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ISBN 978850262388-0 Considera, Carlos Alexandre Política internacional II : relações do Brasil com as economias emergentes e o diálogo com os países desenvolvidos / Carlos Alexandre Considera. - São Paulo : Saraiva, 2016. - (Coleção diplomata / coordenador Fabiano Távora) Bibliografia. 1. Direito internacional 2. Política internacional 3. Política internacional - Concursos 4. Relações internacionais I. Távora, Fabiano. II. Título. III. Série. 14-13035 CDU-341(079) Índices para catálogo sistemático: 1. Direito internacional : Concursos 341(079) Diretor editorial Luiz Roberto Curia Gerente editorial Thaís de Camargo Rodrigues Gerência de concursos Roberto Navarro Editoria de conteúdo Iris Ferrão Assistente editorial Thiago Fraga | Verônica Pivisan Reis Coordenação geral Clarissa Boraschi Maria Preparação de originais Maria Izabel Barreiros Bitencourt Bressan e Ana Cristina Garcia (coords.) | Carolina Massanhi | Luciana Cordeiro Shirakawa Projeto gráfico Isabela Teles Veras Arte e diagramação Know-how editorial Revisão de provas Amélia Kassis Ward e Ana Beatriz Fraga Moreira (coords.) | Juliana Bormio de Sousa | Luciene Ruzzi Brocchi Conversão para E-pub Guilherme Henrique Martins Salvador Serviços editoriais Elaine Cristina da Silva | Kelli Priscila Pinto | Tiago Dela Rosa Capa Aero Comunicação / Danilo Zanott Data de fechamento da edição: 1-10-2015 Dúvidas? Acesse www.editorasaraiva.com.br/direito Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Editora Saraiva. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei n. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. http://www.editorasaraiva.com.br/direito SUMÁRIO AGRADECIMENTOS PREFÁCIO APRESENTAÇÃO EVOLUÇÃO DAS QUESTÕES POR ANO 5 - O Brasil e as Relações Bilaterais Horizontais 5.1. Relações Brasil-África 5.1.1. Breve histórico 5.1.2. O contexto recente das relações Brasil-África 5.2. O Brasil e a Rússia 5.2.1. Brasil e URSS nos anos da Guerra Fria: desconfianças e comércio 5.2.2. Brasil e Rússia na primeira década pós-Guerra Fria 5.2.3. A construção da parceria estratégica no relacionamento bilateral 5.2.4. Consolidação da parceria estratégica e relacionamento político bilateral 5.3. Relações do Brasil com países árabes e com o Oriente Médio 5.3.1. Da equidistância ao Pragmatismo Responsável 5.3.1.1. Participação brasileira na Primeira Força de Emergência das Nações Unidas (UNEF I) - 1957 a 1967 5.3.1.2. A “Crise do Petróleo” e a tomada de posições do Brasil 5.3.2. Novo momento da relações do Brasil com os países árabes e do Oriente Médio sob o signo da cooperação política, econômica e cultural 5.3.2.1. Cúpula América do Sul-Países Árabes (ASPA) 5.3.3. Posições do Brasil diante das atuais questões geopolíticas dos países árabes e do Oriente Médio 5.3.3.1. O Irã e a questão nuclear 5.3.3.2. Negociações entre Israel e Palestina 5.3.3.3. Primavera Árabe e a situação na Síria 5.4. Relações do Brasil com a Ásia 5.4.1. Relacionamento estratégico do Brasil com Japão e Coreia do Sul 5.4.1.1. Brasil-Japão 5.4.1.2. Brasil-Coreia do Sul 5.4.2 Fórum de Cooperação América Latina-Ásia do Leste (Focalal) 5.4.3. Relações Brasil-China 5.4.3.1. Relacionamento Comercial Brasil-China 5.4.3.2. Relacionamento Político e Estratégico Brasil-China 5.4.3.3. Cooperação Científica e Tecnológica Brasil-China 5.4.4. Relações Brasil-Índia 5.4.4.1. Brasil e Índia nos anos da Guerra Fria 5.4.4.2. Década de 1990: Brasil e Índia diante da recomposição das forças no cenário internacional 5.4.4.3. Brasil e Índia no início do século XXI 5.5. Relações do Brasil com a Argentina 5.5.1. Relações Brasil-Argentina no contexto pós-Segunda Guerra Mundial 5.5.1.1. O Peronismo na Política Externa Argentina e as relações com o Brasil 5.5.1.2. A Política Externa Independente e o “Espírito de Uruguaiana” 5.5.2. Brasil e Argentina sob o regime dos governos militares: da rivalidade ao entendimento 5.5.3. Brasil e Argentina no século XXI: estratégias comuns de desenvolvimento na América do Sul 5.5.3.1. Governos Kirchner e Lula (2003-2010) 6 - O Brasil e as Relações Bilaterais Verticais: o Diálogo com o Mundo Desenvolvido 6.1. As relações Brasil-União Europeia 6.2. As relações Brasil-Estados Unidos 7 - Agenda Internacional do Brasil 7.1. Meio Ambiente 7.1.1. A Conferência de Estocolmo (1972) 7.1.2. Desenvolvimento Sustentável 7.1.3. A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento - CNUMAD (1992) 7.1.4. Fórum Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+10) 7.1.5. A Rio+20 7.1.6. Mudanças Climáticas e Aquecimento Global 7.2. Direitos Humanos e política externa brasileira 8 - Organização Mundial do Comércio (OMC) 8.1. Histórico 8.2. Objetivos, princípios e estrutura institucional da OMC 8.3. Sistema de Solução de Controvérsias OMC 8.4. O Brasil e a OMC 9 - Política Externa sob o Signo da Diplomacia da Solidariedade: o Brasil e a Cooperação Sul-Sul Bilateral 9.1. Origens e bases conceituais da cooperação Sul-Sul praticada pelo Brasil 9.1.1. A Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e a Cooperação Sul-Sul 9.2. A cooperação Sul-Sul praticada pelo Brasil a partir dos anos 2000 9.2.1. A América do Sul, Central e o Caribe 9.2.2. A África e os Países de Língua Portuguesa 9.2.3. Diferenças entre os conceitos da AOD e da Cobradi Referências Bibliográficas 5. O BRASIL E AS RELAÇÕES BILATERAIS HORIZONTAIS 6. O BRASIL E AS RELAÇÕES BILATERAIS VERTICAIS: O DIÁLOGO COM O MUNDO DESENVOLVIDO 7. AGENDA INTERNACIONAL DO BRASIL 8. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO (OMC) 9. POLÍTICA EXTERNA SOB O SIGNO DA DIPLOMACIA DA SOLIDARIEDADE: O BRASIL E A COOPERAÇÃO SUL-SUL BILATERAL Questões 5. O Brasil e as Relações Bilaterais Horizontais 5.1. Relações Brasil-África 5.2. O Brasil e a Rússia 5.3. Relações do Brasil com países árabes e com o Oriente Médio 5.4. Relações do Brasil com a Ásia 5.5. Relações do Brasil com a Argentina 6. O BRASIL E AS RELAÇÕES BILATERAIS VERTICAIS: O DIÁLOGO COM O MUNDO DESENVOLVIDO 6.1. As Relações Brasil-União Europeia 6.2. As relações Brasil-Estados Unidos 7. AGENDA INTERNACIONAL DO BRASIL 7.1. Meio Ambiente 7.2. Direitos Humanos e política externa brasileira 8. Organização Mundial do Comércio (OMC) 9. POLÍTICA EXTERNA SOB O SIGNO DA DIPLOMACIA DA SOLIDARIEDADE: O Brasil e a cooperação sul-sul bilateral AUTOR Carlos Alexandre Considera Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal Fluminense. É Oficial de Chancelaria do Ministério das Relações Exteriores, atualmente lotado no Instituto Rio Branco. Atuou como Gerente de Projetos de Cooperação Internacional na Agência Brasileira de Cooperação (ABC). Foi Coordenador Nacional do Projeto PNUD BRA/12/018 da Secretaria-Geral da Presidência da República. No biênio 2012-2014, desempenhou a função de Chefe-Adjunto da Assessoria de Relações Internacionais do Gabinete da Presidência do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Coordenador Fabiano Távora Graduado em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC) - Turma do Centenário - 2003. Especialista em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas (FGV) - 2005. Mestre em Direito dos Negócios pelo Ilustre Colégio de Advogados de Madri (ICAM) e pela Universidade Francisco de Vitória (UFV) - 2008. Mestre em Direito Constitucional aplicado às Relações Econômicas pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR) - 2012. Advogado. Diretor-geral do Curso Diplomata - Fortaleza/CE. Foi Coordenador do único curso de graduação em Relações Internacionais do Estado do Ceará, pertencente à Faculdade Stella Maris. Professor de Direito Internacional para o Concurso de Admissão à Carreira Diplomática. Professor de Direito Internacional Público, Direito Internacional Privado, Direito do Comércio Exterior e Direito Constitucional em cursos de graduação e pós-graduação. AGRADECIMENTOS À Cely e à pequena Isabela pela compreensão e pelo carinho necessários à elaboração desta obra. Agradeço aos meus pais e irmãos os grandes ensinamentos e a confiança no sucesso do trabalho. PREFÁCIO* Dez anos atrás,recebi a notícia de que havia sido aprovado no concurso do Instituto Rio Branco para a carreira diplomática. Era difícil acreditar que meu nome estava na lista de aprovados, que o meu antigo sonho tornara-se realidade. Aquele momento deu-me a impressão de ser um divisor de águas, o primeiro passo da carreira que por tantos anos me fascinara. Hoje, percebo que o primeiro passo para a carreira diplomática havia sido dado em um momento anterior, quando comecei meus estudos de preparação para o concurso. A preparação para a carreira diplomática exige o desenvolvimento da capacidade de analisar politicamente a combinação de diferentes fatores da sociedade. Essa capacidade pode ser adquirida pela leitura atenta de diferentes pensadores e exposição a diferentes manifestações artísticas, o que requer uma caminhada de constantes descobertas. Essa caminhada é feita em direção às mais profundas e fundamentais características da sociedade brasileira, percorrendo a longa estrada que lentamente mostra as cores que delineiam o multifacetado cenário que é o Brasil. A preparação para a carreira diplomática requer este (re)encontro com o Brasil, este momento em que o futuro diplomata reflete sobre seu país e sobre seu povo. Eu diria que o processo de preparação é uma caminhada para dentro. Ao caminhar em direção às profundezas do Brasil, o futuro diplomata se defrontará com perspectivas históricas, geopolíticas, econômicas e jurídicas da realidade brasileira que lhe proporcionarão o arcabouço intelectual para sua contínua defesa dos interesses do Brasil e do povo brasileiro no exterior. Essa observação de quem somos como povo e como país é fundamental para o trabalho cotidiano dos diplomatas brasileiros, principalmente porque também pressupõe as relações do Brasil com outros países. Ao compreender a história política externa brasileira, o candidato poderá perceber características do Brasil que explicam como o país percebe sua inserção no mundo. É interessante notar que essa caminhada para dentro é o início de uma carreira feita para fora, em contato com o mundo. Os diplomatas são os emissários que também contam para o mundo o que é o Brasil e o que é ser brasileiro. A aprovação no concurso do Instituto Rio Branco não é, portanto, o primeiro passo da carreira. É o momento em que a caminhada para dentro do Brasil se completou e passa a ser uma viagem para fora, para relatar ao mundo o que nós somos e o que pensamos. Devo confessar que a minha caminhada foi bem difícil. Quando comecei a me preparar para o concurso, poucas cidades brasileiras tinham estruturas que guiassem os estudos dos candidatos para o concurso. Apesar de ter certeza de que nunca nenhuma leitura é inútil, estou certo de que a imensidão de pensadores e artistas que conformam o pensamento brasileiro é difícil de ser abordada no momento de preparação para o concurso. Lembro-me de que sempre busquei obras que me guiassem os estudos, mas não tive a sorte de naquele momento haver publicações neste sentido. Foi com muita alegria que recebi o convite para escrever sobre minha experiência pessoal como jovem diplomata brasileiro em uma coleção que ajudará na caminhada preparatória dos futuros diplomatas. Esta coleção ajudará meus futuros colegas a seguir por caminhos mais rápidos e seguros para encontrar o sentido da brasilidade e a essência do Brasil. Congratulo- me com a Editora Saraiva, com os autores e com o organizador da coleção, Fabiano Távora, pela brilhante iniciativa e pelo excelente trabalho. Aos meus futuros colegas diplomatas, desejo boa sorte nessa caminhada. Espero que se aventurem a descobrir cada sabor deste vasto banquete que é a brasilidade e que se permitam vivenciar cada nota da sinfonia que é o Brasil. Espero também que possamos um dia sentar para tomar um café e conversar sobre o que vimos e, juntos, contar aos nossos amigos de outros países o que é o Brasil. Pequim, novembro de 2014. Romero Maia APRESENTAÇÃO** Indubitavelmente, o concurso para o Instituto Rio Branco, uma das escolas de formação de Diplomatas mais respeitadas do mundo, é o mais tradicional e difícil do Brasil. Todos os anos, milhares de candidatos, muito bem preparados, disputam as poucas vagas que são disponibilizadas. Passar nessa seleção não é só uma questão de quem estuda mais, envolve muitos outros fatores. Depois de muito observar essa seleção, nasceu a ideia de desenvolver um projeto ímpar, pioneiro, que possibilitasse aos candidatos o acesso a uma ferramenta que os ajudasse a entender melhor a banca examinadora, o histórico dos exames, o contexto das provas, o grau de dificuldade e aprofundamento teórico das disciplinas, de forma mais prática. Um grupo de professores com bastante experiência no concurso do IRBr formataria uma coleção para atender a esse objetivo. Os livros foram escritos com base nos editais e nas questões dos últimos onze anos. Uma análise quantitativa e qualitativa do que foi abordado em prova foi realizada detalhadamente. Cada autor tinha a missão de construir uma obra que o aluno pudesse ler, estudar e ter como alicerce de sua preparação. Sabemos, e somos claros, que nenhum livro consegue abordar todo o conteúdo programático do IRBr, mas, nesta coleção, o candidato encontrará a melhor base disponível e pública para os seus estudos. A Coleção Diplomata é composta dos seguintes volumes: Direito internacional público; Direito interno I - Constituição, organização e responsabilidade do Estado brasileiro; Direito interno II - Estado, poder e direitos e garantias fundamentais (no prelo); Economia internacional e brasileira (no prelo); Espanhol (no prelo); Francês (no prelo); Geografia I - Epistemologia, política e meio ambiente; Geografia II - Geografia econômica; História do Brasil I - O tempo das Monarquias; História do Brasil II - O tempo das Repúblicas; História geral; Inglês; Macroeconomia; Microeconomia; Política internacional I - A política externa brasileira e os novos padrões de inserção no sistema internacional do século XXI; Política internacional II - Relações do Brasil com as economias emergentes e o diálogo com os países desenvolvidos; Português. Todos os livros, excetuando os de língua portuguesa e inglesa, são separados por capítulos de acordo com o edital do concurso. Todos os itens do edital foram abordados, fundamentados numa doutrina ampla e atualizada, de acordo com as indicações do IRBr. Os doutrinadores que mais influenciam a banca do exame foram utilizados como base de cada obra. Junte-se a isso a vivência e a sensibilidade de cada autor, que acumula experiências em sala de aula de vários locais (Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Curitiba, Belo Horizonte, Recife, Salvador, Teresina...). Cada livro, antes da parte teórica, apresenta os estudos qualitativos e quantitativos das provas de seleção de 2003 até 2015. Por meio de gráficos, os candidatos têm acesso fácil aos temas mais e menos cobrados para o concurso de Diplomata. Acreditamos que esse instrumento é uma maneira inteligente de entender a banca examinadora, composta por doutrinadores renomados, bastante conceituados em suas áreas. No final de cada livro, os autores apresentam uma bibliografia completa e separada por assunto. Assim, o candidato pode ampliar seus conhecimentos com a segurança de que parte de uma boa base e sem o percalço de ler textos ou obras que são de menor importância para o concurso. As questões são separadas por assunto, tudo em conformidade com o edital. Se desejar, o aluno pode fazer todas as questões dos últimos anos, de determinado assunto, logo após estudar a respectiva matéria. Dessa forma, poderá mensurar seu aprendizado. Portanto, apresentamos aos candidatos do IRBr, além de uma coleção que apresenta um conteúdo teórico muito rico, bastante pesquisado, uma verdadeira e forte estratégia para enfrentar o concurso mais difícil do Brasil. Seguindo esses passos, acreditamos, seguramente, que você poderá ser um DIPLOMATA. Fortaleza, 29 de julho de 2015. Fabiano Távora EVOLUÇÃO DAS QUESTÕES POR ANO***5. O Brasil e as Relações Bilaterais Horizontais No âmbito das relações bilaterais entre os países em desenvolvimento, verifica-se, a partir da década de 1990, o crescimento das ações de cooperação Sul-Sul, as quais vão além dos objetivos econômicos e financeiros dos blocos comerciais de caráter regional. Tendo em conta a perspectiva brasileira, no entanto, a origem deste processo encontra-se nos objetivos da Política Externa Independente e no esforço nacional pela agregação de valor à incipiente produção industrial do País. É nesse contexto que, em meio à estrutura bipolar do sistema internacional originado a partir da Segunda Guerra Mundial, o Brasil, sem provocar rupturas com o bloco liberal capitalista, empreende, em meados da década de 1970, esforços de aproximação política e econômica com países da América Latina, Ásia, África e do Oriente Médio. Tais esforços de aproximação Sul-Sul, dos quais se originam as parcerias estratégicas no plano horizontal das relações internacionais do Brasil, não devem ser entendidos como contraditórios, ou mesmo confrontantes, com as relações desenvolvidas com os países do Norte. Como ressaltado por Henrique Altemani de Oliveira (2012, p. 89): Deduz-se destas colocações, como já colocado anteriormente, que a política externa brasileira esforçava-se por um relacionamento preferencial com o Sul, no sentido de obter maior poder no cenário internacional, sem, no entanto, introduzir mudanças estruturais no seu intercâmbio com o Norte. Daí então a percepção de um somatório de estratégias e não a exclusão de campos antagônicos. A história recente da política externa brasileira contém as razões que levaram os formuladores da política internacional do Brasil a buscarem a ampliação das parcerias políticas, econômicas e estratégicas para além do eixo norte-americano e europeu. Detentores de um parque industrial em processo de consolidação, e dependentes da atração de investimentos estrangeiros e da formação de correntes de comércio para equilibrarem seus balanços de pagamentos, os países em desenvolvimento, e o Brasil em especial, viam na dinâmica do sistema financeiro internacional e na estrutura dos mecanismos de segurança coletiva limitações ao crescimento econômico e ao desenvolvimento de novas tecnologias, ainda que para fins exclusivamente pacíficos. Ao final dos anos 1950, restava evidente as limitações nas capacidades de crescimento econômico do Brasil resultantes do alinhamento automático com os Estados Unidos da América e o bloco de países ocidentais capitalistas. Os esforços empreendidos por Juscelino Kubitschek no âmbito da Operação Pan-Americana (OPA), em face de seus escassos resultados práticos alcançados, levou o governo de Jânio Quadros a dar início à prospecção de novas parcerias junto aos países com grau de desenvolvimento similar, os quais vivenciavam o desafio comum de promover o crescimento econômico e a autonomia política em meio a uma estrutura geopolítica bipolar. Nasciam, nesse contexto, os dilemas de cunho socioeconômico do relacionamento Norte-Sul, que, nas décadas seguintes, suplantariam as disputas ideológicas entre comunismo (Leste) versus capitalismo (Oeste). A Política Externa Independente, segundo Amado Cervo e Clodoaldo Bueno (2011, p. 332 e 339): [...] partia de uma visão universal, embora sem descuidar do regional; possuía caráter pragmático, pois buscava os interesses do país sem preconceitos ideológicos; e, para melhor consecução destes objetivos, adotava postura independente em face de outras nações que tinham relacionamento preferencial com o Brasil. [...] Dessa forma, as demandas internas do desenvolvimento converteram-se no vetor da política externa, destinada a criar e viabilizar os meios com que viessem a se articular a participação externa, suas modalidades e sua intensidade, com a intervenção reguladora ou empreendedora do Estado e a dinâmica da sociedade. Como veremos ao longo deste capítulo, os desafios no estabelecimento de relações de cooperação com esses países não foram homogêneos, embora sejam observados traços comuns aos esforços das nações em desenvolvimento em angariar autonomia e voz nos foros internacionais. A importância econômica dos países em desenvolvimento, conhecidos então como partes do Terceiro Mundo, torna-se, ao longo dos anos 1970, cada vez mais evidente, sobretudo após as sucessivas crises de suprimento de petróleo que levaram ao fim da arquitetura financeira baseada no padrão dólar-ouro. Soma-se a este contexto a conclusão dos processos de independência das antigas colônias europeias na África e na Ásia, com muitas das quais o Brasil detém afinidades culturais, étnicas e linguísticas. No contexto pós-Guerra Fria, esses países congregam percepções comuns que, como visto no capítulo 4 do tomo I desta obra, visam a reformar as estruturas do sistema internacional estabelecidas no final da Segunda Grande Guerra. Tendo em conta o nível de desenvolvimento técnico- industrial desses países e, em alguns casos, seus abundantes recursos naturais, as nações em desenvolvimento são, hoje, atores centrais do processo de produção e inovação tecnológica empreendido pelos países desenvolvidos. Há que se ressaltar que os avanços nas comunicações e nos transportes permitem, pela primeira vez, o estabelecimento não somente de relações comerciais em nível global, mas sobretudo de cadeias produtivas integradas por modernos conceitos logísticos centrados na ideia da redução de custos finais e consequente aumento da competividade. Ainda que ao longo dos anos 1970 e 1980 as correntes de comércio entre os países em desenvolvimento não tenham sido consideravelmente aumentadas, é possível atribuirmos a esse momento da política internacional o nascimento das parcerias estratégicas bilaterais empreendidas pelo Brasil a partir dos anos 1990. No plano multilateral, o principal resultado obtido pela articulação entre os países em desenvolvimento foi a realização, em 1964, no âmbito da ONU, da Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad). Como veremos no capítulo 8 desta obra, a articulação entre os países em desenvolvimento, no âmbito da Unctad, foram essenciais para o estabelecimento, no âmbito do General Agreement on Tarifs and Trade (GATT), do Sistema Geral de Preferências, o qual permitiu mitigar assimetrias de comércio que, em estrita observância à “cláusula da nação mais favorecida”, limitavam o aumento dos fluxos de troca entre economias de diferentes estágios de evolução. 5.1. Relações Brasil-África 5.1.1. Breve histórico A história das relações Brasil-África passa pelo que o Professor José Flávio Sombra Saraiva chama de “atlantismo”, em alusão à influência da África Atlântica no Brasil que contribuiu, desde o período colonial brasileiro, para traçar “a organização social da colônia portuguesa nos trópicos americanos”, principalmente pelo instituto da escravidão (Saraiva, 2012, p. 14) - que perdurou, no Brasil, até o final do Império. A Proclamação da República não serviu para aprofundar os laços outrora densos entre Brasil e África, perdurando o distanciamento mútuo do fim do século XIX à primeira metade do século XX. Durante essa metade de século, a percepção culturalista ascendeu no pensamento de escritores brasileiros para definir a influência da África na formação social do Brasil, como se evidenciou no “esquema culturalista” de Gilberto Freyre. O atlantismo alicerçado no tráfico de escravos “foi transmutado pelo discurso culturalista” (Saraiva, 2012, p. 14) da presença africana no Brasil. Somente a partir da Política Externa Independente (PEI), o Brasil redescobriu a África. O Presidente Jânio Quadros retomou ideias provenientes do segundo governo Vargas sobre a perspectiva estratégica do relacionamento com a África, restabelecendo a “aproximação atlântica” (Saraiva, 2012, p. 18). A aproximação transcendeu a África Atlântica, alcançando grande parcela da África Negra. Emergiu, assim, o conceito que Sombra Saraiva trabalha ao lado do “atlantismo”: o de “parceria”, pilarda modernização do “atlantismo brasileiro com a agregação da África parceira no campo das demandas do desenvolvimento” (Saraiva, 2012), como se depreendeu da PEI do Chanceler Araújo Castro. Recorda-se que fora Araújo Castro o mesmo que proferiu, na Reunião Ordinária da Assembleia Geral das Nações Unidas de 1963, o famoso Discurso dos Três Ds, ressaltando que a descolonização era direito de povos que buscavam a autodeterminação de suas nações, que o desarmamento possibilitaria a sobra de recursos para o desenvolvimento, e este seria a síntese necessária na narrativa para o progresso econômico e social. Percebe-se que a PEI utiliza o discurso culturalista para construir uma “ponte”, nas palavras de Jânio Quadros, entre o Brasil e a África. O Brasil possuiria uma “natural vocação africana”. Não por acaso Quadros foi o primeiro presidente brasileiro a nomear um embaixador negro e a escolher como Chanceler um político, Afonso Arinos de Melo Franco, que propusera, em 1951, lei que proibia a discriminação racial (Saraiva, 2012, p. 19). A PEI, compreendida entre os governos de Jânio Quadros e João Goulart, encontrou obstáculos para enfrentar os laços luso-brasileiros devido a variáveis que vão do conservadorismo da imprensa brasileira à influência da comunidade de imigrantes portugueses (Penna Filho; Lessa, 2007, p. 67). Essas barreiras condicionaram a ação da diplomacia brasileira perante o continente africano naquele período. Ações concretas, no entanto, foram tomadas, como a abertura de embaixadas no Senegal (epicentro intelectual da África francófona) e na Nigéria, país que se apresentaria como mercado significativo para as exportações brasileiras em anos subsequentes (Penna Filho; Lessa, 2007, p. 68-69). Durante parte do regime militar brasileiro (1964-1985), o atlantismo foi moldado, pela ótica dos círculos concêntricos e do Atlântico Sul, como potencial porta de entrada para a ameaça comunista, no contexto dual da bipolaridade sistêmica. Tal atlantismo foi concebido por Golbery do Couto e Silva, ex-chefe do Serviço Nacional de Inteligência (SNI), e serviu de diretriz para políticas defendidas pela Escola Superior de Guerra (ESG). No primeiro governo do regime militar (1964-1967), houve “contrações na nascente política africana brasileira”, porém, ocorreu também paradoxo materializado na primeira visita de um chefe de Estado africano ao Brasil, o presidente senegalês Léopold Senghor (Saraiva, 2012, p. 19): foi a oportunidade para que os geopolíticos nacionais “construíssem pontes anticomunistas com o outro lado do Atlântico” (Saraiva, 2012, p. 20). Penna Filho e Lessa (2007, p. 69) argumentam que o golpe de 1964 não provocou “inflexão total” nas relações Brasil-África, mas, no domínio político, o governo Castello Branco realinhou o Brasil “com as teses predominantes da Guerra Fria e o esvaziamento do discurso em favor da emancipação de todas as colônias”. Ainda segundo esses autores, o governo brasileiro reconheceu que os territórios além-mar portugueses eram províncias ultramarinas e, consequentemente, não autônomas: a questão pertencia ao âmbito doméstico de Portugal e, por isso, não cabia a ingerência brasileira (Penna Filho; Lessa, 2007, p. 67). O Brasil, assim, adota posição ambígua quanto à África, marcada, por um lado, pela defesa de conceitos que caracterizavam a inserção internacional do Brasil e, por outro, pelo sentimentalismo luso-brasileiro expresso nos laços especiais com a ex-metrópole, oficializados, inclusive, por meio de Tratado de Amizade e Consulta, celebrado em 1953, e pelo peso do comércio com a África do Sul - importante mercado para produtos brasileiros, apesar da política sul-africana do apartheid (Penna Filho; Lessa, 2007, p. 58). A partir do governo Garrastazu Médici (1969-1974), o atlantismo ganhou conotações diplomáticas vinculadas ao comércio, ao interesse mercantil em relação à África (Saraiva, 2012, p. 20). Esta foi a tônica do Pragmatismo Responsável e Ecumênico do governo Geisel, passando pela Diplomacia do Universalismo do governo Figueiredo, até alcançar o início da democratização nacional, consubstanciada em diplomacia pragmática e assertiva conduzida pelo Chanceler Abreu Sodré, na maior parte da presidência de José Sarney. O Brasil precisava da África, mormente da África Atlântica, para diversificar parceiros comerciais e supridores de petróleo, bem como para angariar apoio político nos fóruns multilaterais. Convém ressaltar que a vulnerabilidade energética do Brasil nos anos 1970 e parte da década de 1980 teve importância ímpar para a busca brasileira por novas parcerias, o que explica “a superação gradual do comércio quase exclusivo com a África do Sul pelo intercâmbio crescente com outros dois novos parceiros atlânticos: Nigéria e Angola” (Saraiva, 2012, p. 20). O Brasil precisava de fornecedores de petróleo e de novos mercados para os produtos nacionais: a fronteira atlântica brasileira foi alternativa viável, tanto para garantir o suprimento de petróleo, quanto para estimular exportações nacionais, em contexto de restrições sistêmicas provenientes dos Choques do Petróleo e da crise da dívida dos anos 1980. A partir do governo Médici, a inserção internacional do Brasil refletiu a imagem de um poder tropical e industrial. O Governo brasileiro tentou passar para os Estados africanos a percepção de que as relações históricas luso-brasileiras não prejudicariam as relações Brasil-África. O País pautou, assim, a interação bilateral com países africanos sob os seguintes eixos: i) celebração de acordos comerciais e técnicos; ii) incremento de rotas de comércio no Atlântico; iii) investimentos brasileiros para projetos de desenvolvimento em países africanos; e iv) a retomada do discurso culturalista como ponte entre o Brasil e a África. Nas décadas de 1970 e 1980, empresas exportadoras procuraram explorar as vantagens comparativas brasileiras “para maximizar as possibilidades de intercâmbio com regiões periféricas como a África” (Saraiva, 2012, p. 21). Agências estatais, empresas públicas e privadas, bem como a diplomacia pátria, uniram-se para projetar o Brasil comercialmente na África, apoiados na abertura de representações diplomáticas naquele continente. Na área tecnológica, o Brasil ofereceu soluções adaptadas à realidade tropical dos países africanos. O chanceler Gibson Barboza, em seu périplo africano de 1972, vislumbrou que o Brasil poderia cooperar com os países daquele continente, pois já detinha tecnologias tropicais que poderiam ajudar os Estados áfricos em domínios como a agricultura. Na seara política, o governo brasileiro, a partir da década de 1970, revisou sua política de apoio ao colonialismo luso na África. O reconhecimento do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) como legítimo governo de Luanda ilustra tal revisão (Saraiva, 2012, p. 22). Além disso, a Missão Ítalo Zappa (1974) à África permitiu o fomento do diálogo entre o governo brasileiro e a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), mesmo que houvesse ressentimento pelo fato de o Brasil não ter apoiado a Frente desde o início do conflito de independência daquele país (Penna Filho; Lessa, 2007, p. 71). A década de 1990 caracterizou-se como a de “hiato e longa sonolência” (Saraiva, 2012, p. 23). O interesse brasileiro pela África diminuiu, sobretudo pela marginalização desse continente nas relações internacionais. O “afro-pessimismo” imiscuiu-se na política exterior do Brasil, limitando as relações com a África negra a temas pontuais, isentos de diretrizes claras. O ápice desse contexto do relacionamento com a África foi o restabelecimento de relações plenas entre Brasil e África do Sul, exemplificado pelo Acordo de Pretória (1996). Recorde-se, ainda, de que a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), cuja maioria dos membros são países africanos de língua portuguesa (PALOP), corroborou a pontualidade das relações do Brasil com a África, com preferência para os países lusófonos. Somente a partir da presidência de Luiz Inácio Lula da Silva,o Brasil resgatou a África como região prioritária, alicerçando as relações bilaterais pelos princípios da cooperação Sul-Sul, da não indiferença e da solidariedade, sem relegar o pragmatismo do comércio e dos investimentos. 5.1.2. O contexto recente das relações Brasil-África A partir do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), a política externa buscou um atlantismo renovado que objetivava a reparar a dívida histórica com a África: o “atlantismo da estratégia Sul-Sul das relações internacionais do Brasil”, de cunho social e cooperativo (Saraiva, 2012, p. 15). O signo da solidariedade reavivou, portanto, relações brasileiras com o Atlântico Sul sob a égide de alicerces modernos e mais cooperativos. “A identidade mútua e as aspirações de autonomia decisória animam os movimentos das diplomacias e dos empresários”, construindo pontes entre os países litorâneos do Atlântico Sul: reside aí a “dimensão idealista das relações internacionais” (Saraiva, 2012, p. 17). O Estado, seguido pelo voluntarismo do Terceiro Setor e pelas oportunidades de investimentos vislumbradas pelas empresas brasileiras, desempenhou papel essencial para a reaproximação Brasil-África, como lembra Sombra Saraiva (2012). O governo Lula dispensou grande atenção ao continente africano. As doze viagens do então presidente brasileiro à África mostram o compromisso do governo com o aprofundamento da cooperação, seja na área comercial, seja na área de cooperação técnico- científica. Ademais, O presidente brasileiro foi a países africanos diversos, como Angola, Burkina Fasso e África do Sul, com o objetivo de aprofundar o diálogo político. “Na visão brasileira, com os desafios e as ameaças globais, é fundamental encontrar soluções duradouras e equitativas que reflitam o interesse da maioria” (Campos, 2008). O Brasil desenvolve relações baseadas no interesse mútuo e na solidariedade. Por essa razão, o país passou a ter relação diferenciada com os Estados áfricos. Inauguraram-se, desde 2003, 20 novas embaixadas brasileiras no continente, totalizando 37, e o número de missões diplomáticas africanas em Brasília passou de 16 para 33 (Mano, 2012). A atuação do Brasil na região africana é diversificada e intensa, transcendendo os aspectos comerciais e econômicos. Na área da saúde, por exemplo, no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o Brasil tem atuado no combate à malária em Guiné Bissau. Em Angola e Moçambique, o Brasil tem parcerias para o tratamento da Aids, além de fornecer remédios a preços mais baratos a muitos países africanos. Ademais, a Fiocruz tem um escritório em Maputo, Moçambique, que cuida do fornecimento de vacinas, produzidas pela fundação (Campos, 2008). A Fiocruz inaugurou, em dezembro de 2013, uma fábrica pública de medicamentos contra a Aids, em Moçambique, como parte de projetos estruturantes que visam a fortalecer a presença brasileira no continente. Além disso, segundo Amanda Rossi (2013), A fábrica é citada em discursos de governantes brasileiros como exemplo da ajuda que o Brasil pode dar à África e o diferencial da cooperação brasileira em relação a outros países. Enquanto a Europa e os Estados Unidos doam medicamentos, o Brasil doaria toda a tecnologia de produção. A fábrica da Fiocruz é herança do governo Lula inserida na agenda de ações do governo Dilma Rousseff para intensificar as relações com a África. O desenvolvimento das relações Brasil-África faz parte do escopo amplo da cooperação Sul-Sul, a qual engloba modalidades de cooperação que passam pela assistência técnica, pela assistência humanitária, pela ajuda a refugiados e pela cooperação multilateral por organismos internacionais. Tais modalidades de cooperação serão analisadas no capítulo 9 desta obra, no qual serão estudados, ainda, os princípios que regem a cooperação brasileira. Outra iniciativa importante para o desenvolvimento de países africanos é o projeto Cotton-4 - Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Setor Algodoeiro de Benin, Burkina Faso, Chade e Mali (C-4). O Cotton-4 é coordenado pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e implementado pela Embrapa. Segundo o Itamaraty (MRE, 2013a): O programa visa a promover mudanças significativas nos paradigmas tecnológicos do setor algodoeiro, “commodity” de forte impacto econômico e social nos mercados internos. O C-4 conta, desde julho de 2012, com recursos provenientes do contencioso do algodão contra os EUA na OMC, administrados pelo Instituto Brasileiro do Algodão (IBA). [...] Entre os resultados atingidos pelo projeto, destacam-se: (i) a Estação Experimental de Sotuba, que na condição de polo regional de pesquisa agrícola permitirá a disseminação das pesquisas validadas em benefício da população rural; (ii) difusão da produção científica como fator de inclusão social de pequenas comunidades rurais; (iii) fortalecimento da cadeia produtiva do algodão por meio da pesquisa e do acesso de pequenos produtores aos resultados provenientes das instituições de pesquisa. Na área da educação, destaca-se a criação, no ano de 2010, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), autarquia vinculada ao Ministério da Educação do Brasil, com sede na cidade de Redenção (CE). A Unilab tem como objetivo ministrar ensino superior, desenvolver pesquisas nas diversas áreas de conhecimento e promover a extensão universitária, tendo como missão institucional formar recursos humanos para contribuir com a integração entre o Brasil e os demais países-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), especialmente os países africanos, bem como promover o desenvolvimento regional e o intercâmbio cultural, científico e educacional. De acordo com dados contidos no site da Universidade, no ano de 2014, havia 3.260 alunos inscritos em cursos de graduação e pós-gradução, nas modalidades presenciais e à distância, sendo que destes, mais da metade eram nacionais de Angola, Cabo Verde, São Tomé, Moçambique e Timor Leste. Dentre os vários cursos oferecidos, destacam-se áreas essenciais para o desenvolvimento socioeconômico daqueles países, como administração pública, enfermagem e agronomia. A Unilab deve ser tida, portanto, como expressão concreta da diplomacia solidária praticada pelo Brasil junto a seus parceiros africanos, em contexto da polítca externa no qual o relacionamento com a África supera a visão ultrapassada do País como “ponte” entre aquele continente e os países desenvolvidos. Ainda na área de educação, a Universidade Aberta do Brasil, de ensino à distância, já possui polo presencial em Moçambique, e as 37 embaixadas do Brasil na África preparam-se para oferecer cursos de língua portuguesa, de forma a facilitar a participação de alunos em cursos da Unilab e da Universidade Aberta (Rousseff, 2013). A cooperação Sul-Sul e a solidariedade são pilares da Cúpula América do Sul-África (ASA), de 2006, que ressalta o sucesso da Cúpula Países Árabes-América Latina, realizada um ano antes, em 2005. O sucesso da “Diplomacia de Cúpulas” é evidente pelo incremento das exportações de ambos os lados e da cooperação (Campos, 2008). A ASA e outros mecanismos de cooperação inter-regional buscam dar forma a uma realidade que se configura dia a dia e que constitui a gradual ascensão dos países em desenvolvimento no cenário político e econômico internacional. Por meio de fóruns de formatos diversos - inter-regionais ou multilaterais -, os países em desenvolvimento procuram contribuir para uma reforma da estrutura do poder mundial e para o estabelecimento de uma ordem menos centralizada, mais multipolar e mais democrática1. A cooperação Sul-Sul e a ASA vinculam-se à vertente pragmática da política externa brasileira ao contribuir para o desenvolvimento dos laços comerciais Brasil-África. Na III Cúpula ASA, realizada em Malabo (Guiné Equatorial, 2013), o discurso da Presidente Dilma Rousseff (2013) foi enfático quanto à aproximação comercial e de investimentos entre brasileiros e africanos, a qual, em conjunto com projetos estruturantesem áreas que vão da saúde à agricultura, torna-se vetor fundamental para o desenvolvimento socioeconômico do Brasil e da África: Ao mesmo tempo, nós consideramos muito importante a diversificação das pautas comerciais e dos investimentos. Achamos que a parceria governo, ela tem de contemplar também a parceria entre empresas, a parceria também com a sociedade, a parceria cultural. E, olhamos com muito interesse a formação de mecanismos de incentivo para que mais empresas, produtos e serviços, cruzem o Atlântico nos dois sentidos. Saúdo, nesse sentido a aprovação do programa para o desenvolvimento da infraestrutura na África, com a execução pelo Banco Africano de Desenvolvimento, que inclui projetos de infraestrutura energética, transporte, tecnologia da informação e recursos hídricos. Nós achamos importante e fundamental, e por isso estamos abertos e motivados a construir o grupo de trabalho que irá definir de forma muito clara as condições para um fundo de financiamento de projetos em todas as áreas nas nossas regiões. Esse fundo de financiamento terá de ser colocado em pé e aí se definirão os fundings, as participações e os métodos de liberação de recursos. O Governo brasileiro anunciou, em 2013, uma “agenda de ações” visando a diversificar e a ampliar as relações bilaterais, o que inclui o incremento do comércio e dos investimentos brasileiros no continente. Para tanto, o governo brasileiro pretende “desobstruir gargalos” relacionados à dificuldade, tanto no acesso a financiamentos para exportações, quanto na execução de projetos de desenvolvimento (Rossi, 2013). Nesse contexto, o Brasil anunciou, na visita oficial da Presidente Dilma Rousseff à Etiópia, por ocasião do Jubileu de Ouro da União Africana (maio de 2013), a renegociação de dívidas de 12 países africanos. Em nota, o Itamaraty esclareceu que o perdão e a renegociação de dívidas de outros países passam pela avaliação do Comitê de Avaliação de Créditos no Exterior, o qual toma ou não a decisão de levar os casos apresentados ao Senado Federal, com base na Lei n. 9.665/98 e em parâmetros definidos em negociações bilaterais e em linha com o Clube de Paris: busca-se aliviar o peso da dívida de países pobres. Segundo o MRE (2013b), Trata-se de iniciativa promovida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), implementada por etapas, e destinada a aliviar o peso da dívida de países de baixa renda, da qual participam os grandes credores internacionais. No contexto dessa iniciativa são aprovados planos para assegurar que os recursos liberados sejam aplicados no combate à pobreza. A cláusula de comparabilidade de tratamento obriga o país devedor a não pagar a nenhum credor percentual maior do que acordou com os seus credores internacionais reunidos pelo Clube de Paris, sob pena de ver revertidos a redução lá obtida ou demais condicionantes do alívio. Não se trata, assim, de voluntarismo brasileiro, mas de prática concertada internacionalmente, com objetivos claros de permitir que o peso da dívida não se transforme em impedimento do crescimento econômico e da superação da pobreza. Paralelamente, a Presidente Dilma afirmou duas outras ações na agenda brasileira para a África: i) missões brasileiras para negociar acordos de investimento e de financiamento de exportações, com o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); e ii) reforma na Agência Brasileira de Cooperação (ABC), vinculada ao Ministério das Relações Exteriores do Brasil, de forma a permitir ações mais contundentes de apoio ao desenvolvimento associado ao fomento de investimentos e comércio. Em consonância com as agendas da cooperação e do comércio, a convergência política mostra-se proeminente na busca de um multilateralismo mais igualitário e justo, da reciprocidade. O Brasil defende reforma urgente da ONU, mormente do Conselho de Segurança, que não pode prescindir da representação da África e da América do Sul com membros permanentes. No mesmo sentido, o Brasil recebe apoio de países africanos para a reforma na governança global econômica e financeira, incluindo-se as duas organizações criadas em Bretton Woods, isto é, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, ambas com um sistema de quotas que ainda reflete a hegemonia pretérita de alguns países. No âmbito multilateral da ONU, o Brasil é ator proativo nas missões de paz, contribuindo com algumas missões sob a égide onusiana na África. De acordo com Renata Gianinni (2013): Baseada no tripé segurança, estabilidade e desenvolvimento, a atuação brasileira se destaca pela quantidade de projetos sociais implementados pela embaixada, pela cooperação técnica, principalmente na área de infraestrutura, e pela presença marcante de tropas brasileiras dedicadas à manutenção de um ambiente seguro e estável no país. Essa estratégia está em linha com a política exterior do país, que enfatiza não somente as questões de segurança imediatas, mas também as causas profundas que geram conflito e violência no ambiente internacional. Conquanto os contingentes militares brasileiros em missões de paz onusinas concentrem-se, atualmente, no Haiti e no Líbano, o Brasil participa de algumas missões coordenadas pelo Departamento de Operações de Paz da ONU (DPKO) das Nações Unidas. Segundo o sítio oficial do Exército Brasileiro2, o Brasil participa da Missão das Nações Unidas no Chade e na República Centro-Africana (MINURCAT), da Operação das Nações Unidas na Costa do Marfim (UNOCI), na Missão das Nações Unidas no Sudão (UNMIS), na Missão das Nações Unidas na Libéria (UNMIL), do Escritório das Nações Unidas para a África Ocidental (UNOWA) e da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Saara Ocidental (MINURSO). Em meados de 2013, o general brasileiro Carlos Alberto dos Santos Cruz, que já comandou o contingente militar na missão no Haiti (MINUSTAH), foi nomeado comandante da primeira Brigada de Intervenção de uma missão da ONU, na República Democrática do Congo. Para Luis Kawaguti (2013), As operações de paz da ONU nasceram inicialmente com o objetivo genérico de monitorar acordos já estabelecidos de cessar-fogo. Mas, em muitas regiões - como na África e no Haiti, por exemplo - as tropas da ONU se depararam com situações de conflitos. Devido a mudanças na natureza desses conflitos - que em muitos casos deixaram de ter “linhas de frente” e assumiram características da guerra de guerrilha -, as operações começaram a passar por uma tendência de endurecimento. A mudança também foi em parte motivada, segundo analistas, pela tentativa frustrada de um grupo de capacetes azuis de impedir o genocídio de Ruanda em 1994. Novas ferramentas passaram a ser utilizadas, tais como implementação de embargos e o envio de forças militares cada vez mais robustas para países em crise. Até agora, a Monusco (a missão de paz da ONU no Congo) aparenta representar o ápice dessa tendência. Ela foi estabelecida com um embasamento jurídico que permite a seu comandante não apenas defender os funcionários da ONU e a população ou revidar agressões, mas também adotar iniciativas ofensivas contra grupos rebeldes contrários ao governo. A característica mais incisiva da Monusco no combate a grupos guerrilheiros, no entanto, não contradiz a atuação brasileira em missões de paz com base em princípios como o de não intervenção, o da imparcialidade, o da solidariedade e o da mediação pacífica de conflitos, em consonância com o artigo 4º da Constituição da República Federativa do Brasil. Por isso, o Brasil trabalha na formulação de conceitos que possam contribuir para que o diálogo e a diplomacia prevaleçam sobre a força. A intervenção de forças de paz em um país deve ser a última alternativa para se acabar com conflito, no compasso do que a Presidente Dilma chamou de “responsabilidade ao proteger”, que deve “temperar” a “responsabilidade de proteger” - herança da ideia de droit d’ingerence em assuntos afetos aos direitos humanos. Para a diplomacia brasileira, a responsabilidade ao proteger significa resolver litígios pelo diálogo epela cooperação. Tanto no plano multilateral quanto no bilateral, o Brasil investe nas relações com a África com ativos que perpassam as concepções idealista e realista das relações internacionais. A cooperação Sul-Sul e a não indiferença são indicativos de que a preocupação com o desenvolvimento embasa a relação do Brasil com os países áfricos, como exemplificam os projetos de cooperação técnica. Em paralelo, o Brasil tem a perspectiva de que a África é a última fronteira econômico-comercial a ser explorada, o que leva o país a atuar enfaticamente na presença de empresas e de capitais brasileiros em território áfrico, seja no setor de serviços, seja na área de fornecimento de bens duráveis. Alguns analistas asserem que a África não está nos holofotes da política externa do governo Dilma. Os fatos e as análises apresentadas provam que eles se equivocam ao avaliar a inserção internacional do Brasil apenas pela contraposição com o governo Lula, no qual a ação externa brasileira ganhou os holofotes da mídia. O governo brasileiro segue na diretriz de estimular as relações com os países do Sul, apesar do tom mais discreto e reservado. Não há como afirmar que a África perdeu a atenção do Brasil. A “ponte” ligando os dois lados do Atlântico Sul permanece sólida e estribada em relações de mútuo benefício. 5.2. O Brasil e a Rússia “Senhor Presidente , trazia o gabinete, no programa que apresentou à Câmara dos Deputados, entre os pontos fundamentais da sua linha de política externa, o restabelecimento das relações comerciais e diplomáticas com os países socialistas, dentro do objetivo de universalização das nossas relações econômicas e políticas. [...] O primeiro ponto para o qual desejo chamar a atenção da Câmara é que o governo não foi levado a essa decisão por nenhum motivo de simpatia, nem mesmo de tolerância ideológica ou doutrinária, mas, sim, por considerações de ordem política e de ordem econômica, em que entram em linha de conta, única e exclusivamente, os interesses do nosso país. No tocante às motivações políticas, Senhor Presidente, peço licença para lembrar à casa que os Estados que hoje mantêm relações com a União Soviética sobem a 71; entre eles, quase todas as democracias modernas.” (Discurso do ministro San Tiago Dantas na Câmara dos Deputados, em 23 de novembro de 1961, sobre o reatamento das relações diplomáticas com a União Soviética) As relações do Brasil com a Rússia possuem especial importância para a análise que se pretende realizar neste capítulo 5, tendo em conta os benefícios no plano das relações multilaterais que a parceria estratégica lhes proporciona. Embora situados em regiões muito distantes e diversas, os dois países enfrentam desafios comuns: para além das dimensões continentais e da abundância de recursos minerais, Brasil e Rússia, na década de 2010, apresentam posições similares de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e do coeficiente de Gini3. Ambos os países são tidos, nos dias atuais, como economias emergentes, capazes de atrair investimentos estrangeiros e de proporcionar mercados consumidores dinâmicos em meio a conjuntura de crise das economias centrais. A existência desses atuais desafios comuns, no entanto, é fato novo nas relações internacionais, derivado das mudanças políticas e econômicas pelas quais passaram Brasil e Rússia entre as décadas de 1980 e 2000. Hoje, a Rússia emergente é reflexo de um processo de reabilitação econômica de uma potência que enfrentou, na década de 1980, reestruturação total de sua política e economia. A condição “emergente” da Rússia tem, portanto, origem completamente diversa do processo que conduziu o Brasil à mesma situação. A Rússia atual tem origem no desmantelamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), país socialista líder do “Segundo Mundo”, reconhecido como potência militar e econômica até os anos 1980, capaz de submeter o Leste Europeu e partes da Ásia e da África a relações de cooperação com o Governo de Moscou. Já o Brasil do século XXI consolidou-se a partir da redemocratização e das reformas econômicas que permitiram transformar o processo de industrialização por substituição de importações em modelo de desenvolvimento econômico favorável à presença da iniciativa privada e do capital estrangeiro. Ao longo do texto, o autor pretende demonstrar de que modo as diferentes conjunturas vivenciadas por Brasil e Rússia conduziram esses países a cooperar em torno da recomposição das forças e das estruturas dos organismos internacionais de segurança e comércio. 5.2.1. Brasil e URSS nos anos da Guerra Fria: desconfianças e comércio As diferenças políticas e ideológicas entre o Brasil e a Rússia tem origem muito antes do estabelecimento do embate bipolar entre os EUA e a URSS, observado nos anos da Guerra Fria. De fato, com a vitória dos bolcheviques na Revolução Russa, em novembro de 1917, o Brasil não reconhece o novo governo e retira, no ano seguinte, o encarregado de negócios brasileiro naquele país, deixando seus interesses na Rússia a cargo da Legação da Noruega. Durante todo o entre-guerras, as relações políticas e diplomáticas são inexistentes, motivadas, de parte do Brasil, por receios de que as ideias comunistas pudessem se desenvolver no país. Embora não seja objeto de análise desta obra, recorda-se que, na década de 1930, tinha início o desenvolvimento industrial do Brasil e, com ele, surgia uma classe operária carente de direitos e garantias trabalhistas. Nesse contexto, havia terreno fértil para o crescimento de ideologias comunistas e nacionalistas, como as que deram origem, em 1935, ao lançamento da Aliança Nacional Libertadora (ANL), tendo como líder Luís Carlos Prestes, e à tentativa frustrada de golpe militar pelos “tenentes”. Tais episódios foram utilizados pelo governo de Getúlio Vargas como justificativa para adotar, nos anos seguintes, amplas medidas repressivas, como decretação de estado de sítio e cassação de parlamentares simpáticos à Aliança. O desfecho dessa situação política originou, em 1937, o governo ditatorial de Getúlio Vargas conhecido por Estado Novo, o qual se utilizou, igualmente, da “ameaça comunista”, desta vez, expressa no Plano Cohen, um suposto manual de como seria realizada uma insurreição comunista no Brasil. Percebe-se, portanto, que a URSS era tida por setores do governo, pelas oligarquias rurais e pela nascente classe média urbana, até a Segunda Guerra Mundial, como ameaça capaz de desencadear revoluções contrárias à propriedade privada, à Igreja Católica e às instituições públicas. Durante a Segunda Guerra, porém, ambos os países lutam contra o mesmo inimigo - a Alemanha nazista e as forças do Eixo - ao lado dos EUA, país com o qual o Brasil desenvolve, no imediato pós-Guerra, postura de alinhamento automático. Para os EUA, era essencial contar com o apoio de seus aliados para que reconhecessem a URSS como membro do sistema internacional que nascia dos escombros do conflito europeu. Nesse contexto, logo após a Conferência de Yalta4, em fevereiro de 1945, Getúlio Vargas se encontra com o Secretário de Estado norte-americano, Robert Stettinius, que “aconselha” o Brasil a retomar suas relações com a URSS. Assim, em abril daquele ano, o Chanceler Leão Veloso restabelece, em Washington, relações com o governo soviético de Moscou, embora, de acordo com Lytton Guimarães (2000, p. 397), “no Brasil, persistiam entre as elites dominantes forte oposição ao comunismo, ateu e materialista, que se contrapunha, na interpretação dessa elite, às tradições cristãs e conservadoras do povo brasileiro”. O reatamento com a URSS, no entanto, sofre, já em 1947, novo revés, uma vez mais, derivado das interpretações do Governo estadunidense quanto à dinâmica do cenário internacional. Logo após o reatamento das relações entre os dois países, em 1945, Franklin Delano Roosevelt falece e, em seu lugar, Harry Truman assume o Governo dos EUA. Logo após a morte de Roosevelt, George Kennan, conselheiro da embaixada norte-americana em Moscou, envia telegrama para o PresidenteTruman no qual afirma que a URSS, ao empreender seu processo de reconstrução no pós-Guerra, não restringiria o crescimento de sua economia planejada e de suas políticas socialistas a um condomínio de poder com os Estados capitalistas ocidentais. Assim, na opinião de Kennan, seria apenas uma questão de tempo o expansionismo soviético sobre áreas de influência norte-americana previamente discutidas em Yalta. Nesse contexto, os EUA deveriam antecipar-se por meio de uma política de contenção do expansionismo soviético, restringindo os movimentos do governo russo junto a países ocidentais aliados, movimento que daria origem, no Velho Continente, à “cortina de ferro” imposta aos países do Leste Europeu. De acordo com José Flávio Sombra Saraiva (2007, p. 199): Ao lado do novo secretário de Estado George Marshall e o seu subsecretário Dean Acheson, Kennan passou a compor, a partir de janeiro de 1947, o tripé da formulação da nova diplomacia dos Estados Unidos. Sustentada na ideia de uma ação de longo prazo, paciente e firme na contenção das tendências expansionistas da União Soviética, a política exterior do gigante ocidental orientaria suas ações externas até meados dos anos 1950. O período corresponderia, no entanto, ao período mais quente da Guerra Fria. Tendo em conta o alinhamento automático da política externa brasileira às posições estadunidenses, verificado no imediato pós-Segunda Guerra, as relações entre Brasil e URSS restaram inviabilizadas em face da política de contenção do comunismo desenvolvida por Truman (Doutrina Truman). Ainda em 1947, o registro do Partido Comunista Brasileiro é cassado e, sob a alegação de ter havido incidente diplomático derivado de publicações injuriosas a respeito do Brasil por parte de periódico da imprensa russa, o Governo do Rio de Janeiro rompe relações com Moscou, delegando aos EUA a representação dos interesses brasileiros junto à URSS. Desde o final do governo Dutra, no entanto, verifica-se entre os formuladores da política externa brasileira certa frustração quanto às vantagens efetivamente auferidas pelo alinhamento às posições de Washington. Recorda-se que, Getúlio Vargas ao ser eleito, em 1950, contou com decisivo apoio das correntes políticas “nacionalistas” que se opunham aos “entreguistas”, sendo estes últimos identificados como favoráveis à livre participação do capital estrangeiro no desenvolvimento nacional. Este debate, em meio ao acirramento do conflito ideológico bipolar verificado aos longo dos 1950, influiu decisivamente para o surgimento de uma política externa brasileira de caráter reivindicatório junto aos EUA quanto ao aumento da cooperação econômica e à maior abertura do mercado estadunidense. Nesse sentido, destaca-se a conduta diplomática brasileira nos preparativos para a IV Reunião de Consulta dos Chanceleres Americanos, realizada em 1951, quando Getúlio Vargas encaminhou ao Departamento de Estado dos EUA memorandum no qual sentava as bases da expectativa do Brasil e dos países latino-americanos quanto à retribuição de caráter econômico que se esperava obter do governo de Washington em face do alinhamento político e militar. A despeito da criação da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos (1951- 1953), da assinatura do Tratado de Assistência Militar entre os dois países, ambos durante o governo Vargas, e dos acordos de cooperação para o uso civil da energia atômica no Brasil, durante o período do presidente Café Filho, o país não obteve ganhos substantivos por parte dos EUA no plano comercial e financeiro durante a primeira década dos anos 1950. Esta situação seria agravada ao longo da presidência de Juscelino Kubitschek, que teve no lançamento Operação Pan-Americana (OPA) sua crítica mais contundente ao relativo “abandono” das políticas de desenvolvimento dos países latino-americanos em comparação com o apoio recebido pelos países europeus, que se beneficiavam do Plano Marshall. Nos termos da OPA, a contenção do comunismo nas Américas deveria passar, necessariamente, pela redução da miséria e das desigualdades de crescimento, responsável pela “deterioração dos termos de troca” dos países da região no comércio com os países desenvolvidos. Assim, o Brasil dá início à busca de uma política externa autônoma, desvinculada de limitações de caráter ideológico, e que fosse capaz de trazer para o país as condições do desenvolvimento de sua indústria nascente. É oportuno ressaltar que nesse contexto estão as origens da Política Externa Independente (PEI) e a razão pela qual o Brasil retoma suas relações comerciais com a URSS, no ano de 1959, por ocasião de missão comercial a Moscou chefiada pelo Itamaraty. A pauta de exportação brasileira para a URSS era composta por itens agrícolas, com ênfase para o café, ademais de bens semimanufaturados, como partes de calçados; do país soviético importava-se máquinas, produtos químicos e petróleo. Dois anos mais tarde, em novembro de 1961, já no contexto da PEI, durante a gestão do Chanceler San Tiago Dantas à frente do Itamaraty, o Brasil e a URSS reatam suas relações diplomáticas. Os anos seguintes foram marcados pelo aumento do comércio entre os dois países, embora não se possa afirmar que as trocas comerciais fossem muito expressivas. A mensagem de que o Brasil não cessaria sua busca por novos mercados devido a limitações de caráter ideológico estava dada aos EUA que, naquele contexto, buscava, por meio da Iniciativa para as Américas, reparar os danos ao alinhamento dos países latino-americanos causados pela Revolução Cubana, que resultara em um governo aliado à URSS a poucas milhas de Miami. Nos anos seguintes, o Brasil passaria por mudanças políticas bruscas, com a tomada do poder pelos militares em 1964. É importante destacar que, ao contrário do que o senso comum poderia sugerir, as relações com a URSS não foram interrompidas. De acordo com Lytton Guimarães (2000, p. 403): novo Governo brasileiro, presidido pelo General Castello Branco, procura manter relações normais com a União Soviética e demais países socialistas da Europa Central e do Leste [...]. Em discurso que pronunciou no Ministério das Relações Exteriores, o Presidente Castello Branco dá as linhas principais da política externa do seu governo. Com relação aos países socialistas diz o presidente: “... encontramos Estados cuja filosofia diverge essencialmente da nossa. Essas divergências não têm por que criar entre nós e esses países um estado de hostilidade. As relações, que com eles temos, podem ser mantidas e, em certos terrenos ampliadas. O comércio entre o Brasil e esses países pode ser mutuamente proveitoso: estamos prontos a aumentar nossas trocas, desde que elas não sejam veículo de influências inaceitáveis”. Situação completamente diversa verifica-se no contexto das relações do Brasil com Cuba, país com o qual o Brasil rompeu relações em 1964 e se mantive distanciado durante todo o regime militar. O que diferenciava substancialmente o contexto das relações com Cuba e com a URSS era o fato de que o governo de Fidel Castro era tido como apoiador logístico e ideológico dos movimentos revolucionários que eclodiam na América Latina. Em outras palavras, entendiam os militares brasileiros que Cuba “exportava a Revolução”. Com relação ao governo soviético, a perspectiva era outra: ademais de não considerarem que a presença de diplomatas russos no Brasil pudesse implicar grave risco à estabilidade do regime, o contexto internacional da détente, a partir do final dos anos 1960, levava os países capitalistas ocidentais a comercializarem cada vez mais com os países do Leste da Europa. O conflito Leste-Oeste começava a ser posto em segundo plano em relação à dicotomia Norte-Sul e à busca dos países do “Terceiro Mundo” por novos mercados e tecnologias. Assim, ao longo dos anos 1970, Brasil e URSS compartilhavam interesses estratégicos que levaram a uma maior interação político-diplomática. Exemplo desse relacionamento foi o estabelecimento, em 1972, de mecanismo regular de consultas sobre as posições nos organismos internacionais,em especial na ONU. Sobretudo a partir do governo do General Ernesto Geisel, sob a perspectiva do “pragmatismo responsável”, o Brasil adota posturas favoráveis aos interesses soviéticos ao reconhecer o governo socialista de Angola e mesmo apoiar o Movimento dos Países Não Alinhados, ainda que desse grupo não fizesse parte. Somam-se a essa convergência política os seguidos superávits comerciais que o Brasil conquistava nas suas relações com Moscou e a disponibilidade do governo soviético em cooperar com o Brasil na aquisição de equipamentos pesados para os projetos de construção de usinas hidrelétricas, tais como geradores, turbinas, escavadeiras etc. No início dos anos 1980, o Brasil e a URSS iniciam entendimentos relativos à cooperação científica e tecnológica, os quais resultam na assinatura do Acordo Básico de Cooperação sobre o tema e no estabelecimento da Comissão Intergovernamental Brasileiro-Soviética de Cooperação Comercial, Econômica, Científica e Tecnológica. Nesse período, os dois países iniciam entendimentos com vistas à formação de joint ventures para execução de projetos de engenharia no continente africano, por meio de construtoras brasileiras e de empresas estatais russas. Tais projetos foram essenciais para que o Brasil pudesse firmar parcerias com governos africanos recém-independentes os quais passavam, naqueles anos, por instabilidades políticas resultantes de embates entre correntes socialistas e liberais. Muitas das empresas que iniciaram suas atividades na África na década de 1980 seguem até os dias atuais atuando em variados projetos de infraestrutura do continente. Em 1985, José Sarney inaugurava no Brasil nova era política resultante do fim do regime militar, enquanto, na URSS, Mikhail Gorbachev chegava ao comando do Partido Comunista soviético com o objetivo de realizar a reformulação da política econômica (perestroika) e iniciar a abertura política e cultural (glasnost). Tendo Olavo Setúbal à frente do Ministério das Relações Exteriores, o Brasil dá início a uma “diplomacia de resultados”, que levou o chanceler brasileiro a visitar a URSS em dezembro de 1985. Dois anos depois, o chanceler Eduard Shevardnadze realiza a primeira visita de um Ministro de Estado das Relações Exteriores soviético ao Brasil e, na ocasião, assina acordo de cooperação cultural que visava aproximar os contatos extraoficiais entre os dois países e romper com o desconhecimento entre as sociedades. Segundo Lytton Guimarães (2000, p. 420), “a falta de conhecimento mútuo, [...] além do isolamento e paroquialismo xenófobo característico da cultura russa e cultivado pelos soviéticos, contribuíram para o surgimento de uma síndrome de desconfiança mútua”. A visita de Shevardnadze dá início, igualmente, aos intercâmbios militares entre os dois países que, do ponto de vista soviético, eram essenciais para promover futuras vendas de equipamentos bélicos ao Brasil como forma de reduzir o desequilíbrio da balança comercial com o País. Em 1988, Sarney realiza a primeira visita de um Chefe de Estado brasileiro à URSS, onde é recebido com grande destaque pelas autoridades daquele país. Daquele encontro resultaram acordos essenciais para que o Brasil pusesse em prática sua busca pelo acesso a novas tecnologias nas áreas espacial e nuclear. No que tange ao programa espacial brasileiro, Brasil e Rússia firmaram parcerias para intercâmbio de conhecimentos sobre construção de foguetes, utilização conjunta de centros de lançamento e mesmo da estação espacial russa, além do compartilhamento de imagens satelitais. Vale recordar que, no mesmo ano, parceria similar fora firmada com a China, com a qual o Brasil desenvolveu programa de construção de satélites, como será visto adiante nesta obra. Os acordos assinados na visita de Sarney deram início a uma estrutura de cooperação entre os dois países que será amplamente desenvolvida a partir dos anos 2000, e que representa as bases do relacionamento estratégico mantido pelos dois países nos dias atuais. A respeito das relações entre os dois países durante o período da Guerra Fria, é importante destacar, ainda, que análises quantitativas acerca do limitado montante de comércio realizado poderiam apontar para certa insignificância e mesmo baixa diversificação da pauta exportadora brasileira, que seguia concentrada em produtos primários. Contudo, deve-se ter em conta que, para a economia brasileira, o comércio com a URSS trazia divisas não conversíveis, sendo mais uma forma de gerar saldos positivos para aquisição de produtos no mercado soviético, cuja distância física e estrutura produtiva traziam limitações à reposição de peças e à compatibilidade com tecnologias ocidentais. 5.2.2. Brasil e Rússia na primeira década pós-Guerra Fria O processo de desmantelamento da URSS levou a uma profunda crise nas instituições governamentais do país e nos níveis de bem-estar social da população. Para a Rússia, além de estabelecer a confiança internacional nas novas instituições originadas a partir do final do conflito bipolar, restava o desafio de preservar sua área de influência econômica nas antigas repúblicas soviéticas, que seguiam nos anos 1990 em direção ao capitalismo ocidental. Já no Brasil, o governo de Fernando Collor de Melo deu início a acelerado processo de liberalização econômica, redução do papel do Estado na economia e adoção de receituário de mudanças macroeconômicas que ficou conhecido como “Consenso de Washington”. Embora durante o breve período da presidência Itamar Franco o governo brasileiro tenha revisto o ritmo de abertura econômica e buscado aproximar-se dos vizinhos regionais, as linhas gerais do Consenso foram mantidas por Fernando Henrique Cardoso que, ademais de conquistar a confiança das instituições financeiras internacionais, tinha pela frente o desafio de consolidar o Plano Real, rompendo com as elevadas taxas de inflação que caracterizaram a economia brasileira na década de 80. As atenções dos governos do Brasil e da Rússia estavam voltadas para os desafios relativos à inserção na nova estrutura do sistema internacional pós-Guerra Fria, o qual muitos analistas julgavam ser unipolar, capitalista e neoliberal. Nesse contexto, Amado Cervo (2008, p. 266 e 267) resume as dificuldades de priorização do relacionamento bilateral por parte dos governos brasileiro e russo: À época Cardoso, o governo brasileiro observava essas transformações da antiga área comunista e tomava distância a seu respeito, dando, aliás, continuidade a uma tradição de retraimento diplomático diante de convulsões sociais e políticas em terras alheias. Mesmo porque o foco do Brasil de então era o Primeiro Mundo, não aquela periferia transtornada. [...] Os dirigentes que conduziam as experiências neoliberais na América Latina e no Leste Europeu consideravam seus países periféricos ao sistema e agiam com o realismo da periferia, aquele destinado a estabilizá-los na condição de dependência estrutural que se encontravam vis-à-vis dos países desenvolvidos. Ao final dos anos 1990, contudo, esta dinâmica de relacionamento começa a mudar. No mesmo ano em que tem início a crise econômica da Ásia, resultando em desafios adicionais ao Brasil e à Rússia devido à fuga em massa de capitais das economias em processo de reestruturação, os dois países criam uma Comissão de Alto Nível bilateral. Este mecanismo simbolizava a convergência de posições do Brasil e da Rússia quanto à necessidade de reformar as instituições políticas e financeiras internacionais. Ambos os países percebiam naquele momento que a manutenção da governabilidade interna dependia de uma releitura da ortodoxia econômica proposta pelo Consenso de Washington e que, no plano de suas relações internacionais, fazia-se necessário garantir a autonomia e as parcerias com os vizinhos da região e com países cujo comércio fosse mutuamente benéfico. Com a chegada de Vladimir Putin à condição de Primeiro-Ministro, em 1999, a Rússia pela primeira vez se declara na condição de “país emergente” e lança, no ano 2000, o “Conceito de PolíticaExterna da Federação Russa”, documento de conteúdo político-programático que apontava a reforma política dos organismos internacionais, a multipolaridade e a adoção de parcerias com potências emergentes como a base da ação diplomática do Kremlim. No mesmo ano, o Vice-Presidente Marco Maciel visita Moscou por ocasião da I Reunião da Comissão de Alto Nível, da qual resulta o lançamento de parceria estratégica, baseada em conjunto de ações destinadas a permitir uma conjugação de esforços dos dois países no âmbito multilateral. No contexto dessa aproximação, o presidente Fernando Henrique Cardoso realiza visita oficial à Rússia na qual apoia a candidatura daquele país à Organização Mundial do Comércio (OMC) e, em troca, recebe apoio de Moscou à postulação do Brasil para uma cadeira de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. 5.2.3. A construção da parceria estratégica no relacionamento bilateral Para compreender a importância atual do relacionamento bilateral Brasil- Rússia deve-se buscar os fatores do sistema internacional que levaram os países a encontrar convergências nos foros políticos e econômicos. Como analisado anteriormente nesta obra ao tratar-se dos BRICS, a Rússia, no início dos anos 2000, tinha pela frente o desafio de impedir seu isolamento, o qual lhe trazia o risco de avanço das potências ocidentais sobre as ex- repúblicas soviéticas detentoras de recursos energéticos das regiões do Cáucaso e da Ásia Central. Nesse sentido, a política externa russa, sob o governo de Vladimir Putin, esteve orientada para três objetivos principais: criação de vínculos com os países da Ásia Central reunidos em torno da Organização para a Cooperação de Xangai (OCX); mitigação da presença militar norte-americana em países localizados na Eurásia; e promoção do multilateralismo por meio da reestruturação das instituições internacionais de modo a contemplar a inclusão das novas potências emergentes. Sobretudo em relação a este último objetivo deve ser analisada a relação da Rússia com o Brasil. De forma bastante elucidativa, Gabriel Pessin Adam (2013, p. 64 e 66) analisa a motivação russa no fortalecimento das relações com o Brasil: Conforme salientado, o objetivo primordial da Rússia é se tornar um dos polos emanantes do poder em uma ordem internacional multipolar. Para tanto, Moscou precisa exercer influência para além da região que a circunda, sob pena de não ultrapassar a condição de potência regional, o que não condiz com a história russa e não coaduna com o pensamento de sua elite e de sua população. [...] Assim sendo, o crescimento das potências emergentes é uma tendência desejada pela Rússia. E ela tem procurado aproveitar-se desse movimento, ser um partícipe do mesmo e incentivá-lo. Ao longo dos anos 2000, a partir do aumento da presença norte-americana no Oriente Médio (Iraque) e na Ásia Central (Afeganistão), com extensão de seu poderio junto a outros países daquelas regiões, o governo russo buscou reforçar a adoção do multilateralismo na solução dos principais pontos da agenda internacional por meio da realização de “alianças de geometria variável”, conforme expressão utilizada por Cristina Pecequilo e Alessandra Luque (2013, p. 77). Esta ênfase no multilateralismo é reafirmada na atualização, em 2008, do “Conceito de Política Externa da Federação Russa”, na qual são citadas como exemplos dessa atuação a OCX e o BRICS - com a China e a Índia, a Rússia buscava evitar seu isolamento na Ásia e, no que tange ao Brasil, o objetivo do governo de Moscou era demonstrar sua postura multilateral e seu pragmatismo na realização de alianças com países interessados na plena atualização das instituições internacionais herdadas da Guerra Fria. Assim, ao sediar em Ecaterimburgo, no ano de 2009, a reunião do G-20 Financeiro, a Rússia promoveu, na sequência daquele encontro, a Primeira Cúpula do BRICS. Aquela Cúpula ocorreu em meio à crise financeira internacional que abalou seriamente as economias norte-americana e europeias. Ao mesmo tempo, revelou os países emergentes como forças econômicas robustas, capazes de evitar o profundo agravamento da crise e suas nefastas consequências. Torna-se, portanto, bastante evidente que o relacionamento entre Brasil e Rússia possui elevada importância na esfera multilateral. Tal fato não quer dizer, no entanto, que suas relações no plano bilateral não possuam importância. Ao contrário, ao longo dos anos 2000, percebe-se que os países ampliam significativamente suas correntes de comércio, além de desenvolverem parcerias nos setores militar (fornecimento de equipamentos e armas), espacial e energético. No âmbito do comércio bilateral, de acordo com dados oficiais extraídos do portal do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), Brasil e Rússia partiram de uma corrente de comércio, em 2001, de aproximadamente USD 1,56 bilhões, para um intercâmbio de USD 5,93 bilhões em 2012. Por oportuno, destaca-se que, no ano de 2011, o volume de comércio alcançara um pico superior a USD 7,16 bilhões. Outro dado positivo que se verifica no comércio bilateral é o fato que, apesar de ainda haver superávit brasileiro, o volume exportado pelo Brasil para a Rússia em relação ao montante importado daquele país reduziu-se de 2,37 para 1,13, o que demonstra haver atualmente certo equilíbrio na balança comercial. Da parte do Brasil, os principais produtos exportados são carnes (bovina e suína), açúcar, veículos, fumo e motores. Quanto às importações, a Rússia vende regularmente ao Brasil matérias-primas para fertilizantes, óleo diesel e lubrificantes, peças de borracha e laminados de aço. Há que se ressaltar, ainda, que a Rússia tem obtido junto ao governo brasileiro importantes contratos de compra de material bélico, como helicópteros, sistema de mísseis, baterias antiaéreas etc. No plano da cooperação tecnológica, destaca-se, desde os anos 1990, a parceria desenvolvida entre a Agência Espacial Brasileira (AEB) e sua homóloga russa, a Roskosmos, para o desenvolvimento dos mecanismos de propulsão do Veículo Lançador de Satélites (VLS) brasileiro. O aprofundamento desta cooperação possibilitou, em 2006, a primeira viagem espacial de um astronauta brasileiro: naquele ano, o Tenente-Coronel da FAB Marcos César Pontes viajou até a Estação Espacial Internacional a bordo da nave russa Soyuz TMA-8 levando consigo experimentos científicos preparados por universidades brasileiras. O intercâmbio entre a AEB e a Roskosmos, no entanto, não se restringe ao voo de Marcos Pontes, sendo bem mais ampla, ao contemplar acordos para o desenvolvimento conjunto de foguetes e a utilização da base aérea de Alcântara, localizada no estado do Maranhão. 5.2.4. Consolidação da parceria estratégica e relacionamento político bilateral Ao longo desta análise sobre o relacionamento Brasil-Rússia, buscou-se demonstrar que variáveis presentes no sistema internacional desde o final da década de 1990 contribuíram para aproximar os dois países, sendo este contexto expresso no Conceito de Política Externa do Governo russo de 2008, no qual se apontou as parcerias estratégicas com os grupos de países emergentes como parte de uma política voltada à promoção do multilateralismo. Reformar as estruturas do sistema internacional e propor um novo papel a ser desempenhado pelas economias emergentes passou a ser, sobretudo a partir da crise de 2008, elemento de convergência entre Brasília e Moscou e motivo de seguidas visitas bilaterais de alto nível. Nesse contexto, a visita de Luiz Inácio Lula da Silva a Moscou, em 2010, dá início a uma nova fase do relacionamento, na qual a pauta de discussões inclui, ademais dos temas bilaterais, como acordos de isenção de vistos e de comércio, assuntos relativos à concertação política voltada à atuação conjunta nos organismos internacionais. Na ocasião, foi assinado o “Plano de Ação da Parceria Estratégica entre a República Federativa do Brasil e a Federação da Rússia”, o qual prevê os mecanismos e as instâncias por meio das quais dar-se-á a concertação política desejadapelos dois países nos foros internacionais. Sobre esse novo momento das relações bilaterais, Cristina Pecequilo e Alessandra Luque (2013, p. 84) afirmam que: Tanto a sucessão do Presidente Lula pela Presidente Dilma Rousseff, quanto a continuidade Medvedev-Putin, representaram a preservação de um clima positivo na relação bilateral, que se estende no nível multilateral, em articular nas reuniões do BRICS e nas do G20 financeiro. [...] embora haja um aumento no fluxo de contatos e comércio, nenhum dos dois países continua a ver o outro como prioridade ‘número um’ de suas agendas. Contudo, essa escala de prioridades não deve ser vista como negativa, mas sim como uma prova de complexidade das agendas de política externa dos países e sua abrangente estrutura. Após a visita de Lula a Moscou, houve, ainda, visita da Presidente Dilma Rousseff a Rússia em dezembro de 2012, e do Presidente Dimitri Medvedev ao Brasil em fevereiro de 2013. A viagem da Presidente Dilma foi realizada no contexto da verificação dos resultados alcançados pela implementação, dois anos antes, do mencionado “Plano de Ação”. Por parte do empresariado brasileiro, havia grande expectativa de solução dos entraves postos pela Rússia quanto à venda de carnes bovina e suína de origem brasileira. No entanto, verifica-se que o crescimento da corrente bilateral de comércio - e o fim dos referidos entraves - deve ir além dos bens primários e das commodities, avançando em sua diversificação para setores de potencial interesse estratégico de ambos os países, como os de energia, defesa e tecnologia. Assim, a visita a Moscou logrou avançar na assinatura do “Plano de Ação da Parceria Estratégica entre o Brasil e a Rússia: próximos passos”, bem como do “Plano de Consultas Políticas 2013-2015”, além de acordo na área de cooperação em matérias de defesa. A respeito, é sintomático que, embora não seja admitida vinculação direta do embargo fitossanitário às importações russas de carne brasileira com outros temas comerciais, verifica-se certa relação entre o recrudescimento do rigor no controle de qualidade das carnes brasileiras e o andamento de acordos de aquisição de produtos russos, sobretudo do setor de armamentos e aeronaves. Destaca-se que, em setembro de 2013, o Brasil permitiu ao Governo russo fazer nova proposta para participação do modelo de aeronave de caça do fabricante russo Sukhoi no contexto do processo de escolha de fornecedor para reaparelhamento da Força Aérea Brasileira, e sinalizou, na mesma ocasião, a compra de sistemas de mísseis para defesa do país durante a realização dos grandes eventos. Poucas semanas depois, em novembro de 2013, foram suspensos os embargos a carnes brasileiras provenientes de Mato Grosso, durante visita do Chanceler Luiz Alberto Figueiredo a Moscou. A visita do Presidente Medvedev ao Brasil, em fevereiro de 2013, teve por objetivo copresidir, juntamente com o Vice-presidente Michel Temer, a VI Reunião da Comissão Brasileiro-Russa de Alto Nível de Cooperação (CAN). Naquele encontro, avançou-se na implementação de compromissos voltados a aprofundar a parceria estratégica bilateral, em consonância com o documento “Plano de Ação Estratégica: próximos passos”, firmado por ocasião da visita da Presidente Dilma a Moscou. Assim, na área comercial, acordou-se avançar na implantação do Plano de Ação Econômica Brasil- Rússia 2013-2014, que tem por objetivo aumentar o intercâmbio comercial e, sobretudo, as oportunidades de investimento nos já mencionados setores estratégicos para os dois países. Quanto à cooperação educacional, o destaque do encontro foi a assinatura do Memorando de Entendimento entre o Ministério da Educação e o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, ambos do Brasil, e o Ministério da Educação e Ciência da Rússia para implementação do Programa “Ciência sem Fronteiras” (CsF), cujo texto prevê o intercâmbio de cientistas e pesquisadores para realização de pós- graduação em nível de doutorado e desenvolvimento de pesquisas conjuntas5. O tema de energia também contemplou bastante avanço durante a VI Reunião, quando acordou-se avançar no intercâmbio científico baseado no Memorando de Entendimento entre a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e a Corporação Estatal para a Energia Atômica da Rússia (ROSATOM), assinado em 2009. Os assuntos relativos à cooperação militar também foram privilegiados na pauta do encontro devido aos contatos mantidos entre os ministérios da Defesa de ambos os países, que resultaram na assinatura da “Declaração de Intenções entre o Ministério da Defesa da República Federativa do Brasil e o Serviço Federal de Cooperação Técnico-Militar da Federação da Rússia Relativa à Cooperação em Defesa Antiaérea”, bem à finalização da compra pelo Brasil de 12 helicópteros russos do modelo MI-35M destinados ao transporte de tropas. Por fim, destaca-se a realização, em dezembro de 2013, da VIII Reunião da Comissão Mista Intergovernamental Brasil-Rússia, durante a qual ambos os países acordaram a meta de elevar o comércio bilateral a USD 10 bilhões até 2015. Para tanto, foram discutidas formas pragmáticas de solucionar dificuldades que ainda limitam investimentos em ambos os países nos setores de energia, tecnologia e defesa, acima mencionados, para os quais deverá avançar a cooperação e a corrente de comércio nos próximos anos, sem prejuízo do já tradicional comércio de bens primários. Desta análise sobre as relações Brasil-Rússia é possível concluir que o sistema internacional pós-Guerra Fria possibilita aos dois países convergirem nos planos multilateral e bilateral, a despeito de terem, ao longo de sua história, vivenciado trajetórias distintas de desenvolvimento político e econômico. A busca por uma inserção autônoma na cena internacional permite antever que Brasil e Rússia deverão aprofundar, nos próximos anos, sua concertação política nos foros internacionais, ademais de desenvolver a cooperação em setores estratégicos de seus países como defesa, energia e segurança alimentar. Nesse rumo deverá haver, certamente, esforço governamental para que as sociedades de ambos os países se conheçam melhor e possam, dessa maneira, romper estereótipos e preconceitos herdados de uma estrutura do sistema internacional já inexistente, a qual ambos os países lutam para reformar. 5.3. Relações do Brasil com países árabes e com o Oriente Médio O estudo do relacionamento do Brasil com os países árabes e do Oriente Médio é de fundamental importância no atual momento das relações internacionais, no qual, ao mesmo tempo em que o País busca ser reconhecido como candidato natural ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, vivenciam-se fenômenos e processos desafiadores à segurança e à paz internacional, tais como a Primavera Árabe, a guerra civil na Síria, as negociações sobre o programa nuclear iraniano e o combate ao terrorismo. Diante desse contexto, no qual a mídia em geral - e mesmo certas publicações especializadas - concede ampla atenção aos conflitos do Oriente Médio em detrimento da análise acerca das potencialidades da região, o autor desta obra buscará, além de analisar tais fenômenos, ampliar o escopo da análise do relacionamento do Brasil com aquela região, a fim de demonstrar que importantes oportunidades de comércio e de cooperação política e econômica poderão advir do estabelecimento de um perfil de relacionamento maduro e pragmático com os parceiros árabes e médio- orientais. De início, torna-se essencial trazer ao leitor certa clareza com relação ao conjunto de países que se busca analisar, a fim de não incorrer em erros que, por vezes, são comuns devido à utilização simultânea de dois critérios distintos (um geográfico e outro étnico) para tratar de um mesmo tema. A definição de Oriente Médio possui caráter geográfico, que deve ser compreendido como o território limitado a noroeste pelo Estreito de Bósforo e Dardanelos, a sudeste pelo Oceano Índico, a sudoeste pelo Vale do Rio Nilo e a Nordeste pelo Afeganistão (Grinberg, 2000, p. 99). Assim, o Oriente Médio congregapopulações de diferentes etnias (árabes, persas e judeus, majoritariamente), além de ser o berço das principais religiões monoteístas do planeta (cristianismo, judaísmo e islamismo). Já a definição de “países árabes” transcende a noção territorial do Oriente Médio e nos remete à expansão dos povos daquela região, empreendida a partir do século VII d.C., por meio da qual a influência árabe chegou - e deixou seu legado - à Península Ibérica, ao norte da África, à Pérsia e às fronteiras da Índia e da China. Assim, o Egito, a Argélia e o Marrocos, países situados na África, e não no Oriente Médio, são “países árabes”, uma vez que compartilham dos valores, da língua e da cultura árabes; pelo critério geográfico, embora essencialmente relacionados pela história às questões árabes, Israel, Irã e Turquia jamais poderiam ser mencionados como “países árabes”, ou do “mundo árabe”6. Nas análises que se farão nos próximos parágrafos, o conflito israelo- palestino será abordado com elevada frequência, tendo em conta que até a década de 2000, teria sido este o elo condutor principal do relacionamento do Brasil com os países árabes e do Oriente Médio. Este elo, no entanto, não foi um tema exclusivo, como se verá durante as análises dos anos 1970, no qual a política externa brasileira busca soluções para a Crise do Petróleo, e dos anos 2000, quando se dá início a uma nova etapa do relacionamento entre o Brasil e seus parceiros árabes e médio-orientais. 5.3.1. Da equidistância ao Pragmatismo Responsável Em novembro 1947, Osvaldo Aranha, representante brasileiro na Organização das Nações Unidas, e então Presidente da Assembleia-Geral, conduziu processo negociador que levou à aprovação do Plano de Partilha da Palestina em dois Estados autônomos e independentes (Resolução 181), sendo um árabe-palestino e outro judeu. A atuação do diplomata brasileiro é considerada, até os dias atuais, como decisiva para a rápida solução que as potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial desejavam dar para a ocupação daquele território, até então sob mandato da Grã-Bretanha. De fato, o Brasil, nos primeiros anos do governo do Presidente Eurico Gaspar Dutra, implementou política externa caracterizada pelo alinhamento às posições dos Estados Unidos da América, país que, além de contar com ampla população judaica, via na criação do Estado de Israel o estabelecimento de aliado em meio a uma região que crescia em importância estratégica devido às riquezas energéticas e à necessidade de contenção do comunismo soviético. De acordo com o embaixador Luciano Ozório Rosa (2000, p. 436): Há documentos que sugerem haver o Presidente da Assembleia Geral, Oswaldo Aranha, efetuado manobras dilatórias para permitir aos Estados Unidos angariar o número de votos necessários à aprovação do plano. No contexto das relações com o Brasil, Israel valoriza muito a atuação do estadista brasileiro e as organizações sionistas no Rio de Janeiro organizam anualmente peregrinação ao túmulo de Aranha, tratado como se houvesse sido um dos forjadores do Estado judeu. Na verdade, tal atuação não era percebida à época como tomada de posição em favor de uma das partes em conflito, mas um esforço construtivo no sentido de solução equitativa. O apoio do Brasil à proposta majoritária era condizente com a prioridade conferida às relações com os Estados Unidos, cruciais para o nosso país no pós-Guerra. A consequência imediata da implementação do Plano de Partilha foi a eclosão da Guerra de Independência (1948) entre países árabes e Israel. A respeito deste conflito e dos demais que se seguiram devido à disputa pelo território da Palestina nos anos de Guerra Fria, a posição do Brasil foi pautada, na maior parte das vezes, pela equidistância entre os interesses de Israel e da Liga Árabe (formada no Cairo, em 1945). Na prática, o Brasil condenava soluções de força, estatal ou paramilitar, de ambos os lados e apoiava soluções multilaterais que remetessem ao cumprimento do Plano de Partilha. Esta postura permitia ao Brasil manter o diálogo e o bom relacionamento, tanto com os árabes e seus aliados, quanto com Israel e o bloco ocidental. Exemplo dessa equidistância pode ser vista na abstenção do Brasil na votação relativa à adesão de Israel à ONU (Resolução 273, de 1949), tendo em conta a recusa daquele país em atender às cláusulas do Plano de Partilha relativas à situação de Jerusalém (Pimentel, 2002, p. 289), bem como no voto favorável do Brasil à Resolução 95 (1951) do CSNU, que condenava a atitude do Egito de restringir a passagem inocente de navios israelenses por meio do Canal de Suez. 5.3.1.1. Participação brasileira na Primeira Força de Emergência das Nações Unidas (UNEF I) - 1957 a 1967 Em 1956, o Egito, sob o governo de Gamal Abdel Nasser, nacionalizou o Canal de Suez e nele alocou tropas cuja missão seria controlar o tráfego de navios entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Vermelho. A ação egípcia teve como resposta imediata ataque israelense à Península do Sinai e ultimatos da França e da Inglaterra de que, caso não se chegasse a uma solução sobre a definitiva desocupação do canal, o Egito sofreria intervenção armada daquelas potências. No auge da crise, que tinha como atores dois membros permanentes do CSNU, a atuação das Nações Unidas se deu por meio da Assembleia-Geral que, mediante os termos da Resolução “Unidos para a Paz”, de 19507, encontrava-se autorizada a agir em questões relativas à manutenção da paz quando estivesse o Conselho paralisado pelo veto de seus membros. Assim, em novembro de 1956, a AGNU, reunida em Assembleia Especial de Emergência, aprovou Resolução (Brasil votou a favor) que previa a criação de Força Internacional de Emergência das Nações Unidas (UNEF, na sigla em inglês) a fim de: supervisionar o cessar-fogo entre Egito e Israel; monitorar a retirada das tropas francesas, israelenses e britânicas da região; e estabelecer zona desmilitarizada nas regiões do Sinai e na Faixa de Gaza. O Brasil participou da missão de 1957 a 1967, com batalhão de infantaria do Exército, o qual ficou conhecido como “Batalhão Suez”, composto, anualmente, por cerca de 600 homens, totalizando uma participação de, aproximadamente, 6.300 militares durante todo o período. Entre os anos de 1964 e 1966, o Brasil deteve, ainda, o comando operacional da UNEF I, com a liderança dos generais Paiva Chaves e Syseno Sarmento (Fontoura, 1999, p. 201). A participação brasileira na UNEF I deve ser compreendida quanto à sua importância para o aumento da visibilidade do Brasil enquanto país comprometido com os ideais de paz e não intervenção promovidos pelas Nações Unidas. Naquela época, não havia de parte do Brasil interesse estratégico na região ou favorecimento político a um dos lados em conflito. Conforme resume Norma Breda dos Santos (2002, p. 280), “aproveitando- se da ausência de interesses na região, o Brasil apoia a busca por solução conciliatória e pauta-se pela equidistância em relação às partes, exercendo, assim, um papel de mediador e de amortecedor de tensões [...], vendo nessa atuação uma via de projeção do prestígio internacional do país, interesse nacional a ser perseguido. 5.3.1.2. A “Crise do Petróleo” e a tomada de posições do Brasil A mencionada equidistância do Brasil em relação ao conflito israelo- palestino, verificada nos primeiros 25 anos da Guerra Fria, deve ser compreendida com base em duas variáveis distintas: presença no País de numerosas comunidades árabes e israelenses, as quais convivem em harmoniosa relação e contribuem para o desenvolvimento da sociedade brasileira; busca pela implementação de política externa autônoma voltada a garantir ao País espaço de ação em meio à divisão bipolar entre os blocos capitalista e soviético. A essas variáveis, acrescenta-se, a partir de 1973, fato que viria a exigir do Brasil novo posicionamento sobre a situação no Oriente Médio: em outubro daquele ano, Síria e Egito atacam Israel na data comemorativa do Yom Kippur (Dia do Perdão, em hebraico) e, em resposta, o Estado judeu, com expressivo apoiodos EUA, lança ofensiva em território egípcio, chegando até os limites da cidade do Cairo. Em ato de protesto contra a intervenção velada dos EUA na região, os países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) decidem, em dezembro de 1973, triplicar o preço cobrado pelo insumo energético vendido ao Ocidente. Tal fato, obrigou o Brasil a desenvolver estratégia de aproximação dos países árabes que lhe garantisse a manutenção das metas previstas no II Plano Nacional de Desenvolvimento, que viria a ser peça- chave do modelo de crescimento econômico adotado, a partir de 1974, no governo do General Ernesto Geisel. De acordo com Carlos Ribeiro Santana (2006, p. 159): Nesse contexto, o perfil do relacionamento brasileiro com os países árabes teve de ser revisto em 9 de dezembro de 1973, quando a OPEP aumentou significativamente o preço do petróleo. O impacto do aumento fez com que o Brasil - o maior importador de óleo entre os países em desenvolvimento e o sétimo em escala mundial, em 74 - passasse a gastar cerca de 40% da receita adquirida em exportações com a importação desse insumo. O mesmo percentual, em 72, girava em torno de 15%. O efeito da enorme elevação do preço efetivo médio do barril de petróleo significou forte revés para o projeto desenvolvimentista perseguido pelo regime militar, o qual dependia, de maneira assaz forte, de insumos energéticos importados. A partir da implementação do Pragmatismo Responsável e Ecumênico, durante o governo do General Geisel, o Brasil empreende esforços de aproximação bilateral com os países árabes, tanto no campo político, quanto no econômico, por meio de uma ativa ação de promoção comercial e de investimentos. Assim, durante a gestão do Chanceler Azeredo da Silveira, que já no seu discurso de posse afirmava que “a melhor tradição do Itamaraty é saber renovar-se”, o Brasil busca aproximar-se dos países árabes com o estabelecimento, em 1974, de embaixadas no Qatar, Bahrein, Sultanato de Omã e Kuwait, as quais vinham a se somar às demais já estabelecidas em anos anteriores na Arábia Saudita (1973) e no Líbano (1956). A principal função destas novas embaixadas foi desenvolver contatos com grupos empresariais, privados ou estatais, dos países árabes a fim de estabelecer corrente de comércio que permitisse, ao menos, reduzir o elevadíssimo déficit das trocas comerciais decorrentes da importação do petróleo. De acordo com dados citados por Carlos Santana (2006, p. 169), o déficit da balança comercial com os países árabes em 1973 era de USD 353 milhões, tendo evoluído para USD 3,314 bilhões em 1978. Com determinados países, a exemplo de Iraque e da Arábia Saudita, o Brasil buscou avançar na criação de joint ventures para exploração local de petróleo por meio da subsidiária internacional da Petrobras, a Braspetro; o objetivo maior era promover as bases para a realização de uma espécie de comércio de compensação, também conhecido como countertrade, que visava a reduzir a dependência de moedas fortes (Dólar) para o pagamento das importações brasileiras de petróleo e combustíveis refinados. Os resultados práticos destas ações de promoção comercial dividem opiniões entre os estudiosos do tema. De forma segura, pode-se afirmar que, ao menos com o Iraque, o Brasil logrou desenvolver relações comerciais diversificadas, tendo exportado para aquele país grande quantidade de veículos, eletrodomésticos e material bélico, além de ter firmado contratos com construtoras brasileiras para realização de grandes obras de infraestrutura. Antes mesmo da Crise do Petróleo de 1973, o Brasil já demostrava ter com o Iraque parceria de cunho estratégico, tendo sido o governo brasileiro o primeiro a romper o embargo econômico imposto pelas potências ocidentais àquele país árabe, em 1971, por ocasião da nacionalização da Iraq Petroleum Company, empresa de propriedade inglesa. No âmbito das relações multilaterais, o Brasil abandonou sua anterior posição de equidistância em relação ao conflito árabe-israelense e passou a criticar abertamente a postura negligente de Israel em face das resoluções das Nações Unidas que urgiam para que aquele país deixasse os territórios palestinos ocupados durante a Guerra dos Seis Dias (1967). Nesse contexto, em novembro de 1975, o Brasil vota a favor do projeto de Resolução n. 3.3798 da Assembleia Geral, que declarava o sionismo forma de racismo e de discriminação racial. A respeito do tema, Pimentel (2002, p. 291) recorda ainda que: Em 1980, às vésperas da adoção, em Israel, da lei que declararia ser Jerusalém a capital do país, o Brasil apoia a Resolução ES-7/2 da Assembleia Geral de Emergência, que conclama Israel a retirar-se incondicionalmente dos territórios ocupados [...] Em seguida, reitera apoio à Resolução 478 do CSNU e à “rejeição universal das medidas destinadas a modificar unilateralmente o status da cidade de Jerusalém”. Verifica-se, portanto, que a “Diplomacia do Petróleo”, desenvolvida pelo Brasil com os países árabes ao longo dos anos 1970 e início dos anos 1980, é fruto da universalização da política externa brasileira preconizada pelo “Pragmatismo Responsável e Ecumênico” do Governo Geisel, cujas linhas gerais foram seguidas na gestão do General João Baptista Figueiredo. O caráter universal desta política externa, por outro lado, é, inegavelmente, resposta às necessidades de crescimento econômico do país por meio da expansão do comércio exterior e da identificação de novos parceiros. A partir do início da Guerra entre Irã e Iraque, que durou de 1980 a 1988, as relações comerciais com os países do Oriente Médio foram consideravelmente reduzidas, sobretudo aquelas relativas à contratação de empresas brasileiras de engenharia para realização de obras de infraestrutura. A partir de 1986, com a eleição indireta do Presidente José Sarney, tem início a “Diplomacia para Resultados”, implementada pelo chanceler Abreu Sodré que, somada à complicada situação da economia brasileira na década de 1980, contribui para reduzir o já limitado peso que o comércio com os países árabes e do Oriente Médio tinham para o balanço de transações correntes do Brasil. Aos poucos, o País voltou a adotar posição de equidistância no relacionamento com os governos árabes e israelense com relação ao conflito israelo-palestino. Assim, no início dos anos 1990, por ocasião da invasão do Kuaite pelo Iraque, que originou a I Guerra do Golfo Pérsico, o Brasil votou, nas Nações Unidas, a favor do projeto de resolução que condenava a ação iraquiana e impunha sanções econômicas ao governo daquele país. Ao mesmo tempo, opôs-se a integrar a coalização multinacional liderada pelos EUA que implementou a operação militar “Tempestade no Deserto”, voltada a derrotar o exército iraquiano e fazê-lo desocupar o território do país vizinho. Para o Brasil, a solução de força adotada pela referida coalizão era contrária à tradição diplomática brasileira, que prega a adoção de soluções negociadas ou, em casos mais extremos, de sanções, para obrigar as partes em litígio a alcançar uma solução de paz. Durante a presidência de Fernando Henrique Cardoso, embora o Brasil tenha mantido a tradicional equidistância como padrão do relacionamento com os países árabes e médio-orientais, optou-se em certas ocasiões por seguir, no plano político, as concepções norte-americanas (notadamente pró-Israel) com relação aos conflitos daquela região. Em 1997, pela primeira vez, o Brasil consentiu com o possível uso da força por parte dos EUA, caso o Iraque não colaborasse com os inspetores da ONU designados para monitorar e desmontar o programa iraquiano de armas de destruição em massa. A respeito desse tema, Nizar Messari (2006, p. 256) informa que: [...] o Brasil aceitou o argumento dos Estados Unidos segundo o qual a gravidade da situação requeria uma posição firme por parte do Conselho e que, caso todos os meios pacíficos para resolver o conflito fossem esgotados, deveria se recorrer ao uso da força militar. [...] este adendo foi um acréscimo fundamental para a posição brasileira. Atéentão a ameaça militar não era admitida pelo Brasil. [...] Esta posição do governo brasileiro pode ser considerada um claro indício do afastamento político brasileiro em relação ao mundo árabe. Na segunda metade da década de 1990, o Brasil se encontrava empenhado nos esforços de aprofundamento dos mecanismos regionais de comércio e na conquista da confiança dos interlocutores das grandes potências, por meio da adesão aos regimes de comércio e segurança, com ênfase para o tema da não proliferação nuclear. A partir do início dos anos 2000, em face das dificuldades encontradas pelo País no encaminhamento das principais negociações de comércio com os parceiros europeus e norte-americano, o Brasil retoma o interesse por regiões até então negligenciadas pela diplomacia implementada pelo próprio Presidente Cardoso, ou por meio de seus chanceleres Luiz Felipe Lampreia e Celso Lafer. Nesse contexto, com vistas a romper o quase completo desconhecimento do empresariado nacional em relação às potencialidades dos países árabes e do Oriente Médio, o Itamaraty, em parceria com o Conselho de Embaixadores Árabes em Brasília, realizou, em junho de 2000, seminário internacional intitulado “Relações entre o Brasil e o Mundo Árabe: construção e perspectivas”. O evento, cuja abertura contou com a presença do Vice-Presidente brasileiro, teve por objetivo discutir possibilidades de incremento das relações bilaterais de cooperação e comércio, bem como debater posições acerca dos principais temas da pauta de segurança internacional e do conflito israelo- palestino. O encontro, que foi seguido de feira de comércio e investimento entre empresários árabes e brasileiros, dá início a uma tendência de aproximação por meio da realização de cúpulas de alto nível, as quais, como veremos, será consolidada na presidência de Luiz Inácio Lula da Silva. 5.3.2. Novo momento da relações do Brasil com os países árabes e do Oriente Médio sob o signo da cooperação política, econômica e cultural A partir dos movimentos de reaproximação com os países árabes realizados no final do mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso, o governo brasileiro, a partir de 2003, já na gestão do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dá início a vigoroso processo de construção de alianças políticas e de vínculos comerciais mais densos com uma região caracterizada pela dependência de importações de insumos e produtos manufaturados. A situação no Oriente Médio no ano de 2003 era particularmente tensa, devido à ocupação norte-americana do Iraque, desta vez, em plena dissonância com as decisões multilaterais tomadas no âmbito das Nações Unidas. Naquele momento, a comunidade internacional mostrava-se dividida quanto às ações que deveriam ser tomadas para evitar novos atentados terroristas como os que foram perpetrados contra os EUA em 11 de setembro de 2001. A esta invasão soma-se o recrudescimento dos conflitos entre israelenses e palestinos, ainda no contexto da Segunda Intifada, iniciada em 2000 e potencializada a partir de 2003, em face da presença do “inimigo norte-americano” no Iraque, país que tradicionalmente apoiava o direito de resistência do povo palestino. Para o Brasil, no entanto, era evidente que o ultimato dado pelos EUA e pela Inglaterra ao Iraque, em janeiro de 2003, por meio da proposta de resolução do Conselho de Segurança era uma forma velada de “legitimar” uma ação militar que visava depor o regime do Presidente Saddam Hussein. A minuta desta resolução fazia referência à inobservância pelo Iraque da Resolução n. 1.441, que tratava de nova fase de inspeção do processo de desmantelamento do programa de armas de destruição em massa do Iraque. No texto proposto pelos EUA no início de 2003, mencionava-se, nas suas cláusulas iniciais, que o “Iraque havia aproveitado a última oportunidade que lhe fora oferecida para desarmar-se”, deixando espaço para justificar uma intervenção naquele país no contexto da Global War on Terror proposta pelos EUA. Embora o Brasil à época não fizesse parte do Conselho de Segurança, a iniciativa diplomática norte-americana buscava apoiadores para sua proposta de resolução. A respeito do tema, o Brasil foi enfático ao rejeitar oficialmente qualquer solução bélica para a alegada falta de cooperação do regime de Bagdá. Em artigo escrito pelo chanceler Celso Amorim no jornal O Estado de S. Paulo, no início de 2003, é evidente o repúdio do Brasil à postura dos EUA: Tanto nos contatos mantidos pelo presidente da República com dirigentes de países com especial interesse na matéria quanto em minhas conversas com outros chanceleres, o Brasil tem procurado explorar ideais que permitam superar o atual impasse e viabilizem uma saída pacífica e política para a crise. [...] De um ponto de vista econômico, uma guerra - com ou sem autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas - afetará negativamente o Brasil em razão dos prováveis aumentos no preço do petróleo e na conhecida aversão ao risco, dos investidores. Uma ação militar eventualmente decidida de forma unilateral abalará seriamente o sistema de segurança coletiva consubstanciado no Capítulo VII da Carta das Nações Unidas. Sob o aspecto humanitário, o potencial de sofrimento e desolação que um conflito poderá acarretar é enorme. [...] enquanto houver esperança de paz - por menor que seja, e até o último minuto -, devemos insistir em que sejam exploradas todas as opções possíveis para evitarmos a guerra. A postura brasileira de condenar de maneira enérgica a intervenção norte- americana no Oriente Médio criou as bases para a aproximação do Brasil com os países árabes. Naquela época, os governos da região receavam que a mudança de regime no Iraque viesse a fomentar revoltas em favor de mudanças pró-democracia em seus próprios países - fenômeno que, como será estudado mais adiante, tem início com a Primavera Árabe. Este receio era ainda maior tendo em conta a associação feita por parcelas da sociedade e da mídia ocidentais entre islamismo, cultura árabe e terrorismo (Pinto, 2013, p. 100); fruto de preconceito, xenofobia, desinformação ou mesmo ação deliberada para favorecer interesses estrangeiros no Oriente Médio, esta desprezível associação limitava que os países árabes recebessem de parte de grande parcela dos Estados da sociedade internacional demonstrações claras de apoio político. Assim, a visita do Presidente Lula a cinco países árabes (Síria, Líbia, Emirados Árabes Unidos, Egito e Líbia) entre 3 e 10 de dezembro de 2003 foi considerada pelos respectivos governos uma mostra evidente de deferência sociocultural, apoio político e compromisso com os princípios de não intervenção e autodeterminação dos povos defendidos pela chancelaria brasileira. Tratava-se da primeira viagem presidencial de um Chefe de Estado brasileiro ao Oriente Médio, desde a visita, de caráter essencialmente privado, realizada em 1876 pelo Imperador Dom Pedro II ao Líbano, Síria, Palestina e Egito. A expectativa central da visita do Presidente Lula àqueles países era a criação de laços de comércio sólidos com uma região que realizava importações anuais de mais de USD 150 bilhões, além de investimentos externos da ordem de muitas centenas de bilhões de dólares, aplicados nos mercados financeiros e nos parques produtivos da América do Norte e Europa. A participação do Brasil nesses fluxos comerciais e financeiros, embora crescente desde os anos 2000, era ainda incipiente, ante as possibilidades existentes (BRASIL, 2003-B). No caso específico da Líbia, a suspensão, desde 1999, das sanções impostas pelas Nações Unidas em 1992, abria espaço para a atuação da Petrobras, que começou a explorar petróleo naquele país em 2005, e de empresas brasileiras de construção civil em projetos de infraestrutura, com perspectivas de vultosos negócios, os quais viriam a se confirmar nos anos seguintes, com a participação das empreiteiras Odebrecht9, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão. Durante a viagem, o Presidente Lula esteve acompanhado do ex-Presidente da Argentina, Eduardo Duhalde, que assumiria,no início de 2004, as funções de Presidente da Comissão de Representantes Permanentes do Mercosul. O convite, sem precedentes, ao Presidente Duhalde para integrar a comitiva presidencial assinala, também para os interlocutores dos países árabes visitados, a central prioridade que o Presidente da República atribuía ao Mercosul e à parceria estratégica com a Argentina (BRASIL, 2003-B). No plano político, o Governo brasileiro visava realçar a postura universalista de sua política externa, o que iria ao encontro da postulação de um assento permanente no CSNU. A respeito, destaca-se que, no contexto dos preparativos da visita do Presidente Lula àqueles países árabes, em junho de 2003, o Brasil logrou se associar à Liga Árabe, na condição de membro observador, posição que passou a compartilhar com a Venezuela, a Índia e a Eritreia. Assim, por ocasião de sua passagem pelo Egito, o Presidente Lula teve a oportunidade de realizar o primeiro discurso de um mandatário brasileiro na sede da Liga dos Estados Árabes. Outro fator importante da visita foi seu caráter de resgate e valorização da importância do intercâmbio sociocultural com os países árabes, tendo em conta que, em 2003, viviam no Brasil mais de 2 milhões de descendentes de sírios, além de cerca de 6 a 7 milhões de indivíduos de descendência libanesa - a mais numerosa comunidade do Líbano fora daquele país. A expressiva participação daquelas populações nas mais diversas áreas de atividade profissional do País dispensa comentários, sendo notório o fato de um dos mais renomados hospitais do Brasil e da América Latina ser justamente o “Hospital Sírio-Libanês”. O principal resultado da visita do Presidente Lula àqueles países foi, sem dúvida, a abertura de um renovado diálogo com os países árabes em momento no qual o Brasil buscava impulsionar o universalismo de sua política externa e os países árabes, por sua vez, buscavam evitar o isolamento político que lhes fora “imposto” pelas incertezas trazidas com a Segunda Guerra do Golfo, no contexto da Global War on Terror dos EUA e seus aliados mais próximos. A evolução deste renovado diálogo seria formalizado e impulsionado por meio da constituição, a partir de 2005, da Cúpula América do Sul-Países Árabes. 5.3.2.1. Cúpula América do Sul-Países Árabes (ASPA) Com o objetivo de promover espaço de concertação política e de fortalecimento dos laços de cooperação Sul-Sul entre o continente sul- americano e os países árabes, o Governo brasileiro sediou, em maio de 2005, a I Cúpula América do Sul-Países Árabes (ASPA). Participaram do encontro líderes e representantes de alto nível de 22 países árabes e 11 sul- americanos. Pelo lado sul-americano, são membros: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela. Pelo lado árabe, são membros: Arábia Saudita, Argélia, Bareine, Catar, Comores, Djibuti, Egito, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Iraque, Jordânia, Kuaite, Líbano, Líbia, Marrocos, Mauritânia, Omã, Palestina, Síria, Somália, Sudão e Tunísia. O encontro teve como resultado a Declaração de Brasília, a qual contém as bases e os princípios da cooperação política que se estabeleceu desde então entre os membros da ASPA. Os principais pontos da Declaração podem ser assim resumidos10: • Reafirmam que uma solução de paz duradoura para o conflito israelo- palestino está vinculada à observância às resoluções pertinentes do Conselho de Segurança e da Assembleia Geral das Nações Unidas, particularmente as Resoluções 242 (1967) e 338 (1973) do Conselho de Segurança, assim como o Acordo-quadro de Madri e a “Iniciativa de Paz Árabe”, além da necessidade da plena implementação do “Mapa do Caminho”. Nesse sentido, reafirmam, igualmente, a necessidade da realização dos direitos nacionais legítimos do povo palestino e da implementação da Resolução 1515 (2003) do Conselho de Segurança, assim como da criação do Estado Palestino independente, com base nas fronteiras de 1967, coexistindo pacificamente ao lado do Estado de Israel, e da retirada de Israel de todos os territórios árabes ocupados para as fronteiras de 4 de junho de 1967, e do desmantelamento dos assentamentos, inclusive daqueles em Jerusalém Oriental. Em relação à separação física que o Governo israelense levava a cabo, destacaram a opinião consultiva da Corte Internacional de Justiça, de 2004, relativa às “Consequências Legais da Construção de um Muro nos Territórios Palestinos Ocupados”. • Rejeitaram a adoção de medidas unilaterais por parte dos EUA, com ênfase para a ocupação do Iraque e para a aplicação de sanções ao Governo de Damasco, no contexto do chamado “Syria Accountability Act”. • No que tange às medidas de combate ao terrorismo, destacaram a importância da cooperação internacional, no âmbito das Nações Unidas e das organizações regionais pertinentes, em absoluta conformidade com os princípios do Direito Internacional e dos Direitos Humanos - nesta parte fica implícita a condenação às graves violações de direitos humanos dos prisioneiros iraquianos que vinham à tona pela imprensa, bem como à manutenção da prisão de Guantánamo pelos EUA e à realização de julgamentos de exceção para suspeitos de praticarem atos terroristas. • No âmbito cultural, acordou-se realizar reunião birregional de peritos com o objetivo de selecionar obras da língua árabe e das línguas oficiais dos países sul-americanos que serão traduzidas reciprocamente, com o propósito de estabelecer uma Biblioteca Árabe-Sul-Americana. • Quanto à cooperação multilateral em temas comerciais e de investimentos, declaram seu especial apoio ao papel da UNCTAD como ponto focal das Nações Unidas para o tratamento integrado de comércio e desenvolvimento e temas correlatos, nas áreas de finanças, tecnologia, investimento e desenvolvimento sustentável, conforme destacado no Consenso de São Paulo e na Declaração Ministerial do G-77, ambos documentos aprovados na XI UNCTAD, em São Paulo, em junho de 2004. Destacaram, ainda, a importância de convergência com relação às demandas dos países em desenvolvimento no âmbito da OMC. • No âmbito da cooperação entre o Mercosul e o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) foi firmado Acordo de Cooperação Econômica, o qual dá origem às negociações de uma área de livre comércio (ALC) entre as duas regiões. A realização do encontro gerou expectativas e reações diversas na opinião pública e nas diferentes forças políticas no Brasil. Como destacado por Nizar Messari (2005, p. 260), a ausência de menção à necessidade de reformas políticas que visassem a estimular a democracia nos países árabes foi um dos pontos criticados no País. De forma objetiva, pode-se dizer que ambas as partes tinham interesses distintos na conformação da ASPA: para os sul-americanos, sobressaía a intenção, por meio do apoio às causas árabes, de abrir oportunidades de comércio com uma região que detinha amplas reservas de moedas fortes e baixa produção da indústria local; para os países árabes, o que estava em jogo era trazer para o seu lado, nas negociações multilaterais, o apoio, e se possível o voto, de 11 países sul- americanos que se encontravam, até uma década antes, tendentes a aderir às posições estadunidenses nos organismos internacionais. Malgrado os diversos questionamentos quanto à efetiva relevância daquela ação de política externa brasileira junto aos países árabes, o resultado prático no âmbito comercial foi o expressivo aumento do volume de comércio com a região. Como se verifica a partir da análise do gráfico abaixo, relativo ao desempenho da corrente de comércio entre os países da Liga Árabe e o Brasil, enquanto o País exportava, em 2003, USD 2,7 bilhões para o conjunto dos países da Liga, menos de dez anos depois, em 2011, esse montante já alcançava USD 14 bilhões. Outro fator importante de se destacar nestas relações de comércio é o fato de que o aumento das exportações brasileiras, ainda que prejudicado pelas recentes instabilidades políticas relativas à Primavera Árabe e à guerra civil na Síria, tem possibilitadocompensar o aumento do gasto externo com a importação de petróleo e seus derivados, cujos preços internacionais encontram-se em alta. Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Secretaria de Comércio Exterior. Dados atualizados até janeiro de 2014. Desde 2005, a ASPA vem se consolidando como o principal foro de concertação entre os países das duas regiões. De acordo com dados contidos na página do Ministério das Relações Exteriores (BRASIL, 2014), atualmente, integram o fórum birregional 34 países - entre Estados sul- americanos e árabes -, bem como o Secretariado-Geral da Liga dos Estados Árabes (LEA) e da União das Nações Sul-Americanas (UNASUL). O Brasil é o coordenador regional sul-americano da ASPA por haver sediado a I Cúpula e, por decisão dos membros do mecanismo, até que a Secretaria- Geral da UNASUL seja constituída e esteja plenamente operacional para assumir a representação regional. Pelo lado árabe, a coordenação é desempenhada pelo Secretariado-Geral da LEA. Além das Cúpulas de Chefes de Estado e de Governo, a estrutura da ASPA compreende um Conselho de Chanceleres e um Conselho de Altos Funcionários. As Cúpulas são realizadas de três em três anos e as demais instâncias reúnem- se regularmente, inclusive à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas, desde 2009. No âmbito da cooperação setorial, existem 5 Comitês, nas áreas de Cooperação em Ciência e Tecnologia, Meio Ambiente (com um Sub-Comitê de Combate à Desertificação), Cultura, Economia e em Temas Sociais. Tais Comitês Setoriais executam seus trabalhos com base em planos de ação aprovados pelas autoridades competentes das respectivas áreas dos países-membros. Até o momento atual, já foram realizadas três Cúpulas: além daquela em Brasília (2005), o encontro de líderes foi realizado em 2009 (Doha - Catar) e em 2012 (Lima - Peru). Nas últimas duas edições, avançou-se na adoção de consensos com relação a assuntos relativos ao contexto geopolítico do Oriente Médio, sobretudo após o início da Primavera Árabe. Assim, na III Cúpula Aspa ganharam relevo a situação da Síria e o conflito Israel- Palestina (Presidência da República, 2013, p. 294). Os dois resultados concretos daquela Cúpula foram o Marco de Cooperação na área de Combate à Desertificação e o lançamento do Fórum Aspa de Mulheres titulares de cargos governamentais. Na ocasião, os líderes presentes trataram ainda da questão Israel-Palestina, exaltando o seminário “Lado a Lado - a construção da paz no Oriente Médio” acerca da influência das diásporas judaicas e árabes no fomento da paz no Oriente Médio. Deve-se ainda ressaltar que, no âmbito da cooperação cultural desenvolvida pela Cúpula ASPA, encontra-se em funcionamento, desde 2010, a Biblioteca e Centro de Pesquisas América do Sul-Países Árabes (Bibliaspa). A Bibliaspa, que fica localizada na cidade de São Paulo, tem por objetivo promover o debate cultural, a realização de exposições, bem como a difusão da cultura árabe e brasileira. Dentre suas principais ações, destacam-se a tradução e disponibilização de obras da literatura brasileira para o idioma árabe, bem como a publicação da Revista Fikr, que aborda temas relacionados à América do Sul e aos países árabes nas áreas das ciências humanas, literatura, linguística, história e antropologia, dentre outras. 5.3.3. Posições do Brasil diante das atuais questões geopolíticas dos países árabes e do Oriente Médio 5.3.3.1. O Irã e a questão nuclear O programa de desenvolvimento de tecnologia nuclear por parte do Irã, sobretudo no que tange à instalação de usinas para enriquecimento de urânio, tem suscitado reações por parte dos países europeus e dos EUA e seus aliados mais diretos, sobretudo Israel, o qual vê na obtenção de armas nucleares pelo Governo de Teerã sérios riscos à sua segurança. Assim, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e o Conselho de Segurança das Nações Unidas têm priorizado o tema nos últimos 10 anos, com o objetivo de impor ao Irã mais cooperação no relacionamento com os inspetores da AIEA. De forma resumida, é possível afirmar que, por meio das Resoluções do CSNU aprovadas entre 2006 e 2010: 1.696 (2006), 1.737 (2006), 1.747 (2007), 1.803 (2008), 1.835 (2008), 1.887 (2009) e 1.929 (2010) - a ação da ONU, em estreita parceria com a AIEA, tem por objetivo obrigar o Irã a suspender todas suas atividades de enriquecimento de urânio e a instalação de novas centrífugas voltadas à preparação de combustível nuclear, cuja utilização para fins pacíficos poderia ser revertida para fabricação de armas atômicas. Aquelas resoluções apontam, ainda, para riscos ao possível desenvolvimento pelo Irã de mecanismos de produção de plutônio, por meio da construção de reatores de “água pesada” - o plutônio pode ser usado como substituto do urânio em uma bomba nuclear. O que se verifica no texto daquelas resoluções é um quadro de desconfiança do CSNU em relação às motivações pacíficas do programa nuclear iraniano e, sobretudo, da observância por parte daquele país das regras contidas no Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), do qual o Irã é signatário. A respeito daquele Tratado é importante destacar que o Irã ainda não ratificou o Protocolo Adicional ao TNP11, embora o tenha assinado no ano de 2003. Diante do déficit de confiança, a solução adotada pelo CSNU tem sido, desde 2006, a imposição de sanções ao Irã na forma da proibição de que os membros da ONU comercializem com aquele país artefatos bélicos, tais como armamentos, aeronaves militares, tanques, munição etc., além de itens cuja utilização para fins pacíficos poderia ser revertida para a produção de armas nucleares. As sanções estabelecem, ainda, que as cargas direcionadas ao Irã que transitem em portos estrangeiros e que, por algum motivo, despertem desconfiança quanto ao seu real conteúdo, podem ser verificadas, “de acordo com suas legislações nacionais e regras internacionais correlatas”. O escopo das sanções, no entanto, vai além da restrição e da prevenção do comércio de produtos bélicos, e alcança a proibição de que instituições financeiras e mesmo indivíduos ligados, ou supostamente vinculados, ao programa nuclear iraniano tenha acesso a fontes de crédito e mesmo possam deslocar-se livremente para países membros da ONU. Tais instituições e pessoas físicas encontram-se listadas nos anexos das mencionadas resoluções. Em outubro de 2009, no entanto, o Governo do Irã começou a demonstrar certa disposição de negociar o fim das sanções em troca de maior colaboração com a AIEA por meio de um acordo de troca de combustíveis. Assim, sob mediação daquela Agência, foi realizado encontro em Viena entre representantes iranianos e negociadores dos Estados Unidos, Rússia e França, no qual foi discutido acordo para enriquecimento do urânio no território russo e sua posterior transformação em combustível, a ser realizada na França. Nos termos da proposta, o Irã deveria enviar para a Rússia urânio enriquecido a 3,5% e recebê-lo enriquecido a 20%. Segundo a proposta, o Irã enviaria 1.200 kg de urânio para a França e para a Rússia, onde seria convertido para ser, posteriormente, destinado a um reator de pesquisas em Teerã. O então Diretor-Geral da AEIA, Mohamed El Baradei propôs que o urânio fracamente enriquecido (LEU) fosse embarcado para um terceiro país, possivelmente a Turquia, lá permanecendo sob custódia da Agência, até que o combustível fosse finalmente enviado ao Irã. A proposta foi aceita pelos EUA, Rússia e França. O avanço da proposta, porém, ficou condicionada a dois pontos: primeiro, o Irã, temendo que seu urânio fosse retido pelos demais membros envolvidos na preparação do combustível, exigia que a troca se desse de maneira simultânea e no território iraniano; segundo, EUA e França exigiam que o Irã cessasse todas as suas atividades relativas ao enriquecimento de urânio, o que, do ponto de vista do Irã, seria renunciar a um direito que lhe fora concedido pelo TNP, do qual é signatário. No início de 2010, o Irã já dava sinais de que aceitaria realizar a trocado combustível em terceiro país, desde que fosse de forma simultânea, ao mesmo tempo em que anunciava, em fevereiro, sua capacidade de produzir urânio a 20% de enriquecimento. No início de maio de 2010, teve lugar em Nova Iorque a 8ª Conferência Mundial sobre a Revisão do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), durante a qual as partes signatárias do acordo pressionaram, dentre outros países, o Brasil e o Irã a aderirem ao já referido Protocolo Adicional. Em relação ao Irã, os EUA lideraram grupo de países a favor da adoção de novas rodadas de sanções, cuja extensão negociava com China e Rússia. Para o Brasil, que no biênio 2010-2011 ocupou assento não permanente no Conselho de Segurança ao lado de Índia e África do Sul, a adoção de sanções era uma estratégia ineficiente, discriminatória, e que só contribuiria para dificultar ainda mais o diálogo com o Governo de Teerã. Ademais, o Governo brasileiro partia do entendimento de que, ao centrar as discussões da 8ª Conferência nos temas relativos à adesão ao Protocolo Adicional e à questão iraniana, os países detentores de arsenais nucleares deixavam sem avanços outros pontos essenciais do acordo, como as medidas de redução dos arsenais nucleares. Faz-se ainda necessário recordar que o Brasil, no ano de 2010, buscava aproveitar sua presença no CSNU para demonstrar que o País era capaz de contribuir de forma efetiva para a construção da paz mundial, sendo, portanto, “candidato natural” ao processo de reforma e ampliação dos membros permanentes daquele Conselho. Nesse contexto, em 17 de maio de 2010, os chanceleres do Brasil, do Irã, e da Turquia, reunidos na capital iraniana, emitiram declaração conjunta (Declaração de Teerã) por meio da qual chegaram a acordo que previa a troca de combustível nuclear como forma de limitar a quantidade de urânio enriquecido no território do Irã e, ao mesmo tempo, possibilitar a continuidade do programa nuclear para fins pacíficos daquele país, em consonância com as possibilidades previstas pelo TNP. A Declaração de Teerã, de forma resumida, está baseada nos seguintes pontos: • Os países iniciam a Declaração reafirmando o compromisso com o TNP e, ao mesmo tempo, recordando “o direito de todos os Estados-Parte, inclusive a República Islâmica do Irã, de desenvolver pesquisa, produção e uso de energia nuclear (assim como o ciclo do combustível nuclear, inclusive atividades de enriquecimento) para fins pacíficos, sem discriminação”. • O Irã comprometeu-se com o depósito de 1.200 quilos de urânio levemente enriquecido (LEU) na Turquia. Acordou-se que, enquanto estiver na Turquia, esse urânio continuará a ser propriedade do Irã. O Irã e a AIEA poderão estacionar observadores para monitorar a guarda do urânio na Turquia. • Após a notificação oficial à AIEA, por parte do Irã, quanto à concordância com a troca de combustível mencionada no item anterior, e do recebimento da resposta positiva do Grupo de Viena (EUA, Rússia, França e AIEA), outros detalhes da troca seriam “elaborados por meio de um acordo escrito e dos arranjos apropriados entre o Irã e o Grupo de Viena, que se comprometera especificamente a entregar os 120 quilos de combustível necessários para o Reator de Pesquisas de Teerã”. • O Irã expressou estar pronto para depositar seu LEU dentro de um mês. Com base no mesmo acordo, o Grupo de Viena deve entregar 120 quilos do combustível requerido para o Reator de Pesquisas de Teerã em não mais que um ano. “Caso as cláusulas desta Declaração não forem respeitadas, a Turquia, mediante solicitação iraniana, devolverá rápida e incondicionalmente o LEU ao Irã”. Da forma como foi construído, o processo negociador que deu origem à Declaração de Teerã, se cumprido integralmente pelas partes envolvidas, poderia vir a ser uma solução para os impasses referentes à questão iraniana: o Grupo de Viena lograria retirar do Irã grande quantidade de urânio enriquecido (LEU), colocando-o sob a jurisdição da Turquia, a qual se comprometia a controlar este material junto com a AIEA; o Irã estaria habilitado a dar continuidade a seu programa nuclear, já que a quantidade de combustível fornecido pelo Grupo de Viena seria suficiente para os alegados fins pacíficos e, ao mesmo tempo, teria fim o receio de que o combustível a ser remitido para o exterior fosse definitivamente retido pelo Grupo de Viena. Como a própria Declaração propunha, e a partir do ponto de vista da política externa brasileira, a cooperação ali prevista seria o início de um processo de construção/retomada de confiança entre o Irã, a AIEA e os membros do CSNU. Após a conclusão do processo negociador entre Brasil, Turquia e Irã, a Declaração foi levada à AIEA e ao Grupo de Viena. Naquela época, os países-membros do CSNU já negociavam os termos da Resolução n. 1929, que foi aprovada em 9 de julho de 2010 com o voto favorável de 12 países do Conselho, 1 abstenção (Líbano) e 2 votos contra (Turquia e Brasil). Aquela resolução previa nova leva de sanções, além de aumentar o número de entidades e indivíduos cujas relações com os demais membros da ONU deveriam ser cessadas devido a seu suposto envolvimento com o programa nuclear iraniano. A reação do Brasil foi de veemente oposição à resolução, uma vez que esta desconsiderava a busca de qualquer solução para o impasse que não fosse sacrificar o acesso do Irã a fontes internacionais de financiamento. Do ponto de vista estratégico, era evidente para o Brasil que, se de fato havia um programa nuclear de cunho militar em gestação pelo Irã, este não se daria pelos meios formais de financiamento e intercâmbio comercial que a resolução tratava de limitar - o que a resolução fazia, portanto, era agravar as finanças do Irã e, por consequência, empobrecer o país e minar a força política do Presidente Mahmoud Ahmadinejad. Por outro lado, se o objetivo dos países apoiadores do Irã era reduzir a popularidade do mandatário iraniano, a resistência à denominada “intromissão estrangeira no direito de o Irã desenvolver seu programa nuclear” contribuía para fortalecer a popularidade do presidente e dava voz às lideranças nacionalistas mais radicais, as quais justamente postulavam reduzir a já diminuta disposição de cooperar com a AIEA. Em artigo escrito sobre a posição brasileira durante a votação da Resolução n. 1929, a representante do Brasil na ONU, Embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti (BRASIL, 2010), afirma que: Cinco resoluções do Conselho de Segurança em menos de quatro anos não fizeram o Irã cooperar. Por que nova resolução o faria agora? Os proponentes da resolução afirmam que o objetivo não é punir o Irã, e sim trazê-lo à mesa de negociação, mas não explicam como é que se pretende obter cooperação pela via de novas sanções. Na verdade, pelo acordo feito por Brasil, pela Turquia e pelo Irã em maio, Teerã já voltou às negociações - e fez suas ofertas. As sanções podem, isso sim, dificultar a continuidade do diálogo. A penosa experiência no caso do Iraque serve para ilustrar o perigoso caminho a que pode levar uma espiral de sanções. Ao votar contra as sanções, o Brasil tomou decisão lógica e consistente com suas convicções e com os propósitos de sua iniciativa. Assim, votamos para preservar a capacidade de seguir o caminho que parece mais adequado. Aspecto que passou despercebido de comentários publicados no Brasil - embora não na imprensa internacional e nas declarações, por exemplo, da secretária de Estado norte-americana - é que o voto negativo reforça nossa capacidade de interlocução com o Irã e nossa habilidade de continuar a contribuir para uma solução negociada. Isso, diga-se, interessa também àqueles que promoveram a aplicação de novas sanções ao Irã. Após a eleição e posse do Presidente Hassan Rouhani no Irã, em agosto de 2013, as negociações sobre o programa nuclear iraniano foram retomadas. Em novembro daquele ano, negociações entre os membros permanentes do CSNU mais a Alemanha (grupo conhecido como P5+1) chegaram a um acordo provisório sobre as seguintes bases: • O Irã compromete-se a interromper o enriquecimentode urânio além de 5% (nível utilizado para a geração de energia elétrica) e a neutralizar suas reservas de urânio enriquecida a níveis próximos ou superiores a 20%, o qual sugere sua aplicação militar. • O Irã permitirá acesso diário às usinas nucleares de Natanz e Fordo por parte dos inspetores da AIEA. • Como contrapartida à cooperação iraniana, os países envolvidos na negociação e a União Europeia decidiram suspender, pelo período de 6 meses, a retenção de recursos e a aplicação de sanções, medidas que se estimam capazes de produzir um alívio estimado em US$ 7 bilhões à economia do Irã. Atualmente, o Irã sofre sanções comerciais e financeiras da ONU, dos EUA, da União Europeia e de outros países, como Canadá, China e Israel. Esse acordo refere-se exclusivamente às sanções dos EUA, da ONU e da União Europeia. O avanço daquele processo negociador iniciado em 2013 culminou com a assinatura, em Viena, em julho de 2015, de acordo entre o Irã e os membros permanentes do CSNU, mais a Alemanha e a União Europeia, o qual está baseado nas seguintes formas de cooperação relativas à questão nuclear: • Extensão do prazo de moratória para que as grandes potências aleguem realização de atividades nucleares com fins bélicos por parte do Irã, antes estipuladas em 90 dias, e que passará a ser de, no mínimo, 1 ano - durante este período, poderá o Irã responder tempestivamente a consultas formuladas por inspetores da AIEA quanto a suspeitas de realização de atividades de produção de material físsil para uso militar. • Redução, no prazo de 10 anos (até 2025), do número de centrífugas nucleares iranianas para cerca de um terço do total atualmente existente e verificável (de 19.000 para aproximadamente 6.100) - o acordo estabelece, ainda, detalhes técnicos relativos aos quantitativos máximos permitidos para cada espécie de centrífuga. • Redução das reservas iranianas de urânio, atualmente estimadas em 10.000 quilos, para apenas 300 quilos, por um período de 15 anos (até 2030). • Interrupção da construção de qualquer nova instalação de enriquecimento de urânio até 2030, inclusive de reatores de água pesada, utilizados para produzir artefatos atômicos a partir do plutônio, nos moldes daquele que estava em construção na cidade de Arak, para o qual o Irã se comprometeu a alterar o projeto de modo a inviabilizar permanentemente o uso para fins bélicos. • Autorização permanente, por parte do Irã, pelo período de 25 anos (até 2040) para inspeções de agentes da AIEA em todas as fases da extração, beneficiamento e pesquisa com urânio, incluindo visitas às minas de urânio e de produção do yellow cake. • Compromisso de autorização por parte do Irã, mediante requisição prévia e fundamentada, de visitas parciais a instalações civis e militares iranianas pelos inspetores da AIEA, como parte do Protocolo Adicional ao Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), em caso de suspeitas de atividades ilícitas de produção de material nuclear. • Suspensão das sanções de caráter econômico, financeiro e de transporte por parte das grandes potências envolvidas no acordo, a partir de 2016, mediante prévio relatório da AIEA, por meio do qual deverá constar que o Irã deu início ao cumprimento do acordo. • Retirada do Irã da lista dos países sob sanções no âmbito da ONU. • Suspensão parcial de sanções relativas à aquisição de armamentos por parte do Irã, a partir de 2020 - lançadores de mísseis balísticos e outros artefatos de grande capacidade de destruição e, sobretudo, de possível uso nuclear, permanecerão proibidos por um período de 8 anos, ou mesmo indefinidamente, a depender da tecnologia adotada. No final do mês de julho de 2015, o Conselho de Segurança da ONU aprovou por unanimidade o acordo assinado em Viena. Dessa forma, a Resolução n. 2.231 (2015) do CSNU expressamente aprova o referido acordo, cujo nome oficial é Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA), e que passa a vigorar como anexo dessa Resolução. Nos termos do inciso 7º da Resolução n. 2.231/CSNU, após a verificação da AIEA quanto ao início do cumprimento, por parte do Irã, dos termos do acordo, deverão ser revogadas as Resoluções n. 1.696 (2006), 1.737 (2006), 1.747 (2007), 1.803 (2008), 1.835 (2008), 1.929 (2010) e 2.224 (2015), as quais tratam do comércio de bens e serviços relacionados com as atividades nucleares, limitam a transação de ativos financeiros de indivíduos e empresas iranianas e impõem embargos sobre armamentos. Se, por um lado, pode-se alegar que a solução para o impasse foi motivada pelo agravamento da situação econômica iraniana após anos de sanções, as quais teriam obrigado o novo governo de Teerã a negociar a limitação de seus direitos de enriquecimento de urânio, por outro lado, torna-se visível a coerência da posição brasileira de que uma solução viável somente seria alcançada mediante a suspensão das sanções aplicadas ao Irã. 5.3.3.2. Negociações entre Israel e Palestina O Brasil mantém postura proativa para a retomada das negociações diretas entre Israel e Palestina. No momento atual, o governo brasileiro lamenta a estagnação do Quarteto para o Oriente Médio e ratifica a “condenação da construção de assentamentos nos territórios palestinos” (Presidência da República, 2013, p. 299). Em 2010, o Brasil reconheceu o Estado da Palestina, defendendo que Jerusalém Oriental seja a capital do país e que as fronteiras entre a Palestina e Israel sejam aquelas de 1967, de acordo com a já citada Resolução 242 (1967). Nos recentes discursos sobre o tema, o País manifesta apoio à opinião consultiva da Corte Internacional de Justiça (CIJ) sobre as “Consequências Jurídicas da Construção de um Muro no Território Palestino Ocupado”, proferida em 2004. Além do parecer da CIJ, o Brasil sustenta a implementação das Resoluções n. 1.850 (2008) e n. 1.860 (2009) do CSNU, além de ter votado a favor, quando era membro rotativo do CSNU, entre 2010-2011, da Declaração Presidencial desse órgão que critica o bloqueio israelense a Gaza. O Brasil também defendeu a Palestina como observador nas Nações Unidas. No que tange à cooperação técnica e à assistência humanitária, o Brasil é parceiro privilegiado da Agência das Nações Unidas para Assistência e Obras para Refugiados Palestinos no Oriente Médio (UNRWA). Até o ano de 2013, o País já havia destinado cerca de US$ 7,5 milhões para financiamento de projetos na Faixa de Gaza, por meio de ações de capacitação nas áreas de saúde e urbanismo, além de ter fornecido apoio para a reabilitação de centro hospitalar em Gaza e construção de centro para pessoas com necessidades especiais em Nablus (Presidência da República, 2013, p. 299). Acerca da posição do Brasil quanto à busca por uma solução negociada para o conflito israelo-palestino, destaca-se a importância das seguintes resoluções do Conselho de Segurança da ONU: Resoluções do Conselho de Segurança da ONU sobre a questão Israel- Palestina Resolução n. 181(1947), da AGNU: recomenda a criação de dois Estados, um palestino e um israelense, com mandato internacional sobre Jerusalém. Resolução n. 242 (1967), do CSNU: pede a retirada de Israel dos territórios ocupados durante a Guerra dos Seis Dias. Resolução n. 338 (1973), do CSNU: exige o cessar fogo em meio à Guerra do Yom Kippur e o respeito à Resolução n. 242 (1967). Resolução n. 1.850 (2008) do CSNU: apoio ao Processo de Paz negociado na Conferência de Annapolis. Resolução n. 1.860 (2009) do CSNU: exorta o cessar-fogo entre Hamas e Israel e pede que Israel autorize a ajuda humanitária a Gaza. 5.3.3.3. Primavera Árabe e a situação na Síria No contexto das revoltas de grupos nacionais de oposição, as quais tiveram início na Tunísia e tomaram as ruas de diversos países árabes, fenômeno que ficou conhecido como Primavera Árabe, os sírios saíram às ruas em 15 de março de 2011 para protestar contra o governo do Presidente Bashar al- Assad. O movimento sírio foi repelido pelas tropas do governo com o uso de força militar, ocasionando a organização de milícias por parte de partidos da oposição. O agravamentoda situação da Síria levou a ONU a admitir, em junho de 2012, que o país se encontrava em uma guerra civil. A fim de buscar soluções para o impasse na Síria, cujo agravamento já havia resultado, em meados de 2012, em centenas de mortos, estruturou-se o Grupo de Ação sobre a Síria, formado por representantes de China, Rússia, Estados Unidos, França, Reino Unido, Turquia, Liga Árabe, ONU e União Europeia. O ex-Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan, foi designado pela ONU e pela Liga Árabe como representante especial para a Síria. Pensou-se que o consenso entre russos, chineses, americanos e europeus se estabeleceria com a adoção do documento do Grupo de Ação de Genebra, reunido por Kofi Annan. Emanou desse documento uma estratégia e um plano de ação baseado nos seis pontos do Plano Annan. Quando esse documento foi levado à deliberação no CSNU, não se chegou a um consenso para que se aprovasse uma Resolução. Em junho de 2012, durante reunião realizada em Genebra, o Grupo de Ação logrou acordo sobre os princípios e as diretrizes de uma transição política naquele país, que contemplasse os partidos de oposição e as atuais forças no poder e garantisse o cumprimento das Resoluções 2.042 e 2.043 do Conselho de Segurança. O documento final daquela reunião de Genebra continha, naqueles termos, a previsão de estabelecimento de um órgão governamental de transição. A despeito das negociações mantidas no âmbito do Grupo de Ação e do Conselho de Segurança, EUA e União Europeia decidiram adotar, desde 2013, sanções ao Governo sírio, com o objetivo de evitar que financiem o conflito e adquiram material bélico. A opção pelas sanções foi agravada com a realização, por parte do governo de Bashar al-Assad, de suposto ataque com armas químicas contra a população civil em redutos controlados por grupos da oposição. A respeito do conflito na Síria, o posicionamento brasileiro tem sido coerente com os princípios de não intervenção e da solução pacífica de controvérsias baseada em soluções adotadas no contexto multilateral. Assim, em termos objetivos, é possível afirmar que o Brasil: rejeita soluções que envolvam intervenção de forças militares estrangeiras no território sírio; posiciona-se contra a adoção de sanções ao governo sírio; e repudia o apoio da comunidade internacional a um dos lados em conflito, sobretudo por meio do envio de armas ou de favorecimento político a grupos opositores. Tais posições tem sido expressas no âmbito da ONU, como, por exemplo, na exposição de motivos acerca da abstenção por parte do Brasil à Resolução n. 67/262 (BRASIL, 2013-B), realizada pela Embaixadora Maria Ribeiro Viotti, na Assembleia Geral em maio de 2013: O Brasil apoia várias das mensagens principais da resolução. Em particular, quatro aspectos. O Brasil reafirma a necessidade de uma solução negociada para a crise, em conformidade com as disposições do Comunicado de Genebra do Grupo de Ação para a Síria, que continua a ser uma base de consenso para um plano abrangente e eficaz para pôr fim ao conflito. Da mesma forma, apoiamos plenamente as disposições referentes à condenação da violência e às exigências para a cessação das graves violações dos direitos humanos e do direito internacional humanitário cometidas por ambas as partes, bem como à inadmissibilidade do uso de armas químicas. Merece, igualmente, nosso apoio inequívoco o Representante Especial Conjunto das Nações Unidas e da Liga dos Estados Árabes para a Síria, Lakhdar Brahimi. [...] Não está claro em que medida a presente Resolução contribuirá para a criação de tal ambiente. [...] Infelizmente, o texto ainda está aquém do que consideramos necessário para uma mensagem da Assembleia Geral que aspire a criar impacto local positivo. O fato de não se encontrar no texto uma conclamação explícita para que não haja uma escalada militar do conflito é injustificável. A Assembleia Geral não pode se esquivar de afirmar claramente que não pode haver solução militar para a crise. [...] A resolução poderia, igualmente, ter incluído importantes averiguações e conclusões feitas pela Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a Síria. A Comissão tem, muitas vezes, chamado a atenção para os “efeitos deletérios do regime de sanções” contra o povo sírio. Recomendou, ademais, que a comunidade internacional contivesse a proliferação e o fornecimento de armas e identificasse suas fontes, tendo em conta as implicações regionais e a respectiva responsabilidade na vizinhança e em outras partes. Da mesma forma, não cabe à Assembleia Geral, neste momento, mesmo que indiretamente, conferir legitimidade ou decidir quem deve ser o representante da oposição síria, e muito menos do povo sírio. Este é um assunto para os sírios decidirem. Desde 2013, o Brasil explicita que o Conselho de Direitos Humanos (CDH) da ONU deve ter papel ativo na crise da Síria, inclusive no sentido de garantir que as sanções aplicadas àquele país não causem problemas humanitários ainda mais graves à população. Como ressaltou o representante brasileiro, em maio de 2013 (BRASIL, 2013-C), durante votação de Resolução do CDH sobre a situação na Síria, “os ‘efeitos incapacitantes’ das sanções unilaterais sobre o povo sírio, como indicou a Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a Síria, devem dar lugar ao multilateralismo”. O Brasil vê com preocupação o apoio logístico e financeiro a grupos de oposição na Síria, porque seria um meio de passar ao largo do multilateralismo. Em maio de 2013, a União Europeia suspendeu o embargo de armas à oposição Síria, o que, na visão de alguns países europeus, como a Áustria, que se coaduna com a posição brasileira, poderá aprofundar o conflito. Logo depois da suspensão do embargo, a Rússia anunciou o fornecimento de mísseis para o regime de Al-Assad na Síria. Em janeiro de 2014, o Grupo de Ação sobre a Síria realizou nova rodada de negociações diplomáticas a fim de se buscar um acordo entre o Governo de Bashar al-Assad e seus opositores. Nesse contexto, foi realizada Conferência Internacional sobre a Síria, em Montreaux, na Suíça, que contou com delegações de 40 países e de quatro organizações internacionais. Na ocasião, o Governo dos EUA, com o apoio britânico, expressou que a saída do Presidente Bashar al-Assad deve ser condição essencial para o alcance de solução para o atual conflito que, segundo dados do Observatório Sírio dos Direitos Humanos, já teria causado a morte de mais de 130 mil pessoas, dentre elas cerca de 46 mil civis. As posições norte-americana e inglesa foram rechaçadas por representantes do Governo sírio, o que torna o processo negociador, no estágio atual, limitado por novo impasse. Em seguida à reunião de Montreaux, as negociações entre o Governo sírio e a oposição tiveram sequência em Genebra (Conferência Genebra II), durante a qual o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, propôs às delegações do governo sírio e da oposição que um acordo comece a ser desenhado a partir de três pontos menos polêmicos: um cessar-fogo regional, a troca de prisioneiros e a abertura de corredores humanitários. Na Conferência de Montreaux, o Brasil esteve representado pelo Secretário- Geral das Relações Exteriores, Embaixador Eduardo dos Santos, que na sua intervenção reiterou posições já trazidas à luz do debate por ocasião da votação da Resolução n. 67/262, em 2013. O discurso do Secretário-Geral inovou substancialmente, no entanto, ao propor medidas concretas a serem tomadas pelos negociadores e pelas partes em conflito a fim de reduzir o sofrimento do povo sírio e criar as bases pelas quais se buscará alcançar uma solução negociada. Destacam-se, a seguir, os principais trechos do referido discurso (BRASIL, 2014-B): Por um longo tempo a resolução desse conflito esteve comprometida pelo silêncio e a paralisia do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Como membro do Conselho no mandato 2010-2011, o Brasil buscou minimizar essa percepção de fracasso que apenas reforçou o chamado para uma reforma urgente e abrangente do Conselho de Segurança. [...]Acredito que todos nós presentes nessa Conferência afirmamos em um momento ou outro que não há solução militar para o conflito sírio. [...] Não haverá solução para o conflito na Síria enquanto ambos os lados continuarem a receber recursos financeiros e armas do exterior. A diplomacia permitiu a adoção do Comunicado do Grupo de Ação de Genebra em 2012, rompendo um impasse longo e destrutivo. A diplomacia também tornou possível alcançar um acordo para eliminar estoques de armas químicas na Síria, conforme determinado pela Resolução 2118 do Conselho de Segurança. [...] Renovamos nosso compromisso de apoiar esforços internacionais por meio das agências das Nações Unidas. Desde setembro de 2013, o Brasil decidiu facilitar vistos de entrada para todos aqueles nacionais sírios que buscam asilo. Meu país acredita que os princípios da solidariedade internacional e da divisão de responsabilidades deveriam nos guiar no que se refere aos nacionais sírios que buscam asilo em áreas fora das fronteiras imediatas da Síria. Precisamos agir oportuna e efetivamente. Medidas concretas são necessárias neste momento. Permita-me listar alguns passos que, na opinião do Brasil, são essenciais para alcançar uma solução política: - Implementação imediata do Comunicado Final do Grupo de Ação, em particular o estabelecimento de um órgão de transição neutro com plenos poderes executivos e de um diálogo nacional abrangente e significativo; - Acesso seguro, pleno e desimpedido a agentes humanitários e à assistência a pessoas em necessidade; - Compromisso de todas as partes sírias de assegurar o retorno seguro daquelas pessoas deslocadas e refugiadas que querem voltar para as suas casas na Síria; - Implementação imediata de medidas contra a violência baseada no gênero e daquelas medidas destinadas a proteger mulheres e crianças da violência sexual e do tráfico humano; - Assegurar que todos os responsáveis por violações de direitos humanos sejam trazidos à justiça; - Suspensão de todas as sanções econômicas unilaterais regionais conforme ressaltado pela Comissão Independente de Inquérito do Conselho de Direitos Humanos; - Compromisso de todas as partes sírias com o cessar-fogo, que poderia ser estabelecido de forma progressiva em diferentes áreas do país, a ser monitorado por um mecanismo acordado mutuamente pelas partes envolvidas e pelas Nações Unidas; - Estabelecer um embargo de armas abrangente e efetivo; - Apoio continuado a esforços em andamento para remover armas químicas da Síria e destruí-las com segurança, processo este que já começou a dar resultados. Os prazos estipulados na Resolução 2118 do Conselho de Segurança devem ser estritamente observados. O desfecho do processo negociador de Genebra II foi o impasse entre o Governo sírio e os grupos políticos de oposição ao longo dos dias de reunião. No momento da redação desta obra era prematuro afirmar se Genebra II lograria avanços concretos, sendo visível, no entanto, que a intervenção estrangeira na Síria por meio do apoio financeiro e bélico aos oposicionistas era, de fato, o mais grave problema a enfrentar devido ao fomento à guerra civil que esta atitude gerava. A posição brasileira neste sentido, inclusive mediante crítica aberta à inoperância do CSNU, demonstra coerência da política externa brasileira para com os princípios de não intervenção defendidos pelo País em sua longa tradição diplomática. 5.4. Relações do Brasil com a Ásia Nos dias atuais, o relacionamento do Brasil com os países da Ásia possui importância central na política externa brasileira e na estabilidade do balanço de pagamentos do país. Embora a dinâmica de comércio com a China e a estrutura de cooperação política trazida pelo IBAS e pelo BRICS sejam de suma importância para o Brasil, não se deve reduzir a estes pontos a análise do relacionamento com o continente asiático: há que se destacar as oportunidades de desenvolvimento tecnológico e de atração de investimentos essenciais para o crescimento qualitativo da produção brasileira. Como se verá ao longo deste capítulo, esta “janela de oportunidades” trazida pelos países da Ásia é resultado de uma série de fatores presentes na ordem internacional pós-Guerra Fria, os quais exigem do Brasil diversificação de parcerias. Nesse sentido, ao tratar das relações do Brasil com a Ásia, torna-se necessário que, nesta parte da obra, sejam abordados, de maneira sucinta, aspectos essenciais do relacionamento do Brasil com o Japão e a Coreia do Sul, embora seja evidente que não se possa considerar o relacionamento com aquelas economias desenvolvidas parte das relações ditas “horizontais” do Governo brasileiro. Tal necessidade deriva do fato de que o relacionamento com a Ásia a partir da Política Externa Independente (PEI), e até o final dos anos 1980, era entendida como parte da busca de novas tecnologias e da identificação de novas parcerias internacionais capazes de contribuir com o desenvolvimento da economia nacional. Assim, se no período seguinte à Segunda Grande Guerra, e sobretudo no pós-Guerra Fria, as relações com a China e a Índia são particularmente importantes devido à convergência dos países em desenvolvimento nos foros internacionais, não menos importância deve ser conferida às relações com o Japão e a Coreia do Sul, países com os quais o Brasil logrou desenvolver tecnologias essenciais para o crescimento qualitativo de sua produção. 5.4.1. Relacionamento estratégico do Brasil com Japão e Coreia do Sul 5.4.1.1. Brasil-Japão O relacionamento entre o Brasil e o Japão tem início em 1908 com a chegada do primeiro grupo de imigrantes japoneses ao Brasil, os quais tinham como objetivo trabalhar na lavoura cafeeira das região Sudeste. Inicialmente, os imigrantes japoneses, estabelecidos no Estado de São Paulo, tinham como objetivo obter ganhos com o trabalho assalariado nas lavouras para, em seguida, retornarem a seu país de origem que enfrentava, à época, graves problemas econômicos. Com a decadência da lavoura cafeeira em São Paulo a partir dos anos 1920 e, sobretudo, a partir da Crise de 1929, a participação dos japoneses no desenvolvimento do Brasil modificou-se rapidamente: enquanto significativa parcela dos trabalhadores mudou-se para as cidades com o objetivo de trabalhar nas nascentes indústrias, outros adquiriram pequenas porções de terras de antigos proprietários paulistas, ou mesmo praticaram o arrendamento daquelas terras em regimes de parceria com seus proprietários, nas quais iniciaram a produção de hortaliças e verduras que viria a se tornar, anos mais tarde, cinturão verde essencial para o abastecimento alimentar da cidade de São Paulo. Ao discorrer sobre as principais heranças da imigração japonesa para o Brasil, Alexandre Ratsuo Uehara (2013, p. 144) recorda que, além da introdução de produtos agrícolas até então inéditos na culinária brasileira, como a abóbora Kabocha e o caqui, a produção rural dos imigrantes aumentou significativamente a produção algodoeira nacional, o que contribuiu para o rápido crescimento da indústria têxtil paulista a partir dos anos 1930. Durante a Segunda Guerra Mundial - mais especificamente a partir de 1942 - o Brasil rompe relações com os países do Eixo, formado por Alemanha, Itália e Japão. As relações nipo-brasileiras somente seriam retomadas em 1952, com a assinatura de um Tratado de Paz entre os dois países, embora durante os 10 anos anteriores as relações de amizade entre brasileiros e japoneses não tivessem sido alteradas em termos significativos. O processo de reconstrução japonês nos anos seguintes à Segunda Grande Guerra é o motivo para o estabelecimento de acordos com o Governo brasileiro capazes de garantir fontes de suprimento de matérias-primas e bens semimanufaturados, cuja importância pode ser verificada na visita ao Brasil do Primeiro-Ministro japonês, Shinsuke Kishi, em 1959. De um lado, o Brasil desenvolvia, desde o Governo de Juscelino Kubitscheck, sob o Plano de Metas, esforços de atração de capitais estrangeiros12 para o desenvolvimento da indústria nacional;de outro lado, o Japão, auxiliado pelos EUA, que via na recuperação japonesa fator essencial para coibir a expansão do socialismo no Leste Asiático, necessitava obter fontes de matérias-primas e produtos de base para o crescimento de sua produção industrial. Nesse contexto, o Brasil, por meio do estabelecimento de joint ventures, beneficia-se dos avanços tecnológicos japoneses para implantação no país, durante as décadas de 1960 e 1970, de importantes indústrias de beneficiamento de recursos minerais e vegetais, tais como a Usina Siderúrgica de Minas Gerais (Usiminas), a Companhia de Celulose Nipo- brasileira (Cenibra) e a Alumínio Brasileiro S.A. (Albras), sendo esta última essencial para viabilizar a exploração das extensas reservas de bauxita presentes no Vale do Rio Amazonas. De acordo com Alexandre Ratsuo Uehara (2013, p. 146): Os grandes projetos surgiram no final de década de 1950, com a parceria para a construção da Usiminas, o estaleiro Ishikawajima e, em menor escala, a Toyota. A experiência da sociedade na Usiminas não foi do inteiro agrado dos japoneses (os aumentos de capital decididos pela parte brasileira não faziam parte dos planos dos investidores nipônicos, o que os fez se sentirem lesados) e afugentou novos investimentos. Foi só no final de década de 1960 e início dos anos 1970, na época do ‘milagre econômico’ brasileiro, que as empresas japonesas voltaram a investir no Brasil. [...] São desse período as parcerias como o Projeto Carajás (do qual participou a japonesa Nissho-Iwai), a Companhia Siderúrgica de Tubarão (Kawasaki Steel), a Cenibra (Itochu), o Prodecer e a Albrás [...]. Com o estabelecimento da Zona Franca de Manaus, em 1967, os investimentos japoneses no Brasil, antes concentrados na extração de minerais e na produção de maquinaria pesada, são diversificados com a introdução da indústria de eletrônicos, tais como Sharp, Toshiba e Matsushita, e de motocicletas (Honda e Yamaha). Essa diversificação resultou na introdução no Brasil de produtos com elevado padrão tecnológico - ainda que se tratasse de indústria de “segunda linha” da produção japonesa - e tornou o Japão o terceiro maior investidor externo no Brasil e o segundo mercado individual para as exportações brasileiras, em período no qual a economia internacional, afetada pela Crise do Petróleo de 1973, tornava cada vez mais escassos os empréstimos estrangeiros. Não menos importante foi o estabelecimento, na década de 1970, do Programa de Desenvolvimento do Cerrado (Prodecer)13, voltado à adaptação dos solos do bioma do cerrado para produção de grãos, em larga escala, com ênfase para o cultivo de soja. Nos anos 1980, dois fatores contribuíram para reduzir o nível das transações comerciais e dos investimentos entre os dois países. Em primeiro lugar, a crise da dívida na América Latina fez com que os países da região, dentre os quais o Brasil, erigissem rígidos controles de importações e barreiras ao comércio e, em segundo lugar, teve início, no Sudeste asiático, o rápido desenvolvimento dos novos países industrializados (NICs, na sigla em inglês), os quais atraíram parte considerável dos investimentos externos japoneses. É importante ressaltar ainda que, naquela década, como parte da conjuntura de crise vivida na América Latina, tem início fluxo reverso de migração de brasileiros descendentes de japoneses para o Japão (decasséguis). Os recursos remetidos para o Brasil por parte daqueles migrantes, no ano de 2004, segundo dados contidos em Oliveira (2006, p. 187), eram estimados em USD 2 bilhões. A importância dos decasséguis para o Brasil é objeto de declarações oficiais, como ilustra a Mensagem do Presidente Lula ao Primeiro-Ministro do Japão, Shinzo Abe, de setembro de 2006 (BRASIL, 2007, p. 139): Em 2008, nossas nações celebrarão o primeiro centenário da imigração japonesa para o Brasil. A comunidade nipônica no Brasil, na ordem de 1,7 milhão de pessoas, acha-se perfeitamente integrada à sociedade nacional, à qual tem prestado valioso exemplo de disciplina e capacidade empreendedora. Por sua vez, orgulhamo-nos de ter no Japão a maior comunidade de nikkeis em todo o mundo - 300 mil pessoas - que, com espírito pacífico e laborioso, contribuem para o bem-estar e a prosperidade da sociedade japonesa. Na década de 1990, Brasil e Japão passavam por desafios distintos relativos à reordenação de suas economias internas e, nesse contexto, o comércio e o investimento bilaterais mantiveram-se em níveis baixos. Acrescente-se a estes desafios a opção dos investidores japoneses por direcionarem grande parte de seus recursos para os Tigres Asiáticos, cuja crise, em 1997, contribuiu para geração de incertezas acerca da efetiva remuneração dos capitais aplicados. Este fato pode ser apontado como uma das principais motivações para o lançamento, a partir de 1999, de nova fase nas relações econômico-financeiras entre os dois países. A respeito, é importante ressaltar que, em setembro daquele ano, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Japan Federation of Economic Organizations (Keidanren) elaboraram trabalho intitulado “Brasil-Japão: aliança para o século XXI”, no qual se apontavam os pontos de estrangulamento e possíveis estratégias para reversão do distanciamento entre os dois países (Oliveira, 2006, p. 182). A importância da retomada dos fluxos de comércio e investimento entre os dois países foi definida nos seguintes termos pelo ex-chanceler Celso Lafer (BRASIL, 2002): O relacionamento Brasil-Japão tem nos investimentos e no comércio uma de suas principais vertentes. [...] Sentimo-nos encorajados pelo trabalho desenvolvido com a Confederação Nacional da Indústria no Comitê de Cooperação Econômica Brasil-Japão. O lançamento em São Paulo, em 2000, da “Aliança para o Século XXI” foi um exemplo e uma inspiração para aqueles que trabalham pelo fortalecimento da parceria entre os dois países. Significa, antes de mais nada, que o Brasil deste início de século XXI é muito diferente do país da “década perdida” dos anos 80. As empresas japonesas não podem ficar à margem desse processo. Existem oportunidades, seja na construção da infraestrutura, seja na ampliação do comércio entre os países da América do Sul, seja na expansão dos vínculos entre a América do Sul e a Ásia. Em 1995, as empresas japonesas detinham 6,3% do estoque de capitais estrangeiros no Brasil. O Japão ainda era o quarto principal investidor estrangeiro no Brasil. Em 2001, o Japão havia caído para a oitava posição, e o capital japonês não representava mais de 2,7% do investimento direto estrangeiro no Brasil. No comércio, a situação é comparável. As exportações do Brasil para o Japão em 2001 foram 14% menores do que em 1993. No mesmo período, as exportações do Japão para o Brasil aumentaram em 60%. É um valor considerável, mas inferior ao aumento total das importações brasileiras, que foi de 120% nesse período. É chegado o momento de reverter a perda de participação do Japão como investidor e como sócio comercial do Brasil. Para tanto, é preciso explorar plenamente o potencial de nossas relações econômicas. Devemos ir além da complementaridade entre a indústria japonesa e os recursos naturais do Brasil. Precisamos explorar novas possibilidades de negócios na agricultura, na indústria e nos serviços. Devemos promover a integração de cadeias produtivas nos diversos segmentos. E não poderia deixar de recordar a importância de que o mercado japonês também se abra para nossas exportações, como o mercado brasileiro se abriu para o Japão nos últimos anos. Nesse contexto, verifica-se, ao longo da década de 2000, o crescimento contínuo dos intercâmbios entre os dois países. Como exemplo, podemos mencionar os seguintes avanços nos investimentos entre Brasil e Japão: • Abertura, no ano 2000, do escritório de representação da Petrobras em Tóquio, que contribuiu tanto para estimular a parceria binacional na área de produção de etanol, a partir de 2005, por meio da Brazil-Japan Ethanol (BJE) - joint venture formada entre a Petrobras e a Nippon AlcoholHambai -, quanto para a aquisição, em 2008, por parte da petrolífera brasileira, de refinaria localizada em Okinawa da empresa japonesa Nansei Sekiyu Kabushiki Kaisha (NSS). • No ano de 2001, a fabricante de automóveis Nissan, em parceria com a Renault (francesa), inaugurou unidade de produção em São José dos Pinhais (PR), a qual fornece veículos para os mercados do Brasil e do Mercosul. As atividades da Nissan Motor Company, que tem hoje um brasileiro (Carlos Ghosn) como presidente da empresa, cresceram ao longo da última década e consolidaram parcerias com unidades de produção localizadas em outros países da região, como o México. A partir dos incentivos concedidos pelo Governo brasileiro para aumento da nacionalização e modernização da produção automobilística (Programa InovarAuto), a empresa japonesa optou, em 2011, por fazer novo investimento, estimado em USD 2,7 bilhões, na cidade de Resende (RJ) que, além de receber nova planta de produção de veículos, sediará a fábrica de produção de motores. • Desde 2008, a principal companhia aérea japonesa, a Japan Airlines (JAL), conta com jatos da Embraer (modelo ERJ 170) na sua frota de aeronaves para realização de voos domésticos. Em junho de 2013, a companhia brasileira divulgou comunicado no qual informa o interesse da empresa japonesa em adquirir outras quatro aeronaves do mesmo modelo, o que totaliza 15 aviões brasileiros à disposição da JAL, bem como de realizar programa de reposição de peças com a Embraer. No que tange ao desenvolvimento de novas tecnologias, especial menção deve ser feita ao Modelo Nipo-brasileiro de Televisão Digital (ISDB-TB). Desde o ano de 2003, a partir da criação do Comitê para o estabelecimento do Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD), o Ministério das Comunicações desenvolve estudos, juntamente com o Centro de Pesquisa em Telecomunicações, localizado em Campinas (SP) e cuja origem remonta à antiga Telebras, com vistas à definição do padrão ideal de transmissão em TV Digital a ser adotado pelo Brasil. Após dois anos de análises técnicas e visitas a centros estrangeiros de desenvolvimento da Tecnologia da Informação (TI), o padrão escolhido pelo Brasil foi aquele adotado no Japão (ISDB-T), tendo em conta a possibilidade de aderir a esse modelo recursos de interatividade entre emissoras e telespectadores, como o GINGA, que se encontra em fase de desenvolvimento por parte de universidades e centros de pesquisa no Brasil. Nascia, assim, o ISDB-TB (percebe-se a inclusão do “B” ao final da sigla do modelo japonês), que deverá estar integralmente implantado no País até 2018, quando será extinta a transmissão analógica. Além de permitir o intercâmbio tecnológico e estimular a pesquisa em TI no Brasil, a parceria com o Japão abre espaço para a transferência do modelo nipo-brasileiro para outros países da América Latina e da África, o que deverá consolidar a indústria de componentes de telecomunicações do Brasil como potencial exportadora. Nesse sentido, a promoção do ISDB-TB, que já foi adotado por outros países tais como Chile, Uruguai, Equador e Botswana, faz parte de estratégia de difusão dos Ministérios das Comunicações e das Relações Exteriores, com expressivo apoio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC). Assim, é possível afirmar que a atual dinâmica de investimentos e comércio entre Brasil e Japão se difere substancialmente daquela realizada até o final da década de 1990. No contexto atual, a complementariedade entre os dois países se dá não mais na dicotomia exportador de matérias-primas versus importador de tecnologias e bens manufaturados; evoluiu-se para uma complementariedade produtiva e de investimentos o que torna as relações com o Japão uma “janela de oportunidades” para que o Brasil desenvolva qualitativamente sua produção. Quanto às relações políticas entre Brasil e Japão, deve ser destacada a convergência de posições no que tange à reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), por meio da participação no G-4, o qual contempla, ademais dos dois países, Índia e Alemanha. A proposta do G-4, embora apoiada por França e Inglaterra, é objeto de oposição, desde 2005, por parte da China e dos EUA. Diante deste fato, em 2006, a coesão do grupo foi estremecida com as críticas do Japão à submissão junto à ONU, por parte dos outros três membros, da proposta de reforma do CSNU, mesmo cientes de que esta não contava com o apoio de dois membros permanentes do Conselho. A insatisfação do Governo japonês não impediu que o país seguisse negociando com os demais membros do G-4 e, já no ano seguinte, em 2007, os chanceleres do grupo voltaram a se reunir em paralelo à Assembleia Geral da ONU (AGNU). É incorreto, portanto, afirmar que há crise no âmbito do G-4, ou mesmo a dissolução do grupo. A respeito, menciona-se trecho do Comunicado Conjunto dos chanceleres do G-4, emitido em setembro de 2013, após reunião à margem da 68ª AGNU (BRASIL, 2013): Recordando os comunicados conjuntos anteriores do G-4, os Ministros reiteraram sua visão comum de um Conselho de Segurança reformado, que leve em consideração as contribuições dos países à manutenção da paz e da segurança internacionais e aos outros propósitos da organização, assim como a necessidade de maior representação dos países em desenvolvimento em ambas as categorias, a fim de melhor refletir as realidades geopolíticas atuais. Os países do G-4 reiteraram seus compromissos como aspirantes a novos assentos permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, assim como seu apoio às suas respectivas candidaturas. Reafirmaram também sua visão da importância de que países em desenvolvimento, em particular da África, estejam representados nas categorias de membros permanentes e não permanentes em um Conselho ampliado. Nesse contexto, os Ministros salientaram a importância de reforçar o diálogo sobre reforma do Conselho de Segurança com os países africanos e elogiaram a iniciativa do Governo do Japão de organizar, em junho passado, a primeira Cúpula Japão-África sobre Reforma do Conselho de Segurança. Ademais, os Ministros tomaram nota com satisfação da decisão dos Chefes de Estado e Governo da CARICOM, em fevereiro de 2013, de clamar por “maior urgência para alcançar uma reforma duradoura do Conselho de Segurança” e da iniciativa do bloco de revigorar o processo de negociações intergovernamentais. Outro tema de elevada importância no contexto do relacionamento nipo- brasileiro é a cooperação técnica desenvolvida por meio de projetos bilaterais e de ações trilaterais (Brasil e Japão cooperando juntos em benefício de terceiros países) realizadas, sobretudo, no continente africano e na América Latina. Os fluxos de recursos japoneses para o Brasil no contexto da denominada “ajuda oficial para o desenvolvimento” (ODA, na sigla em inglês) datam do início da década de 1960, embora sejam nos anos 1970 que o volume de ODA, sobretudo após o início da cooperação por meio do Prodecer, atinge níveis comparáveis aos dos tradicionais provedores de cooperação para o Brasil. Nesse contexto, em 1971, foi assinado entre Brasil e Japão o “Acordo Básico de Cooperação Técnica” que determina as bases pelas quais serão realizadas as ações de cooperação e dá suporte jurídico para a execução dos recursos disponíveis. Ao longo dos anos 1980, o volume de recursos empregados pelo Japão na oferta de ODA junto a seus parceiros chegou a superar - como em 1989, ano no qual foram investidos USD 8,96 bilhões - o montante destinado pelos EUA (USD 7,68 bilhões) (UEHARA, 2013, p. 152). Para o Japão, a cooperação técnica é ferramenta de política externa destinada a aproximar o país de regiões com as quais a densidade das relações diplomáticas é muito escassa, por meio do estabelecimento de uma agenda positiva que poderá, futuramente, resultar em apoios recíprocos nos organismos internacionais, ou mesmo em oportunidades de negócios. A partir do final da década de 1990, tendo em conta o avançado estágio de desenvolvimento das instituições brasileiras - tais como Embrapa, Fiocruz,INPE etc. - e das políticas públicas no Brasil, a ajuda recebida do Japão tende a ser reduzida na sua vertente bilateral, ao mesmo tempo em que passa a ser direcionada para a realização de projetos de cooperação triangular. Nesse sentido, Brasil e Japão desenvolvem juntos, desde o ano 2000, programa de cooperação em benefício de terceiros países (Japan Brazil Partnership Programme - JBPP), que visa a permitir ações de capacitação de recursos humanos e intercâmbio técnico entre profissionais japoneses, brasileiros e de outros países em desenvolvimento que venham a solicitar a participação nas sessões de treinamento. Para o Japão, o JBPP é particularmente importante por permitir aproximação com países africanos e latino-americanos, alguns dos quais o Governo japonês não dispunha sequer de representação diplomática permanente. Para o Brasil, o aumento da oferta de capacitações por meio dos recursos disponíveis no JBPP consolida junto a seus parceiros regionais e africanos o papel de provedor de cooperação técnica, dando consistência a uma diplomacia de solidariedade com os países em desenvolvimento e com os mais pobres - LDCs, além de permitir a difusão dos avanços alcançados pelo País em diversas áreas voltadas ao desenvolvimento socioeconômico. Os principais temas dos projetos de capacitação, muitos dos quais desenvolvidos em centros de pesquisa reconhecidos por sua excelência no Brasil, são: agricultura, saúde (ênfase para tratamento e prevenção de doenças tropicais e do HIV/AIDS), nutrição, meio ambiente, urbanismo e políticas públicas na área de direitos humanos. Conclui-se, portanto, que as relações nipo-brasileiras, ao longo da década de 2000, adquiriram densidade em todas as suas vertentes: comércio, investimentos, concertação política nos foros internacionais e cooperação técnica. O desenvolvimento da economia e o amadurecimento das instituições públicas brasileiras, sobretudo a partir do final da década de 1990, fizeram com que o Brasil tivesse oportunidade de romper com sua condição de exportador de commodities e matérias-primas, bem como de “receptor” da ajuda e dos investimentos japoneses. No contexto atual, ambos os países avançaram no estabelecimento de uma efetiva parceria na qual os investimentos fluem nas duas direções do relacionamento e, juntos, desenvolvem cooperação por meio de uma política de solidariedade e em consonância com os compromissos assumidos nos organismos internacionais. 5.4.1.2. Brasil-Coreia do Sul Há cerca de 20 anos, em meados dos anos 1990, talvez fizesse pouco sentido destinar espaço de uma obra com o escopo desta para tratar das relações bilaterais entre Brasil e Coreia do Sul. Há que se recordar, no entanto, que as relações políticas e econômicas entre os dois países foram estabelecidas ainda em 1959, diante dos esforços brasileiros de diversificação de parcerias e mercados internacionais, nos quais se insere a Operação Brasil-Ásia desenvolvida pelo governo de Juscelino Kubitscheck (Garcia, 2005, p. 180). A embaixada brasileira em Seul foi aberta em 1965. Contudo, os laços políticos e econômicos entre os dois países somente se tornam substanciais a partir da década de 1990, diante do rápido crescimento dos “Tigres Asiáticos” e da retração dos investimentos japoneses no Brasil devido à crise vivenciada pelo Japão em decorrência do estouro da bolha financeira gerada pelo excesso de liquidez dos bancos nipônicos. A respeito do vertiginoso crescimento da Coreia do Sul naquele período, Fernando de Mello Barreto (2012, p. 99) afirma: Chamava a atenção mundial o crescimento econômico acelerado de alguns países da região. Assim, em 1988, os chamados “Tigres” - Coreia do Sul, Taiwan e Hong Kong (todos do Leste da Ásia), bem como Cingapura (no Sudeste da Ásia) - responderiam por 8,1% do total das exportações mundiais, um crescimento espetacular, pois, em 1963, representavam apenas 1,6% desse total. Os resultados eram pouco inferiores aos do Japão (9,6%) e mais do que o dobro da parcela correspondente à América da Latina (4,2%). Desde meados da década de 1980, a renda per capita da Coreia do Sul supera a dos países latino-americanos. O aumento do intercâmbio com o Brasil, sobretudo após a apreciação do Real diante do Dólar estadunidense, a partir de 1994, que resultou no aumento da importação dos produtos coreanos, motivou o presidente sul- coreano Kim Young Sam a realizar visita ao Brasil, em 1996, durante a qual acordou-se a formação da Comissão Brasil-Coreia para o Século XXI, que tinha por objetivo a realização de estudos e intercâmbio de informações destinados a difundir as oportunidades de investimento em ambos os países (Oliveira, 2006, p. 197). Ressalta-se que a comitiva presidencial contava com a participação de 40 empresários sul-coreanos. A partir dos entendimentos mantidos na ocasião, a Coreia do Sul avançou na instalação de fábricas no Brasil dos principais chaebols14 produtores de artigos eletrônicos e na comercialização de automóveis fabricados na Coreia. Assim, já em 1995, iniciavam os trabalhos para a instalação da fábrica da Samsung na Zona Franca de Manaus e a importação de automóveis da Daewoo (marca hoje extinta pelo seu acionista controlador, a General Motors) e da Hyundai. Em 1997, a LG instala fábricas de aparelhos de televisão, videocassetes etc. em Manaus e em Taubaté. Ressalta-se que, naqueles momentos iniciais do investimento coreano no Brasil, não havia transferência de tecnologias, ou mesmo desenvolvimento nacional de produtos, mas apenas instalação de plantas industriais para produção local de artigos de conteúdo tecnológico já consolidados pelas matrizes sediadas na Coreia. Em 1997, a crise financeira nos mercados asiáticos reduziu drasticamente o fluxo de investimentos nas economias latino-americanas e, no que tange ao Brasil, a desvalorização da moeda nacional em face do dólar, no início de 1999, inviabilizou a continuidade da venda de veículos sul-coreanos no Brasil, muitos dos quais eram comercializados mediante contratos de leasing lastreados na divisa norte-americana15. Passado o pior momento daquela crise, já em 2001, o Presidente Fernando Henrique Cardoso, cioso das inúmeras oportunidades de investimento que a Coreia poderia desenvolver com o Brasil, realiza a primeira visita de um mandatário brasileiro à Coreia do Sul, durante a qual é estabelecida a “Parceria Especial entre Brasil e Coreia para o Século XXI”. A expectativa era a de que a parceria pudesse resultar não apenas no aumento do número de fábricas coreanas no Brasil, mas sobretudo no desenvolvimento comum de tecnologias, o que daria início a um novo estágio do relacionamento bilateral. No ano de 2004, já no mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente coreano Roh Moo-hyun visita o Brasil com a expectativa de expansão dos investimentos da Coreia do Sul nos setores de mineração e energia, ocasião na qual a “parceria especial”, inaugurada por Fernando Henrique, é rebatizada de “Relação Abrangente de Cooperação para a Prosperidade Comum no Século XXI”. Em retribuição à visita de Roh Moo-hyun, o presidente Lula visitou a Coreia em 2005 e, na ocasião, destacou que o Brasil precisava aumentar o conteúdo tecnológico de suas exportações para o parceiro asiático, tendo em conta que o País já exportava, por exemplo, aviões e softwares para outros países da região, mas não para a Coreia do Sul (Barreto, 2012-A, p. 420). A partir daquele encontro, e da I Reunião do Fórum Brasil-Coreia, realizada em Brasília no mesmo ano, a relação entre os dois países evoluiu para a diversificação dos investimentos e para o intercâmbio tecnológico. O empresário coreano é visto por seu parceiro brasileiro como metódico - assim como os demais homens de negócios asiáticos -, porém mais arrojado em seus investimentos do que os japoneses. Tendo em conta as necessidades de investimentos geradas pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), anunciado pelo governo brasileiro em 2007, a parceria com a Coreia do Sul passou a ser discutida em setores estratégicos para o País, comoas indústrias automobilística e naval e os projetos de mobilidade urbana, além do Trem de Alta Velocidade (TAV) que se estuda implantar entre Rio de Janeiro e São Paulo. Nesse sentido, chegou-se a contar com a parceria tecnológica da Coreia do Sul - já desfeita, em 2012 -, por meio da Samsung Heavy Industries, para construção de embarcações de prospecção e transporte de petróleo que se encontram em construção no Estaleiro Atlântico Sul, localizado em Suape (PE). Embora rompida a parceria, a mesma empresa coreana continua atuando, desde sua matriz, na construção de embarcações e sondas exploradoras de petróleo. Ainda no ano de 2012, a Hyundai instalou, em Piracicaba (SP), sua primeira fábrica de veículos, na qual se prevê a produção anual de 150 mil unidades de modelo desenvolvido no país, o qual se estima que seja exportado para várias regiões do mundo. No que tange à cooperação científica e tecnológica bilateral, é importante ressaltar que a Coreia do Sul é, dentre os países da Ásia, o principal provedor de oportunidades para estudantes bolsistas brasileiros beneficiários do Programa Ciência sem Fronteiras. De acordo com dados oficiais contidos na página virtual do Ministério da Educação16, em janeiro de 2014, havia 323 bolsistas brasileiros inscritos em centros de ensino, pesquisa e pós-graduação sul-coreanos, enquanto na China havia 193 alunos e, no Japão, apenas 88. Estima-se que esta diferença seja resultante do fato de que duas empresas sul-coreanas instaladas no Brasil, a Hyundai Motor Group e a Pohang Iron and Steel Company (POSCO), estão entre as financiadoras do Programa Ciência sem Fronteiras. 5.4.2 Fórum de Cooperação América Latina-Ásia do Leste (Focalal) Até o final dos 1980, a relação do Brasil com os países da Ásia fora centrada nas relações comerciais com o Japão e na busca de apoio dos países do “Terceiro Mundo” para a promoção de ajustes na estrutura do sistema internacional. Conforme salienta Henrique Altemani de Oliveira (2006, p. 179), até os anos 1990, havia dificuldade de priorização do relacionamento do Brasil com os países asiáticos, sendo notável o fato de que a política externa brasileira privilegiasse o relacionamento Sul-Sul com os países africanos, sobretudo aqueles de língua portuguesa. Esta situação, no entanto, foi substancialmente alterada a partir da crise financeira asiática de 1997, quando os países daquela região verificaram ser necessário diversificar seus parceiros para além da tradicional relação com as economias norte- americanas e europeias. Alguns autores, dentre os quais Paulo Fagundes Visentini, compartilham o ponto de vista segundo o qual a crise asiática teria sido consentida pelo governo dos Estados Unidos como meio de limitar o rápido crescimento dos Tigres Asiáticos, que trazia sérios desafios para os concorrentes norte-americanos. Há que se ressaltar que o modelo original de crescimento dos Tigres era, até a crise de 1997, baseado nas indústrias de capital exclusivamente nacional, como no caso dos já mencionados chaebols sul-coreanos. De acordo com Visentini (2013, p. 198): Os países mais afetados pela crise foram, contudo, os mais submetidos aos EUA, seja por razões militares e estratégicas (Coreia do Sul), sejam os de economia liberal, mais débeis e não dotados de projetos de desenvolvimento, como Tailândia e Filipinas. Dois países que tentaram resistir às investidas, primeiramente, políticas, depois, econômico-financeiras, das potências ocidentais capitaneadas por Washington foram a Indonésia e Malásia. [...] Abstraindo as questões puramente técnicas, é interessante observar que a questão central é o contingenciamento do desenvolvimento asiático, de forma a impedir a afirmação de um polo competidor, a Ásia, e de uma virtual nova potência global, a China. O fenômeno da fuga de capitais pode ser induzido de distintas maneiras, e não ocorre sem que haja uma linha estratégica definida. Os próprios asiáticos têm demonstrado a percepção de que o alvo da crise é o seu desenvolvimento industrial e tecnológico autônomo. No contexto de recuperação da crise, os países da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), somados a Japão, China e Coreia do Sul, iniciaram esforços de aproximação com países em desenvolvimento e emergentes a fim de estabelecer parcerias comerciais e de cooperação capazes de prover ganhos mútuos e de diminuir a dependência dos tradicionais mercados europeus e asiáticos. Assim, a partir de proposta apresentada pelo governo de Cingapura ao Chile, em 1999, tinha origem o Fórum de Cooperação América Latina-Ásia do Leste (Focalal), que constitui atualmente a mais profunda e representativa estrutura de concertação política, de facilitação de acordos de comércio e de cooperação envolvendo a Ásia do Leste e a América Latina. Em dezembro 2013, faziam parte do Focalal 36 países: 20 da América Latina (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, El Salvador, Equador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Uruguai e Venezuela) e 16 da Ásia do Leste (Brunei, Camboja, China, Cingapura, Coreia do Sul, Filipinas, Indonésia, Japão, Laos, Malásia, Mongólia, Mianmar, Tailândia, Vietnã, Austrália e Nova Zelândia). Os principais objetivos do Focalal podem ser resumidos da seguinte maneira: • promover maior aproximação, confiança, diálogo político, entendimento e cooperação entre os Estados-membros; • explorar as potencialidades de cooperação multidisciplinar, inter alia, nos seguintes campos: economia, comércio, investimentos, finanças, ciência e tecnologia, proteção ambiental, educação, cultura, esportes e intercâmbio de pessoas; • articular posições comuns sobre questões políticas e econômicas de relevância mundial, com vistas ao trabalho conjunto em diferentes foros internacionais, em prol dos interesses mútuos. O Focalal não detém personalidade jurídica internacional e não possui secretariado permanente. Sua baixa institucionalização, no entanto, não impede que o Fórum mantenha mecanismos de interação política por meio de grupos de trabalhos e comitês. Para o tratamento dos assuntos de caráter técnico-especializado, o Fórum foi composto, a partir da I Reunião de Chanceleres, realizada em 2001, em Santiago do Chile, por quatro grupos de trabalho, nas seguintes áreas: cooperação sociopolítica e desenvolvimento sustentável; comércio, investimento, turismo e Pequenas e Médias Empresas (PMEs); cultura, juventude, gênero e esportes; ciência e tecnologia, inovação e educação. A concertação política e a discussão sobre as minutas de acordos entre os países do Fórum é realizada no âmbito do Comitê de Altos Funcionários e das Reuniões de Ministros de Relações Exteriores - normalmente, o encontro dos altos funcionários antecede a reunião dos chanceleres, que é a instância máxima de deliberação do Fórum. A fim de possibilitar a coordenação dos debates e a preparação dos encontros, são eleitos, a cada dois anos, Coordenadores Regionais, sendo um de cada continente. Até o ano de 2013, já haviam sido realizadas seis reuniões dos Ministros de Relações Exteriores e quatorze encontros dos altos funcionários. A III Reunião dos Ministros de Relações Exteriores, em 2007, teve lugar em Brasília e, na ocasião, firmou-se a “Declaração de Brasília” que, dentre vários aspectos do relacionamento entre a Ásia e a América Latina, ressalta a especial importância do desenvolvimento das micro, pequenas e médias empresas, bem como do binômio comércio e investimento como meio de promover o desenvolvimento, a prosperidade e a inclusão social para os povos das duas regiões (Foro de Cooperação América Latina-Ásia do Leste, 2009). Em paralelo à III Reunião, foram realizados o Seminário Empresarial entre a América Latina e a Ásia do Leste e o Seminário Acadêmico, que reuniu membros de institutos de pesquisa das duas regiões, eventos que demonstram o potencial do Fórum como mecanismo de aproximação entre os setores privados de ambos os continentes. A seguir, destaca-se trecho do discursodo ex-chanceler Celso Amorim na cerimônia de abertura da III Reunião Ministerial do Focalal, cujo conteúdo revela a expectativa do Brasil quanto ao potencial daquele mecanismo de concertação política: Nossas regiões estão buscando seu lugar na nova configuração de forças que emergem neste início de século. A aproximação que queremos contribui para uma ordem mundial mais democrática e pluralista, que reconheça a diversidade dos povos e reforce a multipolaridade, vital para combater hegemonias de qualquer espécie. [...] O FOCALAL pode ser um valioso instrumento para promover essa aproximação. Podemos estabelecer parcerias construtivas e inovadoras se soubermos explorar os numerosos pontos de convergência que existem entre nós. Juntos, buscamos respostas eficazes para os desafios da paz e do desenvolvimento. [...] Buscamos parceiros em todos os quadrantes para cooperar, diversificar nossas opções e incrementar conjuntamente nossas capacidades. O relacionamento com a Ásia do Leste integra esse esforço de diversificação. Existem oportunidades em setores tão diversos quanto infraestrutura, construção naval, bioenergia e televisão digital. Os mecanismos do FOCALAL contribuirão enormemente para identificar as complementaridades entre nossos países. Por tudo isso, decidimos enfatizar a promoção do comércio e do investimento entre todos os membros do FOCALAL. O mais recente encontro do Fórum (VI Reunião de Ministros das Relações Exteriores) foi realizado em julho de 2013, na Indonésia, e contou com a participação de representantes dos 36 países que o integram. Um dos pontos mais significativos da agenda daquele encontro foi a realização do II Diálogo Bi-regional sobre Cooperação Internacional, que contou com a presença dos dirigentes de agências de cooperação dos países-membros do Fórum. Ao longo dos debates desenvolvidos desde a I Reunião dos chanceleres (2001), o desenvolvimento socioeconômico dos dois continentes tem sido preocupação constante do Fórum. Ao traçarem objetivos comuns para seus países, os participantes do Focalal convergiram no entendimento de que o desenvolvimento do entorno geográfico do Fórum e de seus principais parceiros constitui parte essencial do esforço original de diversificação das parcerias comerciais e dos investimentos. Tendo em conta a dinâmica interdependente da economia internacional contemporânea, o Focalal manifestou, na reunião da Indonésia, sua preocupação em desenvolver esforços multilaterais coordenados de cooperação em benefícios de seus países-membros. A respeito, menciona-se, a seguir, trecho do comunicado expedido ao final daquele encontro (Declaração de Uluwatu): Hoje, os países emergentes em desenvolvimento desempenham um papel importante como o motor do crescimento econômico e desenvolvimento global, para o qual as economias do FOCALAL contribuem com 33,43% do PIB mundial e 29,82% do comércio global. A fim de assegurar um desenvolvimento justo e sustentável, encorajamos a cooperação e o diálogo sobre políticas macroeconômicas e estratégias de desenvolvimento entre os países membros do FOCALAL. Neste sentido, saudamos os resultados do Seminário sobre “Experiências de países do FOCALAL na Transformação do Modelo de Crescimento com vistas ao Desenvolvimento Sustentável”, realizado em Hanói, no Vietnã, de 5 a 8 de junho de 2013. Ademais dos assuntos relativos à cooperação, a Declaração de Uluwatu traz menção ao comprometimento dos membros do Fórum quanto aos termos e aos objetivos da Rodada de Doha da OMC, bem como reitera a necessidade de “reforma abrangente da ONU, incluindo o Conselho de Segurança”, a fim de torná-la mais eficaz e representativa. O Focalal deve ser entendido, portanto, como fruto de uma estratégia de diversificação de parcerias comerciais e de redução da dependência dos tradicionais mercados ocidentais, embora seja incorreto afirmar que o grupo tenha a perspectiva de vir a se tornar um mecanismo formal de integração, como uma área de livre comércio, por exemplo. Suas possibilidades, no entanto vão muito além da facilitação de acordos de comércio, e abrangem a concertação política nos organismos internacionais, voltada a reduzir o peso das hegemonias dos EUA e da União Europeia, bem como a atualizar a estrutura daqueles entes à nova realidade política e econômica do século XXI. 5.4.3. Relações Brasil-China “A parceria estratégica sino-brasileira está fundamentada na crença de que temos interesse comum na busca de um mundo multipolar e pluralista. Estamos convencidos de que somente através do diálogo e da cooperação poderemos responder ao desafio de promover a paz e combater o terrorismo, de preservar o meio ambiente e assegurar o desenvolvimento e o bem-estar para todos. Queremos construir uma arquitetura mundial que privilegie o entendimento, a justiça social e o respeito entre os povos. A China e o Brasil mantêm uma cooperação horizontal modelar num sistema internacional marcado pela desigualdade. Essa relação nos dá legitimidade para, juntos, promovermos uma agenda internacional que favoreça a distribuição equitativa de poder e de recursos no cenário internacional. Somente assim estará assegurado o desenvolvimento econômico e social de nossos povos.” (Discurso do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva no jantar oferecido ao Presidente da China, Hu Jintao, no Palácio Itamaraty - Brasília, em 12 de novembro de 2004) As relações entre o Brasil e a China no contexto pós-Segunda Guerra Mundial foram marcadas pelas estruturas do sistema internacional e pela singularidade do processo político e econômico pelo qual passou o país asiático. Em 1949, diante da vitória de Mao Tsé-Tung na Revolução Comunista Chinesa, que culminou com o exílio de Chiang Kai-Chek e dos membros do Kuomintang em Taiwan, o Governo brasileiro rompe relações diplomáticas com o Governo chinês e opõe-se ao reconhecimento da República Popular da China (RPC). Três anos mais tarde, em 1952, o Brasil estabelece uma representação diplomática em Taipei. A despeito do não reconhecimento da RPC, chama a atenção na história das relações entre Brasil e China o constante fluxo migratório chinês para o Brasil verificado ao longo da década de 1950, bem como o intercâmbio cultural desenvolvido entre os dois países por meio da Associação Cultural Brasil-China. A primeira tentativa de reverter o isolamento diplomático entre o Brasil e a RPC é verificada no breve governo de Jânio Quadros, no qual são estabelecidas as bases da Política Externa Independente (PEI). Em face da dinâmica de cooperação Sul-Sul preconizada pela PEI, realizou-se, em 1961, missão comercial brasileira a Pequim chefiada pelo então vice-presidente do Brasil, João Goulart. O resultado prático desta visita, no plano comercial, foi a assinatura de acordo entre os dois países para instalação de representação comercial chinesa no Brasil. Os esforços empreendidos pelos Chanceleres brasileiros que estiveram à frente da condução da PEI, Afonso Arinos de Melo Franco e San Tiago Dantas, foram interrompidos com o início do regime militar no Brasil, em 1964, e só seriam retomados no início da década de 1970. Com a implantação do regime militar no Brasil, as incipientes relações entre o Brasil e a RPC são congeladas. Ainda em 1964, o escritório comercial da RPC é fechado pelo governo brasileiro, e seus nove funcionários chineses são detidos e expulsos do país no ano seguinte, sob a acusação de “desempenharem atividades subversivas à ordem nacional”. Trata-se do efeito prático da política externa do governo de Castelo Branco, que, sob a coordenação do Chanceler Vasco Leitão da Cunha, propunha realizar uma “correção de rumos” em relação à PEI, direcionando o país ao alinhamento com os princípios políticos dos EUA. O início dos anos 1970 traz novo contexto para as relações internacionais dos países em desenvolvimento e, coincidentemente, Brasil e China passam por conjunturas políticas propícias à reaproximação. Do lado brasileiro, os primeiros anos do “alinhamento automático” frustraram as perspectivas de crescimentodo comércio e dos investimentos com os países do Ocidente, e com os Estados Unidos em especial. Nascia a percepção de que o desenvolvimento do Brasil exigiria tanto a abertura de mercados onde a produção industrial do país tivesse competitividade, quanto o reconhecimento do país como economia industrializada, capaz de gerar inovações e romper com o paradigma agrário exportador que culminava na “deterioração dos termos de troca” apontada pelas teses cepalinas. O discurso do embaixador brasileiro em Washington, Araújo Castro, em 1971, ao destacar o “congelamento do poder mundial” e indicar a necessidade de revisão da Carta da ONU, convergia com a percepção chinesa quanto à necessidade de incremento da participação de ambos os países nas esferas decisórias internacionais. Do lado chinês, a Revolução Cultural, iniciada em 1966, deu origem à Teoria dos Três Mundos, sendo o “primeiro” formado pelas nações hegemônicas (EUA e URSS), o “segundo” pelas potências não hegemonistas (Europa e aliados) e o “terceiro” pelos países em desenvolvimento, onde a China se enquadrava. De acordo com José Flávio Sombra Saraiva (2007, p. 244), essa nova percepção quanto ao lugar da China na Ásia e no mundo resultaram na recusa da hegemonia soviética e na aproximação com o governo dos Estados Unidos. Como resultado dessa nova percepção, a RPC, tendo como pano de fundo o conflito na região fronteiriça de Amour, rompe relações diplomáticas com a URSS e inicia uma nova fase nas suas relações com os países em desenvolvimento. Segundo Henrique Altemani de Oliveira (2012, p. 102), os principais pontos de convergência entre Brasil e China na década de 1970 podem ser resumidos da seguinte maneira: oposição em assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP); apoio chinês às reivindicações latino- americanas de extensão do mar territorial de 200 milhas marítimas; oposição às teses ambientalistas da Conferência de Estocolmo (1972) que limitavam a capacidade de crescimento industrial dos países em desenvolvimento; e oposição à “diplomacia dos Direitos Humanos” implementada pelos Estados Unidos em relação aos países latino-americanos. A esses pontos, acrescenta- se o fato de que, após o rompimento com a URSS, a China deixou de apoiar a “exportação” dos princípios e ideais comunistas para os países latino- americanos. Embora convergentes em variados pontos da agenda internacional, é importante destacar que, em 1971, durante votação na ONU que resultou na substituição da Taiwan pela RPC como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o Brasil votou contra o ingresso do país asiático no colegiado das grandes potências. A motivação mais evidente para esta posição brasileira deve-se à postulação por parte do Brasil de uma reforma do Conselho que incluísse outros países que, no contexto mundial da época, já detinham considerável importância para agenda de segurança internacional, além dos cinco membros permanentes previstos na Carta da ONU. Em setembro de 1974, sob a perspectiva de uma política externa brasileira definida como “pragmatismo responsável e ecumênico”, o Brasil reconhece o governo da República Popular da China e reestabelece representação diplomática em Pequim. Em consequência, o Brasil encerra as relações diplomáticas com Taiwan, mantendo relacionamento de caráter unicamente comercial. Do ponto de vista político, o reestabelecimento das relações entre os dois países abriu oportunidades de incremento dos intercâmbios comerciais e, sobretudo, do avanço na cooperação Sul-Sul. Porém, é importante destacar que, no âmbito do comércio, o intercâmbio Brasil-China até o final dos anos 1980 permaneceu residual e limitado a poucos itens agrícolas (açúcar e café). A partir dos anos 1990, as relações entre Brasil e China tornam-se consideravelmente complexas, tendo em conta o caráter estratégico que, por vezes, inviabiliza análises pontuais exclusivas, ora sobre o fluxo de comércio, ora sobre os posicionamentos comuns nos foros internacionais. Por isso, optou-se nesta obra em dividir a análise sobre o relacionamento comercial do estudo acerca das condicionantes que levaram os dois países a ingressarem em uma “parceria estratégica”, uma vez que o autor entende haver certa independência dos diferentes aspectos do relacionamento. A cooperação tecnológica, que é parte do relacionamento estratégico sino- brasileiro, também se encontra em subitem à parte no presente capítulo. 5.4.3.1. Relacionamento Comercial Brasil-China O estudo do relacionamento comercial do Brasil com a China tem por objetivo dar ao leitor a dimensão da importância daquele país asiático para o desenvolvimento econômico brasileiro na atualidade e, consequentemente, elucidar a crescente priorização que tem as relações sino-brasileiras para a política externa praticada nos âmbitos bilateral e multilateral. Após a retomada das relações com a RPC, em 1974, o pequeno fluxo de comércio entre os dois países observado até meados da década de 1990, deveu-se, em grande parte, à baixa complementariedade das estruturas produtivas do Brasil e da China, dos elevados níveis de proteção à indústria brasileira e, sobretudo, às instabilidades políticas e sociais derivadas dos movimentos finais da Revolução Cultural na China. A partir da morte de Mao Zedong (1976), a China dá início às quatro modernizações (nos setores de produção agrícola, industrial, ciência e tecnologia e militar) necessárias ao desenvolvimento da economia nacional, fato que será determinante para que o país possa iniciar uma nova estrutura econômica que seria responsável por colocá-lo, 30 anos mais tarde, na condição de locomotiva do desenvolvimento mundial. Assim, no contexto das reformas empreendidas por Deng Xiaoping, em 1979, o governo chinês inaugurou sua primeira Zona Econômica Especial (ZEE), em Shenzhen, voltada a permitir a instalação de investimentos estrangeiros sob a condição de joint ventures com empresas estatais chinesas. Nos anos seguintes, seriam instaladas mais 4 ZEEs, que tinham o objetivo de dinamizar o crescimento industrial chinês e permitir ao país atrair novas tecnologias sem ir de encontro com o sistema socialista vigente. De acordo com Oliveira (2012, p. 131-132): A estratégia de desenvolvimento costeiro provocou a emergência da Grande Economia Chinesa, abrangendo China, Taiwan e Hong Kong. Hong Kong servia como um centro informativo, comercial e financeiro, por intermédio do qual as províncias do Sul da China tornaram-se altamente integradas com as economias de crescimento rápido do Leste Asiático. [...] Ainda que o processo de abertura tivesse sido iniciado em 1978, ele só obteve apoio consensual em 1992, quando foram removidas as oposições e igualmente se obteve apoio dos governadores das províncias costeiras. Assim, foi somente após esta data (1992) que o processo de desenvolvimento chinês começou a adquirir maior consistência, processo que foi consolidado após a acessão da RPC à OMC em 11 de dezembro de 2001. O primeiro Acordo Comercial entre o Brasil e a China foi assinado em janeiro 197817, mas somente a partir da década de 1990, as relações comerciais entre os dois países adquiriram densidade. O referido acordo, que se encontra vigente, e cujo texto contém apenas 11 artigos, prevê, no artigo 2º, que os dois países concederão “reciprocamente tratamento da nação mais favorecida, não inferior ao que cada uma delas concedeu ou venha a conceder a terceiro país, em relação aos licenciamentos, direitos aduaneiros e demais taxas e impostos de importação e exportação das mercadorias, bem como aos regulamentos, formalidades e procedimentos aduaneiros”. Ademais, o ato internacional continha previsão do estabelecimento de uma Comissão Mista Comercial encarregada de explorar possibilidades de aumento do comércio bilateral. Durante a década de 1980, esta Comissão estimulou a troca de visitas entre representantes de empresas estatais exploradoras de recursos minerais, sobretudo petróleo. Em recente estudo relativo à parceria estratégica entre Brasil e China, HenriqueAltemani de Oliveira (2012) traz inúmeros dados numéricos sobre o relacionamento comercial entre os dois países. Por meio da análise dos dados apresentados pelo eminente professor, os quais são acrescidos de gráficos elaborados pelo autor desta obra a partir de outras fontes, buscar-se- á traçar a evolução do relacionamento comercial e do fluxo de investimentos entre Brasil e China. Assim, a partir da análise do volume total de exportações brasileiras, por fator agregado, durante a década de 1980, percebe-se que o mercado chinês importava do Brasil montante quase três vezes superior de produtos manufaturados (média de 60%) em relação aos produtos primários (média de 18%), sendo os produtos siderúrgicos os principais itens da pauta exportadora. Naquela década, o Japão e a Coreia do Sul eram os principais importadores asiáticos da produção brasileira de insumos, commodities e produtos primários. Nos anos 80, o principal item importado pelo Brasil da China era o petróleo, contudo, já no final da década, o incremento da produção industrial chinesa reduzia tanto o excedente exportável de petróleo quanto a necessidade de importação de itens siderúrgicos, os quais o país asiático passava a produzir internamente. Na década de 1990, a despeito do início da Parceria Estratégica com a China, em 1993 - que será detalhada mais adiante neste livro -, o comércio entre os dois países manteve-se em volumes estáveis. Os anos 90 podem ser, de modo geral, marcados pela redução do comércio com o Japão e pelo estabelecimento de incipientes relações de comércio com os Tigres Asiáticos. Se a eclosão da Crise Asiática de 1997 contribuiu para esta redução no intercâmbio comercial, há que se apontar, igualmente, que se encontrava em gestação uma nova dinâmica das relações com a Ásia. Na China, as mudanças no modo de produção e a consolidação do modelo das ZEEs trouxeram maior conteúdo tecnológico agregado aos produtos exportados e, a partir dos anos 2000, quando o crescimento chinês a taxas superiores a dois dígitos começa a impactar na estrutura e na hierarquia do comércio internacional, verifica-se a definitiva priorização do relacionamento sino-brasileiro. Os dados a seguir apontam que, em apenas uma década, as exportações brasileiras para a China cresceram de forma vertiginosa: enquanto no ano 2000 a Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC) registrava um volume exportado de USD 1,085 bilhão, em 2011, esse valor já superava os USD 44 bilhões. Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Secretaria de Comércio Exterior. Dados atualizados até janeiro de 2014. Nota sobre o gráfico: 1. A categoria de “bens especiais” possui valores ínfimos quando comparados aos bens primários e industrializados e, por isso, este dado tornou-se invisível no presente gráfico, por restrições de tamanho. 2. A categoria de bens industrializados contempla os itens semi- industrializados, em geral vendidos em medidas cúbicas ou de peso, como a produção de chapas metálicas, por exemplo, e o de bens de industrializados acabados, geralmente contabilizados por unidade. No mesmo período, é importante registrar que, em 2009, devido aos efeitos sobre os principais mercados importadores do Brasil da crise financeira internacional iniciada no ano anterior, a China superou os EUA como principal parceiro comercial do País em volume transacionado, e a Ásia superou a União Europeia como principal destino regional das exportações brasileiras. No entanto, é possível observar na análise daquele gráfico que, a partir de 2003, e de forma cada vez mais acentuada, a participação das commodities e dos insumos na exportação brasileira para a China marcam uma tendência de redução do valor agregado da produção brasileira e de perda de competitividade da indústria nacional. Este fato, aliado à análise da evolução da Balança Comercial Brasileira demonstrada abaixo, revela, ainda, que os superávits obtidos a partir de 2009 foram fruto da exportação de bens primários, o que tornou a recuperação da economia brasileira no contexto posterior à crise de 2008 dependente da manutenção da demanda de insumos pela China e não da maior participação dos bens industrializados brasileiros nos mercados exteriores. Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Secretaria de Comércio Exterior. Dados atualizados até janeiro de 2014. Poder-se-ia questionar, então, se as importações de produtos chineses são, igualmente, centradas em itens de baixo valor agregado. A respeito, ao analisar-se, a seguir, a relação dos principais produtos da China adquiridos pelo Brasil torna-se evidente a assimetria do conteúdo tecnológico: enquanto o Brasil exportou soja (em grãos e em óleo), minérios, petróleo e solventes, importou televisores, aparelhos celulares, computadores, aparelhos de ar condicionado e até mesmo turbinas. Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Secretaria de Comércio Exterior. Dados atualizados até janeiro de 2014. No supracitado estudo de Oliveira (2012), o autor aponta análises de estudos do BNDES que conferem a esta assimetria a capacidade de a China fornecer ao Brasil itens necessários à modernização do parque industrial brasileiro. Ademais, os produtos industrializados constantes da relação acima não seriam aqueles nos quais o Brasil se demonstrasse mais competitivo, tais como a produção de calçados, bebidas, couros, metalurgia, papel e celulose. Haveria, portanto, uma complementariedade produtiva entre Brasil e China? Do ponto de vista do autor desta obra, esta complementariedade é mais uma “janela de oportunidades” a se concretizar no futuro do que um fato em si. Ou seja, para que o Brasil possa aproveitar a assimetria tecnológica do comércio com a China para promover sua maior eficiência produtiva, faz-se necessária a adoção de um conjunto de reformas administrativas e legislativas no País a fim de reduzir a burocracia, racionalizar a carga tributária e conferir ao empreendedor maior segurança na rentabilidade de seu investimento. No momento atual, o que se tem presente é a deterioração dos saldos do Balanço de Transações Correntes em decorrência do desempenho deficitário de uma de suas subcontas componentes, a Balança Comercial, a qual se mostra demasiadamente dependente do valor internacional das commodities, cujo principal consumidor é, justamente, a China. Fonte: Fundo Monetário Internacional, World Economic Outlook Database, outubro de 2013. Nota sobre o gráfico: O “Balanço de Transações Correntes” (BTC) inclui todos os montantes relativos aos fluxos de importações, exportações e ingresso/saída de renda. Excetua-se, portanto, todos os montantes relativos aos fluxos financeiros e de capital. A análise contida no parágrafo anterior não deve levar o leitor ao entendimento de que o relacionamento comercial Brasil-China seja maléfico ao país; muito pelo contrário, ele é essencial para a economia brasileira18. No entanto, o aproveitamento das oportunidades por ele abertas necessita da decisiva atuação estatal para que se torne mais que uma “janela”, um fato consumado. Assim, iniciativas como o Programa de Incentivo à Inovação Tecnológica e Adensamento da Cadeia Produtiva de Veículos Automotores (Inovar-Auto)19, os estímulos fiscais à produção de tablets e smartphones, bem como o Programa Ciência sem Fronteiras, são exemplos de medidas que vêm sendo tomadas pelo Governo brasileiro, em suas diferentes esferas, para incrementar, no médio e longo prazos, o conteúdo tecnológico da produção e das exportações do País. Tais iniciativas são complementadas, desde 2004, pelo estímulo ao relacionamento entre empresários de ambos os países por meio do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), que tem autonomia e isenção em relação ao entes estatais e atua como uma associação de empresas. Seu principal objetivo é aperfeiçoar o ambiente de comércio e investimento entre os países, por meio da representação de seus interesses de forma coordenada junto aos governos do Brasil e da China. 5.4.3.2.Relacionamento Político e Estratégico Brasil-China A despeito do baixo fluxo comercial entre Brasil e China até o final da década de 1980, o período pós-1974 revela ampla convergência entre os dois países nos principais itens da agenda internacional. O caráter multilateral da parceria sino-brasileira era visível nos organismos internacionais e motivou as visitas presidenciais de Figueiredo (1984) e Sarney (1988) a Pequim e do Primeiro-Ministro Zhao Zyiang (1985) a Brasília, além de outros diversos encontros em níveis de chanceleres. De acordo com Oswaldo Biato Jr. (2010, p. 47), a convergência política entre os dois países foi medida pelo Itamaraty em 1985, quando realizado estudo comparativo, o qual apontou que, em 94,5% das votações durante a XL Assembleia-Geral da ONU, Brasil e China adotaram posições idênticas. Tal convergência deixava claro que a China objetivava romper de vez seu isolacionismo típico dos anos da Revolução Cultural e buscava produzir mudanças na conjuntura internacional que lhe permitissem relacionar-se sem subordinação perante as potências ocidentais. Ressalta-se que o final da administração de George Bush nos EUA e o início do governo de Bill Clinton haviam sido marcados pela redução drástica no nível de importância conferida por Washington ao relacionamento sino-americano: com o final da Guerra Fria desaparecera a lógica de contenção da influência soviética sobre a China. Diante das lutas políticas internas na China entre conservadores e progressistas, era imperioso para o governo chinês garantir o êxito de seu processo de crescimento e, ao mesmo tempo, evitar que eventual deterioração da conjuntura econômica levasse a rompimentos drásticos na estrutura do Estado, como ocorrera com a ex-URSS. Assim, a diplomacia chinesa voltou sua atuação para o aprofundamento das relações com a América Latina e com a África, regiões nas quais os EUA e os países europeus detinham tradicionais laços políticos e econômicos. Nesse contexto, em 1993, o Governo chinês empreende intenso movimento diplomático junto ao Brasil. Em março, durante visita do chanceler Qian Qichen, os discursos oficiais falavam em elevar o relacionamento bilateral a um “novo patamar”. Dois meses depois, em maio, o Vice-Primeiro-Ministro Zhu Rongji lança em seu discurso o conceito de “parceria estratégica”, que é oficializado nos acordos firmados no Brasil, em novembro, pelo Presidente da China, Jiang Zemin. A propósito é emblemático o fato de ser esta a primeira visita ao exterior daquele Presidente e a primeira “parceria estratégica” firmada pela China. O conceito em si é vago em sua origem, mas dentro dele cabem iniciativas em diversas áreas voltadas a demonstrar às grandes potências que a China detinha meios próprios de alcançar mercados consumidores para seus produtos e fontes de matérias-primas e insumos para sua acelerada industrialização. Conforme destaca Osvaldo Biato Júnior (2010, p. 72): O Brasil foi, assim, o primeiro país a ser reconhecido pela China (em 1993) como um “Parceiro Estratégico”, antes da Rússia (1996), país com o qual a China mantinha ainda posição ambivalente no início dos anos noventa, da França (1997), cujas relações com a China só se consolidaram tardiamente, devido a sua insistência em vender armas a Taiwan, ou da Alemanha que não se sentia à vontade com o termo. [...] se é verdade que os relacionamentos China-Rússia e China-Alemanha foram mais densos e operativos que o sino- brasileiro, dada a vizinhança e maior densidade dos vínculos militares (caso da Rússia) ou do excepcionalmente dinâmico comércio e absorção de tecnologia (caso da Alemanha), “nada tira o mérito de o Brasil ter sido o primeiro país a ser considerado um Parceiro Estratégico pela China”. Do lado brasileiro, o governo de Itamar Franco tinha por objetivo romper com as diretrizes ortodoxas do programa econômico liberal de Fernando Collor de Melo e garantir para o país, além de parcerias comerciais20, potenciais aliados que possibilitassem ao Brasil inserir-se de forma autônoma no cenário internacional. Para a China, além de demonstrar para os EUA que não estava isolada política ou comercialmente, a parceria abria caminho para o desenvolvimento de projetos específicos que visassem assegurar fontes de insumos e matérias-primas, sobretudo grãos e minério de ferro, que garantissem a segurança alimentar e o desenvolvimento da indústria de base chinesa. O lançamento da parceria estratégica trouxe elevadas expectativas para o empresariado brasileiro, com especial ênfase para as grandes empreiteiras que amargavam, nos anos 1990, reduções nos contratos de obras nacionais em decorrência dos ajustes econômicos relativos à implementação do Plano Real. Assim, em 1995, Fernando Henrique Cardoso realizou sua primeira viagem à China, que coincidiu por ser a primeira visita do mandatário brasileiro à Ásia com a clara determinação de expressar ao Primeiro- Ministro Jiang Zemin as principais expectativas de seu governo com a recente parceria: possibilitar que as empreiteiras brasileiras tomassem parte nos projetos chineses de construção de hidroelétricas e de infraestrutura; incrementar a pauta de exportação brasileira para a China, por meio do aumento do volume de produtos primários e da inclusão de itens da pauta de produtos manufaturados. No âmbito multilateral, os países convergiam nos assuntos relativos ao desarmamento e à não proliferação nuclear, tendo o Brasil saudado a China por sua recente adesão ao Tratado de Não Proliferação e à Convenção da ONU sobre Proscrição de Armas Químicas. Destaca-se que, nos anos 1994/95, a China opunha-se, no contexto das comemorações dos 50 anos das Nações Unidas, à proposta de reforma parcial do Conselho de Segurança, apoiada pelos EUA, a qual previa a inclusão apenas de Japão e Alemanha. Conhecida pela alcunha de quick fix, a proposta era rechaçada pela China que afirmava, à época, ser favorável a uma reforma mais abrangente, que incluísse outros países emergentes; na prática, como será visto mais adiante, a recusa chinesa era motivada pela permanente oposição à inclusão do Japão no seleto grupo de potências do CSNU. Para a chancelaria brasileira, que começava a reativar suas alianças com vistas à postulação de assento permanente no Conselho, a posição chinesa era tida como objeto de convergência política com o Brasil, ainda que a China não tivesse manifestado seu apoio oficial à inclusão do Brasil no CSNU. Dominados por certo clima de euforia, talvez motivado pelo baixo conhecimento do ambiente de negócios na China, país que desenvolvia rápidas mudanças institucionais e econômicas na década de 1990, o empresariado brasileiro optou por apostar na realização de vultosos empreendimentos no setor de construção civil daquele país. Assim, as empreiteiras Andrade Gutiérrez, Mendes Júnior e CBPO instalaram-se formalmente em Pequim e constituíram consórcio destinado a participar do processo licitatório relativo à construção da Usina Hidroelétrica de Três Gargantas, o qual ficou conhecido como “Three Gorges Brazilian Joint Venture” (TGB) (Biato Junior, 2010, p. 84). Recorde-se que, desde o final dos anos 1970, técnicos chineses mantinham entendimentos juntos a seus pares brasileiros quanto ao processo de construção da Usina de Itaipu, o que levava o governo brasileiro a acreditar que a confiança desenvolvida entre os meios burocráticos dos dois países servisse para alavancar as possibilidades de o Brasil vir a ser selecionado para participar de forma individual, ou por meio de participação majoritária, na obra de Três Gargantas. Entretanto, ao longo de 1995, tornou-se evidente a decepção do consórcio brasileiro com os rumos do projeto de construção da usina hidroelétrica: primeiro, foram as empresas brasileiras chamadas, de forma individual, a participarem de apoios pontuais no processo de preparação dos editais de licitação; segundo, os chineses reservaram exclusivamente às suas empresas nacionais a realização das obras, sendo os estrangeiros requeridos apenas episodicamente para transferênciade tecnologias ainda não dominadas. Em meio à decepção do empresariado nacional quanto às possibilidades imediatas que a parceria estratégica poderia representar, restava o entendimento de que a abertura comercial da China na década de 1990, em grande parte restrita à constituição das ZEEs nas cidades costeiras, não abria espaço para o investimento estrangeiro que não fosse exclusivamente voltado ao aumento das exportações. A parceria estratégica recém- inaugurada restaria, portanto, circunscrita ao exitoso programa de desenvolvimento do China-Brazil Earth Resources Satellite (CBERS), que será estudado mais adiante neste capítulo, e ao aumento das exportações de matérias-primas, sobretudo de origem vegetal, e insumos para o mercado chinês. Exceção desse período foi o acordo firmado, em dezembro de 2002, para o estabelecimento de uma joint-venture entre a Embraer e a China Aviation Industry Corporation II (AVIC II), que resultou na criação da Harbin Embraer Aircraft Industry Co. Ltd. (HEAI)21. Esta parceria no setor de aviação foi essencial para a China por permitir maior integração entre as cidades costeiras de maior desenvolvimento industrial e destas com regiões do interior do país sem que o país tivesse que recorrer à maciça compra de aeronaves nos mercados externos. Para o Brasil, a formação da joint-venture foi a maneira encontrada de acessar o mercado interno chinês e garantir prioridade no fornecimento de aviões para as empresas aéreas daquele país. Outros desentendimentos de âmbito multilateral devem ser somados à frustração com a parceria estratégica. No âmbito dos Direitos Humanos, o Brasil abandonou, na segunda metade dos anos 1990, sua postura de abstenção em relação às violações de direitos humanos perpetradas por países governados por regimes não democráticos e, no que tange ao comércio, o setor têxtil brasileiro, pressionado pela “invasão” dos itens de vestuário Made in China levaram o País a ingressar com medidas antidumping e salvaguardas no âmbito dos acordos da OMC. Ao longo do segundo mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso, as opções de política externa voltaram-se ao fortalecimento da integração regional e da busca por acordos de comércio nos âmbitos hemisférico (negociações para conformação da Área de Livre-Comércio das Américas - ALCA) e inter-regionais (proposta do Acordo Mercosul-União Europeia). Embora a busca por novos parceiros na Ásia tenha levado o Brasil a implementar, em 1999, o Focalal, como visto anteriormente, o relacionamento sino-brasileiro manteve-se restrito às bases anteriores ao estabelecimento da parceria. Tal situação somente seria alterada com a política externa proposta pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a qual estabeleceu a cooperação Sul- Sul como o mecanismo adequado para promover as mudanças no sistema internacional necessárias à elevação da participação brasileira nos foros multilaterais. Já no ano de 2003, como efeito imediato daquela política, verifica-se a formação do Fórum IBAS e a articulação dos países em desenvolvimento e emergentes em torno do G-20 comercial, capitaneado por Brasil e Índia. Nesse contexto, o Presidente Lula realizou sua primeira viagem a Pequim no início do ano de 2004, quando se celebrava os 30 anos do reatamento das relações bilaterais e a ascensão da China à condição de terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas dos Estados Unidos e da Argentina. A delegação presidencial foi integrada por cerca de 400 empresários (GARCIA, 2005, p. 282) que, diferentemente dos anos 1990, buscavam atrair investimentos das empresas chinesas para o Brasil, tendo em conta as vultosas somas de recursos em moedas fortes que dispunham para novos empreendimentos, fruto dos sucessivos superávits comerciais obtidos pela China após a Crise Asiática de 1997. Por parte dos negociadores brasileiros, havia uma percepção mais madura quanto às possibilidades de comércio e investimento com o seu terceiro maior parceiro comercial. Assim, buscava-se direcionar a parceria sino-brasileira para o apoio chinês aos investimentos em infraestrutura e no desenvolvimento da produção mineral que se buscava incrementar no país: em ambos os setores, a China teria interesse em atuar como parceiro do Brasil, pois a melhoria da infraestrutura brasileira tenderia a beneficiar as exportações para aquele país, e ter o Brasil como fonte supridora de matérias-primas era justamente um dos objetivos originais do governo chinês ao firmar a parceria estratégica em 1993. A visita resultou, ainda, na assinatura de acordo entre a Petrobras e a petrolífera estatal chinesa (Sinopec) para a realização de empreendimentos conjuntos em terceiros países, além de acordo entre a Companhia Vale do Rio Doce e empresas chinesas do setor de exploração mineral. A visita originou, ainda, o estabelecimento do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). A fim de promover maior coordenação de esforços e permitir o acompanhamento dos diversos temas tratados no contexto da parceria estratégica, foi firmado Memorando de Entendimento relativo ao estabelecimento da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Coordenação e Concertação (Cosban)22, cujo primeiro encontro teve lugar em Pequim, no ano de 2006. Nos dias atuais, a Cosban é um dos principais foros bilaterais de concertação política que permite às chancelarias de ambos os países coordenar suas posições previamente aos debates nas instâncias multilaterais. Durante a visita de Lula (2004), no entanto, nem todos os temas tratados alcançaram o desejado nível de avanço ou foram objeto de consenso e convergência política. Naquela época, encontrava-se em discussão, no âmbito da ONU, os trabalhos realizados pelo “Painel de Alto Nível sobre Ameaças, Desafios e Mudanças”, cuja expectativa era a de que suas conclusões, a ser divulgadas no final de 2004, apontassem para a necessidade de realização de reforma abrangente do Conselho de Segurança que previsse a inclusão de Brasil, Índia, Alemanha e Japão - os quais viriam a constituir, no ano seguinte, o G-4. Havia, por parte do Brasil, elevada expectativa de que a visita de Lula a Pequim resultasse na manifestação oficial do governo chinês quanto à adesão do Brasil a uma das cadeiras permanentes no CSNU, tal como já havia sido manifestado pelos governos inglês, francês e russo. Em contrapartida, o Itamaraty vinha sendo questionado pelos representantes chineses quanto à possível concessão do status de “economia de mercado” à China. O reconhecimento da China como “economia de mercado”, ao invés de “economia em transição”, tem importantes implicações nos parâmetros adotados pela OMC para permitir a adoção de medidas antidumping e salvaguardas, as quais o governo brasileiro regularmente recorria a fim de proteger os produtores nacionais de calçados, têxteis e brinquedos, por exemplo. Ao buscar o reconhecimento por parte do Brasil, a China esperava fazer com que os demais países sul- americanos concedessem o mesmo status ao país. Quanto ao Conselho de Segurança, embora o G-4 ainda não existisse oficialmente por ocasião da visita de Lula, a China era irredutivelmente contra a inclusão do Japão no CSNU e, até aquele momento, a proposta de maior apoio internacional para reforma daquele mecanismo de segurança coletiva era justamente aquela que previa a criação de cadeiras permanentes para acomodar Brasil, Índia, Alemanha e Japão23. Ao final do encontro, o Presidente Hu Jintao alegou que não faria manifestação objetiva quanto ao pleito brasileiro na ONU por temer despertar suscetibilidades no relacionamento com demais parceiros americanos, como o México e a Argentina. Por outro lado, o mandatário brasileiro limitou-se a transmitir a seu parceiro “que o Brasil sempre dera especial atenção à plena inserção internacional da China” e que “estudaria com disposição positiva e expedita” a possível concessão do status de “economia de mercado” à China (BIATO JUNIOR, 2010, p. 150). Em novembro de 2004, o Presidente Hu Jintao visitou o Brasil em retribuição à viagem de Lula a Pequimsete meses antes. No contexto dos preparativos para esse encontro, a discussão sobre os apoios recíprocos quantos aos pleitos do Brasil e da China na ONU e na OMC, respectivamente, voltaram às mesa de negociações das chancelarias. A partir da determinante participação do Presidente Lula no processo decisório, acordou-se que o efetivo reconhecimento do status de economia de mercado à China poderia trazer avanços diretos em diversos outros pontos do relacionamento comercial, como a concessão de licenças para que frigoríficos brasileiros exportassem para aquele país e que a HEAI obtivesse novos contratos de fornecimento de aeronaves. Como benefícios indiretos, este avanço unilateral por parte do Brasil pressionaria a chancelaria chinesa a não se opor à discussão da proposta de reforma do Conselho de Segurança que seria formalmente apresentada para discussão no âmbito da ONU no ano seguinte. Assim, o reconhecimento brasileiro de que a China se tratava de uma “economia de mercado” consta do artigo 1º do Memorando de Entendimento Sobre Cooperação em Matéria de Comércio e Investimentos, firmado no contexto da visita do Presidente Hu Jintao ao Brasil. Uma breve análise do curto Memorando, que contém apenas sete artigos, deixa claro que a intenção da China na sua parceria estratégica com o Brasil era ter o país sul-americano como fornecedor privilegiado de produtos agrícolas e animais, estimular investimentos chineses no país para exploração de reservas de recursos minerais, e limitar o acesso a seu mercado interno em seus setores estratégicos, como os da indústria aeronáutica e da construção de infraestrutura, à prévia constituição de joint- ventures com empresas estatais chinesas. Naquela época, a China já seria um mercado essencial para as exportações brasileiras, e tal fato pesava no relacionamento bilateral a ponto de terem o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) e o próprio Presidente da República tomado posição favorável quanto ao reconhecimento da China como economia de mercado sob o risco de, futuramente, encontrar dificuldades de acesso ao mercado chinês em decorrência de barreiras não tarifárias, como a adoção de medidas fitossanitárias demasiadamente rígidas em relação às exportações brasileiras. Do ponto de vista exclusivo da política externa brasileira, a concessão daquele status comercial à China resumia o poder de barganha para obter apoio às reformas do Conselho de Segurança ao mero risco moral (moral hazard) que teria a China que enfrentar em face da recusa à proposta do G-4. A composição daquele Grupo despertava na China sérias restrições devido à presença do Japão, o qual era tido como um governo aliado dos EUA no objetivo de conter a expansão comercial e geopolítica chinesa no Leste e Sudeste da Ásia. Embora argumentos relativos às mágoas chinesas com a invasão japonesa durante a Segunda Guerra Mundial sejam aderidos ao rol de explicações para justificar a oposição chinesa ao G-4, os fatores mais relevantes à época eram a política pró-EUA desenvolvida pelo Primeiro- Ministro japonês Junichiro Koizumi e a consequente oposição das forças políticas internas na China a qualquer favorecimento ao governo nipônico. Do ponto de vista brasileiro, apesar deste cenário, o histórico tratamento do tema na ONU remetia ao apoio recebido da China, em 1995, quando este país se opôs à reforma quick fix (inclusão de Japão e Alemanha) apoiada pelos EUA, sob o argumento de que deveria o CSNU passar por reforma mais compreensiva que incluísse países em desenvolvimento. No momento atual, ainda que os avanços econômicos e institucionais chineses houvessem distanciado o país dos argumentos “desenvolvimentistas”, esperava-se que a China adotasse, no mínimo, postura de neutralidade em relação ao tema e não formasse, ao lado dos EUA, movimento de oposição à proposta do G-4. O moral harzard perante seus parceiros por bloquear as pretensões do G-4, no entanto, foi suportado pela China que chegou a cogitar apoio à proposta do Uniting for Consensus - a qual não tinha chances reais de vir a ser adotada -, caso sua ação diplomática junto aos países africanos e do Oriente Médio não surtisse o efeito esperado de diluir o apoio mínimo de dois terços necessários à aprovação da proposta do G-4 na Assembleia-Geral da ONU. Assim, em 2005, o Governo brasileiro pouco pôde fazer frente ao deliberado movimento conjunto da China e dos EUA de estimular a divisão, no âmbito da União Africana, quanto ao apoio à proposta do G-4, fato que resultou na sua retirada de pauta da Assembleia-Geral. A justificativa oficial finalmente adotada pela China quanto à proposta do G-4 foi a de que seus membros a haviam apresentado de maneira prematura, sem as devidas discussões que devem anteceder a escolha dos novos membros24. A parceria estratégica sino-brasileira chegava, em meados de 2005, ao seu momento mais crítico, que foi marcado pelo adiamento da I Primeira Reunião da Cosban, prevista para ser realizada em abril. No entanto, a maturidade política do Brasil e a percepção por parte dos chineses de que os desentendimentos no âmbito da ONU não eram de fato com o Brasil, mas sim com o “ilegítimo” pleito japonês no contexto do G-4, fizeram as chancelarias de ambos os países buscarem entendimentos e, assim, a I Reunião da Cosban foi reagendada para março de 2006; em contrapartida, a China anunciou, de forma concomitante, a autolimitação de suas exportações têxteis para o Brasil como demonstração de seu interesse de resgatar seu parceiro estratégico. Este período das relações sino-brasileiras foi resumido por Osvaldo Biato Júnior (2010, p. 185-186) da seguinte maneira: Crescera o reconhecimento de parte das lideranças políticas e econômicas brasileiras de que o futuro do relacionamento Brasil-China constituiria desafio complexo, mesclando oportunidades e desafios. Buscava-se corrigir visões simplistas sobre a China, que a viam seja como fonte de demanda inesgotável por matérias-primas e por produtos agroindustriais que “fariam a fortuna” do Brasil, seja como ameaça iminente às exportações de manufaturados brasileiros para terceiros mercados. No plano político, passou a prevalecer abordagem igualmente mais madura. Os desentendimentos em matéria de reforma do CSNU apontavam friamente para os limites à ambição brasileira de construir, com a China, uma aliança de países em desenvolvimento capazes de ajudar a redefinir a geografia do poder mundial. Nem por isso deixavam as autoridades brasileiras de continuar a enxergar na China importante aliado no fortalecimento de uma ordem multilateral, em que cabe à ONU um papel chave na resolução de disputas entre nações e na vigência do direito internacional. No ano de 2009, a China se tornou o maior parceiro comercial do Brasil, com intercâmbio de USD 36,1 bilhões, dos quais USD 20,2 corresponderam a exportações brasileiras (BARRETO, 2012, p. 415). Naquele ano, o Presidente Lula visitou novamente Pequim em meio a contexto de maior convergência nos temas econômicos multilaterais determinada pela cooperação inédita trazida pelo BRICS. Havia, ainda, ampla expectativa de que a China participasse como aliada brasileira dos esforços de exploração do petróleo na camada do pré-sal. De resultado imediato, a visita de Lula a Pequim motivou solução final por parte do governo chinês para possibilitar a venda de carne de frango àquele país, cuja discussão já perdurava havia quase cinco anos. No ano seguinte, em 2010, o Presidente Hu Jintao realizou visita ao Brasil, no âmbito de sua participação na Reunião dos Líderes do BRICS, em Brasília. Em encontro bilateral com o Presidente Lula, ambos os chefes de Estado avançaram na adoção do Plano de Ação Conjunta Brasil- China, que estabeleceu metas para o conjunto das relações bilaterais para o período 2010-2014. No ano de 2011, a Presidente Dilma Rousseff realizou sua primeira viagem à China, a qual contou, igualmente, com numerosa comitiva de empresários. Em paralelo à visita oficial, foi realizado o seminário empresarial “Brasil e China: ParaAlém da Complementaridade” e a primeira edição do “Diálogo de Alto Nível Brasil-China sobre Ciência, Tecnologia e Inovação”. Nos encontros presidenciais, foram discutidas possibilidades de investimento no Brasil em setores de infraestrutura, como o projeto de construção do trem de alta velocidade entre São Paulo e Rio de Janeiro, bem como a cooperação para realização das obras relativas aos grandes eventos esportivos (Copa do Mundo de 2014 e Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016). Em relação aos temas multilaterais, a visita da Presidente Dilma não trouxe grandes avanços, tendo resultado apenas na declaração de que a “China atribui alta importância à influência e ao papel que o Brasil, como maior país em desenvolvimento do hemisfério ocidental, tem desempenhado nos assuntos regionais e internacionais, e compreende e apoia a aspiração brasileira de vir a desempenhar papel mais proeminente nas Nações Unidas” (MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES, 2011). Em junho 2012, a parceria estratégica entre os dois países foi reafirmada durante a visita oficial do Primeiro-Ministro Wen Jiabao ao Brasil no contexto de sua participação na Conferência Rio+20. Naquela ocasião, os dois países anunciaram a elevação do relacionamento sino-brasileiro ao patamar de Parceria Estratégica Global. De acordo com o comunicado conjunto do encontro, a Presidente Dilma e o Primeiro-Ministro Wen Jiabao “assinalaram que essa decisão atesta o reconhecimento da crescente influência estratégica e global dos dois países, cuja cooperação será cada vez mais abrangente, numa conjuntura internacional marcada por mudanças profundas. Decidiram estabelecer Diálogo Estratégico Global a ser efetuado por pelo menos uma reunião anual em nível de Chancelares”. Ademais, os mandatários destacaram a importância da assinatura, naquela ocasião, do Plano Decenal de Cooperação (2012-2021), “que vem somar-se ao Plano de Ação Conjunta Brasil-China, na promoção de avanços substanciais na cooperação pragmática bilateral e no fortalecimento do conteúdo estratégico das relações sino-brasileiras”. O Plano Decenal orientará ações de cooperação nas áreas de ciência e tecnologia e inovação e cooperação espacial; energia, mineração, infraestrutura e transportes; investimentos, parcerias industriais e cooperação financeira; cooperação econômico- comercial; cooperação cultural e educacional e intercâmbio entre sociedades civis (MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES, 2012). A inclusão do termo “global” ao final da “parceria estratégica” desenvolvida entre Brasil e China remete aos esforços dos dois países na adoção de medidas capazes de mitigar os efeitos da crise econômica financeira iniciada em 2008. O novo estágio da parceria estratégica é marcado, portanto, pelo reconhecimento de que os diferentes temas da agenda bilateral devem, necessariamente, avançar em conjunto. A vertente multilateral do relacionamento entre os dois países também faz parte desta parceria, que é aprofundada, cada vez mais, por meio da concertação política buscada no âmbito do BRICS. A esse respeito, ressalta-se que, no comunicado conjunto da visita de Wen Jiabao ao Brasil fez-se menção explícita à implementação tempestiva das reformas de quotas do FMI, acordadas em 2010, bem como aos avanços na reforma da governança e do quadro de vigilância daquele Fundo. Em novembro de 2012, por ocasião do XVIII Congresso do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping foi escolhido como Presidente da China, em substituição a Hu Jintao, e Li Keqiang foi indicado para a Chefia de Governo, na condição de Primeiro-Ministro, em substituição a Wen Jiabao. Ambos os governantes iniciam, na história recente da China comunista, a quinta geração de líderes. Esta nova geração deverá promover ao longo de sua gestão reformas voltadas a permitir efetivos avanços na abertura política e comercial do país, com ênfase para a flexibilização da conta de capitais, a fim de permitir o aumento dos investimentos estrangeiros no país, e para reformas nos setores agrícola e de serviços. A modernização do interior chinês deverá vir acompanhada do aumento do mercado consumidor interno e da adoção de reformas de cunho político, tidas como essenciais para permitir a estabilidade política do pais, hoje mantida pelo Partido Comunista Chinês mediante nível de repressão cada vez menos tolerado por uma população cada vez mais conectada pelas novas tecnologias. De acordo com Clodoaldo Hugueney Filho (FILHO, 2013), no que tange às relações internacionais, A China foi sendo cada vez mais chamada a assumir novas responsabilidades e embora ainda haja uma corrente que defenda o não envolvimento e o status quo, passou a ganhar força uma corrente mais internacionalista com duas vertentes básicas: a do multilateralismo e a do expansionismo. No primeiro campo estão aqueles que defendem que a multipolaridade entrou na ordem do dia e que a China deve reforçar uma melhor repartição do poder mundial e a construção de um novo multilateralismo. [...] Há aqueles que defendem que a China junto com os demais emergentes deveria aumentar sua voz e seu voto e definir responsabilidades de acordo com seus interesses. Outros pensam que sendo a atual ordem construída de acordo com os interesses do ocidente e não interessando à China desafiá-la o melhor é aceitar, dentro de limites que não conflitem com o desenvolvimento chinês ou com seus interesses estratégicos, responsabilidades que lhe são atribuídas. A partir de 2013, portanto, tem início uma nova gestão do governo chinês, a qual caberá dinamizar suas relações com o Brasil no contexto de uma parceria estratégica que ainda é limitada pela assimetria de um comércio bilateral marcado pela importação chinesa quase exclusiva de commodities e itens primários, assim como pelo caráter seletivo em relação ao apoio aos países emergentes na busca por uma posição de maior relevo nos organismos internacionais. As condições para uma efetiva mudança na rígida postura chinesa parecem ser favoráveis e, a respeito, destaca-se que já há alguns anos a China tem se tornado um dos principais investidores no País. A respeito, destaca-se a realização, em outubro de 2013, de leilão para concessão de áreas de exploração de petróleo na camada do pré-sal, cujo consórcio vencedor conta com 20% de participação das empresas petrolíferas chinesas China National Petroleum Corporation (CNPC) e China National Offshore Oil Corporation (CNOOC), as quais vem se somar à Sinopec e à Sinochem, que já atuam na exploração de outros poços na camada pós-sal. Em novembro de 2013, teve lugar em Pequim a III Reunião da Cosban, sendo este o primeiro encontro entre autoridades brasileiras e membros da nova administração chinesa, durante o qual foram analisados os avanços já alcançados pelos diferentes subcomitês de trabalho, os quais têm suas ações guiadas, desde 2012, pelo Plano Decenal de Cooperação (2012-2021). A delegação brasileira foi chefiada pelo Vice-Presidente Michel Temer que, na sequência da Cosban, participou da abertura, em 5 de novembro, do Fórum para a Cooperação Econômica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, em Macau, região que ficou sob domínio de Portugal durante mais de 400 anos. O novo fórum reunirá representantes de Angola, Cabo Verde, da Guiné-Bissau, de Moçambique, Timor-Leste e Portugal. 5.4.3.3. Cooperação Científica e Tecnológica Brasil-China Exemplo emblemático dessa cooperação Sul-Sul é a parceria sino-brasileira para construção do China-Brazil Earth Resources Satellite (CBERS), a qual demonstra a busca de ambos os países pela autonomia tecnológica em setores sensíveis ao desenvolvimento e à segurança nacional. Desde 1979, com o início das reformas econômicas e a maior abertura internacional empreendida pelo governo de Deng Xiaoping, a China iniciou esforços em prol do desenvolvimento científico e tecnológico de sua indústria. Para a China, não bastava atrair plantas industriais ocidentais ou montadoras de produtos cuja tecnologia fosse gerada em outros países: a transferência de tecnologia para a Chinaera condição essencial dos projetos de desenvolvimento acordados por aquele país com os demais parceiros internacionais. Ao mesmo tempo, no Brasil, os avanços no parque industrial alcançados desde os anos 1950 permitiam ao país dominar tecnologias de ponta, como aquelas relativas às áreas nuclear, aeronáutica e espacial. Este momento do desenvolvimento tecnológico brasileiro tem como marco o programa de satélites da Missão Espacial Completa Brasileira (MECB) vigente nos anos 1980. A origem do satélite binacional de sensoriamento remoto encontra-se na primeira reunião da Comissão Mista Brasil-China, realizada em março de 1980. A partir daquele encontro, houve intercâmbio em nível técnico entre os dois países, representados, do lado brasileiro, pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e, pelo lado chinês, pela Academia Chinesa de Tecnologia Espacial (CAST, na sigla em inglês). Em agosto de 1988, foi assinado o acordo entre os dois países para a produção de dois satélites de sensoriamento remoto, cuja finalidade seria permitir o mapeamento e a observação dos recursos naturais disponíveis na superfície. As imagens geradas pelas diferentes câmeras e sensores servem para trabalhos de zoneamento agrícola e ambiental, medição dos níveis de degradação do meio ambiente, análise de mudanças climáticas, bem como para inúmeros trabalhos cartográficos e de georeferenciamento. Após dez anos de estudos e desenvolvimento do projeto, o CBERS-1 foi lançado em outubro de 1999, a partir da base de Taiyaun, na China, e o CBERS-2 chegou ao espaço quatro anos mais tarde, em outubro de 2003. De acordo com dados oficiais do INPE, o projeto original do CBERS consumiu investimento superior a US$ 300 milhões, baseado inicialmente em sistema de responsabilidades divididas (30% brasileiro e 70% chinês), e permitiu romper os padrões que restringiam os acordos internacionais à transferência de tecnologia e o intercâmbio entre pesquisadores de nacionalidades diferentes. Tendo em conta a vida útil daqueles satélites e a importância dos trabalhos desenvolvidos a partir das imagens por eles geradas, em 2002 foi assinado acordo para a continuação do programa com a construção de dois novos satélites - CBERS-3 e 4 - dotados de novas tecnologias e funcionalidades. Adotou-se naquele acordo nova divisão de investimentos de recursos entre o Brasil e a China: 50% para cada país. Porém, em função de o lançamento do CBERS-3 ser viável apenas para um horizonte em que o CBERS-2 já tivesse deixado de funcionar, com prejuízo para ambos os países e para os inúmeros usuários do CBERS, o Brasil e a China, em 2004, decidiram construir o CBERS-2B que, com as mesmas características dos anteriores, foi lançado ao espaço em 2007 e esteve em operação até o começo de 2010. Em setembro de 2013, o INPE anunciou a conclusão do processo de revisão final do projeto do CBERS-3, que teve seu lançamento agendado para ocorrer em dezembro daquele ano, a partir da base de Taiyuan. Malgrado o efetivo esforço de brasileiros e chineses para o cumprimento dos prazos, o lançamento em 9 de dezembro de 2013, por meio do foguete chinês Longa Marcha 4B, fracassou já no estágio de colocação do satélite em órbita, resultando em sua desintegração no espaço. O projeto de cooperação, contudo, não está paralisado e, em seguida ao reconhecimento do fracasso com o lançamento do satélite CBERS-3, autoridades dos dois países adiantaram-se em anunciar que tomarão medidas a fim de adiantar a preparação do CBERS-4 e seu lançamento. Além da cooperação na área espacial, outros temas do desenvolvimento tecnológico têm sido desenvolvidos entre os dois países. A respeito, destaca- se que na mais recente visita da Presidente Dilma Rousseff a Pequim, em 2011, foram firmados dois Memorandos de Entendimento entre os Ministérios de Ciência e Tecnologia do Brasil e da China relativos ao estabelecimento do Centro Brasil-China de Pesquisa e Inovação em Nanotecnologia e à cooperação bilateral para o desenvolvimento da produção e uso do bambu. Destaca-se, ainda, a existência, desde 2008, do Subcomitê de Ciência, Tecnologia e Inovação, no âmbito do Comitê de Alto Nível Brasil-China de Coordenação e Concertação (Cosban). No mais recente encontro da Cosban, realizado em novembro de 2013, representantes de ambos os países junto ao referido subcomitê ressaltaram, na ata final do encontro, os recentes avanços na cooperação sino-brasileira em ciência e tecnologia, os quais podem ser assim resumidos: estabelecimento do “Centro Brasil-China de Nanotecnologia e Inovação”, resultado do “Diálogo de Alto Nível” realizado em abril de 2011 em Pequim; instalação do “Laboratório Virtual” da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (LABEX-EMBRAPA) na China e do congênere chinês da “Academia Chinesa de Ciências Agrárias” (CAAS), no Brasil; a instituição de Centro binacional de pesquisa e desenvolvimento de satélites metereológicos; criação do “Centro Brasil- China de Biotecnologia”; e a realização dos trabalhos do “Centro China- Brasil de Mudanças Climáticas e Tecnologias Inovadoras para Energia”, resultado da parceria entre a Universidade de Tsinghua e a Coordenação de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE-UFRJ). Antes de encerrar este breve estudo sobre as relações Brasil-China, vale recordar que, ao contrário do que o senso comum levaria a pensar, no âmbito do Programa Ciência sem Fronteiras, a China não era, até o final de 2013, o principal provedor asiático de oportunidades de estudo, mas sim a Coreia do Sul. Embora o maior engajamento da China com o programa brasileiro tenha sido objeto das conversas entre a Presidente Dilma e o Primeiro-Ministro Wen Jiabao no encontro que mantiveram em 2012, durante o qual a parte chinesa ofereceu, anualmente, 200 bolsas de estudo do governo chinês, a Coreia continua sendo o principal provedor, com a oferta atual de mais de 300 oportunidades para estudantes estrangeiros, sobretudo na área de engenharia. 5.4.4. Relações Brasil-Índia “Meu querido Primeiro-Ministro Singh, Brasil e Índia são duas grandes potências no mundo em desenvolvimento, com muitos interesses em comum e afinidades em suas visões sobre os grandes problemas atuais. [...] Nossa coincidência de posições se expressa na parceria que construímos, com vistas à necessária atualização das Nações Unidas. Temos reiterado que nenhuma reforma da ONU estará completa sem uma ampliação do Conselho de Segurança que inclua países em desenvolvimento como membros permanentes. Brasil e Índia também estão lado a lado nas negociações na OMC. Nossa atuação conjunta na criação do G-20 modificou a dinâmica das negociações comerciais e consolidou os países em desenvolvimento como interlocutores indispensáveis para a Rodada de Doha. Passamos a falar de igual para igual com os países ricos.” (Discurso do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cerimônia de assinatura de atos internacionais, por ocasião da visita do Primeiro-Ministro da Índia Manmohan Singh - Palácio do Alvorada - Brasília -, em 12 de setembro de 2006) Nos dias atuais, Brasil e Índia chamam a atenção dos analistas internacionais devido às inúmeras possibilidades de crescimento econômico que oferecem, além dos movimentos de convergência política que realizam no cenário internacional. Juntos, os dois países cooperam em bases bilaterais e multilaterais com atores diversos em prol das reformas nos principais sistemas de comércio e de segurança internacional. Nesse sentido, é inegável a contribuição que promovem na condição de países membros do G-20 comercial25 e de partes do G-4, este último grupo não institucionalizado composto ainda por Alemanha e Japão, cujo objetivo é a reforma do Conselho de Segurança da ONU por meio da inclusão de novos membros permanentes. Esta cooperação é fortalecida no âmbito do IBAS e do BRICS, cujos integrantes são hoje interlocutores essenciais nos foros de discussão sobre economia internacional.A convergência política, porém, é algo de certo modo recente no relacionamento indo-brasileiro, sendo a década de 1990 o momento inicial de formação dos primeiros mecanismos sobre os quais se desenvolveu a atual cooperação. Para melhor apresentação dos aspectos principais do relacionamento entre os dois países, optou-se por dividir o conteúdo desta parte do livro em três momentos cronológicos: o contexto pós-Segunda Guerra Mundial; os anos pós-Guerra Fria; e a acentuada convergência a partir dos anos 2000. Ressalta-se que esta divisão cronológica é adotada originalmente por Maíra Baé Baladão Vieira (2009) em obra na qual analisa detalhadamente as várias facetas do relacionamento entre Brasil e Índia. 5.4.4.1. Brasil e Índia nos anos da Guerra Fria Em agosto de 1947, a Índia conquista sua independência da Inglaterra e emerge como a maior democracia do mundo em número de habitantes, sendo sua população de cerca de 1 bilhão de pessoas, predominantemente rural (70%). Tendo Jawarharlal Nehru como Primeiro-Ministro (1947-1964), o país adota como estratégia de desenvolvimento econômico o modelo de industrialização por substituição de importações, cuja estrutura principal será mantida até o final da Guerra Fria, a despeito dos processos pontuais de desregulamentação comercial realizados na década de 1970 em virtude da crise do Petróleo. No campo político, a Índia se destaca, a partir de 1961, como um dos líderes do Movimento dos Não Alinhados (MNA), com Egito e Iugoslávia, países com os quais se empenha em ampliar o debate Norte- Sul, que envolvia questões relativas ao desenvolvimento econômico e social do “Terceiro Mundo”, em um momento histórico no qual as ameaças do conflito Leste-Oeste dominavam as Relações Internacionais. A despeito da promoção de uma postura de neutralidade, o governo indiano mostrava-se potencialmente dependente de suas relações com a União Soviética (URSS), com a qual realizava importante permuta, em bases não comerciais, de petróleo por bens manufaturados. A parceria com os soviéticos era essencial para a Índia sobretudo no campo da segurança regional: tendo em conta as disputas territoriais com o Paquistão pela região da Cachemira, a Índia tinha na cooperação com a URSS importante acesso à tecnologia nuclear que possibilitava contrapor-se ao apoio prestado pela China e pelos Estados Unidos ao governo paquistanês. Nos primeiros anos da Guerra Fria, a estrutura do sistema internacional não se mostrava, portanto, favorável à aproximação da Índia com o Brasil, cujo governo buscava, ainda que de forma por vezes frustrada, obter ganhos econômicos e políticos por meio de um relacionamento próximo dos EUA. Logo após a independência indiana, ainda em 1947, a Índia designa embaixador junto ao Brasil e, no ano seguinte, inaugura, no Rio de Janeiro, a primeira representação diplomática na América do Sul. Em retribuição, o governo brasileiro instala legação junto à Nova Délhi. Os anos que sucederam a troca das representações diplomáticas, porém, foram marcados pelo distanciamento entre os dois países devido ao apoio brasileiro à manutenção, por parte de Portugal, das “províncias ultramarinas” de Goa, Diu e Damão, localizados na costa oeste do território indiano. O motivo que levou Portugal a estender ao máximo o domínio sobre aquelas regiões foi o receio de que ao alcançarem sua plena autonomia e integração à Índia poderiam servir de exemplo a fortalecer movimentos independentistas na África, onde se encontravam a maior parte das colônias portuguesas. Soma- se, ainda, o fato de que naquelas regiões havia amplas jazidas de ferro e manganês. Brasil e Portugal haviam firmado, em novembro 1953, o Tratado de Amizade e Consulta, que tinha por objetivo fortalecer o diálogo político bilateral e que servia ao governo de Lisboa, na prática, para buscar o apoio brasileiro à manutenção das colônias na África e na Ásia, diante dos diversos movimentos de independência originados na década de 1950. Após o rompimento de relações diplomáticas entre Índia e Portugal, em 1955, a legação brasileira passou a representar os interesses portugueses junto à Índia, situação que perdurou até 1961, quando o governo de Nova Délhi invadiu militarmente aquelas regiões e pôs fim ao domínio lusitano. A respeito deste período das relações indo-brasileiras, Maíra Vieira (2009, p. 45) destaca que: Mais uma vez se ressalta que, apesar de o episódio não haver sido publicamente mencionado nestes últimos quarenta anos, certamente ainda é lembrado pelos indianos que até pouco tempo atrás, e com razão, mantinham em sua memória a imagem de um Brasil subserviente, fato salientado pelo sociólogo Mello e Souza: “O Brasil, para o intelectual hindu médio, é um exemplo de dependência neocolonial, sem passado exemplar, sem literatura consagrada, sem produção autônoma porque sem tecnologia própria”. O relacionamento entre Brasil e Índia, estremecido pelo apoio brasileiro a Portugal e por incidente de menor vulto relativo à proibição de importação de material genético bovino indiano, seria normalizado somente a partir de 1968, quando a Primeira-Ministra Indira Gandhi visita o Brasil, no contexto de viagem a outros nove países sul-americanos. Percebe-se, no entanto, que, durante os anos da Guerra Fria, o relacionamento indo-brasileiro gerou mais resultados no plano multilateral do que nas relações bilaterais. A participação do Brasil no MNA, embora na condição de espectador, contribuiu para legitimar os esforços daquele grupo como instância voltada às discussões Norte-Sul. Na década de 1980, diante de posições extremadas de membros do MNA cujo não alinhamento por vezes dava lugar a aproximações de ocasião com a URSS ou os EUA, a Índia promoveu gestões diretas junto ao governo brasileiro a fim de convencê-lo a ingressar como membro efetivo do Movimento, opção que sempre foi rejeitada pelo Itamaraty. Talvez ainda mais emblemático para revelar a importância da convergência multilateral entre Brasil e Índia, destaca-se a recusa de ambos os países em assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), tendo como base a crítica acerca da discriminação que aquele instrumento internacional provocava ao impedir o desenvolvimento tecnológico dos países não detentores dos conhecimentos relativos ao ciclo de produção de energia nuclear (os “have not countries”, nos termos do Tratado)26. No âmbito dos foros multilaterais, Índia e Brasil estiveram, na maioria das vezes ao longo dos anos da Guerra Fria, alinhados em seus pontos de vista, tendo por base princípios de não ingerência, de autonomia, bem como discurso de crítica à desigualdade econômica gerada pela centralização da economia internacional em torno das grandes potências. Exemplo desta convergência foi o explícito apoio indiano ao Processo Negociador de Contadora, que visava pôr fim aos conflitos na América Central, por meio do desenvolvimento de solução negociada entre os países latino-americanos, a fim de reduzir a ingerência dos EUA sobre a região. Quanto às relações de comércio entre Brasil e Índia, verifica-se que, até o início da década de 1990, havia escasso e descontínuo intercâmbio. Tal fato pode ser explicado por dois fatores: adoção, por parte de ambos os países, de política econômica de industrialização por substituição de importações, a qual levava à adoção de mecanismos de rígidos de proteção comercial, como tarifas e cotas; e baixa complementariedade das pautas produtivas, devido ao fato de serem os dois países exportadores de matérias-primas e bens semimanufaturados. 5.4.4.2. Década de 1990: Brasil e Índia diante da recomposição das forças no cenário internacional O início dos anos 1990 foram particularmente desafiadores para a economia indiana. Como destacado anteriormente, a despeito da neutralidade política e ideológica frente aos EUA e à URSS, havia nítida dependência da economia da Índia em relação ao comércio compensado (por meio de permuta) realizado com os soviéticos e os países do Leste Europeu. A desintegração da URSS, portanto, traz para a Índiaa necessidade de promover amplas reformas econômicas a partir de 1991, as quais deram origem à New Economic Policy anunciada naquele ano pelo Primeiro-Ministro Narasimha Rao (1991-1996). No contexto destas reformas, encontravam-se duas medidas que viriam a ser fundamentais para tornar a América Latina, e em especial o Brasil, um dos destinos prioritários dos investimentos indianos destinados aos mercados emergentes: primeiro, foram adotadas medidas de liberalização comercial destinadas a romper, gradualmente, com o modelo produtivo que privilegiava a industrialização por substituições de importações; segundo, por iniciativa governamental, a Índia empreendeu a busca por novas oportunidades de negócios para seus empresários, seja por meio da organização de feiras de negócios, seja pela abertura de representações consulares em países em desenvolvimento. Esta nova diretriz do governo indiano é verificada desde a posse de Fernando Collor de Mello (1990), a primeira de um mandatário brasileiro a contar com a presença de um Chanceler indiano. Em 1993, o Brasil recebe nova visita de um Ministro das Relações Exteriores da Índia, desta vez acompanhado de representantes do setor ferroviário, os quais tinham o interesse de expandir seus negócios com o Brasil, dada a condição continental do país e a precariedade de sua obsoleta malha ferroviária. Na ocasião, o Ministro Salman Khursheed afirmou com clareza que as relações de seu país com os parceiros latino-americanos viviam um turning point dadas as novas perspectivas de abertura econômica da Índia (VIEIRA, 2009, p. 58). Exemplo deste especial interesse pelo continente americano pode ser verificado no lançamento do programa de promoção comercial do Ministério do Comércio da Índia intitulado Focus Latin America (conhecido como Focus on Lac). Esta iniciativa, desenvolvida pela Organização de Promoção do Comércio da Índia (ITPO, na sigla em inglês), entidade ligada ao mencionado Ministério, teve por objetivo promover comitivas de empresários indianos à América Latina e vice-versa, além de realizar prospecção de oportunidades de negócios na região. Não era somente nas relações comerciais que o relacionamento entre Brasil e Índia vivenciava um turning point: passado o breve período de reacomodação política e econômica relativa à nova estrutura do sistema internacional pós-Guerra Fria, os dois países começaram a identificar pontos de convergência nas discussões mantidas nos foros internacionais, sobretudo na recém-criada Organização Mundial do Comércio. Nesse contexto de aproximação política, o Presidente Fernando Henrique Cardoso visita a Índia em 1996. A visita teve caráter estratégico de alta relevância, pois foi a primeira vez que os dirigentes de ambos os países expressaram, por meio de Declaração Conjunta, o apoio mútuo à candidatura para um assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Soma-se a esta declaração a assinatura de Memorando de Entendimento entre a Comissão de Energia Nuclear do Brasil e sua homóloga indiana para cooperação relativa ao uso pacífico da energia nuclear. O referido Memorando, no entanto, teria vida curta: em 1998, a Índia anunciou a realização de testes nucleares, os quais tiveram como resposta explosões de armamentos atômicos do outro lado da fronteira, no Paquistão. Além de reacender o risco de uma nova corrida armamentista entre aqueles dois países, os quais já estiveram em conflito por outras três vezes desde meados do século XX, a ação indiana teve como resposta a adoção de sanções por parte de diversos países e, no que tange ao governo brasileiro, a resposta imediata foi a denúncia do Memorando firmado dois anos antes, durante a visita do Presidente Cardoso. Ressalta-se que, no biênio 1998- 1999, o Brasil integrava o Conselho de Segurança das Nações Unidas na condição de membro não permanente, e sua resposta em relação à atitude indiana vai ao encontro da ação política adotada com vistas a transmitir à comunidade internacional confiança quanto ao comprometimento do país com a não proliferação de armas nucleares e a priorização absoluta dos meios pacíficos de solução de controvérsias. Nesse contexto, justifica-se a ratificação, em meados de 1998, do Tratado sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares, cuja sigla em inglês é CTBT27 (Comprehensive Test Ban Treaty). Ao tratar do posicionamento brasileiro em relação à Índia no CSNU, o Embaixador Gelson Fonseca Jr. (sem data, p. 284-285) destaca que: Em 11 e 13/05/98, a Índia realizou testes nucleares subterrâneos. Seguiram- se aos testes indianos exercícios semelhantes por parte do Paquistão, em 28 e 30/05/98. Os testes suscitaram preocupação e protestos internacionais, pois ameaçavam o regime de não proliferação, pondo em risco a moratória de facto dos testes nucleares, tendo sido conduzidos na contramão do espírito dos esforços globais para a eliminação de arsenais nucleares. [...] Na condição de país que renunciou à opção nuclear, o Brasil deplorou os testes conduzidos por Índia e Paquistão como uma ameaça à paz e segurança internacionais. Nosso compromisso com o regime de não proliferação nuclear tornou-se ainda mais claro com o depósito, um mês mais tarde, do instrumento de ratificação do CTBT e nossa acessão ao TNP em setembro de 1998. A posição brasileira durante o debate do tema no Conselho de Segurança está refletida nos pronunciamentos [...]. No mesmo espírito, o Brasil associou-se a uma Declaração do Grupo do Rio e a uma resolução da Organização para a Proibição de Armas Nucleares na América Latina e no Caribe (OPANAL), que condenam os testes. Uma das externalidades geradas pelas sanções impostas pelas potências ocidentais à Índia no imediato contexto pós-testes nucleares foi a aceleração do movimento de abertura da economia, a qual ainda apresentava, no final dos anos 1990, características do modelo de industrialização por substituição de importações como, por exemplo, listas de proibição de importação de bens de consumo. Ademais, por estarem as iniciativas oficiais do governo indiano, como o programa Focus on Lac, prejudicadas pelas sanções impostas à Índia, os empresários daquele país começaram a desenvolver negociações diretas com seus parceiros estrangeiros, superando uma longa tradição de dependência da ação estatal para as ações de promoção comercial. 5.4.4.3. Brasil e Índia no início do século XXI Apesar do temporário revés na concertação política desenvolvida por Brasil e Índia, causada pelos testes nucleares realizados pelo país asiático em 1998, o início dos anos 2000 trouxe conjuntura favorável à atuação conjunta dos dois países nas principais instâncias decisórias internacionais. Dentre os principais mecanismos bilaterais adotados para a concertação de posições sobre os temas atinentes à agenda dos organismos multilaterais, foi firmado, em 2002, “Memorando de Entendimento entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República da Índia que Estabelece a Comissão Mista de Cooperação Política, Econômica, Científica, Tecnológica e Cultural” (doravante denominada Comista Brasil-Índia). Ainda no final do mandato de Fernando Henrique Cardoso, a convergência entre os dois países na OMC, no contexto do lançamento da Rodada Doha de negociações, dava origem ao que viria a ser, em 2003, já no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o G-20 comercial. Nesta parte cabe-nos destacar, de maneira resumida, os motivos que levaram a Índia a promover, com o Brasil, a coordenação do G-20 comercial. A respeito, Maíra Vieira (2009, p. 94) destaca que: [...] em janeiro de 2001, o governo indiano já havia aprovado as propostas iniciais da Índia para as negociações sobre o Acordo Agrícola na OMC, demandando dos países desenvolvidos a diminuição de tarifas de importação e eliminação de subsídios e solicitando, para benefício dos países em desenvolvimento, flexibilidade para formação de estoques reguladores, distribuição pública de grãos, medidas de alívio da pobreza, bem como de desenvolvimentoe emprego rurais. A Índia apoiava, ainda, a adoção de subsídios para produtos agrícolas essenciais à segurança alimentar e a fixação de tarifas de importação que protegessem a produção doméstica da qual dependessem grandes contingentes populacionais. As propostas indianas eram contestadas, no todo ou em parte, pela maioria dos países desenvolvidos ocidentais, os quais logo buscaram se articular para evitar sua discussão no contexto da Rodada Doha. Ao longo da preparação para a Reunião Ministerial de Cancun, que foi realizada em 2003, a Índia buscava apoio político para a sustentação de suas propostas, e o Brasil lhe parecia o parceiro ideal para coordenar, de modo conjunto, as posições dos países em desenvolvimento, a fim de evitar que a ambição do mandato negociador da “Rodada do Desenvolvimento” fosse minimizada. Embora não se possa dizer que o G-20 comercial seja plenamente coeso, o nível de coordenação gerado pela concertação político indo-brasileira fez da Reunião de Cancun importante exemplo da atual força que detém os países em desenvolvimento nas negociações multilaterais. A formação do Fórum IBAS, poucos meses antes da criação do G-20 comercial, reitera a percepção de que Brasil e Índia haviam elevado o patamar de suas relações bilaterais a uma parceria estratégica dinâmica, multitemática e capaz de promover mecanismos inovadores de cooperação. Ao longo da década de 2000, a parceria entre os dois países foi expandida de forma a explorar o desenvolvimento de tecnologias conjuntas, como na área espacial. A respeito, é importante notar que, a partir do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o distanciamento nos temas relativos ao intercâmbio científico e tecnológico causado em virtude da explícita condenação, por parte do Brasil, dos testes nucleares realizados pela Índia, em 1998, cederam lugar a uma crescente cooperação. De acordo com dados oficiais da Agência Espacial Brasileira (AEB), em janeiro de 2004 Brasil e Índia assinaram Acordo-Quadro sobre Cooperação nos Usos Pacíficos do Espaço Exterior. Em 2007, um Ajuste Complementar foi assinado para Ampliação da Estação Brasileira Terrestre de Recepção e Processamento de Dados dos Satélites de Sensoriamento Remoto da Índia. Está, ainda, sob exame da AEB e da Indian Space Research Organisation (ISRO) a possibilidade de cooperação entre as duas agências para o rastreio e monitoramento pelo Brasil da missão lunar indiana Chandrayaan - 128. Embora a cooperação espacial desenvolvida com a Índia seja de menor escopo do que aquela desenvolvida com a China, a qual prevê a construção e o lançamento de satélites binacionais sino- brasileiros, percebe-se que há grande potencial de crescimento, tendo sido a recepção de dados do satélite indiano ResourceSAT-2 tema debatido durante a VI Comista Brasil-Índia, realizada em outubro de 2013. Outro tema de grande relevância atualmente no âmbito da cooperação em Ciência e Tecnologia é o desenvolvimento conjunto de radares de aplicação militar entre a Embraer e empresas indianas por meio do projeto Airborne Early Warning and Control System. Este projeto está amparado pelo Acordo sobre Cooperação em Defesa Brasil-Índia, assinado em 2003, o qual prevê ações de intercâmbio técnico e exploração de novas tecnologias passíveis de aplicação na indústria militar de defesa dos dois países. Diante do contexto de crescente convergência no relacionamento entre Brasil e Índia, e de sua cada mais profícua concertação política no âmbito dos arranjos de geometria variável, como o G-20 e o G-4, e do Fórum IBAS, o Primeiro-Ministro indiano, Manmohan Singh, realizou visita ao Brasil em setembro de 2006. Esta ocasião deve ser tida como de especial importância por dois motivos principais: primeiro, significou o rompimento de um intervalo de 38 anos sem que um Chefe de governo indiano estivesse no país - a última vez fora na histórica visita de Indira Gandhi ao Brasil; segundo, logo no início do Comunicado Conjunto do encontro entre o Presidente Lula e o Primeiro-Ministro Singh, encontra-se a afirmação de que “o Brasil e a Índia reconhecem que suas relações atingiram o nível de uma parceria estratégica” (BRASIL, 2006). De fato, a partir de 2003, os dois países tinham no relacionamento bilateral muito mais que interesses relativos ao aumento das trocas comerciais, uma parceria para, de maneira coordenada, liderarem a ação multilateral dos países emergentes e em desenvolvimento com vistas à reestruturação dos sistemas internacionais de finanças e comércio (FMI e OMC) e de segurança (CSNU). Nos termos do mencionado Comunicado Conjunto, torna-se evidente esta convergência ao aferir-se que “o Presidente Lula e o Primeiro-Ministro Singh expressaram a visão de que o FMI deve ser reformado para refletir a realidade contemporânea da economia global, o que inclui uma reforma do sistema de quotas para que haja maior alocação de quotas aos países em desenvolvimento” (idem, 2006), ou ainda que a “Índia e o Brasil continuarão a trabalhar conjuntamente no âmbito do G-4, com vistas a concretizar sua aspiração comum de atuarem como membros permanentes em um Conselho de Segurança das Nações Unidas reformado e expandido, para torná-lo mais democrático, representativo e adaptado à nova ordem mundial” (ibidem, 2006). Ainda com referência à visita do Primeiro-Ministro indiano ao Brasil, destacam-se os avanços na cooperação em matéria energética. Na época, o Brasil mostrava-se empenhado em difundir sua política de produção de biocombustíveis, com ênfase para o etanol e, nesse sentido, ia ao encontro da expectativa brasileira a então recente decisão da Índia em aumentar a porcentagem da mistura de álcool à gasolina vendida naquele país. Assim, criou-se, em 2006, um Comitê Conjunto sobre Biocombustíveis, e foi firmado Memorando de Entendimento entre a Petrobras e a Oil and Natural Gas Corporation - Videsh Limited (ONGC - OVL), braço internacional da empresa petrolífera da Índia. O Memorando entre as petrolíferas resultou, no ano seguinte (2007), na assinatura de acordo entre a Petrobras e a ONCG- OVL para operação de seis blocos exploratórios em águas profundas, dos quais três no Brasil e três na Costa Leste da Índia. Como desdobramento daquele acordo, atualmente a empresa indiana detém 35% da exploração das reservas do bloco de Parque das Conchas (BC-10), localizadas na Bacia de Campos (Oliveira, 2013), enquanto a Petrobras possui 25% de participação no bloco de exploração CY-2011/1, em parceria com a ONGC, situado em águas profundas da Bacia de Cauvery, na costa oriental da Índia. A respeito da cooperação energética indo-brasileira, é importante ainda ressaltar que, tendo em conta o acelerado aumento na demanda por gasolina e diesel no mercado brasileiro nos últimos anos, e o déficit na capacidade de refino do país, a Índia tem sido um dos principais supridores de combustíveis já refinados para o Brasil. O mais recente encontro entre a Presidente Dilma Rousseff e o Primeiro- Ministro Manmohan Singh ocorreu em março 2012, à margem da realização da 4ª Cúpula dos BRICS, em Nova Délhi. Naquele ano, comemorava-se o fato de o intercâmbio comercial entre o Brasil e a Índia ter aumentado cerca de dez vezes nos nove anos anteriores: as trocas evoluíram de US$ 1 bilhão em 2003 para US$ 9,28 bilhões em 2011 (BRASIL, 2012). O volume do comércio bilateral crescera 20% em comparação com 2010 e, assim, a Índia passava a ocupar a 11ª colocação entre os principais parceiros comerciais do Brasil. A visita da Presidente Dilma à Índia foi marcada pela assinatura do “Memorando de Entendimento em Educação, no âmbito do Programa Ciência sem Fronteiras”, por meio do qual se estima aproximar estudantes brasileiros dos avanços tecnológicos alcançados pela Índia, país reconhecido pelo potencial de criação de suas indústrias de tecnologia instaladas na região da Bangalore. Foi marcada, ainda, pela explícita adesão da Índia à proposta de discussão, no âmbito do CSNU, do conceito de “Responsabilidade ao Proteger”, como forma de avaliar a maneira pela qual as resoluçõesdo Conselho são implementadas, bem como seus resultados concretos. Outro tema tratado na ocasião foi a parceria entre Brasil e Índia no âmbito do BASIC29, foro de concertação política sobre temas de meio ambiente, que reúne, ainda, África do Sul e China. No mês de outubro de 2013, teve lugar em Brasília a VI Reunião da Comissão Mista de Cooperação Política, Econômica, Científica, Tecnológica e Cultural Brasil-Índia. A Comissão, cuja representatividade se dá pelos chanceleres, tem se tornado, ao longo dos seus 10 anos de existência, o espaço privilegiado para que Brasil e Índia realizem ajustes pontuais - conhecidos no jargão diplomático como “sintonia fina” - relativos à atuação conjunta nos foros multilaterais, bem como avancem em assuntos da pauta bilateral. Do conteúdo das discussões da última reunião, destacam-se a menção incisiva à necessidade de que os membros permanente do CSNU implementem os compromissos relativos à reforma do Conselho, no mais tardar até 2015 - até então, os entendimentos bilaterais não traziam menção a prazos para essa reforma. No âmbito bilateral, destaca-se o compromisso dos Ministros das Relações Exteriores de ambos os países com o alcance da meta de elevação da corrente de comércio bilateral para US$ 15 bilhões até 2015, cujo alcance requererá incremento do valor agregado dos produtos intercambiados entre Brasil e Índia - em outras palavras, a elevação da corrente de comércio deverá ocorrer em concomitância com a elevação de sua intensidade tecnológica. Para tanto, a Ata Final da Comista traz compromissos relativos à intensificação dos encontros entre empresários de ambos os países e à mútua participação em feiras de comércio de setores da produção de alto padrão tecnológico, como aviação, tecnologia de comunicações e defesa. Por fim, faz-se necessário destacar que, por vezes, a complexidade e a multiplicidade de temas do relacionamento indo-brasileiro trazem divergências, cuja superação exige amplo esforço negociador, como, por exemplo, na temática relativa à Proteção da Propriedade Industrial na produção de fármacos e outros itens da indústria química. A respeito deste tema, é importante destacar que, entre as décadas de 1970 e 1980, Brasil e Índia atuaram de forma coordenada quanto à necessidade de que as regras internacionais relativas à Proteção da Propriedade Industrial, baseadas na Convenção da União de Paris - CUP (1883, com suas sucessivas revisões) fossem adequadas com vistas a possibilitar os esforços de industrialização dos países em desenvolvimento, muitos dos quais baseados na técnica conhecida como engenharia reversa (FERNANDES, 2013). A partir da conclusão do Acordo de TRIPS (Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights), no âmbito da OMC, em 1995, a dinâmica do relacionamento com relação a este tema seria substancialmente alterada, tendo o Brasil adotado postura de imediato comprometimento com a nova normativa originada na Rodada Uruguai, enquanto a Índia optara por utilizar o prazo máximo de 10 anos para adequação de sua legislação às novas regras internacionais sobre patentes. De acordo com Luis Fernandes (2013, p. 5): Após o advento do TRIPS, o afastamento entre as posições do Brasil e da Índia tendeu a se agravar. De início, a Índia se mostrou mais resistente às mudanças introduzidas pelo Acordo, enquanto que, o Brasil abandonou o argumento que havia balizado sua posição até a década de 1980. Em 1996, o governo brasileiro já havia atendido às exigências do TRIPS, tendo utilizado o tempo mínimo (um ano) para adequar a legislação às regras internacionais. [...] A Índia, por outro lado, optou pelo maior prazo possível de ajuste, que previa a completa adequação às regras do TRIPS até 1º de janeiro de 2005. O efeito prático da “demora” da Índia em ajustar-se às novas regras do Acordo de TRIPS foi o fortalecimento da indústria farmacêutica daquele país, a qual passou a gerar excedentes de exportação e a desenvolver medicamentos com tecnologia própria. O governo brasileiro, por sua vez, a partir dos anos 2000, deu início à universalização do atendimento aos pacientes portadores do vírus HIV/AIDS, fornecendo-lhes coquetel de diversos medicamentos antirretrovirais, muitos dos quais se encontravam patenteados por laboratórios estrangeiros. Na medida em que o Brasil enfrentava resistências com os respectivos laboratórios na negociação para redução dos preços daqueles medicamentos, a parceria com o governo indiano para importação dos remédios genéricos produzidos naquele país tornava-se o meio mais efetivo de garantir a continuidade de programa brasileiro na área de HIV/AIDS. Houve, naquele momento, importante aproximação na área de saúde entre os dois países, sendo a Índia um parceiro essencial para o sucesso da política de saúde brasileira. O assunto foi elevado à Rodada Doha OMC, em 2001, na qual ambos os países trabalharam coordenadamente a fim de obter apoio à aprovação da “Declaração Ministerial de Doha sobre o Acordo de TRIPS e a Saúde Pública”. Desde o início do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a partir de 2003, a postura reivindicatória brasileira em prol da plena implementação da mencionada Declaração foi um fatores que possibilitou, em 2005, a emenda do Acordo de TRIPS a fim de contemplar os esforços de produção local de medicamentos por parte dos países em desenvolvimento. De acordo com informação contida em nota oficial do Itamaraty divulgada naquele ano (BRASIL, 2005): A emenda reconhece que Membros da OMC com insuficiente ou inexistente capacidade de fabricação no setor farmacêutico podem enfrentar dificuldades para fazer efetivo uso de licenciamento compulsório sob o Acordo TRIPS. Nesse contexto, ela flexibiliza, para aqueles Membros, a aplicação dos artigos 31 (f) e 31 (h) do Acordo TRIPS. O artigo 31 (f) determina que o licenciamento compulsório será “autorizado predominantemente para suprir o mercado interno”, enquanto o artigo 31 (h) estabelece que, em caso de licença compulsória, o titular da patente “será adequadamente remunerado”. A emenda em questão não diminui nem qualifica os direitos de que gozam os Membros da OMC de: (I) adotar medidas para a proteção da saúde pública; (II) implementar o Acordo TRIPS de modo a apoiar o direito à saúde pública e a promover o acesso a medicamentos; (III) conceder licenças compulsórias nas situações previstas nos textos multilaterais da OMC; e (IV) fazer uso das flexibilidades previstas no Acordo TRIPS e na Declaração de Doha. Para fins de aplicação dos dispositivos previstos na citada emenda, o Brasil mantém o direito soberano de determinar, caso a caso, se possui insuficiente ou nenhuma capacidade de fabricação no setor farmacêutico. Assim, embora Brasil e Índia possuam mútuo interesse no desenvolvimento nacional de fármacos, a indústria de medicamentos indiana, amplamente desenvolvida no período de 1995 a 2005, no qual se aproveitou do waiver concedido pelo Acordo de TRIPS para que os países em desenvolvimento a ele se adequassem, vê com ressalvas a emenda de 2005, que poderá reduzir seus mercados internacionais, em especial o brasileiro. Para a Índia, garantir a exportação de seus fármacos é uma das principais formas de financiar a Pesquisa e o Desenvolvimento (PeD) de novas drogas. A partir de 2005, portanto, verifica-se certo distanciamento na temática entre os dois países. A respeito, é emblemático que a Ata da VI Reunião da Comista (2013) traga vaga menção ao tema, ao afirmar que “Brasil e Índia trocaram experiências e opiniões sobre temas relacionados a propriedade intelectual e saúde pública. As partes ressaltaram a importância desse debate para ambos os países e concordaram em estabelecer um diálogo bilateral sobre propriedade intelectual, com o intuito de trocar experiências e facilitar a coordenação em debates multilaterais relacionados ao tema. Concordaram em que o diálogo bilateral poderia se desenvolver no âmbito do Mecanismo de Monitoramento de Comércio”. Em meio a compromissos e objetivos concretos contidos naquela Ata, a cooperação sobre o temade patentes parece ofuscada diante da expectativa indiana de ter o Brasil como um dos seus principais compradores de medicamentos. Vale destacar, contudo, que a posição oficial do governo brasileiro em relação ao tema é a de que há espaço para que Brasil e Índia cooperem nos foros multilaterais a fim de assegurar seus direitos de produção nacional de fármacos com vistas à garantia da saúde de sua população. A intensidade e o formato futuro dessa cooperação somente o tempo revelará. 5.5. Relações do Brasil com a Argentina “O Brasil quer como sócia uma Argentina forte e confiante, guiada pela criatividade de sua gente e pela reconhecida vocação manufatureira e capacidade técnica de sua indústria. Por meio de cadeias produtivas binacionais, estamos forjando laços de integração centrados na inovação tecnológica e nos ganhos de competitividade. Queremos a parceria da Argentina na abertura de novas fronteiras de comércio exterior, atraindo investimentos e internacionalizando nossas empresas. [...] Mais do que ninguém, a Argentina precisa recuperar a capacidade produtiva que já teve no nosso continente e, quanto mais forte for a Argentina, mais forte será o Brasil; quanto mais forte o Brasil, mais forte será a Argentina; e quanto mais fortes forem Argentina e Brasil, mais forte será o Uruguai, mais forte será o Paraguai, mais forte será a Bolívia e mais forte será toda a América do Sul.” (Discurso proferido pelo Presidente Lula por ocasião da cerimônia de celebração dos 20 anos da aproximação entre Brasil e Argentina, promovida pelos Presidentes Sarney e Alfonsín - Puerto Iguazú, 30 de novembro de 2005) O estudo das relações entre Brasil e Argentina é tema de essencial relevância para a compreensão da política externa brasileira e dos esforços de integração regional empreendidos pelo País nos últimos 50 anos. Tendo em conta o escopo desta obra, este capítulo traz especial desafio para seu autor, uma vez que o tema remete a extenso volume de informações e à análise do trabalho de variados autores e respectivos pontos de vista, cuja tarefa de síntese é, ao mesmo tempo, essencial e passível de falhas e omissões. A fim de facilitar a compreensão do texto e a coesão das ideias nele contidas, optou-se por adotar, como base analítica, as informações contidas nas obras de Luiz Alberto Moniz Bandeira (2003), Carlos Eduardo Vidigal (2009), Miriam Gomes Saraiva (2012) e Boris Fausto e Fernando Devoto (2004), ademais de declarações e documentos oficiais que, por vezes, permitem a desambiguação de pontos de vista contraditórios. Esta opção, no entanto, é escolha pessoal do autor, a partir da busca de informações que contemplem o conjunto de temas abordados pelos examinadores da Universidade de Brasília responsáveis pela preparação dos certames de admissão à carreira de diplomata. Muitos outros diplomatas, analistas internacionais e acadêmicos prestaram contribuições igualmente valiosas para o assunto, alguns dos quais se encontram, inclusive, mencionados na bibliografia contida no final deste capítulo. Antes de iniciarmos o estudo do tema, faz-se necessário um último esclarecimento acerca da estrutura do capítulo. Tendo em conta que as políticas externas de Brasil e Argentina, no período de 1979 a 1994, foram amplamente discutidas no capítulo 3 do tomo I desta obra, o qual trata da origem e do desenvolvimento dos mecanismos sul-americanos de integração regional, optou-se por evitar reproduzir análises já incorporadas à obra. Assim, este item 5.5 tratará de quatro momentos do relacionamento argentino-brasileiro: as relações bilaterais do contexto pós-Segunda Guerra até o início dos governos militares; do início do regime militar no Brasil até o final do governo do General Ernesto Geisel; a partir de 1994, no período compreendido pelo relacionamento durante as gestões de Carlos Menem e Fernando Henrique Cardoso; e, finalmente, dos governos Kirchner na Argentina e suas relações com Lula e Dilma no Brasil. 5.5.1. Relações Brasil-Argentina no contexto pós-Segunda Guerra Mundial O relacionamento entre Brasil e Argentina, no período compreendido entre o final da Segunda Guerra Mundial e o início dos anos 1980, é de essencial importância para o estudo da evolução histórica da política externa brasileira, sobretudo por evidenciar a influência sobre o continente sul- americano do embate bipolar entre EUA e URSS nos anos da Guerra Fria. No que tange ao relacionamento entre os dois países ao final da Segunda Guerra, o primeiro ponto a se destacar é que, ainda durante a III Reunião de Consulta dos Ministros da Relações Exteriores, realizada em 1942, no Rio de Janeiro, Brasil e Argentina já demonstravam diferentes posicionamentos em relação ao conflito na Europa. Naquele encontro, a delegação brasileira chefiada por Oswaldo Aranha rompeu relações diplomáticas com o Eixo e apoiou a criação da Junta Interamericana de Defesa (JID), cujo objetivo maior era permitir a convergência das posições militares dos países americanos com a estratégia de guerra preconizada pelos EUA. A medida brasileira dá início ao distanciamento das posições adotadas pelo governo de Buenos Aires. De fato, no início dos anos 1940, a Argentina não se encontrava em condições, tanto econômicas quanto políticas, de romper com o Eixo, e muito menos de declarar guerra à Alemanha e à Itália. Dependia economicamente das exportações de matérias-primas e alimentos para a Europa, com especial destaque para o comércio realizado com a Inglaterra que, naquela época, precisava garantir que os suprimentos vindos de Buenos Aires não fossem alvo dos ataques navais empreendidos pelos submarinos alemães no Oceano Atlântico. De acordo com dados citados por Luiz Alberto Moniz Bandeira (2003, p. 207 e 208), em 1940, já no contexto do conflito na Europa, a Inglaterra absorveu 36,4% das exportações argentinas, enquanto os EUA foram o destino de não mais que 17,5% dos embarques daquele país para o exterior. A dependência econômica do comércio com a Europa trazia consequências para a política interna argentina: o governo do Presidente Ramón Castillo era pressionado, tanto pelos grupos econômicos dependentes do comércio com a Europa - alguns, inclusive, tendiam a apoiar a aliança da Argentina às potências do Eixo -, quanto pelos segmentos nacionalistas das forças armadas, que viam na pressão exercida pelos EUA sobre a Argentina, por meio de sanções e do fornecimento de armas ao Brasil, uma fraqueza daquele mandatário. O acirramento das pressões norte-americanas sobre a Argentina favoreceu que, em março de 1943, segmentos das Forças Armadas daquele país depusessem Ramón Castillo, dando origem à situação que, à primeira vista, parecia favorável à aproximação dos governos de Buenos Aires e de Washington. Os desdobramentos do golpe militar de 1943, no entanto, ocasionaram o crescimento político do Grupo de Oficiais Unidos (GOU), corrente nacionalista das Forças Armadas que preconizava a neutralidade no conflito e que era contrária ao alinhamento com os EUA. No início de 1944, o General Pedro Pablo Ramírez cedeu às pressões norte-americanas e rompeu relações com as potências do Eixo, fato que ocasionou sua deposição pelos demais membros do GOU, e possibilitou a chegada ao poder do General Edelmiro Farrel, que tinha como um de seus principais colaboradores o então Coronel Juan Domingo Perón, o qual passara a exercer, cumulativamente, a Secretaria do Trabalho, o Ministério da Guerra e a Vice-Presidência da República. A polarização entre a Argentina e os EUA tornara-se evidente a partir de então, e, nesse contexto, o Departamento de Estado norte-americano passara a estimular a rivalidade dos países americanos com a Argentina, sobretudo o Brasil, estimulando supostas ameaças belicistas do governo de Farrell-Perón. Diante da política dos EUA de forçar o governo de Getúlio Vargas a hostilizar o governo Farrell na Argentina, o Brasil adotou posição isenta e, ao contrário do que pedia o Departamento de Estado, optou por reconhecer oficialmente o regime argentino. Chegou-se, à época,a fomentar, junto a determinados segmentos das forças armadas brasileiras, a ideia de que a Argentina encontrava-se na iminência de atacar o Brasil, o que deveria conduzir a atenção dos militares brasileiros para a fronteira sul, ou mesmo para uma eventual ação militar de ataque àquele país. Esta última hipótese era repudiada pelo governo brasileiro, dado que, segundo Moniz Bandeira (2003, p. 210), [...] O Brasil não pretendia mudar sua política exterior, sobretudo no momento em que já se visualizava próximo o fim da guerra contra o Eixo. O que ele cuidava, sim, era de manter em bom nível a inteligência com a Argentina e evitar um conflito armado totalmente contrário aos seus interesses tanto econômicos quanto políticos. Se bem que suas políticas exteriores vis-à-vis da guerra na Europa e das potências do Eixo discrepassem, condicionadas por necessidades e dependências em relação a terceiros mercados diferentes, a Argentina e o Brasil, na verdade, não tinham, objetivamente, razões para o conflito. Se suas economias mais se complementavam do que competiam, os regimes políticos em ambos os países, quer pelo conteúdo social, quer pela matriz ideológica, também convergiam e historicamente se identificavam. A postura brasileira frente à Argentina foi repetida, em março de 1945, na Conferência Interamericana sobre os Problemas da Guerra, realizada no Castelo de Chapultepec, na Cidade do México, a qual fora convocada pelo governo daquele país, e que contou com a presença de representantes de países americanos, menos a Argentina e o Canadá. A Ata de Chapultepec tinha por objetivo retomar princípios e declarações oriundas das conferências interamericanas anteriores, a fim de reforçar a solidariedade política e o alinhamento estratégico do continente em torno da repulsa aos governos totalitários de origem fascista e da contenção de atividades “subversivas à ordem” que pudessem pôr em risco a adesão dos governos da região ao paradigma de segurança preconizado pelos EUA. Na prática, a conferência servira para que, diante do fim da Segunda Guerra Mundial, os EUA iniciassem a estrutura de cooperação político-militar que daria origem, em 1947, ao Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) e, em 1948, à Organização dos Estados Americanos (OEA). De acordo com Miriam Gomes Saraiva (2012, p. 39), por iniciativa do Brasil, ao final da Conferência de Chapultepec foi aprovada moção de simpatia ao povo argentino e expressa a expectativa dos governos ali representados de que o governo de Farrell-Perón viesse a se alinhar aos princípios pan- americanos, declarando guerra aos países do Eixo. Esta iniciativa brasileira deixara a Argentina em condição mais favorável para que, mesmo diante de seu neutralismo e das divergências com os EUA, viesse a declarar, em março de 1945, poucos dias antes do final do conflito na Europa, guerra aos países do Eixo, condição que se sabia à época essencial para que o governo de Buenos Aires viesse a ser aceito na Organização das Nações Unidas (ONU). O fim da Segunda Guerra não diminuiu as pressões do Departamento de Estado sobre a junta militar argentina a fim de que fosse o regime dissolvido, com a provável assunção de futuro governo alinhado às instituições pan-americanas que se encontravam em gestação no final de 1945 e nos anos imediatamente seguintes. O fomento, ideológico e financeiro, à oposição na Argentina era praticado pela própria Embaixada dos EUA, cuja figura do Embaixador Spruille Braden concentrava o sinônimo da resistência à continuidade do governo de Farrell-Perón. No segundo semestre de 1945, as forças pró-democracia na Argentina, reunidas em torno da União Democrática, clamavam, igualmente, por uma maior aproximação com os EUA, e tinham na própria estrutura do governo militar a razão para exigir eleições que permitissem legar à Argentina um governo efetivamente representativo. Ao mesmo tempo, a postura de Perón, cada vez mais ligada aos movimentos sindicais e ao discurso da justiça social, levava a que parcela dos líderes militares passasse a temer pela continuidade do regime implantado em 1943. Luís Alberto Romero (2006, p. 97) resume da seguinte maneira o conjunto de fatores que compunham a crise do regime militar na Argentina pós-Guerra: Perón assumiu totalmente o discurso da justiça social, da reforma justa e possível, à qual se opunham apenas o egoísmo de uns poucos privilegiados. Essas atitudes sociais, enraizadas em práticas igualmente consistentes, vinham sendo elaboradas durante os dez ou 20 anos anteriores, o que explica a aceitação obtida pelas palavras de Perón, que contrapôs à democracia formal de seus adversários a democracia real da justiça social, e dividiu a sociedade entre o “povo” e a “oligarquia”. Um segundo componente dessas mudanças - as atitudes nacionalistas - surgiu bruscamente como resposta à intervenção intempestiva do Embaixador Spruille Braden na eleição que, retomando o ataque virulento do Departamento de Estado contra Perón, acusado de ser agente do nazismo, apoiou publicamente a União Democrática. A resposta foi contundente. “Braden ou Perón” trouxe um segundo e decisivo conflito e terminou de configurar o bloco do nacionalismo popular, capaz de enfrentar o que restava da frente popular. Diante da pressão dos governantes militares, liderada pelo General Eduardo Avalos, Edelmiro Farrelll viu-se compelido a destituir Perón de seus cargos e ordenar sua prisão na ilha de Martín Garcia. Tal fato desencadeou amplos protestos dos trabalhadores que, reunidos no Centro de Buenos Aires, em outubro de 1945, exigiam a libertação do coronel sindicalista e sua reabilitação política. A força política de Perón impunha-se frente ao governo militar e, assim, tornava a oposição pró-democracia, reunida em torno da União Democrática, vítima das pressões fomentadas pelos próprios EUA. Surgia, assim, a figura de Perón como candidato à Presidência da República, cargo para o qual seria eleito pelo sufrágio universal, com 56% dos votos, em junho de 1946. O início do Peronismo na Argentina trazia novos desafios para o relacionamento com o Brasil. 5.5.1.1. O Peronismo na Política Externa Argentina e as relações com o Brasil Em 1946, Brasil e Argentina haviam superado os regimes de exceção que marcaram os anos da Segunda Guerra Mundial. Juan Domingo Perón e Eurico Gaspar Dutra haviam chegado ao poder por meio de eleições diretas, tendo sido ambos atores de destaque na conjuntura política dos antigos detentores da chefia do Executivo. O conjunto de forças que determinava as políticas exteriores do Brasil e da Argentina era, contudo, bastante divergente. No caso brasileiro, o Presidente Eurico Gaspar Dutra, ex-Ministro da Guerra do governo de Getúlio Vargas, nomeou à frente do Itamaraty João Neves da Fontoura, que logo posicionou o Brasil ao lado dos EUA nas discussões sobre o reordenamento do sistema internacional que tiveram lugar ao final da Segunda Guerra Mundial. A partir do “alinhamento automático”, o Brasil esperava obter tratamento diferenciado dos EUA no que tange à concessão de financiamentos para projetos de desenvolvimento nacional e lograr efetiva inclusão nos principais mecanismos de decisão dos organismos internacionais pós-1945. Nesse contexto, a diplomacia implementada pelo Itamaraty desde 1946, seguida pelo segundo Chanceler de Dutra, Raúl Fernandes - nomeado em 1947 -, via na figura de Juan Domingo Perón elemento de desestabilização da ideologia pan-americana que o Brasil preconizava. De fato, na Argentina, Perón realizava equilíbrio de forças políticas na tentativa de posicionar seu governo na equidistância entre o comunismo soviético e o capitalismo liberal proposto pelos EUA, cujo governo objetara sua candidatura à Presidência da República por todos os meios disponíveis. Deste equilíbrio surgia a “Terceira Posição” que, ao negar influência de ambos os lados do conflito bipolar da Guerra Fria, permitia ao governo argentino executar suas políticas nacionalistas e de justiça social voltadas à valorização das massas trabalhadoras- os descamisados, como se dizia à época. Acerca das diferenças entre as políticas externas de Perón e Dutra, Luiz Alberto Moniz Bandeira (2003, p. 236) destaca: Ao contrário do que ocorreu no Brasil, Perón não só não proscreveu o Partido Comunista da Argentina, que se alinhava com as elites econômicas e políticas na oposição ao governo, como estabeleceu relações diplomáticas com a URSS, no dia imediato ao de sua ascensão à Presidência da República, não obstante ser anticomunista e antigo simpatizante do nazi- fascismo, como Eurico Dutra. Também defendeu para a Argentina, naquele cenário de confrontação bipolar dos centros de poder internacional, que os EUA e a URSS constituíam uma terceira posição que se inspirava em sua própria doutrina, posteriormente denominada justicialista, contrária tanto ao capitalismo quanto ao comunismo por serem os abusos do primeiro a causa do aparecimento do segundo. Essa terceira posição significava, no plano internacional, o não alinhamento na Guerra Fria, a equidistância entre os “dois imperialismos”, embora Perón reiteradas vezes afirmasse que, no caso de conflito armado com a URSS, a Argentina ficaria ao lado dos EUA. Em termos conceituais, a Terceira Posição assemelhava-se ao que viria a ser postulado, anos mais tarde, pelo Movimento dos Países Não Alinhados. Ao mesmo tempo, o Brasil convergia com os EUA na criação da OEA e na reafirmação dos princípios de segurança pan-americanos por meio do TIAR. Não havia, no entanto, razões que justificassem ao Brasil hostilizar a Argentina, uma vez que aquele país absorvia parcela cada vez maior da nascente produção industrial brasileira. Assim, no período compreendido entre a posse de Perón e os primeiros anos do governo de Arturo Frondizi, na Argentina, verifica-se a adoção, pelo Brasil, de uma política de cordialidade oficial, voltada a evitar o isolamento da Argentina por parte dos EUA, o que poderia gerar graves rupturas institucionais com reflexos nos demais países da região. Ao mesmo tempo, o Brasil buscou evitar o aumento da influência do governo de Buenos Aires sobre os países vizinhos; dizia-se à época que as embaixadas argentinas contavam, dentre seus representantes credenciados, com adidos sindicais, que tinham a função de propagar, junto aos sindicatos locais, o justicialismo como política de Estado. As políticas de integração comercial dos países sul- americanos que, segundo Perón, deveriam ser realizadas sobre a base do comércio entre Argentina, Brasil e Chile eram obstruídas pela chancelaria brasileira que, ademais de não apoiar o “novo” Pacto ABC proposto pela Argentina, atuava junto aos demais países da região a fim de minar o apoio à proposta argentina. Em resumo, pode-se sintetizar em três pontos a postura do governo de Dutra frente à política de Perón: i) evitar a radicalização dos EUA em relação à postura neutralista da política exterior argentina, o que poderia levar à instabilidade das forças políticas no continente; ii) mitigar a influência do justicialismo peronista sobre os demais governos sul- americanos por meio da oposição a qualquer acordo regional que não contasse com a presença dos EUA, a fim de evitar confrontação com o pan- americanismo vigente; iii) manter a cordialidade oficial com o governo de Perón, a fim de trazê-lo para a órbita do sistema interamericano. Ao final do mandato do Presidente Dutra, animava a Perón as renovadas possibilidades de cooperação que poderiam advir de candidatura de Getúlio Vargas, a ponto de ter o mandatário argentino expressado seu claro apoio a ele nos meios jornalísticos de Buenos Aires. A conjuntura política na qual se deu a segunda Presidência de Getúlio Vargas, no entanto, não era favorável a maior aproximação com Perón. No Brasil, a eleição de Getúlio Vargas, em 1950, ainda que por meio de ampla margem de votos, fora possível devido à ampla articulação política entre o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), do qual fazia parte o próprio Presidente, o Partido Social Democrático (PSD) e o Partido Social Progressista (PSP) que, em coligação, se opunham à União Democrática Nacional (UDN), a qual detinha considerável influência sobre parcela das forças armadas. A fim de harmonizar as diversas forças em seu governo, Vargas optou por montar um “ministério da experiência” (FGV-CPDOC, 2014), no qual os diferentes partidos de sua coligação, e mesmo a opositora UDN, encontravam-se representados. Ao PSD coube a maioria das pastas, tendo sido João Neves da Fontoura, político filiado àquela legenda, nomeado para o cargo de Chanceler. Como estudado anteriormente neste capítulo, Fontoura foi responsável pelo “alinhamento automático” do Brasil com os EUA nos primeiros anos pós-Segunda Guerra, e sua desaprovação com a Terceira Posição do governo argentino era evidente. A nomeação de João Neves da Fontoura, em 1951, e sua substituição por Vicente Rao (simpatizante da UDN), em 1953, contribuíam para o objetivo de dissipar eventuais suspeitas do governo norte-americano quanto à mudança de rumos da política externa brasileira, em momento das relações internacionais no qual se vivia o “auge” da Guerra Fria. O próprio Getúlio Vargas reconhecia não haver espaço na composição de seu governo para propor uma política externa de cunho nacionalista, voltada à maior aproximação entre Brasil e Argentina. Assim, logo no início do segundo ano de seu governo, o Brasil assina o Tratado de Assistência Militar com os EUA ao mesmo tempo em que evita responder às consultas de Perón com relação à possível formação de área de segurança no Atlântico Sul, que excluísse a participação norte-americana. A maior frustração de Perón com relação ao governo Vargas viria, porém, em 1953, quando a Argentina retoma a proposta de acordo de integração comercial e de concertação política com os governos do Brasil e do Chile, sendo que, neste último, o General Carlos Ibañez, de vertente nacionalista e defensor da justiça social, acabara de ser eleito presidente. Os entendimentos entre Argentina e Chile para formação do novo Pacto ABC tiveram início com o convite do mandatário chileno para que Perón visitasse Santiago e lá assinasse acordo que viria, em seguida, a ser submetido à aprovação e à assinatura do Brasil e aberto, posteriormente, à adesão dos países sul-americanos interessados. A proposta do Pacto ABC não era dissonante das discussões que já vinham sendo mantidas na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e que levariam, sete anos mais tarde, à formação da Área Latino-americana de Livre Comércio (Alalc). Sua proposição, em meio a um momento de instabilidade política na América Latina, e no auge do confronto bipolar da Guerra Fria, levou a que o Brasil não assinasse a Ata de Santiago (1953), embora Vargas, ao mesmo tempo em que não se comprometia em apoiá-la, não se manifestava oficialmente contra ela. A ênfase do governo de Perón na propagação do justicialismo fez com o Brasil declinasse e o Chile “abrandasse” o comprometimento com a Ata de Santiago, devido ao receio de que suas políticas internas e seu relacionamento com os EUA fossem afetados pela identificação com as ideias nacionalistas da Argentina, contrárias ao pan-americanismo preconizado pelos EUA. De fato, o objetivo de Perón com o Pacto ABC era garantir a legitimidade das forças pró-justicialismo na Argentina por meio de atração do apoio regional ao seu governo. A esta intenção, o Itamaraty, nos anos do governo Vargas, opunha- se com veemência, conforme destaca Carlos Eduardo Vidigal (2009, p. 24 e 25): Se a posição da Embaixada do Brasil em Buenos Aires era de alerta em relação à política peronista, o antiperonismo de alguns expoentes do Itamaraty era exacerbado: um memorando secreto, preparado pelo chefe do Departamento Político e Cultural e destinado ao Secretário-Geral, mencionava que, caso a Colômbia aderisse à Ata de Santiago, ela estaria “varando suposto cordão sanitário estabelecido pelo Brasil e Peru a fim de evitar a expansão do peronismo”. [...] O Itamaraty era visto como grande opositora uma política de entendimento bilateral. [...] a política internacional do Brasil para a Argentina era caracterizada por três aspectos: 1) oposição sistemática e encoberta do Itamaraty a tudo que pudesse favorecer a Argentina; 2) declarações públicas ostensivas, por parte de membros do Itamaraty, de simpatias pela Argentina; e 3) críticas reiteradas à Argentina por parte dos homens mais destacados da vida brasileira, tanto no plano político, no cultural e na imprensa. A situação da política interna na Argentina nos dois anos seguintes às negociações em torno do Pacto ABC seria caracterizada pela instabilidade das instituições e marcada pelo agravamento da condição econômica do país, que tinha dificuldades em obter acesso a fontes de financiamento internacionais. Até mesmo a política de laicização do Estado implementada por Perón, que previa a proibição das procissões, a supressão do ensino religioso nas escolas e avançava até mesmo a permitir o divórcio, tornava o apoio popular mais fragmentado e suscetível de ruptura pelos militares, e tirava do mandatário argentino a importante base de apoio que significava a Igreja (ROMERO, 2006, p. 123). Nesse contexto, em setembro de 1955, após seguidos episódios de convulsão social na Argentina, Perón apresentou sua renúncia e partiu como refugiado para o Paraguai e, em seguida, para a Venezuela. A saída de Perón teve como desfecho o início do governo militar provisório do General Eduardo Lonardi, que logo dois meses depois foi substituído pelo General Pedro Eugenio Aramburu, o qual governou até a eleição e posse de Arturo Frondizi, em 1958. Durante o breve interregno em que esteve à frente do governo, o General Aramburu buscou colocar a Argentina nas instituições multilaterais e de caráter pan-americanas surgidas ao final da Segunda Guerra Mundial, tais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Banco Mundial) e a OEA (ratificando a Carta constitutiva). Durante este período, que coincidiu no Brasil com a ascensão de Juscelino Kubitschek (JK) à Presidência da República, as relações entre os dois países manter-se-iam em compasso de espera. Contudo, veremos que as relações entre o governo de Frondizi com seus pares brasileiros (JK, Jânio Quadros e João Goulart), no período que vai de 1958 a 1962, a despeito do breve espaço de tempo, serão essenciais, tanto para identificação de momentos de convergência até então inéditos no relacionamento bilateral, quanto para revelar o impacto negativo das forças políticas da Guerra Fria sobre a estabilidade dos governos do continente sul-americano. 5.5.1.2. A Política Externa Independente e o “Espírito de Uruguaiana” Em maio de 1958, poucas semanas após a posse de Arturo Frondizi na Argentina, o Presidente Juscelino Kubitschek, em carta endereçada ao Presidente norte-americano Dwight Eisenhower, destacava que a estabilidade do continente sul-americano e a mitigação dos movimentos subversivos na região apontava para a “necessidade urgente de investimentos nas ‘áreas economicamente atrasadas do continente’, de programas de assistência técnica, mecanismos ‘capazes de proteger os preços dos produtos de base’, e recursos de organismos financeiros internacionais” (GARCIA, 2005, p. 179). A diplomacia de JK, direcionada para a promoção do desenvolvimento nacional por meio da atração de ajuda financeira externa, dava início à Operação Pan-Americana (OPA). Na Argentina, Frondizi compartilhava da estratégia desenvolvimentista a fim de melhorar as contas nacionais e permitir que seu governo concretizasse a implantação de um complexo siderúrgico, essencial para a introdução da indústria automobilística naquele país, bem como de outros ramos da produção manufatureira, como as indústrias química e farmacêutica. De acordo com Moniz Bandeira (2003, p. 333), durante sua gestão à frente da Casa Rosada, Frondizi lograra atrair cerca de US$ 369 milhões em investimentos estrangeiros para o país, o que representava um recorde à época. Portanto, verifica-se que tanto Frondizi quanto JK compartilhavam estratégias de desenvolvimento nacional e buscavam, por meio de suas políticas externas, atrair investimentos essenciais à modernização produtiva da Argentina e do Brasil. Nesse contexto, antes do lançamento oficial da OPA, a Chancelaria brasileira realizou consultas de alto nível junto à Presidência da Argentina a fim de obter o apoio de Frondizi para a proposta de cooperação com os EUA que se pretendia lançar. O gesto brasileiro, de acordo com Vidigal (2009, p. 39), despertou em Frondizi profunda confiança de que o Brasil desejava de fato iniciar uma nova etapa do relacionamento com a Argentina e, assim, poderia contar com o decidido apoio de Buenos Aires para a concretização da OPA. Não somente na Argentina, mas em praticamente todas as nações latino-americanas havia, porém, forças políticas que punham em dúvida as reais intenções do Brasil quanto à liderança na proposição da Operação - vista como possível ato de “hegemonia” brasileira - bem como despertava-lhes receio quanto à interpretação que dariam os EUA sobre a tentativa brasileira de conduzir a OPA fora do escopo do pan-americanista preconizado por Washington. As negociações relativas à Operação Pan-Americana, que se seguiram com o governo norte-americano ao longo de 1958, levaram à criação, no âmbito da OEA, de Comitê Especial destinado ao estudo e à proposição de mecanismos de cooperação econômica (Comitê dos 21), cuja criação contou com o apoio argentino. De fato, a proposta original de JK para a OPA previa a realização de uma conferência de Chefes de Estado da região, por meio da qual se buscasse atuação coordenada no mais elevado nível, a fim de exigir dos EUA ações efetivas na priorização do desenvolvimento latino-americano. A estratégia dos EUA de “reduzir” a OPA à cooperação no âmbito da OEA, neutralizando a liderança brasileira na proposta, levou a que o Comitê dos 21, em sua primeira reunião, em setembro de 1958, excluísse a “possibilidade de um ‘Plano Marshall’ para a América Latina, frustrando o representante brasileiro Augusto Frederico Schimidt” (GARCIA, 2005, p. 179). A despeito do apoio argentino à concentração das discussões do tema no Comitê dos 21, a OPA contou com o explícito apoio de Frondizi durante visita a Washington, em janeiro de 1959, como salienta Carlos Eduardo Vidigal (2009, p. 42): O atendimento à solicitação brasileira de uma menção explícita à OPA teve lugar no discurso proferido por Frondizi ante o Conselho da OEA, no dia 22.01.1959. Frondizi enalteceu a criação do Comitê dos 21 como forma de encaminhar a solução das grandes dificuldades encontradas pelos países latino-americanos na sua luta pelo desenvolvimento: a falta de recursos financeiros e a falta de técnicos. Nesse contexto, referiu-se à OPA de forma bastante elogiosa, mas genérica, reafirmando o apoio argentino à proposta. O bom nível de entendimento entre Brasil e Argentina permitiu a assinatura, em novembro de 1959, de um conjunto de acordos de cunho comercial, ademais de Declaração Conjunta, por meio da qual se estabeleceu mecanismo de consultas relativo a diversos temas da pauta bilateral, tais como cooperação jurídica e aduaneira, combate ao contrabando e ao descaminho e integração logística (transportes aéreo e fluvial). Persistiam, no entanto, pontos sensíveis ao relacionamento bilateral que anos mais tarde viriam à tona, como o aproveitamento energético da Bacia do Prata, a participação de ambos os países na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e a negociação do Tratado da Antártida que, concluído em dezembro de 1959, não contou com a adesão brasileira. Os anos seguintes, até 1962, reforçariam o bom momento das relações entre Brasil e Argentina, a despeito do recrudescimento da pressão do Departamento de Estado dos EUA com relação ao posicionamento dos países latino-americanos acerca do governo revolucionário de Cuba, que se aproximava da URSS de forma cada vez mais decidida. No início do Governo de JânioQuadros, em 1961, a Chancelaria argentina buscava compreender quais as possíveis mudanças que poderiam operar na política externa brasileira em contexto no qual era essencial para o governo de Frondizi separar a problemática cubana de sua política externa. Em outras palavras, buscava-se colher percepções do novo paradigma das relações internacionais do Brasil a fim de definir pela continuidade ou ruptura do relacionamento alcançado durante a Presidência de JK. Para a Argentina, era ainda essencial garantir mercado para sua crescente produção industrial e, nesse contexto, era necessário buscar certa abertura no mercado brasileiro para trocas que não relegassem aos argentinos o papel exclusivo de fornecedores de matérias-primas. Nesse contexto, teve lugar na cidade de Uruguaiana (RS), em abril de 1961, o encontro entre os Presidentes Frondizi e Jânio Quadros, durante o qual foram assinados o Convênio de Amizade e Consulta entre Brasil e Argentina e a Declaração de Uruguaiana. O primeiro ato internacional, assinado pelos Chanceleres Diógenes Taboada (Argentina) e Afonso Arinos de Melo Franco (Brasil), era aberto à adesão por outros países da região, e sentava as bases de futuro sistema de cooperação para assuntos econômicos, jurídicos e culturais; trazia, ainda, como inovação, a previsão de esforços para a livre circulação de nacionais brasileiros e argentinos. A Declaração, firmada pelos Presidentes, por sua vez, estabelecia mecanismo de concertação política para a atuação conjunta dos países nos assuntos internacionais que envolvessem a região, além de reforçar o princípio de não intervenção na soberania de ambos os países. Durante o encontro, foram ainda discutidos outros aspectos do relacionamento bilateral, como a evolução do comércio, com ênfase para as novas oportunidades de desgravação tarifária oferecidas pela recém-criada ALALC, e a questão da cooperação militar, na qual se avançaram os entendimentos para aumento do intercâmbio de informações e realização de exercícios conjuntos de defesa. Restava claro que a desconfiança e a rivalidade que caracterizaram o relacionamento bilateral nos anos em que Perón estivera à frente da Casa Rosada estavam superados, e que Brasil e Argentina haviam alcançado nível de cooperação e entendimento inéditos até então. A esse momento, que duraria cerca de mais um ano, deu-se o nome de “Espírito de Uruguaiana”. O momento político em que ocorrera o encontro, no entanto, era desfavorável para adoção de posturas relativas à política internacional que não expressassem completa adesão ao pan-americanismo proposto pelos EUA. No início de 1961, a adesão do regime revolucionário de Fidel Castro aos princípios socialistas tornavam a “questão cubana” fator de pressão sobre as Chancelarias e “combustível” para os grupos de oposição aos governos da América do Sul. A respeito, recorda-se que, menos de um mês após a posse de Jânio Quadros, o mandatário brasileiro recebeu enviado especial do governo norte-americano, Adolf Berle Jr., que tinha por missão obter apoio do Brasil para a iminente intervenção unilateral que os EUA planejavam realizar em Cuba. A questão cubana levaria o Presidente John Kennedy a anunciar, em março daquele ano, a Aliança para o Progresso, programa de fomento ao desenvolvimento da América Latina que retomava princípios contidos na Operação Pan-Americana de JK. A Aliança para o Progresso e a questão cubana, que se agravara com a tentativa de intervenção norte-americana em Cuba (invasão da Baía dos Porcos) foram, igualmente, temas debatidos por Frondizi e Jânio Quadros em Uruguaiana. Quanto ao primeiro tema, malgrado o perfil assistencialista e pouco efetivo da proposta norte-americana, não havia divergências quanto ao apoio a ser prestado pelos dois países à implementação da Aliança, que foi saudada sem maiores críticas. A situação em Cuba, porém, elevava a tensão entre diferentes setores políticos de Brasil e Argentina: para os militares argentinos, e para a própria Chancelaria daquele país, havia o receio de que o neutralismo atribuído à política externa independente de Jânio Quadros o levasse a articular com Frondizi posição comum quanto à não intervenção em Cuba. Tal preocupação mostrava-se pertinente, tendo em conta que, alguns dias após o encontro de Uruguaiana, o Itamaraty divulgou o seguinte comunicado (FRANCO, 2007, p. 75 e 76) acerca da situação em Cuba, o qual rejeitava a adoção de qualquer medida de caráter intervencionista na ilha caribenha: Trechos de comunicado sobre a posição brasileira em assuntos atuais de política internacional COMUNICADO Em 10 de maio de 1961. Posição brasileira A posição do governo brasileiro, relativamente aos problemas atuais do continente, apoia-se nos seguintes princípios, que serão sustentados no âmbito da OEA: a) a paz mundial é fundada na autodeterminação de todos os povos; b) a autodeterminação é o princípio da liberdade aplicado à organização internacional; c) o elemento garantidor da autodeterminação é o princípio da não intervenção; d) a não intervenção se opõe tanto à dominação econômica quanto à dominação ideológica; e) a não intervenção se aplica, ainda, quanto à implantação do sistema de governo representativo, sistema que o Brasil prefere, recomenda e pratica, como o melhor para as Américas. O Brasil, fiel às suas tradições históricas e diplomáticas, integrado no Ocidente e na América, sem qualquer aspiração que não a do bem geral, estará sempre pronto, seja como mediador entre governos em litígio, seja cooperando em organismos e órgãos internacionais, a sustentar os princípios e estabelecer as práticas acima enunciadas em procura da aspirada e esperada paz mundial. A questão de Cuba Em relação à situação cubana, o governo brasileiro aplica rigorosamente os princípios que esposa e, em consequência: 1) defende a autodeterminação do povo de Cuba; 2) opõe-se a qualquer intervenção estrangeira, direta ou indireta, para impor à Cuba determinada forma de governo e considerando-se intervenção indébita tanto a militar como a econômica ou ideológica; 3) não reconhecerá, de acordo com os compromissos internacionais vigentes, em qualquer Estado americano, regime político que resulte da ingerência claramente manifestada de potência estrangeira; acompanhará, neste caso, as medidas de preservação da integridade continental, que não impliquem intervenção em qualquer dos países do hemisfério. A renúncia de Jânio Quadros, em agosto de 1961, não trouxe significativas mudanças para a política de relações bilaterais. Pelo contrário, o “Espírito de Uruguaiana” parecia se desenvolver de forma cada vez mais efetiva: reunidos em Buenos Aires, em novembro daquele ano, os Chanceleres Ramón Cárcano (Argentina) e San Tiago Dantas (Brasil) adotaram Declaração Conjunta na qual “ratificaram a cordial amizade existente entre os dois países e reafirmaram, em todos os seus aspectos, os princípios definidos na Declaração de Uruguaiana e no Convênio de Amizade e Consulta assinado na cidade de mesmo nome” (FRANCO, 2007, p. 195). Quanto à questão cubana, a Declaração ia além e explicitava a posição dos Chanceleres segundo a qual “coincidiram em que Brasil e Argentina em nenhum momento declinarão de sua posição de defesa dos princípios da não intervenção nos assuntos internos e externos dos Estados e da livre determinação dos povos” (FRANCO, 2007, p. 196). A par destes entendimentos, as Chancelarias brasileira e argentina articularam posição comum para a VIII Reunião dos Ministros das Relações Exteriores das Repúblicas Americanas, realizada em Punta del Este, em janeiro de 1962, a qual teve por objetivo principal efetuar a expulsão de Cuba do sistema interamericano. De acordo com Vidigal (2009, p. 62), havia consenso por parte de Brasil e Argentina quanto a dois pontos básicos: não seria justificável a expulsão de Cuba pelo fato de seu governo não ser democrático, tendo em conta a coexistência de outros regimes de exceção na América Latina; a manutenção de Cuba na OEA possibilitaria aos países americanosexercer pressão sobre o governo de Fidel Castro a fim de evitar a “exportação” das ideias revolucionárias para os demais países do continente. Em outros termos, seria melhor trazer o governo revolucionário de Cuba para as esferas de cooperação do que tentar isolá-lo, dando-lhe força às razões de seu rompimento democrático e ideológico com os ideais pan-americanos. Durante o encontro de Punta del Este, Brasil e Argentina, como as duas maiores economias latino-americanas, desempenharam papel essencial na tentativa de se evitar a expulsão de Cuba, consumada às custas de barganhas realizadas pelos EUA junto aos países menos avançados do continente. Os desdobramentos acerca da posição de alinhamento com o Brasil, adotada pelo Chanceler Ramón Cárcano durante a VIII Reunião, fomentaram os grupos oposicionistas na Argentina que, conduzidos por segmentos descontentes das forças armadas, as quais receavam perder o apoio técnico e financeiro dos EUA, forçaram o governo de Frondizi a romper relações diplomáticas com o governo cubano apenas alguns dias após o encontro de Punta del Este. O golpe de Estado contra Frondizi tivera início e seria efetivado no final de março de 1962, quando o mandatário argentino foi deposto e preso, passando a Argentina a ser governada, de forma provisória, pelo Presidente do Senado, José Maria Guido, de acordo com as “diretrizes” dos comandantes das forças armadas, os quais trataram de romper imediatamente com o “Espírito de Uruguaiana” e com todas as formas de concertação política com o Brasil. 5.5.2. Brasil e Argentina sob o regime dos governos militares: da rivalidade ao entendimento A partir de meados da década de 1960 e até o início dos anos 1980, Brasil e Argentina vivenciaram momentos de aproximação, desconfianças, ruptura e reencontro, os quais se inserem no contexto de instabilidade que caracterizou o continente sul-americano. Durante esse período, de aproximadamente vinte anos, os dois países estiveram, na maior parte do tempo, sob regimes não democráticos, originados da tomada do poder por grupos militares que, embora convergissem na necessidade de contenção e combate às influências comunistas no continente, eram, sobretudo na Argentina, heterogêneos, tanto na forma de conduzir o relacionamento bilateral, quanto na de definir suas prioridades nacionais. Seria, portanto, errôneo afirmarmos que os governos militares de Brasil e Argentina convergiam em seus princípios de política externa, ou mesmo quanto à forma de relacionamento com os EUA ao longo daqueles anos. Vejamos, portanto, de forma breve e resumida, as principais diferenças de posicionamento entre os governos militares que ocuparam o Palácio do Planalto e a Casa Rosada. No Brasil, observa-se que os governantes militares adotaram políticas comuns de desenvolvimento econômico, para as quais a diplomacia passava a ter papel essencial na promoção das condições favoráveis à expansão do comércio e do investimento, por meio da busca de novos parceiros internacionais, sobretudo a partir do governo do General Costa e Silva. Conforme afirmam Boris Fausto e Fernando Devoto (2004, p. 400), os militares dividiam-se entre os liberais-conservadores (também conhecidos como sorbonnards) e os “linha-dura”. Os primeiros, eram em grande parte oriundos de grupo ligado à Escola Superior de Guerra (ESG), então comparada pelos próprios militares à Sorbonne francesa, e, por isso, deram a seus egressos a alcunha de sorbonnards. Tinham por base uma ideologia liberal-conservadora que, no plano da política externa, preconizava o apoio incondicional aos EUA e seus mecanismos de controle da “ordem” na América Latina. No plano interno, os sorbonnards, dentre os quais se destacaram os Generais Humberto Castello Branco e Ernesto Geisel, tinham por objetivo “restaurar a ordem social e a democracia, purificando-a previamente, por meio da eliminação dos corruptos, dos ‘pelegos’ sindicais, dos populistas que tinham infelicitado o país” (FAUSTO; DEVOTO, 2004, p. 400). Já os “linha-dura” optaram por manter certo nível de independência na adesão às posturas norte-americanas no plano internacional, conferindo à política externa brasileira maior universalidade e capacidade de diálogo com novos atores. O combate ao comunismo na América Latina, inclusive com o discreto, porém decidido, apoio à implantação das ditaduras no Uruguai, na Bolívia e no Chile, entre 1971 e 1973, levou o Presidente norte- americano Richard Nixon a afirmar, em 1971, que “para onde for o Brasil, irá o resto da América Latina”. A despeito das diferenças conceituais entre os grupos militares no Brasil, é inegável que o regime tivera traços de continuidade e estabilidade muito superiores àqueles verificados no país vizinho. Na Argentina, o quadro político interno no qual se originaram os governos militares era consideravelmente mais instável que o do Brasil. E essa instabilidade devia- se a um fator essencial: a constante presença política do Peronismo e, até 1974, do próprio General Juan Domingo Perón. Assim, debatiam-se as Forças Armadas entre o apoio a uma convivência “tolerada” com as forças peronistas, como ao longo do governo do General Juan Carlos Onganía (1966-1970), e o aberto combate aos grupos justicialistas, como observado no governo do General Alejandro Lanusse (1971-1973). Nesse contexto de forças, o governo da Argentina buscava, até meados da década de 1970, sua legitimidade interna e sua afirmação internacional na condição de parceiro preferencial dos EUA na América Latina; dessa situação, originava-se a rivalidade “natural” com o Brasil e as desconfianças de um em relação ao outro quanto à fidedignidade dos planos de aproximação. As ideias de “contenção”, “isolamento” e “submissão” das políticas externas do Brasil em relação à Argentina, e vice-versa, limitavam as possibilidades de interação entre os dois países. Lançadas estas breves ideias acerca das diferenças dos regimes militares nos dois países, retomemos a análise do relacionamento bilateral. Com a deposição do Presidente João Goulart, em março de 1964, e o início dos governos militares que se sucederam no Brasil até 1985, a política externa independente seria imediatamente rompida para dar lugar à estratégia de aproximação com o governo dos EUA similar em suas formas com o período do governo do Presidente Eurico Dutra, conhecido como de “alinhamento automático”. Para o General Castello Branco (1964-67), o conceito de soberania “não mais se fundaria em limites e fronteiras geográficas dos Estados e sim no caráter político e ideológico dos regimes, de modo que os Estados americanos pudessem intervir, coletivamente, em qualquer outro, quando algum governo aceito como democrático estivesse ameaçado por movimento supostamente comunista” (MONIZ BANDEIRA, 2003, p. 386). Para o General, cabia às Forças Armadas atuar sempre que necessário na manutenção da democracia, afastando forças subversivas capazes de comprometer a ordem pública. Nesse ponto de vista, Brasil e Argentina apresentaram similaridades no período que vai de 1964 a 1967. A primeira demonstração de convergência entre Brasil e Argentina quanto aos princípios relativos ao combate ao “perigo comunista” na América Latina se deu com o reconhecimento conjunto do regime do General René Barrientos, instalado na Bolívia em 1964, sob o propósito de combater a influência socialista sobre os trabalhadores das minas de ferro, os quais, como se sabe, passaram a contar com o apoio de Ernesto Che Guevara. Menos de um ano depois, em maio de 1965, Brasil e Argentina voltariam a apresentar opiniões semelhantes por ocasião da X Reunião de Consulta dos Chanceleres Americanos, realizada em Washington, a qual tinha por objetivo principal promover a criação, no âmbito da OEA, da Força Interamericana de Paz (FIP). A primeira missão da FIP seria atuar na República Dominicana, país que sofrera, poucos dias antes da X Reunião, intervenção unilateral dos EUA a fim de devolver o poder ao ex-presidente Juan Bosch, que sofrera golpe militar. O apoio do Brasil à propostanorte- americana de criação da FIP rendeu-lhe o comando da missão no país caribenho, sendo então organizado o Destacamento Brasileiro da Força Armada Interamericana (FAIBRÁS), com um Batalhão do Exército e um Grupamento de Fuzileiros Navais, cujos efetivos chegaram a mais de mil militares. Em 29 de maio de 1965, o General de Exército Hugo Panasco Alvim assumiu o Comando Unificado da FIP, que contava ainda com tropas enviadas por Paraguai, Honduras, Costa Rica e Nicarágua. A liderança brasileira na atuação da FIP foi bem aceita pela Argentina, tendo o governo de Arturo Illia chegado a encaminhar ao Congresso Nacional pedido de autorização para envio de contingentes militares para a FIP. No entanto, diante da perspectiva de que seu pedido de autorização fosse negado pelos congressistas, Arturo Illia voltou atrás com a medida e a Argentina não chegou a cerrar fileiras ao lado do Brasil em Santo Domingo. De fato, a desistência de Illia deveu-se às disputas políticas internas entre o partido político que o apoiava, a União Cívica Radical do Povo (UCRP), o qual se opunha diametralmente ao Partido Justicialista (peronistas). Embora não se possa atribuir a queda de Arturo Illia às discussões sobre a participação da Argentina na FIP, o episódio contribuiu para a insatisfação dos dirigentes das Forças Armadas. Ressalta-se que o Comandante do Exército, General Juan Carlos Onganía, era oriundo de ala moderada das Forças Armadas, a qual pregava a importância de manter certa coexistência com os peronistas, dadas as capacidades destes últimos de conter os avanços dos partidários do comunismo. O desfecho da crise seria a deposição de Arturo Illia e a implantação, a partir de 1966, do governo militar na Argentina sob o comando do próprio General Onganía. O período compreendido entre o início do governo de Onganía e o final do governo de Castelo Branco é marcado por similaridades nos posicionamentos de política externa, os quais perduram, em menor grau, até o ano de 1969 (governo do General Costa e Silva). De acordo com Moniz Bandeira (2003, p. 398): [...] o avigoramento da colaboração entre Brasil e Argentina constituiu uma consequência natural da similitude de seus regimes, ambos com a mesma matriz ideológica (doutrinas de segurança, contra-insurreição e ação cívica, atribuindo às Forças Armadas a responsabilidade pelo desenvolvimento do país), bem como de suas políticas interna (liberalismo econômico e autoritarismo político) e externa (fronteiras ideológicas e alinhamento incondicional com o Ocidente). Ao longo daqueles anos, porém, começavam a surgir os primeiros pontos de desconfiança e rivalidade entre Brasil e Argentina. Ainda em 1966, o Chanceler brasileiro, Juracy Magalhães, afirmava a disposição do governo de Castelo Branco em empreender negociações com Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai a fim de implantar usina siderúrgica multinacional em Corumbá (MS) para beneficiamento de ferro e magnésio extraídos das jazidas de Cerro Mutún, na Bolívia. Na prática, a intenção integracionista do Brasil encobria estratégia de limitação do acesso argentino às jazidas bolivianas, e a Argentina, que investia no aumento do valor agregado de sua produção, colocaria obstáculos à criação desta usina multinacional, pois buscava meios próprios de tornar-se autossuficiente na produção ferrífera. A partir de 1967, com a ascensão do General Artur da Costa e Silva ao poder no Brasil, a política externa passa, nas palavras de Amado Cervo e Clodoaldo Bueno (2011), por uma “nova correção de rumos”, que consistia na priorização do desenvolvimento nacional por meio da adoção de política externa de caráter ocidental e anticomunista, mas não “alinhada automaticamente” ao governo de Washington. Ao discursar no Palácio Itamaraty, em abril de 1967, o General Costa e Silva lança as bases da Diplomacia da Prosperidade, retomando o universalismo da política externa independente como um dos princípios necessários à promoção externa dos esforços do desenvolvimento nacional. Nas palavras de Amado Cervo e Clodoaldo Bueno (2011, p. 409): Foram, primeiramente, eliminados, a partir de um diagnóstico do sistema internacional, os conceitos agora inadequados para orientar a política externa: a) a bipolaridade, porque o conflito Leste-Oeste esmoreceu, o entendimento entre as duas superpotências avançou, a coesão dos sistemas de alianças enfraqueceu, ao tempo em que a divisão Norte-Sul acentuou-se; b) a segurança coletiva, porque não serve à superação da desigualdade, “em um mundo em que cada vez mais se acentua o contraste entre a riqueza de poucos e a pobreza de muitos”; c) a interdependência militar, política e econômica, porque as políticas se guiam pelos interesses nacionais e não por motivações ideológicas; d) o ocidentalismo, porque eivado de prevenções e preconceitos que tolhem à ação externa as vantagens do liberalismo. Diante do novo paradigma de política externa do General Costa e Silva, oriundo da ala “linha-dura” do pensamento militar, a parceria com o governo argentino, como forma de garantir tanto a segurança coletiva do continente latino-americano quanto a adesão aos mecanismos de promoção do pan-americanismo baseado na Doutrina Monroe, não mais atendiam aos imperativos do desenvolvimento nacional. O modelo de desenvolvimento econômico brasileiro, baseado na indução estatal dos setores produtivos considerados estratégicos, tais como as indústrias de base e a produção energética, não deveriam, igualmente, submeter-se à concertação política com o governo de Buenos Aires. Assim, a participação brasileira na FIP perdia o sentido, bem como o desenvolvimento de projetos comuns de aproveitamento dos recursos hídricos e minerais da Bacia do Prata. O relacionamento bilateral entre Brasil e Argentina passava por novo período de afastamento que, a partir de 1969, caminharia para situações de rivalidade. Ao mesmo tempo em que o Brasil se afastava do “alinhamento automático” com os EUA, a Argentina tornava-se cada vez mais arraigada à centralidade das relações com o governo norte-americano. Tal fato pode ser identificado na postura argentina ao longo da III Conferência Interamericana Extraordinária (1967), quando o Chanceler Nicanor Costa Mendez propôs o estabelecimento de Comitê Consultivo de Defesa, no âmbito da OEA, com formato e princípios análogos à FIP. Tornava-se evidente que o governo de Buenos Aires passava a disputar com o Brasil a condição de “parceiro privilegiado” dos EUA na contenção das forças subversivas da América Latina. No que tange à gestão dos recursos hídricos do Cone Sul, Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai firmaram, em abril de 1969, o Tratado da Bacia do Prata, com o objetivo de desenvolver mecanismos concretos que possibilitassem a utilização do estuário do Rio da Prata para o escoamento de mercadorias e para a geração de energia. Para a Argentina, o Tratado seria utilizado como forma de evitar a rivalidade direta com o Brasil, ao envolver os outros três mencionados países nas discussões sobre os projetos de desenvolvimento da região. De fato, o governo argentino enfrentava dificuldades financeiras para execução dos projetos regionais de construção das hidrelétricas de Corpus e Yaciretá-Apipé ao mesmo tempo em que o Brasil iniciava os entendimentos com o Paraguai para a construção da usina de Itaipu, o que poderia levar a região de Foz do Iguaçu a suplantar Buenos Aires como polo produtivo principal do Cone Sul. Nesse contexto, a partir de 1971, o governo argentino, tendo o General Alejandro Lanusse à frente da Casa Rosada, passou a adotar postura de confrontação direta com o Brasil ao afirmar que os temas relativos à definição das quotas (altura) das quedas d’água a serem adotadas na construção de Itaipu deveriam ser objeto de análise prévia da Argentina e, em último caso, deveria o assunto ser remetido ao âmbito do Direito Internacional. O espírito de cooperação preconizado pelo Tratado da Bacia do Prata estava evidentemente ignorado pelo governo de Lanusse, o qual buscava, ainda, aproximar-sedos demais países da região a fim de retomar correntes de comércio que permitissem à Argentina promover o desenvolvimento de sua indústria, cuja estagnação contrastava com os elevados índices de crescimento do “milagre econômico” brasileiro. O Brasil, por sua vez, ignorava os apelos da Argentina pela realização da análise prévia dos projetos de aproveitamento da Bacia do Prata. O vigoroso crescimento econômico do país, aliado ao projeto nacional- desenvolvimentista, tornava o governo do General Emílio Garrastazú Médici capaz de impor-se frente à Argentina. As boas relações do Brasil com os EUA mantinham-se mesmo diante de uma política externa que era implementada de forma mais universalista do que nos primeiros anos do regime militar. Este bom momento das relações com a potência do Norte decorria do apoio brasileiro aos golpes militares realizados no Uruguai, na Bolívia e no Chile. Exemplo da convergência política entre Brasil e EUA pode ser demonstrado com o reconhecimento, pelo Presidente Richard Nixon, da condição de potência emergente do Brasil, durante visita do General Médici aos EUA, em 1971. Para a Argentina, a distinção do relacionamento entre Brasil e EUA era motivo de ciúmes, que agravavam o quadro de rivalidade bilateral. O isolamento da Argentina tornava-se cada vez mais evidente, sobretudo a partir das iniciativas brasileiras de desenvolvimento de canais de escoamento da produção dos países da Bacia do Prata por meio dos portos de Santos, Paranaguá e Rio Grande, os quais substituíam o tradicional Porto de Buenos Aires. Em 1973, Juan Domingo Perón retorna à Presidência na Argentina. Durante o breve período em que esteve novamente no poder, interrompido devido a sua morte em julho de 1974, Perón “retoma o projeto de ‘autonomia heterodoxa’: a Argentina integra o Movimento Não Alinhado e aprofunda laços com países afro-asiáticos, ao mesmo tempo em que mantém relações ‘normais’ com os Estados Unidos” (CANDEAS, 2005). A tentativa de retirar a Argentina do isolamento passava, de acordo com Perón, pelo resgate das relações de cordialidade com o Brasil e pela retomada dos projetos das hidrelétricas de Corpus e Yaciretá com o Paraguai, país com o qual o Brasil firmara, em abril de 1973, o Tratado de Aproveitamento Hidrelétrico do Rio Paraná entre o Brasil e o Paraguai para a construção da usina de Itaipu e o Estatuto da Itaipu Binacional, empresa brasileiro- paraguaia destinada à gestão da construção e da operação da usina. Com o precoce falecimento de Perón, em 1974, a Presidência da Argentina passa para as mãos de sua mulher, María Estela Martínez de Perón (Isabelita), que, diante do conflito de forças políticas no país, busca retomar a aproximação com os EUA. Tendo em conta o quadro de dificuldades políticas internas, as relações entre Brasil e Argentina permanecem estagnadas até 1976, quando o governo de Isabelita é deposto por novo golpe empreendido pelo General Jorge Rafael Videla, que daria origem a novo ciclo de governos militares, os quais seriam encerrados somente em 1983. O regime militar iniciado na Argentina em 1976 dá origem ao “Processo de Reorganização Nacional” que, de acordo com Vidigal (2009, p. 202), teria por objetivo “o reestabelecimento da ordem política interna, a superação da crise econômica e a reinserção internacional do país”. Por “reinserção internacional do país”, entendiam os militares argentinos ser necessária a reaproximação com o governo dos EUA, a fim de buscar com os credores norte-americanos condições de superação da crise financeira que se abatia sobre a economia do país. No entanto, diante da “política dos Direitos Humanos” adotada por Jimmy Carter (1977-1981) no relacionamento com os países da América Latina, a convergência imediata com o governo dos EUA tornava-se inviável tendo-se em conta a brutal repressão aos opositores do regime militar. Diante do difícil diálogo com os EUA, o governo do General Videla optou por manter o caráter universal de sua política externa a fim de evitar, uma vez mais, o isolamento da Argentina. Assim, o país continuou a participar do Movimento Não Alinhado e, paradoxalmente, reforçou-se a cooperação com a URSS, para a qual a Argentina exportava considerável volume de trigo. Na origem dos problemas argentinos encontravam-se as dificuldades econômicas do país, o qual ainda detinha pauta de comércio exterior baseada em commodities, com especial destaque para o trigo. A cooperação com os países da região, em especial com o Brasil, tornava-se essencial para as indústrias argentinas e, ademais, a construção da hidrelétrica de Itaipu já se tornara fato consumado. Nesse contexto, a rivalidade com o Brasil acerca do aproveitamento da Bacia do Prata requeria mudança de atitude por parte da Argentina, a fim de que fosse o tema negociado de forma tripartite, com a inclusão do Paraguai, sócio do Brasil na Itaipu Binacional. Dessa forma, iniciava-se nova fase do relacionamento argentino-brasileiro, na qual, a despeito da busca pelo entendimento quanto ao aproveitamento dos rios, verificam-se episódios de elevada rivalidade, como em julho de 1977, quando são temporariamente fechadas as fronteiras entre os dois países devido a divergências no processo negociador de Itaipu. Mas quais seriam, de fato, as novas condições geopolíticas e econômicas que determinavam esta “nova fase”? Na visão de Moniz Bandeira (2003), ademais do “fato consumado” em relação à construção de Itaipu, iniciada ainda em 1975, a Argentina, a partir de 1977, retomava sua disputa com o Chile pelo Canal de Beagle, o que tornava mais grave o risco de isolamento regional, com possíveis consequências sobre a própria dimensão do território argentino. Ademais, o Brasil, em cooperação com a República Federal da Alemanha (RFA), desenvolvia, desde 1975, tecnologia nuclear para fins pacíficos, fato que, igualmente, exigiria, por parte da Argentina, disposição para o diálogo a fim de se evitar desconfianças quanto a uma possível corrida armamentista pela qual os dois países não poderiam pagar. Sobre todos esses pontos, incidiam as dificuldades financeiras vivenciadas pelos países da América Latina, sobretudo a partir de 1979, as quais exigiriam esforços por parte de Brasil e Argentina para a consolidação de mercados para seus produtos, a fim de evitar que a estagnação do crescimento, que se impunha nos primeiros anos década de 1980, levasse os países do Cone Sul à beira do colapso. Nesse conjunto de fatores, encontra-se, a partir do final dos anos 1970, a origem do processo de integração entre Brasil e Argentina. Assim, a assinatura do Acordo Tripartite para o Aproveitamento Hidrelétrico de Itaipu e Corpus, em 1979, a assinatura do Tratado de Montevidéu, em 1980, para o estabelecimento da Associação Latino-americana de Integração (Aladi), em substituição à ALALC, e a Declaração de Iguaçu sobre cooperação pacífica no campo da energia nuclear, em 1985, contêm as bases da nova dinâmica de relacionamento entre Brasil e Argentina verificada ao longo dos últimos 35 anos. A trajetória das relações Brasil-Argentina entre as décadas de 1980 e 1990 se confunde com o histórico da integração regional, a qual, partindo da Ata de Integração Argentino-Brasileira e do Programa de Integração e Cooperação Econômica (PICE), ambos de 1986, chega à formação do Mercado Comum do Sul (Mercosul), em 1991. A dinâmica das relações entre os dois países naquelas décadas encontra-se de forma detalhada no item 3.1.1.4 desta obra, contido no capítulo 3 do tomo I, relativo à “Integração Regional na América do Sul: as origens do processo e a perspectiva contemporânea”. Por razões didáticas, optou o autor por retomar este capítulo com a análise das relações Brasil e Argentina a partir de 2002, quando se verificam mudanças substanciais no relacionamento bilateral, sobretudo com as eleições de Luiz Inácio Lula da Silva para o Palácio do Planalto e de Néstor Kirchner para a Casa Rosada. 5.5.3. Brasil e Argentina no século XXI: estratégias comuns de desenvolvimento na América do Sul O final de décadade 1990 pode ser apontado como o início de grave crise financeira na Argentina, a qual levaria ao completo descontrole monetário que, dois anos mais tarde, tornaria o país insolvente junto às principais praças do comércio internacional. Sem dúvida, a decisão brasileira de promover, em janeiro de 1999, ampla desvalorização do Real frente ao Dólar provocou desequilíbrio no intercâmbio bilateral e desvio de correntes de comércio cuja solução exigiria do país vizinho o rompimento da política de abertura comercial e financeira verificada nos anos da longa Presidência de Carlos Menem (1989-1999). Recorda-se que Menem, orientado pelo Ministro da Economia, Domingos Cavallo, baseara sua política econômica na valorização do Peso Argentino, tornando-o equivalente ao valor do Dólar (conversibilidade), na privatização de empresas estatais e na concessão de serviços públicos à inciativa particular, sendo o “Plano Cavallo” benéfico à atração de investimentos estrangeiros para o país. Por outro lado, a Argentina sofria, na segunda metade da década de 1990, com a deterioração de suas contas públicas, sobretudo após as crises do México e da Ásia, as quais reduziram a disposição dos investidores internacionais em aplicar recursos nas economias em desenvolvimento e, por consequência, provocaram a valorização do Dólar frente ao Peso. No que tange à política externa da Argentina no período de Menem, verifica-se prioridade conferida ao relacionamento com os EUA, país com o qual o Chanceler Guido di Tella chegara a afirmar a intenção de desenvolver relaciones carnales30. A caricatura criada em torno da fala do Chanceler é considerada por muitos críticos do governo Menem uma espécie de “alinhamento automático” da Argentina ao governo norte- americano, conceituação que deve ser vista com certo cuidado, sobretudo quando recordamos que, ao contrário do isolamento regional vivenciado por Buenos Aires nos anos do regime militar (sobretudo nas administrações de Onganía e Lanusse), a Argentina da década de 1990 aprofundou seus laços com Brasil, Paraguai e Uruguai por meio da institucionalização e dos avanços comerciais no Mercosul. Havia, sem dúvida, esforço de aproximação do governo Menem com os EUA, como comprova o fato de ter o Presidente Bill Clinton concedido à Argentina, em 1997, o título de “País-aliado não membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)” - Major Non-NATO Ally -, o qual os EUA já outorgara a tradicionais parceiros geoestratégicos, como Nova Zelândia, Austrália, Japão e Coreia do Sul. Contudo, esse alinhamento não era excludente da interação com o governo de Fernando Henrique Cardoso no Brasil, e o exemplo disso é que, ainda em 1997, Brasil e Argentina firmaram Memorando de Entendimento sobre Consulta e Coordenação em Matéria de Defesa e Segurança Internacional. Portanto, ao invés de tomarmos a política externa de Menem do ponto de vista das “relações carnais”, devemos entendê-la sob os princípios do “realismo periférico”, segundo o qual os países de renda média e emergentes têm mais a ganhar com a parceria política e comercial com as principais potências do que com a inserção autônoma e universalista nas relações internacionais. O início do governo de Fernando de la Rúa, em 2000, ocorreu em momento crítico para a continuidade das políticas econômicas defendidas pela administração de Carlos Menem. Como candidato da União Cívica Radical (UCR) Fernando de la Rúa precisava contar com o apoio do Partido Justicialista (peronistas) no Congresso Nacional. A falta de governabilidade necessária à realização das reformas econômicas, que se tornavam inadiáveis para a reabilitação econômica da Argentina, levaram o país à beira da anarquia e à renúncia do Presidente. Entre dezembro de 2001 e fevereiro de 2002, a Argentina teve quatro presidentes, até que o Partido Justicialista, alegando a “Lei de Acefalia”, viabilizou a eleição indireta do Senador Eduardo Duhalde. Embora o Presidente Duhalde não contasse com amplo apoio popular, a base política peronista possibilitou a viabilização das reformas econômicas que levariam a Argentina a romper com o receituário liberal-ortodoxo de Carlos Menem e seu Ministro da Economia, Domingos Cavallo. A estratégia adotada foi dar espaço político e voz aos empresários do setor industrial da Argentina, o que contribuía para o aumento do interesse daquele país no processo de integração com o Brasil. Ao longo da grave crise financeira na Argentina, o Brasil desempenhou importante papel por meio da manutenção de investimentos naquele país, e mesmo da realização de novas inversões como, por exemplo, a compra da cervejaria Quilmes pela Ambev. Ao mesmo tempo, empresários norte- americanos e europeus deixavam o setor produtivo argentino, e o FMI impunha severos ajustes fiscais e monetários como condição prévia à concessão de ajuda financeira ao país. Assim, a Argentina vivenciava nova frustração quanto aos efetivos resultados de uma política de relações preferenciais com os EUA, a qual foi sintetizada da seguinte maneira por Alessandro Candeas (2010, p. 234): De fato, a crise de 2001-2002 produziu a virtual marginalização da Argentina do sistema internacional, o que a reaproximou do Brasil, que manteve posição de total solidariedade e apoio. Em contraste, os Estados Unidos e a Europa mantiveram-se alheios à deterioração argentina, deixando que o FMI rompesse negociações com Domingo Cavallo em 2001 e praticamente condenasse o Governo De la Rúa ao colapso. Essas atitudes fortaleceram as forças políticas internas que defendem a prioridade das relações com o Brasil e o MERCOSUL. Os efeitos do apoio brasileiro à Argentina, e a importância do intercâmbio comercial com o Mercosul, repercutiram nas eleições presidenciais de 2003. Nos meses que antecederam a votação, os principais debates sobre a política externa a ser adotada pelo país dividiam-se entre aqueles que apoiavam o candidato e ex-presidente Carlos Menem (ala centro-direita do Partido Justicialista) e o Governador da Província de Santa Cruz, Néstor Kirchner (também do Partido Justicialista31), cuja base de apoio se concentrava no Presidente Eduardo Duhalde. Para os menemistas, a Argentina deveria retomar seu alinhamento político e financeiro com os EUA por meio do estabelecimento de uma zona de livre comércio (contida na proposta da Área de Livre Comércio das Américas - ALCA) e da dolarização da economia (conversibilidade). Para os kirchneristas, sobressaía o discurso da redução das assimetrias no Mercosul e o aproveitamento das oportunidades de complementação produtiva contidos na aproximação com o Brasil e demais vizinhos, dentre os quais o Chile. A respeito, vale recordar que, antes do segundo turno das eleições, Kirchner buscou ganhar apoio popular por meio de visitas a Lula, recém-eleito Presidente do Brasil, e Ricardo Lagos, Presidente do Chile, o qual preconizava a aproximação com o Mercosul. 5.5.3.1. Governos Kirchner e Lula (2003-2010) Eleito Presidente da República no ano de 2003, Néstor Kirchner inicia seu mandato no mês de maio, tendo como meta principal recompor as finanças do país e a confiança dos credores internacionais. Durante seu mandato, a economia Argentina cresceu a uma média anual de 8,7% que, aliada a políticas de controle inflacionário e de distribuição de renda, permitiram tanto a queda nos índices de inflação quanto o aumento da renda real das famílias, com os consequentes efeitos benéficos sobre os índices de pobreza. A exitosa política econômica argentina contava com apoio dos investidores internacionais. Esse apoio era conferido, em parte, pela confiança que tinham na figura do Ministro Roberto Lavagna, o qual atuava, desde o governo de Eduardo Duhalde, na estratégia de estabilização da economia argentina. A despeito da plataforma social-democrata, o governo de Néstor Kirchner aproveitou o bom momento de recuperação da economia nacional para quitar, ainda durante seu mandato, toda a dívida contraída junto ao FMI para “salvação” da crise de 2001-2002. Ademais, seu governo adotou vigorosomecanismo de ajuste das contas públicas, estabelecendo metas de superávit fiscal superiores a muitas daquelas adotadas pelos países da região, inclusive o Brasil. No âmbito da política externa, o Presidente Néstor Kirchner adota postura altiva, por meio da qual rejeita submeter-se a alinhamentos pré- determinados, seja com os países desenvolvidos, seja com instâncias de integração regional que não permitam à Argentina desempenhar papel de destaque. Assim, ademais do abandono da visão do sistema internacional a partir do “realismo periférico”, a Argentina busca inserir-se de maneira autônoma nas relações internacionais, tendo o desenvolvimento de seu comércio exterior como meta principal de sua atuação externa. Quanto às relações bilaterais com o Brasil, a prioridade do Presidente Néstor Kirchner esteve centrada no “aprimoramento” dos mecanismos de integração, com o objetivo de evitar que se consumasse uma tácita “divisão internacional do trabalho”, na qual caberia à Argentina a exportação de commodities, e ao Brasil, o fornecimento de produtos industrializados. Nesse contexto, explica-se, por exemplo, a adoção do Mecanismo de Adaptação Competitiva (MAC), estabelecido entre Brasil e Argentina a partir de 2006, como espécie de “autorização prévia” para adoção de salvaguardas na aplicação integral da Tarifa Externa Comum, a ser adotada para proteção de setores industriais de Brasil e Argentina quando as exportações do vizinho estiverem causando, ou ameaçando causar, “dano importante” à economia doméstica. Recorde-se que o MAC é estudado com maiores detalhes no item 3.2, capítulo 3, tomo I, desta obra. A despeito das críticas direcionadas à postura, por vezes intransigente, verificada na condução das relações com os países vizinhos por parte do Presidente Kirchner, é importante reconhecermos que, no que tange aos mecanismos regionais de integração, esta linha de ação conduziu, em alguns momentos, à busca pela prática dos princípios de equidade contidos na normativa do Mercosul. Este “aprimoramento” do Mercosul parte, de fato, do bom nível de interação e convergência política entre os Presidentes Kirchner e Lula, os quais, desde o início de seus mandatos, buscaram reafirmar os princípios de promoção do desenvolvimento produtivo com justiça social. Entre 2003 e 2007, a diplomacia presidencial de Lula e Kirchner foi praticada com intensidade; no início de seus mandatos, os Presidentes se encontravam com periodicidade praticamente semestral. Assim, em junho de 2003, durante encontro de trabalho realizado em Brasília (BRASIL, 2003), os mandatários: [...] 3. Ressaltaram a grande convergência de valores e objetivos que norteiam seus governos e reiteraram a prioridade que ambos os países atribuem ao MERCOSUL e à integração sul-americana, destacando que esta deve ser promovida, no interesse de todos, tendo por objetivo a conformação de um modelo de desenvolvimento no qual se aliem o crescimento, a justiça social e a dignidade dos cidadãos. 4. Verificaram que tal convergência, ao traduzir-se em consultas frequentes e permanente coordenação política entre os dois governos, fortalece consideravelmente a aliança estratégica Brasil-Argentina. 5. Os Presidentes reafirmaram o compromisso de seus países com a democracia e a inclusão social, bases para a integração e o desenvolvimento da região. [...] Em outubro de 2003, Lula e Kirchner mantiveram encontro na capital argentina, do qual resultou o Consenso de Buenos Aires, que se trata de extenso documento no qual reafirmaram princípios comuns em diversas áreas de suas políticas internas, e apresentaram posições convergentes em relação aos principais temas discutidos nos organismos internacionais, tais como combate à fome e à pobreza, preservação do meio ambiente, educação, segurança etc. Quanto ao relacionamento bilateral e à integração regional, deve ser destacado o seguinte trecho do Consenso (BRASIL, 2003-A): 15. Ratificamos nossa profunda convicção de que o Mercosul não é somente um bloco comercial, mas, ao contrário, constitui um espaço catalisador de valores, tradições e futuro compartilhado. Dessa forma, nossos Governos estão trabalhando para fortalecê-lo através do aperfeiçoamento de suas instituições nos aspectos comerciais e políticos e da incorporação de novos países. 16. Entendemos que a integração regional constitui uma opção estratégica para fortalecer a inserção de nossos países no mundo, aumentando a sua capacidade de negociação. Uma maior autonomia de decisão nos permitirá enfrentar de maneira mais eficaz os movimentos desestabilizadores do capital financeiro especulativo, bem como os interesses contrapostos dos blocos mais desenvolvidos, amplificando nossa voz nos diversos foros e organismos multilaterais. Nesse sentido, destacamos que a integração sul- americana deve ser promovida no interesse de todos, tendo por objetivo a conformação de um modelo de desenvolvimento no qual se associem o crescimento, a justiça social e a dignidade dos cidadãos. Em março de 2004, foram firmados pelos Presidentes, no Rio de Janeiro, a Declaração sobre a Cooperação para o Desenvolvimento Econômico com Equidade e a Ata de Copacabana, a qual sintetiza objetivos e diretrizes comuns para o fortalecimento dos mecanismos de promoção do desenvolvimento produtivo no âmbito do Mercosul, e define padrões para o relacionamento do bloco com terceiros países. Nos termos da Ata, institui- se o dia 30 de novembro com o “Dia da Amizade Argentino-Brasileira”, em alusão à data de assinatura da Declaração de Iguaçu, em 30/11/1985, pelos Presidentes José Sarney e Raúl Alfonsín. É possível afirmarmos, portanto, que o governo de Néstor Kirchner buscou estabelecer com o Brasil relacionamento de caráter estratégico, no qual a antiga rivalidade cede lugar à parceria política baseada em valores e objetivos comuns, tais como a busca pela redução da assimetria no comércio bilateral e a realização de projetos comuns de desenvolvimento da integração física do continente. Conforme estudado de forma detalhada no capítulo 3 do tomo I desta obra, o Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), criado no ano de 2004 para desenvolver a competitividade e promover a coesão social nos países do bloco, é resultado do novo patamar ao qual foi alçada a interação argentino-brasileira no início do século XXI. Durante o mandato de Néstor Kirchner, a Argentina desenvolveu importante relação com o Governo venezuelano de Hugo Chávez, a qual foi reforçada e ampliada pela sua sucessora na Casa Rosada, a Presidenta Cristina de Kirchner. A parceria entre Argentina e Venezuela para alguns autores, como Miriam Gomes Saraiva (2012, p. 126), é vista como forma de contrabalançar a liderança brasileira no continente. Nos círculos mais próximos à figura do Presidente Kirchner, uma parceria estratégica com a Venezuela começou a desenhar-se como um mecanismo equilibrador da construção da liderança brasileira, que aumentaria, por sua vez, os instrumentos de barganha da Argentina. O governo venezuelano dedicou-lhe um claro apoio ao comprar títulos da dívida argentina, exercendo parcialmente o papel de um paymaster que a diplomacia brasileira evitava então assumir. Embora seja incorreto afirmarmos que Brasil e Venezuela estejam engajados em projetos opostos de integração, a liderança da Venezuela junto aos países da Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA) exige do Brasil capacidade de harmonizar as diferentes estratégias de integração regional Esse esforço de harmonização passa, sem dúvida, pela capacidade de apoio à Argentina, a principal sócia do Brasil nos esforços de desenvolvimento do continente. Todo relacionamento bilateral, por maiores que sejam as convergências, contemplam “temas sensíveis” - jargão diplomático adotado pelo Itamaraty para referir-se aos problemas e às controvérsias de uma relação. Ao longo da gestão do Presidente Lula, a principal “sensibilidade” no relacionamento bilateral com a Argentina, possivelmente, foi a falta de apoio do vizinho para a candidatura brasileira auma cadeira no Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU). Desde o início do mandato de Néstor Kirchner, o tema tem sido objeto dos encontros bilaterais e, nesse contexto, identificam- se avanços como a participação de diplomata argentino junto à representação do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, entre 2004 e 2006, quando o país assumiu uma das cadeiras rotativas (CANDEAS, 2010, p. 244). Em 2005, foi assinado Acordo-Quadro de Cooperação em Matéria de Defesa, que significa expressivo avanço em direção à convergência sobre as posições relativas ao tema no continente, sobretudo se compararmos à situação vivenciada na década de 1990, quando a Argentina buscava alinhar-se de forma mais concreta junto à OTAN. No entanto, o apoio argentino ao ingresso do Brasil no Conselho de Segurança nunca foi expresso pelo governo de Buenos Aires. Até hoje, convivem na política externa argentina dois pontos de vista sobre a matéria: de um lado, os opositores da candidatura brasileira veem a presença do país vizinho na ONU como um exercício da hegemonia do Brasil, na tentativa de manter a posição de “interlocutor” do continente junto aos organismos internacionais; por outro lado, verificam-se na Argentina opiniões “indiferentes” quanto ao tema, segundo as quais não seria interessante confrontar a candidatura brasileira, uma vez que a própria Argentina não teria expectativa de assumir uma cadeira permanente no CSNU. Para os adeptos da “indiferença”, a falta de apoio do Brasil em seu pleito na ONU prejudica, sem necessidade, as relações bilaterais. Assim, o governo de Néstor Kirchner e o de sua sucessora evitam confrontar o Brasil em relação a este tema, ao mesmo tempo em que preconizam que uma eventual reforma do Conselho não seja realizada à custa da redução da presença argentina no continente. A respeito deste tema, Eduardo Madrid e Mario Rapoport (2011, p. 119) se referem, nos seguintes termos, tendo em conta o contexto maior das diferentes estratégias de integração regional: Brasil pretende desde hace años un asiento permanente en el Consejo de Seguridad de la ONU, y por esse motivo desarrolló una intensa campaña buscando sumar apoyos dentro y fuera de la región. La Argentina, en cambio, adoptó una posición más passiva y silenciosa, basada en la conveniencia de no tener un conflicto innecesario con Brasil, ya que en esta cuestión los dos países tienen interesses contrapuestos. La Argentina considera que existe una oportunidad para que el eventual asiento permanente se asigne, regionalmente, al Mercosur y, en consecuencia, sea cubierto por una rotación igualitária entre ambos países. Brasil, de su parte, cree reunir las condiciones necesarias para pretender ese escaño, con total prescindencia de la región. Estas desavenencias van associadas a que, a pesar de subrayar la relación con Brasil como una asociación estratégica, la polticia argentina hacia su vecino tuvo aristas conflictivas. [...] Los distanciamentos con la administración de Lula llevaron a un deslizamiento de vínculos más estrechos com Venezuela. Os avanços sociais e econômicos promovidos pelo Presidente Néstor Kirchner ao longo da década de 2000, no contexto de superação da crise financeira, permitiram ao mandatário eleger, em 2007, a Senadora e Primeira-dama da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, a qual foi reeleita para a Casa Rosada em 2011. A política externa de Cristina Kirchner reproduz as linhas gerais de seu antecessor, com especial destaque para o aprofundamento das relações bilaterais com o Brasil, as quais passaram da enunciação de princípios e metas comuns para o desenvolvimento de estruturas especializadas, tais como o Mecanismo de Integração e Coordenação Bilateral Brasil-Argentina (MICBA). Um dos principais resultados do trabalho desenvolvido pelo Mecanismo foi a retomada e finalização dos estudos relativos à viabilidade de implantação de sistema de pagamento de transações de comércio exterior com moedas locais, o que reduz os custos relativos à aquisição e venda de dólares. Nesse sentido, destaca-se a assinatura, em setembro de 2008, de Acordo entre os Bancos Centrais do Brasil e da Argentina para o sistema de pagamentos em moeda local (SML) (CANDEAS, 2010, p. 254). Com a posse de Dilma Rousseff na Presidência da República, em 2011, o relacionamento bilateral foi novamente aprofundado, o que pode ser exemplificado pelo fato de que a primeira viagem internacional da mandatária brasileira, menos de um mês após sua posse, foi à Argentina. Na ocasião, Dilma Rousseff e Cristina Kirchner firmaram extensa declaração conjunta, que contemplava propostas concretas de trabalho em torno de diversos temas, como coordenação macroeconômica, implementação do Sistema de Pagamentos em Moedas Locais (SML), cooperação entre o BNDES e o Banco de la Nación Argentina, cooperação espacial, desenvolvimento do Centro Binacional de Nanotecnologia (CBAN), utilização de energia renováveis, cooperação espacial etc. Seis meses após o encontro em Buenos Aires, as Presidentes Dilma e Cristina voltaram a se encontrar em Brasília, ocasião na qual se reforçou a ideia de que Brasil e Argentina implementam atualmente um projeto comum de desenvolvimento. De acordo com a Presidente Dilma (BRASIL, 2011-B): Nós temos certeza de que o resultado dessas transformações é que tanto o Brasil quanto a Argentina ganharam em qualidade. O processo democrático que passamos a viver intensamente inaugurou um círculo virtuoso de nosso relacionamento, no qual as pretéritas noções de rivalidade que tentaram sistematicamente estabelecer entre nós, e muito fomentadas no passado, foram completamente substituídas pela lógica da integração. Se impediam sistematicamente a integração de infraestruturas físicas, como é o caso das bitolas diferentes nas ferrovias, e é o caso também dos ciclos diferentes na área de energia elétrica, hoje nós entramos em fase de [integração] entre o Brasil e a Argentina, não por uma questão física apenas, mas pela vontade política e pela deliberada procura de uma relação de cooperação cada vez maior. E, sobretudo, da consciência de um conceito: nós somos sócios de um mesmo projeto de desenvolvimento da América do Sul. Somos sócios com uma característica especial: nós fazemos parte deste mundo globalizado, e sabemos que viver nele implica, necessariamente, perceber quando as assimetrias tradicionais e históricas recaem sobre nós e tentam reproduzir processos passados que nós superamos. A trajetória do relacionamento entre Brasil e Argentina nos últimos 10 anos aponta não somente para a superação da rivalidade e para o desenvolvimento de processos de integração regional, etapas verificadas ao longo das décadas de 1980 e 1990. Nos anos 2000, e sobretudo após o início das Presidências de Néstor e Cristina Kirchner na Argentina, que coincidem com a ascensão dos governos de Lula e Dilma no Brasil, os dois países aprofundaram o relacionamento bilateral a ponto de torná-lo essencial a seus respectivos projetos nacionais de desenvolvimento. Este aprofundamento conduz à percepção de que, para os próximos anos, a despeito das forças políticas que venham a assumir o Palácio do Planalto e a Casa Rosada, as relações entre os dois países não sofrerão os mesmo reveses verificados durante a segunda metade do século XX, quando Brasil e Argentina sofriam interferências negativas da conjuntura política internacional na qual estava inserido o continente sul-americano. 6. O Brasil e as Relações Bilaterais Verticais: o Diálogo com o Mundo Desenvolvido 6.1. As relações Brasil-União Europeia A criação do Mercado Comum Europeu (1957) trouxe preocupação ao Brasil pelo desvio de comércio que poderia ocorrer a partir dos compromissos de preferências comerciais firmados entre os países do Velho Continente com suas ex-colônias (Silva, 2011, p. 1). O Brasil poderia perder mercados para o café e o cacau no comércio internacional. As disputas comerciais acabaram, consequentemente, por tornar-se contenciosas sob o escopo do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT).Antônio Carlos Lessa cita Clodoaldo Bueno para descrever o período (Lessa, 2009, p. 101): Esse início pouco auspicioso dá a tônica da história das relações do Brasil com o processo europeu de integração nas suas primeiras décadas. Enquanto as relações bilaterais do Brasil com os seus parceiros europeus tradicionais fluíam na dimensão política, descarregadas a partir de então do peso dos contenciosos comerciais (que foram muito importantes em alguns casos, como no das relações com a França), esta agenda pesada, na qual as partes raramente convergiam, se fortaleceu justamente com a criação do Mercado Comum Europeu. As demandas recorrentes do Brasil, que se juntava aos demais países latino-americanos, estavam principalmente circunscritas ao acesso aos mercados, ao tratamento tarifário conferido aos produtos tropicais e às tentativas de circundar os graves desvios de comércio que se produziram pela associação das antigas colônias europeias. Já no governo Ernesto Geisel (1974-1979), o pragmatismo responsável e ecumênico buscou a Europa Ocidental como escape hatch das tensões com os Estados Unidos, exemplificadas pelo Acordo Nuclear entre o Brasil e a República Federal Alemã (RFA) e pela denúncia brasileira do Acordo Militar com os Estados Unidos (SILVA, 2011, p. 2). Nesse sentido, intensificaram-se as relações bilaterais com países europeus, como República Federal Alemã, França, Grã-Bretanha, Holanda, Itália e Portugal. O governo Geisel aproveitou o acordo celebrado entre o Brasil e a Comunidade Econômica Europeia (CEE), em 1973 (em vigor desde 1974), para tentar aprofundar o relacionamento bilateral na área comercial. Tratava-se de acordo de primeira geração (comercial), com base no art. 113 do Tratado da Comunidade Europeia, que não estabelecia quaisquer vantagens fora do Gatt (SILVA, 2011, p. 3). Em 1980, celebrou-se Acordo de Cooperação, que entrou em vigor em 1982, propiciando o diálogo bilateral e substituindo o Acordo em vigor desde 1974. Caracterizava-se por ser acordo de segunda geração, pois abrangia a seara política, mas ainda não era preferencial. O Regulamento (CEE) n. 442/81 do Conselho Europeu possibilitou mecanismos de apoio técnico e financeiro a países de fora da CEE, sendo a base para o Acordo de Cooperação em tela. Além disso, esse Regulamento estabeleceu também o Conselho Empresarial Brasil-CEE. Os contatos durante a maior parte da década de 1980, todavia, foram exíguos devido a fatores relacionados à transição democrática brasileira e à diminuição das importações brasileiras pelas incertezas quanto à economia (Silva, 2011, p. 3). Mesmo assim, é importante ressaltar que a CEE se tornou o principal parceiro comercial do Brasil na década de 1980. Como asserem Lazarou e Fonseca (2013, p. 94), as relações Brasil-CEE ganharam “dinâmica regular”, em meados da década de 1980, como consequência da democratização brasileira e da adoção do Ato Único Europeu32. A “incompatibilidade de posições” com os EUA em temas como comércio e dívida externa levaram o Brasil a vislumbrar “potencial de oportunidade e diversificação com os europeus”, em tentativa de diversificação das relações externas (Lazarou & Fonseca, 2013, p. 95). Até o início da década de 1990, época em que foi criado o Mercosul, não houve cooperação política, visto que a América Latina não estava entre as prioridades da Comunidade Europeia (Silva, 2011, p. 2). Ademais, de acordo com Lessa (2009), o “eixo conflitivo” do comércio perdura, de certa forma, até os dias de hoje no que tange ao setor agrícola, haja vista a política europeia de subsídios e de proteção ao mercado local, consubstanciada na Política Agrícola Comum (PAC), a qual vige até hoje. A celebração do Tratado de Assunção (1991), que estabeleceu o Mercosul, serviu para recondicionar o relacionamento da “Europa comunitária” com a América Latina, pois o bloco do Cone Sul surgiu como maior parceiro comercial e principal destino para investimentos europeus. O Mercosul possibilitou o início do diálogo interinstitucional de modo que o bloco europeu e o sul-americano pudessem convergir em temas pertinentes ao escopo integracionista. Tanto é assim que, em 1995, assinou-se o Acordo Marco Inter-regional de Cooperação Mercosul-UE, já influenciado pelo Tratado de Maastricht (1992), que criou a União Europeia (UE). Durante o governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso, a UE preferiu as negociações inter-regionais, seja no diálogo Mercosul-UE, seja na Cúpula América Latina e Caribe e UE. No domínio econômico-comercial, contudo, as negociações inter-regionais não prosperaram (Saraiva, 2010, p. 127). O Tratado de Maastricht abriu as possibilidades para a celebração do Acordo-Quadro de Cooperação entre a Comunidade Europeia e o Brasil (1992), que entrou em vigor em 1995. Tal acordo representa convênio de terceira geração com vistas a fomentar, sobretudo, o comércio, os investimentos, as finanças e a tecnologia. Esse Acordo-Quadro introduziu instrumento para a consolidação da democracia brasileira ao expressar uma “cláusula democrática” como requisito para as parcerias da UE (LAZAROU & FONSECA, 2013, p. 96), o que comprova empiricamente que a aproximação Brasil-UE transcende as esferas pragmáticas do comércio e da economia. Ademais, esse documento manteve a Comissão Mista estabelecida pelo Acordo de Cooperação assinado em 1982. Tal Comissão desenvolveu encontros bianuais até o ano de 2007 (SILVA, 2011, p. 4). Segundo o sítio oficial na internet da delegação da União Europeia no Brasil, são duas as prioridades da cooperação Brasil-UE33: 1) Desenvolver as relações bilaterais por meio de iniciativas no marco dos diálogos setoriais e de incentivos à cooperação de instituições acadêmicas; 2) Promover a dimensão ambiental do desenvolvimento sustentável, visando a alicerçar a proteção das florestas e o combate à pobreza em biomas frágeis. De fato, a relação bilateral entre o Brasil e a UE dirige-se pelo Acordo- Quadro bilateral de 1992, pelo Acordo Marco Inter-Regional Mercosul-UE (1995) e pelo Acordo de Cooperação Científica e Tecnológica entre o Brasil e a UE (2004), que engloba áreas como biotecnologia, tecnologias da informação e das comunicações, microtecnologias etc. A articulação Brasil-UE possui vertente substancial que abarca o diálogo com a América Latina e o Caribe. A Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da União Europeia e América Latina/Caribe34, que, em sua primeira edição (1999), estabeleceu o Comitê Birregional de Negociações União Europeia-Mercosul, almejando a celebração de acordo de associação inter-regional. Na década de 1990, as negociações de um Acordo de Associação entre o Mercosul e a UE foram vistas como alternativa à Área de Livre Comércio das Américas (Alca), defendida pelos Estados Unidos. Tanto nas negociações do Acordo de Associação e da Alca, “as divergências comerciais, nomeadamente de produtos agrícolas, e as consequentes intransigências” lograram dificultar o avanço de ambas as frentes de negociação (Lazarou & Fonseca, 2013, p. 97). A crise no Mercosul, a partir da desvalorização da moeda brasileira, em 1999, e a expansão da UE para novos países, sobretudo da Europa do Leste, prejudicaram a cooperação inter-regional, mas abriram caminho para novos temas prioritários, no contexto do cenário pós-atentados de 11 de setembro de 2001, do surgimento da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) e da maior atenção às mudanças climáticas (Lessa, 2009, p. 102). Não por acaso, o bloco europeu passou a privilegiar as relações com o Brasil em detrimento de outros países latino-americanos, o que, de certo modo, contribuiu para a paralisação das negociações Mercosul-UE na área comercial, retomada a partir de maio de 2010. Segundo Saraiva (2010), houve certa bilateralização das relações Brasil-UE, pois as negociações Mercosul-UE e América Latina e Caribe-UE perderam gradual importância, e somente foram retomadas no governo Dilma Rousseff. A elevação do perfil internacional do Brasil, uma das dez maiores economias do mundo, embasou a vontadeda UE de aplicar o epíteto parceria estratégica ao relacionamento com o Brasil na primeira Cúpula Brasil-UE (2007), realizada em Lisboa, Portugal. Esse epíteto significa a amplitude e a intensidade dos contatos bilaterais políticos e comerciais, agregando desde grupos técnicos de discussão até reuniões de Chefes de Estado e de governo (Lessa, 2009, p. 103). Antônio Carlos Lessa (2009, p. 99) explica que as parcerias estratégicas são relações bilaterais prioritárias de interesse mútuo, “constituídas a partir de um patrimônio de relações bilaterais universalmente configurado”. As parcerias estratégicas resultam da vocação histórica do Brasil em relação à universalidade e à necessidade de aproximações seletivas para aproveitar oportunidades. Para Cervo (2008), as parcerias estratégicas fomentadas pelo Brasil com países-chave visam a buscar insumos para a estratégia nacional de desenvolvimento. A parceria estratégica Brasil-UE resultou em avanços na cooperação bilateral e inter-regional com a celebração de acordos bilaterais específicos, o estabelecimento de novos diálogos setoriais e o incremento do fluxo comercial e econômico (Lazarou & Fonseca, 2013, p. 107). Entre os objetivos da parceria estratégica estão questões relacionadas ao multilateralismo, às alterações climáticas, à energia sustentável, à integração regional e à luta contra a fome e a pobreza. Ademais, o novo status do relacionamento com o bloco europeu alicerça o diálogo e a cooperação em temas diversos - a exemplo de ciência e tecnologia, educação e energia -, como de certa forma já ocorria antes da parceria bilateral, mas que agora ganha ênfase ilustrada no apoio de países da UE ao Programa Ciência sem Fronteiras, lançado pelo governo da Presidenta Dilma. Outrossim, Brasil e UE apoiam o fortalecimento do multilateralismo e uma ordem internacional multilateral (Lessa, 2009, p. 104). Na verdade, a própria parceria estratégica Brasil-UE ilustra uma ordem internacional calcada cada vez mais no multilateralismo e na cooperação. Não há como pensar, por exemplo, em solução para a paralisia da Rodada Doha, da Organização Mundial do Comércio, sem a concertação política e o diálogo entre o Brasil, um dos representantes das potências emergentes, e a Comissão Europeia, representante da UE. No governo Dilma, a VI Cúpula Brasil-UE35, realizada em Brasília, em 24 janeiro de 2013, saudou, por meio de Declaração Conjunta, a expansão de investimentos brasileiros na UE, “transformando o Brasil no quinto maior investidor no bloco”. A União Europeia figura como o maior investidor e o maior parceiro comercial brasileiro. O VI Encontro Empresarial Brasil-UE, realizado um dia antes da referida Cúpula, salientou a necessidade de apoiar micro, pequenas e médias empresas no intercâmbio bilateral. Na seara ambiental, a Declaração Conjunta da VI Cúpula Brasil-UE evidenciou a convergência de posições para fortalecer a estrutura institucional para o desenvolvimento sustentável, fortalecimento que deve abranger o Conselho Econômico e Social (Ecosoc) da ONU e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). No âmbito da paz e da segurança internacionais, Brasil e UE acordaram estabelecer formalmente o diálogo de alto nível sobre temas ligados à paz e à segurança internacionais. Na ciência e tecnologia, por ocasião da VI Cúpula, foi assinado Acordo de Cooperação entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Centro Conjunto de Pesquisa (JRC), ressaltando a importância do projeto “Ciência sem Fronteiras” para treinamento e cooperação. A Europa é a maior receptora de alunos no âmbito do Ciência sem Fronteiras. Não se deve esquecer do Acordo de Cooperação entre o Brasil e a Comunidade Europeia de Energia Atômica (Euratom) no campo da pesquisa de energia de fusão. Como comprometimento bilateral com a democracia, a Declaração Conjunta da VI Cúpula saudou a assinatura da Carta de Brasília, entre o Tribunal Superior Eleitoral do Brasil (TSE) e a Comissão Europeia para ações trilaterais de cooperação em apoio aos processos eleitorais nos países africanos de Língua Oficial Portuguesa (Palops) e no Timor-Leste. As questões comerciais são as que mais obstaculizam o aprofundamento do relacionamento entre o Brasil e a UE. Espera-se que o Acordo de Associação Mercosul-UE saia do papel, o que pode levar algum tempo pela resistência de países europeus, como a França, de abrirem mão de subsídios provenientes da PAC. De parte do Mercosul, a União Europeia estima maior comprometimento e disposição para ceder nos seguintes temas: (a) compras governamentais, (b) propriedade intelectual, (c) indicação geográfica, (d) serviços, (e) investimentos, (f) disposições sobre desenvolvimento sustentável. Ainda no setor comercial, no âmbito do Acordo sobre Medidas de Investimentos Relacionados ao Comércio (Trims), a UE critica a exigência brasileira de conteúdo local para a licitação dos serviços de telefonia celular 4G e o uso de taxas indiretas como meio de limitar a entrada de investimentos em determinados setores da economia do País (MOREIRA, 2013). A fim de possibilitar avanços, o Brasil busca um denominador comum com os europeus, que permita maior abertura do mercado agrícola no Velho Continente, ao passo em que se coloca disposto a negociar maior acesso europeu na oferta de produtos não relacionados ao campo (Non- Agriculture Market Access - NAMA). Para avançar no debate sobre agricultura, Brasil e UE assinaram, em 2012, um Memorando de Entendimento fixando as bases do diálogo naquele setor da economia, tendo em conta os compromissos assumidos na Rodada Doha da OMC. No domínio político, o Brasil repudia a tentativa de alguns países da UE de adotarem ações unilaterais em nome da defesa dos direitos humanos e humanitários. Deve-se recordar que operações militares de países europeus em países como Líbia e Mali não foram apoiadas por todos os membros da UE: a Alemanha, com assento não permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (CSNU/ONU), em março de 2011, absteve-se, assim como o Brasil, na votação da Resolução 1973, que autorizou o uso da força na Líbia com base no Capítulo VII da Carta da ONU (MRE, 2011). Demonstra-se, assim, que nem todos os países da UE respaldam o uso da força antes de se esgotar a dinâmica da diplomacia e do diálogo. A parceria estratégica Brasil-UE tem que superar divergências pontuais de modo a não permitir que elas contaminem as relações como um todo. As parcerias estratégicas constituem “essencialmente declarações políticas”, mas podem tornar-se soft law (Lazarou & Fonseca, 2013, p. 112), dependendo da importância dos temas tratados pelas partes. Ambos os lados devem continuar a fundar relações pautadas pela confiança e pela compreensão mútua, o que possibilita ações conjuntas em temas da agenda bilateral, regional e multilateral. O Brasil, um key player no tabuleiro internacional pela perspectiva europeia, contribui para que a UE se defina como um ator global que “não tem contatos apenas com regiões, mas também diretamente com países terceiros” (Lazarou & Fonseca, 2013, p. 112). As Declarações Conjuntas provenientes das Cúpulas Brasil-UE “apresentam a parceria entre os dois atores com alcance global”, em vez de “um acordo entre uma entidade regional voltada para assuntos internos e uma potência sul-americana” (Lazarou & Fonseca, 2013, p. 109). A relação bilateral Brasil-UE não é a única finalidade da parceria estratégica entre ambos, visto que existe a “instrumentalização da relação bilateral para fins mais abrangentes” (Lazarou & Fonseca, 2013, p. 109), com propósito de diálogo e de concertação política em temas da agenda internacional, tais como a cooperação triangular para o desenvolvimento de terceiros países e a adoção de medidas de mitigação dos efeitos do aquecimento global. A parceria estratégica Brasil-UE é o reconhecimento do novo perfil brasileiro no sistema internacional e regional. A UE sabe que não pode desprezar global players emergentes, entre eles o Brasil. 6.2. As relaçõesBrasil-Estados Unidos No capítulo 5 desta obra, ao tratarmos das relações entre Brasil e Argentina, chamamos atenção para o fato de que o trabalho de síntese exigido pelo escopo deste livro não nos permite reproduzir as variadas análises disponíveis na literatura acadêmica acerca do tema. A mesma situação se repete nesta parte, quando tratamos de analisar aspectos mais relevantes do relacionamento do Brasil com os EUA. De fato, a história do continente americano, sobretudo a partir do início do século XX, passa a ser fortemente influenciada pelos rumos tomados pelo governo de Washington em sua política externa. Não seria correto, contudo, afirmarmos que os acontecimentos políticos nos países americanos são subprodutos do relacionamento com a potência norte-americana, como, no passado, determinados autores buscavam escrever a história do continente, levando-nos a justificar no “imperialismo do Norte” as mazelas sociais, as rupturas democráticas e as causas do subdesenvolvimento econômico da região. O “complexo de periferia” é uma forma de interpretar as relações com os EUA, que serve tanto para justificar a necessidade de “alinhamento” com o governo norte-americano - como na obra do cientista político argentino Carlos Escudé, El realismo periferico -, quanto para basear análises relativas à necessidade de criar mecanismos de integração regional que fortaleçam os países do Sul para que façam frente ao “imperialismo” de Washington - como na obra do Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, Quinhentos anos de perifieria. Do ponto de vista do autor desta obra, o “complexo de periferia” não é compatível com a atual postura da política externa brasileira frente aos EUA e, por isso, em que pese a induscutível qualidade das análises e das obras dos mencionados autores, a contribuição por eles dada, possivelmente, não refletirá o atual pensamento do Itamaraty. Pelo contrário, o que se busca hoje em dia é “encapsular” os “temas sensíveis” do relacionamento bilateral, a fim de evitar que eles comprometam ganhos concretos em outros setores, como no comércio e na cooperação técnico- científica e educacional, por exemplo. Por esse motivo, dar-se-á, neste capítulo, ênfase às análises históricas e de conjuntura realizadas por Paulo Fagundes Vizentini, Cristina Soreanu Pecequilo e Mônica Hirst, embora, repita-se, muitos outros autores e diplomatas, em diferentes momentos, prestaram contribuições de riquíssimo valor, as quais, por razões didáticas e de espaço não pudemos, infelizmente, trabalhar neste texto. Mônica Hirst (2013) divide a história das relações Brasil-Estados Unidos em cinco momentos ao longo do século XX. O primeiro momento representa a aliança bilateral, que perpassa a República Velha até o início da década de 1940, no contexto da Segunda Guerra Mundial. Durante a República Velha, as relações entre o Brasil e os Estados Unidos seguiram a lógica da aliança informal, chamada de aliança não escrita por Bradford Burns. O Barão do Rio Branco, ciente das ambições imperialistas europeias, adotou postura de aproximação com o governo de Washington que permitisse ao Brasil contrapor-se tanto às disputas com a Argentina no estuário do Prata, quanto às possíveis ações neocoloniais das potências do Velho Continente. Após a morte do Barão, em 1912, os chanceleres da Primeira República, com exceção de Domício da Gama, seguiram política externa próxima aos EUA (Hirst, 2013, p. 33). Percebe-se que as relações bilaterais entre Brasil e EUA, durante o século XX, apresentaram duas tendências: alinhamento e autonomia. O Barão do Rio Branco originou, ainda no início do século XX, a aliança especial pragmática adotada pelos dois governos Getúlio Vargas e por Juscelino Kubitschek, na segunda parte de seu governo. Esse tipo de aliança baseia-se na barganha e no desenvolvimento autônomo, em contraposição ao alinhamento automático, que parte de postura que acredita que “o apoio às políticas norte-americanas traz benefícios ao país” (Pecequilo, 2013, p. 70). O governo de Getúlio Vargas (1930-1945) não relegou a aproximação com os EUA, mas buscou diversificar os parceiros comerciais e econômicos, como comprovou o comércio sob a égide dos marcos compensatórios com a Alemanha. As conferências de chanceleres latino-americanos geraram uma agenda interamericana, que contou, já na Conferência de Montevidéu (1933), com o anúncio da política de boa vizinhança por parte dos EUA, ilustrada pela retirada de tropas americanas do Haiti. Essa Conferência foi seguida por aquelas de Buenos Aires (1936), de Lima (1938), do Panamá (1939), de Havana (1940) e do Rio de Janeiro (1942). Os países latino- americanos asseguraram, cada vez mais, apoio do continente ao crescente envolvimento dos EUA na Segunda Guerra, conquanto países como Chile e Argentina insistissem na neutralidade. Na Conferência do Panamá (1939), lançou-se uma declaração de neutralidade continental. Na Conferência de Havana (1940), elaborou-se declaração sobre cooperação defensiva dos países americanos. Finalmente, a III Conferência de Chanceleres Americanos (janeiro de 1942), no Rio de Janeiro, mostrou opiniões contrárias quanto ao envolvimento da América Latina na guerra: Brasil e EUA defenderam a harmonia pan-americana, enquanto Argentina e Chile sustentaram a neutralidade. Os argentinos opuseram-se à recomendação de rompimento automático com os países do Eixo porque recearam prejudicar suas exportações de couros, cereais e carnes. Para os EUA, o Brasil era fundamental na ligação com a África, pois as bases no Nordeste brasileiro seriam utilizadas para enviar soldados e suprimentos para os aliados contra os Afrikakorps (SARAIVA, 2008, p. 186). Da III Conferência emanaram 41 resoluções, “desde a recomendação de ruptura com o Eixo à adesão aos princípios da Carta do Atlântico”, sendo que “tudo determinava aos Estados da região uma forte relação ocidentalista e aliancista sob liderança dos Estados Unidos” (SARAIVA, 2008, p. 187). Estavam dadas as bases para o alinhamento brasileiro. Iniciou-se, assim, o período que Hirst (2013) chama de “alinhamento”, consubstanciado entre 1942 e o final do governo Garrastazu Médici (1968- 1974). Nesse marco cronológico, evidenciaram-se momentos de maior alinhamento, como nos governos Dutra e Castelo Branco, e de autonomia brasileira frente à potência do Norte, como durante a Política Externa Independente (PEI) e a Diplomacia do Interesse Nacional. A Operação Pan- Americana (1958) de Juscelino Kubitschek, que reivindicava o combate ao subdesenvolvimento como a melhor arma contra o comunismo, e a Revolução Cubana (1959) abriram o caminho para a maior flexibilidade da política externa brasileira durante a PEI, cujos princípios começaram a ser retomados pelo governo Costa e Silva (1967-1969) e se consolidaram com o Pragmatismo Responsável e Ecumênico de Geisel. Na verdade, a Política Externa Independente (PEI) substituiu o alinhamento por visão globalista, caracterizada por postura autônoma e universal. As condicionantes e os constrangimentos internos e externos “mudam a percepção do Brasil sobre suas prioridades e possibilidades” (PECEQUILO, 2013, p. 70). Então, a política externa brasileira ampliou-se para abranger o multilateralismo, o terceiro-mundismo, as relações Sul-Sul, independentemente de fronteiras ideológicas. Com exceção do interregno Castelo Branco (1964-1967), os governos militares reduziram paulatinamente o acumulado diplomático da PEI, mas tonificaram os princípios e os conceitos da diplomacia nacional pela visão de um Brasil como Grande Potência, estimulada pela euforia dos tempos do Milagre Econômico (1968-1973). Em que pese o autoritarismo e as transgressões do regime militar, destaca-se que foi na década de 1970 que o Brasil consolidou o processo de industrialização por substituição de importações, permitindo que o país fosse alçado como global trader e global player (PECEQUILO, 2013, p. 70). As relações Brasil-EUA foram impactadas pela elevação do perfil internacional do Brasil e pela necessidade do país diversificar