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INTRODUÇÃO GERAL À FILOSOFIA AULA 3 Prof. Robson Stigar 2 CONVERSA INICIAL Olá, estudante! Neste encontro, vamos conhecer as áreas da filosofia que se relacionam diretamente com a produção do conhecimento. Em especial, vamos abordar os objetos de investigação relacionados à Epistemologia, à Metafísica, à Antropologia e à Lógica. TEMA 1 – SOBRE AS ÁREAS DA INVESTIGAÇÃO FILOSÓFICA LIGADAS AO CONHECIMENTO Como vimos anteriormente, a filosofia é uma área do conhecimento que visa refletir e analisar a realidade, buscando compreendê-la, a fim de expressar o que ela é, ou está sendo. Sob essa ótica, vimos também que o ato de filosofar é por si uma preocupação com o conhecimento, cujas características são a radicalidade, o rigor e a sistematicidade. Assim, o problema do conhecimento está presente em toda a reflexão filosófica. Mas como podemos definir o conhecimento? Segundo Japiassú e Marcondes (2006, p. 53), o conhecimento pode ser definido de duas formas: Função ou ato da vida psíquica que tem por efeito tornar um objeto presente aos sentidos ou à inteligência. [e/ou como] Apropriação intelectual de determinado campo empírico ou ideal de dados, tendo em vista dominá-los e utilizá-los. O termo conhecimento [,portanto,] indica tanto a coisa conhecida quanto ato de conhecer (subjetivo) e o fato de conhecer. Sob esse aspecto, as diversas teorias filosóficas apresentam formas de se adquirir o conhecimento, como o conhecimento adquirido. No primeiro caso, apresenta-se o método por meio do qual busca-se conhecer. O método deve ser entendido como “o conjunto de procedimentos racionais, baseados em regras, que visam atingir um objetivo determinado” (Japiassú; Marcondes, 2005, p. 187). Diferentes pensadores desenvolveram diferentes métodos de conhecimento, ou seja, partiam de princípios diversos sobre o estabelecimento de regras que viabilizariam conclusões verdadeiras sobre a realidade. Se formos impetrar um esforço para delimitar quais são os métodos mais utilizados, na história da filosofia, podemos destacar sete. 3 Quadro 1 – Métodos de conhecimento MÉTODO ABORDAGEM Método axiomático “O que emprega a formalização e utiliza os recursos da lógica formal para derivar a verdade que pretende estabelecer a partir de uma relação de termos primitivos e de um conjunto de axiomas [afirmações sobre a verdade] que servem de ponto de partida para a demonstração” (Japiassú; Marcondes, 2005, p. 187). Método hipotético- dedutivo “Método científico através do qual se constrói uma teoria que formula hipóteses a partir das quais resultados obtidos podem ser deduzidos, e com base nas quais se podem fazer previsões que, por sua vez, podem ser confirmadas ou refutadas” (Japiassú; Marcondes, 2005, p. 187). Método indutivo “Aqueles segundo o qual uma lei geral é estabelecida a partir da observação e repetição de regularidades em casos particulares. Embora o método indutivo não permita o estabelecimento da verdade em sua conclusão, em caráter definitivo fornece, no entanto, razões para a sua aceitação, que se tornam mais seguras quanto maior o número de observações realizadas. A indução é assim essencialmente probabilística” (Japiassú; Marcondes, 2005, p. 187). Método dialético “Na concepção clássica, sobretudo na interpretação platônica da filosofia socrática, o método dialético é aquele que procede pela refutação das opiniões do senso comum, levando-as à contradição, para chegar então à verdade”. Na filosofia marxista dialética, passa a ser compreendida a partir da “realidade socioeconômica de determinada época como um todo articulado, atravessado por contradições, entre as quais a luta de classes […] a dialética se converte no método do materialismo histórico” (Japiassú; Marcondes, 2005, p. 187. 74). Método de análise- síntese “Toma como ponto de partida o que se busca, procurando então estabelecer sua verdade, no que consiste e quais suas características. A análise é a decomposição do todo em suas partes constitutivas para examiná-las. Procede-se, assim, do complexo para o simples. A síntese é a reunião dessas partes para formar o todo, tendo-se esclarecido seu modo de constituição” (Japiassú; Marcondes, 2005, p. 187). Método experimental “Aquele que tem por base a realização de experimentos para o estabelecimento de teorias científicas, procedendo através da observação, da formulação de hipóteses e da verificação ou confirmação das hipóteses a partir de experimentos” (Japiassú; Marcondes, 2005, p. 187). Método Hermenêutico Fundamenta-se no processo interpretativo tanto de textos quanto de realidades, esse deve relacionar-se “às formas da cultura, no curso da história, [que] devem ser apreendidas através da experiência íntima de um sujeito […] contemplando uma reflexão compreensiva sobre os símbolos e os mitos em geral” (Japiassú; Marcondes, 2005, p. 130). Fonte: Japiassú; Marcondes, 2005. 4 No que se refere ao conhecimento adquirido, as teorias de filósofos têm por base alguns conceitos que fundamentam toda a estrutura reflexiva do autor, ou conjunto de autores. Toda a reflexão e todo o saber relacionado a uma determinada área relacionam-se aos princípios basilares da teoria do conhecimento. Tomemos, por exemplo, a teoria de Aristóteles. Como vimos anteriormente, esse pensador compreendia que toda a realidade era composta por uma substância essencial que a caracterizava como única. Também compreendida que essa substância poderia estar permeada pelo que ele denomina de acidente, características secundárias que não interferem no processo de conhecimento da realidade. Dessa forma, a busca pelo conhecimento estava voltada para a compreensão de cada um dos seres que se apresentavam ao ser humano. Tais princípios balizares estão presentes em todas as abordagens reflexivas de Aristóteles. No campo da ciência, afirma que a busca da verdade se dá pelo conhecimento categorizado, na qual os aspectos substanciais permitem relacionar os seres por meio de suas similaridades. No campo da ética, ele busca compreender como as ações humanas precisam estar alinhadas com a coerência de cada uma das situações. Quando ele fala da estética, busca analisar a forma como cada uma das realidades concretas expressa beleza, e principalmente como essa é única para cada ser. Dessa forma, percebemos que cada uma das teorias filosóficas contempla em si tanto um método quanto conhecimentos elaborados a partir da aplicação desse, e que fundamentam as diversas reflexões que são realizadas. No campo de estudo da filosofia, esses aspectos são divididos em disciplinas, ou seja, em conjuntos teóricos que possuem similaridades frente ao método, mas principalmente frente ao objeto estudado. Nesta aula, vamos conhecer as disciplinas filosóficas que versam sobre o conhecimento. TEMA 2 – ESPITEMOLOGIA A palavra epistemologia vem do grego e é composta por dois radicais: epistemé e logos. O primeiro se refere ao conhecimento verdadeiro ou que mais se aproxima da verdade. É compreendido em relação à doxa, tipo de conhecimento que não tem pressupostos claros, que é expresso de forma equivocada e que não promove o desenvolvimento do saber. A epistemé também pode ser compreendida como um paradigma no qual determinados 5 saberes são estruturados. A convergência entre esses saberes é possível, pois eles têm objetos de estudo, características, métodos e pressupostos semelhantes. O radical logos, por sua vez, pode possuir vários sentidos, mas nesse caso em específico, ele indica uma teoria sobre algo, ou seja, “um modelo explicativo de um fenômeno que pretende estabelecer a verdade sobre os mesmos, ou ainda determinar sua natureza” (Japiassú; Marcondes, 2005, p. 266). Dessa forma, podemos compreender que a epistemologia é a disciplina da filosofia que estrutura as explicaçõesacerca do processo de desenvolvimento conhecimento e das relações que esses possuem entre si. Essa definição pode parecer muito ampla. Entretanto, é importante destacar que o conhecimento próprio da epistemologia é o científico, já que surge enquanto disciplina no século XIX, buscando analisar os fundamentos das ciências, tanto para validá-las quanto para questioná-los. Saiba mais A ciência é a “modalidade de saber constituída por um conjunto de aquisições intelectuais que tem por finalidade propor uma explicação racional e objetiva da realidade. Mais precisamente ainda: é a forma de conhecimentos que não somente pretende apropriar-se do real para explicá-lo de modo racional e objetivo, mas procura estabelecer entre os fenômenos observados relações universais e necessárias, o que autoriza a previsão de resultados (efeitos) cujas causas podem ser detectadas mediante procedimentos de controle experimental” (Japiassú; Marcondes, 2006, p. 44). Sob essa ótica, três são os campos de atuação da epistemologia: a crítica ao conhecimento científico (incluindo os aspectos teóricos, éticos e morais), a filosofia da ciência (incluindo as reflexões sobre o método científico) e a história das ciências (contemplado a análise estrutural do surgimento e desenvolvimento delas). Como afirma Japiassú e Marcondes (2006, p. 88), Seu problema central, e que define seu estatuto geral, consiste em estabelecer se o conhecimento poderá ser reduzido a um puro registro, pelo sujeito, dos dados já anteriormente organizados independentemente dele no mundo exterior, ou se o sujeito poderá intervir ativamente no conhecimento dos objetos. Em outras palavras, ela se interessa pelo problema do crescimento dos conhecimentos científicos. Por isso, podemos defini-la como a disciplina que toma por objeto não mais a ciência verdadeira de que deveríamos estabelecer as condições de possibilidade ou os títulos de legitimidade, mas as 6 ciências em via de se fazerem, em seu processo de gênese, de formação e de estruturação progressiva. No século XX é que as principais teorias filosóficas sobre a ciência foram desenvolvidas, sendo que um grupo de pensadores específico foi responsável por tais teorias (Quadro 2). Quadro 2 – Teorias filosóficas Círculo de Viena “Associação fundada na década de 1920 por um grupo de lógicos e filósofos da ciência, tendo por objetivo fundamental chegar a uma unificação do saber científico pela eliminação dos conteúdos vazios de sentido e dos pseudoproblemas da metafísica e pelo emprego do critério de verificabilidade” (Japiassú; Marcondes; 2006, p. 46). Karl Popper (1902-1994) “Um dos mais influentes filósofos da ciência contemporânea, nasceu e estudou em Viena, exilando-se após a ascensão do nazismo, na Nova Zelândia, de onde transferiu-se para a Inglaterra onde passou a viver. […] Inicialmente influenciado pela filosofia do Círculo de Viena, Popper desenvolveu, no entanto, uma concepção própria da lógica e da metodologia da ciência. Sua principal contribuição consiste na formulação da noção de falseabilidade como critério fundamental para a caracterização das teorias científicas” (Japiassú; Marcondes, 2006, p. 221). Gaston Bachelard (1884-1962) “Filósofo e ensaísta francês, espírito de grande erudição e extraordinária agilidade intelectual, considerado o pai da epistemologia. […] O pensamento de Bachelard é duplamente revolucionário: no campo epistemológico, instaura uma filosofia da descoberta científica […] que toma a polêmica e a dúvida como método de trabalho; […] O novo racionalismo se constrói instaurando uma ruptura entre o conhecimento comum e o conhecimento científico […] Para um espírito científico, todo conhecimento é uma resposta a uma questão. Se não há questão, não pode haver conhecimento científico. Porque nada é dado. Tudo é construído” (Japiassú; Marcondes, 2006, p. 25). Thomas Kuhn (1922-1996) “Filósofo norte-americano, professor de história das ciências. […] Sua preocupação fundamental consiste em explicar a evolução da ciência pelo jogo de relações sociais no interior do meio científico: a ciência progride quando os cientistas são treinados numa tradição intelectual comum e a utilizam para resolver problemas que ela suscita. Para ele, uma ciência madura é essencialmente uma sucessão de tradições, cada uma tendo sua própria teoria e seus próprios métodos de pesquisa e guiando a comunidade científica durante certo tempo antes de ser abandonada. Daí o conceito de que a ciência se desenvolve por meio de um paradigma aceito pelo conjunto dos pesquisadores e defendido enquanto não for abalado por uma revolução” (Japiassú; Marcondes, 2006, p. 161). Fonte: Japiassú; Marcondes, 2005. 7 Cada um desses pensadores (ou grupo de pensadores) desenvolveu uma teoria epistemológica sobre a ciência que é considerada como base para o desenvolvimento da prática científica. O Círculo de Viena desenvolveu o critério de verificabilidade. Esse pautava-se na preocupação em possibilitar a ciência um discurso neutro, no qual a clareza e a precisão do discurso são alguns dos elementos que permite verificar se um determinado saber é verdadeiro ou fruto da interpretação. “As proposições fatuais são, pois, o fundamento de todo saber, […] Essas proposições estão no início da ciência. O conhecimento começa com a constatação dos fatos” (Schlick, 1995, p. 44). Dessa forma, o saber científico só pode ser considerado como tal se passar pela verificabilidade empírica dos fatos estudados. De outro, Karl Popper estabeleceu uma crítica a teoria da verificabilidade, apresentando que o saber científico não é absoluto, ele é modificado com o tempo, pois pelo exercício investigativo o ser humano vai compreendendo a realidade de forma cada vez mais complexa. Assim, o critério para aceitar uma afirmação científica não é apenas demonstrar sua verificabilidade, mas sim que ela não pode, no momento, ser refutada, ser falseada. Para Popper, uma teoria é válida transitoriamente, até que outra se demonstre mais apropriada, pois “do ponto de vista lógico, não é nada óbvio que se justifique inferir assertivas universais a partir de assertivas singulares, por mais numerosas que sejam estas últimas” (Reale; Antiseri, 1991, p. 1022). Dessa maneira, a ciência é composta de teorias que são conjecturas frente à realidade, compostas de pressupostos, saberes e teorias que o cientista traz consigo. “Com efeito, qualquer conclusão tirada desse modo sempre pode se revelar falsa: por mais numerosos que seja os casos de cisnes brancos que possamos ter observado, isso não justifica a conclusão de que todos os cisnes são brancos” (Reale; Antiseri, 1991, p. 1022). A compreensão de que a ciência não produz conhecimentos neutros também é defendida por Bachelard. Entretanto, isso não se dá apenas por um caráter epistêmico, como em Popper, mas a partir da compreensão de que a atividade científica é um processo inserido na história, e é permeada por elementos socioculturais. Dessa forma, não podemos compreender a mesma a partir de um caráter linear e progressivo de evolução. A ciência relaciona-se à investigação frente às questões da vida, e ela progride a partir do ensejo de dar respostas até agora não encontradas. Para isso, novos pressupostos devem ser elaborados, rompendo-se com elaborações epistemológicas já realizadas. 8 Comungando com essa percepção da ciência, Kuhn afirma que se contemplarmos a história da ciência, vamos perceber em diferentes tempos encontramos modelos teóricos, metodológicos e objetos de conhecimento comumente aceitos pela comunidade científica. Esses foram mudando progressivamente, frente à sua impossibilidade de resposta à realidade e às necessidades históricas e sociais. Dessa forma, a ciência foi desenvolvida a partir de paradigmas, que sofriam revoluções científicas, momentos que os elementos teóricos emetodológicos de explicação da realidade entram em colapso, e é necessária a elaboração de novos princípios. Dessa forma, podemos afirmar que a epistemologia é uma disciplina da filosofia que se dedica, a partir da história das ciências, tanto a crítica do conhecimento científico, quanto ao desenvolvimento de teorias relacionadas a estruturação desse saber. TEMA 3 – METAFÍSICA Uma outra disciplina da filosofia que trata de questões relacionadas ao conhecimento é a metafísica, que etimologicamente é composta por dois radicais gregos: meta e physis. O primeiro indica a característica de algo que está além da realidade, que a supera ou ainda que a transcende. Isso não significa que não tenha conexão intrínseca com a realidade, mas que sua relação com ela é deveras substancial, que não pode ser reduzida a realidade em si. O termo physis pode ser entendido de forma primária como aquilo que diz respeito à física, ou seja, a toda a realidade que pode ser relacionada com a natureza observável pelos cinco sentidos. Entretanto, a physis não é em si apenas uma realidade; ela é acima de tudo uma força vital que viabiliza não apenas a existência, mas a manutenção desta. Dessa forma, podemos compreender que a metafísica é a disciplina filosófica que se dedica a estudar aquilo que está além da realidade sensível, cuja natureza e função está relacionada ao que a transcende. O termo metafísica foi cunhado no século I a.C., quando o principal organizador da obra de Aristóteles, Andronico de Rodes, reuniu uma série de escritos aristotélicos sobre esse título, pois eles versavam sobre elementos que transcende a realidade concreta. 9 Saiba mais A obra Metafísica, de Aristóteles, é um conjunto de 12 tratados nos quais se “discute o problema do conhecimento e a noção de filosofia, introduzindo e conceituando algumas das noções mais centrais da filosofia como substância, essência e acidente, necessidade e contingência” (Japiassú; Marcondes, 2006, p. 186). Para Russ (2015, p. 40), “a Metafísica, enquanto sistematização de todas as categorias e noções que hão de orientar a filosofia ocidental, é uma importante obra na história das ideias, tanto mais que ela constitui um admirável tratados de definições, além de uma listagem dos princípios primeiros que organizam o conhecimento”. No que tange às abordagens dadas à metafísica ao longo da história, elas sempre estiveram relacionadas aos paradigmas dos tempos. Entretanto, apesar de que em alguns momentos as posturas teóricas fossem contrárias ao método e objeto metafísico, a importância dessa disciplina nunca foi negada. Quadro 3 – Tradições filosóficas Tradição clássica A metafísica era considerada a abordagem central da filosofia, sendo nominada de filosofia primeira, a partir da qual são desenvolvidos todos os sistemas e reflexões teológicas. É considerada como pressuposto fundamental, pois examina as causas primeiras e toda a doutrina sobre o ser em sua essência, e não por meio de suas características particulares. Tradição Escolástica A metafísica continua sendo considerada como filosofia primeira, e devido à influência da teologia cristã, seu estudo se aprofunda, de forma a possuir quatro campos específicos de reflexão. Como afirma Japiassú e Marcondes (2006, p. 186): “temos a distinção entre a metafísica geral, a ontologia propriamente dita, que examina o conceito geral de ser a realidade em seu sentido transcendente; e a metafísica especial, que trata dos domínios específicos do real e que subdivide-se, por sua vez, em cosmologia, ou filosofia natural — o tratado do mundo e da essência da realidade material; psicologia racional, ou tratado da alma, de sua natureza e propriedades; e teologia raciona ou natural, que trata do conhecimento de Deus e das provas de sua existência através da razão humana”. Tradição Moderna Na modernidade, a metafísica deixa de ocupar um lugar central no pensamento filosófico. A ênfase na racionalidade do sujeito e no conhecimento empírico promove uma secundarização de toda a reflexão ontológica, principalmente a relacionada à fé. É importante destacarmos que esse cenário teórico não refuta o desenvolvimento do pensamento metafísico, mas apresenta que o mesmo não pode ser princípio, ou ainda pressuposto para a 10 geração do conhecimento. Um dos pensadores que estabelece essa posição é Kant, que em sua obra A Crítica da Razão Pura, apresenta que no âmbito da racionalidade, o objeto próprio da metafísica não pode ser apreendido, não pode ser conhecido. A razão se limita a conhecer o que pode ser abstraído pelos cinco sentidos, e toda a reflexão sobre a essência da realidade é uma especulação. Entretanto, sob esse aspecto, Kant destaca que pela natureza própria do ser humano essa atitude é inevitável. Tradição Contemporânea A partir de fins do século XIX, o movimento da neoescolástica, inicia um processo de resgate da reflexão filosófica adaptando os elementos da escolástica para a realidade pós era industrial. Atualmente, a metafísica tem sido objeto de estudo de várias correntes filosóficas, entretanto, ela não é tomada como método ou como princípio, mas como abordagem para investigar questões relacionadas à ciência e à organização social, principalmente no que tange reflexões que versam sobre a constituição humana. TEMA 4 – ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA A antropologia é uma área do conhecimento que busca estudar as diversas formas pelas quais o ser humano pode ser compreendido. O termo tem origem em dois radicais gregos: antropos e logos. O primeiro designa o ser humano; e o segundo, como já vimos, indica o estudo ou a teoria acerca de algo. Assim, podemos afirmar que a antropologia tem como objeto de estudo o ser humano. Entretanto, a dimensão estudada muda conforme o enfoque que se dá. Existem vários tipos de antropologias, que podem ser didaticamente sintetizadas em três (Quadro 4). Quadro 4 – Tipos de antropologia Antropologia física Dedica-se a compreender o ser humano a partir das ciências naturais, identificando nesses características físicas e de adaptação ao meio. Antropologia cultural Compreende o ser humano como um ser inserido em um contexto cultural, com valores, conhecimentos, crenças e práticas próprios. A partir do contexto da cultura, a antropologia busca analisar a forma como são estruturadas as relações, como são construídos os valores e de que maneira isso impacta na no comportamento das pessoas. É importante destacar que a antropologia cultural não busca estabelecer relações entre as culturas, mas sim compreender como essas culturas impactam na vida dos seres humanos. Antropologia filosófica Busca compreender o ser humano, animal racional, a partir das diversas teorias filosóficas. Em cada pensador, em cada tempo histórico, em cada corrente filosófica, o ser humano é concebido de formas diferentes, que 11 podem ser didaticamente divididas em: “antropologia teórica: que é o conhecimento do homem em gral e de suas faculdades; antropologia pragmática, que é o conhecimento do ser humano centrado em tudo aquilo que pode ampliar sua habilidade; antropologia moral, que é o conhecimento do homem centrado naquilo que deve produzir a sabedoria na vida” (Japiassú; Marcondes, 2006, p. 13). Dessa forma, a antropologia, no contexto da filosofia, busca compreender o ser humano em sua totalidade. Destacamos que, principalmente a partir do século XIX, a antropologia filosófica desloca-se de uma análise puramente racional do ser humano. Esse passa a ser compreendido também como fonte de vontade e querer, no qual a força afirmadora ou negadora da vida possibilita a significação da realidade e, consequentemente, a escolha de valores e comportamentos. TEMA 5 – LÓGICA Por fim, uma das disciplinas da filosofia que versa sobre a estruturação do conhecimento humano é a lógica. Esse termo provémdo grego logos, que, como já vimos, possui vários sentidos. Entretanto, nesse caso específico, significa a racionalidade posta em movimento, ou seja, a prática de tornar o pensamento mais claro e objetivo a fim de que as afirmações acerca das diferentes realidades ou a expressão de conceitos possa ser compreensível a todos. Dessa forma, podemos salientar que a lógica possui outro objeto a elaboração de argumentos precisos. Como afirma Aranha e Martins (2009, p. 131), “o estudo da lógica serve para organizar as ideias de modo mais rigoroso, para que não nos enganemos em nossas conclusões”. Dessa forma, a lógica é entendida como uma disciplina que nos ajudar a melhor desenvolver nossas reflexões, pois ela constitui: • o estudo dos métodos e princípios da argumentação; • a investigação das condições em que a conclusão de um argumento se segue necessariamente de enunciados iniciais; • o estudo que estabelece as regras da forma correta das operações do pensamento e identifica as argumentações válidas (Aranha; Martins, 2009, p. 131). 12 Na história da filosofia, muitas foram as maneiras de conceber o método, a abordagem e a finalidade do estudo da lógica. Essas maneiras podem ser, didaticamente, sintetizadas em três (Quadro 5). Quadro 5 – Maneiras lógicas A Lógica como a ciência do real As categorias e os princípios da lógica refletem de forma direta as categorias e os princípios ontológicos. “Seriam, portanto, derivados da própria natureza e estrutura do real. Esta é essencialmente a concepção aristotélica, que predomina em grande parte do pensamento antigo e medieval” (Japiassú; Marcondes, 2006, p. 171). A lógica como ciência do pensamento “As categorias e os princípios lógicos refletiriam a estrutura e o modo de operar de nosso pensamento, especificamente de nosso raciocínio dedutivo; seriam o resultado da explicitação e sistematização dessas categorias e princípios” (Japiassú; Marcondes, 2006, p. 171). A lógica como ciência da linguagem “É a ciência das linguagens formais e das categorias e princípios que utilizamos para a construção de sistemas formais, para operar com esses sistemas e para fundamentar sua validade” (Japiassú; Marcondes, 2006, p. 171). Essas três maneiras gerais de compreender a lógica permitem afirmar que essa disciplina filosófica tem fundamental importância para a estruturação e a validação dos argumentos. De outro, também permitem afirmar que não existe uma única abordagem da lógica, mas sim lógicas, que sempre se correlacionam com a necessidade de impor um rigor ao pensamento filosófico. Na história da filosofia, há uma variedade de teorias lógicas (Quadro 6). Quadro 6 – Teorias lógicas Lógica formal ou lógica aristotélica “Consiste em uma investigação das categorias e princípios através dos quais pensamos sobre as coisas, do ponto de vista apenas da estrutura formal, desse pensamento, abstração feita de seu conteúdo. Divide-se em lógica do conceito, ou seja, dos termos ou categorias que usamos; lógica das proposições, ou seja do modo como formamos nossos juízos relacionando os conceitos e expressando-os em proposições; e uma lógica do raciocínio, ou do silogismo, que examina como relacionamos inferencialmente as proposições para delas extrair conclusões” (Japiassú; Marcondes, 2006, p. 171). Lógica Matemática “Consiste em uma construção de um sistema formal, dedutivo, axiomático, aplicando essencialmente os princípios de uma linguagem algébrica à lógica formal […] Assim, não só na lógica matemática é possível expressar relações e sistematizar formas de raciocínio inexistentes na lógica aristotélica, como também a própria 13 forma de operar como o sistema e fazer demonstrações se torna mais precisa e rigorosa através do uso do simbolismo matemático” (Japiassú; Marcondes, 2006, p. 171). Lógica modal “Trata-se do sistema lógico que leva em conta não só as inferências entre sentenças declarativas, do tipo ‘S é P’ [como é feito na lógica formal], mas também entre sentenças que expressam modalidade, isto é, relações de necessidades, possibilidade e impossibilidade entre ‘S’ e ‘P’” (Japiassú; Marcondes, 2006, p. 171). Lógicas não clássicas “Sistemas formais desenvolvidos na lógica matemática contemporânea […] que levam em conta as noções como obrigação, permissão, dever na relação entre sentenças; ou que são polivalentes, trabalhando não só com os valores verdadeiro e falso […] mas também o necessariamente verdadeiro, o necessariamente falso, ou ainda o indeterminado” (Japiassú; Marcondes, 2006, p. 171). Sob essa ótica, podemos perceber que a lógica é a disciplina filosófica que busca garantir o rigor da reflexão. Pois, “quando um enunciado é feito, duas questões importantes podem ser imediatamente colocadas: De que maneira chegou a ser concebido? Que razões existem para aceitá-lo como verdadeiro?” (Salmon, 1987, p. 24). Essas, apesar de serem questões complementares, não podem ser fundidas, pois no âmbito da lógica se refere a duas posturas diferentes. A primeira relaciona-se ao ato de descoberta, quanto se tem a noção de como determinada realidade pode se tornar um fato. A segunda, por sua vez, indaga sobre a veracidade de tal descoberta, ou seja, busca encontrar elementos que a justifiquem. NA PRÁTICA A filosofia é uma das áreas do saber que se atém à elaboração de reflexões e análises que permitam o desenvolvimento de um conhecimento radical, rigoroso e sistemático. Dentre as suas disciplinas, encontramos várias que estão voltadas a garantir que essa finalidade seja alcançada. A partir dos estudos que realizamos nesta aula, busque identificar quais dessas disciplinas você utiliza (de forma sistemática ou não) em seu cotidiano para buscar compreender a realidade que lhe cerca. FINALIZANDO Nesta aula, nós buscamos conhecer as disciplinas filosóficas que estão diretamente relacionadas ao processo de produção do conhecimento. Vimos 14 que, para tal, o método é um requisito fundamental, e que dessa forma perpassa toda a análise filosófica. No que diz respeito à epistemologia, vimos que é uma área que se preocupa com a análise acerca das ciências, não apenas de sua atuação, mas principalmente sobre sua natureza, e a veracidade de suas afirmações. A metafísica, por sua vez, é a área do conhecimento que se detém a analisar as realidades que transcendem o que é perceptível pelos sentidos. A antropologia aborda as questões relacionadas ao ser humano, mais especificamente a abordagem filosófica busca compreendê-lo a partir de uma perspectiva teórica, pragmática e moral. Por fim, a lógica é a disciplina filosófica que objetiva garantir que os argumentos que compõem as diversas teorias possam ser estruturados de forma clara e justificada. 15 REFERÊNCIAS ARANHA, M. L. A.; MARTINS, M. H. P. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 2009. JAPIASSÚ, H.; MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. REALE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia: do Romantismo até nossos dias. São Paulo: Paulinas, 1991. v. 3. RUSS, J. Filosofia: os autores, as obras. Petrópolis: Vozes, 2015. SCHLICK, M. O fundamento do conhecimento. São Paulo: Abril Cultural, 1975. CONVERSA INICIAL TEMA 1 – SOBRE AS ÁREAS DA INVESTIGAÇÃO FILOSÓFICA LIGADAS AO CONHECIMENTO TEMA 2 – ESPITEMOLOGIA TEMA 3 – METAFÍSICA TEMA 4 – ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA TEMA 5 – LÓGICA NA PRÁTICA FINALIZANDO REFERÊNCIAS