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Programa Mais Médicos para o Brasil 2ª edição EIXO 2 | FERRAMENTAS DA MEDICINA DE FAMÍLIA E COMUNIDADE Abordagem familiar MÓDULO 06 Programa Mais Médicos para o Brasil EIXO 2 | FERRAMENTAS DA MEDICINA DE FAMÍLIA E COMUNIDADE Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) 2023 Abordagem familiar MÓDULO 06 2ª edição Instituições patrocinadoras: Ministério da Saúde Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) Secretaria-Executiva da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Núcleo de Educação em Saúde Coletiva (Nescon) Universidade Aberta do SUS da Universidade Federal de Minas Gerais (UNA-SUS/UFMG) Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) B823a Brasil. Ministério da Saúde. Abordagem familiar [módulo 6 / Ministério da Saúde, Universidade Federal de Minas Gerais. - 2. ed. - Brasília : Fundação Oswaldo Cruz, 2023. Inclui referências. 110 p. : il., tabs. (Projeto Mais Médicos para o Brasil. Ferramentas da medicina da família e comunidade ; 2). ISBN: 978-65-84901-43-8 1. Composição Familiar. 2. Medicina de família. 3. Sistema Único de Saúde. 4. UNA-SUS. I. Título II. Universidade Federal de Minas Gerais. III. Série. CDU 610 Bibliotecária: Juliana Araujo Gomes de Sousa | CRB1 3349 Ficha Técnica © 2023. Ministério da Saúde. Sistema Universidade Aberta do SUS. Fundação Oswaldo Cruz. Universidade Federal de São Paulo. Alguns direitos reservados. É permitida a reprodução, disseminação e utilização dessa obra, em parte ou em sua totalidade, nos termos da licença para usuário final do Acervo de Recursos Educacionais em Saúde (ARES). Deve ser citada a fonte e é vedada a sua utilização comercial. Referência bibliográfica MINISTÉRIO DA SAÚDE. UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Abordagem familiar [módulo 6]. 2. ed. In: MINISTÉRIO DA SAÚDE. Projeto Mais Médicos para o Brasil. Eixo 2: ferramentas da medicina de família e comunidade. Brasília: Ministério da saúde, 2023. 110 p. Ministério da Saúde Nísia Trindade Lima | Ministra Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) Nésio Fernandes de Medeiros Junior| Secretário Departamento de Saúde da Família (DESF) Ana Luiza Ferreira Rodrigues Caldas| Diretora Coordenação Geral de Provimento Profissional (CGPROP) Wellington Mendes Carvalho | Coordenador Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Mario Moreira | Presidente Secretaria-executiva da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) Maria Fabiana Damásio Passos | Secretária-executiva Coordenação de Monitoramento e Avaliação de Projetos e Programas (UNA-SUS) Alysson Feliciano Lemos | Coordenador Assessoria de Planejamento (UNA-SUS) Aline Santos Jacob Assessoria Pedagógica (UNA-SUS) Márcia Regina Luz Sara Shirley Belo Lança Revisor Técnico-Científico UNA-SUS Paula Zeni Miessa Lawall Rodrigo Luciano Bandeira de Lima Rodrigo Pastor Alves Pereira Universidade Federal de Minas Gerais Sandra Goulart Almeida | Reitora Alessandro Fernandes Moreira | Vice – Reitor Faculdade de Medicina Humberto José Alves | Diretor Alamanda Kfoury Pereira | Vice – Diretora Núcleo de Educação em Saúde Coletiva – Nescon/UFMG Francisco Eduardo de Campos| Diretor Edison José Correa | Vice – Diretor Coordenação da UNA-SUS/Universidade Federal de Minas Gerais (EAD-UFMG) Edison José Correa | Coordenador Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Secretaria editorial / Núcleo de Educação em Saúde Coletiva Nescon / UNA-SUS/UFMG: (http://www.nescon.medicina.ufmg.br) Faculdade de Medicina /Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG Av. Alfredo Balena, 190 – 7º andar CEP 30.130-100 Belo Horizonte – MG – Brasil Tel.: (55 31) 3409-9673 Fax: (55 31) 3409-9675 Site: www.nescon.medicina.ufmg.br Créditos Revisor Técnico-Científico UNA-SUS Debora Carvalho Ferreira Paula Zeni Miessa Lawall Rodrigo Pastor Alves Pereira Rodrigo Luciano Bandeira de Lima Designer Gráfico UNA-SUS Claudia Schirmbeck Apoio Técnico UNA-SUS Acervo de Recursos Educacionais em Saúde (ARES) – UNA-SUS Fhillipe de Freitas Campos Juliana Araujo Gomes de Sousa Tainá Batista de Assis Engenheiro de Software UNA-SUS José Rodrigo Balzan Onivaldo Rosa Júnior Desenvolvedor de Moodle UNA-SUS Claudio Monteiro Jaqueline de Carvalho Queiroz Josué de Lacerda Luciana Dantas Soares Alves Lino Vaz Moniz Márcio Batista da Silva Rodrigo Mady da Silva Coordenador Geral da UNA-SUS/UFMG Edison José Correa Coordenador Acadêmico UNA-SUS/UFMG Raphael Augusto Teixeira de Aguiar Coordenador de Produção Pedagógica UNA-SUS/UFMG Marcelo Pellizzaro Dias Afonso Coordenadora Administrativa e Financeira UNA-SUS/UFMG Mariana Aparecida de Lélis Coordenadora de Design Educacional UNA-SUS/UFMG Sara Shirley Belo Lança Gerente de Tecnologias da Informação UNA-SUS/UFMG Gustavo Storck Gestora Acadêmica UNA-SUS/UFMG Roberta de Paula Santos Conteudistas UNA-SUS/UFMG Alex Christian da Silva Alves Artur Oliveira Mendes Daniele Falci de Oliveira Leonardo Cançado Monteiro Savassi Thereza Cristina Gomes Horta Avaliador de Pertinência UNA-SUS/UFMG Elisa Toffoli Rodrigues Marília Faleiro Malaguth Mendonça Ruth Borges Dias Marcelo Pellizzaro Dias Afonso Editoração UNA-SUS/UFMG Soraya Falqueiro Revisão Bibliográfica e Normalização UNA-SUS/UFMG Gabriel Henrique Silva Teixeira Soraya Falqueiro Designer Gráfico UNA-SUS/UFMG Giselle Belo Lança Antenor Barbosa Designer Instrucional UNA-SUS/UFMG Angela Moreira Weder Hovadich Gonçalves Ilustrador UNA-SUS/UFMG Isabel Rodriguez Leonardo Ribeiro Moore Matheus Manso Web Designer UNA-SUS/UFMG Felipe Thadeu do Carmo Parreira Desenvolvedor Moodle UNA-SUS/UFMG Daniel Lopes Miranda Junior Simone Myrrha Apoio Técnico UNA-SUS/UFMG Leonardo Aquim de Queiroz Michel Bruno Pereira Guimarães Roteirista de Audiovisual UNA-SUS/UFMG Daniele Falci de Oliveira Leonardo Cançado Monteiro Savassi Edgard Antônio Alves de Paiva Produtor de Audiovisual UNA-SUS/UFMG Edgard Antônio Alves de Paiva Objetivo geral de aprendizagem do módulo Aplicar ferramentas de Abordagem Familiar e reconhecer conceitos pertinentes à família. Objetivo de ensino do módulo Capacitar o especializando para a aplicação de conceitos e ferramentas relacionados à Abordagem Familiar. Carga horária de estudo recomendada para este módulo Para estudar e apreender todas as informações e conceitos abordados, bem como trilhar todo o processo ativo de aprendizagem, estabelecemos uma carga horária de 30 horas para este módulo. Sumário Apresentação do módulo 11 Unidade 01. A abordagem da família diante do processo saúde - adoecimento 12 Introdução 12 1.1 Compreendendo as famílias brasileiras 14 1.2 Tipologia familiar 17 1.3 Os ciclos de vida familiar 21 1.4 Funcionalidade familiar 27 1.5 Violência intrafamiliar 34 Encerramento da unidade 47 Unidade 02. Ferramentas para abordagem familiar na Atenção Primária à Saúde 48 Introdução 48 2.1 Ferramentas de representação familiar 50 2.2 Ferramentas de avaliação familiar 60 2.3 Avaliação da vulnerabilidade familiar 67 2.4 Ferramentas de abordagem familiar 74 2.5 Abordagem familiar e visita domiciliar 85 2.6 Intervenções familiares em cuidados paliativos 87 Encerramento da unidade 95 Encerramento do módulo 96 Referências 97 Biografia dos conteudistas 107 Lista de figuras Figura 01 Transições dos ciclos familiares Figura 02 Instrumentos da Abordagem Familiar Figura 03 Benefícios do genograma Figura 04 Símbolos padrão do genograma Figura 05 Representação das Relações Figura 06 Exemplo de genograma Figura 07 Exemplo de genograma Figura 08 Simbologia do Ecomapa – linhas de relações Figura 09 Exemplo de Ecomapa Figura 10 Atenção domiciliar a famílias 22 49 51 53 54 55 55 58 59 86 Apresentação do módulo Olá, caro profissional! Boas-vindasao módulo de Abordagem Familiar. Neste módulo serão apre- sentados diversos conceitos sobre a relação entre família e saúde bem como as principais aplicações desses na prática diária de cuidado na Atenção Pri- mária à Saúde (APS). O módulo está dividido em duas unidades. Na primeira unidade, vamos co- nhecer os ciclos vitais familiares e o conceito de funcionalidade familiar, a fim de compreendermos a interferência desses no processo saúde-doença. Serão ainda apresentadas as tarefas da família no processo de adoecimento de um dos seus membros e as responsabilidades da equipe de saúde em promover o apoio ao paciente por meio de sua família. Por fim, a unidade introduz alguns conceitos sobre violência familiar e algumas orientações de como abordar tais casos na APS. Já a segunda unidade apresentará os instrumentos mais utilizados para a abordagem da família na APS, divididos didaticamente em instrumentos de representação, de avaliação e de abordagem familiar. São ainda introduzi- dos alguns tópicos da visita domiciliar e dos cuidados paliativos relacionados à abordagem familiar. Esperamos que este módulo seja muito útil a você para a incorporação práti- ca e qualificada da orientação familiar, importante atributo da APS. Desejamos a você bons estudos! EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 12 A abordagem da família diante do processo saúde- adoecimento OBJETIVO DE APRENDIZAGEM DA UNIDADE Reconhecer os ciclos vitais familiares e a funcionalidade familiar como instrumen- to para promoção e recuperação da saúde de indivíduos e família INTRODUÇÃO O médico de família e comunidade tem a família como foco de sua atuação. Diante dos desafios que enfrentará em sua prática, torna-se necessário o desenvolvimen- to de diversas competências a fim de que possa desempenhar suas funções de maneira efetiva. Nesta unidade, estudaremos algumas ferramentas que auxiliarão o médico de família e comunidade a realizar a abordagem familiar. Segundo Wagner e colaboradores (2001) apud Abud (2020), a abordagem familiar é aquela abordagem emocionalmente refletida e cientificamente adequada ao contexto social e familiar, respeitando as concepções, crenças e valores pessoais da instituição abordada; para tanto, é preciso saber ouvir, explorar o entendimento e potencializar os recursos familiares para promoção da saúde, além de realizar avaliações e intervenções familiares refletidas na história e contexto familiar. UNIDADE 01 13 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Nesta unidade, vamos conversar sobre o conceito de família, tipologia familiar, os ciclos familiares e suas características principais, as crises previsíveis (chamadas evolutivas) e não previsíveis (chamadas de acidentais) e quais são os papeis de cada membro da família nesses respectivos estágios e situações que fazem parte da di- nâmica familiar. Abordaremos ainda aspectos sobre funcionalidade familiar na saúde e na doença, coping, resiliência familiar e estratégias de suporte ao paciente. Por fim, conversa- remos sobre violência intrafamiliar e como o médico de família e comunidade poderá intervir. Pretende-se que ao final desta unidade você esteja apto a: • Compreender os ciclos vitais familiares, seus estágios, as crises vitais, a fun- cionalidade familiar e sua interferência no processo saúde-doença. • Identificar as tarefas da família no processo de adoecimento de um dos seus membros. • Identificar o papel da equipe de saúde no suporte às estratégias da família de apoio ao paciente (coping). • Identificar casos de violência familiar em sua área de abrangência e saber con- duzir os casos de menor complexidade. Segundo as mesmas autoras, “para descobrir como uma pessoa resolve seus problemas e ajudá-la a alcançar suas expectativas de bem-estar, é neces- sário conhecer e compreender a constituição da sua família e o papel que essa pessoa exerce dentro dela, qual sua ocupação, seu nível de edu- cação formal, as expectativas da família em relação ao indivíduo e as conexões afetivas que construiu com suas vivências ao longo do tempo” (FERNAN- DES; DIAS, 2015). Nesse interim, os princípios de abordagem sistêmica aplicada à família fornecem os recursos necessários para uma intervenção adequada. Fernandes e Dias (2015) afirmam que o primeiro nível de cuidado e de resolução dos problemas de saúde das pessoas ocorre por meio do autocuidado e da busca de respostas dentro dos recursos próximos, como a família e a comunidade. Fonte: MARINHO, 2008b | Acervo Fundação Oswaldo Cruz EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 14 1.1 COMPREENDENDO AS FAMÍLIAS BRASILEIRAS Neste momento, convidamos você a refletir um pouco: como você define família? Essa tarefa pode parecer, à primeira vista, algo simples, mas ao reconhecermos as múltiplas variações de famílias encontradas hoje na nossa sociedade fica claro que o conceito mais abrangente de família pode ser desafiador. Assim, sugerimos que você analise algumas das diferentes concepções de família apresentadas a seguir e avalie: qual delas acha que melhor explica o conceito de família? Concepções de família. “A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. [...] § 3º Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre homem e mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento. § 4º Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes.” (BRASIL, 1988) “A família é um grupo de pessoas que convi- vem, têm laços intensos de proximidade e compartilham o sentimento de identidade e pertencimento, que influenciarão, de alguma forma, suas vidas.” (GUSSO et al.,2018) “A família é o modelo universal para o viver; ela é unidade de crescimento, de experiên- cia; de sucesso e fracasso; ela é também unidade de saúde e doença.” (ACKERMAN, apud ANDERSON, 1980, p. 37) “A família constitui um sistema aberto, dinâ- mico e complexo, cujos membros pertencem a um mesmo contexto social e dele compar- tilham. É o lugar do reconhecimento da di- ferença e o aprendizado quanto ao unir-se e separar-se; é a sede das primeiras trocas afetivo-emocionais e da construção da iden- tidade.” (FERNANDES; CURRA, 2005) “A família representa uma agregação de in- divíduos unidos por laços afetivos ou de pa- rentesco (consanguinidade). Dentro dessa relação, os adultos são responsáveis pelo cuidado com as crianças. A família também é compreendida como a primeira institui- ção responsável pela socialização dos indi- víduos. O conceito de família assume sua complexidade por relacionar a natureza, a partir do nascimento de novos indivíduos da espécie humana, com a cultura e a orga- nização de grupos sociais (familiares)”. (TEODORO; BAPTISTA, 2020) “Família é o conjunto de pessoas ligadas por laços de parentesco, dependência doméstica ou normas de convivência, que residem na mesma unidade domi- ciliar. Inclui empregado(a) que reside no domicílio, pensionistas e agregados” (BRASIL, 1998) 15 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Várias foram as transformações que a concepção de família vem sofrendo ao longo do tempo. A seguir, podemos acompanhar algumas delas, confira. Transformações com relação ao conceito de família. Fonte: Silva, 2005. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE,2015), por meio do documen- to Síntese dos Indicadores Sociais, detectou mudanças na família brasileira, dentre as quais as destacadas a seguir no infográfico. EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 16 Fonte: IBGE, 2015. 17 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 1.2 TIPOLOGIA FAMILIAR Vamos, agora, acompanhar um exemplo de caso relacionado à tipologia familiar, confira! Aguardando o início da aula, Carlos disputa com sua colega Júnia quem tem a família maior e mostra uma foto de sua família que trouxe para mostrar no seu “Para Casa”. Espantada olhando o grande número de pessoas, ela questiona: Como podemos ajudar Carlos a resolveressa situação? Com o passar do tempo, a família sofreu grandes modificações decorrentes dos processos socioculturais. O conceito tradicional de família, compreendida pela família nuclear, composta por pai (provedor da casa), mãe (cuidadora da família) e seus filhos foi sendo diversificado por novos tipos de família. Atualmente, o enten- dimento jurídico sobre a família comporta vários tipos de agregado familiar e visa dar conta de toda a complexidade dos fatores que unem as pessoas (BIROLI, 2014). – Carlos, sua família é muito grande! Quem são eles? – Essa aqui é minha mãe, Luiza. Esse é meu irmão mais velho, Jorge. Atrás é o Álvaro, namorado da minha avó, Silvia. – E esses dois pequenos com essa moça? – É a minha tia Angela e os dois filhos gêmeos dela, Airton e Arilton. – Ela é irmã da sua mãe? – Não. Ela é filha do Álvaro. – Peraí?! Aí não vale você está trapaceando!!! Onde esse povo todo mora? – Ué, Junia... Lá em casa mesmo... – Mas não você não pode contar todo mundo! Não são todos da sua família! Nesse momento, Carlos, sem saber o que falar, olha para a foto e fica pensativo: “Será que eu sempre tive errado? Como pode ser? Quem re- almente é da minha família?” Fica, portanto, evidente que a conformação das famílias na sociedade vai se alte- rando com o passar do tempo. Paralelamente, os conceitos de família vão se atu- alizando e aprimorando, a depender do momento histórico e do seu contexto po- lítico e social. Fonte: Freepik.com EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 18 Fernandes e Curra (2015) classificam os tipos de família em: • nuclear (formada pelos familiares consanguíneos da pessoa-referência, possuin- do geralmente um núcleo de um casal e seus filhos); • extensiva (constituída por mais de uma geração podendo ter também vínculos colaterais com tios, primos, padrinhos, etc.); • unitária (composta por uma só pessoa como, por exemplo, uma viúva sem filhos); • monoparental (constituída por um dos pais biológicos ou adotivos e os filhos, independente de vínculos externos ao núcleo); • reconstituída (composta por membros de uma família que em algum momento teve outra configuração, sofreu uma ruptura e passou a ter o novo formato); • instituicional (representada por um instituto que possui a função de criar e desenvolver afetivamente a criança/adolescente); • homoafetivo (formada por casais homossexuais, com filhos ou não, sendo os filhos quando existentes de origem biológica de uma das partes ou adotados); • constituição funcional (constituída por pessoas que moram juntas e desempenham papéis parentais em relação a criança/adolescente). 1.2.1 AS MUDANÇAS CULTURAIS E COMPORTAMENTAIS DAS FAMÍLIAS E SUAS IMPLICAÇÕES ÉTICAS Retomando a dúvida de Carlos, como se explica todos na sua casa formarem a mesma família? Para entender a situação é importante lembrarmos que os padrões nos arranjos familiares no Brasil mudaram muito nas últimas décadas – com di- vórcios, novos tipos de união entre as pessoas, que se casam mais tarde, por exemplo. A média dos filhos reduziu e mais crianças crescem em ambientes do- mésticos distantes do padrão da família nuclear. Fonte: SCOFANO, 2017 | Acervo Comer Pra Quê? Outras mudanças pertinentes são muito mais mulheres como chefes de família, como principais provedoras da casa e mais mães criando seus filhos sozinhas. Aumentaram também as famílias cons- tituídas por casais sem filhos, as famí- lias unipessoais e o número de casa- mentos e arranjos familiares que se distanciam da norma heteroafetiva. 19 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 1.2.2 E AS IMPLICAÇÕES ÉTICAS PARA OS MÉDICOS DE FAMÍLIA? Sabe-se que a ética profissional “é o conjunto de normais morais pelas quais a pessoa deve orientar seu comportamento na profissão que exerce”, orientadas pelos princípios da beneficência, não maleficência, autonomia e justiça (DALLA; LOPES, 2019, p. 441). Importante! Vamos, agora, retomar o exemplo de caso do início da unidade, acompanhe. Voltando à família de Carlos, após uma noite passando um mal-estar grande, seu irmão Jorge, de 12 anos, foi levado a Unidade Básica de Saúde por Angela. Após uma avalia- ção cuidadosa, o médico comunicou a importância de uma autorização para realiza- ção de um exame mais invasivo e uso de medicamentos parenterais em Jorge. • A atuação do médico de família na APS requer vínculo e res- ponsabilização com as famílias estabelecendo os limites da relação profissional-pessoa e da interferência no estilo de vidas das famílias. • Evitar pré-julgamento e desrespeito diante dos valores das pessoas deve ser a atitude do médico de família. • Ele deve ter acesso às informações pertinentes para persu- adir mudanças necessárias no estilo de vida não saudável, mas sempre respeitando a autonomia dos membros fami- liares e a cidadania dos mesmos. • Respeitar diferenças e o foco da atenção à saúde no atendi- mento das necessidades das pessoas e/ou suas famílias imbuído da disponibilidade do diálogo é fundamental na atuação desse profissional (DALLA; LOPES, 2019). Devido a aspectos econômicos como o aumento das jornadas de trabalho e, prin- cipalmente, a dupla jornada das mulheres reduziu-se o tempo para o lazer e para atividades coletivas, o que gerou mais esgotamento e falta do tempo para o auto- desenvolvimento. Com isso, o tempo para cuidar dos outros e de si, além do tempo para definir afetos, é impactado profundamente pelo império da racionalidade econômica (BIROLI, 2014). EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 20 REFLEXÃO Considerando os laços afetivos e os aspectos conceituas de família, como a postura do profissional pode ser avaliada? Desenvolver competências e adotar uma postura aberta para trabalhar com famí- lias, sempre procurando se vincular com os indivíduos em foco, ter atitude que es- timule a construção de soluções, respeitar as regras familiares, hierarquias e estí- mulo à comunicação entre seus membros são posturas fundamentais para os médicos de família (CHAPADEIRO et al., 2011). Nesse tipo de situação, devemos lembrar que a família é um sistema formado por outros subsistemas, unidos por fortes laços afetivos, com limites e papéis explícitos ou velados. Normalmente, quando um dos seus membros tem algum tipo de problema, toda a família sofre e a tendência é o desenvolvimento de estratégias que possibilitem o retorno à harmonia fa- miliar com novas definições de papéis entre os seus componentes. – Infelizmente precisamos de sua autorização para cuidar do Jorge. Você é a responsável por essa decisão? – Na verdade, eu moro na casa com ele, mas sou filha do namorado da avó dele. – Como assim? Onde estão os pais deles? – A mãe está em viagem e não consegui contato com ela. E não conhecemos o pai. – Então não é com você que tenho que conversar. Você não tem nenhum laço com ele. Fui enganado por vocês com ele te chamando de tia. Infelizmente não podemos fazer nenhum procedimento necessário. Terá que voltar com ele para casa e só atenderemos com a presença de um dos seus responsáveis... Fonte: ILICCIEV, 2007 | Acervo Fundação Oswaldo Cruz Fonte: Freepik.com 21 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 1.3 OS CICLOS DE VIDA FAMILIAR Fonte: MARINHO, 2009 | Acervo Fundação Oswaldo Cruz Ditterich e colaboradores (2009), corroborando com outros autores, afirma que o conhecimento do desenvolvimento da família é útil porque facilita a previsão e an- tecipa os desafios que serão enfrentados no estágio de desenvolvimento de uma dada família, e isso permite melhorar o entendimento do contexto dos sintomas e das doenças (DITTERICH et al., 2009). Ressalta ainda a necessidade de se com- preender que os estágios do desenvolvi- mento humano não podem ser tratados de maneira fragmentada, de modo a gerar estratégias de ações e serviços em saúde verticalizados para cada etapa da vida em que o indivíduo esteja. Você já ouviu falar de ciclos familiares e sua importância? Nesta seção, vamos conversar sobre os ciclos familiares,suas características principais, as crises previsíveis (chamadas evolutivas) e não previsíveis (chamadas de acidentais) e quais são os papeis de cada membro da família nesses respectivos estágios e situa- ções que fazem parte da dinâmica familiar. Compreender os ciclos familiares e como eles interferem no processo saúde-doença possibilita à equipe de saúde prever quando e como as doenças podem ocorrer (OLIVEIRA et al., 1999). Segundo Minuchin e Fishman (1990), a família pode ser concebida como um organis- mo vivo que sempre constrói mecanismos para manter sua funcionalidade, estando às vezes em equilíbrio com o meio interno e externo e em outras vezes encontrando-se em desequilíbrio. Segundo Cesar (2010), é possível reconhecer diferentes padrões na organização das fa- mílias ao longo do tempo, assim como diversas formas de relacionamento entre seus membros. Apesar dessas diversidades, podemos também observar muitas caracterís- ticas semelhantes ao longo do ciclo de vida das famílias. Essas características seme- lhantes costumam ser chamadas de fases do ciclo de vida das famílias. Fernandes e Dias (2015) definem ciclo de vida familiar como “as etapas de evolução da vida que todos passamos. Situações de vida com problemas previsíveis e que precisa- mos resolver para evoluirmos como pessoas. A resposta adequada a esses problemas resulta no bem-estar individual e familiar”. EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 22 Para se conhecer e compreender melhor uma família devemos observar o cenário em que ela está inserida e as influências so- fridas. Segundo Carter e McGoldrick (1995), essas influências podem ser classificadas como verticais ou horizontais, que por sua vez podem representar eventos estressores sobre a família. Lembre-se! Os fatores estressores ou crises podem ser previsíveis, como as transições dos ciclos familiares, ou imprevisíveis, como o adoecimento, os acidentes, separação ou divórcio, perda do emprego, perda de um membro da família, etc. (GUSSO, 2018). Veja a figura a seguir. Fonte: Nescon (2011), adaptado de Carter e McGoldrick (1995). Figura 01 - Transições dos ciclos familiares. 23 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 1.3.1 OS CICLOS DE VIDA DA FAMÍLIA Vamos acompanhar agora os ciclos de vida da família, especialmente no que se refere ao ciclo de vida da classe média e da classe popular. Confira! Ciclo de vida da classe média A classificação mais utilizada dos ciclos de vida de famílias de classe média é a pro- posta por Carter e McGoldrick (1995). Ela é sintetizada no quadro a seguir, junta- mente com as características de cada ciclo e as tarefas que os indivíduos precisam lidar respectivamente. Quadro 01 – Os ciclos de vida, suas características e as tarefas a cumprir. Fase do ciclo Características Tarefas Adulto jovem independente Autonomia e responsabilização emocional e financeira. Investimento profissional. Síndrome dos filhos- cangurus (permanência na casa dos pais na vida profissional). Diferenciação do eu em relação à família. Desenvolvimento de relacionamentos íntimos com adultos iguais. Estabelecimento do eu com relação ao trabalho, com independência financeira. Casamento O novo casal inicia a vida a dois. Comprometimento com um novo sistema familiar. Renegociação das relações com seus pais e amigos novos e antigos. Conhecimento recíproco. Construção de regras próprias de funcionamento Formação do sistema conjugal e realinhamento dos outros relacionamentos. Maior autonomia em relação à família de origem e da tomada de decisões sobre filhos, educação e gravidez, divisão de vários papéis do casal de modo equilibrado. (continua) EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 24 Fase do ciclo Características Tarefas Nascimento do primeiro filho Gravidez: profundas transformações e novos acordos. A relação altera-se: ela, sensível e introspectiva, requer apoio e atenção; ele pode não entender e afastar-se. Nascimento: função materna. Nova alteração: a mãe sente-se sobrecarregada e o pai pode afastar-se mais. Abertura da família para a inclusão de um novo membro. Divisão dos papéis dos pais para atuação em novos papéis que promovam a igualdade de gênero no cuidado com filhos. Realinhamento dos relacionamentos com a família ampliada para incluir os papéis dos pais e dos avós. Famílias com filhos pequenos Outros filhos. Preparar o sistema para a aceitação dos novos membros. Antecipação de possíveis dificuldades entre os irmãos. Novos contatos externos, cada vez mais íntimos com a sociedade. Crescente autonomia dos filhos. Novos ajustes das relações e do espaço. Redivisão das tarefas de educação dos filhos, além das tarefas financeiras e domésticas. Papel preponderantemente materno de ajuste e desenvolvimento das crianças, com o estabelecimento de uma vida satisfatória a todos. Famílias com filhos adolescentes Filhos adolescentes/ pais na meia-idade/ avós na velhice. Toda a família vive uma crise: mãe sobrecarregada/pai autorizador. Papel dos avós. Adolescente: encontrar a sua própria identidade. Pais: equilibrar a liberdade e considerar a individualidade do adolescente. Família: independência dos filhos e fragilidade dos avós (mudança do cuidado para a geração mais velha). Preparação dos pais para a autonomia dos filhos. (continua) 25 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Fonte: (MCGOLDRICK, 1995; SAVASSI, 2011). Fase do ciclo Características Tarefas Lançando os filhos e seguindo em frente Os filhos começam a sair de casa e deixam para trás os pais novamente sozinhos, um com o outro, vivendo a crise da meia idade e a perspectiva da incapacidade e da morte dos próprios pais. Aceitar as múltiplas entradas e saídas de membros no sistema familiar. Renegociar o sistema conjugal como um casal (fim do papel de pais). Incluir os genros, noras e netos. Planejamento financeiro para a aposentadoria. Aposentadoria Novas relações com seus filhos. Tornam-se avós. Realinhamento do convívio mais intenso pelo maior tempo disponível, porém com objetivos diferenciados. Ajuste ao fim do salário regular, com redução da renda mensal. Aumento dos gastos com medicações, além da necessidade de prover conforto, saúde e bem-estar. Famílias no estágio tardio: a velhice Aceitação da mudança dos papéis em cada geração. Papel mais central nas gerações do meio. Abrir espaço no sistema para a sabedoria e a experiência dos idosos, apoiando a geração mais velha, sem superfuncionar por ela. Funcionamento do sistema, mesmo com o declínio fisiológico, lidando com a perda da habilidade, com maior dependência dos outros. Lidar com a perda de um amigo, familiar ou do próprio companheiro (geralmente a mulher sobrevive) e com a proximidade da própria morte. Ciclo de vida da classe popular É necessário reconhecer que as famílias de estratos socioeconômicos mais baixos frequentemente apresentam importantes particularidades nos ciclos de vida em relação aos descritos anteriormente para as famílias de classe média. As diferen- ças mais relevantes são sintetizadas no quadro abaixo. EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 26 Quadro 02 – Os ciclos de vida em famílias populares. Fase do ciclo Características Família composta por jovem adulto Adolescentes são levados a buscar formas de subsistência fora de casa ou são fontes muito exploradas de ajuda, tornando-se um adulto sozinho, que cresce por conta própria, sem que outro adulto se responsabilize por ele. Começa muito precocemente, por volta dos 10 anos de idade. Família com filhos pequenos Ocupa grande parte do ciclo, incluindo, dentro da mesma casa, três ou quatro gerações. As tarefas desta fase se misturam: formar um sistema conjugal, assumir papéis paternos e reorganizar os papéis com as famílias de origem. Família no estágio tardio É mais raro ocorrer um ninho vazio de fato, uma vez que os idosos costumam ser membros ativos dafamília, com papel de sustentar e de educar as gerações mais novas. As mulheres tornam-se avós precocemente, mesmo que ainda estejam consolidando sua fase reprodutiva e reconstruindo sua vida afetiva. Esta é a fase que mais vem crescendo ao longo dos anos. Fonte: (FERNANDES; CURRA, 2006; SAVASSI, 2011). REFLEXÃO Diante do que você aprendeu sobre os ciclos de vida, conseguiria falar sobre a importância deste assunto? 27 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Importância do ciclo de vida A seguir, citamos algumas contribuições desta ferramenta para o Médico de Família e Comunidade (MFC). 1.4. FUNCIONALIDADE FAMILIAR Para aprofundar conhecimentos sobre a funcionalidade familiar, vamos verificar im- portantes informações e definições sobre a doença no meio familiar, a resiliência fa- miliar e as estratégias de suporte ao paciente e à família, assim como as fases da doença, os papéis envolvidos e as tarefas próprias a serem completadas pelos membros. Acompanhe. 1.4.1 A DOENÇA NO MEIO FAMILIAR Tal qual ocorre com os ciclos de vida, as doenças podem ser entendidas como crises na família, com necessidade de interpretação e redefinição de papéis (CORSO, 2011). Assim, é importante compreender como a doença se comporta diante da família e como suas características impactam no movimento do ciclo. Neste sentido, as doenças podem ser compreendidas pela forma como se iniciam, seu curso e suas consequências. EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 28 No caso das doenças que se instalam gradualmente (como artrite reumatoide, por exemplo) a tensão familiar para esse ajustamento é menor, facilitando (ainda que não garantindo) as adaptações. Nas doenças de curso agudo (não confundir com início agudo), após a crise da doença os membros da família tendem a um retorno aos papeis originais, ainda que ressig- nificados. É o que ocorre, por exemplo, quando existe internação por uma pneumo- nia. As pessoas retomam suas atividades e posturas prévias, mas agora mais cons- cientes das próprias fragilidades. Já as doenças de curso crônico podem ser progressivas, constantes ou reincidentes/episódicas. Nas doenças de curso progressivo há uma tensão constante pelas mudanças no fun- cionamento da família. Novas tarefas vão surgindo ao longo do tempo e essa flexi- bilidade para reorganização interna está o tempo todo sendo exigida. Ocorre no dia- betes mellitus mal controlado, quando lesões em órgãos alvo vão levando à incapacidades cada vez mais graves, com uma carga de cuidados cada vez maior para com o familiar enfermo ao mesmo tempo que restringe tarefas que ele vinha desempenhando no grupo. Sobre como se inicia, a doença pode ter início agudo ou gradual (OSORIO, 2009). As doenças de início abrupto (como acidentes vasculares cerebrais, por exemplo) por exigirem adaptações muito rápidas da família trazem um complicador a mais para grupos pouco flexíveis ou hipossuficientes (sendo nesses casos muitas vezes necessária uma maior busca por apoios externos). Sempre que alguém adoece, os papéis se modificam. O antigo cuidador pode passar a ser quem agora precisa de ajuda. O provedor financeiro da família pode ter de delegar a outro esse protagonismo. Jovens adoecidos, se em momento de serem “lançados na vida”, precisam adiar tal experiência e as expectativas dos demais membros precisam ser adiadas ou reconstruídas. Um novo significado é sempre exigido e o sucesso na passagem dessa crise depende de como os papéis podem mudar sem gerar problemas ainda maiores. Quando a doença surge muito rapidamente, esse ajuste precisa se dar em um período muito curto. Fonte: Freepik.com 29 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Nas doenças de curso constante, após um evento inicial e readaptações, a si- tuação se estabiliza. A tensão devido a uma incapacidade permanente pode levar à exaustão dos demais membros (muitas vezes ainda não amadureci- dos para as novas funções que passam assumir). É o que ocorre quando existe amputação de membro após um aci- dente, o que pode inviabilizar o traba- lho, além de consequências psicológi- cas diversas, dor fantasma, entre outros problemas. Se entender como alguém dependente é um processo que pode levar à negação da necessi- dade de cuidados, recusa terapêutica e do novo papel no grupo, dificultan- do o processo de ressignificação da estrutura da família. Por fim, nas doenças de curso reincidente/episódico, os períodos de necessidade de adaptações se alternam com aqueles em que existe relativa normalidade. É o que acontece na asma persistente, quando, ainda que com necessidade de vigilân- cia constante, deve ser rápida a troca de papéis e responsabilidades quando o membro doente é acometido por uma crise e esses acordos precisam estar pre- viamente definidos, evitando tensionamentos que se somem à agudização do pro- blema de saúde. As doenças podem também ser classificadas conforme suas consequências. A pos- sibilidade de morte ou incapacidade permanente podem tanto concentrar muita energia da família no cuidado com o membro quanto levar ao isolamento do enfermo de participação ativa na dinâmica do grupo. A superproteção pode trazer ganhos secundários para o doente ao ponto de dificultar os trabalhos que tentem promo- ver ganho de autonomia (comum na hemofilia, quando a criança não raras vezes exige dos adultos que supram todos os seus desejos). No caso da iminência de morte, a constante apreensão contribui para declínio do humor de todos os envol- vidos, dificultando maior envolvimento em estratégias promotoras de saúde (como nos pacientes com câncer terminal, quando a equipe de saúde muitas vezes tem dificuldade para fazer a família compreender que cuidados paliativos não são si- nônimo de cuidados mínimos ou mínima atenção e cuidado). Fonte: Freepik.com EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 30 1.4 .2 RESIL IÊNCIA FAMILIAR E ESTRATÉGIAS DE SUPORTE AO PACIENTE Na Física, chama-se resiliência a ca- pacidade dos metais de se molda- rem em determinadas condições im- postas. Fazendo um paralelo, é possível perceber que toda família é submetida a diferentes estresso- res ao longo do ciclo de vida de seus membros e, nesse contexto, nas ci- ências sociais, resiliência familiar é a capacidade da família de, a partir de seu conjunto de crenças, enfren- tar e se adaptar a situações de es- tresse e crises, moldando-se para o futuro (CARTER; McGOLDRICK, 1995). Não se trata de abafar os problemas, mas de não sucumbir a eles. Em toda família, em cada fase do ciclo de vida, existem papéis e tarefas esperadas dos membros. Existem inclusive algumas crises que, se não desejadas, são por vezes necessárias para que a família se reorganize. A capa- cidade de se movimentar no sentido de troca de funções e responsabilidades, bem como mudanças de planejamento com um mínimo necessário de tensão emocio- nal (prosseguir o itinerário da vida a despeito dos problemas, sobrevivendo e se desenvolvendo apesar deles), é do que se trata a resiliência. Houve um tempo em que os estudos sobre resiliência focavam na capacidade in- dividual de adaptação (OSORIO, 2009). Já há algum tempo, tem sido dada especial importância aos processos que ocorrem na família como um todo, considerando para a capacidade de resiliência os recursos que podem ser compartilhados pelos seus membros, acesso a apoiadores, bem como sua história, movimentos no ciclo de vida e flexibilidade, criando para tal as chamadas estratégias de coping. A família, assim, a partir de suas experiências, mal ou bem sucedidas, e recursos elabora meios para o enfrentamento dos problemas e a superação de crises. Não se trata, é preciso atentar, de mera absorção das influências externas ou de acobertar os problemas, mas de um processo que leva em conta o potencial de re- generação e crescimento saudável que um grupo familiar desenvolve para trans- cender às crises, reinterpretar o sofrimento e dar novo significado ao mesmo na caminhada que os membros empreendem.Fonte: Freepik.com 31 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Pelo profissional de saúde, a família precisa ser enxergada não como prejudicada, mas desafiada pelos problemas. A busca de recursos e o reconhecimento de forças internas devem dar suporte a essa reconstrução. Não é simplesmente como encon- trar a cura das feridas adquiridas na batalha diária pela sobre- vivência, é mais sobre aprender a lidar com as cicatrizes e seguir adiante. Quanto mais capaz de redefinir seus caminhos, desen- volvendo estratégias de sucesso para se manter funcional, mais resiliente é a família. Importante! 1.4.3 ESTRATÉGIAS DE SUPORTE AO PACIENTE E À FAMÍLIA A equipe de saúde tem o dever de ajudar a família a reconhecer seus recursos e sua capacidade de adaptação, tanto quanto fornecer apoio para fortalecimento da resiliência (OSORIO, 2009). Entre as estratégias podem ser citadas: 1- Avaliar estressores e processos de enfrentamento: por meio do genogra- ma, que será estudado mais adiante nesta unidade, é possível compreender estressores presentes e recursos potenciais nas relações familiares. Analisan- do a história da família é possível, ainda, refletir sobre as estratégias já utiliza- das com sucesso em situações semelhantes. Exemplo: desenhar o genograma com famílias com filhos pequenos adoecidos, procurando quem pode dar, ou deveria estar dando, algum tipo de apoio, aliviando que a carga de cuidados se concentre sobre uma ou poucas pessoas (muitas vezes a mãe, potencialmen- te adoecida no papel solitário de cuidadora e gerando assim novas demandas para o serviço de saúde). 2- Normalizar a situação problema: é o processo de contextualizar o problema, evitando tratar a mudança na dinâmica familiar como mais uma “patologia”, mas como desafio a ser enfrentado, procurando usar de empatia com os membros do grupo. Exemplo: pessoa acometida por infarto agudo do miocár- dio, com consequente afastamento de atividades laborais e necessidade de suporte para atividades diárias até sua recuperação (se a reorganização de tarefas na família for tratada como um problema a mais e não como potencial solução, o processo de melhora do paciente fica prejudicado). 3- Identificar, afirmar e construir forças familiares para lidar com o proble- ma: quando se reforça comportamentos positivos para o enfrentamento da EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 32 doença e se busca, junto com a família, encontrar apoios, facilitando assim o emergir de potencialidades. Exemplo: adolescente seguindo com uso recorren- te de drogas ilícitas e que encontra em um membro do grupo familiar apoio e confiança para relatar seus medos e desejos, situação que, ao ser identificada pela equipe de saúde, precisa ser elogiada e reforçada. 4- Diminuir fatores de risco: trata-se de explicar processo de adoecimento, evi- tando crenças falaciosas e catastróficas, além de preparar os membros da família para situações realmente ameaçadoras. Exemplo: paciente com bolsa de colos- tomia após ressecção de câncer intestinal. A equipe de saúde precisa explicar o que aconteceu, organizando a ideia da doença, e informando os próximos passos na gestão do cuidado, esclarecendo as dúvidas e se colocando como apoio para responder quaisquer questionamentos. 5- Reduzir reações negativas: trabalhar para minimizar os efeitos do estresse, tanto apontando para a família como um todo a necessidade de alteração de estratégias mal sucedidas quanto ajudando a superar obstáculos. Exemplo: idoso analfabeto com diabetes mellitus insulino dependente morando sozinho, mas cujos filhos pegam os medicamentos na unidade de saúde e deixam com o mesmo. Devido risco de hipoglicemia, torna-se necessário a equipe de saúde conversar com familiares sobre necessidade de melhorar a atenção prestada e meios para gerenciar os cuidados. 6- Fortalecer processos familiares protetores e reduzir vulnerabilidades: va- lorização de forças familiares identificadas e habilidades individuais e grupais para lidar com o problema, ajudando a compreender as mudanças da estrutu- ra familiar e refletir sobre elas. Exemplo: no processo de compreensão do pa- ciente como um todo, identificar que para uma pessoa acamada com escaras existem filhos com formação na área de saúde que podem ajudar a orientar os demais para o cuidado e se colocar como referência, passando a ter um papel de protagonismo na dinâmica familiar. 7- Encorajar a eficácia individual e familiar: apontar o controle bem-sucedido do problema ao longo do tempo, refletindo sobre as competências adquiridas, a atenção e as conexões criadas por meio da participação dos indivíduos nas soluções encontradas. Exemplo: paciente acometido por acidente vascular ce- rebral e, tornando-se acamado, passa a contar com o apoio dos netos que se revezam durante a semana no cuidado evitando sobrecarga para a esposa e filhos (também envelhecidos). A equipe precisa tanto incentivar essas estraté- gias quanto apontar para a necessidade de diversificação de atores e estraté- gias para lidar com o aumento gradual do estado de dependência do paciente. 33 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 8- Construir significado das experiências com crises: compreender a percep- ção da família sobre como vem lidando com o problema, solicitando feedback sobre o papel da equipe de saúde, instigando a busca por mais informações e se colocando mais uma vez como apoio. Exemplo: paciente com quadro de Al- zheimer em rápida evolução, quando é preciso discutir com a família sobre as novas exigências de cuidado, os ciclos de vida e da vida, conferindo significado e noção de valor ao ato de cuidar. A divisão apresentada é didática, mas na realidade todos esses processos estão entrelaçados. O mais importante é que a equipe de saúde, na atenção primária, possa sempre reforçar seu papel de apoio para o enfrentamento do adoecimento, na busca por parceiros e no incentivo para que as famílias, nessas crises, possam refletir sobre seu funcionamento e, conferindo signifi- cado a esses eventos, se fortaleçam cada vez mais para novos enfrentamentos, aumentando seu poder de resiliência para seguir a estrada da vida que compartilham. 1.4.4 FASES DA DOENÇA JUNTO À FAMÍLIA E PAPÉIS Como toda crise no meio familiar, a doença gera tarefas próprias a serem comple- tadas pelos membros. Com o apoio da equipe de saúde, esse grupo pode melhor ressignificar sua trajetória e promover as adaptações necessárias (CARTER, McGOL- DRICK, 1995). No período de instalação da crise (e enfermidade) é necessário um reajustamento inicial. É preciso apreender como as coisas acontecem e são interpretadas, para o que uma boa exploração da experiência da doença é essencial (seguindo os passos do método clínico centrado na pessoa). Um bom relacionamento com a equipe de saúde precisa ser desenvolvido, uma vez que a equipe precisará se converter em parceira durante todo o curso do problema. É natural que as pessoas se entriste- çam durante esse período de incertezas e o apoio profissional poderá minimizar a angústia. A fase de cronificação do problema ocorre quando, compreendendo o paciente como um todo, os profissionais de saúde podem buscar pelos apoiadores exter- nos e internos da família para construir um projeto comum de manejo. Na fase terminal, quando a morte é iminente, a partir da intensificação da relação durante todo esse processo, é o momento de ser realista e lidar com o luto e a re- tomada da vida e reorganização da estrutura familiar, ressignificando papéis, ela- borando novos planos e incorporando ações de prevenção e promoção de saúde. EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 34 Além disso, durante todo o itinerário de vida familiar, existem movimentos centrí- petos e centrífugos (para fora e para dentro do núcleo familiar, respectivamente). A doença tende a promover movimentos centrífugos. As tarefas dos ciclos envol- vem também esses dois movimentos. O casal jovem deve, por exemplo, fazer um movimento centrífugo para construçãodo núcleo e um movimento centrípeto para aprender a lidar com a família de origem de cada cônjuge. Quando ocorre o pro- cesso de adoecimento de um dos membros do casal, o movimento centrífugo é potencializado, aumentando a tensão, enquanto as tarefas de movimento centrí- peto são negligenciadas, criando potencial conflito para as fases seguintes e difi- culdades para gerenciamento do cuidado e consolidação de apoios. A equipe de saúde precisa estar atenta para alertar a família e orientar busca de ajuda para que possam melhor se organizar. Assim, muitas vezes as tarefas próprias do ciclo de vida entram em conflito com as tarefas relacionadas aos cuidados com familiares doentes. Os papeis de cada pessoa no núcleo familiar são questionados e, muitas vezes, é necessário um reequilíbrio de tarefas e responsabilidades para enfrentar aquela situação. Quando o problema de saúde se torna crônico, as responsabilidades assumidas precisam ser revistas e repensadas, sob pena de prejuízo na execução das tarefas usuais do ciclo de vida e sobrecarga de apenas um ou poucos membros da família. REFLEXÃO Você já assistiu ao filme “O óleo de Lorenzo”, drama americano de 1992 e dirigido por George Miller? Como a família do protagonista se organizou para o cuidado? Quais as consequências (boas e ruins) das estratégias de coping adotadas? 1.5 VIOLÊNCIA INTRAFAMILIAR Para dar continuidade aos estudos, vamos agora aprofundar conhecimentos sobre a violência intrafamiliar, acompanhe. 1.5.1 CONVERSANDO SOBRE VIOLÊNCIA A violência não é um evento natural, nem acidental, sendo determinada por múl- tiplos fatores sociais e individuais, interligados e historicamente determinados (DAHLBERG; KRUG, 2007). Violência é definida como o uso de força física ou poder, em ameaça ou na prática, contra si próprio, outra pessoa ou contra um grupo ou comunidade que resulte ou 35 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Quadro 03 - Classificação de tipos de violência. Violência coletiva Os crimes cometidos por grupos organizados, os atos terroristas, os crimes de multidões, as guerras e os processos de aniquilamento de determinados povos e nações Atos violentos que acontecem nos âmbitos macrossociais, políticos e econômicos e caracterizam a dominação de grupos e do Estado Violência Auto-infligida Comportamentos suicidas Ideações e atos que têm como objetivo dar fim na própria vida voluntariamente Autoabusos Agressões a si próprio e automutilações Violência interpessoal Violência comunitária Violência juvenil Atos aleatórios de violência Estupro Ataque sexual por estranhos Violência em grupos institucionais (escolas, trabalho, prisões e asilos) Violência Familiar Violência infligida por parceiro íntimo Abuso infantil Abuso contra idoso Fonte: Adaptado de COELHO; GRUDTNER; LINDNER, 2014. possa resultar em sofrimento, morte, dano psicológico, desenvolvimento prejudi- cado ou privação (COELHO; GRUDTNER; LINDNER, 2014; D´OLIVEIRA; SCHRAIBER, 2019; DAHLBERG; KRUG, 2007). No âmbito familiar, a violência apresenta alta prevalência e repercute significati- vamente na vida das pessoas, por tratar-se de uma grave situação de violação dos direitos humanos e um sério problema de saúde pública e do tecido social (CURRA; FERNANDES, 2005; CURRA; FERNANDES; MAZZONCINI, 2018). Podemos também classificar a violência em três grandes grupos, de acordo com quem comete o ato violento (COELHO; GRUDTNER; LINDNER, 2014), apresentados no quadro a seguir. EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 36 A violência familiar se enquadra na categoria de violência interpessoal e pode ser definida como toda ação ou omissão que prejudique o bem-estar, a integridade física e a psicológica, ou a liberdade e o direito ao pleno desenvolvimento de outro membro da família. Esse tipo de violência é cometido dentro ou fora de casa, por algum membro da família, inclusive pessoas que passam a assumir função paren- tal, ainda que sem laços de consanguinidade, e que apresentam relação de poder sobre a outra pessoa (COELHO; GRUDTNER; LINDNER, 2014). Segundo a Lei nº 11.340, de agosto de 2006, conhecida como Lei Maria da Penha, que rege os mecanismos para coibir a violência familiar contra a mulher, a defini- ção dos tipos de violência delimita cinco domínios, a saber: físico, patrimonial, sexual, moral e psicológico (PASSOS, 2010). Confira no Infográfico, algumas considerações importantes! 37 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar A lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006, conhecida como lei Maria da Penha, é um marco na proteção de mulheres em situação de violência, pois torna crime a violência doméstica e familiar contra a mulher, definindo-as cla- ramente e tipificando essa violência – física, psicológica, sexual, patrimo- nial e moral, que podem ser praticadas juntas ou separadamente. A Lei Maria da Penha fortalece a autonomia das mulheres, educa a socie- dade e cria meios de assistência e atendimento humanizado, além de agregar à política pública valores de direitos humanos, tornando o Estado responsável pelo enfrentamento da violência contra a mulher. Acesse o texto completo da lei Maria da Penha, lei n° 11.340, de 7 de agosto de 2006, disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004- 2006/2006/Lei/L11340.htm 1.5.2 A LENTE DA APS Os profissionais de saúde estão em uma posição estratégica para detectar riscos e identificar as possíveis vítimas de violência, pois costumam ser os primeiros a serem informados sobre esses episódios. O motivo da busca de atendimento é mascarado por outros problemas ou sintomas que não se configuram, isolada- mente, em elementos para um diagnóstico, como relatado na situação hipotética que abre essa temática. Por isso, é responsabilidade do profissional de saúde estar atento quanto à possibilidade de um membro da família estar praticando ou sendo vítima de violência, mesmo que não haja, à primeira vista, indicações para suspei- tas (DAHLBERG; KRUG, 2007). A APS tem como foco a atenção e prevenção dos agravos relacionados à saúde, além de ser um dos setores de saúde que visa atender a população em situação de violência a partir do reconhecimento dos casos confirmados e suspeitos. A APS tem em seus atributos o reforço das competências para o manejo dessas situa- ções, sendo a porta de entrada e primeira referência da população, cuidando de todos ao longo do tempo, de forma integral, independente da presença ou não de adoecimento, coordenando os cuidados nos vários setores de cuidados. Além disso, o foco da APS na família e na comunidade, sendo recurso da população definida, e trabalhando com habilidades culturalmente adequadas ao mesmo, otimiza a abordagem de situações mais complexas, como no caso das violências. Partindo da definição de APS da professora Bárbara Starfield, pode-se determinar como cada um dos atributos da APS valida e direciona a abordagem das situações de violência por esse nível de cuidado em saúde: EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 38 Fonte: MARINHO, 2009 | Acervo Fundação Oswaldo Cruz A chegada à unidade de saúde precisa ser assegura- da ou a equipe deve se mo- bilizar para ir até a vítima, cuidando para não aumen- tar o risco envolvido na abor- dagem. A escuta sem pre- conceitos e condenações, apontamentos desnecessá- rios ou culpabilização da vítima ajuda na vinculação e posterior planejamento de ações adequadas. A Atenção Primária é aquele nível de um sistema de serviços de saúde que oferece a entrada para todas as novas necessidades e proble- mas, fornece atenção para a pessoa (não direcionada para a enfer- midade) no decorrer do tempo, fornece atenção para todas as con- dições, exceto as muito incomuns ou raras, e coordena ou integra a atenção fornecida em outro lugar ou por terceiros. (STARFIELD, 2002, p. 28) Apesar de a violência ter como peculiaridade o fato de sua detecção ser dificulta- da, especialmente pelos diversos recursos de tentativa de ocultação dos fatos e dificuldade de observaçãoda sociedade e das equipes de saúde, sua prevalência é muito significativa, o que a tira da condição de raridade e torna parte essencial do trabalho da APS. Especialmente em situações de maior vulnerabilidade e fragi- lidade social, que caracterizam maior risco, as demandas de cuidado nesse aspecto são ainda maiores, exigindo dos profissionais atenção e competência na aborda- gem dos casos. É fundamental garantir que a pessoa vítima de violência tenha acesso fácil aos ser- viços de assistência, com a privacidade e o sigilo necessários, incluindo o serviço de saúde, com a certeza do atendimento adequado e livre de julgamento (DAHL- BERG; KRUG, 2007). Ao pensarmos na porta de entrada para esses casos, as pessoas precisam saber a qual serviço se dirigir, a quais profissionais pedir ajuda, sentindo segurança ao ex- ternar a situação vivida e quais os possíveis envolvidos (LANDSBERG; SIQUEIRA; PEREIRA, 2012). Cabe lembrar que na maioria das vezes tanto a pessoa em situa- ção de violência quanto o provável agressor vivem na mesma comunidade, possi- velmente na mesma casa e são atendidos pela mesma equipe de saúde, e é ne- cessário trabalhar para que isso não seja um impedidor do cuidado ou um complicador maior. Além disso, deve-se cuidar e acolher todos os envolvidos e a primeira garantia para que isso aconteça é garantindo o acesso. 39 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Caso a pessoa não consiga acessar o serviço de referência, todo o processo de identificação de situações de risco e continuida- de do cuidado fica comprometido. Por isso, o acompanhamen- to ao longo do tempo traz diferenciais na identificação de fatores de risco para violência. Confira alguns elementos a seguir. Importante! Identificação de fatores de risco para violência. Fonte: Elaborado pelos autores. EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 40 Podem também ser observadas questões relacionadas ao autocuidado, presença de lesões sugestivas de violência na observação ou exame, distanciamento ou maior aproximação com a equipe de saúde, piora de rendimento escolar ou no trabalho, aumento no consumo de álcool e drogas, dificuldade de cumprimento de tarefas sociais (CURRA; FERNANDES, 2005; CURRA; FERNANDES; MAZZONCINI, 2018). O médico de família e comunidade que acompanha um grupo de pessoas conti- nuamente cria uma vinculação diferenciada com seu grupo de referência e, inde- pendentemente da presença ou não de queixa ou adoecimento (LANDSBERG; SI- QUEIRA; PEREIRA, 2012), é capaz de perceber sutilezas de posturas, escolhas e condutas que são avisos importantes de risco para a identificação de situações de violência (DAHLBERG; KRUG, 2007). Na abordagem integral das pessoas e comunidades, o profissional percebe o sujeito como histórico, social e político, articulado ao seu contexto familiar, ao meio am- biente e à sociedade que está inserido. Dessa forma, a integralidade desafia o pro- fissional a caminhar em busca de um horizonte de cuidado adequado ao contexto de cada pessoa, considerando suas competências e demandas específicas, enten- dendo que as necessidades são inúmeras e múltiplas e que o trabalho interseto- rial e multiprofissional é fundamental (LANDSBERG; SIQUEIRA; PEREIRA, 2012). Nas situações de violência, cabe à APS o papel de ser a primeira referência de assistência, oferecendo todo seu potencial na re- solução de problemas que seja possível neste nível de atenção, mas também catalisando ações em outros níveis de assistência, inclusive em questões mais complexas relacionadas a apoio ju- rídico e de assistência social. A busca de soluções para cada uma das situações cuidadas desenha e desenvolve parceiras e conhe- cimentos que irão otimizar o cuidado ofertado. Lembre-se! Uma vez que será necessário coordenar diferentes atores no plano de cuidados em situações de violência, o tecer da teia de atenção sob responsabilidade da APS confirma sua importância para o sucesso das ações. Coordenar os cuidados com harmonia entre os envolvidos é como reger uma grande orquestra – cada um dos instrumentos precisa estar afinado, os musicistas devem estar capacitados a tocar sua parte na peça, mas o conjunto da obra é garantido pelo regente, dando o ritmo, o compasso, moderando a intensidade, posicionando cada um em seu tempo adequado. 41 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar As alternativas de serviços específicos dirigidos à violência são apresentadas e dis- cutidas, além dos serviços gerais de garantia de direitos que estejam disponíveis. O conhecimento e articulação da rede de assistência intersetorial e o trabalho con- junto integrado é fundamental para o sucesso da abordagem. Deve-se buscar ati- vamente a rede de suporte familiar e social já existente da pessoa que está sendo atendida (DAHLBERG; KRUG, 2007). A APS tem sua centralização na família como um dos referenciais e o estudo de contexto familiar e de meio feito através dos instrumentos de abor- dagem familiar (como genograma, ecomapa, ciclo de vida familiar, entre outros) pode ser bastante esclarecedor (LANDSBERG; SIQUEIRA; PEREIRA, 2012). Devido a essa importância, esses recursos serão abordados mais detalhadamente nesta unidade. As informações levantadas podem evi- denciar desde situações de risco (desemprego, alcoolismo, uso de drogas, dificuldade de comu- nicação), passando pela identificação de situa- ções de violência relatadas durante a aplicação dos instrumentos, até a percepção de apoiado- res e competências pessoais ou da família para a resolução do problema (CURRA; FERNANDES, 2005; D´OLIVEIRA; SCHRAIBER, 2019). Considerando a orientação comunitária, percebe-se que o desenho da atuação das equipes de APS vai ser baseado nas demandas do grupo populacional assistido. Ao iniciarmos o trabalho com uma comunidade, é fundamental o entendimento de que o trabalho vai respeitar as especificidades de cada local e sua população. As ações das equipes de saúde são orientadas para a comunidade, tanto individu- al quanto coletivamente, abordando o conjunto de necessidades evidentes daquela população. Dessa forma, a equipe que trabalhar com uma situação de maior inci- dência e identificação de casos de violência terá que desenvolver mais competên- cias no trabalho e diferentes abordagens dessa população (LANDSBERG; SIQUEI- RA; PEREIRA, 2012). Ainda é válido considerar também a habilidade cultural que demanda das equipes de APS para atuarem em diferentes cenários. Entender que somos todos seres cul- turais, que trazemos referenciais éticos e sociais e que essas vivências influenciam nossas escolhas e posturas ajudam na aproximação respeitosa para avaliação de situações complexas como os casos de violência. Crenças e valores familiares, papéis e padrões de comunicação, capacidade de enfrentamento de situações de Fonte: MARINHO, 2008a | Acervo Fundação Oswaldo Cruz EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 42 estresse e práticas de vida e de saúde são determinantes variáveis e que devem ser observados com olhar de aceitação, ainda que aquilo não seja a referência do profissional (LANDSBERG; SIQUEIRA; PEREIRA, 2012). Porém, a habilidade de tra- balhar de forma culturalmente competente em situações de violência compreen- de exatamente a diferenciação entre “o que não é adequado para mim, mas fun- ciona bem para você” e “o que não é adequado e não funciona bem para ninguém”. Nesse contexto, a percepção de violência e risco indica ação necessária da equipe na abordagem, independente de diferenças culturais. É fundamental cuidar sempre para evitar a banalização ou relativização do que seria violência, sendo necessário coibir tais situações, independentemente dos motivos ou justificativas culturais, como “não quero filho bandido”, “ele tem ciúmes e me bate porque já errei com ele antes” ou “essa idosa foi muito ruim comigo antes” (DAHLBERG; KRUG, 2007). Durante todo o processo de atendimento das situações de violência, o profissio- nal de saúde necessita manter uma preocupação ética com a qualidadeda inter- venção e suas consequências, e deve considerar os itens descritos a seguir. Ética, qualidade da intervenção e suas consequências. Fonte: Adaptado de BRASIL, (2001). 43 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 1.5.3 A LENTE DA MEDICINA DE FAMÍLIA E COMUNIDADE A Medicina de Família e Comunidade é a especialidade médica que presta assistên- cia à saúde de forma continuada, integral e abrangente para as pessoas, suas famí- lias e a comunidade (CAMPOS, 2005). O Médico de Família e Comunidade (MFC) é comprometido, em primeiro lugar, com a pessoa, não se limitando pelo problema de saúde apresentado. Qualquer problema apresentado pela pessoa, qualquer queixa ou relato que ela traga, é parte do seu campo de trabalho (LOPES, 2019), inclusive quanto à abordagem adequada de casos suspeitos ou confirmados de violência. O MFC é o profissional médico com vocação e formação específicas para prestar cuidados na APS, especialista em manejar os problemas mais fre- quentes que acometem a população sob sua responsabilidade (MCWHIN- NEY; FREEMAN, 2010); por isso, todos os atributos já discutidos previamen- te são também aplicáveis à atuação do MFC. O MFC age como defensor dos direitos, dos interesses e das necessidades das pessoas atendidas e da população pela qual é responsável (DAHLBERG; KRUG, 2007). O comprometimento entre o médico e a pessoa assistida não tem um ponto final definido, sendo então uma especialidade médica definida em termos de cons- trução de relacionamentos ao longo do tempo (LOPES, 2019). A medicina de família e comunidade é regida por princípios que norteiam os cami- nhos dos especialistas e serão aqui discutidos aplicados ao enfrentamento de casos de violência. Acompanhe. - O médico de família e comunidade é um clínico qualificado O MFC é o especialista que atende os problemas relacionados com o processo saú- de-doença, de forma integral, contínua e sobre um enfoque de risco, no âmbito in- dividual e familiar (LOPES, 2019). Para tanto, na avaliação dos casos de violência, não basta ao MFC que ele tenha apenas boa vontade, é necessário ampliar o conhecimento na detecção e manejo desse problema. No entanto, ainda existem profissionais que não têm como hábito suspeitar ou tomar a questão da violência para seu trabalho de forma consciente e rotineira, questionando de forma equivocada se essa avaliação seria pertinente como parte integrante do seu trabalho em saúde (DAHLBERG; KRUG, 2007). Fonte: MARINHO, 2008c | Acervo Fundação Oswaldo Cruz EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 44 É sabido que a revelação da violência depende de um bom vínculo, de confiança e de uma postura ativa e isenta de julgamento por parte do profissional, o que torna o MFC o especialista mais indicado para essa abordagem. O treinamento de práticas adequadas para que o MFC possa exercer essa ação de diagnóstico, propedêutica (se for necessária) e terapêutica para cuidado pertinen- te a situações de violência é fundamental para uma boa atuação clínica do profis- sional (DAHLBERG; KRUG, 2007). - A atuação do médico de família e comunidade é influenciada pela comunidade O MFC tem a prática voltada para a análise dos principais problemas de saúde na comunidade. As doenças devem ser analisadas segundo a sua relevância e mag- nitude assim como os fatores de risco e as vulnerabilidades associadas presentes na comunidade (LOPES, 2019). Assim, o MFC e as equipes da APS estão em posição privilegiada para a detecção dos casos de violência, já que o acompanhamento continuado e o estudo da co- munidade, com as necessárias adequações de condutas pertinentes às queixas identificadas, favorecem essa percepção. Além disso, o MFC tem relação com todas as pessoas da sua área adscrita e isso representa uma enorme oportunidade para a redução de danos causados pela violência (DAHLBERG; KRUG, 2007). - O médico de família e comunidade é o recurso de uma população definida O MFC é o acesso facilitado das pessoas ao sistema de saúde e é utilizado por elas da forma que for necessária, permitindo ingressar no sistema de maneira coorde- nada e eficiente. Agindo assim, o MFC gerencia os recursos, sendo a ligação com outros especialistas e outros setores sociais o que o converte em gestor e admi- nistrador dos recursos humanos e materiais do próprio sistema (CASTILLO et al., 2010). Essas características favorecem ações coordenadas necessárias à abordagem de eventos de violência, que exigem a atuação dos setores de saúde, segurança, pro- teção e suporte social. 45 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar A disponibilidade do MFC para atuação nessas situações específicas de contex- to de violência permite a organização do tempo de atendimento adequado, escuta qualificada e detalhada e direcionamento de recursos de forma equâ- nime, de acordo com as demandas levantadas. A partir dessa escuta, um plano de cuidados deve ser estabelecido com o sujeito em questão. A ação sobre esses casos visa coibir e evitar a violência, de forma compartilhada, o que demanda comprometimento e vinculação. O plano estabelecido deve buscar garantir não somente o fim da violên- cia, mas também a consciência de todos sobre a origem de seus proble- mas e os caminhos para sua resolu- ção. Para isso, é necessário que o pla- nejamento faça sentido e seja adequado para o sujeito e seus planos de vida, que podem ser renovados em novos encontros com seu MFC (DAHL- BERG; KRUG, 2007). Vale reforçar que o serviço pode e deve estender o seu cuidado a todos os envolvidos nas situações de violência, tanto da família quanto da comunidade, sendo otimizada sua utilização como recurso social que objetiva a redução de violência, de todo tipo de discriminação e de promoção dos direitos humanos (DAHLBERG; KRUG, 2007). - A relação médico-pessoa é fundamental para o desempenho do médico de família e comunidade O MFC tem a capacidade para estabelecer empatia, buscando uma relação com as pessoas de forma efetiva e especí- fica, desenvolvendo alto grau de auto- conhecimento. Reconhece o indivíduo como único e que suas características individuais contribuem para modificar as maneiras como são obtidas infor- mações e cria explicações (estrutura hipóteses) acerca da natureza dos seus problemas e de como devem ser ma- nejados. Entende que ajudar as pessoas a resolver seus próprios problemas é uma atividade terapêutica fun- damental e reconhece que se deve realizar contribuições profissionais para uma comunidade mais ampla (CAMPOS, 2005). O relacionamento sempre adquire uma importância especial para as pessoas, Fonte: MARINHO, 2011 | Acervo Fundação Oswaldo Cruz Fonte: Freepik.com EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 46 suas famílias e o médico. Como resultado, o MFC torna-se um defensor da pessoa, da sua família e sua comunidade (DAHLBERG; KRUG, 2007; LANDSBERG; SIQUEIRA; PEREIRA, 2012). Para que essa relação ocorra de forma adequada, alguns pontos precisam ser valorizados: - garantir e reforçar a privacidade e o sigilo, avaliando, inclusive, a necessidade de restrição de acesso à informação dentro da própria equipe, uma vez que alguns profissionais, como os agentes comunitários de saúde, costuma ser parte da comunidade; - garantir a necessidade de consultas, ocasionalmente, com maior periodicida- de e/ou maior tempo de escuta, inclusive em horários não agendados, que respei- tem as demandas prioritárias de cada caso; - acreditar e respeitar a história que está sendo contada, nunca duvidando, des- merecendo ou desvalorizando o que é importante para a pessoa, com cuidado em registro fiel em prontuário e exame físico atencioso para identificação de sinais que possam comprovar a violência; - esclarecer e reforçar que a violência é sempre errada e que ninguém pode ser culpado por sofrer violência, evitando a banalização e a relativização do que pode ser considerado violência; - não tratar a pessoa que sofre os atos de violência como uma vítima cristali- zada em uma atitude passiva e indefesa,mas sim visando recuperar sua capa- cidade como sujeito e sua potencialidade de vida, favorecendo o comprometimen- to da pessoa e sua retomada de competências durante o processo; - o contato com a violência pode ser cansativo e mobilizar emoções no profissional, que podem levar a danos e sofrimentos importantes, por isso é fundamental estar atento a esse risco e conversar com a equipe envolvida e outros profissionais de referência para realizar um trabalho de forma consciente e bem articula- da (DAHLBERG; KRUG, 2007). O MFC como pessoa vai, então, desenvolver a capacidade de conhecer-se a si mesmo, identificar seus paradigmas por meio da introspecção, conhecer e manejar suas emoções, preconceitos e valores, resultando, também, em seu crescimento pessoal, além do profissional (CASTILLO et al., 2010). 47 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Encerramento da unidade Nesta unidade, aprofundamos conhecimentos sobre a abordagem da família diante do processo de saúde e adoecimento, compreendendo as características das fa- mílias brasileiras, desde o contexto histórico até a configuração atual. Também compreendemos a tipologia familiar, os ciclos de vida familiar e a funcionalidade familiar. Aprimorando o aprendizado sobre a atuação do médico da família e comunidade, também compreendemos melhor tópicos importantes sobre a violência intrafami- liar, e como as equipes de saúde podem atuar nesse sentido. Continue seus estudos na próxima unidade e tenha um excelente aprendizado! EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 48 Ferramentas para abordagem familiar na atenção primária à saúde OBJETIVO DE APRENDIZAGEM DA UNIDADE Aplicar os instrumentos de abordagem familiar na Atenção Primária à Saúde. INTRODUÇÃO Boas-vindas à Unidade 2 do Módulo de Abordagem Familiar! Como você viu até aqui, as famílias podem ser classificadas de acordo com sua com- posição (tipologia familiar), suas etapas (ciclos de vida) ou seus subsis- temas relacionais (filial, parental, conjugal). Anteriormente, o IBGE também considerava o coletivo de pessoas conviventes, mas “sem laços de parentesco”, como nos casos em que a pessoa responsável residia com “núcleos familiares formados por agregados, pensionistas, empre- gado(a) doméstico(a) ou parente do(a) empregado(a) doméstico(a)” (IBGE, 2014, p. 34). O IBGE (2014) diferencia: - “Família única” (núcleo familiar da pessoa responsável pela unidade do- méstica/ domicílio) e - “Famílias conviventes” (núcleos familiares em uma mesma unidade doméstica). UNIDADE 02 49 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Com isso, podemos separar as Ferramentas de Classificação de famílias, já abor- dadas na Unidade 1, das demais ferramentas que discutiremos a seguir. A partir deste momento, discutiremos algumas ferramentas que permitem representar as famílias de maneira gráfica, realizar a avaliação familiar quanto à funcionalidade e vulnerabilidade, além de apresentar ferramentas de abordagem familiar propria- mente dita. Figura 02 - Instrumentos da Abordagem Familiar. Fonte: elaborado pelos autores, 2020. Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de: • Utilizar instrumentos para classificação, representação, avaliação e aborda- gem de famílias. • Reconhecer na abordagem familiar a resiliência, a vulnerabilidade e os ele- mentos socioculturais familiares relevantes para o cuidado em saúde. • Avaliar aspectos básicos das necessidades de visita domiciliar • Identificar as indicações e o manejo essencial adequado em cuidados paliati- vos no ambiente domiciliar. Além disso, faremos ao final uma breve análise de como os cuidados domiciliares e cuidados terminais devem ser abordados do ponto de vista da família. Bons estudos! EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 50 2.1 FERRAMENTAS DE REPRESENTAÇÃO FAMILIAR Genograma é um diagrama da árvore genealógica e das relações entre cada um de seus membros. O genograma pode focar apenas na unidade fami- liar, ou em outras formas familiares que incluam duas ou mais gerações, por exemplo, quando os avós moram com seus filhos ou quando, embora não vivam com seus filhos e netos, desempenham um papel relevante na descrição e avaliação da família (LOPEZ; ESCUDERO, 2013). O genograma é uma maneira de representar a família de forma gráfica, esquemáti- ca, identificando a estrutura familiar (membros), tipos e intensidade dos seus rela- cionamentos, associados à informações acerca de problemas de saúde, idade/data de nascimento e algumas outras questões relevantes que devem ser registradas, como problemas biomédicos, genéticos, comportamentais e sociais que envolvem a família (DIAS; GUIMARÃES, 2020). As ferramentas de representação familiar genograma e ecomapa são primordiais para compreendermos melhor o processo de adoecimento nas famílias, conhecer a situação dos seus membros e suas relações não apenas dentro da família, mas também com a comunidade onde vivem e estabelecem suas redes de apoio. São também reconhecidas como ferramentas que representam o ecossistema familiar (LOPEZ; ESCUDERO, 2013). Vamos aprofundar conhecimentos sobre as duas fer- ramentas a seguir, acompanhe. 2.1.1 O QUE É O GENOGRAMA 51 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar O link a seguir oferece um aplicativo elaborado com o intuito de facilitar a criação e o manuseio de genogramas em formato eletrônico. Você pode se cadastrar no sistema e criar o genograma de uma família gratuitamente: https://www.nescon.medicina.ufmg.br/genograma/ Dessa forma, permite uma representação visual de diversos processos ao mesmo tempo, cujo registro textual em prontuário se tornaria amplo, por vezes confuso, e de difícil localização em meio ao volume de registros normalmente realizados na Atenção Primária. Assim, favorece o planejamento terapêutico e permite à família alguns benefícios, conforme pode ser visto a seguir. Figura 03 - Benefícios do genograma. Fonte: Elaborado pelos autores. Ao permitir uma visualização breve sobre a situação da família, como um novo ca- samento ou nascimento, permite avaliar e compreender a família, por qualquer profissional da saúde, melhorando assim a longitudinalidade do acompanhamen- to, reforçando o vínculo e demonstrando quem vive na mesma residência, identi- ficando ao início de qualquer contato com membros da família os fatores de risco importantes, as necessidades de rastreamento para situações de risco e de pro- moção da saúde com a possibilidade de reconhecer elementos de crenças que per- mitam ênfase específica na orientação do paciente (HORTA, 2008). Com isso, o genograma permite avaliar questões relevantes para elaboração de um projeto terapêutico familiar, facilitando a visão do contexto psicossocial e de situações vivenciadas tanto pelo paciente quanto pela família, ampliando a detec- ção de situações conflituosa em suas próprias relações. EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 52 O genograma é um instrumento de análise ao mesmo tempo familiar e individual, tendo em vista que apresenta a representação da família a partir de uma visão do indivíduo entrevistado, e que essa visão é apenas uma das que percebem aquela família. A visão de um filho acerca de uma relação conflitiva entre mãe e filha, por exemplo, pode ser interpretada como relação muito próxima pelo pai desses mesmos filhos. Elementos do genograma O genograma é composto por dois grandes grupos de elementos: os elementos estruturais e os elementos funcionais. Confira. Fonte: Adaptado de CURRA; FERNANDES, 2006; DIAS; GUIMARÃES, 2020. 53 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Podem ainda ser incluídos, dependendo da complexidade e da situação em análise, os seguintes pontos: fase do ciclo vital; sistema familiar de origem; estressores; rede social de apoio; interpretações do problema (CURRA; FERNANDES, 2006). As figuras a seguir demonstram as simbologias utilizadas no genograma bem como alguns exemplos de genogramas. Figura 04- Símbolos padrão do genograma. Fonte: Adaptado de HORTA(2008); MCGOLDRICK; GERSON; PETRY (2020). EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 54 Figura 05- Representação das Relações. Fonte: Adaptado de HORTA (2008); McGOLDRICK; GERSON; PETRY (2020). 55 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Figura 06- Exemplo de genograma. Fonte: SAVASSI, 2017. Exemplos de genograma: Figura 07- Exemplo de genograma. Fonte: BRASIL (2013, p. 27). EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 56 Uso racional do genograma Embora a discussão se o genograma seria “o bisturi” da especialidade – ou seja, um instrumento presente em qualquer abordagem do MFC assim como o bisturi o é para o cirurgião – ou se seria o “hemograma” dessa – ou seja, um elemento que traz muitas informações, mas que deve ter indicações precisas e consequências – a percepção da importância dele faz com que devamos ter alguns cuidados, con- forme veremos a seguir. Deve ser colocado no início do prontuário, mas evitar colocá-lo na capa externa do mesmo, notadamente em prontuários familiares. Há dados que são sigilosos, mesmo para profissionais do campo da saúde (como agentes comunitários de saúde, por exemplo) e um prontuário familiar – de papel – aberto em frente a outro familiar pode gerar questões éticas importantes. Lembre-se de que o genograma é um instrumento de represen- tação da família a partir de uma visão, e que essa visão é uma das lentes de percepção daquela família. Idealmente deve estar dentro de uma folha de rosto que con- temple também problemas prévios, ações preventivas, plano te- rapêutico e plano propedêutico, sendo parte de um inventário de vida daquela pessoa sob cuidados. Deve ser atualizado na medida em que problemas, relaciona- mentos, atritos e outros eventos se sucedem. O uso de lápis para configurar relacionamentos e funcionalidades é desejável, podendo o item estrutural ser desenhado à caneta. 57 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 2.1.2 ECOMAPA O ecomapa é também uma ferramen- ta que adota duas representações grá- ficas complementares: o primeiro cenário é o desenho da família, ao centro, com foco nos membros que residem no mesmo local, delimitados por um círculo que determina o núcleo familiar; o segundo cenário é o desenho dos elementos que são im- portantes na vida dessa família, sejam pessoas, instituições ou agrupamen- tos. Esses cenários são complementa- dos com a representação das relações e da dedicação entre eles. Muitas vezes, entender o contexto próximo da família no genograma não é sufi- ciente para compreender a família, uma vez que a mesma se relaciona com o meio e com outros atores sociais, outras famílias, pessoas ou instituições e que essas relações são fundamentais para se atingir e preservar o equilíbrio “bio-psico-espí- rito-social” da unidade familiar. Assim, surge a necessidade de criação de um novo instrumento para detectar e avaliar tais relações (HORTA, 2008). O ecomapa, portanto, inclui os membros da família e suas idades no centro do círculo e utiliza a mesma simbologia do genograma. São desenhados círculos ou símbolos externos que mostram os contatos da família com membros da comuni- dade ou com pessoas significativas, instituições, elementos sociais e grupos signi- ficativos, dentre outros. São também desenhadas linhas que indicam o tipo de conexão. Assim, o ecomapa também inclui várias informações acerca das relações da família com o ambiente externo (DIAS; GUIMARÃES, 2020): EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 58 Além dos elementos gráficos de relacionamentos, sugerem-se ainda informações temporais e espaciais para identificar a disponibilidade de tais recursos. As figuras a seguir apresentam a simbologia do ecomapa e um exemplo prático do mesmo (LOPES; ESCUDERO, 2013). Figura 08- Simbologia do Ecomapa – linhas de relações. Fonte: Adaptado de Horta (2008) e de Dias e Guimarães (s/d). 59 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar No ecomapa, os membros da família e suas idades são mostrados no centro do círculo. Os círculos externos mostram os contatos da família com membros da co- munidade ou com pessoas e grupos significativos. As linhas indicam o tipo de conexão: linhas contínuas representam ligações fortes, relações sólidas; linhas pon- tilhadas, ligações frágeis, relações tênues; linhas com barras ou talhadas, aspectos estressantes ou relações conflituosas. Quando setas aparecem desenhadas ao lado das linhas significam o fluxo de energia e recursos. Ausência de linhas significa au- sência de conexão. Pode-se usar de forma combinada o genograma com o ecomapa (HORTA, 2008). Confira, agora, um exemplo de ecomapa. Figura 09- Exemplo de Ecomapa. Fonte: Internato de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) eMulti EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 60 Uso racional do ecomapa O ecomapa nos permite uma visão inicial das principais relações entre a família e o mundo, permitindo avaliar comportamentos, relacionamentos e vínculos no tempo com as famílias, podendo ser usado como um elemento inicial de uma terapia familiar, na qual permite “quebrar o gelo” entre essa e o profissional da saúde, propiciando um clima favorável para a entrevista (MARINHO, 2004). Pode ser aplicado individualmente, ou durante a entrevista inicial com as famílias, e deve ser modificado ou completado em outras entrevistas, para ser um elemento dinâmico de avaliação. Os membros das famílias participam ativamente de sua construção e o seu uso deve ser estimulado na avaliação da família, mas também para planejar e reestruturar assim como entender as percepções de indivíduos e suas famílias sobre elas mesmas. Lembre-se! 2.2 FERRAMENTAS DE AVALIAÇÃO FAMILIAR As ferramentas de avaliação familiar pretendem- -se úteis para a avaliação das relações familiares, sendo adequadas para entender o grau de fun- cionalidade das famílias e para servir de elemen- tos de avaliação para intervenções familiares, quando necessárias. Assim como o genograma, que é ao mesmo tempo uma ferramenta de abordagem familiar e individual (por representar a visão de um indivíduo acerca da família), o ecomapa será uma ferramenta de análise individual se for construído a partir da visão de um indivíduo, mas também familiar e comunitário a partir do momento em que são identificados elementos desses contextos e sua influência na família. Fonte: Freepik.com 61 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 2.2.1 FUNDAMENTAL INTERPERSONAL RELATIONS ORIENTATION (FIRO) – ORIENTAÇÕES FUNDAMENTAIS NAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS) Trata-se de um instrumento de avaliação que se baseia em uma teoria de necessi- dades individuais dentro do núcleo familiar. Em outras palavras: representa as ne- cessidades e ofertas de elementos fundamentais na convivência familiar, sendo pau- tadas pela percepção da pessoa acerca desses elementos. O FIRO auxilia no entendimento de sentimento de desconforto ou preocupação para a resolução de problemas de relacionamento pessoal intrafamiliar. Entendendo como as pessoas agem e como se interrelacionam, é possível predizer algumas de suas ações futuras. São três os campos de avaliação de necessidades, representados pelos seguintes construtos: - A inclusão, ou seja, o tanto que existe a possibilidade de a pessoa participar dos eventos cotidianos. - O controle, representado pela capacidade de liderança e participação na tomada de decisões dentro do núcleo familiar. - A intimidade, ou seja, as questões ligadas ao afeto, ao amor, ao carinho e suas res- pectivas demonstrações. Para cada um desses construtos, avalia-se tanto a demanda do indivíduo, ou seja, a necessidade que essa pessoa tem em ser incluída, em ser guiada e ser querida, quanto a oferta desses mesmos construtos, ou seja, o quanto essa mesma pessoa oferta in- clusão, liderança e afeto. O quadro abaixo apresenta uma síntese da interrelação desses construtos. Quadro 04 – Avaliação de necessidades individuais dentro do núcleo familiar. Inclusão (Interação, associação) Controle (Poder)Intimidade (Amor, afeto) Demanda Ser aceito, convidado Ser guiado Ser querido Oferece Interesse, busca da aceitação Liderança Amor, aproximação Fonte: Griffin, 1991. EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 62 Como aplicar A teoria do FIRO parte do princípio que as atitudes dos indivíduos buscam uma res- posta no outro, e que seres humanos possuem especialmente três necessidades, em maior ou menor grau – conforme visto anteriormente, a inclusão, o controle e a intimidade (GRIFFIN, 1991; HORTA, 2008). Assim, o FIRO é um instrumento de análise da família a partir das dimensões de inclusão, controle e intimidade, fornecendo condições para se perceber os signifi- cados dos diferentes processos de interação que ocorrem no grupo em estudo, au- xiliando no planejamento da abordagem familiar. O quadro a seguir demonstra como podemos realizar a avaliação. Quadro 05 - Avaliação dos domínios do FIRO. Domínios do FIRO Gradação de cada domínio - Inclusão demandada Eu gosto que as pessoas me chamem para participar de suas conversas. ( ) Maioria das pessoas ( ) Muitas pessoas ( ) Algumas pessoas ( ) Poucas pessoas ( ) Uma ou duas pessoas ( ) Ninguém - Inclusão oferecida Quando as pessoas estão fazendo coisas juntas, eu tendo a me juntar a elas. ( ) Normalmente ( ) Às vezes ( ) Ocasionalmente ( ) Raramente ( ) Nunca - Controle demandado Eu deixo outras pessoas controlarem minhas ações. ( ) Normalmente ( ) Às vezes ( ) Ocasionalmente ( ) Raramente ( ) Nunca - Controle oferecido Eu tento que as outras pessoas façam as coisas à minha maneira. ( ) Normalmente ( ) Às vezes ( ) Ocasionalmente ( ) Raramente ( ) Nunca - Intimidade demandada Eu gosto que as pessoas se tornem próximas, íntimas. ( ) Normalmente ( ) Às vezes ( ) Ocasionalmente ( ) Raramente ( ) Nunca - Intimidade oferecida Eu tento ter relações mais íntimas com as outras pessoas. ( ) Maioria das pessoas ( ) Muitas pessoas ( ) Algumas pessoas ( ) Poucas pessoas ( ) Uma ou duas pessoas ( ) Ninguém Fonte: Griffin (1991). 63 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Portanto, para se compreender a funcionalidade dessa ferramenta de abordagem familiar é necessário levar em consideração que as mudanças ocorridas na família irão proporcionar novas formas de interação (de inclusão, controle e intimidade, conforme visto anteriormente). O FIRO tem dois postulados que se referem às mudanças familiares. O primeiro é que nas transições de ciclo de vida e nos eventos estressantes a família tem que criar novos padrões de inclusão, controle e intimidade para se adaptar. Isso pode implicar em uma reorganização de papéis, alianças e limites, por exemplo, que terá consequência na disputa pelo controle e também na qualidade de intimidade fa- miliar. O segundo postulado é que a inclusão, o controle e a intimidade constituem uma sequência desenvolvimental no manejo das mudanças familiares que favore- cem a adaptação (DIETRICH; GABARDO; MOYSES, 2009). Para o manejo de uma importante mudança familiar a inclusão deve vir antes do controle e este, antes da intimidade. Importante! Resolver problemas de inclusão é condição sine qua non para o sucesso nas áreas de controle e intimidade, assim como somente depois da solução da categoria de controle é que se pode formar novos padrões de intimidade (CHAPADEIRO; ANDRADE; ARAÚJO, 2011). Sérias dificuldades de interações familiares estão ligadas a falhas na adaptação às mudanças, ou seja, ao não seguimento da sequência desenvolvimental das três di- mensões (SALES, 2006, p.75-76). Uso racional do FIRO Enquanto elemento de avaliação das relações interpessoais, o FIRO reserva-se para situações nas quais há necessidade de se aprofundar nas relações intrafamiliares, quando distúrbios de funcionalidade se tornam prováveis ou reais ao longo de uma consulta, da própria elaboração do genograma, ou quando há por exemplo diver- gência de percepções em atendimentos individuais, que sugiram que há a neces- sidade de ampliar o entendimento das relações daquela família. Como descrito no próprio conteúdo, o FIRO se limita a avaliar as famílias sob os componentes de intimidade, afeto e poder, que são altamente definidores de ne- cessidades familiares, mas não representam um mapa de todas as necessidades individuais e pessoais. EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 64 A ferramenta pode ser muito útil, por exemplo, na identificação das necessidades individuais não satisfeitas e na comparação entre o que os membros da família estão dispostos a oferecer ou a demandar, desnudando essas necessidades e podendo ser um potencial elemento de esclarecimento de conflitos familiares que possam ser resolvidos entre os membros da família. 2.2.2 APGAR DE FUNCIONALIDADE FAMILIAR O APGAR da família é um instrumento de avaliação destinado a refletir sobre a sa- tisfação de cada um de seus membros. O termo APGAR representa um acróstico que define os construtos a serem avaliados para determinação da funcionalidade fami- liar (SMILKSTEIN; ASHWORTH; MONTANO, 1982). Confira. Significado do acróstico APGAR. Fonte: SILVA et al., 2014. 65 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Vamos entender um pouco mais o que significa cada um desses elementos. Veja algumas perguntas que podem te ajudar a explorar cada um dos construtos do APGAR: Como aplicar o APGAR A avaliação pode ser feita via questionário de cinco perguntas a serem pontuadas e analisadas depois. Os diferentes escores devem ser comparados para se avaliar o estado funcional da família. EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 66 Quadro 06 - Questionário de avaliação de APGAR. Quase sempre Às vezes Raramente Estou satisfeito com a atenção que recebo da minha família quando algo está me incomodando ( ) ( ) ( ) Estou satisfeito com a maneira com que minha família discute as questões de interesse comum e compartilha comigo a resolução dos problemas ( ) ( ) ( ) Sinto que minha família aceita meus desejos de iniciar novas atividades ou de realizar mudanças no meu estilo de vida ( ) ( ) ( ) Estou satisfeito com a maneira com que minha família expressa afeição e reage em relação aos meus sentimentos de raiva, tristeza e amor ( ) ( ) ( ) Estou satisfeito com a maneira com que eu e minha família passamos o tempo juntos ( ) ( ) ( ) A pontuação em cada uma das cinco questões é de zero a dois, sendo zero o pior cenário e, portanto, cada indivíduo gera um escore de satisfação que varia de zero a 10. Sob este aspecto, a família é classificada: 7 a 10: família altamente funcional 4 a 6: família moderadamente disfuncional 0 a 3: família altamente disfuncional Fonte: SMILKSTEIN; ASHWORTH; MONTANO, 1982. Uso racional do APGAR O APGAR familiar destina-se a avaliar a funcionalidade da família, sendo o instru- mento desenvolvido para tal, e tem como diferencial, além disso, a possibilidade de se classificar famílias a partir de escores. Ao contrário do FIRO, ele apresenta escores de avaliação para cada item e uma soma cujos pontos de corte definem o grau de funcionalidade familiar, sendo mais objetivo em sua avaliação. Pode ser feito a partir de uma avaliação única, individual, ou a partir da média dos escores das pessoas envolvidas, notadamente quando há divergência de visões. 67 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Portanto, ele não se destina a todas as famílias sob nossos cuidados, mas também a famílias para as quais existe a suspeição de que a mesma não está “funcionante”, naquela em que pode haver discrepância na análise em outras etapas da abordagem da família (como no desenho do genograma, ou na avaliação das crises previsíveis dos ciclos de vida), ou ainda quando há a percepção de algum dos membros da família, em qualquer dos encontros com a família, de que a família não é funcional. 2.3 AVALIAÇÃO DA VULNERABILIDADE FAMILIAR 2.3.1VULNERABILIDADE COMO CONCEITO Vulnerabilidade é um conceito amplo, com epistemologia rica e, exatamente por isso, oriundo de diversas terminologias e diversas percepções, como as da saúde coletiva e ambiental, da sociologia, da antropologia e da saúde da família. Na saúde, risco refere-se em geral a situações mutáveis por políticas de maior espec- tro, enquanto a vulnerabilidade refere-se a características das pessoas ou famílias e sua capacidade de responder às sentinelas de risco que determinam uma maior vul- nerabilidade social ou ambiental. Assim, estas podem ser minimizadas ou enfrenta- das com maior êxito quando pessoas e famílias ou mesmo coletivos e comunidades são resilientes (JANCZURA, 2002). Na saúde coletiva, a representação conceitual de vulnerabilidade mais consolidada considera três vertentes (AYRES et al, 2006): - Vulnerabilidade individual: capacidade de resistência individual frente a problemas e capacidade de operá-la na construção de práticas protetoras integradas ao cotidiano. - Vulnerabilidade social: elementos do meio social que poderiam ser enfrentados de forma coletiva e mediante políticas públicas em busca de segurança e proteção. - Vulnerabilidade programática: possibilidade de acesso a programas e serviços pú- blicos, embora haja a percepção de que é compensatório, não é contextual e nem ine- rente à capacidade intrínseca de resiliência, se afastando do conceito de vulnerabili- dade no âmbito da APS. Famílias, como apresentado na discussão sobre o método clínico centrado na pessoa, são o con- texto mais próximo da vida das pessoas sob a nossa atenção e influem diretamente na capaci- dade de resistir ao adoecimento, a crises pesso- ais, espirituais, sociais ou financeiras, podendo ser fonte de apoio ou de fragilidade, podendo atuar como elementos de enfrentamento da vul- nerabilidade individual ou, por outro lado, como ponto de ampliação desta.Fonte: Freepik.com EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 68 Risco associa-se a grupos e populações; vulnerabilidade refere-se aos indivíduos e às suas suscetibilidades ou predisposições a respostas ou consequências negativas. O “comportamento dos sujeitos perante esses eventos depende de sua vulnerabi- lidade”. Já o risco se refere “às condições fragilizadas da sociedade tecnológica con- temporânea, vulnerabilidade identifica a condição dos indivíduos nessa sociedade”. Vulnerabilidade, por outro lado, não é uma “estratégia” ou “resposta” para enfren- tamento de crises, embora seja condição necessária, um “pré-requisito” para isto (JANCZURA, 2002; YUNES; SZYMANSKI, 2001). Um dos elementos que se deve analisar no contexto familiar é o grau de vulnerabi- lidade em que esta família se encontra, determinando qual é o nível de fragilidade e incapacidade de resistência que a acomete; por outro lado, entender quais fatores são capazes de gerar esta mesma resistência, ou resiliência, para esta mesma família, é fundamental para uma prática de saúde centrada nela. 2.3.2 DETERMINAÇÃO DA VULNERABILIDADE FAMILIAR A Escala de Vulnerabilidade Familiar de Coelho e Savassi (EVF-CS) foi elaborada por Flávio Coelho, médico de família e comunidade de Contagem (MG), originalmente como uma tentativa de sistematizar e priorizar visitas domiciliares para famílias a partir das diferentes demandas de cuidados. O uso dessas informações valoriza o processo de trabalho do ACS, a partir de dados disponíveis (não demanda nova ficha ou coleta ou ação burocrática) na ficha A do Sistema de Informações da Atenção Básica (SIAB) que, avaliadas e pontuadas, definem escores de vulnerabilidade que determinam a necessidade de um maior ou menor investimento de recursos da equipe (COELHO; SAVASSI, 2004; SAVASSI; LAGE; COELHO, 2012). A escala tem sido utilizada de forma abrangente por equipes de Atenção Primária a Saúde (APS). Nem mesmo a modificação do sistema de informação da Atenção Básica para o SIS-AB, dentro da lógica das fichas de cadastro diferentes, do eSUS, foi capaz de arrefecer os estudos na área da vulnerabilidade familiar. A Vulnerabilidade Familiar é mais um eixo de análise, dentre outras vulnerabilida- des presentes no território, e destacadas no campo da saúde coletiva – como a vulnera- bilidade individual, a social e a ambiental. O conceito de vulnerabilidade, ao invés de risco, respalda-se no conceito de que vulnerabili- dade é mutável a partir da construção de uma ação individual ou familiar (ou mesmo comunitária) que acaba nos aproximando do conceito de resiliência como estratégia de enfrentamento da própria vulnerabilida- de (JANCZURA, 2002; SAVASSI, 2018). Assim, o conceito de vulnerabilidade fami- Fonte: Freepik.com 69 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar liar se aproxima bem mais do conceito trazido pela área da saúde e das Ciências Sociais do que propriamente do conceito de vulnerabilidade ambiental, do concei- to de vulnerabilidade programática e de outros conceitos mais próximos da lógica do risco e do enfrentamento aos fatores de risco (JANCZURA, 2012). Para entender como aplicar a escala, acesse o seguinte material: “Sistematização de instrumento de estratificação de risco familiar: a Escala de Risco Familiar de Coelho-Savassi”, disponível em https://doi.org/10.14295/ jmphc.v3i2.155 Assim, o uso da escala prevê a soma das sentinelas de risco a partir da pontuação descrita no quadro a seguir. Quadro 07 – Pontuação dos escores de r isco na escala de vulnerabilidade familiar de Coelho e Savassi. Sentinelas de risco Escore de risco Acamado 3 Deficiência física 3 Deficiência mental 3 Baixas condições de saneamento 3 Desnutrição grave 3 Drogadição 2 Desemprego 2 Analfabetismo 1 Indivíduo menor de seis meses de idade 1 Indivíduo maior de 70 anos de idade 1 Hipertensão Arterial Sistêmica 1 Diabetes Mellitus 1 Relação morador/cômodo maior que 1 Relação morador/cômodo igual a 1 Relação morador/cômodo menor que 1 3 2 0 Fonte: Coelho e Savassi (2004). EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 70 Quadro 08 - Classificação de vulnerabilidade familiar pela escala de vulnerabilidade familiar de Coelho e Savassi. Escore total Vulnerabilidade Familiar 0 a 4 R0 – Vulnerabilidade habitual 5 e 6 R1 – Vulnerabilidade menor 7 e 8 R2 – Vulnerabilidade média Acima de 9 R3 – Vulnerabilidade máxima Fonte: Coelho e Savassi (2004); Savassi, Coelho e Lage (2011) Essa estratificação sofre influência do tipo de região que você está assistindo. Sen- tinelas de riscos sociais que se apresentam de forma sistemática definirão áreas de vulnerabilidade e, mais do que servirem para determinar o grau de vulnerabi- lidade, provavelmente influirão no ponto de corte dos níveis de vulnerabilidade. Os pontos de corte, por sua vez, são controversos, devendo ser mantidos para fins científicos (publicações e pesquisas), mas mantendo a liberdade de modificá-los dependendo do perfil populacional. Assim, para comunidades com poucas famílias vulneráveis, ou sob influência de poucos determinantes sociais, possivelmente pontos de corte menores sejam mais adequados para priorizar famílias. Por outro lado, em comunidades altamente vulneráveis do ponto de vista social, familiar ou com carga elevada de doenças, possivelmente será necessário estabelecer um ponto de corte mais alto tendo em vista o grande número de famílias de alta vulnerabilidade, uma vez que a manutenção do ponto de corte, nesse caso, não permitiria uma priorização adequada. Atenção A partir dessa pontuação, estabelecem-se estratos de vulnerabilidade, como a seguir. 71 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Uso racional da EVF-CS Apesar de inicialmente usada para a sistematização da Visita Domiciliar (VD) na eSF, a EVF-CS temampla gama de usos a partir da determinação do grau de vulnerabilidade de uma família, podendo ser utilizada para priorização de famílias para intervenções diversas, bem como para definir quais famílias deveriam ser foco da ampliação da abordagem familiar. A maior utilidade da EVF-CSé no planejamento de ações pela equipe, podendo ser o ponto de partida para diferentes intervenções, dentre elas a reorganização das VD dos ACS e a priorização por critérios de equidade da aplicação das ferramentas de abordagem familiar. 2.3.3 PRACTICE PRACTICE é um acróstico para uma diretriz para avaliação do funcionamento das famílias, permitindo uma estrutura esquematizada para trabalhar com famílias. O objetivo é entendimento da dinâmica familiar e dos problemas que aparecem dentro da família. Funciona como um roteiro para obtenção de informações e é focado na resolução de problemas, sendo geralmente usado para preparar conferências ou entrevistas familiares, pois permite a elaboração de uma avaliação ampliada, com a construção de intervenção para o problema, seja ele de ordem clínica, comportamental ou relacional (CURRA; FERNANDES, 2006). O acróstico também é proveniente da língua inglesa e seus itens estão dispostos no quadro a seguir. Quadro 09 – Significado do acróstico PRACTICE. Abreviações Inglês (original) Português (tradução) P Presenting problem Problema apresentado R Roles and structure Papéis e estrutura A Affect Afeto C Communication Comunicação T Time in life cycle Tempo no ciclo de vida I Illness in family Doenças na família C Coping with stress Enfrentando o estresse E Ecology Ecologia Fonte: Adaptado de CURRA; FERNANDES, 2006; DIAS; GUIMARÃES, 2020. EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 72 Muitas das informações necessárias para este instrumento podem ser extrapola- das para uma discussão geral com a família sobre a sua percepção do problema presente. O treinamento em abordagem sistêmica dá ao profissional de cuidados primários a condição única de ter uma visão holística, biopsicossocial, do paciente e de sua família, o que permite ações mais eficientes com um mínimo de agressão e um máximo de satisfação com o trabalho desenvolvido (WAGNER et al., 2001). Problema apresentado: refere-se à percepção e definição da família acerca de algum problema a ser enfrentado, em geral o problema que desencadeou a des- compensação familiar. Pode ser descoberto ou representado a partir do genogra- ma, das ferramentas de avaliação da família, ou pelo próprio prontuário de um membro da família, paciente do MFC, como, por exemplo, uma doença grave. Papéis e estrutura: aprofunda aspectos do desempenho dos papéis de cada um dos familiares e como eles se manifestam e se modificam a partir dos seus posi- cionamentos, pode ser identificado a partir, por exemplo do FIRO, identificando papéis de membros da família (controle, afeto e intimidade) bem como a partir da tipologia familiar. Uma ferramenta de análise da família que não pertence a este rol, mas pode ser utilizada também, é a Constelação Familiar. Entender os papéis de cada membro e a estrutura familiar será fundamental para entender a capaci- dade de resposta e estruturação dessa família frente às crises. Constelação Familiar (Constelações Sistêmicas ou Constelações Familiares Sistêmicas) é uma prática baseada em elementos da terapia familiar sistêmica, mesclados a aspectos místicos de origem indígena. Seu fundador, Bert Hellinger, viveu por 16 anos na África do Sul, sofrendo forte influência dos rituais zulus dos quais participou. Segundo sua teoria, problemas atuais podem estar relacionados a crises e traumas passados em gerações anteriores da família, ainda que estes sejam desconhecidos pela pessoa índice, gerando “emaranhados sistêmicos” entre presente e passado. (HELLINGER, 2013). Essa prática foi incluída em 2018 na lista da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) do SUS. (BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. GABINETE DO MINISTRO, 2018) . Entretanto, há intenso debate no meio acadêmico sobre as evidências científicas de seus benefícios, consideradas frágeis. Existem ainda críticas sobre um possível caráter machista, patriarcal, homofóbico e culpabilizante de vítimas de violência dessa prática, dividindo opiniões entre profissionais da saúde e público leigo. A Constelação Familiar, apesar de estar cada vez mais difundida, não é reconhecida atualmente pelo Conselho Federal de Medicina e pelo Conselho Federal de Psicologia. 73 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Afeto: refere-se a entender como se estabelecem as trocas de afeto entre os membros da família e como essa troca reflete e interfere no problema apresenta- do, podendo ser analisado também a partir do FIRO, do APGAR ou, ainda, por meio dos elementos relacionais do genograma. O entendimento das formas de afeto é fundamental para reforçar laços de solidariedade e a resiliência da família. Comunicação: como acontece a comunicação interpessoal, como as pessoas se relacionam, algo que pode estar presente no genograma, por vezes no FIRO, sendo pertinente, quando possível, identificá-la também ao longo dos processos de in- tervenção (entrevista, conferência ou terapia familiar). Entender a comunicação é fundamental para o tipo de abordagem e para os membros que devem participar destas. Tempo: no ciclo de vida, como o próprio nome do construto diz, representa a etapa do ciclo de vida em que a família se encontra, e está presente nas ferramentas de classificação da família. Deve identificar as crises previsíveis que podem ocorrer nesse determinado ciclo de vida, como problema principal ou como fatores agra- vantes das crises familiares. Illness (doenças) familiares: são representadas no genograma, no ecomapa e também estão presentes na história familiar, na escala de vulnerabilidade familiar, no inventário de problemas do prontuário ou ainda nas folhas de rosto desses prontuários. São problemas que podem remeter a dificuldades adicionais no pro- cesso de enfrentamento do problema em questão ou das disfuncionalidades familiares. Coping: refere-se a conhecer ou recordar como a família lidou com o estresse em momentos anteriores, e uma análise da resiliência e das vulnerabilidades familia- res. A equipe procura identificar junto à família as experiências anteriores e analisa o problema atual para identificar recursos internos, explorar fontes de cuidado e alternativas de enfrentamento. Ecologia: identificar os elementos de apoio social que determinam o tipo de sus- tentação familiar existente e como e quais recursos estão disponíveis e podem ser usados. O instrumento ecomapa deve ser utilizado como fonte de informação, e outros instrumentos podem ser usados, como o mapeamento social. Uso racional do PRACTICE O objetivo do PRACTICE é planejar abordagens familiares mais amplas, como a con- ferência familiar ou a terapia familiar sistêmica. Como tal, não é em si uma ferra- menta, mas um roteiro de avaliações necessárias para estabelecer uma aborda- gem terapêutica. Dietriech, Gabardo e Moises (2009) orientam que apenas uma a três linhas são ne- cessárias para cada um dos itens do instrumento e que nem todas as áreas cober- tas pelo PRACTICE serão necessariamente preenchidas em todas as intervenções. EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 74 Segundo Wagner (2001), em casos em que é necessária uma exploração mais de- talhada, utiliza-se o PRACTICE para se desenhar um mapa mais amplo do funcio- namento familiar e seu modo de se relacionar. Estudam-se os componentes das queixas identificadas, papéis, afeto, comunicação, tempo no ciclo de vida, passado mórbido e doenças atuais, estratégias de enfrentamento de situações estressan- tes e apoio social e familiar ao grupo. 2.4 FERRAMENTAS DE ABORDAGEM FAMILIAR Ao longo da história, a família passa por muitas transformações, constituindo uma diversidade de jeitos de ser família, bem como as funções dela na sociedade, funções que vão desde: 75 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 2.4.1 TERAPIA FAMILIAR SISTÊMICA (TFS) Trabalhar sistemicamente “é como ter uma série de lentes que você pode colocar na sua câmera e alterar a perspectiva do problema visto” (ASEN et al., 2012, p. 14). Implica em entender asrelações que as pessoas têm dentro do contexto, notadamente o familiar, incluindo as relações de seus membros entre si, com sintomas, com doenças, com experiências, bem como com suas crenças e histórias (ASEN et al., 2012). O pensamento sistêmico se contrapõe ao comportamentalismo (behaviorismo), ao mecanicismo e ao pensamento cartesiano de simples causa-efeito, para trazer a compreensão que o sujeito em estudo – ou sob cuidados na Medicina de Família – está dentro de um sistema, no qual o todo é mais importante que as causas (BERTALANFFY, 1968). Sob este aspecto, o pensamento sistêmico apresenta como premissas a interdependência dos membros da família, a capacidade de lidar com os acontecimentos cotidianos (coping) e a independência entre seus membros. O conjunto de sintomas, doenças, histórias pessoais e familiares pregressas, e como o indivíduo e a família lidam com o problema, pode ser chamado de “sistema”, dentro do qual a pessoa se desenvolveu e vive, com suas propriedades específicas, conforme você poderá acompanhar no quadro exposto a seguir. A teoria sistêmica se aplica à abordagem familiar na medida em que a terapia se volta para o entendimento da família enquanto sistema de partes independentes e interdependentes, e que sob esse aspecto os indivíduos têm o potencial de “adoecer famílias” e que famílias por vezes “adoecem pessoas”, já que as crises se resolvem no contexto familiar (ASEN et al., 2012). Assim, partiu-se inicialmente da terapia individual, psicanalítica, na qual a família era apenas um elemento que impactava a psique da pessoa sob cuidados, para uma análise de contexto de vida, que passou a considerar os sistemas relacionais, e o terapeuta não tentará explicar um comportamento isolando o indivíduo de seu meio social, mas sim irá observá-lo em suas relações com os membros da família (DORICCI; CROVADOR; MARTINS, 2017; ZORDAN; DELLATORRE; WIECZOREK, 2012). EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 76 Quadro 10 – Propriedades dos sistemas familiares. Propriedades Conceito Totalidade O entendimento de uma família não se constitui apenas pela soma das condutas de seus membros, mas sim pela compreensão das relações entre eles (o todo é mais importante que as partes). Causalidade circular ou retroalimentação (feedback) As relações familiares são recíprocas, pautadas e repetitivas, de forma que a resposta de um membro para a conduta de outro é um estímulo para que este dê uma resposta que servirá de estímulo ao anterior. Equifinalidade* A capacidade de um sistema alcançar uma mesma meta utilizando diferentes caminhos. “Um sistema pode alcançar o mesmo estado final a partir de condições iniciais distintas, o que dificulta buscar uma única causa para o problema.” Equicausalidade* A capacidade de um sistema alcança diferentes metas partindo de um mesmo caminho. “A mesma condição inicial pode resultar em estados finais diversos.” Limitação Todo sistema tem limites. O limite pressupõe o ponto de contato entre esse sistema (ou subsistema) e outros, sendo sempre semipermeável, mas as barreiras são diversas entre eles, e necessárias. Limites frágeis ou limites excessivos são igualmente fontes de sofrimento para o indivíduo e a família. Regras de relação A interação entre seus componentes e a maneira que as pessoas enquadram a conduta ao comunicar-se entre si. Ordenação hierárquica Na família, como em qualquer sistema ou organização, há hierarquia, diferença de poder, de responsabilidade. Há domínio que uns exercem sobre os outros, mas também são inerentes: a ajuda, a proteção e o cuidado que oferecem aos demais. A relação é hierárquica entre as pessoas e também entre os subsistemas. Teleologia O sistema familiar se adapta às diferentes exigências dos diversos estágios de desenvolvimento a fim de assegurar continuidade e crescimento psicossocial a seus membros. * “Estas duas propriedades (equifinalidade e equicausalidade) estabelecem a conveniência de abandonar a busca de uma causa passada originária do sintoma e centrar-se no aqui e agora, nos fatores que estão mantendo o problema.” Fonte: Adaptado de ZORDAN; DELLATORRE; WIECZOREK, 2012 (p.134-5) e de LOPES; SCUDERO, 2013. 77 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Pressupostos da terapia familiar sistêmica A luz da família para a abordagem, seja ela individualmente no consultório ou em conferência com a família, é entender o contexto no qual os fenômenos ocorrem. E o médico de família e comunidade é aquele com especial interesse nas conexões entre os sintomas e as situações de vida (ASEN et al., 2013). Por outro lado, não se consegue despir da nossa armadura “bio-psico-sócio-cultural- espiritual-religiosa-existencial-profissional” e, portanto, os saberes do terapeuta não podem opor-se à construção do diálogo, mas gerar as perspectivas e informações terapêuticas. O terapeuta deve respeitar a organização da fala que parte da pessoa sob terapia (DORICCI; CROVADOR; MARTINS, 2017). Ser terapeuta familiar demanda atenção especialmente ao processo dialógico, ou seja, à conversação. O papel do terapeuta é não trazer seus conhecimentos técnicos (não construídos na terapia), mas sim ouvir e compreender a pessoa, a família ou pessoas presentes no relato, mantendo necessariamente o diálogo funcionando de forma colaborativa, e permanecendo pronto para captar a informação inesperada que emergirá. Uso racional da TFS A TFS se desenvolve a partir do entendimento de que uma família não se apresen- ta como funcional e que se encontra sistemicamente impactada. Assim, é funda- mental que o terapeuta permita que as pessoas ampliem a percepção de seu papel dentro do sistema. Para isto, o papel mediador, mais do que interventor, do MFC numa seção de TFS deve ser trabalhada a partir de uma organização prévia. Nela, pessoa e família ampliarão os seus repertórios “aos quais não têm acesso em suas relações cotidianas”, e a ajuda do terapêuta estará provavelmente em conseguir um insight, ou seja, ajuda para uma construção conceitual, mais do que uma posição ou opinião sobre uma conduta a ser tomada ou decisão (DORICCI; CROVADOR; MARTINS, 2017). Visando contemplar os aspectos necessários para uma boa conversação, à luz da teoria comunicacional, sugere-se o uso de uma lista de verificação da primeira sessão com a família. Confira no quadro a seguir. EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 78 Quadro 11 – Checklist de dez itens para a TFS. ( ) 1) Fazer contato com cada membro da família e reconhecer seu ponto de vista em relação ao problema e seus sentimentos em relação à terapia. ( ) 2) Estabelecer liderança, controlando a estrutura e o ritmo da entrevista. ( ) 3) Desenvolver uma aliança de trabalho com a família, equilibrando simpatia e profissionalismo. ( ) 4) Elogiar as pessoas por ações positivas e forças familiares. ( ) 5) Ser empático com cada membro da família e demonstrar respeito pela maneira da família de fazer as coisas. ( ) 6) Focar problemas específicos e as soluções tentadas. ( ) 7) Desenvolver hipóteses sobre interações prejudiciais em torno do problema apresentado. Investigar por que elas persistem. ( ) 8) Não ignorar o possível envolvimento de membros da família, amigos ou auxiliares que não estão presentes. ( ) 9) Negociar um contrato de tratamento que reconheça os objetivos da família e especifique como o terapeuta vai estruturar o tratamento. ( ) 10) Estimular perguntas. Fonte: Nichols e Schwartz (2007) APUD ZORDAN, E. P.; DELLATORRE, R.; WIECZOREK, L., 2012, A relação estabelecida e a forma como a conversa é conduzida guiarão o proces- so, e não a fala do terapeuta em si mesma recortada do contexto da conversa, fora da tríade das falas. Isso por que, como terapeuta, você não poderia entrar para a conversa despindo-se das próprias tradições históricas, relações e formas de discurso. Muitos autores no campo fazem propostas de tipos e formatos de conversa espe- cíficos que, apesar de trazerem conteúdos muitasvezes distintos daqueles coloca- dos pelos clientes, se mantêm coerentes com uma epistemologia construcionista social (DORICCI; CROVADOR; MARTINS, 2017). 79 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar A esta altura você deve estar se questio- nando se cabe ao MFC realizar Terapia Familiar Sistêmica. A TFS é uma metodo- logia de abordagem de famílias relativa- mente simples de ser executada, porque exige tecnologias leves de cuidado, mas não está isenta de riscos. O papel do te- rapeuta familiar é manter o diálogo fluido e um bom critério para que o te- rapeuta familiar sistêmico avalie a qua- lidade da terapia e o próprio andamen- to e desenrolar da conversa (DORICCI; CROVADOR; MARTINS, 2017). Entretanto, o papel de terapeuta “generalista”, que procura não estabelecer uma cor- rente de pensamento dentro da terapia, se enquadra bem no papel do MFC, que terá na TFS a oportunidade de conhecer aquela família e apoiá-la no processo dialógico que abrirá caminhos para a resolução de situações problema, entendendo-se – a família – como um sistema real para ser continente do problema em questão. É im- portante ressaltar que a Terapia Familiar pertence ao rol de competências avançadas do MFC. 2.4.2 ENTREVISTA FAMILIAR A entrevista familiar é uma ferramenta de coleta de dados que se propõe a investigar elementos do contexto familiar importantes para o processo de decisão em saúde – ao contrário da terapia e da conferência, a entrevista se propõe a ampliar o conheci- mento acerca daquela família. Idealmente, é realizada com os membros da família presentes, possibilitando uma troca de informações complementares que pode es- tabelecer conexões iniciais para um processo terapêutico familiar mais aprofundado a ser realizado a seguir. Perguntas devem ser inicialmente abertas, estimulando livre resposta e não suges- tionadas. Você pode “fechar” se dúvidas ou se necessário dirimir dúvidas, lembrando que cada pergunta deve referir-se a uma única ideia, com palavras simples e claras e ser tão curta quanto possível; e se for mal compreendida inicialmente, deve-se repe- ti-la de forma mais clara; devem-se evitar perguntas que influenciem a resposta (por exemplo: você acha que esse problema teu é devido a algum alimento?); e evitar per- guntas que usam negativas (por exemplo: não é verdade que...), por estimularem res- postas afirmativas positivas (CAMPOS; FARIA; SANTOS, 2010). Fundamental também na entrevista transparecer confidencialidade e angariar a con- fiança da família. Isso ocorre se você estiver mesmo interessado na tarefa e em apren- Cabe ao MFC realizar TFS? Fonte: Freepik.com EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 80 der com ela bem como começar com as perguntas menos controvertidas para deixar o informante à vontade e criar um clima de confiança e confidencialidade. A formulação ou a forma como são feitas as perguntas não deve subtender crítica ao informante. Perguntas como “por quê?” devem ser usadas com parcimônia, e a escuta deve ser ativa, com ritmo de diálogo, sendo melhor anotar pontos-chave ao invés de tentar anotar tudo o que é dito (CAMPOS; FARIA; SANTOS, 2010). Na entrevista propriamente dita, além das técnicas específicas da terapêutica, as habilidades de comunicação para o desenvolvimento da entrevista (LOPEZ; ESCU- DERO, 2013) devem ser as seguintes: 81 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Antes de se estabelecer um contato familiar, idealmente você deve realizar uma “pré-sessão”, preferencialmente em equipe. Antes da Entrevista Familiar, na qual se compartilham informações pertinentes à abordagem familiar, criam-se hipóte- ses sobre os problemas e planeja-se a intervenção, incluindo temas a se abordar ou evitar, e membros da família para os quais deve ser direcionada a entrevista. A duração de uma sessão é variável, mas gira em torno de uma hora a uma hora e meia. Deve ser precedida de uma explanação sobre o motivo da entrevista, o es- tabelecimento de pactos de convivência e respeito, esclarecimento de dúvidas, a garantia do sigilo e regras de trabalho em grupo. Ao longo da entrevista, é preciso permitir pausas para reflexão, e o profissional de saúde pode dar um tempo para que a família discuta sem a sua presença, para encaminhamentos necessários. Após a entrevista, é possível estabelecer outros pontos de abordagem como a con- ferência ou a terapia familiar (ZORDAN; DELLATORRE; WIECZOREK, 2012). Uso racional da entrevista familiar Embora seja um instrumento que se utiliza visando a coleta de informações acerca da família, o processo de coleta de informações per se já se correlaciona com a possibilidade de funcionar como instrumento de abordagem, a partir da reflexão dos membros da família acerca dos problemas apresentados, organização da in- formação e concordância ou discordância acerca dessas informações. A entrevis- ta familiar pode, portanto, funcionar como o ponto de partida para identificação de conflitos que devem ser endereçados na terapia familiar ou na conferência familiar. 2.4.3 CONFERÊNCIA FAMILIAR A família é pilar de apoio às necessidades e limitações inerentes a qualquer período do ciclo vital. A equipe de saúde deve orien- tar de forma estruturada o apoio familiar e o acompanhamen- to mediante crises previsíveis e não previsíveis do ciclo de vida. Muitas dessas crises decorrem da dificuldade de enfrentamen- to aos problemas experimentados pela família, demandando in- tervenção da equipe para potencializar a resiliência familiar. EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 82 Alguns desses problemas resultam da falta de informações sobre questões de saúde a serem abordadas, outros se referem a dificuldades de comunicação intra- familiar ou, ainda, da dificuldade em tomar decisões ou mobilizar recursos. A con- ferência familiar é um instrumento de trabalho importante na abordagem familiar e resolução de conflitos, maximizando o sucesso das intervenções junto à família, e deve ser utilizada na tentativa de resolver situações familiares complexas. Não existe uma definição consensual do que é uma conferência familiar, sendo por vezes confundida com avaliações pontuais do estado clínico individual mediante um encontro familiar, ou seções de apoio psíquico e emocional a famílias. O con- ceito operacional é o de um diálogo formal orientado dentro de uma reunião formal agendada e planejada, roteirizada (por vezes após uma entrevista familiar), com objetivos e motivos específicos predefinidos, que aludem o espetro de necessida- des sentidas pelo doente e sua família (ROCHA, 2017). Para que haja uma intervenção de qualidade é preciso garantir um clima de comu- nicação com respeito e o profissional de saúde deve ser capaz de oferecer confian- ça e segurança, ajudando a família nas suas preocupações e emoções. Os objeti- vos de todas as intervenções com a família deverão ter por base (NETO, 2003): • A promoção da adaptação emocional individual e coletiva à situação de doença terminal. • A capacitação para a realização de cuidados ao doente e do autocuidado da família. • A preparação para a perda e a prevenção de um luto patológico, caso necessário. A conferência familiar corresponde a uma forma estruturada de intervenção na família, sendo uma reunião com plano previamente acordado entre os profissio- nais para além da partilha da informação e de sentimentos, cujo objetivo é ajudar a mudar alguns padrões de interação na família. Assim, uma conferência familiar é necessária: • Para clarificar os objetivos dos cuidados, ou seja, decifrando novos sintomas e dados clínicos, explorando opções terapêuticas, apoiando na tomada de deci- sões relativas a nutrição, hidratação, internamento, ressuscitação, etc. • Para reforçar a resolução de problemas nas necessidades não satisfeitas no doente e nos cuidadores, ensinando estratégias de manejo dos sintomas e outras dificuldades apresentadas, e discutir assuntos de interesse específico dos familiares, incentivando a comunicação. • Para prestar apoioe aconselhamento, validando e prevendo as reações emo- cionais, validando o esforço e trabalho da família, nos momentos das preocu- pações, dos medos e sentimentos, ajudando na resolução dos problemas por etapas e mobilizando os recursos familiares. 83 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Aspectos práticos para uma conferência familiar Apresentamos a seguir uma lista de tarefas no formato de checklist que Neto (2003), da Equipe de Cuidados Continuados do Centro de Saúde Odivelas em Portugal, de- senvolveu para preparar uma conferência familiar. Fonte: NETO, 2003. Uso racional da conferência familiar Sabemos que nem todas as famílias necessitarão desse tipo de abordagem, mas aquelas que precisam ele é seguramente útil. A possibilidade de reunir vários membros da família pode tornar a comunicação mais clara, facilitar a adesão do doente à terapêutica, melhorar o controle sintomático e diminuir o sofrimento ex- perimentado por todos, sendo um recurso que se revela habitualmente muito van- tajoso a médio e longo prazo, pois possibilita reduzirem-se internamentos inúteis e idas indevidas às urgências. EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 84 Na busca de mecanismos efica- zes e eficientes que contribuam para a manutenção das rela- ções familiares é que surge a mediação familiar, em caráter preventivo ou resolutivo, ou na separação, ou em contexto de outras relações familiares que recorram à mediação familiar em uma fase preventiva, quando surgem os primeiros conflitos. 2.4.4 MEDIAÇÃO DE CONFLITO FAMILIAR Embora não esteja apontada como uma ferramenta específica, a capacidade de mediar conflitos pode ser necessária quando se lida com famílias. Assim, a media- ção pode estar presente na conferencia familiar, na entrevista familiar e na terapia familiar sistêmica. Abordaremos a mediação de conflito familiar como instrumen- to de solução consensual de conflitos familiares, orientando os profissionais como utilizar essa ferramenta. A família tem sido considerada o lócus para a mediação, pois possibilita um trabalho interdisciplinar (GALANO, 1999; FALEIROS, 2007). Percebemos, no entanto, que mudança nas relações familiares podem desenca- dear desacordos. O ser humano está em constante interação com o seu semelhan- te e dessa interação resultam espontaneamente conflitos de várias ordens, causa- dos pela escassez de recursos, diferentes valores, interesses, objetivos, entre os outros exemplos. Os elementos do conflito podem ser definidos e gerados por: • A pessoa: o ser humano com seus sentimentos e crenças. • O problema: as necessidades e os interesses contrariados. • O processo: as formas e os procedimentos adotados. Fonte: Freepik.com A mediação trata os conflitos a partir de vários olhares, com diversas pers- pectivas de abordagens, potencializando a capacidade apaziguadora desse meio em restabelecer o diálogo e favorecer as relações interpessoais. Na interdisciplinaridade é possível proporcionar um diálogo enriquecedor pelo mediador, gerando corresponsabilização por parte de todos os envolvidos naquele contexto. A mediação é um meio efetivamente apropriado para auxiliar as famílias a refletirem sobre seus conflitos, conversarem sobre eles e encontrarem uma maneira de resolvê-los, ou até mesmo de conviverem com eles (MIOTTO, 1997). 85 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Uma pluralidade de olhares pode contribuir para auxiliar as famílias a decidirem de forma autônoma o que preferem para suas situações, enriquecendo a media- ção, que tem muito a ofertar para o trabalho com a família. O mediador facilita a comunicação entre as partes, permitindo que decidam, analisando em profundi- dade o contexto do conflito, assegurando novas formas de convivência e preven- ção de novos conflitos (MIOTTO, 1997). Os conflitos familiares envolvem emoções vividas ao longo da história relacional das pessoas que a constituem. A mediação tem muito a contribuir com as famílias, transformando as relações e resolvendo os conflitos. A atividade do mediador ne- cessita de compreensão do conflito, habilidades conversacionais, técnicas de co- municação, negociação e outras próprias da mediação – a peculiaridade do traba- lho do mediador ainda revela a necessidade de características de cunho subjetivo e de habilidades emocionais (MIOTTO, 1997). A mediação de conflito consiste em configurar um meio consensual de encaminha- mentos e soluções nas quais estão envolvidas duas ou mais pessoas, com o auxílio do mediador, que facilitará o diálogo, discutindo-se e buscando-se alcançar uma solução satisfatória para o problema. Quando nos referimos à intervenção da equipe multiprofissional na mediação do conflito familiar nos referimos a buscar, conduzir e focar a discussão na construção do pacto de responsabilidades (GALANO, 1999; FALEIROS, 2007). 2.5 ABORDAGEM FAMILIAR E VISITA DOMICILIAR Muitas das intervenções familiares somente serão possíveis no contexto mais íntimo delas, ou seja, no domicílio. Sob esse aspecto, saber utilizar e priorizar famílias para a avaliação é fundamental para que se estabeleçam ações planejadas para o cuidado integral e ao mesmo tempo universalmente acessível de acordo com critérios equânimes. A ferramenta visita domiciliar cumpre esse papel, na medida em que leva os atores para o contexto de maior conforto para uma intervenção, no caso, o lar. Da mesma forma, pode ser inclusive a única maneira de acessar a família em situações nas quais um dos familiares é restrito ao domicílio ou ao leito. Assim, é importante que se discuta o papel do cuidado domiciliar na abor- dagem às famílias. A visita domiciliar meio e a aborda- gem da famíliaFonte: Freepik.com EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 86 Segundo Coelho e Savassi (2004), visitas domiciliares podem ser classificadas em visitas fim, quando há um objetivo específico para a realização da mesma, ou visita domiciliar meio, nas quais as visitas em si se tornam a forma de descobrir ques- tões ocultas e na qual se podem desenvolver busca ativa, promoção da saúde e ações preventivas específicas, sendo pautadas por uma abordagem estratégica da família como uma abordagem educacional mais individualizada ou para estabele- cer canais permanentes de comunicação. A Escala de Vulnerabilidade Familiar é um instrumento que pode ser utilizado na APS para esse tipo de atuação, definindo estrategicamente quais famílias deveriam ser foco de atenção da equipe e a partir daí definido quais outras ferramentas podem ser utilizadas (COELHO; SAVASSI, 2004). Figura 10 – Atenção domiciliar a famílias. Fonte: elaborado pelos autores, 2020 A figura representa uma estratégia de priorização de famílias como fonte de cui- dados pelas equipes de APS, a partir da EVF-CS, que determina graus diferentes de vulnerabilidade familiar e já demonstrou ser um instrumento adequado para esse fim. A partir da classificação da família, deve-se optar por iniciar por aquelas que sejam mais vulneráveis, entendendo que serão objeto de múltiplas – e por vezes simultâneas – intervenções a partir do tipo de sentinela que esteja presente com maior intensidade. 87 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Uma percepção de que há elementos clínicos e critérios para inclusão nos diferen- tes níveis de cuidados domiciliares demandará o uso de ferramentas de avaliação e classificação do nível de cuidados em Atenção Domiciliar (AD), nos níveis de com- plexidade AD1, AD2 ou AD3, de acordo com a Portaria MS/GM nº 825, de abril de 2016, equipes responsáveis (equipes de Atenção Primária ou equipes específicas de Atenção Domiciliar), e frequência das visitas (BRASIL, 2013; BRASIL, 2016). A percepção, por outro lado, que se trata de família com diferentes graus de dis- funcionalidades ou de demandas específicas no campo do cuidado, da estrutura familiar e de conflitos, demandará o uso das ferramentas de classificação, repre- sentação ou avaliação familiar para determinar qual será a melhor maneira de abordaras mesmas. Por fim, na presença de sentinelas ou de outras informações percebidas na visita domiciliar que aponte para questões sociais graves, o acionamento da Rede de Atenção Psicossocial pode se fazer necessária, na medida em que outros elemen- tos apontam para a ampliação da capacidade de resposta da equipe de APS. Nesse aspecto, além do ecomapa como um instrumento relevante, o mapeamento social se mostra um elemento que permite a análise de pontos de fortalecimento da re- siliência, de apoio e da capacidade de lidar com os elementos sociais envolvidos. A EVF-CS pode ser utilizada tanto para se estabelecer priorização de familiares dentro de equipes, quanto para se destinar maior ou menor quantidade de tempo para cada família. Pode ser necessária a identificação de áreas nas quais muitas famílias apresentem alta demanda a fim de estabelecer pontos de corte dos escores de vulnerabilidade mais elevados, entendendo que em muitas situações estare- mos lidando com áreas de risco, nas quais um número relevante de famílias tenha altos escores. Em geral, se estabelecermos 5 a 10% como o ponto de corte dos escores mais elevados de vulnerabilidade já teremos uma estratégia de prioriza- ção relevante. 2.6 INTERVENÇÕES FAMILIARES EM CUIDADOS PALIATIVOS As intervenções realizadas em cuidados pa- liativos (CP) objetivam promover a adaptação emocional possível, preparando para a perda e evitando o luto patológico. Essas interven- ções podem também ser usadas para capa- citar cuidadores para a atenção e para o au- tocuidado de familiares. Realizar cuidados paliativos é garantir que todo o possível – para além do que é impossível evitar – será feito para alívio do sofrimento. Assim, no que tange à família, os cuidados paliativos repre- sentam um desafio ético e profissional. Um elemento fundamental dos cuidados pa- Fonte: Freepik.com EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 88 liativos é uma comunicação eficaz entre doente, família e equipes. A presença da família é essencial para o bem-estar do doente, e a conferência familiar pode ser uma estratégia relevante para: gestão e avaliação de conflitos, percepção do en- tendimento e expectativas familiares, preparo do luto, discussões específicas sobre limites do cuidado, objetivos do cuidado e planos terapêuticos, propedêuticos e demandas específicas baseadas em premissas contextuais e culturais. Famílias de pessoas em situação de terminalidade demandam estar com o doente, participar dos cuidados, ter apoio emocional e conservar a esperança, inclusive sob o ponto de vista da espiritualidade. A informação no processo comunicacional deve ser inteligível, na quantidade exata, sem falsas esperanças. É importante saber até quando e até quanto o doente espera e deseja ser informado, sendo importante sofrer “com” a pessoa e não “pela” pessoa, decidir “com” o indivíduo e/ou sua família e não “por” eles. Algumas situações específicas são mais plausíveis de demandar uma conferência familiar, dentre elas (NETO; TRINDADE, 2007): • piora clínica da condição clínica, ou paciente em estágio final de terminalidade (morte próxima); • mudança relevante de tratamento ou via de administração de medicamentos e alimentação; • discussão de Diretrizes Antecipadas de Vida; • situação de disfuncionalidade e/ou presença de conflitos entre familiares e cui- dadores, entre os membros da família, ou desta com a equipe de cuidados. • famílias altamente demandantes, ou com divergências importantes de opiniões, ou agressivas, ou com necessidades especiais (questões sociais, espirituais, culturais). Um instrumento que ajuda a sistematizar a abordagem da família, estruturando etapas para apoiar especialmente nas questões comunicacionais, é o protocolo SPIKES, que auxilia na sistematização da comunicação de más notícias. Confira no quadro a seguir. 89 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Quadro 12 – Protocolo SPIKES. S Setting up: Preparando-se para o encontro P Perception: Percebendo o paciente I Invitation: Convidando para o diálogo K Knowledge: Transmitindo as informações E Emotions: Expressando emoções S Strategy and Summary: Resumindo e organizando Fonte: Baile et al., 2000. Algumas outras técnicas comunicacionais importantes envolvem o próprio Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP) e habilidades de comunicação: EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 90 Quadro 13 - Habilidades necessárias de profissionais que lidam com cuidados paliativos frente à família. • Interpretar novos sintomas e informações clínicas. • Explorar opções de tratamento. • Apoiar a família na tomada de decisões difíceis (nutrição, hidratação, hospitalização e ressuscitação). • Explorar esperanças e expectativas. • Detectar necessidades não satisfeitas (paciente e cuidadores). • Ensinar estratégias de gerenciamento de sintomas e outros. • Discutir assuntos de interesse específico da família. • Explorar as dificuldades de comunicação. • Validar e prever o espectro de reações emocionais. • Validar o trabalho e os esforços da família. • Convidar familiares e pessoas doentes a expressar medos, preocupações e sentimentos ambivalentes. • Ajudar a resolver problemas em etapas, mobilizando recursos familiares. • Identificar famílias disfuncionais, que precisam de uma intervenção que vai além deste nível; saber quando encaminhá-los para profissionais de saúde qualificados para lidar com o problema. • Permitir que os membros da família participem dos cuidados. • Aceitar que o plano de cuidados proposto pode ser rejeitado pelo paciente, cuidadores, familiares e apoiar a elaboração de um novo. • Permitir espaço para iniciativas originadas da cultura familiar. • Incentivar a unidade familiar a assumir a liderança. Fonte: Adaptado de Neto e Trindade (2007, p. 106). 91 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Quadro 14 - Escala de Performance de Karnofsky. Gradação (%) Interpretação (significado) 100 Sem sinais ou queixas, sem evidência de doença 90 Realiza atividades habituais, poucos sinais e sintomas da doença 80 Realiza atividades habituais com esforço, alguns sinais e sintomas de doença 70 Cuida de si mesmo, ainda é capaz de trabalhar 60 Requer assistência ocasional, não é capaz de realizar atividades habituais ou trabalhar 50 Necessita de cuidados frequentes e assistência médica 40 Incapaz de realizar qualquer atividade, requer cuidados e assistência médica especiais 30 Extremamente incapacitada, necessita de hospitalização, sem sinal de morte iminente 20 Muito doente, necessita de medidas de suporte, hospitalização necessária 10 Moribundo, morte iminente 0 Morte Fonte: Adaptado de ANCP, 2012. 2.6.1 AVALIAÇÃO DE NECESSIDADES EM CUIDADOS PALIATIVOS Finalmente, para entender a complexidade do cuidado, uma série de Escalas de Avaliação de Funcionalidade deve ser usada, e assim definirmos o grau de neces- sidade de cuidados paliativos. Confira. EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 92 Quadro 15 - Palliative Performance Scale (PPS). Palliative Performance Scale (PPS) Deambulação Atividade e evidência da doença Autocuidado Ingesta Nível da consciência 100 Completa Atividade normal e trabalho; sem evidência de doença Completo Normal Completa 90 Completa Atividade normal e trabalho; alguma evidência de doença Completo Normal Completa 80 Completa Atividade normal com esforço; alguma evidência de doença Completo Normal ou reduzida Completa 70 Reduzida Incapaz para o trabalho; doença significativa Completo Normal ou reduzida Completa 60 Reduzida Incapaz para hobbies/trabalho doméstico; doença significativa Assistência ocasional Normal ou reduzida Completa ou períodos de confusão 50 Maior parte de tempo sentado ou deitado Incapacitado para qualquer trabalho; doença extensa Assistência considerável Normal ou reduzida Completa ou períodos de confusão 40 Maior parte do tempo acamado Incapaz para a maioria das atividades; doença extensa Assistência quasecompleta Normal ou reduzida Completa ou sonolência; +/- confusão 30 Totalmente acamado Incapaz para qualquer atividade; doença extensa Dependência completa Normal ou reduzida Completa ou sonolência; +/- confusão 20 Totalmente acamado Incapaz para qualquer atividade; doença extensa Dependência completa Mínima, a pequenos goles. Completa ou sonolência; +/- confusão 10 Totalmente acamado Incapaz para qualquer atividade; doença extensa Dependência completa Cuidados com a boca Sonolência ou coma; +/- confusão 0 Morte - - - - Fonte: Adaptado de ANCP, 2012. 93 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Quadro 16 – Escore de Lansky. Fonte: LANSKY, 1987. Especificamente quanto ao desempenho funcional em crianças, o escore de Lansky é o instrumento de funcionalidade utilizado em pediatria. Escore (%) Elementos de avaliação 100 Totalmente ativa/normal. 90 Pequena restrição em atividades físicas extenuantes. 80 Ativa, mas se cansa rapidamente. 70 Maior restrição nas atividades recreativas e menor tempo gasto nessas atividades. 60 Levanta-se e anda, mas brinca ativamente muito pouco, brinca principalmente em repouso. 50 Veste-se, mas fica deitada a maior parte do tempo, atividades e jogos em repouso. 40 Maior parte do tempo na cama, brinca em repouso sem ajuda. 30 Maior parte do tempo na cama e necessita de auxílio para brincar em repouso. 20 Frequentemente dormindo, o brincar se restringe a jogos passivos. 10 Não brinca e não sai da cama. 0 Não responde. EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 94 Embora a Portaria nº 825, de 25 de abril de 2016, defina cuidados paliativos como uma das atribuições das equipes de Atenção Domiciliar, e seus respec- tivos Serviços de AD, os SAD, é impor- tante reforçar que tal medida não impede a continuidade dos cuidados pela equipe de APS. Além disso, é na longitudinalidade do cuidado, um dos princípios da APS, e na duradoura relação médico-paciente, um dos ele- mentos do método clínico centrado na pessoa, que reside uma das maiores qualidades da MFC, que é o cuidar ao longo do tempo. Então, espera-se que o MFC esteja junto à pessoa sob seu cuidado nos momentos que antece- dem o óbito (BRASIL, 2016). Naqueles lugares onde há cobertura de SAD, esse cuidado pode e deve ser com- partilhado entre as equipes, e naqueles lugares onde não há tal cobertura, seja pelo porte municipal ou pela ausência de iniciativa do poder público local para im- plantação, a equipe de APS deve estar preparada para lidar com as principais in- tercorrências em cuidados paliativos. Apoiar família e cuidador, saber lidar com os principais quadros clínicos que se apresentam na terminalidade da vida, evitar ia- trogenias praticando a prevenção quaternária e realizar tratamentos adequados, bem como conseguir construir com a família um plano terapêutico e propedêuti- co adequados, são ações que podem ser desempenhadas pelo MFC nesse proces- so de cuidado. Os cuidados paliativos na prática do MFC Fonte: Freepik.com 95 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Encerramento da unidade Parabéns, você chegou ao final da Unidade 2 do Módulo de Abordagem Familiar! Nesta unidade, você aprendeu sobre os instrumentos de representação (genogra- ma e ecomapa), de avaliação (FIRO, APGAR, Escala de Vulnerabilidade Familiar e PRACTICE) e de abordagem familiar propriamente ditos (terapia familiar sistêmica, entrevista familiar, conferência familiar). Você ainda conheceu aspectos da visita domiciliar e dos cuidados paliativos que se relacionam diretamente com a aborda- gem das famílias na APS. Esperamos que os conhecimentos aprofundados sejam muito úteis a você no melhor cuidado das pessoas e suas famílias em sua equipe de saúde da família! EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 96 Encerramento do módulo Estamos encerrando aqui o Módulo de Abordagem Familiar! Você viu até aqui que as famílias são unidades de cuidado, bem como fonte de bem-estar ou adoecimento, e que há diferentes formas de abordar famílias, que vão desde um processo de entendimento do contexto familiar (por meio da clas- sificação e representação das mesmas), passando pela percepção da funcionalida- de e da vulnerabilidade, até as ferramentas de abordagem familiar. Sob esse aspecto, trabalhar com famílias exige vínculo e associação, sendo funda- mental que se estabeleçam canais de comunicação para que se possa construir uma relação na qual o MFC tenha papel terapêutico no processo. O entendimento da família como unidade terapêutica permite ao mesmo tempo uma visão sistêmica, mas também da complexidade e das questões contextuais que a cercam, proporcionando oportunidades de cuidado que ampliam a clínica individual e permitem a construção de projetos terapêuticos com mais possibili- dades de ação. Que os novos conhecimentos adquiridos, portanto, lhe permitam a execução plena do atributo da APS de orientação familiar e um cuidado cada vez mais integral e resolutivo na sua prática! Até breve! 97 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Referências ABUD, Simone Mourão. Instrumentos de Abordagem Familiar: Genograma e Ecomapa. 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Preceptor de campo de estágio em APS pelo HC-UFMG (desde 2010). Especialista Geriatria pelo CIAPE/FCMMG (2014). Curso de Capa- citação em Cardiogeriatria pelo CIAPE (2016). Curso de Capacitação em Neuropsiquiatria Geriátrica pelo ACER (2018). Médico responsável pelo Ambulatório de Saúde do Idoso Clínica Amaros - Belo Horizonte (MG). Corpo Clínico na Atenção ao Idoso Uniclínica BH - Belo Horizonte (MG). Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/6216582451429322 ARTUR OLIVEIRA MENDES Médico de Família e Comunidade, trabalha na Estratégia de Saúde da Família em Belo Horizonte (Minas Gerais - Brasil) desde meados de 2004. Graduado em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, (2004). Especialista em Saúde da Família pela UFMG (2006) e titulado em Medicina de Família e Comunidade pela Sociedade Bra- sileira de Medicina de Família e Comunidade, SBMFC, (2007). Especialista em Ativação de Processos de Mudanças nos Cursos Superiores da Área da Saúde, pela FioCruz/ENSP (2006). Participou de várias gestões da Associação Mineira de Medicina de Família e Co- munidade (AMMFC), inclusive como presidente, e do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (SinMed-MG), como diretor do departamento jurídico e do departamento de cam- panhas. Atualmente diretor do departamento de defesa profissional do SinMed-MG. Mé- dico de família cooperado da Unimed-BH. Atua também como preceptor do Programa de Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade do Hospital das Clínicas da UFMG. Atualmente cursando o mestrado profissional em Saúde da Família através da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), o Prof-Saúde (programa em parceria com a ABRASCO), além de estar cursando especialização em Saúde Digital pela UFG (Universi- dade Federal de Goiás). Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/1490329459646772 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 108 DANIELE FALCI DE OLIVEIRA Graduada em Medicina pela Universidade Federal de Mato Grosso (2004). Especialista em Saúde da Família pela Universidade Federal de Minas Gerais -UFMG. Titulada em Medici- na de Família e Comunidade pela Sociedade Brasileira de Medicina da Família e Comuni- dade (SBMFC). Especialista em Medicina de Tráfego pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Titulada pela Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (ABRAMET). Mestre pelo Programa de Saúde Pública, área de concentração Epidemiologia, da Facul- dade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais -UFMG (2014). Residência Médica em Pediatra no Hospital Infantil São Camilo, Belo Horizonte/MG (2017). Especia- lista em PreceptoriaMédica no SUS, pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês (2017). Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/3605832505991916 LEONARDO CANÇADO MONTEIRO SAVASSI Docente Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), DEMSC - Departamento de Medici- na de Família Comunidade (MFC), Saúde Mental e Coletiva, membro NDE da Escola Medi- cina (EMED). Coordenador do Mestrado Profissional em Saude Familia (ProfSaude) pela UFOP. Coordenador da Colaboração da UFOP junto a Universidade Aberta SUS (UNA- SUS). Presidente do Colegiado de Curso do ProfSaude UFOP. Membro do Conselho De- partamental do Curso de Medicina (CODEMED) UFOP. Pediatra Atenção Domiciliar GEAD Unimed Belo Horizonte/MG. Diretor do Departamento de Publicações da Sociedade Bra- sileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), gestão 2020-2022. FORMAÇÃO: Qualificação de Gestores para SUS (ENSP/ Fiocruz). Especialização Saúde da Família (MEC/ UFMG/ESPMG). Título de Especialista em MFC (AMB/ SBMFC). Residência Médica em Pe- diatria (MEC/ Hospital Belo Horizonte). Mestre e Doutor em Ciências da Saúde/ Saúde Coletiva, sub-área: Educação em Saúde (CPqRR/FIOCRUZ-Minas) BIOGRAFIA: Presidente Assoc. Mineira MFC 2005-07; Diretor Publicações Soc. Brasileira MFC 2008-10; Coordena- dor Residência MFC SMS Betim/MG 2007-10; Editor Rev. Brasileira de MFC 2009-10; Pre- sidente Associação Médica Betim 2009-11; Membro Núcleo Pedagógico Curso Ágora CE- ABSF do Nescon/ UFMG 2009-12; Diretor Educação em Saúde Prefeitura de Betim 2013; Coordenador Supervisão Provab pela UFOP 2012-17; Docente PED FM-UFMG 2014-17; Editor dos Programas de Capacitação Saúde da Pessoa Idosa 2015-18 e Progr. Multicên- trico de Qualificação em Atenção Domiciliar 2012-18 pela UNASUS; Supervisor Residência MFC PUCMG Campus Contagem 2018-20; Diretor Medicina Rural 2020-21, SBMFC. Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/3650989593840814 THEREZA CRISTINA GOMES HORTA 109 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar Médica de Família e Comunidade titulada pela Sociedade Brasileira de Medicina de Famí- lia e Comunidade desde 2008. Médica colaboradora da Organização Não Governamental SURI, exercendo assistência voluntária às recuperandas da APAC Belo Horizonte desde junho de 2020. Em parceria com o Centro Universitário UNI-BH, desenvolvendo projeto de participação dos alunos do 11º periodo da Medicina desta instituição no atendimento e organização dos trabalhos em saúde da APAC - BH. Preceptora do 11º período da Facul- dade de Medicina da UNI-BH, no estágio de Atenção Primária à Saúde, em parceria com a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte desde outubro de 2015. Atuando na Abertta Saú- de, do grupo ArcelorMittal, no desenvolvimento e implantação do projeto de Atenção Pri- mária à Saúde, desde outubro de 2015. Médica de Família e Comunidade pela Prefeitura de Brumadinho nas Unidades Básicas de Saúde Rurais de Palhano e Suzana de janeiro de 2008 a setembro de 2015. Teleconsultora do Serviço de Telessaúde do Hospital das Clinicas da Universidade Federal de Minas Gerais de 2011 a 2017. Professora da Universi- dade José do Rosário Vellano - Unifenas, na disciplina de Prática Médica na Comunidade, com foco na saúde da mulher e da criança, de setembro de 2008 a dezembro de 2009 Membro associada da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade e inte- grante do Grupo de Trabalho de Medicina Rural da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. Preceptora da Residência de Medicina de Família e Comunidade do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais de fevereiro de 2008 a 2012. Idealizadora e realizadora da Oficina de Abordagem Familiar realizada no Congres- so Mineiro de Medicina de Família e Comunidade de 2010 e 2012, além da Residência de Medicina de Família e Comunidade do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais e outras instituições interessadas, anualmente, desde 2009. Residência em Medicina de Família e Comunidade pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Conclusão do curso: Janeiro/2008. Graduada em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/9215700250675647 EIXO 02 | MÓDULO 06 Abordagem Familiar 110 Programa Mais Médicos para o Brasil EIXO 2 | FERRAMENTAS DA MEDICINA DE FAMÍLIA E COMUNIDADE REALIZAÇÃO Abordagem familiar MÓDULO 06 2ª edição Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)