anéis e chamam anel de Mercúrio” 2 (Alfonso X, Astromagia, p. 286). Introdução “Observa quando o Sol estiver em Leão e Mercúrio em Virgem, e que não esteja em combustão ”. Este é o momento exato e 3 4 auspicioso para a preparação da pedra para o anel mágico de Mercúrio. Sobre a gema deve ser desenhado um belo jovem com chapéu, sentado em uma cadeira, e na mão direita uma pena para escrever e na esquerda uma carta, o redor da figura deve-se escrever estas letras: Fez graduação e o mestrado em História na Universidade Federal do Rio Grande 1 do Sul (UFRGs) e doutorado e pós-doutorado na Universidade Humboldt de Berlim/ Alemanha. Atualmente, é professora do departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), responsável pela área de História Medieval, coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Medievais – Meridianum. Tradução da autora do trecho: “Dicho e mostrado avemos de las obras que fazen 2 los espíritos de Mercurio por fuerça de las palabras e de oraciones. E agora queremos aquí mostrar de otra obra de Mercurio, que se faze com anillos, e dízenle anil[l]o de Mercurio” (Alfonso X, Astromagia, p. 286). Combusto ou em combustão, na astrologia, refere-se ao estado de fraqueza das 3 características de um planeta por sua proximidade excessiva ao Sol (de 0° a 17°, dependendo do planeta). Segundo esse pensamento, o Sol queimaria as características positivas ou virtudes daquele planeta. Tradução livre da autora do trecho: “Para mientres quando el Sol fuere em León e 4 Mercurio en Virgo, que non sea combusto” (Alfonso X, Astromagia, p. 286). 133 Aline Dias da Silveira Figura 1: Letras do Anel de Mercúrio Fonte: Alfonso X, Astromagia, p. 286. Assim, inicia o Libro de Mercurio em seu capítulo 3, os “Anéis de Mercúrio”, que compõe o manuscrito Reg. lat. 1283, fólios 1-36, encontrado por Aby Warburg em 1911 na Biblioteca Apostólica Vaticana. Warburg pretendia editar o trabalho em colaboração com seu amigo Franz Boll, o filólogo e historiador da astrologia, mas o projeto nunca foi concluído. Anos depois, o manuscrito foi também encontrado por Alfonso Garcia Solalinde. Na sequência,um de seus 5 orientandos de doutorado em Harvard, George Darby, escreveu uma tese sobre esse texto (GARCÍA AVILÉS, 1996, p. 15). O manuscrito pertence à fase final de atividade do scriptorium régio de Afonso X, 6 entre 1276 e 1284. Este foi, aliás, o período em que o rei castelhano focou mais intensamente sua atenção nos assuntos que muito lhe interessavam, resultando na produção de três coleções enciclopédicas de obras sobre astrologia e magia astral. O primeiro, geralmente García Solalinde escreveu o seguinte artigo sobre o manuscrito: Garcia Solalinde, 5 Alfonso. Alfonso X, astrólogo. Noticia del manuscrito vaticano, Reg. lat. núm. 1283. Revista de filologia española, xiii, p. 350-356, 1926. Scriptorium é termo utilizado no medievo e depois adotado por medievalistas para 6 se referirem tanto ao espaço, onde um conjunto de obras manuscritas eram produzidas, como às próprias obras e às equipes que as produziam. O scriptorium afonsino engloba, assim, todas as obras manuscritas produzidas em sua corte. 134 Magia como Fenômeno transcultural conhecido como Libros del saber de Astrologia, compreende quinze tratados sobre a construção e uso de instrumentos astronômicos e sobre as estrelas. As outras duas compilações são o Libro de las formas et de las ymagenes e o compêndio de magia astral encontrado por Warburg e Garcia Solalinde. No entanto, ao longo de sua vida, Afonso X patrocinou a tradução e a organização de muitas outras obras de astrologia e magia. 7 O manuscrito Reg. lat. 1283, fólios 1-36, do qual analisaremos um trecho a seguir, ficou conhecido com o nome de Libro de Astromagia, por abarcar compilações de obras sobre essa temática produzidas anteriormente na corte afonsina . Alfonso 8 d’Agostino editou e publicou o manuscrito em 1992, transcrevendo-o e traduzindo-o para o italiano, será essa a edição que usaremos aqui. A obra, como um todo, possui seis partes, cada uma chamada de Libro, assim temos: I. Libro de los paranatellontas; II. Libro de los decanos; III. Libro de la Luna; IV. Libro de las imágenes de los doce signos; V. Libro de Marte; VI. Libro de Mercurio. Todos estes constituem o Libro de Astromagia. A especificidade deste manuscrito em relação aos de outras obras é que este apresenta a prática da magia com pouca explicação Como as Tablas Alfonsíes, o Picatrix, o Lapidario, o Libro de las Cruzes, Los 7 Canones de al-Battani, Quatripartitum, De judiciis astrologie, El libro del quadrante sennero e Liber Razielis. Uma das obras compiladas neste livro foi o Picatrix, outra obra de astromagia que 8 foi traduzida na corte de Afonso X no início de seu reinado. No prólogo da tradução latina do Picatrix, é indicado o ano de 1256 para o término do texto. 135 Aline Dias da Silveira filosófica e astrológica, diferenciando-se das outras obras dessa matéria produzidas no scriptorium afonsino. O Libro de Astromagia parece uma súmula prática e muito bem ilustrada do fazer mágico. Apresenta uma narrativa direta, diferente do diálogo filosófico entre mestre e discípulo presente nos quatro livros do Picatrix , por 9 exemplo. Por isso, parte-se da hipótese de que o Libro de Astromagia não foi elaborado para explicar e estudar a prática mágica, mas para resumi-la, com foco nos aspectos que mais importavam para o rei. Afonso X, de Castela e Leão, ficou conhecido como o rei sábio, governou a maior parte do território ibérico entre 1252 e 1284, ano de sua morte. As referências e trabalhos que mais encontramos sobre ele, além de suas muitas biografias, tratam de suas obras 10 legislativas como o Fuero Real, o Especulo e as Siete Partidas, que contribuíram para o entendimento da lei na Península Ibérica e na América Espanhola (SILVA, 2013, p. 37) séculos depois de sua morte. Também encontramos trabalhos sobre as obras historiográficas de seu scriptorium, a General Estoria e a Estoria de España, bem como sobre a grande obra poética de seu tempo, as mais de 400 Cantigas de Picatrix é o nome latino da tradução do manuscrito árabe de astromagia Gāyat al-9 hakīm, traduzido na corte de Afonso X no início de seu reinado. Algumas dessas biografias são: Salvador Martinez, H. Alfonso X, el Sabio, una 10 biografía. Madrid: Ediciones Polifemo, 2003; Perez Algar, F. Alfonso X, El Sabio, Biografía, Madrid: Studium Generalis, 1994; González Jiménez, M. Alfonso X, El Sábio: 1252-1284, Palência: Disputación Provincial, La Olmeda, 1993; O ´Callaghan, J. F. The Learned King, The Reign of Alfonso X of Castile, Philadelphia: University of Pennsylvania,1993; Ballesteros Beretta, A. Alfonso X, El Sabio, 2ª ed., Barcelona: El Albir, 1984. 136 Magia como Fenômeno transcultural Santa Maria. No entanto, pouco se fala do rei Afonso, o estrellero, 11 ou seja, o astrólogo, como seus adversários eclesiásticos e nobres o chamavam (SÁNCHEZ GONZÁLVEZ, 2011, p. 231) A produção do scriptorium afonsino é vasta e não se propõe neste ensaio falar sobre cada uma delas, mas entende-se que não é possível analisar uma destas obras sem considerar as outras, pois é compreendido que as obras elaboradas e traduzidas na corte de Afonso X compõem um único projeto de saber. Existiria um conceito cultural afonsino, como diria Francisco Márquez Villanueva (Márques Villanueva, 1995), mesmo que a interpretação desse autor siga em outra direção que a desenvolvida neste ensaio. 12 A considerar este projeto ou conceito afonsino de saber, propõe-se como metodologia a hermenêutica imaginativa apresentada e desenvolvida por Márcia Sá Cavalcante Schuback na sua obra Para ler os Medievais (2000), fundamentada na fenomenologia, que busca compreender a experiência de tempo que constituiu a visão ou percepção de mundo expressa na fonte. Compreende-se que essa cosmo compreensão, como chamaremos aqui a racionalidade mágica manifesta no Libro de Astromagia, perpassa todo o scriptorium afonsino, pois fundamenta-se na relação micro-macrocósmica de simpatia, harmonia, emanação, potência e movimento. Para saber mais sobre as obras do scriptorium afonsino recomendo a obra de 11 Evelyn S. Procter: Alfonso X de Castilla, Patrono de las letras y del saber. Trad. Manuel Gonzáles Jimenez. Murcia: 2002. (Biblioteca de Estudios Regionales, Bd. 38); e as já citadas biografia de Afonso X. Francisco Márquez Villanueva centra seu conceito na pessoa de Afonso X de uma 12 forma laudatória e pouco crítica. 137 Aline Dias da Silveira Toda religião é imbuída do fazer mágico, seja nas reuniões que reatualizam as narrativas religiosas, seja nas comemorações, símbolos, livros e utensílios sagrados ou nos ritos iniciáticos. Aqui e ali está a concepção de emanação do sagrado, do redirecionamento da vontade divina, através da prece e do moldar da realidade como essa se apresenta. No Libro de Astromagia, essa indistinção entre a prática mágica e a religiosa é evidente em diversas passagens, por exemplo, quando o Libro de Mercúrio inicia com a “oração”: “Em nome de Deus, oh tu, planeta verdadeiro e razoável, tu és notário do Sol” (AFONSO X, Astromagia, p. 270). 13 Por essa perspectiva, os estudos sobre magia estão na encruzilhada de caminhos que podem nos conduzir à compreensão mais ampla da experiência humana de tempo, de sua historicidade, e das diferentes temporalidades da prática mágica e da agência humana diante do inefável. Este fenômeno transcende fronteiras regionais, linguísticas e religiosas, entrelaçando culturas e tradições em novas reelaborações. A considerar esse movimento de cruzamentos e fusões, será empregada uma interpretação heurística, a partir dos conceitos de entrelaçamentos transculturais, vórtice histórico e da perspectiva da história conectada (SILVEIRA, 2019, p. 620-622). Dessa forma, busca-se perceber como aspectos locais, como as ressignificações e propósitos, inserem-se em aspectos globais, no movimento dos saberes pelos continentes asiático,africano e europeu. Tradução livre da autora a partir do trecho: “Em nombre de Dios, o tú, planeta 13 verdadeiro e razonable, tú eres notário del Sol”. 138 Magia como Fenômeno transcultural Magia como fenômeno transcultural Afonso pode ter sido chamado de rei estrellero por seus adversários, mas não há dúvida que foi um rei cristão. Cristão, astrólogo e mago-filósofo (GONZÁLVEZ SÁNCHEZ, 2015, p. 231). O primeiro livro traduzido na corte afonsina foi o Picatrix , por isso, 14 considera-se aqui, que essa obra é o ponto de partida para entendermos as outras obras astromágicas do scripotrium afonsino. O governo de Afonso começa em 1252 e a tradução do Gāyat al-hakīm, nome árabe dessa obra, para o castelhano e o latim, é terminada em 1256. No prólogo da versão latina, Afonso explica o motivo desta tradução: 15 Pelo louvor e pela glória do altíssimo e todo-poderoso Deus, o qual revela aos seus predestinados a ciência secreta, e esclarece aos doutores latinos que desconheciam esse livro, que os antigos filósofos editaram, Alfonso, pela graça de Deus ilustríssimo rei da Espanha e de toda Andaluzia, ordenou a tradução deste livro com grande estudo e máximo cuidado do árabe ao espanhol, cujo nome é Picatrix (Picatrix, 1986, prólogo, p. 1). 16 Desse trecho do prólogo da versão latina do Picatrix, podemos entender que Afonso atribuía ao deus cristão a revelação da ciência O Lapidario, obra sobre a qual também trataremos aqui, foi traduzida quando 14 Afonso era infante. Afonso dizia escrever o prólogo das obras de seu scriptorium e revisar se estava 15 escrita no castelhano correto, ver: Afonso X, General Estoria, Primeira Parte, ed. Solalinde, 1930, 477b. Tradução da autora a partir do trecho: “Ad laudem et gloriam altissimi et 16 omnipotentis Dei cuius est revelare suis predestinatis secreta scienciarum, et ad illustracionem eciam doctorum Latinorum qui bus est inopia librorum ab antiquis philosophis editorum, Alfonsus, Dei gracia illustrissimus rex Hispanie tociusque Andalucie, precepit hunc librum summo studio summaque diligencia de Arabico in Hispanicum transferri cuius nomen est Picatrix.”. 139 Aline Dias da Silveira secreta (secreta scienciarum), aos seus predestinados, ou seja, os filósofos antigos. Os doutores latinos desconheciam o livro, mas Afonso, colocando-se como um desses escolhidos (SILVEIRA; ANDRADE, 2018, p. 284-289), manda traduzir o texto, revelando a verdadeira fé como ele expressa no Setenario: E não tão somente pela lei velha, nem pelos ditos dos sábios e dos profetas, mas também segundo natureza dos céus e das outras coisas espirituais, queremos provar que a nossa fé é lei direita e crença verdadeira e não outra que não o fosse assim desde o começo do mundo, nem será outra até que haja o fim (ALFONSO X, Setenario, Ley XXXIV, p. 65). 17 São os filósofos antigos que revelam os saberes mágicos do Picatrix à humanidade. Pode-se perceber, nesse trecho acima, um indício interessante de como a magia e seu estudioso-praticante estavam inseridos no entendimento do que seria a filosofia. O Picatrix é uma obra composta de 4 livros, sendo que os dois primeiros são explicações filosóficas e astrológicas de como funciona o cosmos, inclusive explicando o que seria a magia, chamada de a quinta essência da filosofia. É importante salientar que o fundamento filosófico dessa e de outras obras dessa matéria no scriptorium afonsino é principalmente neoplatônico, baseado na emanação dos corpos celestes sobre os corpos terrestres. Tradução livre da autora a partir do trecho: “Et non tan ssolamientre por la ley 17 vieia nin por los dichos de los ssabios e de las prophetas, mas aun ssegunt natura de los çielos e de las otras cosas spirituales, queremos prouar que la nuestra ssanta Ffe es ley derecha e crençia verdadera, e non otra ninguna que ffuesse desde el comienço del mundo nin sserá ffecha ffasta la ffin”. 140 Magia como Fenômeno transcultural Saiba: A arte que será explicada não serviria de nada se não fosse entendida a filosofia. E, por isso, essa arte foi chamada de conclusio, pois é a conclusão da lógica de outras obras, ou seja, a quintessência. (Picatrix, 1962, Tratado I, cap. II, p. 6, § l e §6-10.). 18 (...) Saiba: essa conclusio ou síntese é definida como magia, que significa todas as palavras e práticas que a mente encanta e conduz a alma no sentido que ela se admira daquilo que lhe é mostrado, achando belo. (...) Isso acontece porque ela é uma força divina, difícil de entender, porque se precisa entender, anteriormente, as causas atuantes e as condições para sua constituição. Existe, no entanto, uma prática mágica que seu objeto é de espírito para espírito. Na arte do talismã, a magia atua do espírito sobre o corpo (talismã), e na alquimia é de corpo sobre corpo (Picatrix, Tratado I, cap. II, p. 7, § 6-27). 19 Como podemos entender no trecho acima, a magia é a conclusão da filosofia, sua prática, conduzindo a alma. Existiriam, de acordo com o Picatrix, três tipos de prática: a do espírito para o espírito, a do espírito para o corpo (no sentido de objeto, ou seja, a arte dos talismãs) e do corpo para o corpo, que seria a alquimia. O Picatrix trata principalmente da arte dos talismãs ou das imagens como dito nas obras astromágicas da corte afonsina. Tradução livre da autora a partir do trecho da tradução alemã: “Wisse: Die Kunst 18 (natīğa) nun, die wir hier auseinandersetzen wollen, wäre nicht, wenn die Philosophie nicht wäre. Mit Recht haben sie daher die Philosophen conclusio (natīğa) genannt; denn die conclusio ist bei den Logikem das Ergebnis eines Schlußverfahrens, und das ist die Quintessenz des in den Pramissen Enthaltenen.” Tradução livre da autora a partir do trecho da tradução alemã: “Es kommt namlich 19 daher, daß er eine gotthche Kraft ist, wirkend aus vorausgehenden Ursachen, die die Voraussetzung für sein Begreifen bilden. Er ist eine schwer zu verstehende Wissenschaft. Es gibt aber auch einen praktischen Zauber; denn sein Gegenstand ist die Wirkung von Geist auf Geist. (…), wahrend der Gegenstand der Talismankunst die Wirkung von Geist auf Korper, und der der Alchemic die von Korper auf Korper ist”. 141 Aline Dias da Silveira O Libro de Astromagia também é um livro de imagens, entendidas como talismãs, e esta é a função do anel de Mercúrio. A imagem, enquanto talismã, não é uma ilustração ou uma representação do poder. Uma imago é a manifestação e presença do poder. A imagem deve ser construída em condições específicas, de correspondência e harmonia com os espíritos que habitam a esfera celeste de cada planeta para se tornar uma imago desses espíritos. Como explica o título do capítulo 6, do livro II, do Picatrix: Sobre as virtudes das imagens, e de que maneira elas podem ser possuídas, e como as imagens podem receber a força dos planetas, e como as obras são realizadas pelas imagens; e esta é a raiz das ciências da necromancia e das imagens” (Picatrix, L. II, cap. VI, 20 p. 51). 21 Nas obras astromágicas afonsinas, fica evidente a distinção entre figura e imagem. Figura é, geralmente, uma referência ao desenho como no caso da figura feita na gema para o anel de Mercúrio, enquanto imagem é o termo usado para o talismã em si, como um todo completo, bem como as imagens celeste, as constelações. Essa relação simpática entre a imagem construída e as imagens das efemérides astronômicas nos remete a uma temporalidade anterior ao neoplatonismo manifesto nas fontes, à temporalidade dos Necromancia é entendida nos textos como a magia por invocação de espíritos.20 Tradução livre da autora a partir do trecho: De virtutibus ymaginum, et cuius 21 maneriei possunt haberi, et quomodo ymagines possunt recipere vim planetarum, et quomodo opera fiunt per ymagines; et hec est radix scienciarum nigromancie et ymaginum.” 142 Magia como Fenômeno transcultural textos ominosos mesopotâmicos,há 5000 anos no passado 22 (SETERS, 2008, p. 94-96; SILVEIRA, 2019b, p. 186-187). Por isso, seria um grande erro de interpretação, se entendêssemos esses conceitos e cosmoconcepções como algo particular do rei astrólogo e seu scriptorium. As obras astromágicas afonsinas são traduções ou compilações de obras árabes e judaicas, como o Libro Razielis, que, por sua vez, fazem referências a obras mais antigas, egípcias, babilônicas, persas e indianas. David Pingree, no artigo intitulado Some of the Sources of the Ghāyat al-hakīm (1980), propõe apresentar as fontes do Ghāyat al- hakīm (Picatrix) para além das greco-romanas do neoplatonismo clássico. Ele encontra referências ou elementos dos Papiros Gregos de Magia (PGM); do Kitāb al-talāsim al akbar (Livro da Sabedoria), que consiste em um livro de magia talismânica atribuído a um pseudo- Apolônio de Tyana; do livro sânscrito Yavanajātaka, sobre correspondências planetárias; entre mais outras dezenas de referências. Se todos os lugares de produção dessas obras fossem colocados em um mapa, mostrariam uma rede de rotas do movimento do saber tardo- antigo e medieval, evidenciando muito mais continuidades, adaptações e atualizações que rupturas. O fenômeno histórico da prática mágica é transcultural (SILVEIRA, 2019, p. 607-608) e, dentro desta transculturalidade, Textos ominosos são escritos elaborados na Mesopotâmia, 20 séculos antes da Era 22 Comum, que estabeleciam a relação do movimento das estrelas com acontecimentos terrenos, desde a melhor época para o plantio até a melhor conjunção planetária para invadir uma cidade (SETERS, 2008, p. 94-96; SILVEIRA, 2019b, p. 186-187). 143 Aline Dias da Silveira também há transtemporalidade e transespacialidade. O prefixo “trans” nesses conceitos traz a ideia de movimento cultural e simultaneidade manifesta na fonte. Se observarmos e seguirmos os elementos e referências ali expressos, perceberemos a formação de uma rede de conexões espaço-temporais reatualizadas e até mesmo transfiguradas, mas que ainda revelam o entrelaçamento transcultural (BORGOTE; TISCHLER, 2012) do tecido histórico. Por isso, chamo a fonte de vórtice histórico, pois é o local onde esses fios entrelaçados tomam forma e sentido ao olhar da historiadora (SILVEIRA, 2019, p. 610). Sobre os anéis de Mercúrio Hariadne da Penha Soares (2017), em seu artigo A atuação dos magos e adivinhos como theioi andres no Egito tardo-antigo: práticas e rituais de adivinhação nos Papiros Mágicos Gregos (séc. III e IV), caracteriza os livros de magia da antiguidade greco-romana, principalmente no início da era cristã, com muitos elementos que poderíamos também caracterizar as obras medievais Picatrix e o Libro de Astromagia do século XIII. A autora explica que, quando os sacerdotes perdem seu espaço de poder nos templos egípcios, muitos passam a oferecer serviços religiosos e mágicos de vaticínio e cura de forma privada. Com o passar do tempo, esses exercícios de práticas mágicas passam a ser escritos em forma de manuais de magia. Nessas obras, pode-se encontrar receitas, fórmulas e instruções para a 144 Magia como Fenômeno transcultural realização de rituais. Os magos-sacerdotes conheciam tanto hinos sagrados como palavras secretas mágicas, diferentes tipos de plantas, pedras e práticas medicinais (GARCÍA MOLINOS, 2015, p. 32, apud SOARES, 2017, p. 150). Todas essas matérias encontramos nos livros de astromagia afonsinos, o que os coloca, no mínimo, como obras dos desdobramentos e reatualizações desses saberes que passaram ao mundo romano, judeu, muçulmano e, por último, como enfatiza Afonso X, aos cristãos latinos. No mesmo artigo, Soares faz referência à confecção de um anel de Hermes, descrita nos Papiros Gregos de Magia (que serão 23 referidos também com a abreviação PGM), provavelmente, dos primeiros séculos da era cristã. Podemos encontrar alguns elementos que aproximam o anel de Hermes egípcio do anel de Mercúrio (o nome latino de Hermes) do Libro Astromagia: Numa valiosa esmeralda está gravado um escaravelho; perfure-o e passe um fio de ouro pelo orifício; na parte inferior do escaravelho, grave uma Ísis sagrada e, depois de consagrá-la, como prescrito acima, use-a (PGM, V, 239-243, p. 193). 24 Os Papiros Gregos de Magia (PGM) são uma coleção de textos gravados em 23 papiros, mas também em conchas e tábuas que descrevem rituais, preces, simpatias e encantamentos do século I ao século IV da Era Comum. A maioria é escrita em grego, mas há também em copta e demótico (escrita egípcia mais simples e recente). No início do século XIX, ricos colecionadores europeus, como Giovanni Anastasi, consul da Suécia no Egito, o francês Mumaut e o inglês Salt, encontraram os PGM na região de Tebas e El Fayum. Tradução livre da autora a partir do trecho: “En una esmeralda valiosa graba un 24 escarabajo; perfórala y pasa un hilo de oro por el 240 agujero; en el envés del escarabajo, graba una sagrada Isis y, después de consagrarla, como arriba está prescrito” (PGM, V, 239-243, p. 193). 145 Aline Dias da Silveira Aqui encontramos o elemento da gema mágica ou consagrada a um deus. A mesma esmeralda valiosa prescrita no Libro de Astromagia para a confecção do talismã. A tradição da gema mágica, que pode atrair e até mesmo conter espíritos ou demons, para o propósito do mago foi atestada no estudo de Hariadne Soares (2020) em outro artigo, As Propriedades Apotropaicas das Gemas Mágicas no Egito Tardio, segundo os “Papiros Gregos Mágicos”, onde ela compara as pedras referidas nos PGM com os talismãs em pedra e em outros materiais daquele período, encontrados hoje em museus. Não é por acaso que Afonso cultivou o interesse por pedras e suas relações astrológicas, mandando traduzir uma obra árabe, que tratava sobre essa matéria, quando ainda era infante, o Lapidario (1250), e organizar uma súmula desse conhecimento na fase final de seu reinado, o Libro de las formas e imágenes que son en los cielos (1277). Um fato que chama a atenção, por indicar o entrelaçamento transcultural no momento da tradução dos livros, é que no prólogo do Lapidario está escrito que o texto árabe foi traduzido para o castelhano pelo judeu Hyuda Fy de Mosse al-Cohen Mosca. Aqui, a longa e a curta duração também se entrelaçam, tecendo o tecido histórico transtemporal e relevando a convivência entre judeus, cristãos e muçulmanos na corte afonsina. Carlinda Mattos (2008), em sua tese A Classificação dos seres no Lapidário de Alfonso X, o sábio, descreve que a obra possui a indicação de 360 pedras, que correspondem aos 360 graus do Zodíaco. As pedras são associadas também a plantas e a animais e são indicadas no emprego de variados objetivos curativos, na proteção contra os 146 Magia como Fenômeno transcultural feitiços e na pigmentação do cabelo (MATTOS, 2008, p. 8). No Lapidario, encontramos as imagens celestes construídas pelas constelações e a correspondência destas com as pedras, bem como a especificação do lugar onde as pedras podem ser encontradas – informações que expandem o espaço da fonte, tanto pelo mundo dos três continentes conhecidos pelos autores e tradutores na época, como também expande a abrangência da relação da prática mágica ao cosmos. O Lapidario e o Libro de las formas e imágenes que son en los cielos, bem como a esmeralda do anel de Mercúrio, no Libro de Astromagia, podem ser considerados como resultados dos entrelaçamentos transculturais que possibilitaram a constituição de elementos reatualizados. Seguindo a leitura do mesmo encantamento do anel de Hermes, aparece uma prece que deveria ser dita em direção ao sol, sendo que aquele que entoa o encantamento assume a persona da deidade Hermes-Thot, conhecida nos textos herméticos : 25 Eu sou Thot, descobridor e criador de bálsamos e da escrita; venha a mim você, o subterrâneo. Acorde para mim você,o grande demon, o Fnun, o ctônico. (...) Eu sou Héron, o famoso, o ovo de íbis, o ovo do falcão, o ovo da fênix que vem e vai pelo ar (PGM, V, 248-253, p. 194). 26 O Corpus Hermeticum (150-300 E.C.) são textos também encontrados 25 originalmente no norte do Egito, que podem ser definido como partes de um tratado filófico e mágico neuplatônico na voz de Hermes Trimegisto (três vezes mestre). Hermes Trimesgisto passou a ser representado como o pai da alquimia nos tratados alquímicos renascentistas. Tradução da autora a partir do trecho: “Yo soy Toit, descubridor y creador de los 26 fármacos y de la escritura; ven a mí tú, el subterráneo, despierta para mí tú, el gran demon, el Fnun, el ctónico (...). Yo soy Herón, el famoso, el huevo de ibis, el huevo del halcón, el huevo del fénix que va y viene por el aire”. 147 Aline Dias da Silveira Nos cultos greco-egípcios, o deus escriba, Thot, e o deus mensageiro, Hermes, acabam se fundindo numa deidade do conhecimento, da ciência revelada, o guia das almas, o mediador entre os mundos, o praticante de magia entre os deuses. O seu poderoso anel de esmeralda proporciona todo o conhecimento da verdade no 27 passado, presente e futuro: Não permita que nenhum deus ou deusa preveja, até que eu, fulano de tal, saiba o que há nas almas de todos os homens, egípcios, sírios, helenos, etíopes, de todas as linhagens e raças, daqueles que me perguntam e venha à minha presença e dos que falam e dos que se calam, para que eu lhes revele o passado, o presente e seu futuro, e conheça suas artes, suas vidas, seus costumes, seus ofícios e seus nomes, e os de seus mortos e todos, e pode ler uma carta selada e que lhes revele todas as coisas da verdade (PGM, V, 287-301, p. 195). 28 Na oração a seguir, encontramos mais elementos confluentes entre o anel de Hermes egípcio e o anel de Mercúrio castelhano, do Libro de Astromagia: Oh Yaminel, oh Rafael, oh Laçoç, com juro-vos pela primeira causa e pelo começo simples unir-se ou misturar-se com outra coisa, que não é visto, nem se esconde; e conjuro-vos por Tamasah, Çalehtamsah, Mahrahasmah, Acdaheyxemah, Anor, Haxmaos, Hacmaleh, Dadaros, Lafalyeh, Camalos, Daod, Talvez, se possa estabelecer relação com a pedra de esmeralda dos tratados 27 renascentistas de alquimia. Tradução da autora a partir do trecho: “No permitiré que ningún dios ni ninguna 28 diosa vaticine, hasta que yo, fulano, conozca lo que hay en las almas de todos los hombres, egipcios, sirios, helenos, etíopes, de todo linaje y raza, de los que me preguntan y vienen a mi presencia y de los que hablan y de los que guardan silencio, para que les revele el pasado y el presente y su futuro, y conozca sus artes, sus vidas, sus costumbres sus trabajos y sus nombres, y los de sus muertos y los de todos, y pueda leer una carta sellada y les revele todas las cosas desde la verdade” (PGM, V 287-301, p. 195). 148 Magia como Fenômeno transcultural Daadaob, aquele que tem os governos do céu e da terra; Oh Yemynel, oh Rafael, apareça com teu belo rosto e mostra-me a tua bela forma e pousa em mim e mostra-te a mim, venha até a mim teu espírito e que me guie nas coisas obscuras. Conjuro-te com Artamiz e por aquele o fez, por Mercúrio e a sutileza, aquele que é pai de toda ciência, dirás esta oração (...) (ALFONSO X, Astromagia, p. 290). 29 A expressão “pousa em mim” faz referência a uma forma alada, que de acordo com a iluminuras da fonte tem a aparência de um anjo e não de uma ave, como está referido na oração nos PGM a Hermes-Thot. Por outro lado, temos as características de “guia nas coisas obscuras”, a “sutileza” e “pai da ciência” características atribuídas ao Hermes-Thot dos PGM. Outro indício de uma reatualização das práticas mágicas greco-romano-egípcias pode ser encontrado na ideia de “primeira causa” e “começo simples” do hermetismo neoplatônico dos primeiros séculos da Era Comum, características essas associadas ao deus do monoteísmo judaico, cristão e dos muçulmanos em suas correntes místicas, influenciadas pelo neoplatonismo medieval. A invocação do Arcanjo Rafael aproxima ainda mais essa oração da mitologia judaico-cristã- muçulmana e do contexto ibérico medieval, da convivência das três culturas religiosas monoteístas. A oração acima evidencia, assim, a presença da magia, que Alejandro Garcia Avilés (1999) chama de Tradução livre da autora a partir do trecho: “o Yemynel, o Rafael, parezca la tu 29 cara fermosa e amuéstrame la tu forma bela e posa en mí e demuéstrateme, e venga en mí espírito de ti que. m guíe en las cosas escuras. Conjúrote por Artamiz e por el que. l fizo, e por Mercurio e la sotilleza, aquel que es padre de toda scientia. Dirás esta oratión (...)” (ALFONSO X, Astromagia, p. 290). 149 Aline Dias da Silveira salomônica. Isso também evidencia o que outros autores, como o próprio editor da fonte Alfonso d’Agostino (Afonso X, Astromagia, Introduzione, p. 24-45) e García Avilés (1997, 1999; 2010), afirmam quando dizem que o Libro de Astromagia é uma compilação bem organizada e prática de partes das traduções de obras astromágicas feitas na corte afonsina, principalmente, do Picatrix e do Libro Razielis . Ambos são produções das tradições orientais e greco-30 romanas amalgamadas na cultura árabe e judaica através da expansão islâmica no medievo. O hermetismo estudado na corte de Afonso X provinha principalmente da interpretação árabe dessas tradições que reunia também elementos do culto aos astros mesopotâmico, evidente nas várias referências aos caldeus. As temporalidades da magia Parte-se do entendimento que a magia, como um fenômeno histórico em si, converge diversos aspectos socioculturais e que, consequentemente, não pode ser explicada ou pensada historicamente apenas como um artifício político ou um adendo cultural (SILVEIRA, 2019b, p. 176-177). A magia, enquanto fenômeno histórico, merece protagonismo, pois evidencia cosmoconcepções complexas em seu O libro Razielis, ou o livro do Arcanjo Rafael, é um tratado de cabala prática ou 30 magia salomônica, traduzido na corte de Afonso X, de Castela. Segundo a tradição, o Arcanjo Rafael teria ditado o livro para Salmão. Ver: GARCÍA AVILÉS, Alejandro. Alfonso X y el Liber Razielis: imágenes de la magia astral judía en el scriptorium alfonsí Alfonso X. Bulletin of Hispanic Studies, v. 74, 1, p. 21-40, 1997. 150 Magia como Fenômeno transcultural desdobramento histórico e, em certos aspectos, mais autênticas que 31 os cânones discutidos por uma pequena elite sacerdotal e impostas pelas instituições religiosas públicas. A considerar essas premissas, trataremos agora das temporalidades experienciadas na prática mágica descrita na confecção do anel de Mercúrio presente no Libro de Astromagia. No entanto, faz-se necessário definir melhor o que é entendido aqui como temporalidade. Quando Heidegger escreve sua obra mais conhecida, Ser e Tempo, em 1927, busca entender e definir o que é o Ser, começando pelo Ser humano. Ele, como um filósofo da escola fenomenológica, não está em busca da definição do ser biológico, mas do Ser que desperta quando toma consciência si no mundo. Essa consciência de si se dá a partir da consciência de sua existência limitada pela morte. Por isso, a consciência de Ser não pode ocorrer fora da experiência temporal que evidencia os limites. Essa experiência temporal, que não pode ser medida com o tempo físico cronológico, é chamada de temporalidade e é inerente ao processo de despertar da consciência do Ser. Assim, quando pensamos e analisamos a experiência proposta e descrita na prática mágica, podemos evidenciar, por uma perspectiva fenomenológica, múltiplas temporalidades, como a temporalidade do contexto histórico da fonte, a das referências temporais e espaciais passadas expressas na obra, a temporalidade cósmica dos astros e a temporalidade cotidiana da realização das práticas.A expressão “mais autênticas” refere-se, aqui, ao fato de que essas cosmovisões 31 fundamentavam a forma como as pessoas experimentavam o mundo ao seu redor. 151 Aline Dias da Silveira Consequentemente, a fonte entendida como histórica deixa revelar sua transtemporalidade. Temporalidade cósmica Mesmo que o título Libro de Astromagia seja uma nominação tardia ao manuscrito Reg. lat. 1283, fólios 1-36, astromagia define bem a prática descrita no texto, já que é toda dependente do movimento nas esferas celestes, ou planetárias, como foi demonstrado acima. A prática astromágica exige o conhecimento das formas de medição do movimento dos astros, ou seja, da astronomia. Talvez, por isso, Afonso manda traduzir, também do idioma árabe, o Libro del Saber de Astronomía e manda elaborar a compilação e correção de antigos tratados no Libro de las Tablas Alfonsíes. No entanto, não apenas o conhecimento da posição e dos movimentos dos astros são necessários para a prática mágica, pois também são exigidos o conhecimento de como os astros interferem na esfera terrestre e as correspondências entre os corpos sublunares (terrenos) e supralunares (celestes). Dessa forma, Afonso manda traduzir o Picatrix e o Lapidario. No Libro de Astromagia podemos encontrar o “conclusio” ou a “quinta essência”, como a prática mágica é definida no Picatrix. Em outras palavras, a prática mágica teria como objetivo final a agência humana sobre uma realidade regida pelos astros. Aliás, a obra 152 Magia como Fenômeno transcultural árabe, cujo Picatrix é a tradução, tem o nome de Gāyat al-hakīm, que quer dizer o objetivo do sábio. O tempo cósmico é apenas uma denominação para múltiplos ciclos em ritmos ainda mais diversos. Cada efeméride propícia para uma prática mágica específica precisa ter conjugado esses diversos ciclos e ritmos, que é um espaço de tempo único, uma temporalidade prenha de sentidos, significados e expectativas. Vejamos o tempo cósmico para a confecção do anel de Mercúrio: Observa quando o Sol estiver em Leão e Mercúrio em Virgem e que não seja combusto. (...) Se puderes terminá-lo durante a hora de Virgem, está bem, mas, se não, o faça quando durar Virgem no ascendente e Mercúrio nele. Quando passar Virgem deixa para fazê-lo no outro dia, na hora de Virgem, e trabalha até terminá- lo (ALFONSO X, Astromagia, p. 286). 32 Nesse trecho, encontramos conjugados dois astros considerados fastos (benéficos) pela tradição mágica, principalmente mediterrânica: Sol e Mercúrio. Ambos estão associados, de certa forma, à virtude do conhecimento, mas enquanto Mercúrio é o “pai de todas as ciências”, como lembra a oração, e o guardião dos segredos não revelados, o Sol, por sua vez, releva tudo, é o senhor da verdade revelada por excelência. Nas orações gerais do Libro de Mercúrio, no Libro de Astromagia, temos evidenciada a relação de Mercúrio com o Tradução livre da autora a partir do trecho: “Para mientes quando el Sol fuere en 32 León e Mercurio en Virgo, que non sea conbusto. (...) Si lo pudieres conplir en una hora, bien; si non, fazlo quanto durare Virgo en el ascendent e Mercurio en él. Quando passare Virgo, déxalo tro a otro día a tal hora e labra fata que lo cumplas” (Alfonso X, Astromagia, p. 286). 153 Aline Dias da Silveira Sol: “Em nome de Deus, oh tu, planeta verdadeiro e razoável, tu eres notário do Sol, tu eres fortuna com as fortunas (...)” (ALFONSO X, 33 Astromagia, p. 270). O Sol é regente do signo de Leão, e Mercúrio é regente do signo de Virgem, assim ambos estão em exaltação, quando posicionados nessas constelações zodiacais. A hora de Virgem, ou quando Virgem estiver no ascendente, seria o momento em que o Sol, no seu movimento diário, passa pelo signo de Virgem, o que pode durar aproximadamente duas horas do tempo físico cronológico. Na “hora de Virgem”, a emanação do poder de Mercúrio é potencializada e canalizada com o ritual através das orações e das figuras desenhadas. O Talismã ou imagem, como o chama Afonso, incorpora, prende e retém esse poder que é direcionado para um objetivo. Assim, temos no anel mágico a conversão do tempo cósmico nas efemérides dos ciclos astrais e o tempo cotidiano do direcionamento do poder cósmico para um objetivo mundano. Temporalidade cotidiana Na confecção do anel, depois de se fazer a oração de Mercúrio e repeti-la por 46 vezes, o texto diz que se deveria ir dormir para se ter a visão do que se quisesse saber. Porém, caso não ocorresse o esperado, se deveria jejuar por sete dias e fazer a mesma oração a cada Tradução da autora do trecho: “En nombre de Dios. O tú, planeta verdadero e 33 razoable, tú eres notario del Sol, tú eres fortuna con las fortunas” (ALFONSO X, Astromagia, p. 270). 154 Magia como Fenômeno transcultural dia. No sétimo dia, melhor que fosse no dia de Mercúrio (quarta-feira), se deveria, mais uma vez, usar os defumadores e rezar. Então, apareceria um espírito que encheria o recinto de luz e perfume. Este espírito perguntaria: “qual é o teu pedido?” e o mago-filósofo deveria responder: “o meu pedido é que me dês o espírito de todos os espíritos, que me guie em toda obscuridade e que eu possa saber tudo que quiser” (Alfonso X, Astromagia, p. 290). O espírito, então, 34 colocaria sua mão sobre o peito do demandante e, desse momento em diante ele saberia todas as ciências e saberes que nunca soube antes. O pedido revela o objetivo pragmático da prática mágica: conhecimento e informação, assim como no anel de Hermes, nos PGM e no Picatrix. O contexto, no entanto, marca a diferença na intenção. Enquanto nos PGM e no Picatrix é explicitado a vontade do mago profissional que quer impressionar o governante e alcançar uma boa posição por seus serviços de informações vaticinadas, no Libro de Astromagia, é o próprio rei sábio (astrólogo) o interessado no poder do anel precioso. As orações e talismãs dos livros astromágicos do scriptorium afonsino servem aos interesses de aplicações cotidianas. Quanto à Mercúrio, encontramos pedidos, principalmente, relacionado aos conhecer, ver ou revelar informações, esconder coisas ou esconder-se, Tradução da autora do trecho: “La mi petición es que me des spírito de los tus 34 espíritos, que me guíe en todas las escuridades, y con que pueda saber todo lo que quisiere” (ALFONSO X, Astromagia, p. 290). 155 Aline Dias da Silveira bem como ter poder sobre plantas e pedras de Mercúrio (ALFONSO X, Astromagia, p. 270-299). No Picatrix, encontramos no capítulo V, do primeiro livro, por exemplo, as instruções para a confecção de talismãs para unir amantes e para que a intimidade dure; para retirar o inimigo de algum lugar; para a ruína de uma cidade; para favorecer uma cidade ou um lugar; para que aumente a fortuna e o comércio; para conseguir altos cargos; para dispor um soberano à vontade de alguém; para quem quer se casar e lhe é impossível; para impedir a um homem que peça uma mulher em matrimônio; para libertar um peso (PICATRIX, 1986, Livro I, cap. V, p. 15-25). Bem, mesmo que essas instruções para a elaboração dos talismãs tenham sido traduzidas, copiadas, compiladas, atualizadas e passadas ao longo de séculos, pode-se pensar nas circunstâncias possíveis que criaram as demandas para tais práticas mágicas e o interesse permanente em seus resultados. Nessa cosmopercepção, a experiência humana cotidiana não está à deriva ou ao acaso. Mesmo que não se pudesse compreender o plano divino ou o emaranhado de conexões chamado de destino ou fortuna, ele estava lá e determinaria uma existência de imprevistos, com limitações desconhecidas. No entanto, por meio do conhecimento do movimento dos astros e suas atuações no plano terrestre, das emanações das virtudes celestes e da sua canalização nos talismãs, seria possível conhecer as regras do jogo cósmico, prever e evitar tragédias ou, até mesmo, alterarresultados. A 156 Magia como Fenômeno transcultural prática mágica possibilitaria a agência humana numa temporalidade cotidiana e determina, mas não imutável. Conexões espaço-temporais no material ritualístico No início da explicação sobre a confecção do anel de Mercúrio há a especificação: “Toma gema de esmeralda prasme, sendo ascendente em Virgem e na hora de Mercúrio” (ALFONSO X, 35 Astromagia, p. 286.). Porém, o que seria e onde poderia ser encontrada a “esmeralda prasme”? Antes mesmo de assumir a coroa de Castela e Leão, o Infante Afonso já havia solicitado os serviços da equipe de tradutores do judeu Hyada Fy Mosse al-Cohen Mosca para a tradução do árabe para o latim do Lapidario de Abolays, como nos conta o prólogo da obra. Como explicado anteriormente, neste lapidário, além da descrição e classificação de pedras de acordo com a influência que sofreriam dos astros, é identificada a relação daquelas com algumas constelações, ou imagens celestes, suas virtudes (propriedades mágicas para o uso) e onde elas seriam encontradas. Sobre a esmeralda prasme, conhecida em árabe por “zavarget”, como explica o Lapidario, podemos ler, entre outras informações: “assemelha-se em cor com a esmeralda e é encontrada naquelas mesmas minas de ouro em que as outras são encontradas. (...) sua cor verde e seu esplendor é Tradução da autora do trecho “Toma yema de esmeralda prasme, seyendo el 35 ascendente Virgo e la hora de Mercúrio”. 157 Aline Dias da Silveira muito maior que o da outra esmeralda” (ALFONSO X, Lapidario, 47, p. 50). No trecho anterior a esse, que trata da esmeralda simples, é 36 especificado que essas minas de ouro são encontradas mais no Ocidente que em outros lugares. Porém, de que Ocidente estamos falando? Não é possível definir, exatamente, qual seria o lugar de referência de quem escreveu o texto, no entanto, podemos construir alguma hipótese a partir do prólogo do Lapidario. Os tradutores e organizadores da obra contam que o “sábio Abolays”, que amava os gentis, pediu para um amigo buscar da terra de seus avós caldeus o livro do lapidário que falava de 360 pedras, segundo os graus dos signos que estão na oitava esfera. Abolays teria traduzido do caldeu para árabe (ALFONSO, Lapidario, p. 9-11). Se considerarmos que Abolays e os tradutores afonsinos foram honestos em seus escritos e que as traduções se mantiveram fiéis aos referenciais geográficos do texto caldeu, supostamente original, seria possível dizer que as minas do Ocidente referidas no texto se localizariam no noroeste da África, mais especificamente Egito e Abissínia, pois são as minas de ouro ocidentais mais próximas da Caldeia, região ao sul da Mesopotâmia. No entanto, essa é apenas uma hipótese, a partir de indícios do texto, Tradução da autora a partir do trecho: “Del decimoséptimo grado del signo de 36 Touro es la piedra a que dicen zavarget en arábigo, y en latín prasme. Semeja en color a la esmeralda y es hallada en aquellas minas mismas del oro que las otras de hallan (...) Y su verdura y su resplandor es mucho mejor que el de la outra esmeralda” 158 Magia como Fenômeno transcultural que nos serve como exercício para pensarmos as conexões espaciais e temporais presentes na fonte. Em relação ao sacrifício ritualístico, o Libro de Astromagia diz que se deve degolar uma ave que em árabe se chama “orsem” e explica que o “translador” identifica esse pássaro como uma calandre. Calandre ou Calhandra em português é um pássaro que vive principalmente no norte da África e na África tropical e que sazonalmente voa para o sul da Europa, inclusive, o sul da Península Ibérica. Se o mago, artesão do anel de Mercúrio, vivesse na região mediterrânica, ele teria relativa facilidade em contar com esse elemento sacrificial para a transformação do anel em um talismã. No entanto, podemos perceber que a obtenção do principal material do anel, a esmeralda prasme, não seria tão fácil, a pedra precisaria ser minerada, comercializada e lapidada, empreendimentos esses que só poderiam ser pagos por quem tivesse poder político e/ou econômico. A prática do conhecimento mágico, como expressa no Libro de Astromagia, no Picatrix e no Lapidário, seria muito cara e restrita a um pequeno grupo dentro de um grupo ainda menor de uma elite política, econômica e intelectual. Em outras palavras, o praticante de astromagia precisaria estar associado à alta nobreza ou ser um membro dela. 159 Aline Dias da Silveira Conclusão A ideia de conexões e redes definem bem o movimento na história humana, as experiências coletivas humanas que ocorrem a partir de conexões espaço-temporais. Vários elementos culturais e matérias presentes no anel mágico de Mercúrio podem revelar essas conexões. A própria matéria astromágica, fundamentada na cosmoconcepção da influência dos corpos celeste sobre os corpos terrestres, que nos remete ao culto aos astros na antiguidade mesopotâmica, foi reatualizada diversas vezes ao longo de milênios, movimentando-se pelos três continentes, até compor a matéria dos livros astromágicos no scriptorium afonsino. Nessas conexões espaço- temporais, temos as diversas tradições linguísticas, religiosas, filosóficas e mágicas que confluem na fonte, seguindo um movimento do saber e da cultura ao longo de rotas comerciais, por vezes, concentrando-se em centros convergentes desse fluxo, como escolas de tradução, cortes e bibliotecas. Esses centros medievais convergentes do fluxo do movimento de um saber textual foram também espaços de compartilhamento e articulação de pessoas que buscavam o conhecimento secreto da natureza e do divino, como seria o caso dos colaboradores do scriptorium afonsino. Nesse scriptorium, podemos definir uma cronologia progressiva dos estudos astromágicos afonsinos. O Lapidario (1250) que informa onde encontrar o material para canalizar as virtudes das 160 Magia como Fenômeno transcultural esferas celestes; O Picatrix (1256) que oferece o fundamento filosófico e prático da magia astral, reunindo fontes de diferentes culturas orientais; o Libro Razielis (1259) que oferece uma transposição da magia astral para a leitura da tradição mística judaica e, finalmente, o Astromagia (entre 1276-1284), que reúne todos esses saberes de forma objetiva e harmônica, focado em aspectos que poderiam interessar diretamente um rei em meio a revoltas da alta nobreza, como Afonso X na final de seu reinado e vida. Pois, em um contexto como esse, a magia aplicada ao conhecimento de todos os segredos, como no Libro de Mercúrio, viria ao encontro de suas necessidades. Ana González Sánchez (2011, p. 231), em sua tese de doutorado, coloca que a preocupação científica, juntamente com a ideia de basear a ação política no conhecimento apurado, não teria sido alheia aos empreendimentos astronômicos afonsinos, mas haveria outras motivações, como o pragmatismo de guiar as ações do rei pelas estrelas. No entanto, os estudos astromágicos afonsinos indicam o interesse de ir além do deixar-se guiar pelos astros, pois evidenciam a vontade de manipular e ter agências sobre uma realidade em potencial. A busca pela agência humana e manipulação das leis cósmicas/ naturais é o impulsionador da história da magia. Por isso, ela está na área de encruzilhada ou de intersecção com a religião, a ciência e a política ou simplesmente com o viver cotidiano e a resistência aos caprichos mutáveis da fortuna ou da vontade (igualmente caprichosa) 161 Aline Dias da Silveira do Inefável. Assim, cada fonte analisada aqui é um vórtice histórico que manifesta ou revela uma concentração de áreas de intersecções, ao mesmo tempo que nos conduz, como o fio de Ariadne, na trama da História. Referências Documentação AFONSO X. General Estoria. Primera Parte. Edição de Antonio Garcia Solalinde. Madrid: Junta para ampliación de estudios einvestigaciones científicas - Centro de estudios históricos, 1930. ALFONSO X. Setenario. Edição de Kenneth H. Vanderford. Buenos Aires: Instituto de Filosofia, 1945. ALFONSO X. Astromagia (Ms.Reg.lat.1283ª). Edição, tradução e comentário de Alfonso d’Agostino. Napoli: Liguori Ed., 1992. ALFONSO X. Lapidário. Texto íntegro en versión de María Brey Mariño. 2ª ed. Madrid: Editorial Castalia, 1997 (Odres Nuevos). HERMETICA. The Greek Corpus Hermeticum and the Latin Asclepius in a new English translation with notes and introduction. Edição de Brian P. Copenhaver. Cambridge: Cambridge Unversity Press, 1992. PICATRIX. 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Ele fez como eles, e pedindo o sal várias vezes, do que os demônios têm horror, no final trouxeram-lhe, então ele disse em italiano: ‘Louvado seja Deus que o sal chegou’. Assim que o nome de Deus foi pronunciado, toda a companhia de demônios e bruxos, e todas as carnes, desapareceram repentinamente, e o pobre homem foi deixado nu e voltou para sua região a cem léguas de distância, mendigando seu próprio pão (BODIN, 1580). Esse relato, a respeito da mulher indo participar do que seria um sabá, contido no Tractatus de hereticis et sortilegiis (1536) escrito pelo juiz eclesiástico Paolo Grillando, é apenas mais uma dentre as inúmeras narrativas sobre indivíduos sendo transportados pelos ares, com a ajuda de pomadas e unguentos. Em outro relato, o juiz narra sobre um homem que tinha uma esposa acusada de ser bruxa; como o marido não tinha certeza do fato, decidiu observá-la de perto, o que fez durante doze noites. Quando mais tarde ela foi presa, acabou Doutora em História Cultural pela Universidade Estadual de Campinas – 1 UNICAMP (2015-2021), mestrado em Estudos Literários pela Université Paris Ouest Nanterre La Défense (2012), é graduada em História pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (2009). É integrante do Modernitas – Núcleo de Estudos em História Moderna vinculado ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da UNICAMP. 165 Lívia Guimarães Torquetti dos Santos confessando ter ido ao sabá em um determinado dia e horário. Seu marido querendo salvá-la jurou solenemente que ela estava ao lado dele na cama. O que se concluiu é que ela estava participando do sabá em espírito (GRILLANDUS, 1547). Grillando teve grande notoriedade porque testemunhou muitas confissões de bruxaria sem que o uso da tortura fosse empregado (TREVOR-ROPER, 2001) e seu texto, se tornou uma obra de referência, sendo citado constantemente por teólogos e por juristas importantes. Grillando reuniu em sua obra diversos julgamentos cheios de outros elementos correlatos ao sabá, como as metamorfoses em animais, as fórmulas mágicas para voar e o unguentum paganus – unguento pagão. A frequência com que esses elementos aparecem na documentação é considerável, tanto nos processos que lidavam com o crime de bruxaria quanto nos tratados demonológicos dos séculos XVI e XVII. Jean Bodin em seu tratado Dela démonomanie des sorciers (1580), por sua vez, elencou vários desses relatos e, assim como ele, outros juristas da primeira modernidade – como Nicholas Rémy, Henry Boguet e Pierre de Lancre, também referenciaram esses eventos como forma de comprovar a bruxaria em solo francês. Essas narrativas estruturaram um debate mais amplo, no qual se questionava se a participação no sabá, e seu deslocamento até ele, se dava “em espírito” ou se os participantes compareciam corporalmente. Nesses textos, geralmente os unguentos eram fornecidos pelo diabo aos participantes do sabá, para que pudessem voar longas distâncias até essas reuniões diabólicas. Deve-se observar que essa discussão não era apenas sobre o unguento em si, como vimos nos relatos acima; ela revela para os historiadores, diversas nuances de crença de um debate maior, em que 166 Pomadas, poções e unguentos se discutia a possibilidade física ou não do voo, ou seja, sobre o deslocamento de corpos via êxtase ou sonho. Esse deslocamento aéreo tinha como referência o episódio bíblico em que Jesus foi levado ao deserto e, restava a esses homens, compreender os artifícios de que o 2 diabo se utilizava para fazê-lo – as pomadas e unguentos – e, se era ilusão ou se ele ocorria de forma concreta. Esse tema tem raízes muito anteriores relativas às perseguições às diversas correntes heréticas dos séculos XI e XII, que foram acusadas das práticas mais terríveis, como canibalismo e infanticídio e, por isso, estavam sempre reunidas na clandestinidade. A ordem dos valdenses ou os “pobres de Lyon”, por exemplo, era acusada de todas essas práticas; condenados à clandestinidade, seguiam o modo de vida apostólica, itinerante e mendicante, executando pequenos trabalhos por onde passavam. Ocupando regiões do sul da França, norte da Itália e algumas partes da Bohemia Germânica, se instalaram também na região dos Alpes Suíços, região que nesse período, vivenciou diversas perseguições contra a “sinagoga Valdense”. Sendo também chamada de seita imaginária de bruxos e bruxas, acabou por receber um importante legado das seitas heréticas do final da Idade Média, seja em termos de terminologia ou de práticas (OSTORERO, 2011). Seus Mateus 4:1 ao 6. “Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado 2 pelo diabo. Por quarenta dias e quarenta noites esteve jejuando. Depois teve fome. Então, aproximando-se tentador, disse-lhe: ‘Se és Filho de Deus, manda estas pedras se transformarem em pães.’ Mas Jesus respondeu: ‘Está escrito: Não só de pão vive o home, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.’ Então o diabo o levou à Cidade Santa e o colocou sobre o pináculo do Templo e disse-lhe: ‘Se és Filho de Deus, atira-te para baixo (...).” Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002, p. 1708. 167 Lívia Guimarães Torquetti dos Santos ritos de iniciação e seus comportamentos religiosos distintos da ortodoxia, geraram ações inquisitoriais nos vilarejos e condenações à fogueira. Esses julgamentos de bruxaria na região dos Alpes ocidentais, conduzidos pelas inquisições itinerantes do final do século XIV e início do XV, estavam relacionados a essas histórias de voos noturnos, mas sobretudo à perseguição desses grupos. A eles eram atribuídas práticas de adoração do diabo ou reuniões de orgias sexuais. Antes da década de 1430, esses tribunais geralmente mantiveram uma distinção entre acusações de heresia e magia, mas essa distinção foi gradualmente corroída quando foi surgindo aos poucos a ideia de um culto às bruxas (BAILEY, 2013). O que se tinha nesse momento era uma preocupação com seitas heréticas, o conceito de sabá, sendo assim gestado a partir de bases intelectuais que teorizavam sobre essas mesmas seitas, que eram acusadas de se reunir com motivos de idolatria e práticas mágicas. Com isso se quer dizer que o sabá das bruxas deve ser entendido como um construto resultante do olhar erudito a partir de vários substratos culturais, tendo a sua gênese estruturante em relatos anteriores à primeira modernidade. Os juristas e teólogos dos séculos XVI e XVII se concentraram bastante na teorização do que viria a ser conhecido como essa mítica reunião noturna de adoradores do diabo e quatro manuscritos medievais, de importância variada, foram fontes fundamentais para essa elaboração: os relatórios dos julgamentos de Valais (1428), na Suíça, de Hans Fründ; o Formicarius (1436-1438), de Johannes Nider; o Errores gazariorum (1435-1438), de autoria anônima; e o Ut 168 Pomadas, poções e unguentos magorum et maleficiorum errores (1436), de Claude Tholosan. Essas obras poderiam ser inseridas em um recorte temporal de crise da Igreja e fim do papado de Avignon, até o fim da Idade Média; nesse espaço de tempo de pouco mais de cem anos, foi possível constatar uma transformação considerável no que era teorizado como bruxaria: temas antes considerados como heresia dos demonólatras na tradição inquisitorial (PARAVY et al., 1999) passaram a ser incluídos na discussão da bruxaria como tema principal dessa tratadística. Novamente, o mapeamento desses textos nos permite observar o imaginário do sabá sendo germinado a partir de substratos da bruxaria popular, magia erudita e heresias, sendo amalgamadas ao longo do processo histórico. O relatório de Hans Fründ Hans Fründ foi um cronista de Lucerne, na região do Valais, na atual Suíça e autor de um relatório a respeito dos julgamentos de bruxaria nessa região, ocorridos entre os anos de 1428 e 1436. O documento, datado de 1431 está repleto de elementos muito comuns na literatura demonológica, tais como a adoração ao diabo, o assassinato, a heresia e a reunião em lugares secretos. A ideia de sabá – agregação de indivíduos com o propósito de subverter a Igreja e a ordem social –, entretanto, não estava ainda formalmente completa, pois nesse momento seus elementos constitutivos ainda estavam atrelados sobretudo à ideia do maleficium e às heresias. 169 Lívia Guimarães Torquetti dos Santos Eles também confessaram como o espírito maligno carregava-os à noite de uma montanha para outra, como ele ensinava-os a fazer pomadas que eles colocavam em cadeiras e, então, com isso, cavalgavam de uma vila para outra, de um castelo para outro, e depois para as adegas daqueles que tinham o melhor vinho; lá, eles se divertiam e depois iam para onde queriam (CHÈNE et al., 1999). Com efeito, a ideia do transporte pelo ar facilitado pelo diabo era tema central no debate medieval e viria a ser também no debate moderno, pois remetia ao movimento de cavalgar, fazendo eco à tradição do canon Episcopi, documento que caracterizou como superstição e ilusória a ideia do voo noturno (PARAVY et al., 1999). Além disso, o voo diabólico era entendido como uma versão paródica de Jesus: o diabo na impossibilidade de fazer como Deus, conseguia, a partir da manipulação de unguentos e poções transportar os indivíduos. No caso acima, o transporte se deu por meio de uma cadeira – em alguns casos também em banco – o que era uma particularidade da região de Valais (CHÈNE et al., 1999). A discussão sobre o deslocamento não era tanto sobre o voo ser falso ou verdadeiro, mas sobre a possibilidade de o indivíduo participar desses eventos em espírito. Esse tema parece também se relacionar com alguma frequência à discussão sobre a metamorfose, afinal, se está pensando nas condições materiais concretas desses fenômenos. Fründ relata o caso de pessoas que aprendiam a se transformar em lobo, corriam atrás de ovelhas e cabras e as comiam crus. Segundo ele, através de várias ervas, o espírito maligno também os ensinou a se tornarem invisíveis, de tal maneira que ninguém poderia mais vê-los 170 Pomadas, poções e unguentos (CHÈNE et al., 1999). Mas a confecção dessas substâncias, como confessou uma bruxa a esse relator, dependia do infanticídio e tambémde canibalismo: “havia entre eles quem matasse seus próprios filhos, assava, comia, cozinhava, levava-os para a sociedade e lá também os comiam” (CHÈNE et al., 1999). Essa menção às ervas e unguentos é importante porque representou uma mudança, na medida em que a cavalgada mítica com Diana descrita no canon Episcopi não se fazia mediante uso de unguento; agora, o diabo fornecia ao final dos rituais, aos participantes, instrumentos para o seu comparecimento nas próximas assembleias: unguentos (ou pós) e objetos para o deslocamento pelos ares. Formicarius (1436-1438) Um texto muito influente na demonologia medieval por ter começado a sistematizar os elementos fundantes do imaginário do sabá é o Formicarius – “O Formigueiro” –, do teólogo dominicano Johannes Nider. O texto tem caráter didático, em forma de diálogo entre dois personagens, o Teólogo e o Preguiçoso, e a proposta do autor era apresentar os milagres e maravilhas que se produziam à sua época. Escrito entre os anos de 1436 e 1438, o texto é composto de cinco livros que abordam os atos excepcionais dos homens de bem, passando pelas boas revelações, visões falsas ou ilusórias e tocando na questão dos bruxos e seus erros. Após uma reflexão teórica dos temas baseada nas escrituras e em autores da Antiguidade, o autor ilustra as 171 Lívia Guimarães Torquetti dos Santos situações com exemplos de julgamentos contemporâneos à sua escrita. Como Nider afirma na introdução, ele apresenta exempla e ensinamentos que ele aprendeu com os doutores da sua faculdade em Viena; com a experiência de um juiz laico, homem honesto e digno de fé que, através de questões e confissões e de experiências privadas e públicas, aprendeu sobre muitas coisas (CHÈNE et al., 1999). Para alguns especialistas, o Formicarius se constitui mais como um catálogo de exempla e não um tratado demonológico nem uma obra de atestação da realidade da bruxaria. Dessa forma, seria dizer que na brevidade de suas narrativas existe um modelo de moralidade, de comportamento. Os capítulos do Formicarius são introduzidos por uma análise comparativa das características das formigas às características humanas. Para elucidar, tomamos como exemplo o Livro V, precisamente o capítulo III, intitulado “Aos bruxos e seus erros”. No referido texto, Nider abordou a temática do canibalismo praticado pelos bruxos que comiam seus filhos nas assembleias. O autor iniciou sua argumentação explicando como o frio impedia que os ovos das formigas fossem formados e exemplificando como a neve impedia a geração da vida. Por analogia, associou o frio aos bruxos, que afastados do calor e claridade do sol, praticavam canibalismo interrompendo a vida das crianças: “o frio que é nocivo à proliferação das formigas nos parece sinalizar para a figura dos bruxos, entendidos como aqueles que causam mal aos outros através de obras supersticiosas” (CHÈNE et al., 1999). Nesse mesmo capítulo, Nider narra outro relato sobre canibalismo: 172 Pomadas, poções e unguentos Em seguida, [eu] soube pelo inquisidor, que me contou esse ano, que no ducado de Lausanne, alguns bruxos tinham cozinhado seus próprios filhos recém-nascidos e os tinham comido. Agora, a maneira de aprender uma arte assim, de acordo com o que ele disse, era a seguinte: os bruxos tinham ido a uma determinada assembleia e, graças ao seu trabalho, eles viram, de maneira visível, o demônio que assumiu a aparência de um homem. O discípulo devia obrigatoriamente dar sua palavra de negar o cristianismo, de nunca adorar a eucaristia e, algo que deveria fazer secretamente, pisar no crucifixo (CHÈNE et al., 1999). Esse relato entrelaça o tópico comum do canibalismo e a ideia das assembleias/seitas com a negação da fé. A suspeita das atividades da seita e suas práticas horríveis aparecem em variadas situações narradas por ele e um forte acento sempre recai sobre movimentos de renegar os ritos comuns da ortodoxia. Enquanto nos relatos anteriores de Fründ, a utilização da gordura de crianças não era tão clara e a descrição permanecia só no ato canibal, encontramos em Nider essa confirmação pela confissão de uma bruxa: Em seguida, os cozinhamos em um caldeirão até que os ossos se soltem, toda a carne se torne comestível ou bebível. Da parte mais sólida deste material, fazemos uma pomada que seja conveniente às nossas vontades, nossas artes e nossas metamorfoses. Com a matéria líquida ou humor, enchemos uma garrafa ou uma outra coisa; aquele que a beber, após a realização de algumas cerimônias, torna-se imediatamente mestre e cúmplice de nossa seita (CHÈNE et al., 1999). Por essa descrição, na perspectiva da totalidade dos crimes, o infanticídio era o meio pelo qual se tornava então possível a execução de malefícios e de magia, o que fez do canibalismo não mais necessariamente um fim em si mesmo. Os unguentos além de selar a 173 Lívia Guimarães Torquetti dos Santos adesão dos indivíduos, propiciavam o voo, e como veremos mais a frente, implicavam também na realização das metamorfoses. No livro II, o Teólogo expõe para o Preguiçoso as diferentes categorias de sonhos e suas causas. Ele se baseia na explicação tomística, segundo a qual, os sonhos poderiam ter causas internas e externas (AGOSTINHO, A Cidade de Deus, I, 95). Essa discussão é importante, pois nela o Teólogo explica para o Preguiçoso quem deveria se ocupar da interpretação de cada um desses tipos de sonho. A causa interna seria dupla: por um lado, corporal, em que o sonho seria aquilo que se pensou e desejou em estado de vigília; por outro, imaginária e afetada pelos humores, de tal maneira que caberia aos médicos interpretarem esse tipo de sonho. Do mesmo modo, a causa externa também era dupla: corporal e espiritual. A primeira se daria pela influência dos elementos naturais e dos astros e, por isso, caberia ao filósofo natural o seu exame. Quanto à causa espiritual que poderia ser tanto divina quanto diabólica, a explicação é que “Deus produz o sonho na imaginação e na mente dos homens graças aos ministérios dos bons anjos; quando diabólica, o diabo mobilizaria a imaginação para criar no pensamento o conhecimento de algo oculto ou futuro” (CHÈNE et al., 1999). Após essa explicação, Nider relata o exemplum que ouviu de seu preceptor a fim de ilustrar os perigos que os sonhos diabolicamente inspirados representavam para os cristãos. O autor conta que ao passar por uma aldeia, um dominicano descobriu que 174 Pomadas, poções e unguentos uma senhora acreditava que durante a noite era transportada aos ares com a deusa Diana e outras mulheres: Quando o padre decidiu expulsar a perfídia com palavras salutares, essa mulher teimosa disse que acreditava mais em sua própria experiência. O padre disse-lhe: “Então, deixe-me estar presente quando tu fores partir da próxima vez.” Ela respondeu: “Me agrada a ideia e se quiseres, tu me verás partir na presença de testemunhas idôneas.” Assim, para que o defensor das almas conseguisse convencer a delirante mulher, no dia da partida previamente fixado pela velha, o padre estava presente acompanhado por homens de confiança. A mulher então sentou-se num recipiente, esses usados normalmente para fazer pão, que estava em uma banqueta. E depois de aplicar unguento e proferir palavras maléficas, adormeceu com a cabeça inclinada para trás. E imediatamente, pela obra do demônio, ela sonhou intensamente com Vênus e outras coisas supersticiosas. Sua alegria era tão intensa que ela gritava em voz grave, batia palmas e os movimentos que fazia, sacudiam tanto o recipiente em que estava sentada que, de repente, tombou da banqueta e o recipiente caiu pesadamente em sua cabeça. E então o padre questionou a mulher, que agora estava acordada e deitada imóvel no chão: “Com licença, onde tu estás? Por acaso, estiveste com Diane, tu que nunca saíste da gamela, segundo o depoimento dessaspessoas aqui presentes?” Assim, por meio desse processo e dessas palavras salutares, ele a levou a reconhecer seu erro (CHÈNE et al., 1999). Este exemplum ilustra o argumento de que o voo noturno teria caráter ilusório, conforme o ensino do cânone Episcopi; no entanto, assim como no relato das reuniões em adegas narrado por Fründ, vemos aqui a mudança na percepção da crença. Antes de “decolar”, ou seja, antes de adormecer, a mulher revestiu o corpo com um unguento e a partir desse feito passou a experimentar as fantasias diabólicas. Nesse relato, mais importante ainda é o testemunho do padre que, mediante autorização da mulher e juntamente com outros 175 Lívia Guimarães Torquetti dos Santos observadores, presenciou o evento. Esse ponto é fundamental, pois expressa que esse religioso foi testemunha ocular da ação diabólica, contexto em que o diabo havia produzido imagens de “Vênus e outras coisas supersticiosas”. Além disso, nesse relato temos a presença de um homem revestido de autoridade religiosa que atesta o caráter ilusório do voo; ele confirma como o diabo é capaz de sugestionar aquilo que não é, assim como confirma o não-deslocamento corporal da mulher. No plano moral, o evento fez a mulher reconhecer seu erro o que, em termos narrativos, corresponde ao objetivo dessa obra de esclarecer e convencer. Dois outros relatos muito semelhantes a esse figuram em textos posteriores de Nider. O primeiro deles se encontra no tratado Praeceptorium divine legis e narra a ocasião em que um pregador tenta convencer, sem sucesso, uma senhora de que o voo era ilusão. Ele foi à casa dela, conforme combinado, quando ela lhe disse que seria transportada em um recipiente, em direção a Herodíade e Vênus. E naquele momento, sem que houvesse qualquer movimento, a velha [prendeu os próprios cabelos] e, então sonhava que se dirigia para Herodíade. Alegremente, ela estendia as mãos para a frente e o recipiente, por causa do movimento, caiu e jogou-a no chão cheia de vergonha (CHÈNE et al., 1999). A outra versão faz parte de um sermão integrante de textos organizados em torno do decálogo. Nessa versão, uma senhora também aparece sentada em um recipiente em cima da mesa, por meio do qual ela queria se deslocar até Heuberg. 176 Pomadas, poções e unguentos E então ela se sacudiu com força no recipiente e caiu, em nome do diabo, debaixo da mesa e o recipiente caiu sobre ela. Ela certamente não caiu em nome de Deus! Quem não riria dessa gente, que portanto, está em erro. Essas são as bruxas (CHÈNE et al., 1999). A referida versão reforça ainda mais o caráter instrutivo do relato, pois ridiculariza aqueles que se prestavam à experimentar o voo, nomeando-os como bruxas. O fato de a senhora cair no chão cheia de vergonha ou reconhecendo seu erro, tal como na primeira versão tem caráter de conversão, de arrependimento. A partir desses relatos de Nider, vemos que o testemunho ocular do observador é sempre o último recurso que, por sua vez, é decorrente do insucesso do convecimento por meio da palavra. Logo, é quase como uma espécie de dever, isto é, uma obrigação do pregador, testemunhar o fato diabólico para provar seu caráter ilusório. Ao pedir autorização para presenciar o voo, ele não se compromete com o fenômeno e conclui sua tarefa de doutrinação. Aos poucos o substrato cultural de rituais de canibalismo, de infanticídio, de homenagem e adoração ao diabo, além da metamorfose animal, todos aspectos atribuídos aos heréticos foram sendo assimilados pela demonologia medieval no exercício de teorização da bruxaria. Os relatos a partir das confissões nos processos, demonstram que os fundamentos sabáticos estavam ali presentes embora ainda em fase gestacional. O caráter fragmentário desses trechos e o entendimento de que o imaginário do sabá estava 177 Lívia Guimarães Torquetti dos Santos em plena elaboração, nos permitem perceber a operação de todos esses elementos constitutivos. De um lado, os malefícios tradicionais de uma bruxaria atrelada à vida cotidiana, nos quais são incrustados elementos emprestados dos rituais de magia e que ressaltam a relação do bruxo com os demônios. De outro lado, elementos que foram apropriados do debate sobre heresia, seitas, canibalismo e apostasia. Por fim, como vimos, há também elementos de outras crenças, a exemplo do voo noturno (CHÈNE et al., 1999). Ainda que dispersos e não totalmente sintetizados nesse imaginário, estavam assentadas aqui as bases intelectuais para a elaboração concreta do sabá nos séculos seguintes. Errores Gazariorum seu illorum qui scobam seu baculum equitare probantur (1435-1438) Outro texto que exemplifica a assimilação medieval de elementos estruturantes nesse imaginário é o tratado Errores Gazariorum seu illorum qui scobam seu baculum equitare probantur – “Os erros dos heréticos, ou seja, daqueles que são tentados a cavalgar vassoura ou bastão”. Ainda que o subtítulo pareça bastante limitante e sublinhe o voo na vassoura, esse texto abrange muitos outros temas ligados às heresias. Pouco é sabido sobre esse tratado, que é de autoria anônima. Dele existem apenas dois manuscritos, um (manuscrito B) localizado na Biblioteca da Universidade da Basiléia, na Suíça, e outro 178 Pomadas, poções e unguentos (manuscrito V) (OSTORERO et al., 1999) descoberto na década de 1970, na Biblioteca Apostólica Vaticana. Na introdução do tratado, existe um aspecto significativo e que merece ser destacado, pois ilustra como as características atribuídas à bruxaria foram sendo construídas e elaboradas ao longo do tempo, de modo que não eram determinantes. É possível notar que o autor aborda os participantes das assembleias noturnas mediante ausência da feminização do crime de bruxaria e isso é sugestivo, pois nesses textos anteriores ao Malleus maleficarum, esse crime ainda não estava atrelado às mulheres somente. Como pontua o autor, “quando uma pessoa de um sexo ou de outro é corrompida por alguém” (OSTORERO et al., 1999), é levada a cometer os malefícios. Dessa forma, ainda que esses crimes fossem comumente associados aos bruxos e bruxas, a palavra no latim maleficus – sorcier na tradução aqui utilizada – não aparece no tratado, mas, ao contrário, aparecem “corrompidos” e “pessoas corrompidas”. No tocante aos crimes, seriam mormente aqueles concernentes à existência cotidiana das pessoas e reportavam ao ato de fazer chover e/ou destruir as plantações. A partir dessa noção de maleficium, o autor elaborou outras categorias criminais em que os indícios comuns de heresia – canibalismo e infanticídio – aos poucos foram sendo incorporados aos relatos. Esses, por sua vez, culminaram em uma descrição muito próxima do sabá conforme ele fora concebido pelos eruditos modernos: 179 Lívia Guimarães Torquetti dos Santos Esse inimigo aparece às vezes na forma de um gato preto, às vezes na forma humana, embora imperfeita, ou com características de outro animal, mas na maioria das vezes na de um gato preto. O indivíduo corrompido, depois que o diabo perguntou se ele queria permanecer na sociedade e servir a quem desviou-o, diz que sim. Após o que o diabo exige dele um juramento de fidelidade do seguinte modo: primeiro, ele jura que será fiel ao mestre da assembleia e a toda a sociedade; [...] que até sua morte ele não revelará os segredos da seita; [...] que ele matará e trará para a sinagoga todas as crianças que ele puder estrangular e matar [...] Depois de fazer esses juramentos e promessas, o infeliz que foi corrompido adora o chefe prestando-lhe homenagem; e como sinal de homenagem, ele beija o diabo, que se mostra em forma humana ou não, na parte posterior ou no ânus; [...] Da mesma forma, assim como aquele que foi corrompido e homenageou o diabo, este último, que preside a assembleia, dá-lhe uma caixa cheia de unguento, um graveto e tudo o que ele precisapara ir à sinagoga, e ele ensina-o como ungir o graveto. Esta pomada é feita através de malignidade diabólica, a partir de gordura de crianças assadas e fervidas e com outros ingredientes (OSTORERO et al., 1999). Novamente a designação dos criminosos pode ser entendida como um indício dessa aproximação entre o crime de heresia e a bruxaria. Como é possível perceber no trecho acima, a designação mais comum é “corrompido” – seductus – ou “o novo herético” – novus hereticus. Esses adeptos se reuniam nas sinagogas onde aconteciam suas assembleias. É preciso realçar que no século XV, o termo sabbat ainda não tinha o significado que viria a adquirir somente em época posterior. Além disso, o emprego do termo “sinagoga” evidencia de maneira acentuada um anti-judaismo, visto que os judeus eram vítimas recorrentes de perseguições e de grandes massacres. Exemplo disso é a Grande Peste de 1348 (OSTORERO et 180 Pomadas, poções e unguentos al., 1999), em que os judeus foram acusados de serem os responsáveis por espalhar a peste através da feitura de venenos. Associado a isso, o infanticídio era então uma clara (e terrível) inversão das coisas: arrebatada pelo diabo, a inocência ou pureza da criança era transformada em uma substância formidável, capaz de causar a morte (OSTORERO et al., 1999). Aqui é necessário salientar que, anteriormente, a acusação de infanticídio era largamente empregada pelos romanos contra os cristãos; essa é uma tópica longeva e que, portanto, fora reapropriada pela própria tradição cristã e aplicada, periodicamente, a judeus e hereges. Talvez o que seja inovador nessa obra é a precisão dos detalhes e o fato de a codificação dos elementos ter sido feita com muito rigor. Tudo gira em torno da “sinagoga”, que ocupa um lugar de primeira ordem e que pretende dar à organização uma existência bastante concreta (OSTORERO et al., 1999). A noção do juramento tem uma dimensão de segredo e esse aspecto é muito relevante para a análise de narrativas sobre o sabá. Além da fidelidade ao diabo ser sinal de apostasia, em razão de ele impedir que se falasse sobre a assembleia, a importância das confissões foi reforçada, pois eram a única forma de as autoridades saberem o que acontecia nessas reuniões. A comprovação do crime para a investigação inquisitorial viria pelos testemunhos oculares ou pelas confissões. O maleficium era um crime que só se testemunhava pelas suas consequências: péssimas colheitas, doenças, abortos espontâneos tanto nas mulheres quanto nos rebanhos, etc. A bruxaria 181 Lívia Guimarães Torquetti dos Santos era um crime sem testemunhos, sendo assim, o peso sobre a confissão era muito grande e, nesse contexto, o recurso à tortura era plenamente aceitável, afinal, se o diabo impedia o acusado de falar, a tortura seria capaz de proporcionar a sua fala. Confessar o crime não significava apenas afirmar a ação maléfica, mas, sobretudo – e talvez o mais importante nesse contexto – conseguir a remissão para si próprio, era a tentativa de salvar a alma antes da morte pelo fogo. O Errores é o texto que ampliou bastante a inversão dos ritos cristãos. A sucessão de etapas para a realização dos rituais, assim como suas práticas – fidelidade, vingança, malefícios, luxúria, infanticídio, etc. – se opõem aos mandamentos divinos – fidelidade a Deus, amor ao próximo, caridade, castidade, etc. A seita concretiza o contrário dos dogmas cristãos. E nesse esquema invertido, o diabo do Errores não é mais um instrumento de Deus, como no texto de Nider ; 3 aqui ele é a autoridade, tem poder e discurso próprio, por vezes chamado de mestre ou chefe, está no ápice de uma relação de submissão e, por isso é o inverso de Deus. Enquanto nos textos precedentes, o diabo fornecia os unguentos ou ensinava fazê-los, no Errores, o diabo dá uma caixa de unguento para o adepto da seita, e “À pergunta do juiz: 'Como você causa chuvas e tempestades de granizo?’ o 3 acusado respondeu: 'Em primeiro lugar, invocamos com algumas palavras, em um campo, o príncipe de todos os demônios, para que ele envie um dos seus para atacar a pessoa a quem designamos. Então, quando um demônio chega, sacrificamos uma galinha negra em uma encruzilhada, jogando-a no ar. Uma vez que o demônio a agarra, ele obedece e imediatamente causa uma tempestade, nem sempre nos lugares que designamos, mas de acordo com a permissão do Deus vivo, enviando tempestades de granizo e relâmpagos” (OSTORERO et al., 1999, p. 181). 182 Pomadas, poções e unguentos nesse texto a riqueza de detalhes sobre os ingredientes vai além da composição de cadáveres. Seria uma mistura de gordura infantil com animais venenosos – serpentes, sapos, lagartixas, aranhas – todos misturados com a ajuda do diabo (OSTORERO et al., 1999). Ainda, um outro tipo de unguento podia ser feito a partir da gordura de cadáveres mortos pela forca. Por trás dessa diversidade toda de ingredientes e, por mais estranhas que possam parecer essas descrições, existia uma intencionalidade de provocar o horror através desses relatos, sobretudo porque eles fizeram eco a outros julgamentos, como foi o caso das acusações de envenenamentos dos poços, feitas contra os leprosos (GINZBURG, 2012). De toda forma, existe nesses textos um estreito atrelamento entre a utilização da gordura das crianças mortas e cozidas – infanticídio – com o voo e a execução de malefícios. Uma dinâmica circular começou a se fechar nesse imaginário: para se chegar até a assembleia, era preciso um meio de transporte, esse, por sua vez, só era possível através da obtenção do unguento, o qual era adquirido através do assassinato de crianças, ou antes ou durante as reuniões, para as quais era preciso um meio de transporte. Essas assembleias medievais diabólicas não tinham ainda o contorno político que vieram a adquirir posteriormente, de seita rebelde contra a ordem estabelecida, configurando uma inversão do mundo normal; nessa circularidade, elas tinham finalidade em si mesmas e, como um 183 Lívia Guimarães Torquetti dos Santos incipiente construto intelectual, foi enriquecido por diversos tipos de autores, tanto teólogos, como vimos os autores dominicanos acima, mas também por juízes seculares. Ut magorum et maleficiorum errores manifesti ignorantibus fiant (1436) Por vezes, o afastamento no tempo dificulta ao historiador entender como o crime de bruxaria pôde inquietar de forma tão ostensiva tanto as autoridades políticas e religiosas quanto os estratos sociais mais baixos. O maleficium era um crime que só se detectava pelas suas manifestações “concretas”: o leite que talhava, uma vaca estéril, um instrumento agrícola quebrado, uma doença repentina associada ao mau-olhado e uma série de outros infortúnios relacionados aos meios de sobrevivência. Dessa forma, antes de se chegar a um julgamento existiam muitas tensões prévias nos vilarejos em que, geralmente, os acusados e as acusadas já tinham reputação de bruxaria dentro de suas comunidades. Para serem acusados de bruxaria, por vezes, apenas um rumor bastava. Nesse contexto, o papel das autoridades era investigar a ocorrência do crime em busca de sua comprovação. A tortura era o meio frequentemente utilizado e dependendo das jurisdições, além das inquisições itinerantes, os juízes seculares também tinham a oportunidade de julgar esse tipo de crime. 184 Pomadas, poções e unguentos Como veremos na sequência, o próximo texto é testemunho dessa situação. Claude Tholosan foi um juiz que atuou na região de Briançon, no Dauphiné – França – entre os anos de 1426 e 1449; em meados de 1436, ele finalizou seu Ut magorum et maleficiorum errores manifesti ignorantibus fiant ou “Para que os erros dos magos e bruxos se tornem óbvios para os ignorantes”. Desse texto restou apenas o quinto livro – Quintus liber fachureriurum –, pois os quatro anteriores desapareceram.Através dessa obra, que se inicia com uma lista de bens confiscados e sentenças do ano anterior, é possível vislumbrar o conteúdo dos livros que haviam desaparecido: nomes de 126 culpados, suas paróquias de origem, datas dos processos, as condenações anunciadas e o valor da venda dos bens (PARAVY, 1993). O “Quinto livro de bruxaria” (PARAVY, 1993) é uma compilação de casos julgados por Tholosan mais as discussões sobre as jurisdições dos crimes, elementos esses com um forte apelo doutrinário. A moralidade relacionada aos malefícios é bastante evidenciada quando o autor discute a natureza desses crimes e suas punições. No terceiro capítulo, Tholosan aborda o ponto de vista dos juristas discutindo a jurisdição do crime e qual tribunal deveria ser responsável pelas condenações, ou seja, o tribunal eclesiástico ou o secular. Um primeiro ponto que nos parece importante, mas que não apareceu tanto nos textos precedentes, é a distinção entre heréticos e 185 Lívia Guimarães Torquetti dos Santos idólatras. Tholosan reconhecia que os procedimentos descritos eram aplicados aos hereges e que os acusados de quem ele falava naquele momento não eram somente hereges, mas verdadeiros idólatras que abandonaram a fé. A tênue assimilação entre heresia e bruxaria da qual falamos, aparece aqui como uma extrapolação da categoria de herético, pois, para esse juiz, existia uma distinção bem nítida entre o que seria a simples utilização dos poderes do diabo e a sua adoração. Essa última era considerada muito mais terrível, uma vez que denotava o mau exercício da fé. Assim sendo, enquanto para o herege havia a possibilidade do arrependimento, para os participantes dessas assembleias não podia haver perdão. Para Tholosan, a intencionalidade era importante e a impossibilidade do perdão advinha justamente dessa voluntariedade do participante. É interessante notar que contrariamente a essa distinção entre o perfil herético e o do bruxo, as categorias dos acusados parecem coincidir no que concerne às punições, sobretudo, no tipo de punição admitida por cada jurisdição. O tribunal eclesiástico puniria o bruxo de acordo com o poder do bispo local; o tribunal inquisitorial aplicaria as penas tal como são prescritas para os casos de heresias; e, em última análise, o tribunal secular seria responsável pelas penas corporais e pelo confisco de bens. Para Tholosan, não era questão de punir três vezes o mesmo crime, mas seria dizer, em termos práticos, que um tribunal terminaria o que o outro começou. Assim como o Errores, que se 186 Pomadas, poções e unguentos centrou em questões relativas ao maleficium, aqui a participação do diabo era primordial nas seitas: para [fazer] um testemunho universal e convincente, apoiado por muitos argumentos e concebido com o propósito de extirpar esse erro execrável e essa seita de bruxos, decidi e tentei apresentá-los em uma exposição geral. [...] Em primeiro lugar, os bruxos, chamados assim por causa da extensão de seus crimes, como evidenciado pelas duas instâncias do direito, devem, de acordo com o juramento que fizeram nas mãos do diabo, converter à seita os inocentes que eles sabem ser completamente inclinados, para a revelação do diabo [...] eles lhe dão seu corpo e sua alma, bem como um de seus filhos, geralmente o primogênito, a quem eles imolam e oferecem a ele em sacrifício de joelhos [...] descobri que os autores desses crimes vinham da Lombardia, sob o disfarce de médicos, de Lyon como proxenetas e casamenteiros, do Champsaur, como mendigos e adivinhos, todos participantes e seguidores da seita execrável em questão (PARAVY, 1993). A ideia da existência de uma seita à parte é discutida ao longo dos vários relatos, reforçando então a atribuição do caráter herético aos crimes de bruxaria. A região da Lombardia e a cidade Lyon não foram indicações aleatórias nesse trecho, pois naquele momento eram locais tidos como heréticos e licenciosos. Os itinerantes que passavam por Briançon vinham principalmente dessas duas regiões, com ênfase, em particular, para a Lombardia que era uma terra considerada herética no século XIII (PARAVY, 1993). O tom de suspeita é explícito quando se afirma que os acusados se disfarçavam de ruffian – proxeneta – ou de casamenteiros, mendigos e adivinhos. Em analogia com os valdenses, esta seita herética também teria seus missionários, disfarçados, vindo de outros locais. Uma ideia clara de 187 Lívia Guimarães Torquetti dos Santos conspiração parecia pairar nos seus comentários, mas ela não havia adquirido ainda maiores contornos políticos. Tholosan também se ocupou dos unguentos, suas funções e seus ingredientes como, por exemplo, citando a urina do diabo, ovos e também sangue menstrual. Entretanto, diferentemente daqueles que lhe sucederiam, Tholosan não subscreveu a ideia do voo como realidade; para o referido autor, o voo em bastões untados de gordura de criança seria ilusão ou se daria pelo sonho, o qual em virtude de sua semelhança com o real fazia com que essas pessoas acreditassem que, de fato, estariam se deslocando fisicamente durante a noite (OSTORERO, 1999). Tholosan, de modo muito similar aos autores dos textos que lhe antecederam, afirmava que dentro dessas sinagogas os adeptos participavam de orgias. Havia também o juramento de fidelidade que era seguido pelos banquetes proporcionados pelo diabo quando esse abria as casas de outras pessoas, conforme foi mostrado nos relatos de Fründ. O sabá como um construto diabólico O conceito de “bruxaria conspiratória” (KIECKHEFER, 1989) só apareceu de fato quando os temas do pacto e do sabá foram adquirindo contornos distintos da noção medieval de bruxaria. Nos parece notória que a primazia do diabo e das forças do mal se tornaram fundamentais, assim como a associação de ambos com aqueles 188 Pomadas, poções e unguentos acusados de praticar magia. Não se trata, em absoluto, de explanar que o sabá, enquanto tal, teve suas raízes nos Alpes ocidentais; a importância desses textos alpinos está atrelada à propagação do que veio a ser um novo conceito de heresia atrelado à bruxaria. A título de exemplo, relatos semelhantes sobre metamorfoses, unguentos e voos noturnos circulavam em outras regiões da Itália e Espanha. Em 1427, na Piazza del Campo de Siena na Itália, em seu sermão o orador franciscano Bernardino de Siena relatou a ocasião em que esteve em Roma e ordenou a prisão de uma bruxa que tinha confessado ter matado e comido seu próprio filho depois de ter reduzido seu corpo a pó. A bruxa também confessou ter matado outras trinta crianças sugando-lhes o sangue, ao qual ela adicionava algumas ervas e, posteriormente, usava como unguento. Segundo a bruxa, esse processo lhe dava a impressão de se transformar em uma gata. O sermão proferido por Bernardino de Siena e que visava a heresia dos valdenses da região do Piemonte (OSTORERO, 1999), teve ecos no julgamento de Matteuccia di Francesco di Ripabianca, ocorrido em 1428, no vilarejo de Todi. A mulher foi acusada de usar gordura de abutre, sangue de coruja e sangue de recém-nascido para produzir um unguento que a levaria até a reunião das bruxas no Benevento. Após a invocação de um demônio, a mulher teria se metamorfoseado em mosca e nas costas do demônio que se apresentava na forma de bode, ela foi a esse encontro. O sermão e o julgamento são 189 Lívia Guimarães Torquetti dos Santos cronologicamente anteriores a toda a literatura alpina que foi discutida, mas o ponto que consideramos interessante perceber é justamente as variantes regionais tanto no uso de ingredientes – sangue de abutre e coruja – quanto no tipo de metamorfose – em gato e em mosca –, além da própria utilização do unguento, mais vinculado à metamorfose do que necessariamente ao voo. No caso específico de Mateuccia, talvez isso tenha acontecido porque ela eraconhecida por ser manipuladora de ervas e remédios, o que explica a variação da função dos unguentos. Quatro anos antes desse evento, na região da Catalunha, na Espanha, autoridades locais foram convocadas ao vale de Aneu para agir contra habitantes que acompanhavam bruxas à noite para homenagear o diabo. Tais habitantes eram acusados de roubar crianças de suas casas, matá-las e também de usar substâncias tóxicas para prejudicar outras pessoas. Alguns desses habitantes já haviam sido detidos e confessado esses crimes, de tal maneira que a condenação tinha sido a morte pela fogueira (HUTTON, 2017). Com pequenas variações, todos esses eventos aglutinam elementos muito semelhantes que apareceram nas acusações de heresias e magia, assim como na conclusão de que os condenados estavam praticando atos contra as populações locais e contra a ortodoxia. Para além das questões de crença muito restritas a cada localidade, o vínculo entre esses aspectos todos era muito concreto. Além disso, devemos pensar na circulação 190 Pomadas, poções e unguentos de informações pela rede de pregação dos eclesiásticos e na figura dos frades: Bernardino cita um frade franciscano que lhe falara de um grupo de hereges assassinos de crianças em Piemonte, no noroeste da Itália, que usava os corpos para uma poção que conferia invisibilidade (HUTTON, 2017). Encontramos o mesmo em Nider, que também era dominicano e apoiou seu relato em duas fontes, a saber, o ex- necromante que virou beneditino e o inquisidor de Autun. Esses textos e os julgamentos, tiveram uma relação interdependente na elaboração de um quadro em que essas narrativas se entrelaçaram no que era o imaginário incipiente do sabá. Discorrer sobre a circulação de ideias nessas regiões não significa excluir outros lugares que experimentavam o mesmo fenômeno; além disso, se referir ao mesmo fenômeno não implica reportar às mesmas crenças. Como vimos, no século XV, a bruxaria não era um construto intelectual unificado, dessa maneira, as variações regionais funcionaram e influenciaram de forma diferente. Nossa chave interpretativa entende que essas narrativas moldavam as realidades e essas realidades específicas conformavam as narrativas. A ação das ordens monásticas pregadoras foi fundamental nessa dinâmica. As ordens dos Dominicanos e Franciscanos, em suas funções itinerantes de inquisidores e pregadores, eram grandes propagadores dessas narrativas. Ainda no que tange à reflexão sobre a circulação dessas ideias, os concílios também representaram ocasiões nas quais essas 191 Lívia Guimarães Torquetti dos Santos narrativas eram elaboradas. Para além da região dos Alpes, outros também escreveram trabalhos propagando a crença na nova conspiração diabólica das bruxas, a qual constituiu parte de um extenso corpo de publicações de autores franceses, italianos, espanhóis e alemães que debateram a realidade da conspiração e, cada vez mais, apoiaram essa ideia (HUTTON, 2017). Assim, como observamos, um imaginário de assembleias secretas de adoração ao diabo foi sendo construído e difundido tanto por meio da elaboração desses textos quanto pela difusão dos julgamentos que se intensificaram nos séculos seguintes. Essas variações regionais acabaram por ser aglutinadas e reelaboradas, culminado nesse construto que veio a ser o sabá, a reunião mítica de adoradores do diabo. Referências Documentação AGOSTINHO. A Cidade de Deus. Petrópolis: Editora Vozes, 2012. AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. v. I, parte I, questão 95, 6. 2ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2001. BODIN, Jean. De la demonomanie des sorciers. Anvers: chez Arnould Coninx, 1580. GRILLANDUS, Paulus. Tractatus de hereticis et sortilegijs omnifariam coitu eorumque penis. Item de Questionibus et tortura ac de relaxatione carceratorum. Giunti: Lugduni, 1547. Bibliografia BAILEY, Michael. The Medieval Concept of the Witches' Sabbath. Exemplaria, New York, vol. 8, p. 419-39, 2013. 192 Pomadas, poções e unguentos CHÈNE, Catherine. Jean Nider. In: OSTORERO, Martine; BAGLIANI, Agostino; TREMP, Kathrin; CHÈNE, Catherine (Colab.) L’imaginaire du sabbat. Édition critique des textes plus anciens (1430c. – 1440c.). Lausanne: Cahiers Lausannois d’Histoire Médiévale, 26, 1999. GINZBURG, Carlo. História Noturna. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. HUTTON, Ronald. The Witch. A History of Fear, from Ancient Times to the Present. New Haven/ Londres: Yale University Press, 2017. KIECKHEFER, Richard. Magic in the Middle Ages. Cambridge: Cambridge University Press, 1989. OSTORERO, Martine; BAGLIANI, Agostino; TREMP, Kathrin; CHÈNE, Catherine (Colab.) L’imaginaire du sabbat. Édition critique des textes plus anciens (1430c. – 1440c.). Lausanne: Cahiers Lausannois d’Histoire Médiévale, 26, 1999. OSTORERO, Martine. La répression de la sorcellerie aux marges du royaume de France à la fin du Moyen Âge. Cahiers de recherches médiévales et humanistes, Lausanne, vol. 22, 2011. Disponível em: http://journals.openedition.org/crm/12541. Acesso em: 19 abr. 2019. PARAVY, Pierrette. De la chrétienté romaine à la Réforme en Dauphiné. Évêques, fidèles et déviants (vers 1340-vers 1350). Rome: Publications de l'École Française de Rome, 1993. PARAVY, Pierrette. Le traité de Claude Tholosan, juge dauphinois (vers 1436). In: OSTORERO, Martine; BAGLIANI, Agostino; TREMP, Kathrin; CHÈNE, Catherine (Colab.). L’imaginaire du sabbat. Édition critique des textes plus anciens (1430c. – 1440c.). Lausanne: Cahiers Lausannois d’Histoire Médiévale, 26, 1999. TREVOR-ROPER, Hugh. The Crisis of the Seventeenth Century: Religion, the Reformation and Social Change. Indianapolis: Liberty Fund, 2001. 193 Magia, truque e feitiço: as muitas faces do encantamento na literatura oral de Ifá Rogério Athayde 1 Dizem os mais velhos, sem a redundância dos tolos, que para todo início é preciso haver começo. Então, para este texto despretensioso, que deseja somente falar uma coisa ou outra sobre a literatura oral de Ifá e a magia que pode conter, quem sabe de seus limites e virtudes, é necessário dar um passo de cada vez. Que me perdoe o leitor, mas quero começar contando uma história. Uma que fala sobre andar, ou andança e andadura. É apenas uma das inumeráveis histórias que compõem o extenso repertório da tradição oral de Ifá. Ela pode ser encontrada no Livro de Ogbe Yono, também conhecido como Ogbe Ogunda. E é mais ou menos assim: Há muito tempo atrás, havia um homem raivoso, que desejava vingança. Não sabemos qual o motivo de sua zanga, ou mesmo se tinha razão em trazer consigo o coração pesado. Sabemos que para realizar seu desejo era preciso fazer uma longa jornada e encontrar seu oponente. Esse homem, certo de sua vontade, procurou Orunmilá, a divindade da inteligência, do conhecimento e da sabedoria, para que Formado em História pela UFRJ em 1994. Foi professor de Teoria, Metodologia e 1 Epistemologia da História na UFRJ em 1994. Durante muitos anos foi Professor Titular de Antropologia em universidades particulares. Foi professor de pós- graduação do curso “África e Brasil: laços e diferenças”, com o curso “Mito e mitologia yorubá”. Vem se dedicando aos estudos de religião yorubá nos últimos quinze anos. Possui Pós-Graduação em Pedagogia e Mestrado em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela UFRJ. 194 Magia, truque e feitiço consultasse o oráculo de Ifá e garantisse o sucesso de sua desforra. Mas Orunmilá, antes mesmo de encontrar seus instrumentos divinatórios, disse ao homem que não deveria fazer a viagem. Eu vou!, respondeu o ofendido com tensão na voz. Entendendo que não haveria modo de demovê-lo, Orunmilá disse: Então ouça meu conselho: se encontrar um buraco no caminho, não passe por ele, não o contorne, não o atravesse; se encontrar uma árvore no caminho, não passe por ela, não a contorne, não a atravesse; se encontrar um rio nocaminho, não passe por ele, não o contorne, não o atravesse. Agradecido, ele foi buscar compensação de seu ultraje. O homem partiu no dia seguinte bem cedo. Andou muitos dias até encontrar um buraco no caminho. Lembrando a recomendação de Orunmilá, ele parou. Parou e esperou. Esperou muito, até que o buraco inteiro se cobrisse de folhas. Só assim se permitiu seguir. O homem, cego pelo desejo de vingança, continuou andando muito. Tanto andou até que se viu detido por uma árvore tombada no caminho. Lembrando o que havia dito Orunmilá, ele sentou e esperou. Esperou muito, até que a árvore inteira se consumisse em pó. Só assim ele foi adiante. O homem, andador de seu caminho, continuava seu andamento. Andou até que seus pés encontraram a umidade de um rio que atravessava o caminho. Lembrando o que havia aconselhado Orunmilá, ele sentou e esperou. Esperou muito, até que o rio estivesse seco por completo. Só assim seguiu em frente. 195 Rogério Athayde Mas quando, finalmente, chegou do outro lado, na margem antiga do curso d’água, o homem deteve o passo e pensou: O que é mesmo que vim fazer? E então ele voltou para casa. Assim acaba a história desse personagem sem nome, que a rigor, poderia ser qualquer um de nós. Ouvi esta fábula ser contada pela primeira vez há quase vinte anos, por um antigo sacerdote de Ifá, um babalawo, durante uma cerimônia de iniciação. Ouvi encantado pela beleza de sua contação e também pela capacidade plástica de vê-la a serviço de uma consulta oracular. Lembro que ela coube como um aviso sobre ter paciência e não desistir de seus propósitos. Mas preciso confessar que me incomodou esta leitura. O homem que desejava vingança nunca me pareceu paciente ou obstinado, mas obsessivo e atormentado por sua vontade. Antes, porém, de seguir adiante, e como faz o personagem desta narrativa do Livro de Ogbe Yono diante dos obstáculos que vai encontrando pelo caminho, preciso fazer uma pausa para depois voltar. O repertório das histórias de Ifá é praticamente inesgotável. Há alguns anos atrás, antes que o mundo inteiro parasse assombrado com o curso da doença e da morte, entrevistei um sacerdote da Santeria afro cubana, a quem chamamos Obá Oriatê. Seu nome era Ivan Candido Martinez Quintana. Falamos sobre muitos assuntos pertinentes às religiões de matrizes africanas, em Cuba e no Brasil, e, no final de nossa conversa, perguntei como definiria Ifá. Sua resposta 196 Magia, truque e feitiço continua em meus ouvidos até agora. Ele disse: “Ifá é como um deserto...” e parou um tempo sem tempo, como se brincasse com minha ansiedade. Depois sorriu e terminou a frase: “... nós nunca saberemos quantos grãos de areia ele tem”. Confesso que não esperava aquela conclusão. As metáforas do deserto sempre me sugeriram outras ideias, como aridez, infertilidade, solidão e perda. Mas Ivan Candido Martinez Quintana me falou de diversidade, multiplicidade e infinitude. É claro, ele tinha razão. São muitas as coisas que encontramos em Ifá. De fato. O filósofo e babalawo nigeriano Kola Abimbola aponta pelo menos seis usos da palavra. Segundo ele, (i) Ifá é outro nome de Orunmilá, a divindade iorubana da inteligência, do conhecimento e da sabedoria; (ii) Ifá é igualmente o sistema de divinação, organizado a partir de 256 Odu, ou “livros volumosos” (AYOH’OMIDIRE, 2005); (iii) Ifá é o corpo literário, onde podem ser encontradas as histórias e o conhecimento ancestral dos iorubás; (iv) Ifá é a medicina tradicional, o conhecimento do herbário iorubano; (v) Ifá são os poemas, os esé Ifá, que os sacerdotes da religião são treinados a recitar longamente; (vi) Ifá, por fim, é também a capacidade de proferir “palavras de poder”, os ofó, encantamentos que asseguram a efetiva realização dos rituais sagrados (ABIMBOLA, 2005). Estive com Kola algumas vezes nestes últimos anos. Em uma dessas ocasiões falávamos sobre esta variedade de usos da 197 Rogério Athayde compreensão de Ifá e me atrevi a acrescentar mais uma em nossa conversa. Sugeri que Ifá também é um modo de pensamento. Não uma filosofia, porque não desejo cair no equívoco que Paulin Houtondji denunciou daqueles que confundem filosofia e cultura (HOUTONDJI, 1977). Mas um certo modo de orientar o pensamento, acostumado a gerar interpretações sucessivas, relações inesperadas, como em um jogo em que brincam a hermenêutica e a gnosiologia. Kola concordou comigo. Então, são muitas as coisas que Ifá pode ser. E certamente uma delas é conhecimento; ou, melhor dizendo, um repositório de conhecimentos. Entenda, quando mencionamos a palavra conhecimento talvez cheguem com ela algumas imagens quase banais de bibliotecas, laboratórios, quadros de escola com fórmulas incompreensíveis de matemática ou física, gente apertada em roupas com talhe formal, ou outras representações assim aparentadas. Se o leitor pensou desta maneira é porque, e provavelmente sem o saber, associou a palavra conhecimento àquilo que os gregos de antanho chamavam de logos. Então, vejamos. É comum traduzir logos como ciência. Assim obtemos biologia, como ciência da vida, arqueologia, como ciência do que é antigo, antropologia, como ciência do homem, sociologia, como ciência da sociedade, e assim por diante. A melhor maneira, porém, de usar o logos é como discurso, e, ainda melhor, discurso racional 198 Magia, truque e feitiço acerca de alguma coisa. Perceba que se traduzimos desta forma o logos grego, abrimos espaço para outras formas de conhecimento. Sim, porque como discurso, e ainda melhor, como discurso racional acerca de alguma coisa, poderemos pensar em outras formas discursivas que não tenham na razão o seu principal substrato, e então já não seria suficiente usar o logos para esses casos. É neste sentido que os gregos – novamente eles – usam a palavra gnose. Esta expressão é traduzida como conhecimento, de maneira ampla, agregadora e generosa, a ponto de nela poderem ser incluídas as tradições orais, os mitos e as fábulas. O pensador camaronês Valentin Yves Mudimbe, em seu livro A invenção de África: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento, estabelece a diferença fundamental entre episteme e gnose (MUDIMBE, 2013). Segundo o autor, episteme é conhecimento assumidamente racionalista, com diversas instâncias de controle institucionais – em particular através de meios científicos e acadêmicos – que definem o que é aceito como válido ou não. Portanto, a epistemologia, como área do conhecimento, dá conta das imagens de bibliotecas, laboratórios, fórmulas de matemática e física e gente apertada em paletó, gravata, colete e tailleur. Já sobre gnose, Mudimbe esclarece que a palavra dá conta de conhecimentos, racionalistas ou não, podendo ser aí incluídos também os conhecimentos consuetudinários e mágicos, capazes de ações dinâmicas e não controladas por instâncias institucionais. Ainda para 199 Rogério Athayde Mudimbe, a gnose africana teria dois problemas graves a serem enfrentados, ou seja, conhecimento racionalista através da antropologia e o conhecimento racionalista através da história (MUDIMBE, 2013, p. 231-236). Mas isso já seria assunto para outra oportunidade. Para o uso que pretendo fazer aqui, Ifá tanto pode ser um conhecimento mediado, ou acessado, pela episteme – na medida em que se transforma em matéria de desenvolvimento acadêmico, obedecendo a todo o lastro de exigências de seu meio – quanto pela gnose – se tomarmos o conhecimento de Ifá como algo que não se quer explicar, e muito menos ainda entender, com os recursos racionalistas, que as tradições europeias nos disciplinaram a crer nos últimos dois mil e quinhentos anos. Se entendermos gnose como todo o conhecimento, racional ou não, que aceita em seu seio o consuetudinário e o mágico, então precisamos estabelecer corretamente do que estamos falando aqui. As históriasque compõem o extenso repertório da literatura oral de Ifá (GOODY, 2012) são mitos e fábulas, cujos personagens ou são humanos ou assumem uma condição humana, ou seja, são antropomorfizados. Estou me referindo a histórias de gente comum, pobres ou ricos, jovens ou velhos, homens, mulheres e crianças, felizes ou desvalidos, que vivem os dramas cotidianos que qualquer um de nós viveria. Mas além destes, existem os deuses, que aqui são 200 Magia, truque e feitiço chamados de orixás. Eles são os filhos de Olodumare, divindade maior da criação do universo, responsáveis pela gestão do mundo e todas as coisas que ele contém. Estas divindades possuem o duplo caráter anímico e antropomórfico, são associadas a algum aspecto da natureza, como também possuem traços que os deixam aparentados com os humanos. Para seguir o raciocínio com o recurso dos exemplos – mesmo que aqui sejam apenas simplificações – posso dizer que Ogum é a divindade do ferro, e também é o ferreiro, o guerreiro e o executor; Xangô é identificado ao trovão, e também é o rei mais bonito, o homem irresistível e o martelo da justiça; Oxum é a deusa das águas doces e a dona dos metais preciosos, e também é a mulher sedutora, a guerreira furiosa, a velha e a nova, a esposa, a mãe e a filha. E assim se multiplicam estas divindades e suas muitas facetas. Mas além dos deuses, as histórias de Ifá contam as fábulas de objetos, plantas, árvores, animais, partes do corpo e conceitos. Então podemos encontrar narrativas de amigos, como Hoje e Amanhã (no Livro de Ogbe Iwori Ifá), ou de inimigos, como a Verdade e a Mentira (no Livro de Otura Meji Ifá); histórias da sabedoria do Macaco (no Livro de Obara Ejiogbe Ifá), da ambição do Chacal (no Livro de Odi Oyekun Ifá), e da inteligência da Abelha (no Livro de Okana Oshe Ifá); ou do Pelo e da Pele, que se separaram depois de um longo casamento e voltaram a se casar novamente (no Livro de Iwori Iroso Ifá), ou da Panela de Ferro e da Panela de Barro, que eram amigas, 201 Rogério Athayde que saíram para passear e a história terminou mal (no Livro de Oshe Okana Ifá), ou da Palmeira orgulhosa, que se achava bonita demais e acabou sendo cortada para servir aos humanos (no Livro de Iroso Oshe Ifá). Acho que o leitor paciente já entendeu o argumento. Estas são histórias exemplares, na maior parte das vezes muito bonitas e emocionantes. Elas bem podem ser percebidas como alegorias estéticas, na medida em que se prestam ao prazer da boa contação, capazes de nos transportar momentaneamente para o país encantado da ficção e da fantasia. Mas, acima de tudo, estas histórias devem ser compreendidas como alegorias existenciais, porque de uma forma misteriosa, revelam nossas próprias histórias no momento de uma consulta oracular a Ifá (ATHAYDE, 2022). Sim, porque a matéria de que é composta a divinação em Ifá é basicamente esta: suas histórias, seus mitos e fábulas, e a interpretação que delas se depreende. É provável que o leitor a esta altura já tenha entendido pelo menos um ponto que desejo tratar aqui. Afinal, pode parecer desnecessário explicar onde reside a magia em um conhecimento ou prática oracular. Ora, diriam os apressados, a revelação, ela mesma, é mágica. E isso é verdadeiro. A extraordinária capacidade de desvelamento que se atribui aos oráculos já bastaria para classificá-los entre as experiências que somente o pensamento mágico poderia supor. Mas, lamento dizer, as coisas são um pouco mais complicadas. 202 Magia, truque e feitiço A primeira e talvez decepcionante observação que se poderá fazer acerca dos oráculos é dizer que sua principal tarefa não é a adivinhação. Veja, a palavra oráculo traduz tanto o local em que se realiza uma profecia quanto o objeto profético, que pode ser uma pessoa ou os instrumentos da consulta. Importa saber que esta profecia deve nos chegar como uma fala divina, um diálogo com os deuses. Como explica o filósofo italiano Giorgio Colli, o oráculo se revela através de uma revelação mistérica, uma sentença que nunca é evidente, porque “os deuses amam o enigma” (COLLI, 2019, p. 35). De tal maneira que, mesmo tendo a vocação de adivinhar, coisa que sempre poderá ocorrer em uma consulta aos oráculos, sua definição é a de um diálogo com os deuses. Por isso caberá melhor nesses casos o termo divinação. A adivinhação oracular pode ser interessante como demonstração de que algo extraordinário está ocorrendo. Não resta dúvida. Mas, entenda, se este fosse o maior interesse dos oráculos então todos os sacerdotes e “olhadores”, os mais respeitáveis, sábios e criteriosos, poderiam se apresentar em teatros, circos e festas de aniversários. E, claro, não se trata disso. A consulta oracular, portanto, não deve satisfazer o interesse pitoresco de encontrar a magia no mundo – mesmo que a magia se encontre lá; deve fundamentalmente servir como um instrumento de ajuda, uma ferramenta para pensar melhor sobre as decisões mais importantes que devemos tomar em 203 Rogério Athayde nossas vidas. E se é verdade que são os deuses que falam conosco através dos oráculos, se confirmamos que se trata de divinação, não deveríamos mesmo esperar que sua fala fosse desperdiçada com jogos de divertimento. Bem, se concordamos que a consulta oracular é uma divinação, uma fala dos deuses, que pretendem nos fazer pensar em quais seriam os melhores caminhos a seguir, então já teríamos o material suficiente para admitir a prática da consulta oracular como algo que se encontra na esfera da magia. Isto serviria, salvo engano, para a maioria, se não para todos os casos. Em Ifá, porém, devemos acrescentar outros elementos que expressam os aspectos mágicos que queremos apontar aqui. A segunda observação a ser feita sobre os oráculos em geral, e o de Ifá em particular, é sobre a previsão do futuro. Perdoe-me o leitor por fazer mais uma citação, mas é irresistível. Sobre os tempos que contém o tempo muito já se escreveu. Há mais de um milênio, porém, um filósofo que veio a se tornar santo da igreja cristã, escrevia sobre o tema dizendo que existe apenas o tempo presente. Que do passado temos a lembrança presente do que se foi; do presente, temos a visão presente do que é; e do futuro temos a “esperança presente das coisas futuras” (AGOSTINHO, Confissões, XI). Santo Agostinho falava assim no Livro XI de suas Confissões: “a esperança presente das coisas futuras”. Repeti, sei bem. E o fiz porque esta ideia me parece 204 Magia, truque e feitiço poderosa. O futuro, para Agostinho, não era um tempo para onde seguimos – esta, aliás, é uma percepção sobre o tempo desenvolvida a partir da modernidade, com o advento do iluminismo e da revolução industrial; tempo como progresso e percepção progressiva. Não: Agostinho pensava em um tempo que nos chega, portanto, um tempo que ainda não existe. E, de fato, podemos admitir que do passado conhecemos os vestígios; que do presente temos o convívio fugidio de sua constante passagem; mas do futuro. Não temos nenhuma certeza de sua existência. Com algum exagero podemos inclusive dizer que o futuro não existe. Então do futuro podemos pensar o mesmo que Agostinho, que é a “esperança presente das coisas futuras”, ou ajustar a sentença, afirmando que temos dele um “conjunto de futuros possíveis”. O oráculo, então, não determina, ou desvela, ou revela o futuro – no sentido de algo que está em algum lugar, escondido, e então se mostra. Não poderia se tratar disso, com o risco de considerarmos a prática oracular atividade redundante. O oráculo deve apontar futuros possíveis e promover ajustamentos para viver o melhor dos futuros possíveis. Logo, a magia não está em adivinhar o futuro, mas em criar as condições para que o melhor dos futuros possíveis seja vivenciado por cada um daqueles que procura o apoio da consulta oracular. Mas como issoocorre? Como o oráculo de Ifá cria essas condições favoráveis? Aqui chegamos onde deveríamos ter chegado. 205 Rogério Athayde É comum encontrar entre os mais importantes autores que se dedicaram ao estudo do oráculo de Ifá, e a religião que dele se depreende, a afirmação de sua base mágica (BASCOM, 1969; LUCAS, 2001; DEWUYI, 2018; ABIMBOLA, 1997; AWOLALU, 2001). E não somente porque se trata de divinação e da suposta percepção de futuros possíveis; mas acima de tudo, da capacidade de ajustamento, de correção, de aprimoramento desses futuros possíveis. Para isso, a tradição de Ifá admite o princípio fundamental de ìrúbó, a prática do sacrifício. O professor norte-americano Maulana Karenga nos ensina que a compreensão de ìrúbó deve ser dividida em duas direções, ou seja, o da performance ritual e o da prática moral. Para melhor expor seu argumento, ele nos informa que a performance ritual – èbó – representa o sacrifício material, e a prática moral – íló – significa o sacrifício de si mesmo (KARENGA, 1999, p. v-viii). Èbó é palavra bem conhecida entre nós, americanos da diáspora. Por èbó se sabe, tanto no Brasil como em Cuba, México, Colômbia, Venezuela, República Dominicana, EUA e mais outros tantos países deste continente, que se trata de oferenda, ou sacrifício, para divindades ligadas às tradições iorubanas, os orixás. Como já nos ensinava Marcel Mauss, quando escrevia sobre o sacrifício entre os hebreus e os hindus, que esta prática sagrada – ou mágica, se o leitor preferir – é realizada para propiciar algo, corrigir ou impedir algo e agradecer por algo (MAUSS, 2005). Não é diferente no caso do èbó 206 Magia, truque e feitiço que conhecemos, onde a oferenda, ou sacrifício, pode ser feita com objetivos semelhantes. Tendo isto em mente podemos admitir com facilidade o aspecto mágico do èbó, particularmente quando relacionamos sua realização à conquista do objetivo desejado. Então a magia estaria aí, na relação talvez apofênica entre uma ação e seu efeito. Mas sobre isto é preciso dizer algo grave: se toda a vontade pudesse ser satisfeita com recursos desta natureza, então não haveria necessidade de boa conduta. E nada pode ser mais estranho ao pensamento iorubano que isto. O conceito de ìwàpèlè – o bom caráter, ou caráter brando – nos ensina que não podemos viver uma boa vida sem que saibamos reconhecer nossos limites, bem como nossas potências (ABIMBOLA, 1975). Então a magia do èbó não pode nos servir para a validação de nossos desejos. Ainda sobre isso, é preciso dizer que não importa a motivação do èbó, ou tampouco o volume e a grandeza dos materiais oferecidos nele se não houver uma correção de conduta, que só é possível com o íló, o sacrifício de si mesmo. Íló pode ser traduzido literalmente como costume, uso ou hábito. Mas para o entendimento que fazemos de seu significado análogo, devemos admitir a ideia de ouvir o conselho, para que o costume, uso ou hábito, seja ajustado, alterado ou corrigido. Com isso estamos habilitados a presumir que uma boa conduta dispensaria a necessidade do sacrifício. Mas èbó e íló são duas noções complementares, não havendo razão para dispensar uma em favor da 207 Rogério Athayde outra. Com èbó podemos restituir o equilíbrio necessário para que íló se cumpra; ou, com èbó propiciamos as condições requeridas para que íló possa se apresentar; ou ainda, com èbó corrigimos o que era preciso para que possamos fazer uso de íló. Então a magia está neste procedimento dialógico, modificando a realidade com recursos extraordinários que ela parece supor e, de modo equivalente, promovendo os efeitos demasiadamente humanos que a ética indica. Antes de seguir em frente, quero que o leitor observe aqui a existência na tradição de Ifá de uma significativa diferença entre magia e feitiço. Por magia e feitiço podemos entender, ainda que de maneira precária, a transformação extraordinária de alguma coisa, uma desobediência, suspensão ou quebra, digamos assim, das leis naturais. Dessa forma, a noção de èbó caberia como magia, e igualmente como feitiço. Mas a noção de íló já não teria a mesma desinência, porque ela obriga a uma mudança de comportamento, a um ajuste ético. Então, por magia, também devemos incluir a mudança de uma má conduta, ou de uma conduta inadequada, visando o aprimoramento pessoal. O mesmo não se aplica ao feitiço, que produziria o efeito mágico para a simples satisfação do desejo, não havendo qualquer limite para a realização da vontade individual. Acredito que o leitor entenda que existam inúmeros exemplos passíveis de serem oferecidos neste sentido. Não pretendo fazer isso, sequer com o interesse de tornar claro o argumento. Afinal, o que a tradição de Ifá requer, e 208 Magia, truque e feitiço todos os seus sacerdotes devem estar comprometidos, é com o princípio ético que deve desassociar a magia do feitiço. O que temos até aqui? Argumentei que Ifá é muitas coisas e que dentre tantas a que me interessaria neste pequeno texto é sua expressão como um repositório de conhecimentos. Tentei explicar a diferença que deve ser notada entre episteme e gnose, com o objetivo de reivindicar gnose para a compreensão da tradição oral de Ifá, na medida em que admite uma ampla gama de saberes, para além daqueles apontados como racionais. Pretendi deixar bem claro que em Ifá o conhecimento é acessível através de suas inumeráveis histórias, seus mitos e fábulas; que a consulta oracular de Ifá, e a interpretação que se faz com ela, é operada a partir destas histórias. Disse também que o oráculo de Ifá realiza divinação, como um diálogo com os deuses, e não prevê o porvir, mas projeta futuros possíveis, como forma de gerar estratégias inteligentes para nossas tomadas de decisão. Enfim, sugeri que, para além de inúmeras possibilidades, a magia em Ifá pode ser encontrada através das transformações que èbó e íló promovem. Acredito que temos agora o necessário para voltar à história do Livro de Ogbe Yono, que tomo aqui como bom exemplo para a argumentação em torno dos temas da magia e da ética na tradição de Ifá. Contamos a história de um homem que desejava consultar o oráculo de Ifá para executar seu desejo de vingança. Ele procurou 209 Rogério Athayde Orunmilá, a divindade da inteligência, do conhecimento e da sabedoria. Orunmilá sempre é apresentado na literatura oral de Ifá como um babalawo, um sacerdote de Ifá, que consulta o oráculo e dá bons conselhos, íló, a quem quer que procure sua ajuda. Orunmilá também indica receitas mágicas, os èbós, para que os consulentes resolvam os problemas que têm e encontrem a felicidade. O leitor atento deve se lembrar que na história que contamos, Orunmilá não chegou a consultar o oráculo, do qual é o patrono habilidoso. Atitude aparentemente estranha para esta divindade, sempre disposta a ajudar na solução dos problemas humanos. O que podemos depreender deste ponto da narrativa é que Orunmilá aconselhou o homem a não fazer a viagem. E isto não nos deve causar espanto, visto que buscar vingança não parece ser boa conduta, em qualquer situação. E oferecendo este conselho, Orunmilá sutilmente respondeu à demanda do homem que bateu em sua porta, dizendo que sua motivação não era correta. O que Orunmilá não fez – devemos pensar assim – foi ceder à vontade daquele que desejava realizar algo aparentemente errado. Orunmilá é sacerdote de Ifá; não é feiticeiro. Com a insistência do homem que desejava sua revanche, Orunmilá ofereceu o conselho na forma de um enigma, uma revelação mistérica. Falou sobre três obstáculos, um buraco, uma árvore e um rio, que atravessariam seu caminho sem que ele pudesse passar por eles ou contorná-los. Entenda, com este tipo de adversidades, o que 210 Magia, truque e feitiço faria alguém razoável, alguém que não estivesse perturbado pelo sentimento de vingança,senão desistir da viagem e voltar para casa? A intenção de Orunmilá era fazê-lo perceber que seu projeto era de todo insensato. Mas não foi esse o entendimento que teve. O homem seguiu sua sanha e decidiu enfrentar o buraco, a árvore e o rio com a obstinação dos fortes, ou com a tolice dos mentecaptos. Perceba leitor, que para um buraco sozinho se encher de folhas muitas estações teriam que passar. E que, da mesma maneira, para que uma árvore virasse pó e um rio secasse, muitos anos deveriam correr. Note então que esta história fala de um arco de tempo extenso, que poderia durar toda uma existência. O homem, portanto, envelheceu, obcecado por seu desejo de vingança, a ponto de não se lembrar das razões pelas quais sua existência foi empenhada. Ou desperdiçada. É uma história triste. E bonita também. Ela nos ensina algumas coisas sobre a diferença entre obstinação e propósito. E, se assim nos for permitido pensar, sobre a diferença ética entre magia e feitiço. Espero que os aspectos mágicos da consulta oracular de Ifá tenham ficado claros. Pelo menos um ou outro deles. Como uma história, feito esta que recontei aqui, é capaz de se revelar uma história nossa, orientando-nos e nos fazendo tomar decisões acertadas sobre nosso destino, isso jamais saberemos. E talvez esteja aí o sentido muito elementar do que se pretende e se reconhece como mágico. Mas 211 Rogério Athayde existem outras perspectivas que tentei deixar esboçadas, com as ideias de èbó e, principalmente, íló. Se o èbó, como sacrifício material, encanta quando o efeito pretendido por ele é alcançado, com o íló a mudança talvez seja ainda mais interessante, porque é capaz de interferir na produção de futuros possíveis através da conduta acertada e, em última instância, promover condições para a felicidade. A correção ética, que muitas vezes obriga a um ajustamento do que pensamos, fazemos ou até mesmo sentimos, permite entender que a magia em Ifá não se dobra à vontade individual, se mostrando bem diferente daquilo que entendemos como feitiço. Referências Documentais AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Editora Abril, 1987. Bibliográficas ABIMBOLA, Wande. “Ìwàpèlè: The concept of good character in Ifá's literary body”. In: Yorùbá Oral Tradicion. Ile Ife: Department of African Languages and Literatures/ University of Ife, 1975. ABIMBOLA, Wande. Ifá: an exposition of Ifá literary corpus. New York: Athelia Herietta Press, (1969)1997. ABIMBOLA, Kola. Yoruba culture: a philosopical account. Birmingham: Ìrókó Academic Publishers, 2005. ADEWUYI, Olayinka. Babatunde Ogunshina. Ifá. The book of Wisdom. 2018. ATHAYDE, Rogério. Orunmilá. Rio de Janeiro: Editora Pallas, 2022. AWOLALU, J. Omosade. Yoruba beliefs e sacrificial rites. New York: Athelia Herietta Press, 2001. 212 Magia, truque e feitiço AYOH’OMIDIRE, Félix. Yorubanidade mundializada: o reinado da oral i tura em textos yorubá-niger ianos e a fro-baianos contemporâneos. Tese de Doutorado em Letras defendida na Universidade Federal da Bahia (UFBA), 2005. BASCOM, William. Ifa divination: communication between Gods and Men in West Africa. Bloomington-US: Indiana University Press, 1969. COLLI, Giorgio. O nascimento da filosofia. Lisboa: Edições 70, (1975) 2019. GOODY, Jack. O mito, o rito e o oral. Petrópolis: Vozes, 2012. HOUNTOUNDJI, Paulin. Sur la “philosophie africaine”. Paris: François Maspero, 1977. IDOWU, E. Bolaji. Olódùmaré. God in yorubá belief. Lagos: Longman Nigeria Plc, (1962) 1996. KARENGA, Maulana. Odù Ifá: the ethical teachings. Los Angeles: University of Sankore Press, 1999. LUCAS, Olumide. The religion of the Yorubas. New York: Athelia Herietta Press, (1948) 2001. MAUSS, Marcel; Hubert, Henri. Sobre o sacrifício. São Paulo: Cosac Naify, 2005. MUDIMBE, V. Y. A invenção da África. Lisboa: Edições Pedago/ Luanda: Edições Mulemba, 2013. 213 Raios e ventos: narrativas mágicas sobre Santa Bárbara e Iansã Debora Simões de Souza 1 Os estudos sobre a magia, ocupam um lugar central no que configura o campo de saber antropológico, assim, como outros temas clássicos: teoria do parentesco e organização das diferentes sociedades. Autores centrais na antropologia como Durkheim, Malinowski, Evans-Pritchard, James Frazer, Marcel Mauss, entre outros, se concentraram na magia por meio de diferentes abordagens, linhas conceituais e até escolas antropológicas. James Frazer no livro O Ramo de Ouro, publicado originalmente em inglês em 1890, foi o primeiro antropólogo que sistematizou e problematizou a relação entre magia e religião. Seguindo a perspectiva em voga na época, o autor elencou a razão como principal maneira de compreensão dos sujeitos sobre suas realidades. Frazer construiu uma hierarquização entre ciência, religião e magia e, nessa ordem, a primeira seria uma forma mais evoluída de entender e explicar a realidade humana e a última uma forma arcaica. Reforçando assim, a primazia da ciência (FRAZER, 1996). Doutora (2020) pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da 1 Universidade Federal do Rio de Janeiro pertencente ao Museu Nacional (PPGAS/ UFRJ/MN), bolsista do CNPq. Professora Efetiva de História do IF Baiano. Mestre (2014) em História Social, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ/ FFP), bolsista Capes. Possui pós-graduação lato sensu em Ensino de História e Cultura Africana e Afro-brasileira, pelo Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Licenciou-se em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, na Faculdade de Formação de Professores (UERJ/FFP, 2011). 214 Raios e ventos Após cinquenta anos dos escritos de James Frazer, ocorreu uma inovação nos estudos sobre a magia na antropologia, com a presença do trabalho etnográfico de Malinowski compilado no livro Coral Gardens, publicado em dois volumes. Nesta obra, Malinowski concentrou-se na relação entre a magia e as práticas da agricultura desenvolvida pelos moradores das Ilhas Trobriand, arquipélago localizado na costa oriental da Nova Guiné. Há muitos outros aspectos que poderiam ser mencionados acerca da importância das teorias sobre magia na antropologia. Seria possível que este texto fosse um exercício de revisitar os autores e estudos clássicos com ênfase na magia. Porém, este capítulo, em diálogo com os demais da coletânea, será estruturado a partir de um trabalho etnográfico para chegarmos no conceito, a magia. Utilizamos aqui a metodologia da observação participante. O criador desse método foi Malinowski ao aprender a língua, conviver intensamente com os povos estudados e abordar a totalidade de aspectos da vida social na qual tinha interesse. Ouvindo, vendo e conversando, o antropólogo tenta compreender as características explícitas e implícitas presentes no contexto em foco. Além das longas conversas, podem ser realizadas entrevistas com indivíduos previamente escolhidos, aqueles que são guardiões dos conhecimentos, autoridades em relação a temas pertinentes à situação estudada. 215 Debora Simões de Souza O contexto etnográfico delimitado é o conjunto de narrativas que contêm possíveis acontecimentos da vida de Santa Bárbara e Iansã. Essas narrativas foram feitas por devotas, moradoras de Salvador, na Bahia. Chegamos a este recorte a partir de uma pesquisa mais longa realizada sobre as comemorações em torno de Santa Bárbara e Iansã na capital baiana, tema do meu doutoramento. A grande festa de rua acontece dia 4 de dezembro, no Pelourinho e na Baixa dos Sapateiros, momento no qual a cidade veste-se de vermelho e branco para homenageá-las. Este evento festivo tem forte presença de frequentadores, adeptos e líderes das religiões de matrizes afro- brasileiras na festa. Indivíduos ligados (em diferentes níveis) principalmente ao universo do candomblé e também àumbanda produzem no contexto festivo formas específicas de ocupação do espaço público, numa dinâmica religiosa complexa que congrega homenagens à santa e à orixá. A incorporação de entidades na Festa de Santa Bárbara pode ser concebida como um traço dessa dinâmica religiosa. A festa estrutura-se a partir de uma missa e procissão. Em 2008 a festa de Santa Bárbara foi registrada como patrimônio imaterial do Estado pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), inscrita no livro das celebrações, marcando o reconhecimento e a importância dessa prática para os baianos e sinalizando a importância do festejo para a população. Parte significativa do festejo é organizado pelo grupo de devoção à Santa Bárbara pertencente à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos situada no Pelourinho. 216 Raios e ventos Nossas análises aqui estão centradas nos textos (nem sempre escritos) que contam as histórias de Santa Bárbara e de Iansã. Isto é, trabalharemos com a hagiografia da santa e o conjunto de mitos sobre Iansã como sendo narrativas mágicas, que são acionadas pelas devotas e pelos líderes religiosos em diferentes contextos e por eles são atualizadas. Essas narrativas mágicas são fundamentais no processo devocional. Vemos claramente como a utilização das narrativas estabelece e restabelece laços entre a santa e a devota. Ao insistir no feminino devota e não devoto, estamos considerando que a maioria significativa de pessoas que têm relações com Santa Bárbara são mulheres. O grupo é composto, principalmente, por mulheres negras, que estão tanto no universo religioso do catolicismo como do candomblé, possuem dupla pertença. Dois importantes alertas devem ser feitos. Primeiro, a magia aqui não é categoria nativa e sim categoria analítica. Ou seja, magia é um conceito antropológico, aplicado aqui como tal e não como categoria êmica (própria dos sujeitos da pesquisa, que emerge do grupo social). Segundo, nos distanciamos veemente de qualquer noção que trata magia como sinônimo de religião. Voltaremos a esse aspecto mais adiante. A magia de Marcell Mauss A teoria da magia construída por Marcel Mauss (2003) nos ajuda como uma espécie de guia geral. O antropólogo francês indica que a magia e a religião pertencem ao campo sagrado. Na citação a 217 Debora Simões de Souza seguir é possível distinguir e definir os agentes da magia e os atos mágicos. A magia compreende agentes, atos e representações: chamamos mágico correspondem aos atos mágicos; quanto aos atos, em relação aos quais definimos os elementos da magia, chamamo-los ritos mágicos [...] Os atos mágicos, e a magia como um todo são, em primeiro lugar, fatos de tradição. Atos que não o indivíduo que efetua atos mágicos, mesmo quando não é um profissional; chamamos representações mágicas as ideias e as crenças que se repetem não são mágicos (MAUSS, 2003, p. 55). Sobre a complexa potencialidade mágica, Mauss (2003, p. 141) explica: É a ideia de uma força da qual a força do mágico, a força do rito, a força do espírito são somente as diferentes expressões, conforme os elementos da magia. Pois nenhum desses elementos age enquanto tal, mas precisamente enquanto é dotado, seja por convenção, seja por ritos especiais, desse caráter mesmo de ser uma força, e uma força não mecânica, mas mágica. Desse ponto de vista, aliás, a noção de força mágica é inteiramente comparável à nossa noção de força mecânica. Assim como chamamos a força a causa dos movimentos aparentes, também a força mágica é propriamente a causa dos efeitos mágicos: doença e morte, felicidade e saúde etc. As narrativas sobre a vida de Santa Bárbara e de Iansã são forças, ou seja, são expressões que se configuram como elementos da magia. E ainda seguindo a teoria de Mauss, essas narrativas não têm ação em si mesmas, elas são investidas, pelas devotas, de uma força mágica que causa, como resultado primeiro, efeito mágico. 218 Raios e ventos Santa Bárbara Segundo um conjunto de textos hagiográficos e sermões, Bárbara viveu na Ásia Menor, na cidade de Nicomédia, no século III 2 (talvez entre os anos 236 e 260). Seu pai, Dióscoro, um homem rico e influente, mantinha-a presa em uma torre. Porém, certo dia, ele permitiu que a filha saísse. Na ocasião, ela conheceu pessoas que a 3 apresentaram ao cristianismo e sua conversão foi quase que imediata. Bárbara contrariava a sua própria família e a sociedade, pois, na época, a religião cristã era perseguida politicamente. Determinado dia, seu pai anunciou que inúmeros príncipes pretendiam casar-se com ela. Muito irada com o anúncio do pai, recusou-se. Pois seu maior desejo era entregar-se por completo, corpo e alma, à religião. Após o anúncio do possível casamento, Dióscoro viajou. Aproveitando essa oportunidade, a jovem foi olhar a construção de Na compilação da vida dos santos, publicada originalmente no final do século XIX, 2 Alban Butler ([1883] 1999, p. 173) exibe as contradições e informações falsas presentes na biografia de Bárbara. “Barónio prefere as actas que nos dizem que ela foi aluna de Orígenes e que sofreu o martírio em Nicomédia, no reinado de Maximio I, o qual foi o autor da sexta perseguição geral, em 235. Mas José Assemani mostra que as actas que nos deixaram Matrafaste e Mombrício são mais exatas e fidedignas. Estas actas informam-nos de que Santa Bárbara sofreu o martírio, no Egipto, cerca de ano 306. Este relato conforma-se com a Menologia do Imperador Basílio e com o Sinaxário Grego”. Vagner Santos (2019), em artigo recente, sistematiza diferentes versões dos possíveis acontecimentos da vida de Bárbara. Em uma espécie de cartilha voltada para devotos e sacerdotes, a teóloga Tarcila Tommasi (2014) narra episódios da vida de Bárbara relacionando-os constantemente a sua conversão e martírio. Há referências de que ela havia escapado.3 219 Debora Simões de Souza uma nova sala de banho em sua torre, e, notando que só havia duas janelas, imediatamente pediu que abrissem mais uma. Assim que o seu pai voltou, desejou saber o motivo disso e ela explicou o que representavam: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Para muitos, desse episódio em diante teve início o martírio de Bárbara. Ela foi denunciada ao imperador pelo próprio pai. Foi presa e torturada a fim de que negasse a fé cristã, o que não sucedeu. Em consequência, ela foi condenada à morte em praça pública. Com uma espada, seu próprio pai arrancou seus seios e, em seguida, degolou-a. Neste instante, um raio fulminante atingiu-o. E, em função disso, ocorre a associação da santa com os raios. Os parágrafos anteriores, os quais apresentaram episódios da vida de Bárbara, não são importantes por sua veracidade ou não, mas sim pelas interpretações que as devotas constroem a partir dessas informações. Em outras palavras, estamos interessados na força mágica que elas colocam nesses episódios extraordinários. A excepcionalidade dos episódios da vida da figura sagrada desdobra-se, para cada devota, num conjunto de possibilidades de interpretação e de criação de novos sentidos. A hagiografia é um gênero literário que, de forma geral, promove o culto aos santos ao contar sua vida. São documentos escritos que apontam para a exemplaridade da figura religiosa. Já a biografia dos santos (canonizados ou não) é a ligação das ações, dos 220 Raios e ventos locais e dos assuntos. Esse tipo de biografia tem uma estrutura específica, a qual se relaciona, não particularmente com aquilo que de fato aconteceu, mas com aquilo que é exemplar. Nessa espécie de escrito, a veracidade dos ocorridos não é comprovada e, em certo sentido, a verificação não cabe. A vida do santo precisa ser antes “considerada como um sistema que organiza uma manifestação graças à combinação topológica de ‘virtudes’ e de ‘milagres”’ (CERTEAU, 2007, p. 266). Questões sobreo ordinário e o extraordinário na vida dos santos possuem um léxico próprio dentro da hagiografia (CERTEAU, 2007, p. 266), um universo que oscila entre as virtudes, os milagres e o martírio que marcam a vida e a morte dos sujeitos canonizados. Michel de Certeau (2007) trata das múltiplas formas de apropriação das hagiografias pelos religiosos, diferentes das dos “livros canônicos” que, segundo o autor, encontravam-se ligados à norma pedagógica do dogma, “a vida dos santos traz à comunidade um elemento festivo. Ela se situa do lado do descanso e do lazer. Corresponde a um ‘tempo livre’, lugar posto à parte, abertura ‘espiritual’ e contemplativa. [...] Ela ‘diverte’” (CERTEAU, 2007, p. 270). Para o autor, a combinação do extraordinário com o possível dentro da hagiografia forma uma “poética do sentido”, narrativas do “tempo livre”, histórias que preenchiam os tempos de “vacância” dos religiosos. Esse “tempo alegre” assume as feições de “uma exceção e de um desvio (pela metáfora de um caso particular), o discurso cria uma liberdade com 221 Debora Simões de Souza relação ao tempo cotidiano, coletivo ou individual, mas constitui um não lugar” (CERTEAU, 2007, p. 269-270). O extraordinário e o possível se relacionam para alicerçar uma narrativa que sempre nos direciona para a questão da exemplaridade. As narrativas sobre a vida da santa ganham múltiplas possibilidades de sentido e as lacunas na biografia viabilizam seu preenchimento pelos devotos, segundo nos informa Clerc-Renaud (2014; 2016). A autora, em diálogo com o texto de Certeau citado anteriormente, afirma que [...] a descrição das representações locais de santidade mostra que a prática narrativa da vida do santo [...] é indissociável das imagens, lugares, temporalidades extraordinárias, necessárias à compreensão dessas figuras, construídas sobretudo como princípios de agenciamento a serviço da ação da história (CLERC- RENAUD, 2016, p. 42, tradução nossa). Podemos ver essa lógica em operação, por exemplo, a respeito da guerra que Santa Bárbara travou. Consonantes diversas narrativas, ora foi contra o pai, ora contra a sociedade. Ou seja, ela é guerreira porque enfrentou a força masculina, personificada na figura do pai, em nome do seu desejo de seguir o cristianismo. Para muitas devotas, a espada tanto pode ser a arma que o pai da santa usou para executá-la como símbolo da luta espiritual que ela travou. Esse objeto é ao mesmo tempo símbolo da tortura sofrida pela santa e da sua força. Em determinado momento durante as entrevistas realizadas no trabalho de campo, as devotas começam a citar, em ordem, possíveis aspectos atribuídos à vida de Bárbara. Nos intervalos, em que citam pontos altos, como o início do processo do martírio, ou até mesmo o 222 Raios e ventos final, elas percebem um vento mais intenso (força da natureza atribuída a ela). Em geral, após o ocorrido, elas complementam: “é porque estamos falando dela”, ou colocações semelhantes. As narrativas mágicas não só têm força em si, mas são também forças motoras, elas movimentam. Iansã “Iansã” em iorubá significa mãe de nove filhos. Foi esposa de Xangô (rei de Oió) e de Ogum (guerreiro e que tem o domínio da metalurgia) e mãe dos Ibejis. Senhora dos raios, ventos e tempestades. O fogo é um elemento ligado à ela. Conhecida por sua força e destreza. No conjunto iconográfico, a divindade, em geral, é representada como uma mulher negra formosa com curvas acentuadas, com vestes vermelhas, numa mão sua espada (alfanje) e na outra seu eruexim (semelhante a um espanador, confeccionado com cabo de madeira, detalhes em búzios e crina de cavalo) que são suas principais ferramentas. Adora acarajé e nas grandes festas dos templos de candomblé os distribui. Também conhecida como Oiá, ela é denominada de Matamba ou Bamburucema pelos adeptos de candomblé das nações angola e congo. Esta síntese foi elaborada a partir de palavras-chave retiradas do meu caderno de campo, que eu registrava logo após uma conversa ou entrevista e destacava. Por isso, são ao mesmo tempo 223 Debora Simões de Souza características gerais e restritas sobre as divindades, uma vez que foram organizadas a partir das construções discursivas dos interlocutores desta pesquisa. “Iansã tem uma energia diferente, é mais agitada, já chega mostrando para o que veio” e “as filhas de Iansã são mulheres fortes” – são frases que sintetizam características atribuídas à orixá (também conhecida como Oiá) e suas filhas. Não pretendemos realizar uma análise de Iansã e suas variações no complexo universo das religiões de matrizes afro-brasileiras, mas sim abordá-la a partir das falas das interlocutoras. Iansã controla e tem o domínio do vento, da tempestade, do trovão, do relâmpago, do raio e do fogo. Em Salvador, seu dia é a quarta-feira e suas cores são o branco e o vermelho. Dizem que ela possui uma personalidade autoritária e combativa. Xangô foi seu grande amor, a quem está associada, mas antes dele teve outros amores. Na Bahia, falaram-me inúmeras vezes que “onde está Iansã também está Xangô”, e complementaram essa ideia, “não se pode fazer nada para Iansã que não se faça para Xangô”. Adiante, voltarei a mencionar a relação entre eles. Seu caráter guerreiro e seu envolvimento com certos elementos da natureza estão presentes na compilação de seus mitos (PRANDI, 2001). Podemos denominá-la de Iansã, Oiá ou Matamba (no candomblé angola). O primeiro nome é de origem iorubá e significa “senhora dos nove, porque ela tem nove filhos e ela é senhora dos 224 Raios e ventos nove mundos”, como me explicou o professor Ordep Serra, durante a nossa primeira conversa. Do conjunto mitológico que envolve Iansã e seus amores, selecionamos um mito no qual ela pega os atributos deles. Com Ogum, Iansã adquiriu o direito de usar a espada; com Oxaguiã, obteve a posse do escudo; com Exu, conseguiu o direito de usar o poder do fogo e da magia; com Oxóssi, conquistou o conhecimento da caça. Em dado momento, aperfeiçoou-se nos ensinamentos sobre magia para transformar-se em búfalo. Com Logum Edé, conseguiu o direito de pescar. Depois da conquista e do desenvolvimento dos atributos, Iansã foi para o reino de Xangô, alcançou o poder de encantamento e o domínio dos raios (PRANDI, 2001, p. 296-297). Acredito que esta compilação reflete um tipo feminino acionado pela maioria das interlocutoras da pesquisa, as quais são filhas de Iansã, isto é, são mulheres independentes, articuladoras, criativas, batalhadoras, etc. Na sequência mostraremos dois mitos nos quais ela transformou-se, no primeiro no rio Níger: Oiá foi aconselhada a prosseguir sua jornada ao lado do seu marido Xangô. Enquanto amasse esse homem, não deveria retornar a Irá, sua terra natal, onde vivia com a família. Dividida sentimentalmente, Oiá não seguiu as recomendações e voltou a Irá. Um dia recebeu a notícia da morte de Xangô. Sentindo grande tristeza pelo ocorrido, usou seus poderes sobrenaturais e transformou-se em um rio, Odô Oiá, o rio Níger (PRANDI, 2001, p. 302). No segundo, uma outra transformação, dessa vez num elefante: 225 Debora Simões de Souza Ao dar à luz Oiá, sua mãe morreu e a menina foi criada por Odulecê, não se sabendo ao certo se este era seu pai biológico ou adotivo. Aos doze anos, Oiá já era uma mulher linda e inteligente, que encantava todos os homens. Nem mesmo seu pai conseguiu sublimar sua atração por ela. Numa noite, Odulecê quis possuí-la e ela, desesperada, fugiu de casa. Quanto mais corria, mais obstáculos lhe surgiam. Oiá não conseguia escapar de seu pai. No seu desespero, seus poderes sobrenaturais afloraram e ela transformou-se em pedra, em madeira e em cacho de dendê. Mas seu pai continuava a perseguição. Desesperada, Oiá transforma-se num grande elefante branco, que atacou Odulecê. Odulecê fugiu em disparada,desistindo de agarrar Oiá (PRANDI, 2001, p. 302-303). No candomblé, é possível afirmar que sua “cosmologia se desdobra em uma mitologia” (GOLDMAN, 2005, p. 109) e em um conjunto de entrelaçados sistemas de classificação que, de forma geral, relacionam natureza e sociedade numa filosofia complexa própria dessa religião e de sua concepção do ser. Sobre as mitologias e as especificidades dos orixás: Os mitos apresentam, sobretudo, o caráter polívoco das divindades: simultaneamente essências imóveis, forças da natureza (raios, trovões, rios etc.), instituições culturais (guerra, justiça...), indivíduos que viveram no passado (reis, rainhas, guerreiros...). E não se trata aqui apenas – talvez seja preciso advertir – de representações (o raio representando a orixá Iansã), relações de propriedade (o mar pertencendo à orixá Iemanjá) ou controle (a doença sendo provocada e controlada por Omolu), mas de uma forma muito complexa de agenciamento. Em certo sentido, o mar é Iemanjá, o raio e o vento são Iansã, e a doença é Omolu. Natureza, cultura, seres humanos, o cosmos, tudo parece articulado nesse sistema. Os componentes desses diferentes planos podem, assim, ser agrupados em classes de acordo com o orixá ao qual pertencem, ou seja, de acordo com a modulação de axé que os constitui (GOLDMAN, 2005, p. 109). 226 Raios e ventos Um orixá, de forma geral, possui diversas variações. Iansã, por exemplo, pode ser Iansã Balé , é a divindade que comanda os Eguns 4 (espíritos ancestrais) e, por isso, está ligada ao controle do mundo dos mortos. Para além das diversas qualidades de um orixá, há também a relação e constituição das pessoas (tanto indivíduo quanto orixá). Estas construções estão intimamente ligadas às personalidades e ajustam-se e reajustam-se no decorrer de uma relação que se espera ser para a vida toda. Esse ajuste foi descrito por uma ialorixá em um dos nossos muitos encontros. Na casa de axé, sentada no sofá, ela falou da ligação com seu orixá, destacando que “a minha Iansã é assim, calma; e eu sou assim, calma, por causa dela”. Essa característica da divindade influencia na personalidade da líder religiosa, que complementa ao dizer que nem sempre ela foi tranquila, contudo Iansã foi o motivo dessa mudança. Mais uma vez, vemos um movimento de ajuste entre o orixá e seu filho. Ao longo da vida, o adepto vai se moldando, se construindo enquanto filho de seu orixá. A ialorixá está aprendendo a cada dia a ser de Iansã, entretanto não é qualquer Iansã, é especificamente a dela. Icú Oyá traz a morte, Oyá Onirá está relacionada com Oxum, Oyá Jegbê é a mais 4 velha, Oyá Padá gera os Eguns, Oyá Jimudá é associada a Oxalá e Oyá Cará é o fogo (COSSARD, 2008). Bastide (1971, p. 200) apresenta que “cada orixá é múltiplo: há, por exemplo, doze Xangôs, dezesseis Oxun, dezessete Yansan, vinte e um Exú”, são alguns exemplos. O autor estabelece um paralelo entre os números dos orixás com as nações que vieram para o Brasil, na época do tráfico transatlântico de escravizados. Todavia, a teoria dos algarismos não dá conta de explicar a complexidade das divindades e também não é o cerne da interpretação do autor, que está mais interessado nas relações do que nas classificações. 227 Debora Simões de Souza A relação entre Iansã e seu esposo, Xangô, apareceu em inúmeras narrativas. Um babalorixá, por exemplo, falou da relação entre essas divindades: Iansã é mulher de Xangô, é a esposa mais interessante do rei de Oió. Teve uma mudança aqui no Brasil da visão sobre Iansã. Essa visão é absolutamente estranha, ou melhor, diferente do que se pensa de Iansã na África. Primeiro, porque ela é um orixá das águas, isso não veio muito para cá. O nome de Iansã é exatamente uma menção, é uma referência às nove desembocaduras do Rio Níger, que é um dos rios mais importantes da região da Nigéria, e a história dela começa exatamente nessa travessia, quando ela se apaixona por Xangô. Na verdade, antes, teve uma briga. Ela era esposa de Ogum, que vivia nas terras de Xangô. E Xangô, ao passar por Ogum, viu aquela mulher bonita do diabo e disse assim: ‘é ela, não fica para Ogum não. Ogum é um ferreiro e eu sou rei’. Então, eles brigaram, eles lutaram na verdade. Em certo momento, Ogum disse: ‘nós somos irmãos, vamos deixar para lá, você leva essa mulher, você merece’. Inclusive na festa de Iansã, com Xangô, há um ritual de uma dança, é uma coreografia que está bem no contexto mítico e litúrgico mesmo. Eles dançam insinuando uma briga e depois se abraçam. De forma geral, as devotas destacam o casamento entre Iansã e Xangô, rainha e rei de Oyó, mãe e pai dos Ibejis. Muitas dessas narrativas mágicas são apresentadas em momentos rituais ou nos preparatórios rituais. Falar de Iansã, dos orixás de maneira geral, é chamar o sagrado para perto, é agir com as palavras, é um ato mágico. De fato, o seguidor do candomblé pode simplesmente tomar os atributos do seu orixá como se fossem os seus próprios e tentar se parecer com ele, ou reconhecer através dos atributos da divindade bases que justificam sua conduta. Os padrões apresentados pelos mitos dos orixás podem assim ser usados como modelo a ser seguido, ou como validação social para um modo de conduta já presente. Um iniciado pode, ao familiarizar- 228 Raios e ventos se com seus estereótipos míticos, identificar-se com eles e reforçar certos comportamentos, ou simplesmente chamar a atenção dos demais para este ou aquele traço que sela sua identidade mítica. Mudar ou não o comportamento não é importante; o que conta é sentir-se próximo do modelo divino (PRANDI, 1995, p. 16). As narrativas mágicas mobilizam seres, coisas, fenômenos da natureza, etc. A organização de acontecimentos que, possivelmente, ocorreram na vida de Bárbara e Iansã forma uma linguagem compartilhada entre fiéis e líderes religiosos e por eles também legitimados. Podemos concluir que, ao falar da santa e da orixá, as devotas manipulam forças importantes no processo devocional. Falar também é fazer. Referências BASTIDE, Roger. As religiões africanas no Brasil (2 vols.). São Paulo: Pioneira. 1971. BUTLER, Alban. Vida dos Santos. Lisboa: Dinalivro, 1999. Certeau, Michel de. A escrita da história. Tradução de Maria de Lourdes Menezes. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007. CLERC-RENAUD, Agnès. De minces biographies. Circulation et créolisation d’histoires de saints. Brésil (Nordeste). In: Cahiers de littérature orale [En ligne], v. 80, p. 21-51, 2016. CLERC-RENAUD, Agnès, À l’épreuve des certitudes: récits d’une sanctification locale (Ceará, Brésil). In: Social Compass, v. 4, n. 61, p. 524-536, dez. 2014. COSSARD, Gisèle Omindarewá. Awó: o mistério dos orixás. 2ª. Ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2008. FRAZER, James George. La rama dorada. Magia y religión. México, D.F.: Fondo de Cultura Económica, 1996. 229 Debora Simões de Souza GOLDMAN, Marcio. “Formas do saber e modos do ser: observações sobre multiplicidade e ontologia no candomblé”. In: Religião e sociedade, v. 25, n. 2, p. 102-120, 2005. MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Cosac Naify, 2003. PRANDI, Reginaldo. Deuses africanos no Brasil contemporâneo: introdução sociológica ao candomblé de hoje. Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, n.3, p. 10-30, 1995. PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras. 2001. MALINOWSKI, Bronislaw, Coral gardens and their magic. A study of the methods of tilling the soil and of agricultural rites in the Trobriand Islands, London, George Allen & Unwin Ltd., 1966. 230 Mulheres encantadas e os lagos mágicos: as estatuetas femininas das estearias do Maranhão Alexandre Guida Navarro 1 Os que devem comparecer ao festim reúnem-se todos no dia designado. Já na véspera, à noite, começam a preparar-se, vestindo seus mais belos adornos de penas de variegadas côrese dançando em tôrno de suas casas, com seus maracás nas mãos, cantando e pulando sem cessar (D’ABBEVILLE, 2008 [1614], p. 238). Introdução O tema das estatuetas na Arqueologia é fascinante. Por definição, uma estatueta é uma escultura de pequenas dimensões confeccionada em cerâmica, osso, marfim ou em lítico, sendo um artefato mobiliário, ou seja, que pode ser transportado (EMBER et al., 2004). Geralmente, as estatuetas são femininas e por isso apresentam um amplo significado semântico que está associado desde as correntes teóricas mais conservadoras, como a associação com o erotismo ou fecundidade, até posicionamentos feministas que as colocam como Professor Associado III do Departamento de História (DEHIS) do Programa de 1 Pós-Graduação em História Social (PPGHIS) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), do Programa de Pós-Graduação em Diversidade Sociocultural (PPGDS) do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG), líder do Grupo de Pesquisa Religião, História e Cultura Material (REHCULT) e bolsista de produtividade do CNPq nível 2 (processo 303620/2021-8). Mestre em Arqueologia pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE/USP), doutor em Antropologia pela Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) e possui dois pós- doutoramentos: um pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) em 2008 e outro na University of Illinois at Chicago em 2017, onde foi, também, Professor Visitante com bolsa da Fulbright Institution (modalidade Visiting Professor Award). 231 Alexandre Guida Navarro representações de chefes políticas. Deste modo, o estudo das estatuetas é uma agenda atual, sobretudo pelo teor político que carrega consigo, evidenciando o papel do gênero na formação política contemporânea mundial. Este texto nasce de uma reflexão após seis trabalhos de campo nas estearias maranhenses de onde foram coletados 74 exemplares de estatuetas inteiras e fragmentadas. As estearias são sítios arqueológicos formados por palafitas erguidas dentro de rios e lagos e que serviam de sustentação para os pilares ou esteios de madeira das aldeias indígenas, um tipo peculiar de ocupação pré-colonial na região conhecida como Baixada Maranhense, a aproximadamente 200 km da capital do estado, São Luís (NAVARRO, 2017a, 2017b, 2018a, 2018b, 2020) (Figuras 1 e 2). Construídas desde o início da era cristã até o século XIII, estes sítios arqueológicos vêm ganhando repercussão na arqueologia brasileira por causa da boa preservação do material que se encontra em meio à turfa do leito aquático onde foram descartados (NAVARRO, 2018b). Estudos arqueológicos realizados por Navarro desde 2014 demonstram que estes assentamentos não são simples acampamentos como até então se pensava. A grande quantidade de artefatos com marcas de fuligem e cocção evidenciam uma ocupação de longa duração (NAVARRO, 2018a). A existência de muiraquitãs nesses sítios, como o exemplar coletado por Navarro (2017a) no sítio Boca do Rio em 2014 e aqueles coletados por Raimundo Lopes (1924) e 232 Mulheres encantadas e os lagos mágicos estudados por Navarro e Prous (2020) no Museu Nacional antes do incêndio que o consumiu, corroboram para a vida sedentária destes grupos, uma vez que indicam o comércio de longa distância entre viajantes do Baixo Amazonas e, possivelmente, das Antilhas e Caribe. Figura 1: Mapa com a localização das estearias do rio Turiaçu. Acervo LARQ-UFMA. Figura 2: Estearia do Cabeludo na época da seca, ainda com lâmina de água. Fotografia Acervo LARQ-UFMA. 233 Alexandre Guida Navarro Práticas universais da representação de estatuetas As estatuetas vêm sendo estudadas com recorrência, haja vista o recente manual The Oxford Handbook of Prehistoric Figurines, organizado por Timothy Insoll (2017). Talvez as mais famosas estatuetas sejam as “estatuetas de Vênus” do Paleolítico Superior europeu, ca. 30.000 anos atrás. Geralmente foram confeccionadas de rocha calcária sendo a de Wilendorf, atualmente depositada no Museu de História Natural de Viena, Áustria, a sua maior expressão. Outras foram feitas de osso e marfim, refletindo uma arte relacionada com os caçadores glaciares (MARINGER, 1989). Esses artefatos suscitam ainda calorosas discussões e são uma evidência de como os usos do passado vão se delineando ao longo do tempo. A associação com a sexualidade é uma vertente mais tradicional nos estudos e vem sendo criticada por seu discurso acrítico, sendo que a própria designação vênus tem uma conotação erótica (MARINGER, 1989). Nelson (2001), só para citar um caso, sugere que as estatuetas foram elaboradas para fins de prazer masculino, um “pin-up” feminino associado ao erotismo. Nesse sentido, as estatuetas seriam como vasilhames com a função de abrigar o esperma masculino com o objetivo de prover novos seres humanos. No entanto, segundo Nakamura e Meskell (2019), os estudos focados nas estatuetas do Neolítico da Europa em sua maioria são visões ocidentalizadas da mulher enquanto metáfora de sexualidade e fertilidade. Dentre essas acepções estão a evocação de “deusa mãe”, 234 Mulheres encantadas e os lagos mágicos em que esses artefatos são vistos como evidência de veneração divina utilizados em rituais ou cultos levados a cabo por essas sociedades neolíticas. Uma vez que a mulher é a progenitora, dentro do contexto tradicional, as estatuetas poderiam representar, portanto, a materialização da reprodução feminina e, por extensão, do lar. Para as autoras em questão, as estatuetas de Çatalhöyük não foram encontradas majoritariamente em habitações domésticas e sim em templos, e representariam não corpos individuais de mulheres, mas sim “body kind”, ou seja, puderam ser utilizadas como instrumentos de narrativas coletivas, de jogos ou ainda como instruções. Portanto, as estatuetas não seriam manifestações da fertilidade feminina. Elas contariam, portanto, a história daquele grupo e legitimavam, desse modo, as experiências sociais e memória identitárias vivenciadas pelos moradores da cidade ao longo do tempo. Na Mesoamérica as estatuetas existem em praticamente todos os sítios arqueológicos. O repertório é muito grande, mas, em geral, esses artefatos revelam seres em movimento representando musicistas, guerreiros, elite com rica indumentária acrobatas, xamãs com máscaras rituais ou com o par enamorado, cenas de amamentação e crianças brincando com animais de estimação (LESURE, 1999; JOYCE, 2005). Ou seja, representam seres individuais, “retratos únicos” de múltiplas identidades do modo de figurar o corpo (JOYCE, 2005). Nesse sentido, o corpo é a forma mais visual de se construir a identidade, assim, ornamentos, postura, modificação corporal representam a habilidade de vestir uma “pele social”, construindo uma 235 Alexandre Guida Navarro autoidentificação da sociedade que se define pelos diferentes grupos sociais aos quais os diferentes indivíduos negociam suas identidades (FISHER; LOREN, 2003). Já no Caribe um dos mais importantes estudos sobre as estatuetas é o dos arqueólogos María Magdalena Antczak e Andrzej Antczak (2006), que produziram um volumoso livro sobre esses artefatos. Seus trabalhos de campo no arquipélago de Los Roque, no Caribe venezuelano, proporcionaram a descoberta de uma grande quantidade de estatuetas-chocalho ou ocarinas datadas entre os séculos IX e X EC A forma de figurar o corpo nesses artefatos parece evidenciar a importância do gênero que está bem marcado nos corpos produzidos. A obra de Arroyo et al. (1999) também mostra as estatuetas como uma rede de relações sociopolíticas e econômicas, traços esses observados nas culturas do istmo panamenho e nas amazônicas. Na América do Sul, tanto nas terras altas como nas baixas, o repertório de produção de estatuetas cerâmicas também é extenso. As mais antigas estatuetas pertencem à culturaValdívia (3500 a 1500 a.C.). Foram confeccionadas tanto em pedra quanto em cerâmica. A maioria das ocorrências é do sexo feminino com genitália e seixo à mostra e se destaca a frequente quebra intencional dos artefatos, indicando, segundo Blower (2001), seu uso em rituais domésticos. Já as estatuetas La Tolita, na costa equatoriana e colombiana, estão associadas a cultos em que são representados personagens de 236 Mulheres encantadas e os lagos mágicos prestígio e seres mitológicos. Algumas são antropozoomorfas, possuem o corpo humano em que se destaca um rico peitoral com adornos e com a cabeça de felino, sendo esse animal a metáfora de poder, um atributo bastante conhecido na América pré-colombiana em geral. As estatuetas de Jama-Coaque, no Equador, por sua vez, ostentam pessoas de algum rango que portam uma elaborada indumentária formada por tocados decorados com pássaros e gêneros alimentícios, especialmente as leguminosas, máscaras faciais, peitorais, brincos e adornos para o nariz. A posição sentada em bancos cerimoniais atesta a cena de poder em que os indivíduos são imbuídos. Vale aqui citar um exemplo de figurar o corpo em práticas mortuárias de crenças na vida após a morte. Chamam à atenção as estatuetas de cerâmica femininas e masculinas associadas às cenas de veneração dos ancestrais que predominam entre os Chimus (1000 a 1450 EC) (LAU, 2008). Geralmente os indivíduos representados estão em procissão em direção a uma múmia apresentando-lhe um prisioneiro de guerra que será sacrificado. Tanto na costa como nos Andes setentrionais, centrais e meridionais (i.e Moche; Gallinazco; Nazca) as estatuetas de cerâmica, muitas delas fabricadas em larga escala através de moldes, se apresentam dentro de práticas rituais que legitimam o status quo do poder estatal e definem, também, as identidades que agenciam os mortos esse complexo cultural (BOURGET, 2001; Donnan, 2004). 237 Alexandre Guida Navarro Indo para a costa atlântica, é necessário deter-se nas estatuetas das terras baixas da Venezuela, Suriname e Guianas. Na região do Orinoco, Venezuela, as estatuetas estão presentes nas três fases que definem a sequência cronológica dessa área: Saladoide, Barrancoide e Arauquinoide (CRUXENT; ROUSE, 1982). Grande parte desses artefatos aparece na fase Comoruco (800-1000) e foram estudados por Roosevelt (1980, 1997) na região de Parmana e Corozal. Geralmente esses artefatos são marcados pelo gênero sendo, em sua maioria, femininas com os olhos, narizes e bocas formadas por uma incisão, às vezes há a presenças dos olhos em forma de grãos de café. Nas Guianas a cultura arauquinoide Hertenrits (700 EC) caracterizou-se pela construção de mounds, campos cultivados, comércio de longa distância, cerâmica de tradição Inciso-Ponteada e atividade ritual em que se destacam as estatuetas. Elas são parecidas com as da Venezuela: são mulheres, com o braço fletido na região do abdômen sem o vão entre os braços e o corpo, têm seios, vulva, umbigo, algumas parecem estar grávidas e outras parecem que sofreram decapitação ritual (ROSTAIN, 2008). No Suriname, a maioria das estatuetas é feminina e também pertence à cultura Hertenrits, que, segundo Versteeg (2008) são chocalhos usados em cerimônias religiosas. Percebe-se, portanto, nessa breve incursão que as narrativas construídas sobre as estatuetas são realizadas sobre as ontologias do corpo, sendo que a agenda mais importante nos estudos 238 Mulheres encantadas e os lagos mágicos contemporâneos é a fabricação dos corpos e as identidades sociais por eles produzidas. Aterrissando na Amazônia brasileira Na Amazônia brasileira, quase todos os estudos sobre estatuetas foram feitos exclusivamente por mulheres, indicando uma importante agenda política: Helen C. Palmatary (1950, 1960), Conceição G. Correia (1965), Anna C. Roosevelt (1988, 1991), Denise Schaan (2001a, 2001b, 2009), Denise Gomes (2001, 2019) e Cristiana Barreto (2009, 2014, 2017), centrando-se nas duas sociedades pré- coloniais com maior destaque: Santarém e Marajó. Segundo Palmatary (1950, 1960), as estatuetas santarenas se diferenciam das marajoaras pelo fato de as primeiras serem mais variadas, representando tanto o sexo masculino quanto o feminino, que as femininas não possuem pés sugerindo que estão sentadas e que, quando colocadas de cabeça para baixo, formam uma base em forma de meia lua crescente a extremidade da base pontiaguda. Nas de Marajó, as estatuetas femininas estão agachadas sendo que os joelhos são mais proeminentes e, embora as bases também formem uma meia lua crescente quando colocadas de cabeças para baixo, diferentemente das santarenas, as marajoaras as têm mais arredondadas. No catálogo de estatuetas confeccionado por Conceição Correa (1965), a autora analisa a morfologia e o aspecto decorativos de 119 239 Alexandre Guida Navarro das estatuetas. Destaca que à diferença das peças marajoaras, as estatuetas de Santarém são caracterizadas pelo “realismo da modelagem manifestado na reprodução de posturas e gesto dos personagens que tentavam retratar” (CORREA, 1965, p. 7). Os estudos de Anna C. Roosevelt (1988, 1991) foram inovadores no sentido de que introduzem o conceito de complexidade social às sociedades amazônicas, uma vez que até então essa complexidade era atribuída ao difusionismo andino na região (MEGGERS, 1957). Para essa autora, as estatuetas podem revelar aspectos importantes da organização social e da ideologia das sociedades pretéritas. Destaca-se que a maioria são mulheres ornamentadas e grávidas, com a genitália e seios à mostra, algumas são “eróticas”, possuem forma fálica e a maioria provém de contexto doméstico, refugo ou enterramento. Segundo a autora, esses aspectos exaltam as qualidades de fertilidade e maternidade em sociedades de tipo cacicado ou estados incipientes. Para Schaan (2001) os estudos sobre as estatuetas da Amazônia acompanham a discussão mundial sobre seu ressignificado. Ou seja, esses artefatos não seriam somente exemplos de fertilidade e matriarcado, mas proporcionam uma agência de representação de individualidades dentro de um contexto de desigualdade social. Assim, essa autora propõe que as estatuetas marajoaras “devem ser entendidas como objetos simbólicos relacionados a discursos contextuais sobre 240 Mulheres encantadas e os lagos mágicos identidade social e gênero” (SCHAAN, 2001a, p. 3) ligadas a rituais funerários. Essa posição social de destaque da mulher também foi postulada por Gomes (2001). Baseando-se em registros etnohistóricos, como na obra de Betendorff, essa autora destaca o papel feminino proeminente na sociedade tapajônica, que pôde ter tido uma organização matrilinear. A autora discorre sobre os ornamentos dessas estatuetas, indicando a existência de masculinas também. Assim como Schaan (2001), Gomes pensa que esses artefatos representam indivíduos em sua posição social que são indicados pelo tipo de adereços que usam, assim como os cocares Bororo como distinção de status social. Nesse sentido, a pintura preta aplicada ao corpo, os brincos e adornos capilares formados por pedras verdes de tipo muiraquitã, típicas das sociedades da Tradição Inciso-Ponteada, poderiam indicar “an adolescent female whose eleganted, enlongated, pierced ear lobes perhaps inidicate her status in the community as a member of a prestigiuos lineage” (GOMES, 2001, p. 140). Em recente trabalho, Barreto (2014) analisou 86 estatuetas marajoaras e santarenas procedentes de várias coleções definindo como principal atributo a corporeidade representada nos artefatos. A discussão sobre gênero também é realizada por Barreto que ratifica o estudo anterior de Schaan de que as estatuetas são fálicas com a diferença de que para ela uma estatueta é “um falo humanizado, e não um corpo em forma de falo”(BARRETO, 2014, p. 51) porque uma das primeiras concepções da cadeia operatória é o próprio falo. A 241 Alexandre Guida Navarro autora realizou até mesmo Raio X das peças que evidenciou uma surpresa forma de falo do preenchimento interno de uma estatueta. Cabe ressaltar, por último, as etnografias da produção de estatuetas nas terras baixas da América do Sul (STAHL, 1986) e, sobretudo, ao que diz respeito às bonecas Karajá como referência de transmissão de saberes e não somente brinquedos (CAMPOS, 2002), que, mesmo não estando na Amazônia, contribuem para o amplo significado que esses artefatos tiveram. A fabricação dos corpos na Amazônia: metodologia de estudo Como metodologia de estudo, o enfoque se dá através do conceito etnológico das terras baixas da América do Sul, focado na fabricação dos corpos ou da “social skin” definida por Turner (1980). As artes visuais, nesse sentido, são uma maneira de ordenação das práticas rituais (LAGROU, 2007). Arqueólogos cada vez mais utilizam as teorias antropológicas e a etnografia para ratificarem seus argumentos. Embora aplicar essas teorias etnológicas ao registro arqueológico possa ser interpretado com anacronismo, a agência destes artefatos também pôde desempenhar funções semelhantes no passado, como salientou Barreto (2017). Desse modo, Seeger et al. (1979, p. 2) consideram a corporalidade uma linguagem simbólica em que “a noção de pessoa e uma consideração do lugar do corpo humano na visão que as 242 Mulheres encantadas e os lagos mágicos sociedades indígenas fazem de si mesmas são caminhos básicos para uma compreensão adequada da organização social e cosmologias dessas sociedades”. Nesse sentido, as identidades sociais, assim como as diversas manifestações culturais das sociedades indígenas, como os mitos, cerimônias, ancestralidade, são construídas sobre os seus corpos. Os corpos são instáveis, transformacionais, agenciados, por isso são fabricados. O corpo nesse contexto é constituído como uma diversidade tangível da vida material e imaterial em que o corpo físico “não é a totalidade de corpo; nem o corpo a totalidade da pessoa” (SEEGER et al. 1979, p. 11). O corpo é, portanto, o local da vivência social. Neste sentido, o corpo adquire diversos significados semânticos caracterizados por uma ontologia chamada de multinaturalismo ou perspectivismo por Viveiros de Castro, em que “o mundo é habitado por diferentes espécies de sujeitos ou pessoas, humanas e não humanas que o apreendem segundo pontos de vista distintos” (VIVEIROS DE CASTRO, 2002). Assim, a corporalidade implica na fluidez cosmológica dos seres dependendo da agência a que estão submetidos, sendo eles pessoas, animais, seres sobrenaturais ou coisas. No que tange à aplicação das teorias etnológicas à Arqueologia, os materiais arqueológicos, como os vasilhames e as próprias estatuetas cerâmicas podem ser interpretados como corpos humanos ou de animais, uma vez que muitos deles possuem traços da corporalidade física desses seres, como os olhos e boca, sendo alguns, 243 Alexandre Guida Navarro inclusive, dotados de alma e consciência podendo ser agenciados como pessoas (SANTOS GRANERO, 2012; BARRETO, 2014). Nesse sentido, o corpo é o lugar da experiência vivida, que é compartilhada pelo grupo, gerando identidades sociais, pois “Today, the body as a site of lived experience, a social body, and site of embodied agency, is replacing prior static conceptions of an archaeology of the body as a public, legible surfasse” (JOYCE, 2005, p. 139). Resultados e discussão Os sítios pesquisados que sofreram intervenção a partir de coleta de superfície foram Armíndio (ARM), Boca do Rio (BR), Caboclo (CAB), Lago do Sousa (SOU), Cabeludo (CBL) e Formoso (FOR), localizados na bacia hidrográfica do rio Turiaçu e o último foi encontrado na bacia do Mearim-Pindaré. Todos estes sítios estão datados entre 800 e 1000 AD, sendo o Lago do Souza uma exceção, datado do início da era cristã. Ao todo, portanto, o corpus de estatuetas apresentadas neste artigo corresponde a 74 exemplares, sendo 62 antropomorfos, quatro antropozoomorfos e oito zoomorfos. Com relação à metodologia de coleta de superfície, à medida em que os esteios eram mapeados e georreferenciados, os objetos ao redor dos esteios eram também coletados, para que se formasse uma coleção arqueológica. Desse modo, se poderia estudar a variabilidade artefatual desses 244 Mulheres encantadas e os lagos mágicos assentamentos, buscando criar quadros hipotéticos de ocupação do território, de inserção na paisagem e das formas dos vasilhames cerâmicos, com o intuito de inferir os usos sociais (NAVARRO, 2017, 2018a, 2018b; NAVARRO; SILVA JÚNIOR, 2019) (Figura 3). Figura 3: Coleção de estatuetas do LARQ-UFMA. Acervo LARQ-UFMA. Embora esses artefatos não tenham sido obtidos a partir de escavações estratigráficas, há o controle da procedência e do local exato do registro da planta do sítio, o que pode oferecer subsídios de 245 Alexandre Guida Navarro análise comparativa entre os sítios arqueológicos, por meio das diferenças e das semelhanças da variabilidade desse tipo de artefato. Isso também ocorre na maioria dos casos das coleções de estatuetas estudadas pelos diversos pesquisadores apresentados neste texto, o que, portanto, não impossibilita as análises. Ressalta-se, pelos motivos já descritos, a inviabilidade da descrição de todos os atributos da variabilidade artefatual. Somente aqueles elementos diagnósticos de maior destaque tiveram ênfase neste trabalho. A partir da discussão sobre a arqueologia do corpo, a descrição contemplou: 1) a variabilidade artefatual tecno-estilística de cada conjunto identificável pelo; 2) tipo de manufatura, com alusão ao tipo de queima, se acordelado, alisado, moldado ou modelado, se oco ou compacto; 3) características técnico-tipológicas, como os tipos de antiplásticos, se há presença de incisão e excisão, de pintura e demais elementos constitutivos da peça. A revisão da literatura acerca das estatuetas amazônicas e a análise tecno-tipológica e tecno-estilística das estatuetas das estearias revelam que o corpo parece ter sido um lugar de experimentação social (JOYCE, 2005). A maioria das estatuetas figura o sexo feminino e possui características peculiares no que tange aos aspectos tecno-tipológicos, como os olhos aplicados em forma de botão, a recorrência do rosto zoomorfo de coruja e as panturrilhas deformadas pelo uso de adornos 246 Mulheres encantadas e os lagos mágicos corporais. Chama a atenção a variabilidade desses diferentes modos de fabricação corporal, que podem ser deformados, metamorfizados, escarificados ou, ainda, pintados. Sendo assim, essas características fazem das estatuetas das estearias uma forma inédita de figurar o corpo na porção oriental da Amazônia. Os elementos de figuração corporal que se assemelham aos povos da fase Marajoara parecem pertencer a um conjunto de práticas de sociabilidade compartilhada. Conforme ressaltou Barreto (2014), fluxos estilísticos são decorrentes dessas redes de esferas de interação social. Provavelmente, tanto os povos da fase Marajoara como os das estearias estavam inseridos em redes de sociabilidade comuns, uma vez que também compartilharam objetos de pedras verdes, como os muiraquitãs. Um exemplo deste fluxo estilístico poderia ser o modelado em forma de T, que aparece na região da sobrancelha e do nariz das figurações humanas, recorrente nas estatuetas de urnas funerárias Marajoaras e em alguns exemplares das estearias. Segundo Mikkola (2020), o T seria o disco facial da espécie Pulsatrix perspicillata, ou murucututu, uma das maiores aves de rapina da Amazônia. A sua principal característica corporal em comparação às demais espécies de corujas é a ausência de grandes orelhas. Trata-se de umacoruja de grande porte, predadora de hábitos noturnos, segundo este pesquisador. Observa-se que, neste tipo de estatueta, a figuração das orelhas também está ausente (Navarro, 2020). Assim, 247 Alexandre Guida Navarro essa semelhança entre a cultura material de ambas as regiões se refere às interações sociais existentes entre estes dois povos ameríndios. Além disso, alguns exemplares, como os evidenciados nas estatuetas CBL 104 e ARM1 407 possuem um coque atrás da cabeça que é parecido com aquele usado pelos indivíduos figurados em urnas funerárias Maracá (MEGGERS; EVANS, 1957). Embora mais tardias, a figuração das urnas Maracá pode indicar que os povos das estearias participaram de fluxos estilísticos mais amplos no baixo Amazonas. A análise formal possibilitou fazer as seguintes comparações: as estatuetas antropomorfas representam 83,7% da coleção, geralmente, apresentando mulheres com a figuração do sexo, sendo alguns desses objetos chocalhos. As estatuetas antropozoomorfas correspondem a 5,4% dos exemplares e evidenciam, em geral, o ser humano com cabeça de coruja; e também são chocalhos e nem sempre trazem a representação do sexo. Já os exemplares zoomorfos correspondem a 10,8% da coleção e destacam-se pelas figurações de coruja e macaco. Esta análise propiciou vislumbrar quatro tipos de fabricação do corpo: 1) figuração humana individualizada; 2) figuração humana com pintura corporal, escarificações ou tatuagens e deformações corporais nas pernas pelo uso de adornos do tipo jarreteira; 3) figuração transmutacional do corpo, evidenciada pelo hibridismo corporal entre 248 Mulheres encantadas e os lagos mágicos seres humanos e animais, e capacidade agentiva das estatuetas- chocalho; e 4) figurações zoomorfas. Com relação ao primeiro tipo, as estatuetas com figuração humana que não remetem a características metamorfóricas e agentivas parecem figurar seres individualizados na sociedade palafítica, assim como também constatou Barreto (2014) e Schaan (2001a), com base nas estatuetas marajoaras. Por outro lado, o exemplar FOR (0601) apresenta pintura corporal abstrata em cor preta, que pode se referir a status sociais, como o pertencimento a determinados clãs, aos tipos de rituais ou, ainda, ao pertencimento a grupos sociais específicos (SCHANN, 2001a; MÜLLER, 2000) (Figura 4). Essa forma de figurar o corpo refere-se também a um sistema de comunicação visual que evidencia a socialização dele em práticas culturais de uma determinada coletividade (VIDAL, 2000b). Já em relação ao segundo grupo, chamam a atenção alguns exemplares com uma deformação intencional nas pernas, possivelmente pelo uso de jarreteiras (Figura 5). A partir da comparação etnográfica, durante os rituais da menarca entre os Kalapalo, um grupo Karib, as meninas têm os tendões abaixo do joelho amarrados, provocando o aumento de volume da perna. Formam-se, então, bulbos em suas panturrilhas na fase da puberdade, provocando uma estética agradável para esse grupo indígena (LIMA, 2011). 249 Alexandre Guida Navarro Figuras 4 e 5: Reprodução da pintura corporal do fragmento FOR (061) e jarreteiras presentes nas pernas das estatuetas. Fonte: acervo do LARQ- UFMA. Este modo de figurar o corpo nas sociedades amazônicas é construtivista, como bem lembrou Santos-Granero (2012). Nesse sentido, possivelmente, o significado do conjunto destas estatuetas é o xamânico, assim como pontuaram Roosevelt (1988), Gomes (2001), Schaan (2001a, 2001b) e Barreto (2014, 2017) para as estatuetas amazônicas em geral. Logo, o xamanismo é um “... sistema coherente de creencias y prácticas religiosas, que trata de organizar y explicar las inter-relaciones entre el cosmos, la naturaliza y el hombre” (REICHEL-DOLMATOFF, 1988, p. 23). O xamã, nesse contexto, é quem tem um conhecimento sensível das ações humanas sobre a natureza, como os curandeiros e rezadeiros que, a partir das tradições 250 Mulheres encantadas e os lagos mágicos mitológicas, atuam sobre os cosmos através de danças, cantos e reuniões coletivas, momentos em que essa narrativa se consagra e se perpetua na memória social do grupo. Práticas xamanísticas com estatuetas foram registradas por Basso (1973), entre os grupos Karib e Arawak; para os mesmos grupos, Carneiro (1982) e Gregor (1977) etnografaram o uso de estatuetas para o reestabelecimento da saúde do enfermo. Stahl (1986) atribui a hibridez de seres humanos e animais das estatuetas xamânicas aos rituais com uso de substâncias alucinógenas que presenciou na América do Sul, uma vez que “... the figurines may hav served as mundane abodes for summoned spitits within the contexto of an analogous prehistoric religion” (STAHL, 1986, p. 146). As estatuetas-chocalho, por sua vez, possuem bolotas de argila em seu interior, sugerindo o uso como maracás. Zerries (1981, p. 11) assinala que o maracá sempre foi o instrumento xamânico mais importante nas culturas das terras baixas da América do Sul não andinas, uma vez que “... el ruido de las piedritas o semillas en su interior es interpretado como la voz de los espíritus y las piedras e sí como su manifestación”. O maracá, portanto, faz parte da parafernália xamânica porque é capaz de emitir som, forma de comunicação presente entre os diferentes mundos onde o xamã atua. Esses instrumentos sonoros estão presentes em grande parte dos registros etno-históricos do período colonial na região do Maranhão, a exemplo das obras de Daniel (2004), D’Abbeville (2008 [1614]) e D’Évreux 251 Alexandre Guida Navarro (2007 [1864]), e também foram etnografados por antropólogos do início do século XX (NIMUENDAJÚ, 1941), como observam alguns relatos, por exemplo o que segue, neste caso, entre os Tupi do Maranhão: Para dançar usam apenas a cantoria. Para observar a cadência e marcar o compasso, usam um instrumento ou chocalho chamado maracá; é feito de um fruto pequeno, alongado e semelhante a um melão de tamanho médio, mas inteiramente liso; esse fruto cresce na região, e dentro dele colocam os índios inúmeros grãozinhos pretos e muito duros (D’ABBEVILLE, 2008 [1614], p. 237). Em uma análise feita por meio de microscópio de varredura RAMAN, pôde-se perceber que, dentro da estatueta-coruja correspondente ao exemplar ARM1 454 foram colocadas sete pequenas bolotas de argila dentro de sua cabeça (Figura 6). Chama a atenção a forma de confecção do artefato. Obedecendo à tecnologia de modelado empregada, a colocação das bolotas de argila na cabeça do exemplar deveria ter ocorrido através da base da cabeça, que depois seria fechada. Mas a microscopia de varredura RAMAN mostrou que as bolotas foram introduzidas pela boca, após a base da cabeça ter sido selada. Por que a boca? Entende-se que esse processo não obedeceu à tecnologia esperada, e sim ao cognitivo, cuja boca é uma das expressões do poder xamânico, um tubo sinestésico por onde a energia viaja. Desse modo, o poder de cura se dá também pela fala do xamã. Nesse sentido, sobre os pajés no Maranhão colonial, D’Évreux (2007 [1864], p. 237) relatou que “. . . seu instrumento é somente a voz, tão estranha aos que não estão acostumados”. 252 Mulheres encantadas e os lagos mágicos Figura 6: Análise com RAMAN em estatueta evidenciando bolotas de argila em seu interior, colocadas pela boca. Acervo LARQ-UFMA. Conclusão Este texto apresentou uma análise das estatuetas das estearias maranhenses. A análise tecno-tipológica e os modos de fabricar o corpo das estatuetas dos povos das estearias revelaram uma história de longa duração, que começa no início da era cristã e se estende até o ano 1000. A partir de uma perspectiva arqueológica regional, apesar da semelhança com o modo de figurar estatuetas com os povos da fase Marajoara, aquelas das palafitas parecem constituir um estilo mais local e próprio. Nesse sentido, alguns