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13/04/2023, 19:44 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/2 PRIMEIRAS PÁGINAS PRIMEIRAS PÁGINAS 0 DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO Constituição, Direitos Fundamentais e Proteção da Natureza Autores Ingo Wolfgang Sarlet Tiago Fensterseifer Thomson Reuters Brasil Juliana Mayumi Ono Diretora responsável © desta edição [2021] Av. Dr. Cardoso de Melo, 1855 – 13º andar - Vila Olímpia CEP 04548-005, São Paulo, SP, Brasil TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, especialmente por sistemas gráficos, microfílmicos, fotográficos, reprográficos, fonográficos, videográficos. Vedada a memorização e/ou a recuperação total ou parcial, bem como a inclusão de qualquer parte desta obra em qualquer sistema de processamento de dados. Essas proibições aplicam-se também às características gráficas da obra e à sua editoração. A violação dos direitos autorais é punível como crime (art. 184 e parágrafos, do Código Penal), com pena de prisão e multa, conjuntamente com busca e apreensão e indenizações diversas (arts. 101 a 110 da Lei 9.610, de 19.02.1998, Lei dos Direitos Autorais). Os autores gozam da mais ampla liberdade de opinião e de crítica, cabendo-lhes a responsabilidade das ideias e dos conceitos emitidos em seus trabalhos. Central de Relacionamento Thomson Reuters Selo Revista dos Tribunais (atendimento, em dias úteis, das 09h às 18h) Tel. 0800.702.2433 e-mail de atendimento ao consumidor: sacrt@thomsonreuters.com e-mail para submissão dos originais: aval.livro@thomsonreuters.com Conheça mais sobre Thomson Reuters: www.thomsonreuters.com.br Visite nosso site: www.livrariart.com Profissional Fechamento desta edição: [03.05.2021] ISBN 978-65-5614-514-3 13/04/2023, 19:08 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/1 FICHA CATALOGRÁFICA FICHA CATALOGRÁFICA 0 Ficha catalográfica Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Sarlet, Ingo Wolfgang Direito Constitucional Ecológico [livro eletrônico] : Constituição, direitos fundamentais e proteção da natureza / Ingo Wolfgang Sarlet, Tiago Fensterseifer. -- 5. ed. -- São Paulo : Thomson Reuters Brasil, 2021. 6 Mb ; ePub 5. ed. em e-book baseada na 7. ed. impressa. Bibliografia. ISBN 978-65-5614-514-3 1. Direito ambiental - Brasil 2. Direito constitucional - Brasil I. Fensterseifer, Tiago. II. Título. 21-64829 CDU-342:502.7(81) Índices para catálogo sistemático: 1. Brasil : Direito constitucional ambiental 342:502.7(81) Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427 13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/2 PREFÁCIO À 6ª EDIÇÃO - MICHEL PRIEUR PREFÁCIO À 6ª EDIÇÃO - MICHEL PRIEUR 0 Prefácio à 6ª edição1 O Direito Constitucional do Meio Ambiente se tornou a base intangível da proteção do planeta Terra contra as degradações incessantes que afetam a saúde humana, a sobrevivência das espécies animais e vegetais e o conjunto das inter-relações complexas entre o homem e a natureza. O princípio 1º da Declaração do Rio de Janeiro, de 1992, segundo o qual “os seres humanos estão no centro das preocupações com o desenvolvimento sustentável. Têm direito a uma vida saudável e produtiva, em harmonia com a natureza” deveria figurar na fachada de todos os monumentos públicos e em todos os programas escolares destinados às crianças. No mesmo espírito, as constituições deveriam se inspirar no preâmbulo da Constituição Francesa, cuja Carta do Meio Ambiente, de 2004, afirma que “o futuro e a própria existência da Humanidade são indissociáveis do meio natural”. A constitucionalização do meio ambiente constitui um progresso considerável que se pode verificar nas últimas décadas. E, nesse sentido, vale ressaltar que o Brasil foi pioneiro, com a promulgação da Constituição Federal, em 1988. Essa irreversível conquista deve ser preservada independentemente das áleas políticas, pois é consubstancial aos direitos e deveres fundamentais de cada um, assim como à dignidade humana. Pode-se dizer que Ingo Wolfgang Sarlet e Tiago Fensterseifer foram aqueles que lançaram o alerta nessa direção, ao publicarem a primeira edição de sua obra, em 2011. É, para mim, uma grande honra prefaciar a 6ª edição desta obra, ato que tem dupla significância, pessoal e científica: de uma parte está a descoberta do Brasil, graças a meu amigo e colega Paulo Affonso Leme Machado, pioneiro do Direito Ambiental nesse País e, de outra parte, estão minhas visitas regulares aos estudantes, professores, advogados, juízes e promotores brasileiros, especialistas do meio ambiente. Todos contribuem ao desenvolvimento e ao não retrocesso dos instrumentos jurídicos indispensáveis para assegurar a efetividade do direito fundamental ao meio ambiente, garantido pela Constituição. Destaque-se, nessa seara, o papel pioneiro de Ingo Wolfgang Sarlet – um dos promotores do princípio de vedação ao retrocesso, nas suas aulas em Porto Alegre, em 2005 – para a história do Direito Ambiental no Brasil. O Direito Constitucional Ambiental, como novo motor das políticas de meio ambiente, é agora orientado pela comunidade internacional e pelo Direito Internacional dos Direitos Humanos. E, assim, nota-se a formação de um impressionante elo que reforça a proteção jurídica do meio ambiente, desmentindo os negacionistas dos Direitos Humanos e das mudanças climáticas e contradizendo as investidas populistas. Nesse âmbito, basta invocar os relatórios publicados anualmente, desde 2012, pelo relator especial sobre o direito ao meio ambiente, perante o Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, a opinião consultiva da Corte Interamericana de Direitos Humanos, de 15 de novembro de 2017, e as diversas decisões relativas ao meio ambiente, proferidas pela Corte Europeia de Direitos Humanos desde o caso Lopez Ostra, de 9 de dezembro de 1994. A adoção, em 4 de março de 2018, da convenção regional de Escazú, sobre o acesso à informação, a participação pública e o acesso à justiça em matéria ambiental, na América Latina e no Caribe, é igualmente um sinal de esperança, que conforta o Direito Constitucional Ambiental no mundo inteiro. Pode-se esperar, desde logo, que o Protocolo de San Salvador seja emendado, para permitir a todos reclamar o respeito ao artigo 11, que prevê o direito a um meio ambiente sadio, o qual nem sempre é juridicamente oponível.2 Esse vínculo político-jurídico vem, desde 2007, sendo ampliado no seio da ONU por duas iniciativas. Uma, conduzida por uma ONG internacional que tenho a honra de presidir, o Centro Internacional de Direito Ambiental Comparado, com o projeto de um terceiro pacto internacional, relativo aos direitos dos seres humanos ao meio ambiente, assim como aos direitos que dele decorrem.3 O outro, conduzido pela França perante as Nações Unidas, propõe um Pacto Mundial para o Meio Ambiente, o qual foi, inclusive, objeto de uma resolução da Assembleia Geral da ONU, com vistas a uma futura negociação intergovernamental.4 javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/2 Michel Prieur Professor emérito da Universidade de Limoges – França. Presidente do Centro Internacional de Direito Ambiental Comparado (CIDCE). Diretor honorário da Faculdade de Direitoe de Ciências Econômicas de Limoges. Diretor Científico do Centro de Pesquisas Interdisciplinares em Direito Ambiental, de Ordenamento Territorial e Urbanístico (CRIDEAU). Fundador da Sociedade Francesa para o Direito Ambiental (SFDE) e da Revista Jurídica do Meio Ambiente (RJE). Membro da Comissão Mundial do Direito Ambiental da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Autor pela Editora Dalloz do livro Droit de l’environnement, Paris, 8ª edição, 2019 e dos livros Droit de l’environnement, droit durable e La non régression en droit de l’environnement, ambos publicados pela editora Bruylant, em 2014 e 2012, respectivamente. 1 .Traduzido ao português graças à boa vontade de José Antônio Tietzmann e Silva, professor na PUC Goiás e representante do Centro Internacional de Direito Ambiental Comparado no Brasil. 2 .Uma proposta de emenda foi elaborada pelo Centro Internacional de Direito Ambiental Comparado em 2019. 3 .Vide [www.cidce.org] e Conselho dos Direitos Humanos, doc. A/HRC/34/NGO/60, de 15 de fevereiro de 2017. 4 .Vide [www.globalpactenvironnement.org] e Resolução n. 72/277, de 10 de maio de 2018, Vers un pacte mondial pour l’’environnement, A/RES/72/277. 13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/1 APRESENTAÇÃO À 1ª EDIÇÃO - PROF. DR. JOSÉ RUBENS MORATO LEITE APRESENTAÇÃO À 1ª EDIÇÃO - PROF. DR. JOSÉ RUBENS MORATO LEITE 0 Apresentação à 1ª edição Apraz-me apresentar o livro de Ingo Wolfgang Sarlet e Tiago Fensterseifer, excelentes pesquisadores do direito, bem como parabenizo a Editora Revista dos Tribunais por proporcionar aos seus leitores uma nova obra de grande qualidade. Conheço um pouco da temática do Direito Constitucional Ambiental e posso assegurar que a pesquisa traz grandes contribuições ao avanço do Direito Ambiental, procurando resgatar e aprofundar temas importantes da constitucionalização ecológica, principalmente fundado em excelente revisão bibliográfica, mormente da doutrina alemã. Os pontos ápices dos temas debatidos são o Direito Constitucional Socioambiental, Dimensão Ecológica da Dignidade da Pessoa Humana, Estado Socioambiental e Mínimo Existencial, Deveres Fundamentais e Proteção do Ambiente, Deveres de Proteção Ambiental do Estado e Proibição de Retrocesso em Matéria Ambiental, bem como o Papel do Poder Judiciário na Efetivação dos Direitos Socioambientais. Ressalto a importância da atualidade jurídica do debate e do aprofundamento teórico, como foi feito nesta pesquisa, de maneira séria, sobre o conteúdo e o fundamento da Proibição do Retrocesso Ecológico e do Mínimo Existencial, pois hoje vivenciamos certa tendência à aprovação de normas que tentam rever a efetiva proteção ambiental, mesmo diante dos consagrados avanços normativos, dos conhecimentos técnicos e da justificação cientificamente ancorada. Um segundo eixo a ser destacado, entre outros, na obra, é o enfoque do exame da jurisprudência e do papel do Judiciário, pois busca dotar o leitor de uma visão da prática do Direito Ambiental em seu viés constitucional. Finalizo, afirmando que o direito ambiental brasileiro ganha muito com a presente pesquisa. Tenho certeza que a doutrina constitucional sai fortalecida e, principalmente, os preocupados com a proteção jurídica ambiental efetiva. Florianópolis, 7 de novembro de 2010. Prof. Dr. José Rubens Morato Leite Professor associado dos cursos de graduação e pós graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC; pós doutor pelo Centre of Environmental Law, Macquarie University, Sydney – Austrália; membro e consultor da IUCN – The World Conservation Union – Comission on Environmental Law (Steering Commitee); vice-presidente do Instituto “O Direito por um Planeta Verde”; coordenador do Grupo de Pesquisa Direito Ambiental e Ecologia Política na Sociedade de Risco, do CNPq. Publicou e organizou várias obras e artigos em periódicos nacionais e estrangeiros. Pesquisador de Produtividade na Pesquisa do CNPq. 13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/2 NOTA DOS AUTORES À 7ª EDIÇÃO - INGO W. SARLET E TIAGO FENSTERSEIFER NOTA DOS AUTORES À 7ª EDIÇÃO - INGO W. SARLET E TIAGO FENSTERSEIFER 0 Nota dos autores à 7ª edição “No âmbito do Direito Internacional dos Direitos Humanos tem-se caminhado para reconhecer a interdependência entre o direito humano ao meio ambiente saudável e uma multiplicidade de outros direitos humanos, bem como para afirmá-lo como um direito autônomo titulado pela própria Natureza (e não apenas pelos seres humanos). Há, nesse sentido, duas importantes decisões da Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH). Na Opinião Consultiva no 23/2017, estabeleceu que o direito a um meio ambiente saudável é ‘um interesse universal’ e ‘um direito fundamental para a existência da humanidade”. (Ministro Luis Roberto Barroso) 1 Na edição anterior (6ª) do nosso livro, publicada em 2019, como registrado na longa nota que elaboramos na ocasião, empreendemos uma mudança teórica importante e alteramos o título e subtítulo da obra, em decorrência de uma “virada ecológica ou ecocêntrica” na nossa abordagem do regime jurídico-constitucional de proteção da Natureza - nela incluída a proteção do ser humano (Homo sapiens). Nesta 7ª edição, seguimos avançando na mesma trilha, o que, inclusive, tem a sua importância reforçada pela Pandemia do COVID-19, com a qual a humanidade se defrontou de forma trágica e em escala global no início de 2020, tendo como causa principal zoonose transmitida ao ser humano por animais selvagens, associada diretamente à destruição e perda do habitat natural de tais espécies. Diversas entidades e organizações científicas e sanitárias internacionais - como é o caso da Organização Mundial da Saúde (OMS)2 e da Organização Mundial para a Saúde Animal3 - têm defendido o conceito de one health – traduzindo para o português, “saúde única ou integral”. Na sua essência, tal conceito busca a proteção da saúde de forma integral, contemplando três dimensões básicas: humana, animal e ecológica ou ecossistêmica. A Pandemia do COVID-19 ilustra de forma trágica a importância de tal compreensão ecológica do conceito de saúde, para além de um olhar reducionista da saúde humana, na medida em que a sua origem, como dito antes, está associada à zoonose transmitida por animais silvestres e que, como destacado pelo Programa das Nações Unidades para o Meio Ambiente (PNUMA) em relatório recentemente divulgado4, pode ser relacionada à destruição do habitat natural de tais espécies, entre outras práticas que acarretam destruição e desequilíbrio ecológico. A maior fragilidade da vida animal e da Natureza de um modo geral levada a efeito pela degradação ambiental implica de forma indissociável também maior fragilidade e vulnerabilidade existencial para o ser humano, o que reforça a relevância do princípio da integridade ecológica como Grundnorm do Direito Constitucional Ecológico (Klaus Bosselmann). O ano de 2020, por sua vez, contou com importantes decisões judiciais, sobretudo do Supremo Tribunal Federal, inclusive com a realização de duas audiências públicas de grande importância sobre a temática da proteção da Floresta Amazônia nos Casos do Fundo Clima (ADPF 708) e do Fundo Amazônia (ADO 59), tendo os autores desta obra participado da primeira como representantes da comunidade acadêmica jurídica.5 Para além da jurisprudência nacional, no ano de 2020, também merece destaque o fato de a Corte Interamericana de Direitos Humanos ter aplicado o seu entendimento jurisprudencial consolidado no âmbito da Opinião Consultiva 23/2017 (sobre “Meio Ambiente e Direitos Humanos”) num caso contencioso. No julgamento do CasoComunidades Indígenas Membros da Associação Lhaka Honhat (Tierra Nuestra) vs. Argentina, a Corte IDH declarou que a Argentina violou o direito autônomo a um meio ambiente saudável, bem como os direitos à propriedade da comunidade indígena, à identidade cultural, à alimentação adequada e ao acesso à água. Pela primeira vez em um caso contencioso, a Corte IDH analisou os direitos acima de forma autônoma, com base no artigo 26 da Convenção Americana de Direitos Humanos, ordenando medidas específicas de reparação e de sua restituição, incluindo ações de acesso à alimentação adequada e à água, para recuperação de recursos florestais e da cultura indígena. javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/2 No mais, além de uma cuidadosa atualização jurisprudencial, também desenvolvemos alguns tópicos novos, como, por exemplo, o direito fundamental à integridade do sistema climático ou direito fundamental ao clima limpo, estável e seguro, o sistema climático como bem jurídico- constitucional autônomo, os deveres estatais de proteção climática, o mínimo existencial climático, o fenômeno da “ecologização” (para além da “constitucionalização”) do Direito Privado, o estado de coisas inconstitucional ecológico (e climático), entre outros. No mais, esperamos ter cumprido com a nossa promessa de manter sempre o livro “vivo e em aberto”, como um processo inacabado de permanente aprendizado, desenvolvimento e aprimoramento, registrando, por fim, o nosso contato nas redes sociais e e-mail para as eventuais e sempre muito bem-vindas criticas e sugestões dos queridos amigos leitores, a quem agradecemos profundamente pela confiança depositada no nosso trabalho e produção cientifica, o que nos permitiu chegar até aqui com esta 7ª edição. Porto Alegre/Campinas (em isolamento social), março de 2021. Ingo W. Sarlet @professor_ingosarlet Tiago Fensterseifer @tiago_fensterseifer tiagofens@gmail.com https://t.me/direito_ambiental 1 .Passagem da decisão do Ministro Luis Roberto Barroso proferida em 28.06.2020 no Caso Fundo Clima, ao convocar a audiência pública realizada nos dias 21 e 22.09.2020 perante o Supremo Tribunal Federal (STF, ADPF 708/DF, Rel. Min. Luis Roberto Barroso, ainda pendente de julgamento). 2 .Disponível em: https://www.who.int/news-room/q-a-detail/one-health. 3 .Disponível em: https://www.oie.int/en/for-the-media/onehealth/. 4 .UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. Preventing the next pandemic: zoonotic diseases and how to break the chain of transmission. Nairobi, UNEP, 2020. Íntegra do relatório disponível em: https://www.unenvironment.org/pt-br/resources/report/preventing-future-zoonotic- disease-outbreaks-protecting-environment-animals-and. 5 .A íntegra da nossa participação na audiência pública do STF na ADPF 708 (Fundo Clima) - versão escrita das manifestações e os respectivos vídeos - está disponível em: http://genjuridico.com.br/2020/09/25/protecao-do-meio-ambiente-adpf-708-df/. http://mailto:tiagofens@gmail.com/ 13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/3 ABREVIATURAS ABREVIATURAS 0 Abreviaturas ABRAMPA – Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente AC – Apelação Cível ACP – Ação Civil Pública ADI – Ação Direta de Inconstitucionalidade ADPF – Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental AgRg – Agravo Regimental AI – Agravo de Instrumento AöR – Archiv des öffentliches Recht (Mohr Siebeck) AP – Ação Popular APP – Área de Preservação Permanente AR – Ação Rescisória BVerfGE – Bundesverfassungsgerichtsentscheidungen (Coletânea Oficial das Decisões do Tribunal Constitucional Federal da Alemanha) BVerwGE – Bundesverwaltungsgericht (Tribunal Federal Administrativo da Alemanha) CCB – Código Civil Brasileiro ( Lei 10.406/2002) CDC – Código de Defesa do Consumidor ( Lei 8.078/1990) CEPAL – Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe da Organização das Nações Unidas CF/1988 – Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 CIDH – Comissão Interamericana de Direitos Humanos CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente Corte IDH – Corte Interamericana de Direitos Humanos CPC – Código de Processo Civil ( Lei 5.869/1973) DESCA – Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais DP – Defensoria Pública EIA – Estudo de Impacto Ambiental IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IC – Inquérito Civil https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2002%5C%5C400&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2002-400|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2002%5C%5C400&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2002-400|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1990%5C%5C40&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1990-40|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1990%5C%5C40&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1990-40|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2015%5C%5C1656&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2015-1656|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1973%5C%5C5&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1973-5|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/3 ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade IUCN – International Union for Conservation of Nature j. – julgado em JZ – Juristen Zeitung (Mohr Siebeck) LACP – Lei da Ação Civil Pública ( Lei 7.437/1985) LF – Lei Fundamental da Alemanha (1949) MC – Medida Cautelar MERCOSUL – Mercado Comum do Sul MMA – Ministério do Meio Ambiente MP – Ministério Público MS – Mandado de Segurança NCPC – Novo Código de Processo Civil (Lei 13.105/2015) OGMs – Organismos Geneticamente Modificados ONG – Organização Não Governamental ONU – Organização das Nações Unidas PGR – Procurador Geral da República PNEA – Política Nacional de Educação Ambiental ( Lei 9.795/1999) PNMA – Política Nacional do Meio Ambiente ( Lei 6.938/1981) PNMC – Política Nacional sobre Mudança do Clima ( Lei 12.187/2009) PNRH – Política Nacional de Recursos Hídricos ( Lei 9.433/1997)PNRS – Política Nacional de Resíduos Sólidos ( Lei 12.305/2010) PNSB – Política Nacional de Saneamento Básico ( Lei 11.445/2007) PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente POPs – Poluentes Orgânicos Persistentes RDA – Revista de Direito Ambiental (Editora Revista dos Tribunais) RE – Recurso Extraordinário REsp – Recurso Especial RIMA – Relatório de Impacto Ambiental RMS – Recurso Ordinário em Mandado de Segurança https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1985%5C%5C356&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1985-356|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2015%5C%5C1656&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2015-1656|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1999%5C%5C113&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1999-113|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1981%5C%5C21&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1981-21|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2009%5C%5C2300&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2009-2300|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1997%5C%5C51&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1997-51|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2010%5C%5C1558&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2010-1558|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2007%5C%5C2630&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2007-2630|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 3/3 SNUC – Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza ( Lei 9.985/2000) STF – Supremo Tribunal Federal STJ – Superior Tribunal de Justiça TAC – Termo de Ajustamento de Conduta UCs – Unidades de Conservação da Natureza UNESCO – Organização das Nações Unidas para Cultura, Ciência e Educação UNFCCC – Convenção Quadro das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas UGB – Umweltgesetzbuch (Projeto do Código Ambiental Alemão) V. – Ver v. – ver VVDStRL – Veröffentlichungen der Vereinigung der Deutschen Staatsrechtslehrer (Zeitschrift) WCEL – World Comision on Environmental Law (da IUCN) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2000%5C%5C261&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2000-261|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/5 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 Introdução ao Direito Constitucional Ecológico § 1 O “ESVERDEAR” DO DIREITO CONSTITUCIONAL “Se a Constituição (Bill of Rights) não contém a garantia de que o cidadão deve ser protegido contra venenos letais distribuídos tanto por indivíduos privados quanto por representantes oficiais do governo, isso ocorre certamente porque nossos antepassados, apesar da sua considerável sabedoria e previdência, não podiam imaginar tal problema à época da sua elaboração” (Rachel Carson).1 A presente Introdução tem por objetivo disponibilizar ao leitor uma espécie de “roteiro” dos temas que serão tratados – com maior profundidade e desenvolvimento – ao longo dos Capítulos que integram a presente obra, além de colocar o leitor em contato, de forma sumária, com algumas das premissas e categorias do Direito Constitucional Ecológico. A Teoria Constitucional e a Teoria dos Direitos Fundamentais têm sido marcadas por um processo evolutivo de constante transformação e aprimoramento, o qual é modelado a partir das relações sociais que legitimam toda a ordem constitucional, assim como das novas tarefas incorporadas ao Estado e ao Direito de um modo geral, sempre na busca de uma salvaguarda mais ampla dos direitos fundamentais (liberais, sociais e ecológicos) e da dignidade da pessoa humana. Os novos valores impulsionados e legitimados pelas relações sociais contemporâneas, especialmente a partir da Década de 1970, estabeleceram de forma marcante a defesa ecológica e a melhoria da qualidade de vida, como decorrência da atual crise ecológica.2 Assim como outrora a Teoria da Constituição e o Direito Constitucional estiveram comprometidos com a afirmação, na ordem da evolução, dos valores e direitos liberais e sociais (valores que, embora em contexto e com sentido revisto e reconstruído, seguem incorporados à agenda constitucional), hoje a proteção e promoção do ambiente desponta como novo valor e direito de matriz constitucional, de tal sorte que, de acordo com a expressão cunhada por Vasco Pereira da Silva, se pode falar de um “esverdear”3 da Teoria da Constituição e do Direito Constitucional, bem como da ordem jurídica como um todo. Não há mais, portanto, como negar a edificação – em curso e de modo progressivo – de uma Teoria Constitucional Ecológica, o que torna possível a defesa de um Direito Constitucional Ecológico, inclusive superando hoje o que se poderia designar, como sua versão prévia, de um Direito Constitucional Ambiental assentado numa matriz teórica e normativa antropocêntrica, conforme sustentamos ao longo da obra.4 A partir da força normativa da nova “Constituição Ambiental” (ou Constituição Ecológica, como preferimos), como refere J. J. Gomes Canotilho, verifica-se o estabelecimento de um novo “programa jurídico- constitucional”5 de natureza ecológica. Ou, como refere Klaus Bosselmann, da mesma forma como testemunhamos no passado o processo de “humanização da Constituição” (Humanisierung der Verfassung), verifica-se, desde a Década de 1970, um novo processo em curso (ainda inacabado) de “ecologização da Constituição” (Ökologisierung der Verfassung).6 Tomando por base a realidade constitucional portuguesa – que, nesse aspecto, é muito semelhante à brasileira –, Figueiredo Dias destaca que, em razão da força conferida pelo legislador constitucional à tutela ambiental, pode-se falar na existência de uma verdadeira Constituição Ambiental.7 A expressão Constituição Ecológica8, no entanto, nos parece mais adequada à luz do “estado da arte” de desenvolvimento do Direito Constitucional contemporâneo, notadamente diante do novo paradigma constitucional ecológico com fortes traços ecocêntricos emergente a partir da última década. Além das Constituições Portuguesa (1976)e Brasileira (1988)9, que simbolizam de forma emblemática esse novo panorama normativo constitucional, muitas outras também passaram a incorporar ao seu texto a proteção do ambiente. Tal é o caso, entre várias outras, da Constituição Grega (1975), da Constituição Espanhola (1978), da Lei Fundamental Alemã (1949, por meio das reformas constitucionais de 1994 e 2002), da Constituição Colombiana (1991), da Constituição Sul- Africana (1996) e da Constituição Suíça (2000). Mais recentemente, já sob a égide do Século XXI, merecem destaque também a Constituição Francesa (1958, por meio da incorporação constitucional da Carta do Meio Ambiente de 2004)10, a Constituição Equatoriana (2008) e a javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/5 Constituição Boliviana (2009). De acordo com o Primeiro Relatório Global sobre o Estado de Direito Ambiental (Environmental Rule of Law), divulgado no início de 2019 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), 11 desde a década de 1970, 88 países reconheceram um direito constitucional ou fundamental a um ambiente saudável, bem como mais 62 países consagraram a proteção do ambiente em suas Constituições de alguma forma, totalizando 150 países de todo o mundo com direitos constitucionais e/ou disposições sobre o meio ambiente nas suas Constituições. Não obstante as diferenças existentes entre os diversos ordenamentos jurídicos e as particularidades de cada uma das Constituições que agregaram a tutela ecológica ao seu projeto normativo, resulta evidente que a proteção do ambiente passou a ser compreendida, em todos os cenários constitucionais citados acima, como um valor constitucional, assim como uma tarefa do Estado (Estado-Legislador, Estado-Administrador e Estado-Juiz) e da sociedade. Em alguns ordenamentos constitucionais, caminhou-se, para além da tarefa estatal, consagrando também um direito (e dever) fundamental ao ambiente, ou seja, o direito do indivíduo e da coletividade a viver em um ambiente equilibrado, seguro e saudável. Essa foi a orientação, por exemplo, das Constituições Portuguesa, Brasileira e Sul-Africana. Num passo ainda mais avançado em termos de tutela constitucional do ambiente, cumpre assinalar o reconhecimento de “direitos da Natureza (Pacha Mama)” tal como dá conta, de forma paradigmática, a Constituição Equatoriana (2008)12, o que entendemos ser a nova fronteira a ser desbravada pelo Direito Constitucional Ecológico à luz de um novo paradigma jurídico ecocêntrico emergente. O “coroamento” constitucional da tutela do ambiente revelado anteriormente, é oportuno registrar, foi (a depender do caso) precedido, acompanhado e fortificado pela consagração da proteção ecológica no âmbito do Direito Internacional, inclusive na esfera do Direito Internacional dos Direitos Humanos. Para exemplificar, podemos destacar a Declaração de Estocolmo das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano (1972), o Protocolo de San Salvador Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1988), a Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1992), a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (1992), a Convenção sobre Diversidade Biológica (1992), a Declaração e Programa de Ação de Viena, promulgada na 2.ª Conferência Mundial sobre Direitos Humanos (1993), o Protocolo de Quioto (1997), a Convenção de Aarhus sobre Acesso à Informação, Participação Pública na Tomada de Decisões e Acesso à Justiça em Matéria Ambiental (1998), o Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança (2000) e a Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes (2001). Mais recentemente, registra-se a celebração do Acordo de Paris (2015), no âmbito da Convenção-Quadro das Mudanças do Clima, negociado durante a COP-21, e, precisamente com o objetivo de fortalecer a efetivação da legislação ambiental por meio dos “direitos ambientais procedimentais”, nos moldes do Princípio 10 da Declaração do Rio e da Convenção de Aarhus, merece destaque O Acordo Regional de Escazú para América Latina e Caribe sobre Acesso à Informação, Participação Pública e Acesso à Justiça em Matéria Ambiental (2018). O mesmo também se verifica no tocante ao Direito Comunitário, tendo a Carta de Direitos Fundamentais da União Europeia consagrado a proteção ecológica no seu corpo normativo, inclusive no sentido de estabelecer um “nível elevado” de proteção do ambiente e a “melhoria” da sua qualidade, de acordo com o princípio do desenvolvimento sustentável (art. 37). Por força de um necessário “diálogo das fontes”13 normativas (e até mesmo de um “Diálogo de Cortes”14) em matéria ambiental, inclusive a ponto de alguns autores sustentarem um “constitucionalismo global ambiental ou ecológico”15, é importante sinalizar para a necessária coordenação e integração entre os planos normativos internacional, comunitário e constitucional16 para assegurar um regime jurídico cada vez mais eficaz e efetivo para o enfrentamento de temas que transcendem os planos local, regional e nacional, como simboliza de forma emblemática o caso do aquecimento global e das mudanças climáticas. O diálogo das fontes normativas em matéria ambiental deve operar no sentido de ampliar de modo progressivo o regime jurídico de proteção ecológica, reconhecendo a essencialidade da qualidade e integridade do ambiente para o desfrute de uma vida digna, segura e saudável, inclusive na perspectiva das futuras gerações, bem como da proteção da vida não humana e da Natureza como um todo, tomando por premissa a integridade ecológica do Sistema Planetário (Gaia) como um todo. 1 javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 3/5 .“If the Bill of Rights contains no guarantee that a citizen shall be secure against lethal poisons distributed either by private individuals or by public officials, it is surely only because our forefathers, despite their considerable wisdom and foresight, could conceive of no such problem”. CARSON, Rachel. Silent spring. Fortieth Anniversary Edition (1962). Boston/New York: Mariner Book, 2002, pp. 12-13. Em 1962, nos Estados Unidos, Rachel Carson, com sua obra Primavera silenciosa, lançou a semente do que se tornaria uma verdadeira revolução social e cultural, alcançando, mais tarde, também os universos político e jurídico. Embora não sendo necessariamente a pioneira do movimento ambientalista, que desde o início da Década de 1960 já era gestado tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, ela cumpriu um papel fundamental com sua obra e projetou para o espaço público o debate a respeito da responsabilidade da ciência, dos limites do progresso tecnológico e da relação entre ser humano e Natureza. Mais especificamente, Carson descreveu como o uso de determinadas substâncias químicas (hidrocarbonetos clorados e fósforos orgânicos utilizados na composição de agrotóxicos, como o DDT) alteravam os processos celulares de plantas e animais, atingindo o ambiente natural como um todo e, consequentemente, o ser humano. Embora a passagem referida acima situar-se no espectro da questão da contaminação química – ainda hoje central na tutela ambiental –, a sua reflexão extrapola tal perspectiva e alcança a questão ecológica em todas as suas dimensões, considerando, em especial, o conteúdo da passagem destacada no sentido da importância da inclusão da proteção do ambienteno catálogo dos direitos fundamentais (Bill of Rights) dos nossos sistemas jurídicos. 2 .Sobre o conceito de “crise ambiental” (Umweltkrise), v. KLOEPFER, Michael. Umweltschutzrecht. München: Verlag C. H. Beck, 2008, pp. 1-3. De modo a reforçar tal entendimento, registram-se os estudos do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), respectivamente, The Limits to Growth: a Report for the Club of Rome’s Project on the Predicament of Mankind (1972) e Beyond the Limits: Confronting Global Collapse, Envisioning a Sustainable Future (1992). Para versão em português, v. MEADOWS, Donell H.; MEADOWS, Dennis L.; RANDERS, Jorgen; BEHRENS III, William W. Limites do crescimento: um relatório para o Projeto do Clube de Roma sobre o Dilema da Humanidade. 2. ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 1978 (1ª edição brasileira de 1973). 3 .PEREIRA DA SILVA, Vasco. Verde cor de direito: lições de Direito do Ambiente. Coimbra: Almedina, 2002. 4 .No cenário jurídico brasileiro, tal percepção se fez presente, de certa forma pioneira, na obra de José Afonso da Silva, com a primeira edição do seu livro Direito Constitucional Ambiental no ano de 1994 (SILVA, José Afonso da. Direito ambiental constitucional. 4. ed. São Paulo: Malheiros, 2003). Na doutrina brasileira, sobre o Direito Constitucional Ambiental ou Ecológico, v., entre outros, ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito ambiental. 11. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008, especialmente pp. 57-92; BARROSO, Luís Roberto. Proteção do meio ambiente na Constituição brasileira. Revista Trimestral de Direito Público, n. 2. São Paulo: Malheiros, 1993, pp. 58-79; BENJAMIN, Antonio Herman. Constitucionalização do ambiente e ecologização da Constituição brasileira. In: CANOTILHO, José Joaquim Gomes; MORATO LEITE, José Rubens (Orgs.). Direito constitucional ambiental brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2007, pp. 57-130; BIANCHI, Patrícia. Eficácia das normas ambientais. São Paulo: Saraiva, 2010; CANOTILHO, José Joaquim Gomes; MORATO LEITE, José Rubens (Orgs.). Direito constitucional ambiental brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2007; CAPPELLI, Sílvia; MARCHESAN, Ana Maria Moreira; STEIGLEDER, Annelise Monteiro. Direito ambiental. 6. ed. Porto Alegre: Verbo Jurídico, 2010; DERANI, Cristiane. Direito ambiental econômico. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2008, especialmente pp. 173-260; FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito ambiental brasileiro. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2009; MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito ambiental brasileiro. 24. ed. São Paulo: Malheiros, 2016, especialmente pp. 141-179; MILARÉ, Edis. Direito do ambiente. 4. ed. São Paulo: Ed. RT, 2005, especialmente pp. 141-192; MONTERO, Carlos Eduardo Peralta. Tributação ambiental. São Paulo: Saraiva, 2014; MORATO LEITE, José Rubens; AYALA, Patryck de Araújo. Dano ambiental: do individual ao coletivo extrapatrimonial (teoria e prática). 3. ed. São Paulo: Ed. RT, 2010; PADILHA, Norma Sueli. Fundamentos constitucionais do direito ambiental brasileiro. São Paulo: Campos/Elsevier, 2010; PASSOS DE FREITAS, Vladimir. A Constituição Federal e a efetividade das normas ambientais. 3. ed. São Paulo: Ed. RT, 2005; PURVIN DE FIGUEIREDO, Guilherme. 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Porto Alegre, Livraria do Advogado, 2010; e 13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 4/5 AYALA, Patryck de Araújo. Devido processo ambiental e o direito fundamental ao meio ambiente. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011. Por fim, para uma análise comentada dos dispositivos da CF/1988, em matéria ambiental, v. SARLET, Ingo W.; MACHADO, Paulo Affonso Leme; FENSTERSEIFER, Tiago. Constituição e legislação ambiental comentadas. São Paulo: Saraiva, 2015; e CANOTILHO, J. J.; MENDES, G. F.; SARLET, I. W.; STRECK, L. L. (Org.). Comentários à Constituição do Brasil. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2018. 5 .CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional ambiental português e da União Europeia. In: CANOTILHO, José Joaquim Gomes; MORATO LEITE, José Rubens (Orgs.). Direito constitucional ambiental brasileiro. São Paulo: Saraiva, p. 5. 6 .BOSSELMANN, Klaus. Im Namen der Natur: der Weg zum ökologischen Rechtsaat. München: Scherz, 1992, pp. 189- 202. 7 .FIGUEIREDO DIAS, José Eduardo. Direito constitucional e administrativo do ambiente (Cadernos do Centro de Estudos de Direito do Ordenamento, do Urbanismo e do Ambiente). Coimbra: Almedina, 2002, p. 56. 8 .A expressão “Constituição Ecológica” foi consagrada de forma paradigmática em decisão da Corte Constitucional Colombiana no julgamento da T-622/16, proferida em 10.11.2016, ao reconhecer e atribuir direitos ao Rio Atrato. Íntegra da decisão disponível em: [www.corteconstitucional.gov.co/relatoria/2016/t-622-16.htm]. 9 .A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 será referida doravante como CF/1988. Em algumas passagens, também utilizamos a expressão “Lei Fundamental de 1988” para designá-la. 10 .A Constituição Francesa, que data de 1958, teve incorporada ao seu bloco normativo a lei constitucional relativa à Carta do Meio Ambiente, de 28 de fevereiro de 2005, integrando a “Carta do Meio Ambiente de 2004” entre os textos de valor constitucional, juntamente com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 e o Preâmbulo da Constituição de 1946. 11 .PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O MEIO AMBIENTE. Environmental Rule of Law: First Global Report. Nairobi: PNUMA, 2019, p. 2. Disponível em: [wedocs.unep.org/bitstream/handle/20.500.11822/27279/Environmental_rule_of_law.pdf?sequence=1&isAllowed=y]. 12 .Para um panorama geral sobre as inovações constitucionais trazidas pela Constituição Equatoriana de 2008 e pela Constituição Boliviana de 2009 (com legislação infraconstitucional específica sobre o tema), v. FATHEUER, Thomas. Buen vivir: a brief Introduction to Latin America´s new Concepts for the Good Life and the Rights of Nature. Berlin: Fundação Heinrich Böll, 2011. Disponível em: [www.boell.de/sites/default/files/Buen_Vivir_engl.pdf].KOTZÉ, Louis; CALZADILLA, Paola Villavicencio. Somewhere between Rhetoric and Reality: Environmental Constitutionalism and the Rights of Nature in Ecuador. In: Transnational Environmental Law (Cambridge University Press), v. 6 (3), 2017, pp. 401-433; e CALZADILLA, Paola Villavicencio; KOTZÉ, Louis. Living in Harmony with Nature? A Critical Appraisal of the Rights of Mother Earth in Bolivia. In: Transnational Environmental Law (Cambridge University Press), 2018, pp. 1-28. 13 .V. MARQUES, Cláudia Lima (Coord.). Diálogo das fontes: do conflito à coordenação de normas do direito brasileiro. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012. 14 .V. RAMOS, André de Carvalho. O diálogo das cortes: O Supremo Tribunal Federal e a Corte Interamericana de Direitos Humanos. In: AMARAL JUNIOR, Alberto do; JUBILUT, Liliana Lyra (Org.) O STF e o direito internacional dos direitos humanos. São Paulo: Quartier Latin, 2009, v. 1, pp. 805-850. 15 .KOTZE, Louis J. Arguing Global Environmental Constitutionalism. In: Transnational Environmental Law (Cambridge University Press), v. 1 (1), 2012, pp. 199-233. 16 https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 5/5 .V. CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. Tratado de direito internacional dos direitos humanos. 2. ed. Porto Alegre: SAFE, 2003, v. I, p. 41, bem como, sobre a necessidade de uma abordagem unificadora e coordenada do direito ambiental internacional (e dos seus sistemas temáticos setorizados de tratados e acordos multilaterais) com base no conceito de integridade ecológica (como Grundnorm) projetado em escala global, v. BOSSELMAN, Klaus; KIM, Rakhyun E. International Environmental Law in the Anthropocene: Towards a Purposive System of Multilateral Environmental Agreements. In: Transnational Environmental Law (Cambridge University Press), v. 2 (2), 2013, pp. 285- 309. 13/04/2023, 19:10 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/4 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 2 A CRISE ECOLÓGICA COMO RESULTADO DAS “PEGADAS”17 DO SER HUMANO NO NOVO PERÍODO GEOLÓGICO DO ANTROPOCENO (“ERA DOS SERES HUMANOS”) A abordagem ecológica do Direito Constitucional, conforme já sinalizado em passagem anterior, justifica-se em razão da importância que a qualidade, o equilíbrio e a segurança ambiental têm para o desfrute, a tutela e a promoção dos direitos fundamentais (liberais, sociais e ecológicos) – como, por exemplo, vida, integridade física, propriedade, saúde, educação, moradia, alimentação, saneamento básico –, o que situa a proteção do ambiente – por si só – como um dos valores edificantes do nosso Estado de Direito constituído por meio do pacto político-jurídico firmado na Lei Fundamental de 1988 (art. 225). Assim, cumpre arrolar algumas das “pegadas humanas”, como sinônimo de degradação perpetrada pela ação humana no meio natural, dado que os efeitos negativos de tais práticas resultam, na grande maioria das vezes, em violação direta ou mesmo indireta aos direitos fundamentais do indivíduo, dos grupos sociais e da coletividade como um todo. Como exemplo de situação de vulnerabilidade existencial do ser humano decorrente da degradação ecológica, pode-se destacar a contaminação química denunciada por Carson,18 e que, no caso brasileiro, teve em José Lutzenberger, na época à frente do movimento ambientalista brasileiro, um baluarte na luta contra o uso de agrotóxicos.19 Nessa mesma perspectiva, podem ser referidas a questão nuclear, a destruição progressiva das florestas tropicais, a poluição dos rios e oceanos, a poluição atmosférica – especialmente nos grandes centros urbanos –, entre tantas outras formas de desequilíbrio ecológico que comprometem sobremaneira o bem-estar e a qualidade de vida individual e coletiva. No tocante à destruição da Floresta Amazônica brasileira – e o mesmo ocorre com relação ao Pantanal Mato-Grossense20 –, cumpre assinalar que tal situação, denunciada mundialmente por Chico Mendes na Década de 1980, ainda está longe de ser resolvida, especialmente por conta do avanço descontrolado das “fronteiras” agrícola e pecuária sobre a área florestal, acompanhado de incessantes queimadas e desmatamentos. O tema que mais ecoa hoje no discurso ambientalista e no debate público em geral – o movimento de estudantes Fridays for Future21, personificado na estudante sueca Greta Thunberg, e o fenômeno recente da “litigância climática” ilustram bem esse cenário22 –, inclusive com inserções políticas e jurídicas cada vez mais importantes, tanto no plano nacional23 quanto internacional, diz respeito ao aquecimento global. A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima – UNFCCC (1992)24, celebrada por ocasião da Conferência do Rio sobre “Meio Ambiente e Desenvolvimento”, de 1992, (Eco-92) deu o passo inicial nos esforços da comunidade internacional na matéria, seguida do Protocolo de Quioto (1997) e, mais recentemente, do Acordo de Paris (2015). Em Paris, durante a COP 21, em 12 de dezembro de 2015, as Partes da UNFCCC chegaram a um acordo histórico para combater as alterações climáticas e acelerar e intensificar as ações e os investimentos necessários para um futuro sustentável com a redução das emissões de carbono. O Acordo de Paris baseia-se na UNFCCC e – pela primeira vez – traz todos Estados- Membros para empreenderem esforços ambiciosos no combate às mudanças climáticas e adaptarem-se aos seus efeitos, inclusive com maior apoio para ajudar os países em desenvolvimento a fazê-lo. O objetivo central do Acordo de Paris é manter o aumento da temperatura global neste século bem abaixo dos dois graus Celsius acima dos níveis pré-industriais e prosseguir os esforços para limitar ainda mais o aumento da temperatura a 1,5 graus Celsius. O Acordo de Paris foi aberto à assinatura em 22 de abril de 2016 – Dia da Terra – na sede da ONU, em Nova Iorque, entrando em vigor em 4 de novembro de 2016, 30 dias após ter sido atingido o chamado “duplo limiar” (ratificação por 55 países que representam pelo menos 55% das emissões mundiais). Desde então, mais países ratificaram e continuam a ratificar o Acordo, atingindo o número de 185 Partes (de um total de 197) no início de 2019. Em sua obra A vingança de Gaia, James Lovelock destaca a “situação-limite” a que chegamos, ou que talvez até mesmo já tenhamos ultrapassado, em termos de mudança climática, desencadeada especialmente pela emissão de gases geradores do efeito estufa (greenhouse effect), como o dióxido de carbono (CO2) e o metano, que são liberados na atmosfera especialmente pela queima de combustíveis fósseis e pela destruição de florestas tropicais.25 O fenômeno das mudanças climáticas, como resultado da ação humana – oficial e mundialmente javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:10 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e…2/4 reconhecido pela comunidade científica no âmbito do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) da ONU há mais de duas décadas 26 –, inclui, entre os seus efeitos, a maior intensidade e frequência de episódios climáticos extremos,27 a alteração nos regimes de chuvas, como ocorre na hipótese de chuvas intensas em um curto espaço de tempo, um desregramento climático cada vez maior e imprevisível, caracterizado, entre outros aspectos, pela constante quebra de recordes de temperaturas altas em todo mundo, pelo desaparecimento paulatino das camadas de gelo, acompanhado ainda de um aumento do nível dos oceanos e do nível médio de temperatura do globo terrestre, entre outros eventos.28 A tais efeitos, soma-se também a perda massiva da biodiversidade global.29 Um dos últimos alertas globais sobre o tema foi dado no mês de maio de 2019, com a divulgação do sumário do “Relatório de Avaliação Global sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos” (Global Assessment Report on Biodiversity and Ecosystem Services), produzido e aprovado na sua 7ª sessão plenária, realizada em Paris, pela Plataforma Intergovernamental Científico-Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) da ONU, instituição com papel equivalente ao desempenhado na área das mudanças climáticas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU. Entre os diversos aspectos alarmantes destacados no documento, que representa a avaliação mais abrangente já feita mundialmente na matéria, destaca-se o perigoso declínio “sem precedentes” da Natureza na história da humanidade, com a “aceleração” das taxas de extinção de espécies, a tal ponto em que “1.000.000 (um milhão) de espécies encontram-se hoje ameaçadas de extinção no Planeta”. Tal situação também representa graves impactos sobre as pessoas em todo o mundo. O relatório também destaca que a resposta global atual tem sido insuficiente, impondo-se a necessidade de “mudanças transformadoras” para restaurar e proteger a Natureza, notadamente superando a oposição de interesses instalados em prol do bem ou interesse público ou comum global.30 Enfim, tais questões refletem, em verdade, também uma crise de ordem ética, pois é justamente o comportamento do ser humano, por meio das suas práticas nas mais diversas áreas, o fator responsável pela degradação ecológica relatada nas linhas precedentes, o que, por sua vez, acaba por se voltar contra ele próprio e comprometer os seus direitos fundamentais e, no limite, a sua dignidade e vida no novo Período Geológico do Antropoceno (“Era dos Seres Humanos”), como popularizado a partir do ano 2000 pelos trabalhos científicos de Paul J. Crutzen31, químico atmosférico holandês e Prêmio Nobel de Química (1995), em razão da nossa intervenção na Natureza afetar, como nunca antes, o equilíbrio planetário em escala global. 17 .A expressão “pegada ecológica” tem sido utilizada por entidades ambientalistas, como é o caso da World Wide Fund for Nature (WWF), para “calcular”, em termos estimativos, a partir das nossas práticas de consumo – utilização de recursos naturais, resíduos gerados, entre outros aspectos –, a degradação ecológica produzida individualmente, inclusive em termos de emissão de gases geradores do efeito estufa. A “pegada ecológica” permite visualizar até que ponto a nossa forma de viver está de acordo (ou não) com a capacidade do Planeta de oferecer e renovar seus recursos naturais, bem como absorver os resíduos que geramos. Na página eletrônica da WWF-Brasil, há, inclusive, a possibilidade de realizar o “cálculo” da pegada ecológica de cada um. Disponível em: [www.wwf.org.br/natureza_brasileira/especiais/pegada_ecologica]. 18 .Em 1996, um novo estudo foi publicado (O Futuro Roubado), de autoria de dois cientistas, Theo Colborn e John Peterson Myers, e de uma jornalista, Dianne Dumanoski, que, de certa forma, deu sequência aos estudos realizados por Carson na Década de 1960 (COLBORN, Theo; DUMANOSKI, Dianne; MYERS, John Petersen. O futuro roubado. Porto Alegre: L&PM, 2002). No prefácio do livro, que também conta com prefácio especial à edição brasileira de Lutzenberger, Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos e Prêmio Nobel da Paz em 2007 pela sua luta ambiental, destaca que, com base nos estudos preliminares realizados com animais e seres humanos referidos na obra, foi relacionado o uso de “agentes químicos a inúmeros problemas, inclusive contagens baixas de espermatozoides no sêmen; infertilidade; deformações genitais; cânceres desencadeados por hormônios, como o câncer de mama e de próstata; desordens neurológicas em crianças, como hiperatividade e déficit de atenção; e problemas de desenvolvimento e reprodução em animais silvestres”. Para além do ponto onde havia chegado Carson, os autores de O Futuro Roubado ampliaram o estudo a respeito das consequências lesivas causadas aos seres humanos e ao ambiente natural pelo uso de – e exposição a – substâncias químicas utilizadas pelo ser humano em praticamente todas as suas atividades habituais. A conclusão mais intrigante a que chegam os autores diz respeito às baixas taxas de fertilidade e mesmo infertilidade ocasionadas aos seres humanos e aos demais animais, como decorrência da sua exposição a substâncias químicas, o que acabaria por comprometer, em médio prazo, a própria sobrevivência da espécie humana. No Brasil, sobre a questão da contaminação química, inclusive com análise da javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:10 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 3/4 Convenção da Basileia sobre o Controle de Movimentos Transfronteiriços de Resíduos Perigosos e seu Depósito (1989), v. LISBOA, Marijane. Ética e cidadania planetárias na era tecnológica: o caso da Proibição da Basileia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. 19 .LUTZENBERGER, José. A. Fim do futuro? Manifesto Ecológico Brasileiro. Porto Alegre: Movimento/UFRGS, 1980. O resultado de tais reivindicações do movimento ambientalista brasileiro pode ser verificado na edição da Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (6.938/1981) e da Lei de Agrotóxicos ( Lei 7.802/1989), bem como na própria consolidação constitucional da proteção ambiental através da CF/1988 (art. 225). Sobre a vida de Lutzenberger e a luta ambiental por ele travada, v. DREYER, Lilian. Sinfonia inacabada: a vida de José Lutzenberger. Porto Alegre: Vidicom Audiovisuais Edições, 2004. 20 .A Floresta Amazônica brasileira e o Pantanal Mato-Grossense, juntamente com a Mata Atlântica, Serra do Mar e a Zona Costeira, são tratados constitucionalmente como patrimônio nacional, devendo a sua utilização assegurar a preservação do ambiente e dos recursos naturais (§ 4.º do art. 225). 21 .Disponível em: [www.fridaysforfuture.org]. 22 .V. OKUBO, Noriko. Climate Change Litigation: a Global Tendency. In: RUPPEL, Oliver C.; ROSCHMANN, Christian; RUPPEL-SCHLICHTING, Katharina (Edits.). Climate Change: International Law and Global Governance (Vol. I: Legal Responses and Global Responsibility). Baden-Baden: Nomos, 2013, pp. 741-758. Na doutrina brasileira, v., por todos, WEDY, Gabriel. Desenvolvimento sustentável na era das mudanças climáticas: um direito fundamental. São Paulo: Saraiva (Série IDP), 2018. 23 .No cenário jurídico brasileiro, além de diversas legislações estaduais e municipais que versam sobre a questão, v. a Lei da Política Nacional sobre Mudança do Clima ( Lei 12.187/2009). 24 .Para mais informações: [unfccc.int]. 25 .LOVELOCK, James. A vingança de Gaia. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2006, p. 24. 26 .No início de 2007, foi divulgado o Relatório de Avaliação da Saúde da Atmosfera (AR4) feito pelo quadro de cientistas da ONU do IPCC, onde resultou diagnosticado que o aquecimento global é causado por atividades humanas,bem como que as temperaturas poderão subir de 1,8ºC a 4ºC até o final deste século. O AR5 foi divulgado no ano de 2014 e a previsão de divulgação do AR6 é para o ano de 2022. Disponível em: [www.ipcc.ch]. No final de 2018, o IPCC apresentou um relatório especial sobre os impactos do aquecimento global de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais e das correspondentes vias de emissão globais de gases com efeito de estufa. O referido relatório foi elaborado por determinação de decisão da 21ª Conferência das Partes da UNFCCC, ao adotar o Acordo de Paris. Segundo o relatório, “estima-se que as atividades humanas tenham causado aproximadamente 1,0°C de aquecimento global acima dos níveis pré-industriais, com uma variação provável de 0,8°C a 1,2°C. É provável que o aquecimento global atinja 1,5°C entre 2030 e 2052 se continuar a aumentar ao ritmo atual (elevada confiança). O aquecimento provocado pelas emissões antropogênicas do período pré-industrial até o presente persistirá durante séculos e milénios e continuará a provocar novas alterações a longo prazo no sistema climático, como a subida do nível do mar, com impactos associados (elevada confiança), mas é pouco provável que essas emissões, por si só, provoquem um aquecimento global de 1,5°C (confiança média). Os riscos relacionados ao clima para os sistemas naturais e humanos são maiores para o aquecimento global de 1,5°C do que atualmente, mas inferiores a 2°C (alta confiança). Esses riscos dependem da magnitude e da taxa de aquecimento, da localização geográfica, dos níveis de desenvolvimento e da vulnerabilidade, bem como das escolhas e implementação de opções de adaptação e atenuação (elevada confiança)”. Para acesso à íntegra do relatório: [www.ipcc.ch/report/sr15/]. 27 .Em 2004, como exemplo de episódio climático extremo no Brasil, as populações da região sul do Estado de Santa Catarina e da região nordeste do Estado do Rio Grande do Sul testemunharam o primeiro furacão – denominado de Catarina – registrado historicamente no Atlântico Sul. Os cientistas que participaram de encontro promovido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) para debater o fenômeno natural em questão chegaram ao consenso no sentido de que o mesmo se tratava de um furacão na sua fase final – Categoria 2, de acordo com a escala Saffir-Simpson –, com rajadas de ventos de até 180 hm/h. O prejuízo causado pelo episódio climático foi https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1989%5C%5C27&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1989-27|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2009%5C%5C2300&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2009-2300|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:10 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 4/4 estimado em 250 milhões de reais. Sobre a questão, inclusive com destaque para o “ineditismo climático” provocado pelo Furacão Catarina, v. LYNAS, Mark. Seis graus: o aquecimento global e o que você pode fazer para evitar uma catástrofe. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, pp. 55-57. 28 .O Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento descreve que a atividade mais intensa das tempestades tropicais é uma das certezas resultantes das alterações climáticas, de modo que o aquecimento dos oceanos irá impulsionar eventos climáticos cada vez mais intensos (p. 101). Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008 do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas. Disponível em: [www.undp.org/content/brazil/pt/home/library/relatorios-de-desenvolvimento-humano/relatorio-do- desenvolvimento-humano-20007.html]. 29 .A perda da biodiversidade acarretada pelo aquecimento global é apontada, entre vários outros, por WILSON, Edward O. A criação: como salvar a vida na Terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 134. Hoje, uma nova questão relacionada à biodiversidade que tem ganhado cada vez mais relevância diz respeito à proteção jurídica dos insetos (abelhas, borboletas etc.). A título de exemplo, no Estado alemão da Bavária, realizou-se, no mês de fevereiro de 2019, um plebiscito em favor da proteção das abelhas, anunciado como “histórico” pela imprensa alemã, com mais de 1,7 milhões de votos. Disponível em: [volksbegehren-artenvielfalt.de]. Posteriormente, a Ministra do Meio Ambiente alemã anunciou que trabalha e apresentará em breve um projeto de “Lei de Proteção dos Insetos” (Insektenschutzgesetz), que tem como foco a redução dos fatores (agrotóxicos, em especial) que têm levado à extinção em massa de insetos (em especial, abelhas e borboletas). Disponível em: [www.bundesregierung.de/breg- de/aktuelles/bundesregierung-will-insekten-besser-schuetzen-1581358]. 30 .Disponível em: [www.ipbes.net]. 31 .CRUTZEN, Paul J. Geology of Mankind: the Anthropocene. In: Nature, 415, 2002 (jan.), p. 23. 13/04/2023, 19:10 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/2 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 3 O MOVIMENTO AMBIENTALISTA E A LEGITIMAÇÃO POLÍTICO-COMUNITÁRIA DOS VALORES ECOLÓGICOS COMO FUNDAMENTO DO CONSTITUCIONALISMO CONTEMPORÂNEO “It’s a mystery to me We have a greed With which we have agreed You think you have to want More than you need Until you have it all you won’t be free (...).”32 A crise ecológica, tomando por base os diversos exemplos de degradação ambiental listadas no tópico antecedente e muito antes ainda do reconhecimento do Antropoceno, motivou a mobilização diversos setores e grupos sociais na defesa da Natureza, o que levou ao surgimento de novos valores e práticas ecológicas. A concepção de uma sociedade civil organizada é resultado, em grande medida, das mobilizações sociais verificadas de modo emblemático a partir da Década de 1960. As revoltas estudantis de Maio de 1968, em especial na França, refletem de forma simbólica tal contexto histórico. É certo que diversas lutas sociais (direitos civis, pacifista, feminista etc.) também ensejaram a articulação organizada da sociedade a partir de tal período. Mas, sem dúvida, o movimento ambientalista que emergiu em tal momento é um exemplo expressivo no novo rearranjo social e político que estava em curso. A respeito da questão, Sergio B. Tavolaro, em estudo sobre o movimento ambientalista, assinala que a sociedade civil passa a se caracterizar como uma terceira arena de poder, a fim de fazer frente ao Estado e ao Mercado, reforçando o seu papel na integração social.33 A movimento ambientalista, por tal prisma, objetiva “corrigir” as distorções – leia-se, crise ecológica – que o Mercado e o Estado não foram capazes de evitar e solucionar sozinhos, exigindo as devidas responsabilizações e ações corretivas necessárias, inclusive recorrendo, muitas vezes, ao Sistema de Justiça, com a ampliação dos mecanismos de participação pública em matéria ambiental proporcionados pelos denominados “direitos ambientais procedimentais ou de participação”, o que será tratado com maior desenvolvimento no Capítulo 6. O novo espaço político que passou a ser reivindicado e ocupado pela sociedade civil organizadaestá amparado na própria reformulação do modelo democrático vigente até então (ao menos, em parte) no mundo ocidental, com o objetivo de estabelecer mecanismos mais diretos de participação política. As diversas entidades ambientalistas criadas desde a Década de 1960 proporcionaram a “oxigenação” do espaço político, com o propósito de que os valores ecológicos por elas defendidos fossem levados em consideração nas decisões políticas e práticas econômicas. As novas formas de ação direta que sempre caracterizaram as entidades ambientalistas (inclusive com o recurso a práticas de desobediência civil), por meio de protestos e campanhas específicas (contra testes nucleares, caça às baleias, lixo tóxico, poluição dos mares, entre outros temas), com forte utilização do espaço midiático e mobilização da opinião pública, estabeleceram um novo parâmetro de articulação da sociedade civil e impactaram o espaço político, o que, mais tarde, também refletiu na consagração da proteção jurídica da Natureza e dos valores ecológicos. Hoje, também merece destaque a utilização crescente do espaço digital – por exemplo, por meio das redes sociais – para a mobilização da sociedade civil em torno da temática ecológica, o que tem impactado a esfera política de forma cada vez mais significativa. Um exemplo contemporâneo que exemplifica bem esse cenário diz respeito ao movimento de estudantes do Fridays for Future, conforme já mencionado anteriormente.34 O movimento ambientalista, por sua vez, apresenta múltiplas facetas e diferenças, como se verifica, por exemplo, entre aqueles que propõem medidas mais radicais de mudança dos padrões sociais, como é o caso dos grupos inspirados na “Ecologia Profunda” (Deep Ecology) de Arne Naess, e outros de cunho apenas “reformista”, defendendo a incorporação gradual e relativizada dos valores e práticas ecológicas no espectro comunitário. Uma vertente cada vez mais expressiva javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:10 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/2 do movimento ecológico, inclusive guardando certa autonomia em relação a esse, diz respeito aos defensores do bem-estar e dos direitos dos animais. Ambas as correntes “animalistas” foram fortemente influenciadas, entre outros, pela obra Libertação Animal de Peter Singer35. Pode-se fazer até mesmo um paralelo comparativo, em termos de fonte de inspiração e importância, entre o significado da obra Primavera Silenciosa de Rachel Carson para o movimento ambientalista, já tratada anteriormente, e a obra Libertação Animal de Singer para o movimento dos direitos dos animais. O tema dos direitos dos animais (não humanos), por sua vez, será retomado e aprofundado no Capítulo 1. O nosso propósito neste tópico, ao tratar da legitimação social dos valores ecológicos em momento subsequente ao tópico em que elencamos diversas situações concretas de degradação ambiental e os seus reflexos negativos para a sociedade de um modo geral, é demonstrar ao leitor que há uma sequência lógica de tais fatos, ou seja, a partir da constatação da poluição e degradação dos recursos naturais é que os valores ecológicos emergiram e se legitimaram nas relações sociais. A legitimação social em questão precede e se coloca como premissa à consagração – ocorrida mais recentemente – da proteção jurídica do ambiente e, consequentemente, a “juridicização” dos valores ecológicos, o que se verifica com o surgimento do Direito Ambiental no início da Década de 1970. Isso tudo, por sua vez, está na base da legitimação do Direito Constitucional Ambiental e, mais recentemente, do Direito Constitucional Ecológico, como propomos a partir desta nova edição do nosso livro, seguindo o percurso evolutivo de tal legitimação social rumo a um novo paradigma ecocêntrico. Por fim, antes de adentrar no espectro jurídico-constitucional propriamente, iremos abordar alguns aspectos relacionados à ética ecológica. 32 .Passagem da música Society que integra a trilha sonora, composta por Eddie Vedder, do filme Into the Wild (Na Natureza Selvagem), de 2007, escrito e dirigido por Sean Penn. O filme é uma adaptação do livro de não-ficção de mesmo nome de 1996, escrito por Jon Krakauer e baseado nas viagens de Christopher McCandless pela América do Norte e, em particular, pelo Alaska no início da década de 1990. KRAKAUER, Jon. Into the Wild. New York: Anchor, 1997. 33 .TAVOLARO, Sergio Barreira de Faria. Movimento ambientalista e modernidade: sociabilidade, risco e moral. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2001, p. 88. 34 .A respeito da nova relação entre o ser humano e a Natureza que tem sido estimulada por meio do uso da internet, v. PSCHERA, Alexander. Das Internet der Tiere: der neue Dialog zwischen Mensch und Natur. Berlim: Matthes Seitz, 2014. 35 .SINGER, Peter. Libertação animal. Porto: Via Optima, 2000 (primeira edição em língua inglesa de 1975). javascript:void(0) 13/04/2023, 19:10 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/3 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 4 A ÉTICA DA RESPONSABILIDADE NA PERSPECTIVA DA “CIVILIZAÇÃO TECNOLÓGICA” (HANS JONAS) E DA “SOCIEDADE DE RISCO GLOBAL” (ULRICH BECK): DO DEVER MORAL AO DEVER JURÍDICO-CONSTITUCIONAL DE PROTEÇÃO ECOLÓGICA “Somente com a supremacia do pensamento e com o poder da civilização tecnológica possibilitada por ele, uma forma de vida, ‘o homem’, se colocou numa situação de botar em perigo para todas as demais formas de vida e, com elas, a si mesmo. A ‘Natureza’ não poderia incorrer em um risco maior do que o de fazer surgir o homem” (Hans Jonas).36 Nos tópicos anteriores descrevemos algumas das “pegadas” deixadas pelo ser humano na sua passagem pela Terra, bem como a mobilização social no sentido do enfrentamento da crise ecológica. Isso tudo, por sua vez, invade a perspectiva ético-filosófica, uma vez que os padrões comportamentais do ser humano moderno são colocados à prova no Antropoceno, implicando uma nova relação Sociedade-Natureza. Todos os registros de problemas ambientais aqui apontados são apenas ilustrativos de um conjunto muito maior de danos ecológicos, muitos ainda desconhecidos, perpetrados pelo ser humano. E, como destacado na epígrafe de Hans Jonas, o efeito de tais práticas é cumulativo e, em alguns casos, irreversível, como ocorre no caso da extinção de espécies naturais da fauna e da flora. A “situação-limite” a que chegamos – no tocante à crise ambiental – está associada de forma direta à postura filosófica – incorporada nas nossas práticas cotidianas – de dominação do ser humano em face do mundo natural, adotada desde a ciência moderna, de inspiração cartesiana, especialmente pela cultura ocidental.37 Na perspectiva da “vocação tecnológica” do ser humano, Milton Santos, alinhado com o pensamento de Kant, que dizia ser a História um progresso sem fim das técnicas, destaca que o desenvolvimento da história anda abraçado com o desenvolvimento das técnicas, sendo que a cada evolução técnica, uma nova etapa histórica se torna possível.38 No entanto, a simples criação ou mesmo aprimoramento de determinada técnica não nos transporta por si só para um novo estágio de evolução moral e bem-estar existencial. Assim, os avanços científicos e tecnológicos operados pela ciência, especialmente a partir da “revolução científica” dos séculos XVI e XVII (bastaria citar aqui a influência de nomes como os de Copérnico, Descartes, Bacon, Galileu, Newton, entre outros), a despeito dos notáveis progressos civilizatórios que propiciou, paralelamente serviram (e ainda servem) de instrumento de intervenção no meio natural e, consequentemente, de degradação e esgotamento dos recursosnaturais, na medida em que a Natureza é tratada pelo paradigma filosófico moderno como uma simples máquina, destituída de qualquer valor intrínseco.39 Os conhecimentos tecnológicos e científicos, que deveriam ter o desenvolvimento, o bem-estar social e a dignidade e qualidade da vida humana como suas finalidades maiores, passam a ser, em decorrência da sua instrumentalização inconsequente levada a cabo pelo ser humano, com todo o seu poder de criação e destruição, a principal ameaça à manutenção e à sobrevivência da espécie humana, assim como de todo ecossistema planetário,40 caracterizando, como apontado pelo sociólogo alemão Ulrich Beck, um modelo de “sociedade de risco” (Risikogesellschaft41) e, mais recentemente e por força da magnitude geológica e global do impacto da nossa intervenção no Planeta Terra, de “sociedade de risco global ou mundial” (Weltrisikogesellschaft42). A existência (e não apenas a dignidade) humana encontra-se ameaçada pela atual crise ecológica, como decorrência direta da “nossa” intervenção predatória na Natureza. O filósofo alemão Hans Jonas colocou em cheque a “civilização tecnológica” com o seu princípio da responsabilidade, propondo uma abordagem ética da ciência, em vista principalmente dos riscos existenciais trazidos pelas novas tecnologias desenvolvidas pela racionalidade humana, que expressam, numa dimensão sem precedentes, o triunfo do Homo faber sobre a Natureza e a vocação tecnológica da humanidade.43 Para ele, a operacionalização do arsenal científico e tecnológico deve ser pautada pela responsabilidade do cientista e submetida a parâmetros éticos, a fim de preservar-se a condição existencial humana, bem como a qualidade de vida. A crítica de Jonas é pertinente, já que na maioria das vezes, a ciência – ou melhor, o uso que se faz dela – está javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:10 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/3 a serviço de interesses puramente econômicos, o que, como refere, coloca o ser humano como, dentre todas as espécies que já habitaram o Planeta Terra, a mais destrutiva e ameaçadora. O uso de tecnologias – como bem ilustra a questão da energia nuclear e o desastre de Chernobyl – expõe a existência humana a tal ponto em que o ser humano é colocado como meio ou objeto para a consecução de determinadas práticas, negando a sua autonomia e condição de fim em si mesmo ou de sujeito autônomo da sua história de vida, consagrada pelo pensamento kantiano na caracterização da dignidade da pessoa humana.44 De acordo com Jonas, uma nova concepção ética deve ser construída a partir de uma adequada compreensão dos reflexos e amplitude da ação humana no contexto do atual estágio tecnológico e das suas consequências futuras. Em razão de a ética estar diretamente relacionada à ação humana, com a alteração da natureza dessa última, a compreensão ética também deve ser reformulada para o efeito de dar conta da complexidade da ação humana na contemporaneidade45, inclusive contemplando os seus reflexos no futuro e levando em consideração os interesses e direitos das futuras gerações humanas e mesmo não humanas (na perspectiva dos interesses e direitos dos animais e da Natureza como um todo). O atual estágio do conhecimento humano alterou significativamente a relação de forças existente entre ser humano e Natureza. Se há alguns séculos atrás o poder de intervenção do ser humano no meio natural era limitado, prevalecendo essa relação de forças em favor da Natureza, hoje a balança se inverteu de forma definitiva. Entre as diferentes correntes da ética ecológica (portanto, não antropocêntricas), destacam-se o patocentrismo (animais sencientes), o biocentrismo (todos os seres vivos) e o ecocentrismo (toda a Natureza, coletiva e individualmente considerada), correspondendo ao movimento de atribuir valor intrínseco para além do ser humano. A perspectiva “ecocêntrica”, corrente da ética ecológica a qual nos filiamos para conceber o marco jurídico-constitucional ecológico, abarcando não apenas a “comunidade biótica”, ou seja, todos os seres vivos (Lebendige) do Planeta Terra, mas também os elementos abióticos.46 A concepção referida, a nosso ver, é a corrente da ética ecológica que melhor atende ao princípio da integridade ecológica, como Grundnorm do Direito Constitucional Ecológico. A relação de causa e efeito vinculada à ação humana, do ponto de vista ecológico, tem uma natureza cumulativa e projetada para o futuro. O princípio (e dever) constitucional da precaução (art. 225, § 1.º, V), analisado nessa perspectiva, reforça a ideia de uma nova ética para o agir humano, na esteira do pensamento de Jonas, contemplando a responsabilidade do ser humano para além da dimensão temporal presente e revelando o elo existencial e a interdependência entre as gerações humanas presentes e futuras. O princípio da precaução (assim como o da prevenção) anda, por outro lado, abraçado ao princípio da responsabilidade, tudo num contexto em que a solidariedade e a noção de deveres morais e jurídicos (do Estado e dos particulares) de tutela do ambiente assumem cada vez maior centralidade no âmbito da nossa comunidade político-estatal. Da ética da responsabilidade, na esteira da dimensão moral citada por Jonas, deve-se migrar para a esfera jurídica dos direitos constitucionais da Natureza, de modo, inclusive, a limitar a própria autonomia da vontade e os demais direitos fundamentais do ser humano, quando tal se fizer necessário para assegurar o desfrute de uma vida digna e saudável para as gerações presentes e futuras (humanas e não humanas), tendo por premissa básica a integridade ecológica em escala planetária. 36 .JONAS, Hans. Das Prinzip Verantwortung: Versuch einer Ethik für die technologische Zivilisation. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2003, (1ª edição de 1979), p. 247. 37 .De acordo com Luc Ferry, “o humanismo cartesiano é, sem dúvida alguma, a doutrina que mais longe chegou na desvalorização da Natureza em geral e na do animal em particular”. FERRY, Luc. A nova ordem ecológica: a árvore, o animal, o homem. São Paulo: Ensaio, 1994, p. 29. No mesmo sentido, v. OST, François. A natureza à margem da lei. Lisboa: Instituto Piaget, 1997, especialmente pp. 39-49. 38 .SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 6. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 24. javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:10 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 3/3 39 .A concepção cartesiana de “animal-máquina” é desenvolvida em DESCARTES, René. Discurso do método; Meditações; Objeções e respostas; As paixões da alma; Cartas. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 60. 40 .Segundo Rubem Alves, “o senso comum e a ciência são expressões da mesma necessidade básica, a necessidade de compreender o mundo, a fim de viver melhor e sobreviver. Para aqueles que teriam a tendência de achar que o senso comum é inferior à ciência, eu só gostaria de lembrar que, por dezenas de milhares de anos, os homens sobreviveram sem coisa alguma que se assemelhasse à nossa ciência. Depois de cerca de quatro séculos, desde que surgiu com seus fundadores, curiosamente a ciência está apresentando sérias ameaças à nossa sobrevivência.” ALVES, Rubem. Filosofia da ciência: introdução ao jogo e suas regras. 3 ed. São Paulo: Loyola, 2001, p. 21. 41 .BECK, Ulrich. Risokogesellschaft: auf dem Weg in eine andere Moderne. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1986 (1ª edição de 1986). 42 .BECK, Ulrich. Weltrisokogesellschaft: auf der Suche nach der verloren Sicherheit. Frankfurtam Main: Suhrkamp, 2008. 43 .JONAS, Das Prinzip Verantwortung..., pp. 31 e 47. 44 .De acordo com Carmen Lucia Antunes Rocha, a “tecnologia evoluiu, tornou-se mais eficaz, mas busca ser o seu próprio fim. A produção – ou o seu produto – não se volta ao homem; antes, tenta fazer com que o homem se volte a ela. Se um dia o homem buscou humanizar a máquina, parece certo que o que mais se vê agora é a tentativa da máquina de coisificar o homem”. ANTUNES ROCHA, Cármen Lúcia. “Vida digna: direito, ética e ciência”. In: ANTUNES ROCHA, Cármen Lúcia (Coord.). O direito à vida digna. Belo Horizonte: Editora Fórum, 2004, p. 25. 45 .JONAS, Das Prinzip Verantwortung...., p. 28. 46 .KREBS, Angellika. Naturethik im Überblick. In: KREBS, Angelika (Org.). Naturethik: Grundtexte der gegenwärtigen tier- und ökologischen Diskussion. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1997, p. 345. O “biocentrismo” (Biozentrismus) – do grego bíos, vida – caracteriza-se por defender que “todos os seres vivos merecem consideração por si mesmos” (“Alles Lebendige verdient Rücksicht um seiner selbst willen”). No caso do “ecocentrismo” – também denominado por alguns de “ética holística” (holistische Ethik) ou “fisiocentrismo” (radikaler Physiozenrismus), do grego physis, ou seja, Natureza –, “toda a Natureza (versão holística) ou tudo na Natureza (versão individualista) merece consideração por si mesmo” (“die ganze Natur – holistische Version – bzw. alles in der Natur – individualistische Version – verdient Rücksicht um ihrer – seiner – selbst willen”). Há ainda a expressão “patocentrismo” (Pathozentrismus) – do grego páthein, padecer – para designar a concepção ética de que “todos os seres sencientes merecem consideração por si mesmos” (“alle empfindungsfähigen Wesen verdienen Rücksicht um ihrer selbst willen”). KREBS, Naturethik im Überblick…, p. 345. No mesmo sentido v, BOSSELMANN, Im Namen der Natur…, pp. 265-277. 13/04/2023, 19:10 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/5 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 5 DA ÉTICA ECOLÓGICA AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO: RUMO A UM NOVO PARADIGMA JURÍDICO-CONSTITUCIONAL ECOCÊNTRICO? Após destacarmos alguns aspectos da ética ecológica, gostaríamos de esclarecer ao leitor o nosso posicionamento, já que, a partir do próximo tópico, iremos adentrar propriamente no “mundo jurídico”. E os fundamentos éticos são determinantes para a compreensão que temos do Direito. No âmbito do Direito Constitucional Ecológico – assim como do Direito Ambiental (ou Direito Ecológico, como tem sustentado parte da doutrina mais recentemente) –, há crescente disputa no campo teórico entre diferentes paradigmas.47 De um lado, aqueles que defendem uma matriz teórica preponderantemente antropocêntrica. Do outro, os adeptos das correntes da ética ecológica: patocentrismo, biocentrismo e ecocentrismo. Por isso, cumpre fazermos os devidos esclarecimentos e evidenciar nossa posição pessoal, inclusive justificando as razões para uma mudança de posição nesta nova 6ª edição do livro, como já anunciamos na Nota a esta nova edição. A abordagem teórica de matriz constitucional-ambiental adotada por nós nas edições anteriores do livro, conforme o leitor poderá constatar ao longo da obra, era marcada por uma concepção antropocêntrica, tal qual o é essencialmente o Direito (enquanto construção humana).48 Nunca defendemos um antropocentrismo clássico de matriz filosófica cartesiana, numa rígida relação de sujeito (ser humano) e objeto (Natureza), com nítido caráter instrumental e dicotômico no trato com a Natureza. Mas sim um antropocentrismo jurídico ecológico – ou mesmo “relativo” ou “alargado” como sustentam alguns autores (José de S. Cunhal Sendim,49 Vasco Pereira da Silva50 e J. R. Morato Leite e Patryck de A. Ayala)51 –, com o propósito de reconhecer o valor intrínseco inerente não apenas ao ser humano, como também a outras formas de vida não humanas (e a Natureza em si). O “reconhecimento” de um valor intrínseco em outras formas de vida não humanas conduz, por si só, à atribuição de “dignidade” para além da esfera humana, além, é claro, de permitir a identificação de uma dimensão ecológica da própria dignidade da pessoa humana, conforme será tratada mais à frente. Nessa ótica, a proteção de valores e bens jurídicos ecológicos imporá restrições aos próprios direitos e ao comportamento do ser humano, inclusive a ponto de caracterizar também deveres morais e jurídicos (o próprio direito ao ambiente possui um regime jurídico constitucional de direito-dever fundamental). E isso não apenas para proteger outros seres humanos (das presentes e futuras gerações), mas de modo a afirmar valores e proteger bens jurídicos que transcendem a órbita humana. Ocorre que, pelas razões já desenvolvidas na Nota à 6ª Edição do livro para justificar a alteração do título do livro de Direito Constitucional Ambiental para Direito Constitucional Ecológico, não obstante os significativos avanços dos marcos teóricos que buscaram relativizar a concepção filosófica e jurídica clássica, de matriz cartesiana, conforme destacadas anteriormente, as mesmas não deram conta de, ao longo de aproximadamente cinco décadas de desenvolvimento do Direito Ambiental, a contar do início da Década de 1970, frear o ímpeto predatório do ser humano na sua relação com a Natureza. E, mais do que isso, estabelecer um marco jurídico regulatório capaz de equilibrar os eixos que caracterizam o conceito de desenvolvimento sustentável (ecológico, social e econômico) e, em última instância, assegurar a integridade ecológica, tanto nas esferas locais, regionais e nacionais quanto em escala planetária. Como defendem Fritjof Capra e Ugo Mattei, é necessário construir “uma mudança de paradigma inspirada pelo reconhecimento dos princípios básicos da ecologia e pelo novo pensamento sistêmico da ciência contemporânea”.52 A balança da justiça não pode mais pender em favor do ser humano e seus interesses, sob pena de, ao não se ajustar às “leis da Natureza” e assegurar o equilíbrio ecológico planetário, comprometer a sua própria existência futura. O Direito precisa atuar não apenas como mecanismo capaz de integrar os novos valores morais e éticos de natureza ecológica ascendentes no âmbito social, mas também com prognose e vislumbrando assegurar a proteção da vida, da dignidade e dos direitos fundamentais no plano temporal futuro. Essa virada jurídica, a nosso ver, envolve necessariamente a reconfiguração completa da nossa relação com o Planeta Terra em todos os planos e, em particular, o reconhecimento de um novo status jurídico não apenas em favor dos animais não humanos, mas da Natureza como um todo e dos seus elementos (rios, florestas, paisagens etc.). Isso, como será desenvolvido com mais detalhes no Capítulo 1, envolve uma profunda ruptura (ou “revolução”53) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:10 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/5 p p p ( ç ) com a tradição jurídica moderna, simbolizado, no plano constitucional, pela defesa de uma Constituição Ecológica e de um Direito Constitucional Ecológico alicerçados num novo paradigma jurídico-constitucional ecocêntrico, apto a reconhecer o valor intrínseco inerente à Natureza no seu conjunto (elementos bióticos e abióticos). Por mais que esse não seja o paradigma vigente no plano normativo da grande maioria dos sistemas constitucionais (com exceção, talvez, da Constituição do Equador de 2008), como ocorre no Brasil, entendemos que é para esse novo horizonte constitucional que devemos mirar e caminhar, comoafirmado recentemente inclusive por Ministros da nossa Corte Constitucional54, laborando para que ele se torne uma nova realidade gradativamente e se concretize a tempo de salvarmos o Planeta Terra (e a nós mesmos) do colapso ecológico que se avizinha. Os primeiros passos nessa direção já começaram a ser dados no sentido da “queda do muro antropocêntrico” construído pelo pensamento moderno para alijar os animais não humanos e a Natureza do “mundo dos direitos”, inclusive no marco constitucional brasileiro. A atribuição ao Estado, por intermédio da norma constitucional (art. 225, caput e § 1.º, da CF/1988), de deveres de proteção – o que caracteriza uma proteção jurídica de natureza objetiva dos bens em questão – e também aos particulares (sob a forma de deveres fundamentais de proteção do ambiente) no sentido de “preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas” (art. 225, § 1.º, I), bem como de “proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade” (inc. VII do mesmo dispositivo), nos parecem exemplos expressivos de uma tutela jurídica autônoma dos bens jurídicos ecológicos em questão (por exemplo, Natureza em si, bem-estar animal, fauna e flora), bem como direitos (fundamentais? 55) dos animais à vida, à liberdade de locomoção, à integridade física, ao bem-estar, entre outros. Isso, por sua vez, revela uma tomada de rumo jurídico-constitucional bastante evidente no sentido contrário ao antropocentrismo clássico. A mesma reflexão pode surgir a partir da criminalização de condutas humanas degradadoras do ambiente, o que foi levado a efeito no plano infraconstitucional por meio da Lei dos Crimes e Infrações Administrativas Ambientais ( Lei 9.605/1998),56 regulamentando dispositivo da CF/1988 (art. 225, § 3.º). A “criminalização” dos maus-tratos contra os animais, trazida pela Lei 9.605/1998, pode, em certa medida, conduzir ao entendimento de que tal norma está fundamentada numa concepção jurídica “ecocêntrica”, ao dispor, no seu art. 32, que configura crime “praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos” (caput), bem como que incorre na mesma pena “quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos” (§ 1.º) e que “a pena é aumentada de 1/6 (um sexto) a 1/3 (um terço), se ocorre morte do animal” (§ 2.º). A criminalização de condutas lesivas ao ambiente, por certo, não é suficiente por si só para romper com a concepção antropocêntrica do Direito em prol de uma visão ecocêntrica – como defendida, por exemplo, pela “Ecologia Profunda” (Deep Ecology) de Arne Naess57 e pela ética da responsabilidade de Hans Jonas, esta última tratada no tópico anterior –, mas já simboliza, em alguma medida, o movimento progressivo de pequenas rupturas na tradição jurídica antropocêntrica. Não há hoje edificação jurídica – teórica, normativa e jurisprudencial – para romper de forma definitiva com a tradição antropocêntrica, mas, por outro lado, já se pode afirmar de forma categórica, na nossa ótica, a superação do “antropocentrismo clássico”58. O atual regime jurídico (nacional, comparado59 e internacional) de que dispomos já consagra a conciliação dos valores humanos e ecológicos, de modo a proporcionar a sua integração e, ao mesmo tempo, reconhecer a interdependência que lhes é inerente, distanciando-se gradualmente do antropocentrismo cartesiano. A devida proteção ecológica passa, de acordo com o atual estágio de desenvolvimento do marco constitucional contemporâneo, pela consolidação e efetivação integradora dos direitos fundamentais liberais, sociais e ecológicos, bem como pela afirmação da autonomia do bem jurídico ecológico, sem o que a proteção do ambiente será mera ficção e tinta no papel. Há, conforme pontua Klaus Bosselmann, a possibilidade de “coexistência” entre os paradigmas “antropocêntrico” e “ecocêntrico” dentro do sistema protetivo estabelecido pelo Direito Ambiental.60 Como dito anteriormente, por mais que no discurso ambientalista – jurídico e não jurídico – seja sempre entoado com entusiasmo a defesa de um novo paradigma ecocêntrica – em oposição ao antropocentrismo –, tal entendimento não reflete (ainda) as construções jurídicas e respectivos mecanismos normativos dos quais dispomos hoje para promover a tutela e promoção do ambiente. javascript:void(0) javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1998%5C%5C75&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1998-75|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1998%5C%5C75&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1998-75|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:10 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 3/5 Na absoluta maioria das vezes, serão os mesmos fundamentos teóricos, normativos e jurisprudenciais disponíveis para promover a proteção da vida e da dignidade do ser humano que servirão para promover a proteção ecológica. Não por outra razão, a nossa abordagem teórica é construída a partir dos pilares do Direito Constitucional e da Teoria dos Direitos Fundamentais (e também da Teoria dos Direitos Humanos se tomarmos a perspectiva do Direito Internacional). Para nós, a proteção do ser humano é a proteção da Natureza, e vice-versa. Talvez aí resida uma marca “ecocêntrica” na nossa abordagem teórica, porquanto não advogamos qualquer separação entre ser humano e Natureza. Pelo contrário, entendemos vital tal “religação”, identificando o ser humano como mais um elemento na cadeia da vida no Planeta Terra. Com Lutzenberger, entendemos que “não estamos fora, por cima e contra a Natureza, estamos bem dentro. Somos um pedaço dela”.61 O paradigma constitucional ecocêntrico objetiva, forte na premissa da integridade ecológica (como sua Grundnorm62), ampliar o quadro de bem-estar humano para além dos espectros liberal e social, inserindo necessariamente a variável ecológica, somado à atribuição de valor intrínseco e direitos não apenas aos animais, mas também à Natureza. Como entendemos não ser possível a dicotomia cartesiana entre ser humano e Natureza, por representar uma incoerência do ponto de vista ontológico, dada a natureza biológica inerente à condição existencial humana, a defesa dos direitos da Natureza é, em última instância, a defesa da vida, da dignidade e dos direitos fundamentais dos ser humano, já que os mesmos têm como premissa a integridade ecológica para o seu exercício e florescimento da vida humana no Planeta Terra. Tal “virada ecológica” na concepção da Teoria Constitucional, dos direitos fundamentais e também do próprio princípio da dignidade da pessoa humana (a partir de suadimensão ecológica e mesmo da atribuição da dignidade para além da fronteira humana)63 implica a imposição de restrições ao exercício dos demais direitos fundamentais (liberais e sociais),64 mas sempre buscando assegurar a integralidade, indivisibilidade e interdependência que caracterizam o regime jurídico jusfundamental e a defesa de tais valores numa perspectiva futura. Trata-se de uma abordagem conciliatória e integradora dos valores humanos e ecológicos, como duas facetas de uma mesma identidade jurídico-constitucional.65 Ainda que tal marco não esteja plenamente consolidado na opção político- jurídica delineada na nossa Lei Fundamental de 1988 (art. 225), esse parece ser o caminho que devemos seguir no futuro, como inclusive mencionado em decisões recentes da nossa Corte Constitucional, como referido anteriormente, considerando a nossa responsabilidade – enquanto geração humana presente – para com os interesses e direitos (?) das futuras gerações (humanas e não humanas). Lançada a base filosófico-jurídica ecocêntrica que irá nos acompanhar ao longo deste estudo, retomaremos a análise do marco jurídico-constitucional ecológico. 47 .Na doutrina, sobre os diferentes paradigmas, v. KLOEPFER, Michael. Art. 20a. In: KAHL, Wolfgang; WALDHOFF, Christian; WALTER, Christian. Bonner Kommentar zum Grundgesetz. Heidelberg: C. F. Muller, 2005, Art. 20a, pp. 43- 44. 48 .Com o mesmo entendimento, inclusive aplicado à temática penal ambiental e fundamentado na doutrina alemã, v. COSTA, Helena Regina Lobo da. Proteção penal ambiental. São Paulo: Saraiva, 2010, pp. 24-25. 49 .SENDIM, José de Sousa Cunhal. Responsabilidade civil por danos ecológicos: da reparação do dano através de restauração natural. Coimbra: Coimbra Editora, 1998, p. 98 e ss. 50 .PEREIRA DA SILVA, Vasco. Verde cor de direito: lições de Direito do Ambiente. Coimbra: Almedina, 2002, p. 29-30. 51 .MORATO LEITE, José Rubens; AYALA, Patryck de Araújo. Dano ambiental: do individual ao coletivo extrapatrimonial (teoria e prática). 3. ed. São Paulo: Ed. RT, 2010, p. 77. 52 .CAPRA, Fritjof; MATTEI, Ugo. A revolução ecojurídica: o direito sistêmico em sintonia com a Natureza e a comunidade. São Paulo: Editora Cultrix, 2018, p. 38. javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:10 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 4/5 53 .CAPRA; MATTEI, A revolução ecojurídica..., pp. 9 e ss. 54 .V., nesse sentido, os votos dos Ministros Rosa Weber e Lewandowski no julgamento da ADI 4.983/CE: STF, ADI 4.983/CE, Tribunal Pleno, Rel. Min. Marco Aurelio, j. 06.10.2016. Mais recentemente, em outra decisão pioneira e inédita sobre o tema, o STJ reconheceu a ascensão de um novo paradigma jurídico em superação ao antropocentrismo, atribuindo dignidade e direitos aos animais não humanos e à Natureza: STJ, REsp 1.797.175/SP, 2ª Turma, Rel. Min. Og Fernandes, j. 21.03.2019. 55 .STUCKI, Saskia. Grundrechte für Tiere: eine Kritik des geltenden Tierschutzrechts und rechtstheoretische Grundlegung von Tierrechten im Rahmen einer Neupositionierung des Tieres als Rechtssubjekt. Baden-Baden: Nomos, 2016. 56 .A respeito da criminalização de condutas lesivas ao ambiente e mesmo do reconhecimento da Natureza como sujeito passivo da criminalidade, v. artigo de SPORLEDER DE SOUZA, Paulo Vinícius. O meio ambiente (natural) como sujeito passivo dos crimes ambientais. Revista Brasileira de Ciências Criminais. São Paulo: Ed. RT, n. 50, set.-out. 2004, pp. 57-90. 57 .NAESS, Arne. Ecology, community and lifestyle: outline of an ecosophy. Tradução para o inglês e edição de David Rothenberg. Cambridge: Cambridge University Press, 1989. 58 .V., nesse sentido, voto do Min. Barroso no julgamento da ADI 4.983/CE, Tribunal Pleno, Rel. Min. Marco Aurelio, j. 06.10.2016. 59 .Aqui cabe fazer uma ressalva à Constituição do Equador de 2008, a qual estabeleceu de forma inédita um capítulo específico sobre os “Direitos da Natureza (ou ‘Pacha Mama’)”, nos seus arts. 71 a 74, de modo a avançar num horizonte normativo sem precedentes no constitucionalismo contemporâneo, e já numa perspectiva mais próxima do que se poderia denominar de um “paradigma jurídico ecocêntrico”. Conforme resultou consignado na norma constitucional equatoriana, “la naturaleza o Pacha Mama, donde se reproduce y realiza la vida, tiene derecho a que se respete integralmente su existencia y el mantenimiento y regeneración de sus ciclos vitales, estructura, funciones y procesos evolutivos” (art. 71), bem como que “la naturaleza tiene derecho a la restauración” (art. 72). 60 .BOSSELMANN, Klaus. The Principle of Sustainability: Transforming Law and Governance. Hampshire: Ashgate, 2008, p. 92-94. Para versão em língua portuguesa, v. BOSSELMANN, Klaus. O princípio da sustentabilidade: transformando direito e governança. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. 61 .LUTZENBERGER, José. Por uma ética ecológica. In: BONES, Elmar; HASSE, Geraldo. Pioneiros da ecologia: breve história do movimento ambientalista no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Já Editores, 2002, p. 190. 62 .BRIDGEWATER, Peter; KIM, Rakhyun E.; BOSSELMANN, Klaus. Ecological Integrity: A Relevant Concept for International Environmental Law in the Anthropocene?. In: Yearbook of international Environmental Law, vol. 25, n. 1 (2015), pp. 75-76. 63 .De modo a inserir a discussão sobre os direitos dos animais na perspectiva da Teoria da Justiça, v. NUSSBAUM, Martha C. Frontiers of justice. Cambridge: Harvard University Press, 2007, especialmente pp. 325-407. 64 .O § 3.º do art. 225 da CF/1988 expressa de forma bastante contundente as “novas” responsabilidades jurídicas de feição ecológica (nas esferas civil, penal e administrativa) do ser humano (e também das pessoas jurídicas) em face do ambiente, limitando, por certo, outros direitos – fundamentais e não fundamentais – com o propósito de assegurar a proteção ambiental. Dispõe a norma em questão que “as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados”. https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=A.225&unit2Scroll=LGL-1988-3|A.225&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:10 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 5/5 65 .O § 1 (1) do Esboço do Código Ambiental alemão (UGB – Umweltgesetzbuch), ao dispor, logo no subtítulo inicial, que a legislação ambiental tem por objetivo a proteção do ser humano e do ambiente (Schutz von Mensch und Umwelt), procura, em certa medida, conciliar os dois paradigmas jurídicos de forma equilibrada. Disponível em: [www.bmu.de/service/publikationen/downloads/details/artikel/ugb-referentenentwurf/? tx_ttnews%5BbackPid%5D=1555]. 13/04/2023, 19:10 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/1 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 6 CONSTITUIÇÃO, DIREITOS FUNDAMENTAIS E PROTEÇÃO ECOLÓGICA:O CONSTITUCIONALISMO ECOLÓGICO EM CONSTRUÇÃO O Direito, e especialmente o Direito Constitucional e a Teoria dos Direitos Fundamentais, não podem recusar respostas aos problemas e desafios postos pela situação de risco existencial e degradação ambiental colocadas no horizonte contemporâneo pela crise ecológica, inclusive em escala planetária. Uma verdadeira Constituição Ecológica deve ser concebida nesse contexto, com todas as implicações derivadas para a perspectiva das tarefas atribuídas ao Estado de Direito contemporâneo e a compreensão dos direitos fundamentais. Cumpre ao Direito, portanto, a fim de restabelecer o equilíbrio e a segurança nas relações sociais, a missão de posicionar-se em relação a essas novas ameaças que fragilizam e colocam em risco a ordem de valores e os princípios republicanos e do Estado (Democrático, Social e) Ecológicode Direito, bem como comprometem fortemente a sobrevivência (humana e não humana) e a qualidade de vida. Com base em tais premissas, Canotilho aponta para os “problemas de risco” como um dos principais desafios postos para a Teoria da Constituição na contemporaneidade.66 De igual maneira, J. C. Vieira de Andrade situa a problemática do risco no âmbito da Teoria Constitucional, pontuando que os sociólogos descrevem a sociedade atual, já num contexto pós-industrial, como uma “sociedade de risco” (Beck) ou uma “sociedade do desaparecimento” (Breuer), seja em face dos “perigos ecológicos” (e mesmo perigos genéticos) ou, segundo alguns, em virtude de uma caminhada, por força do seu próprio movimento, para a destruição das condições de vida naturais e sociais, transitando da “da autorreferência (autopoiesis) para a autodestruição”.67 A Teoria da Constituição e, consequentemente, a Teoria dos Direitos Fundamentais, assim como o direito constitucional positivo, devem avançar e se desenvolver, acolhendo os novos conceitos e os valores ecológicos, especialmente no sentido de uma Teoria Constitucional e dos Direitos Fundamentais “ecologicamente” adequada e comprometida, inclusive com base em um novo paradigma ecocêntrico, conforme assinalado no tópico anterior. 66 .CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional e teoria da Constituição. 5. ed. Coimbra: Almedina, 2002, p. 1354. Entre os conceitos de risco, Canotilho elenca: os perigos (conhecidos e desconhecidos) gerados pela moderna tecnologia; as ameaças de toda a civilização planetária (a partir da teoria de Beck); as potencialidades do domínio tecnológico da natureza e da pessoa; os desafios colocados às comunidades humanas no plano da segurança e previsibilidade perante eventuais catástrofes provocadas pela técnica e pela ciência. 67 .ANDRADE, José Carlos Vieira de. Os direitos fundamentais na Constituição Portuguesa de 1976. 2. ed. Coimbra: Almedina, 2001, p. 61. javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:10 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/1 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 7 A INTEGRIDADE ECOLÓGICA COMO GRUNDNORM DO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO (KLAUS BOSSELMANN) A integridade ecológica68 tem sido abordada pela doutrina como um conceito ou mesmo um princípio nuclear do Direito Ambiental, tanto na esfera internacional quanto nacional, justamente por traduzir a ideia de “sistema” que está na base da compreensão do equilíbrio ecológico e da Natureza como um todo. É, em última instância, a manutenção da integridade dos ecossistemas e do ecossistema planetário em escala global que expressa tal conceito, com o propósito de assegurar a proteção dos fundamentos naturais de sustentação da vida humana e não humana no Planeta Terra. A título de exemplo, a Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1992) estabelece, na primeira parte do seu Princípio 7, que “os Estados devem cooperar num espírito de parceria global para conservar, proteger e restaurar a saúde e a integridade do ecossistema da Terra” (destaque nosso). Também a Carta da Terra (Earth Charter), adotada na sede da UNESCO em Paris no ano 2000, reconhece a integridade ecológica como um dos seus princípios centrais (Princípio 5): “Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especial preocupação com a diversidade biológica e os processos naturais que sustentam a vida” (destaque nosso). No âmbito constitucional, o conceito de integridade ecológica pode ser facilmente identificado em várias Constituições. A Lei Fundamental alemã, por exemplo, utiliza, no seu art. 20a, ao dispor sobre a tutela ecológica como dever e tarefa estatal, a expressão “fundamentos naturais da vida” (die natürlichen Lebensgrundlagen), cujo conteúdo normativo determina a salvaguarda do equilíbrio ecológico numa perspectiva ecossistêmica. No sistema constitucional brasileiro (art. 225), as expressões “processos ecológicos essenciais”69 e “função ecológica”70, inclusive com vedação expressa a práticas que provoquem a extinção de espécies da biodiversidade, também refletem o conteúdo do conceito e princípio da integridade ecológica. De tal sorte, pode-se alegar que a integridade ecológica pode (e deve) ser reconhecida como um princípio constitucional implícito do regime constitucional ecológico edificado pela nossa Lei Fundamental de 1988. É nessa perspectiva, por sua vez, que Klaus Bosselmann sustenta ser a integridade ecológica uma espécie de Grundnorm ou norma fundamental, tanto da ordem jurídica internacional quanto constitucional (no plano interno dos Estados), dado o seu caráter unificador do regime jurídico de proteção da Natureza, inclusive na perspectiva de uma governança ecológica global de acordo com os limites planetários71 (dos diferentes subsistemas, como o regime climático e a biodiversidade). 68 .BRIDGEWATER, Peter; KIM, Rakhyun E.; BOSSELMANN, Klaus. Ecological Integrity: A Relevant Concept for International Environmental Law in the Anthropocene?. In: Yearbook of international Environmental Law, vol. 25, n. 1 (2015), pp. 61-78; e WESTRA Laura; BOSSELMANN Klaus; WESTRA, Richard (Edits.). Reconciling Human Existence with Ecological Integrity: Science, Ethics, Economics and Law. London: Earthscan, 2008. 69 .“Art. 225 (...) § 1º Para assegurar a efetividade desse direito (ou seja, o direito fundamental ao ambiente), incumbe ao Poder Público: I - preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas.” 70 .“Art. 225 (...) § 1º (...) VII - proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade.” 71 .BRIDGEWATER; KIM; BOSSELMANN, Ecological Integrity…, pp. 75-76. javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:10 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/2 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 8 A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA A dignidade (da pessoa) humana constitui conceito submetido a permanente processo de reconstrução, cuidando-se de uma noção histórico-cultural em permanente transformação quanto ao seu sentido e alcance, o que implica sua permanente abertura aos desafios postos pela vida social, econômica, política e cultural, ainda mais em virtude do impacto da sociedade tecnológica e da informação. Atualmente, pelas razões já referidas, pode-se dizer que os valores ecológicos tomaram assento definitivo no conteúdo do princípio da dignidade da pessoa humana. No contexto constitucional contemporâneo, consolida-se a formatação de uma dimensão ecológica da dignidadehumana, que abrange a ideia em torno de um bem-estar ecológico (assim como de um bem-estar social) indispensável a uma vida digna, saudável e segura num contexto de integridade da Natureza. Dessa compreensão, pode-se conceber a indispensabilidade de um patamar mínimo de qualidade ambiental ou mínimo existencial ecológico para a concretização da vida humana em níveis dignos, conforme desenvolvido no Capítulo 2. Aquém de tal padrão ecológico, a vida e a dignidade humana estariam sendo violadas no seu núcleo essencial. A qualidade (e segurança) ambiental, com base em tais considerações, passaria a figurar como elemento integrante do conteúdo normativo do princípio da dignidade da pessoa humana, sendo, portanto, fundamental ao desenvolvimento de todo o potencial humano num quadrante de completo bem-estar existencial. Não se pode conceber a vida – com dignidade e saúde – sem um ambiente natural saudável, equilibrado e seguro. A vida e a saúde humanas (ou como refere o caput do art. 225 da CF/1988, conjugando tais valores, a sadia qualidade de vida) só estão asseguradas no âmbito de determinados padrões ecológicos mínimos. O ambiente está presente nas questões mais vitais e elementares da condição humana, além de ser essencial à sobrevivência do ser humano como espécie natural. De tal sorte, o próprio conceito de vida hoje se desenvolve para além de uma concepção estritamente biológica ou física, uma vez que os adjetivos “digna” e “saudável” acabam por implicar um conceito mais amplo, que guarda sintonia com a noção de um pleno desenvolvimento da personalidade humana, para o qual a qualidade do ambiente passa a ser um componente nuclear. A relação entre dignidade e direitos da personalidade é, de fato, muito próxima, em vista de ambos estarem diretamente comprometidos com a concretização da vida humana de forma plena e qualificada (e, portanto, também saudável). A tutela atribuída à personalidade humana representa uma proteção abrangente em face de todas as possibilidades de sua violação, o que deve, necessariamente, acompanhar a evolução e a complexidade das relações sociais contemporâneas, captando a dimensão ecológica dessas.72 No intuito de caracterizar a personalidade como um valor aberto (e em constante processo de mutação) do nosso ordenamento, M. C. Bodin de Moraes afirma que “a personalidade é, portanto, não um ‘direito’, mas um valor, o valor fundamental do ordenamento, que está na base de uma série (aberta) de situações existenciais, nas quais se traduz a sua incessantemente mutável exigência de tutela”.73 Em vista da abertura conceitual inerente à tutela da personalidade (como direito e valor do nosso ordenamento),74 a fim de contextualizá-la diante dos riscos existenciais criados pela “sociedade de risco” contemporânea, deve-se inserir a qualidade ambiental como um dos elementos-chave da tutela da personalidade humana, em vista da relação intrínseca que aquela guarda com a condição existencial (presente e futura) do ser humano. A vida situada em um quadro ambiental degradado compromete o livre desenvolvimento da personalidade humana, especialmente no que diz respeito à integridade psicofísica do ser humano, que comporta, nas palavras de Bodin de Moraes, um “amplíssimo direito à saúde”, compreendendo um “completo bem-estar psicofísico e social”.75 Na mesma linha, Robson da Silva coloca o equilíbrio ambiental como crucial para que a personalidade humana tenha um “curso normal de desenvolvimento”, o que, principalmente nas grandes e médias cidades, está constantemente comprometido em razão dos “desarranjos emocionais e físicos” provocados pela poluição sonora, atmosférica, hídrica etc., afetando toda a sociedade e o indivíduo em particular.76 De tal sorte, a qualidade e o equilíbrio dos fundamentos naturais que dão sustentação à vida são determinantes para o livre desenvolvimento da personalidade humana, contemplado na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) da ONU (art. 22), e, portanto, para assegurar uma vida digna e saudável ao indivíduo e à coletividade, https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=A.225&unit2Scroll=LGL-1988-3|A.225&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:10 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/2 de modo a consolidar a ideia em torno de uma dimensão ecológica para a dignidade da pessoa humana, o que será objeto de maior desenvolvimento no Capítulo 1. 72 .Segundo Bosselmann, com base no art. 2º da Lei Fundamental de Bonn, “o livre desenvolvimento da personalidade só seria possível dentro dos limites do direito à existência da Natureza”. BOSSELMANN, Im Namen der Natur…, p. 205. 73 .BODIN DE MORAES, Maria Celina. Danos à pessoa humana: uma leitura civil-constitucional dos danos morais. Rio de Janeiro/São Paulo: Renovar, 2003, p. 121. 74 .O rol dos direitos da personalidade elencados nos artigos 11 a 21 do novo Código Civil ( Lei 10.406/2002) é meramente exemplificativo, contemplando a possibilidade de direitos da personalidade fora do referido catálogo. 75 .BODIN DE MORAES, Danos à pessoa humana..., p. 94. 76 .ROBSON DA SILVA, José. Paradigma biocêntrico: do patrimônio privado ao patrimônio ambiental. Rio de Janeiro: Renovar, 2002, p. 254. https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2002%5C%5C400&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2002-400|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2002%5C%5C400&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2002-400|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:11 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/3 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 9 A DIGNIDADE (E DIREITOS?) DAS FUTURAS GERAÇÕES “Quando falamos de passado e futuro, imiscuímos nessas palavras a nossa concepção de tempo, mas Tchernóbil é antes de tudo uma catástrofe do tempo. Os radionuclídeos espalhados sobre a nossa terra viverão cinquenta, cem, 200 mil anos. Ou mais. Do ponto de vista da vida humana, são eternos. Então, o que somos capazes de entender? Está dentro da nossa capacidade alcançar e reconhecer um sentido nesse horror que ainda desconhecemos?” (Svetlana Aleksiévitch)77 Outro ponto, vinculado à dimensão ecológica da dignidade humana, diz respeito ao reconhecimento da dignidade (e direitos?78) às futuras gerações humanas, ampliando-se, assim, a dimensão temporal da dignidade para as existências humanas futuras. Deve-se, nesse sentido, reforçar a ideia de responsabilidade e dever jurídico (para além do plano moral) para com as gerações humanas futuras, inclusive com o reconhecimento da dignidade de tais vidas, mesmo que potenciais, de modo a afirmar a perpetuidade existencial da espécie humana. As futuras gerações, nessa perspectiva, são consideradas por alguns autores79 como categoria jurídica detentora de vulnerabilidade,haja vista que os seus interesses (e direitos?) somente podem ser resguardados e reivindicados por terceiros (no caso, a geração presente), o que reforça a esfera dos deveres jurídicos (e morais) que recaem sobre as gerações viventes. Isso, por si só, impõe, como referido por Dieter Birnbacher, uma “ética do futuro” (Zukunftsethik)80. Em outras palavras, trata-se de uma ética similar à “ética da responsabilidade” de Jonas, como tratado anteriormente, cujo propósito elementar consiste em modular as ações humanas de acordo com a manutenção da integridade ecológica não apenas para o presente, mas também no sentido de resguardar tais condições naturais indispensáveis à existência e desenvolvimento da vida (humana e não humana) no futuro, com o reconhecimento tanto de deveres (morais e jurídicos) a cargo das gerações presentes, independentemente de qualquer responsabilidade maior ou menor das gerações passadas, quanto direitos – ou pelo menos interesses – (morais e jurídicos) das futuras gerações. Com base em tais premissas, François Ost esboça a sua preocupação na construção de pontes existenciais entre as gerações humanas, utilizando a questão ambiental como o paradigma mais evidente do que ele denomina de “risco de discronia”.81 Para o autor, a proteção do ambiente revela uma situação de “destemporalização”,82 na medida em que se está a admitir que o comportamento dos seres humanos contemporâneos (por exemplo, nos modos de produção e consumo) repercute de forma direta nas condições existenciais das futuras gerações, com a degradação e poluição ambiental aumentando de forma cumulativa para o futuro. Cabe ao Direito e ao Estado (sem desconsiderar a responsabilidade de forma individualizada dos membros de determinada comunidade) sincronizar os “ritmos diferentes” – entre o ser humano e a Natureza; e entre as gerações presentes e as gerações futuras –, regulando responsabilidades e deveres para com “seres ainda virtuais, colocados em relação a nós, em relação aos nossos contemporâneos, numa situação de dependência radical e total assimetria”.83 O princípio constitucional da precaução revela bem essa responsabilidade para com as gerações futuras, colocando o jurista, de certa forma, como guardião do tempo e das vidas futuras, o que determina a função prospectiva do Direito em vista da prevenção e resolução de conflitos futuros.84 A dimensão intergeracional do princípio da solidariedade aponta para um complexo de responsabilidades e deveres das gerações contemporâneas “viventes” em resguardar as condições existenciais para as pessoas que virão a habitar o planeta, devendo-se voltar o olhar para o futuro de um povo. No âmbito do Estado Ecológico de Direito, a “referência ao outro” formatada pelo Estado Social adquire maior amplitude, na medida em que busca reconhecer e proteger também um “outro” que se encontra num espaço temporal-geracional distinto do presente (ou seja, no plano futuro). Pode-se dizer que a dignidade humana fundamenta tanto a sociedade já constituída quanto a sociedade do futuro, apontando para deveres e responsabilidades das gerações presentes para com as gerações humanas futuras, em que pese – e também por isso mesmo – a herança negativa em termos ambientais legada pelas gerações passadas. Tal situação se dá em razão de que a proteção ecológica objetiva garantir condições ambientais favoráveis ao desenvolvimento da vida humana em patamares de dignidade não apenas para as gerações que hoje habitam o Planeta javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:11 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/3 Terra e usufruem dos recursos naturais, mas salvaguardando tais condições também para as gerações que irão habitá-lo no futuro85, inclusive a partir do que poderia se designar como um princípio ou imperativo de austeridade ou economia de recursos naturais (Sparsamkeitsgebot86) ou mesmo de uma responsabilidade de longo prazo (Langzeitverantwortung)87. O reconhecimento da dignidade das futuras gerações humanas, assim como da dignidade dos animais não humanos e da Natureza em si, surge como mais um elemento a formatar e ampliar a noção (e o alcance da proteção e reconhecimento pelo Direito) da noção de dignidade humana característica da tradição ocidental, especialmente desde Kant, e que nos tem servido como guia até o atual estágio do pensamento humano. A reflexão proposta traça novas direções e possibilidades para as construções no campo jurídico, com o objetivo de fortalecer – e, de certa forma, desvelar – cada vez mais o elo vital entre ser humano e Natureza, possibilitando, a partir de tal tomada de consciência, a nossa existência futura no Planeta Terra. Tudo isso encontra suporte constitucional no próprio caput do art. 225 da CF/1988, ao estabelecer que se impõe ao Poder Público e à coletividade o dever de defender e preservar o ambiente para as presentes e futuras gerações. É de um direito fundamental à vida, ou seja, a existir no futuro que se trata em última instância. 77 .Passagem da obra Vozes de Tchernóbil da jornalista e escritora ucraniana Svetlana Aleksiévitch, Prêmio Nobel de Literatura de 2015. ALEKSIÉVITCH, Svetlana. Vozes de Tchernóbil: crônica do futuro (a história oral do desastre nuclear). São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 39. 78 .O tema dos direitos das futuras gerações é tratado, no campo filosófico, por Dieter Birnbacher: BIRNBACHER, Dieter. Verantwortung für zukünftige Generation. Stuttgart: Reclam, 1988, pp. 98-101. 79 .HIPPEL, Eike von. Der Schutz des Schwächeren. Tübingen: J.C.B.Mooh, 1982, pp. 140 e ss.; e MIRAGEM, Bruno; MARQUES, Cláudia Lima. O novo direito privado e a proteção dos vulneráveis. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012, pp. 166 e ss. 80 .BIRNBACHER, Verantwortung für zukünftige Generation…, pp. 9-16. 81 .OST, François. O tempo do Direito. Lisboa: Instituto Piaget, 1999, pp. 39-41. 82 .Idem, p. 39. 83 .Idem, p. 81. 84 .Especificamente sobre a abordagem do princípio da precaução em face dos interesses (e direitos?) das gerações humanas futuras, v. KISS, Alexandre. Os direitos e interesses das futuras gerações e o princípio da precaução. In: VARELLA, Marcelo Dias; PLATIAU, Ana Flávia Barros (Orgs.). Princípio da precaução. Belo Horizonte: Del Rey, 2004, pp. 1-12. 85 .A respeito da tutela penal das gerações futuras pela ótica da proteção ambiental, v. CÂMARA, Guilherme Costa. O direito penal do ambiente e a tutela das gerações futuras. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2016. 86 .HASELHAUS, Sebastian. Verfassungsrechtliche Grundlagen des Umweltschutzes. In: REHBINDER, Eckard; SCHINK, Alexander (Org.) Grundzüge des Umweltrechts. 5. ed. Berlim: Erich Schmidt Verlag, 2018, p. 26. 87 javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=A.225&unit2Scroll=LGL-1988-3|A.225&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:11 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 3/3 .KLOEPFER, Art. 20a…, p. 47. 13/04/2023, 19:11 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/2 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 10 A DIGNIDADE PARA ALÉM DO SER HUMANO: O RECONHECIMENTO DO VALOR INTRÍNSECO DOS ANIMAIS NÃO HUMANOS E DA NATUREZA “O florescimento da vida humana e não humana na Terra tem valor intrínseco. O valor das formas de vida não humanas independe da sua utilidade para os estreitos propósitos humanos”. (Arne Naess)88 A crise ecológica nos conduz a repensar o conceito kantiano de dignidade, no intuito de adaptá- lo aos enfrentamentos existenciais contemporâneos, bem como a fim de aproximá-lo das novas configurações morais e culturais impulsionadas pelos valores ecológicos. Isso, como referido anteriormente, implica refletir sobre o paradigma moderno antropocêntrico conformador do conceito kantiano de dignidade, ampliando-o ou alargando-o para contemplar o reconhecimento da dignidade para além da vida humana, ou seja, para abarcar também os animais não humanos89, todas as formas de vida e a Natureza como um todo (Gaia), à luz de uma matriz jusfilosófica ecocêntrica apta a reconhecer a teia da vida90 que permeia as relações entre ser humano e Natureza no Antropoceno. Em relação aos animais não humanos, deve-se reformular o conceito de dignidade, objetivando o reconhecimento de um fim em si mesmo, ou seja, de um valor intrínseco conferido aos seres sensitivos não humanos, que passam a ter reconhecido o seu status moral e dividir – ainda que se possa discutir o nível da relação – com o ser humano a mesma comunidade moral, conforme proposto pela “Ecologia Profunda” (Deep Ecology) de Arne Naess destacada na epígrafe. Entendimento similar também pode ser apreendido da “ética do respeito à vida” formulada por Albert Schweitzer.91 Tais considerações implicam o reconhecimento de deveres jurídicos a cargo dos seres humanos, tendo como beneficiários os animais não humanos e a Natureza como um todo (e os elementos naturais, como rios, florestas, paisagens etc.).92 Em outras palavras, pode-se falar também de limitações aos direitos fundamentais (dos seres humanos) com base no reconhecimento de interesses e direitos constitucionais de entes não humanos legitimados constitucionalmente, como é facilmente identificado na tutela dispensada à fauna e à flora por meio da vedação constitucional de “práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade” (art. 225, § 1.º, VII), conforme será desenvolvido no Capítulo 1. O mesmo se pode dizer em relação à proteção da integridade da Natureza, como bem jurídico autônomo, por meio da previsão do inciso I do mesmo dispositivo constitucional, ao assinalar como dever do Estado “preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais”. 88 .NAESS, Arne. Ecology, community and lifestyle: outline of an ecosophy. Cambridge: Cambridge University Press, 1989, p. 28. O conceito de “Ecologia Profunda” (Deep Ecology) apareceu pela primeira vez no artigo de Naess “The shallow and the deep, long-range ecology movement: a summary”, publicado na Revista Inquiry n. 16, 1973, pp. 95- 100. 89 .Sobre a dignidade dos animais (Tierwürde), v. STUCKI, Saskia. Grundrechte für Tiere: eine Kritik des geltenden Tierschutzrechts und rechtstheoretische Grundlegung von Tierrechten im Rahmen einer Neupositionierung des Tieres als Rechtssubjekt. Baden-Baden: Nomos, 2016, pp. 370-378. 90 .CAPRA, Fritjof. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 1996. 91 .SCHWEITZER, Albert. Filosofia da civilização. São Paulo: Editora UNESP, 2013, pp. 283-302. javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:11 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/2 92 .Além da vulnerabilidade das futuras gerações, na seara ecológica, também pode ser aventada a ideia de vulnerabilidade dos animais (não humanos), com os correspondentes deveres fundamentais (dos particulares) e deveres estatais no tocante à sua proteção. Na doutrina, sobre esse último ponto, v. MEDEIROS, Fernanda L. Fontoura de. Direito dos animais. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2013, especialmente pp. 117 e ss. 13/04/2023, 19:11 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/1 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 11 O PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE (INTRAGERACIONAL, INTERGERACIONAL E INTERESPÉCIES) COMO PILAR NORMATIVO DA CONSTITUIÇÃO ECOLÓGICA O novo modelo de Estado de Direito edificado pela nossa Constituição Ecológica de 1988 (art. 225), conforme já anunciado em passagem anterior, objetiva conciliar direitos fundamentais liberais, sociais e ecológicos num mesmo projeto jurídico-político para a comunidade estatal e o desenvolvimento existencial do ser humano num cenário de integridade ecológica e harmonia na relação Ser Humano-Natureza. Tal redefinição conceitual do Estado de Direito contemporâneo justifica-se em face das mudanças ocorridas em função dessa nova orientação ecológica, assumindo o Estado, portanto, o papel de “guardião” dos direitos fundamentais (de todas as dimensões) diante dos novos riscos e violações existenciais a que está exposto o ser humano hoje. Na edificação do novo modelo de Estado de Direito de feição ecológica, com sua base democrática fundada na democracia participativa e seu marco axiológico fincado no princípio constitucional da solidariedade, há, na sua essência, uma tentativa de conciliação e diálogo normativo entre a realização dos direitos sociais e a proteção ambiental, na condição de projetos inacabados da modernidade, já que apenas os direitos liberais alcançaram – em certa medida – um nível maior de realização para o conjunto da sociedade, o que é particularmente o caso da sociedade brasileira. No compasso das promessas não cumpridas da modernidade, os princípios da liberdade e da igualdade, como os marcos normativos, respectivamente, do Estado Liberal e do Estado Social (de Direito), não deram conta de, por si só, assegurar uma vida digna e saudável a todos os integrantes da comunidade humana, deixando para os juristas contemporâneos uma obra normativa ainda inacabada. O princípio da solidariedade aparece, nesse cenário, como mais uma tentativa histórica de realizar na integralidade o projeto da modernidade, concluindo o ciclo dos três princípios revolucionários. A solidariedade expressa a necessidade (e, na forma jurídica, o dever) fundamental de coexistência (e cooperação) do ser humano em um corpo social, formatando a teia de relações intersubjetivas e sociais que se traçam no espaço da comunidade estatal. Só que aqui, para além de uma obrigação ou dever unicamente moral de solidariedade, há que se trazer para o plano jurídico-normativo tal compreensão. A ideia de “dever” jurídico – tanto sob a ótica dos deveres de proteção do Estado quanto dos deveres fundamentais dos particulares (pessoas físicas e jurídicas) – é um dos aspectos normativos mais importantes trazidos pela nova “dogmática” dos direitos fundamentais, vinculando-se diretamente com o princípio da solidariedade. Na perspectiva ecológica, a solidariedade apresenta natureza normativa multidimensional (intrageracional, intergeracional e interespécies) e projeta-se, assim, também em face dos habitantes de outras nações, das futuras gerações e mesmo dos animais não humanos e da Natureza como um todo, implicando um conjunto de deveres estatais e deveres fundamentais (atribuídos aos particulares) em matéria ambiental, os quais,nesse último caso, serão objeto de análise mais detida no Capítulo 4. 13/04/2023, 19:11 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/4 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 12 O DIREITO FUNDAMENTAL (E HUMANO) A VIVER EM UM MEIO AMBIENTE EQUILIBRADO, SAUDÁVEL E SEGURO “A partir da perspectiva da responsabilidade jurídica do Estado, deve haver pouca diferença entre um Estado que executa pessoas arbitrariamente e um Estado que permite o envenenamento da água potável por contaminantes. Nos dois casos, o Estado pode ser responsabilizado por privar indivíduos das suas vidas, violando seus direitos humanos” (Dinah Shelton).93 O reconhecimento de um direito fundamental, de titularidade do indivíduo e da coletividade, a viver em um ambiente ecologicamente equilibrado, tal como consagrado de forma paradigmática no art. 225 da CF/1988 ajusta-se, consoante já enfatizado, aos novos enfrentamentos históricos de natureza existencial postos pela crise ecológica, complementando os já amplamente consagrados, ainda que com variações importantes, direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais, aumentando significativamente os níveis de complexidade e tarefas atribuídas ao Estado de Direito contemporâneo. Com efeito, considerando a insuficiência dos direitos de liberdade e mesmo dos direitos sociais, o reconhecimento de um direito fundamental ao meio ambiente constitui aspecto central da agenda político-jurídica contemporânea. A incidência direta do ambiente na existência humana (sua transcendência para o seu desenvolvimento ou mesmo possibilidade), consoante pontua Antonio E. Perez Luño, é que justifica a sua inclusão no estatuto dos direitos fundamentais, considerando o ambiente como todo o conjunto de condições externas que conformam o contexto da vida humana.94 É com razão que, portanto, Viera de Andrade aponta para “um sistema de direitos fundamentais em permanente transformação, de busca de um ‘estatuto da humanidade’”,95 a fim de contemplar a abertura histórica e cultural inerente à afirmação dos direitos fundamentais no âmbito jurídico, reconhecendo-se um processo dialético em constante evolução. De acordo com Norberto Bobbio – e cientes das justificadas críticas que têm sido formuladas em relação à classificação dos direitos (humanos e fundamentais) em gerações e mesmo dimensões96 –, “ao lado dos direitos sociais, que foram chamados de direitos de segunda geração, emergiram hoje os chamados direitos de terceira geração, que constituem uma categoria, para dizer a verdade, ainda excessivamente heterogênea e vaga, o que nos impede de compreender do que efetivamente se trata. O mais importante deles é o reivindicado pelos movimentos ecológicos: o direito de viver num ambiente não poluído”.97 Na base da terceira categoria de direitos fundamentais, conforme pontua Bosselmann, radica a ideia de serem eles essencialmente coletivos (transindividuais), expressando direitos coletivos ou de grupos, bem como o fato de dependerem fortemente de mecanismos de cooperação substancial de todas as forças sociais para a sua realização.98 Já para Karl Vasak, a quem é creditada a primeira referência ao conceito de direitos humanos de terceira dimensão, com seu clássico ensaio intitulado “For the Third Generation of Human Rights: The Rights of Solidarity”, apresentado em 1979, na aula inaugural da 10.ª Sessão de Estudos do Instituto Internacional de Direitos Humanos, em Estrasburgo, na França, os novos direitos se definem na medida em que “eles são novos nas aspirações que expressam, são novos do ponto de vista dos direitos humanos na medida em que eles objetivam inserir a dimensão humana em áreas onde ela tem sido frequentemente esquecida, tendo sido deixadas para o Estado ou Estados (...). Eles são novos na medida em que podem simultaneamente ser invocados contra o Estado e exigidos deste; mas, acima de tudo (e aqui reside a sua característica essencial), eles só podem ser realizados por meio de esforços conjuntos de todos os atores da cena social: o indivíduo, o Estado, corporações públicas e privadas e a comunidade internacional”.99 No compasso da evolução histórica dos direitos fundamentais, passou-se da perspectiva do indivíduo à da espécie humana, considerada inclusive em perspectiva futura, por meio da proteção jurídica dos interesses das futuras gerações. Das liberdades individuais migrou-se à solidariedade planetária. Assim como os direitos liberais têm o seu alicerce normativo no princípio da liberdade e os direitos sociais são formatados sob a égide do princípio da igualdade, os direitos ditos de terceira dimensão ou geração, como é o caso do direito ao ambiente, encontrariam – segundo a doutrina – o javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=A.225&unit2Scroll=LGL-1988-3|A.225&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:11 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/4 seu suporte normativo-axiológico no princípioda solidariedade, inclusive reforçando a dimensão dos deveres e a natureza de direito-dever inerente ao regime jurídico constitucional de proteção ecológica. As dimensões liberal e social dos direitos fundamentais – e dos direitos humanos, se mirarmos pela ótica do direito internacional – conformam as duas maiores tradições políticas (o pensamento liberal e o pensamento social) dos sistemas jurídicos ocidentais. A primeira resulta do liberalismo cunhado no Século 18 e reformulado nos Séculos subsequentes, ao passo que a segunda marca os Séculos 19 e 20, desembocando na estruturação do modelo contemporâneo do Estado Constitucional, na condição de um Estado Democrático e Social de Direito, comprometido, para além das liberdades individuais, com as noções de igualdade substancial e solidariedade. O objetivo da Modernidade teria sido conceber o ser humano como indivíduo numa sociedade livre, democrática e social. No entanto, conforme alerta Bosselmann, “o tempo passou”, e agora, não obstante os seres humanos continuarem a ser uma ameaça para seus “companheiros” de espécie humana; eles, além disso, passaram a representar uma ameaça para as condições naturais da vida, o que demanda um conceito alargado de solidariedade, incorporando uma dimensão ecológica à já existente dimensão social, de modo a alcançar uma adequada compreensão dos direitos humanos e fundamentais.100 No âmbito da consagração normativa da proteção ambiental como direito humano e fundamental, a Declaração de Estocolmo das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano (1972) apresenta-se como o marco histórico-normativo inicial da proteção ambiental, projetando pela primeira vez no horizonte jurídico, especialmente no âmbito internacional, a ideia em torno de um direito humano a viver em um ambiente equilibrado e saudável, tomando a qualidade do ambiente como elemento essencial para uma vida humana com dignidade e bem-estar.101 Já no seu Preâmbulo, encontra-se o registro de que ambos os aspectos do ambiente, natural ou construído, são essenciais ao bem-estar e ao gozo dos direitos humanos básicos, com destaque para o direitoà vida, compreendido como um direito à vida condigna e saudável. No seu Princípio 1.º, resultou inscrito que “o homem tem o direito fundamental à liberdade, igualdade e adequadas condições de vida, num meio ambiente cuja qualidade permita uma vida de dignidade e bem-estar, e tem a solene responsabilidade de proteger e melhorar o meio ambiente, para a presente e as futuras gerações”. De acordo com Guido F. Silva Soares, a Declaração de Estocolmo “pode ser considerada como um documento com a mesma relevância para o Direito Internacional e para a Diplomacia dos Estados que teve a Declaração Universal dos Direitos do Homem (...). Na verdade, ambas as Declarações têm exercido o papel de verdadeiros guias e parâmetros na definição dos princípios mínimos que devem figurar tanto nas legislações domésticas dos Estados, quanto na adoção dos grandes textos do Direito Internacional da atualidade”.102 O marco jurídico internacional de proteção do ambiente resultou fortificado, vinte anos após a Declaração de Estocolmo, precisamente no ano de 1992, em razão da Conferência das Nações Unidas (Eco-92), onde resultou proclamada a Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que consigna, no seu Princípio 1.º, que “os seres humanos estão no centro das preocupações com o desenvolvimento sustentável. Têm direito a uma vida saudável e produtiva em harmonia, com a Natureza”. Também a Declaração e Programa de Ação de Viena, promulgada no âmbito da 2.ª Conferência Mundial sobre Direitos Humanos (1993), também conferiu, no seu art. 11, destaque especial ao direito ao desenvolvimento, considerando que o mesmo deve ser realizado de modo a satisfazer as “necessidades ambientais e de desenvolvimento das gerações presentes e futuras”. Dessa forma, o direito ao ambiente tomou acento de forma definitiva também no Direito Internacional dos Direitos Humanos, em razão da sua essencialidade à dignidade da pessoa humana, pilar de todo o Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos.103 A Opinião Consultiva n. 23/2017 da Corte IDH, sob o título “Meio Ambiente e Direitos Humanos”, tratou de assinalar que um patamar mínimo de qualidade ambiental configura-se como premissa ao exercício dos demais direitos humanos, além, por certo, da existência de um direito humano ao meio ambiente sadio104, conforme consagrado, há três décadas, no art. 11 do Protocolo de San Salvador (1988).105 Mais recentemente, no julgamento do Caso Comunidades Indígenas Membros da Associação Lhaka Honhat (Tierra Nuestra) vs. Argentina, a Corte IDH declarou que a Argentina violava um direito autônomo a um meio ambiente saudável, bem como os direitos à propriedade da comunidade indígena, à identidade cultural, à alimentação adequada e ao acesso à água. Pela primeira vez em um caso contencioso, a Corte IDH analisou os direitos acima autonomamente, com base no artigo 26 da Convenção Americana de Direitos Humanos, ordenando medidas específicas de reparação e de sua restituição, incluindo ações de acesso à alimentação adequada e à água, para recuperação de recursos florestais e da cultura indígena. javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:11 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 3/4 A CF/1988 (art. 225 e art. 5.º, § 2.º), por sua vez, seguindo a influência do direito constitucional comparado e mesmo do direito internacional, sedimentou e positivou ao longo do seu texto os alicerces normativos de um constitucionalismo ecológico, atribuindo ao direito ao ambiente o status de direito fundamental106, em sentido formal e material, orientado pelo princípio da solidariedade, conforme inclusive já resultou reconhecido pelo STF, no âmbito de emblemática decisão relatada pelo Ministro Celso de Mello.107 Por outro lado, resulta evidente que a noção de um direito fundamental à proteção e promoção do ambiente (ou, expresso de modo mais simplificado, de um direito ao meio ambiente saudável) carece de elucidação, visto que decodificada em uma dimensão objetiva e subjetiva (nesse ponto, inclusive por meio do reconhecimento de um direito-garantia ao mínimo existencial ecológico), que, por sua vez, comunga da multifuncionalidade característica dos direitos fundamentais no Estado Constitucional e dos direitos humanos no âmbito do Direito Internacional dos Direitos Humanos, aspectos que serão objeto de desenvolvimento ao longo da obra. 93 .“From the perspective of the law of the state responsibility, there may be little difference between a state that arbitrarily executes persons and a state that knowingly allows drinking water to be poisoned by contaminants. In both instances, the state can be responsible for depriving individuals of their life in violation of human rights law”. SHELTON, Dinah. “Human rights, health and environmental protection: linkages in law and practice”. In: LEÃO, Renato Zerbini Ribeiro (Coord.). Os rumos do Direito Internacional dos Direitos Humanos: estudos em homenagem ao Professor Antônio Augusto Cançado Trindade. Porto Alegre: Fabris, 2005, p. 424. 94 .PÉREZ LUÑO, Antonio Enrique. Derechos Humanos, Estado de Derecho y Constitución. 5. ed. Madrid: Editorial Tecnos, 1995, p. 463. 95 .VIEIRA DE ANDRADE, Os direitos fundamentais..., p. 65. 96 .A respeito da trajetória “evolutiva” dos direitos fundamentais e especialmente no que diz com uma perspectiva crítica da classificação em gerações e dimensões (inclusive no tocante ao aspecto terminológico), v., por todos, SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. 12. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2015, especialmente pp. 41-58. 97 .BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. 10. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1992, p. 06. Diferentemente de outros constitucionalistas que reconhecem apenas três dimensões de direitos fundamentais, Bonavides defende a existência de uma quarta categoria – direito à democracia, à informação e ao pluralismo – (BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. São Paulo: Malheiros, 2002, pp. 524-525), bem como, mais recentemente, tem se pronunciado a favor de uma “quinta” dimensão de direitos fundamentais, deslocando o direito à paz para tal categoria. BONAVIDES, Paulo. O direito à paz como direito fundamental de quinta geração. Revista Interesse Público, n. 40, Porto Alegre: Editora Notadez, nov.-dez., 2006, pp. 15-22. 98 .BOSSELMANN, Klaus. Ökologische Grundrechte: zum Verhältnis zwischen individueller Freiheit und Natur. Baden- Baden: Nomos Verlagsgesellschaft, 1998, p. 293. 99 .Apud BOSSELMANN, Ökologische Grundrechte..., pp. 293-294. 100 .BOSSELMANN, Klaus. Environmental tights and duties: the concept of ecological human rights. Artigo apresentado no 10.º Congresso Internacional de Direito Ambiental, em São Paulo, 5-8 de junho de 2006, p. 12. 101 .Sobre a abordagem do Direito Internacional do Meio Ambiente, no âmbito da doutrina brasileira, v. CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. Direitos humanos e meio ambiente: paralelo dos sistemas de proteção internacional. Porto Alegre: Fabris, 1993; CRETELLA NETO, José. Curso de direito internacional do meio ambiente. São Paulo: Saraiva, 2012; NASCIMENTO E SILVA, Geraldo Eulálio do. Direito ambiental internacional: meio ambiente, https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:11 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 4/4 desenvolvimento sustentável eos desafios da nova ordem mundial. 2. ed. Rio de Janeiro: Thex, 2002; e SOARES, Guido Fernando Silva. Direito internacional do meio ambiente: emergência, obrigações e responsabilidades. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2003. Na doutrina internacional, v. BIRNIE, Patrícia; BOYLE, Alan. International law and the environment. 2. ed. Oxford/New York: Oxford University Press, 2002; ANTON, Donald K.; SHELTON, Dinah L. Environmental protection and human rights. Cambridge: Cambridge University Press, 2011; e BEYERLIN, Ulrich. Umweltvölkerrecht. Baden-Baden: C. F. Beck, 2000. 102 .SOARES, Direito internacional do meio ambiente..., p. 55. 103 .Sobre o tema, cumpre registrar o Esboço da Declaração de Princípios sobre Direitos Humanos e Meio Ambiente (Draft Principles on Human Rights and the Environment), realizado, no ano de 1994, por um grupo internacional de especialistas (Grupo de Gênova), reunido a pedido do Sierra Club, Legal Defense Fund, Association Mondiale pour L’école Instrument de Paix e a Société Suisse pour la Protection de L’environnement, e de Fatma Zohra Ksentini, Relatora Especial sobre Direitos Humanos e Meio Ambiente da Subcomissão sobre Prevenção de Discriminação e Proteção das Minorias da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Econômico e Social da ONU. Disponível em: [hrlibrary.umn.edu/instree/1994-dec.htm]. Em março de 2012, o Comitê de Direitos Humanos da ONU, decidiu estabelecer, no âmbito do Alto Comissariado para Direitos Humanos um mandato específico sobre os “direitos humanos e o ambiente”, com o proposito, entre outras tarefas, de estudar as obrigações em matéria de direitos humanos relacionadas com o usufruto de um ambiente seguro, limpo, saudável e sustentável, bem como promover as melhores práticas relacionadas com a utilização dos direitos humanos na elaboração das políticas ambientais. O primeiro relator designado foi John Knox, nomeado em agosto de 2012, para atuar como Especialista Independente (2012-2015) e como Relator Especial para os Direitos Humanos e Meio Ambiente (2015-2018). Em março de 2018, o Conselho de Direitos Humanos prorrogou o mandato (resolução 37/8) e nomeou, em agosto de 2018, David. R. Boyd como Relator Especial. Disponível em: [www.ohchr.org/en/Issues/environment/SRenvironment/Pages/SRenvironmentIndex.aspx]. A íntegra dos relatórios está disponível em: [www.ohchr.org/EN/Issues/Environment/SREnvironment/Pages/Annualreports.aspx]. 104 .Disponível em: [www.corteidh.or.cr/docs/opiniones/seriea_23_esp.pdf]. 105 .Na doutrina, sobre a temática meio ambiente e direitos humanos, v. BEYERLIN, Ulrich. Umweltschutz und Menschenrechte. In: Zeitschrift für ausländisches öffentliches Recht und Völkerrecht (ZaöRV), 2005, pp. 525-541. Disponível em: [www.zaoerv.de/ 65_2005/65_2005_3_a_525_542.pdf]. 106 .Na doutrina, em sede de direito comparado, v. BOYD, David R. The Environmental Rights Revolution: a Global Study of Constitutions, Human Rights, and the Environment. Vancouver: University of British Columbia Press, 2012. 107 .“A questão do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado – direito de terceira geração – princípio da solidariedade. O direito à integridade do meio ambiente – típico direito de terceira geração – constitui prerrogativa jurídica de titularidade coletiva, refletindo, dentro do processo de afirmação dos direitos humanos, a expressão significativa de um poder atribuído, não ao indivíduo identificado em sua singularidade, mas, num sentido verdadeiramente mais abrangente, a própria coletividade social. Enquanto os direitos de primeira geração (Direito Civis e Políticos) – que compreendem as liberdades clássicas, negativas ou formais – realçam o princípio da liberdade e os direitos de segunda geração (Direitos Econômicos, Sociais e Culturais) – que se identificam com as liberdades positivas, reais ou concretas – acentuam o princípio da igualdade, os direitos de terceira geração, que materializam poderes de titularidade coletiva atribuídos genericamente a todas as formações sociais, consagram o princípio da solidariedade e constituem um momento importante no processo de desenvolvimento, expansão e reconhecimento dos direitos humanos, caracterizados, enquanto valores fundamentais indisponíveis, pela nota de uma essencial inexauribilidade” (STF, MS 22.164/SP, Pleno, rel. Min. Celso de Mello, j. 30.10.1995). 13/04/2023, 19:11 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/2 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 13 DIREITO FUNDAMENTAL À INTEGRIDADE DO SISTEMA CLIMÁTICO OU AO CLIMA LIMPO, ESTÁVEL E SEGURO E OS CORRELATOS DEVERES ESTATAIS DE PROTEÇÃO CLIMÁTICA A atual crise climática decorrente do aquecimento global e das mudanças climáticas, inclusive a ponto de alguns países decretarem um “estado de emergência climática”, como feito recentemente pelo Parlamento Europeu108 , tem suscitado importante discussão doutrinária109 em torno do reconhecimento de um direito fundamental à integridade do sistema climático ou direito fundamental ao clima estável, limpo e seguro, como derivado do regime constitucional de proteção ecológica e, em particular, do direito fundamental ao meio ambiente (art. 225 da CF/1988).110 De tal sorte, a integridade e estabilidade climática integraria tanto o núcleo essencial do direito fundamental ao meio ambiente, quanto o conteúdo do chamado mínimo existencial ecológico, podendo-se falar, inclusive, de um mínimo existencial climático, como indispensável a assegurar uma vida humana digna, saudável e segura. Tal entendimento também conduz ao reconhecimento de deveres estatais específicos de proteção do sistema climático, derivados diretamente da previsão do inciso I no § 1º do art. 225 da CF/1988, que dispõe sobre a proteção dos “processos ecológicos essenciais”. O sistema climático, nesse sentido, deve ser reconhecido como um novo bem jurídico autônomo de estatura constitucional, tal como defendido recentemente pelo Ministro Antônio Herman Benjamin do STJ, somado à consagração expressa da proteção da integridade do sistema climático no Novo Código Florestal ( Lei 12.651/2012), art. 1º-A, parágrafo único, e na Lei da Política Nacional sobre Mudança do Clima ( Lei 12.187/2009), art. 4º, I. O reconhecimento de uma nova dimensão climática inerente ao regime constitucional ecológico estabelecido no art. 225 da CF/1988 enseja a caracterização de deveres específicos de proteção e promoção, inclusive de natureza organizacional e procedimental, no que diz respeito ao combate, contenção e diminuição das causas e consequências das mudanças climáticas, implicando, no caso de descumprimento por ação e/ou omissão (geral e parcial), a possibilidade de controle jurisdicional (ademais do indispensável e permanente controle social) e, nesse contexto, operando como parâmetro material para a aplicação do princípio da proibição de retrocesso climático. O tema em questão se coloca na perspectiva de um diálogo de fontes – e mesmo de um diálogo jurisprudencial – entre o marco normativo internacional (de direitos humanos e direito ambiental) e a ordem jurídica nacional (constitucional e infraconstitucional). Cuida-se, portanto, de uma abordagem constitucional de múltiplos níveis, o que, no tocante ao problema da proteção e promoção de um meio ambiente equilibrado e saudável e, em particular, de condições climáticas íntegras, estáveis e seguras, assume especial relevância, dado o fato de que tal problema apresenta dimensão global e, independentemente do nível de participação individual de cada Estado (menor ou maior), em termos de emissões de gases de efeito estufa, cada um deve contribuir para a sua superação. Ressalta-se, nesse sentido, que o Estado concebido pela CF/1988, tal como facilmente se percebe mediante simples leitura do art. 4º, que dispõe sobre os princípios que regem as relações internacionaisbrasileiras, é um Estado constitucional aberto e cooperativo.111 Não por outra razão, os sistemas internacionais (global e regionais) de proteção dos direitos humanos têm se encarregado cada vez mais de abordar a atual crise climática e a violação de direitos humanos dela decorrente, como exemplo, na questão dos refugiados ou deslocados climáticos. A título de exemplo, o reconhecimento de um “direito humano ao ar limpo” e as obrigações estatais correlatas foram expressamente reconhecidos no “Informe sobre a Questão das Obrigações de Direitos Humanos Relacionadas com o Gozo de um Meio Ambiente Seguro, Limpo, Saudável e Sustentável” (A/HRC/40/55), elaborado pelo Relator Especial sobre Direitos javascript:void(0) javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=A.225&unit2Scroll=LGL-1988-3|A.225&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=A.225&unit2Scroll=LGL-1988-3|A.225&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2012%5C%5C1856&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2012-1856|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2009%5C%5C2300&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2009-2300|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=A.225&unit2Scroll=LGL-1988-3|A.225&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) 13/04/2023, 19:11 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/2 Humanos e Meio Ambiente do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, David R. Boyd, datado do início do ano de 2019112. Segundo aponta o documento, “a má qualidade do ar tem implicações para uma ampla gama de direitos humanos, incluindo os direitos à vida, à saúde, à água, à alimentação, à moradia e a um padrão de vida adequado. A poluição do ar também viola claramente o direito a um meio ambiente saudável e sustentável. Embora a Assembleia Geral tenha adotado numerosas resoluções sobre o direito à água limpa, ela nunca adotou uma resolução sobre o direito ao ar limpo. Claramente, se há um direito humano à água limpa, deve haver um direito humano ao ar limpo. Ambos são essenciais para a vida, saúde, dignidade e bem- estar.”113 De modo complementar, em informe mais recente apresentado à Assembleia Geral da ONU em que examina a necessidade urgente de ação para garantir um clima seguro para a humanidade (A/74/161), o Relator Especial para Direitos Humanos e Meio Ambiente destaca que: “Em termos de obrigações substantivas, os Estados não devem violar o direito a um ambiente seguro através de suas próprias ações, devem impedir que esse direito seja violado por terceiros, especialmente empresas, e devem estabelecer, implementar e fazer cumprir leis, políticas e programas para implementar esse direito. Estados também devem evitar a discriminação e medidas retrocessivas. Todas as medidas relacionadas ao clima, incluindo as obrigações relacionadas à mitigação, adaptação, financiamento e perdas e danos, são regidas por esses princípios”.114 108 .O Parlamento Europeu declarou, no dia 28 de novembro de 2019, a “emergência climática” na União Europeia (UE), tornando a Europa o primeiro continente a decretar a medida. O ato é, em grande parte, simbólico, e se destina a aumentar a pressão sobre os agentes públicos por medidas concretas contra as mudanças climáticas. Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/parlamento-europeu-declara-emerg%C3%AAncia-clim%C3%A1tica/a-51450872>. 109 .WEDY, Gabriel. Desenvolvimento sustentável na era das mudanças climáticas: um direito fundamental. São Paulo: Saraiva (Série IDP), 2018; e WEDY, Gabriel. Litígios climáticos: de acordo com o direito brasileiro, norte-americano e alemão. São Paulo: JusPodivm, 2019. 110 .Tramita no Congresso Nacional proposta de emenda constitucional (PEC 233/2019) que tem por escopo integrar a agenda climática expressamente no texto da CF/1988. A prevalecer a sua redação atual, a PEC 233/2019 acrescenta, respectivamente, o inciso X ao art. 170 e o inciso VIII ao § 1º do art. 225, conforme redação que segue: “art. 170 [...] X – manutenção da estabilidade climática, adotando ações de mitigação da mudança do clima e adaptação de seus efeitos adversos” e “art. 225 (...) VIII – adotar ações de mitigação da mudança do clima e adaptação de seus efeitos adversos”. 111 .Sobre o Estado cooperativo v., em especial, HÄBERLE, Peter. Estado constitucional cooperativo. Rio de Janeiro: Renovar, 2008. 112 .Os demais informes e documentos elaborados pela Relatoria Especial sobre Direitos Humanos e Meio Ambiente do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU encontram-se disponíveis em: https://www.ohchr.org/en/Issues/environment/SRenvironment/Pages/SRenvironmentIndex.aspx. 113 .RELATOR ESPECIAL SOBRE DIREITOS HUMANOS E MEIO AMBIENTE DO ALTO COMISSARIADO DE DIREITOS HUMANOS DA ONU. Informe sobre a Questão das Obrigações de Direitos Humanos Relacionadas com o Gozo de um Meio Ambiente Seguro, Limpo, Saudável e Sustentável” (A/HRC/40/55), 2019, par. 44, p. 9. Disponível em: https://documents-dds-ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/G19/002/57/PDF/G1900257.pdf?OpenElement. 114 .RELATOR ESPECIAL SOBRE DIREITOS HUMANOS E MEIO AMBIENTE DO ALTO COMISSARIADO DE DIREITOS HUMANOS DA ONU. Informe sobre a Questão das Obrigações de Direitos Humanos Relacionadas com o Gozo de um Meio Ambiente Seguro, Limpo, Saudável e Sustentável” (A/74/161), 2019, par. 65, p. 22. Disponível em: https://documents-dds-ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/N19/216/45/PDF/N1921645.pdf?OpenElement. javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun13/04/2023, 19:11 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/1 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 14 MÍNIMO EXISTENCIAL ECOLÓGICO (E CLIMÁTICO)? O reconhecimento da jusfundamentalidade do direito ao ambiente ecologicamente equilibrado opera no sentido de agregar novos elementos normativos ao conteúdo do assim chamado “mínimo existencial”, abrindo caminho para a noção de uma dimensão ecológica do direito-garantia ao mínimo existencial, que, em virtude da necessária integração com a agenda da proteção e promoção de uma existência digna em termos socioculturais (portanto, não restrita a um mínimo vital ou fisiológico), há de ser designada pelo rótulo de um mínimo existencial ecológico, coerente, aliás, com o projeto político-jurídico do Estado de Direito de feição ecológica e de uma Constituição Ecológica, como consagrado pela CF/1988 (art. 225). A preocupação doutrinária de se conceituar e definir, em termos normativos, um padrão mínimo em termos ecológicos para a realização de uma vida digna e saudável justifica-se a partir da importância essencial que a qualidade (e segurança) ambiental representa para o desenvolvimento da vida humana em toda a sua potencialidade. Tais condições materiais elementares – de natureza socioambiental – constituem-se em premissas do próprio exercício dos demais direitos (fundamentais ou não), resultando, em razão da sua essencialidade para a existência humana, em uma espécie de direito a ter e exercer os demais direitos. Sem o acesso a tais condições existenciais básicas (que, todavia, não podem ser compreendidas no sentido de uma redução da proteção dos direitos ecológicos a um patamar minimalista), o que inclui necessariamente um padrão mínimo de integridade ecológica, não há que se falar em liberdade real ou fática, quanto menos em um padrão de vida digno. Entre outras justificativas que se poderia invocar, também para efeitos do reconhecimento de um direito-garantia constitucional ao mínimo existencial ecológico115, assume relevância a noção do dever de respeito e consideração, por parte da sociedade e do Estado, pela vida de cada indivíduo, que, de acordo com o imperativo categórico formulado por Kant (ainda que sujeito a uma releitura e contextualização), deve ser sempre tomada como um fim em si mesmo, em sintonia com a dignidade (e sua dimensão ecológica) inerente atribuída e reconhecida a cada ser humano e à coletividade no seu conjunto. Mais recentemente, como já referido no tópico anterior, com a consagração de uma nova dimensão protetiva da dignidade da pessoa humana diante dos riscos existenciais derivados do aquecimento global e das mudanças climáticas, pode-se, inclusive, defender o reconhecimento de um mínimo existencial climático. 115 .Na doutrina alemã, de onde provem a origem da expressão “mínimo existencial ecológico” (ökologische Existenzminimum), inclusive como um esforço doutrinário para caracterizar posições jurídicas subjetivas em matéria ambiental e, em alguma medida, superar a ausência de um direito fundamental ao ambiente na Lei Fundamental de Bonn, v. KLOEPFER, Art. 20a…, pp. 6-8; e HASELHAUS, Sebastian. Verfassungsrechtliche Grundlagen des Umweltschutzes. In: REHBINDER, Eckard; SCHINK, Alexander (Org.) Grundzüge des Umweltrechts. 5. ed. Berlim: Erich Schmidt Verlag, 2018, p. 29. https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) 13/04/2023, 19:13 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/1 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 15 O DIREITO AO MEIO AMBIENTE COMO UM “DIREITO FUNDAMENTAL EM SENTIDO AMPLO OU COMO UM TODO” (ROBERT ALEXY) No âmbito da Teoria dos Direitos Fundamentais formulada por Robert Alexy, o direito fundamental ao ambiente (Umweltgrundrecht) se configura como um direito fundamental em sentido amplo ou como um todo (Grundrechtals Ganzes), contemplando um feixe complexo e abrangente de posições jurídicas. De acordo com o autor alemão, conjuntamente com as posições jurídicas derivadas da sua configuração como direito de defesa (dimensão negativa ou em face do Estado para que se abstenha de degradar o ambiente), como direito à proteção (imposta ao Estado frente a intervenções lesivas ao ambiente praticadas por terceiros) e como direito à prestação fática (dimensão positiva ou prestacional imposta ao Estado para promover medidas fáticas voltadas à tutela ecológica), emerge do regime jurídico-constitucional do direito fundamental ao ambiente também a sua dimensão como direito a procedimentos, ou seja, “um direito a que o Estado inclua o titular do direito fundamental nos procedimentos relevantes para o meio ambiente”. 116 Compreendido em sentido amplo, o direito fundamental ao ambiente apresenta tanto uma feição defensiva quanto outra prestacional, no sentido de poder ser decodificado, notadamente na sua dimensão subjetiva, em um complexo heterogêneo de posições subjetivas de natureza “negativa” e “positiva”, expressa ou implicitamente asseguradas no plano constitucional. O direito fundamental ao ambiente apresenta como conteúdo não apenas a liberdade-autonomia (liberdade perante o Estado), mas também da liberdade por intermédio do Estado, partindo da premissa de que o indivíduo, no que concerne à conquista e manutenção de sua liberdade, depende em muito de uma postura ativa dos poderes públicos. Da consagração do direito ao ambiente como direito fundamental e do “novo” papel do Estado como “guardião e amigo” dos direitos fundamentais, extraem-se inúmeras projeções normativas. A dupla perspectiva subjetiva e objetiva do direito fundamental ao ambiente, representa, assim, simultaneamente seu reconhecimento como um direito subjetivo de titularidade individual e coletiva e um valor comunitário. A perspectiva subjetiva encarrega-se de reconhecer que o “direito” (em verdade, os “direitos”) vinculado ao respeito, proteção e promoção do ambiente, constitui posição jurídica subjetiva “justiciável”, o que permite levar ao Poder Judiciário os casos de lesão ou ameaça de lesão ao bem jurídico ecológico, tanto na hipótese de serem praticados por particulares (pessoas físicas e jurídicas) quanto pelos próprios entes estatais. A perspectiva objetiva, por sua vez, projeta-se em um complexo de projeções normativas, entre as quais: o dever fundamental de proteção ambiental conferido aos particulares, o dever de proteção do Estado no que tange a tutela ambiental, as perspectivas procedimental e organizacional do direito fundamental ao ambiente e a eficácia entre particulares do direito fundamental ao ambiente. Tal configuração normativa estabelece todo um sistema normativo integrado e multidimensional de tutela e promoção do direito fundamental ao ambiente, tendo como objetivo a sua máxima eficácia e efetividade, conforme será desenvolvido ao longo dos diversos Capítulos que integram a obra. 116 .ALEXY, Theorie der Grundrechte..., pp. 403-404. javascript:void(0) 13/04/2023, 19:13 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/2 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 16 GEORG JELLINEK, A TEORIA DO STATUS (STATUSLEHRE) E O STATUS OECOLOGICUS No ano de 2011, em homenagem aocentenário da morte do jurista alemão Georg Jellinek, foi publicado um importante texto de Winfried Brugger, da Universidade de Heidelberg. No seu texto, Brugger propôs uma leitura atualizada da clássica “Teoria do(s) Status” (Statuslehre) de Jellinek117, abordada na sua obra System der subjektiven öffentlichen Rechte118 (“Sistema de Direitos Públicos Subjetivos”), de 1892 (com 2ª edição revisada de 1905). A obra de Jellinek, entre outros aspectos, aborda a relação entre indivíduo e Estado no âmbito do Direito Público, estabelecendo as esferas de domínio de cada um. Pela ótica dos direitos públicos subjetivos (expressão ainda hoje recorrente para descrever os direitos fundamentais, notadamente pela perspectiva da sua dimensão subjetiva119), a Teoria do(s) Status estabeleceu, em grande medida, os pilares fundantes da Teoria dos Direitos Fundamentais contemporânea, como é fácil de perceber na análise do conteúdo de cada status.120 Segundo Jellinek, os direitos fundamentais (para ele, “direitos públicos subjetivos”) apresentariam três funções básicas (Grundrechtsfunkionen121) representadas pelos seguintes status: 1) status negativus; 2) status positivus; e 3) status activus. No caso do status negativus, os direitos fundamentais são tomados como direitos de defesa (Grundrechte als Abwerrechte). O status positivus, por sua vez, configura-se como a função prestacional dos direitos fundamentais (Grundrechte als Leistungsrechte). Já o status activus (ou status aktiver Zivität) caracteriza os direitos fundamentais como direitos de participação ativa (Grundrechte als Rechte zur aktiven Teilnahme), como na esfera política, caracterizando a própria configuração da cidadania política. O status activus já havia recebido uma releitura contemporânea feita por Peter Häberle, denominando-o de status activus processualis122, o que está de acordo com a dimensão organizacional e procedimental dos direitos fundamentais ou mesmo com a ideia de proteção dos direitos fundamentais por meio do(s) procedimento(s) (Grundrechtschutz durch Verfahren123). Mas Jellinek não parou por aí. Ele também destacou um quarto status: o status subiectionis ou statuspassivus, o qual estaria relacionado à esfera dos deveres e responsabilidades do indivíduo (individuellen Pflicthsphäre) para com o Estado e, de certa forma, para com o conjunto da sociedade. A faceta contemporânea de tal status pode ser caracterizada por meio dos deveres fundamentais estabelecidos pela atual Teoria dos Direitos Fundamentais, balizando, inclusive, como é peculiar ao Direito, os limites para o exercício, pelo indivíduo, do seu status libertatis num quadrante comunitário, como, aliás, é característico da natureza de direito-dever fundamental que caracteriza o regime constitucional de tutela ecológica consagrado na CF/1988 (art. 225). Para além dos “quatro status” propostos por Jellinek, Brugger explora dois novos status na perspectiva da relação Estado-Cidadão (Staat-Bürger): o status oecologicus e o status culturalis. E, para além da clássica relação Estado Nacional-Cidadão, o autor também aborda outros dois: o status europeus e o status universalis. No caso do status oecologicus, que particularmente nos interessa aqui, tal decorreria, num primeiro plano, da nova tarefa ou objetivo atribuído ao Estado (Staatszielbestimmumg), tal como estabelecido no artigo 20a da Lei Fundamental alemã desde 1994 (e, no caso da Constituição brasileira, no art. 225, com o plus do reconhecimento também de um direito fundamental ao ambiente, diferentemente do que ocorre na norma constitucional germânica), bem como da imposição da toda uma nova legislação infraconstitucional voltada à proteção ambiental124 (ou da Natureza). De acordo com Brugger, não obstante a rejeição expressa que o autor faz ao reconhecimento e atribuição de “direitos” próprios da Natureza ou dos elementos naturais, o Estado, ao regular a matéria, por exemplo, no uso e exploração do solo, da água e do ar, deve deixar claro ao cidadão a esfera e os limites para o exercício do seu status libertatis e a partir de onde o Estado imporá e exigirá o respeito ao seu status subiectionis, o que tornaria possível, a partir de tal ótica, o reconhecimento de um status oecologicus125. O status oecologicus proposto por Brugger alinha-se, em alguma medida, com o pensamento de Alexy tratado anteriormente, ao reconhecer a faceta “multidimensional” do regime jurídico-constitucional ecológico (como um direito fundamental “completo” ou “como um todo”), exigindo o seu lugar de javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:13 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/2 destaque, dada a relevância comunitária e mesmo existencial do bem jurídico ecológico, no âmbito da Teoria dos Direitos Fundamentais contemporânea. 117 .BRUGGER, Winfried. Georg Jellineks Statuslehre: national und international: Eine Würdigung und Aktualisierung anlässlich seines 100. Todestages im Jahr 2011. In: AöR, Vol. 136, n. 1, março, 2011, pp. 1-43. 118 .JELLINEK, Georg. System der subjektiven öffentlichen Recht. 2. ed. Tübingen: Scientia Verlag Aalen, 1979 (originalmente publicada em 1905), pp. 86-87. 119 .A título de exemplo, a CF/1988 utiliza tal expressão ao assinalar, no art. 208, § 1º, que “o acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo” (destaque nosso). 120 .Sobre a teoria do status de Jellinek na perspectiva da Teoria dos Direitos Fundamentais contemporânea, inclusive com aporte crítico, v. ALEXY, Theorie der Grundrechte…, pp. 229-248. 121 .HUFEN, Friedhelm. Staatsrecht II: Grundrechte. 4. ed. Munique: C.H.Beck, 2014, p. 51. 122 .HÄBERLE, Peter. Grundrechte im Leistungsstaat. In: VVDStRL, 1972, pp. 81 e ss. 123 .HUFEN, Staatsrecht…, p. 58. 124 .BRUGGER, Georg Jellineks Statuslehre…, pp. 28-29. 125 .BRUGGER, Georg Jellineks Statuslehre…, p. 29. https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:13 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/2 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 17 ESTADO DEMOCRÁTICO, SOCIAL E ECOLÓGICO DE DIREITO, DEVERES ESTATAIS DE PROTEÇÃO AMBIENTAL E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL No tocante ao modelo contemporâneo de Estado de Direito, é possível aderir à ideia da superação do modelo do Estado Social (que, por sua vez, já havia superado o Estado Liberal) – pelo menos na forma assumida após a Segunda Grande Guerra – por um modelo de Estado (Democrático, Social e) Ecológico126, também designado por alguns de Pós-Social,127 que, em verdade, não abandona as conquistas dos demais modelos de Estado de Direito em termos de salvaguarda da dignidade humana, mas apenas agrega a elas uma dimensão ecológica, comprometendo-se com o enfrentamento e prevenção do quadro de riscos e degradação ecológica. O processo de afirmação histórica dos direitos fundamentais, pela ótica das suas diferentes dimensões (liberal, social e ecológica), reforça a caracterização constitucional de um novo modelo de Estado Constitucional, em superaçãoaos modelos de Estado Liberal e Social. O marco jurídico-constitucional ecológico ajusta-se à necessidade da tutela e promoção – integrada e interdependente – dos direitos sociais e dos direitos ecológicos num mesmo projeto jurídico-político para o desenvolvimento humano em padrões sustentáveis, inclusive pela perspectiva da noção ampliada e integrada dos direitos fundamentais socioambientais ou direitos fundamentais econômicos, sociais, culturais e ambientais (DESCA). Em vista de tais reflexões, é possível destacar o surgimento de um constitucionalismoecológico – ou, pelo menos, da necessidade de se construir tal noção –, avançando em relação ao modelo do constitucionalismo social, designadamente para corrigir o quadro de desigualdade e degradação humana em termos de acesso às condições mínimas de bem-estar. Em face de tal cenário, não é possível tolerar extremismos (fundamentalismos) ecológicos ou mesmo compreensões “maniqueístas” do fenômeno ambiental, de modo a não se admitir uma tutela ecológica que desconsidere as mazelas sociais que estão, conforme já se assinalou anteriormente, na base de qualquer projeto político-econômico-jurídico que mereça a qualificação de sustentável. Não sem razão, adota-se aqui a formulação de Winter e o reconhecimento dos três pilares centrais que integram e dão suporte à noção de desenvolvimento sustentável, quais sejam, o econômico, o social e o ambiental,128 o que, diga-se de passagem, encontra perfeita sintonia com o projeto normativo da nossa Lei Fundamental de 1988, facilmente apreensível do somatório entre o objetivo constitucional erradicar a pobreza, reduzir as desigualdades sociais (art. 3.º, I e III), o estabelecimento de uma ordem econômica sustentável (art. 170, VI) e o dever de tutela ecológica atribuído ao Estado e à sociedade (art. 225). A nova formatação ecológica do Estado de Direito, à luz de uma Constituição Ecológica, nesse novo cenário constitucional, tem por missão e dever jurídico vinculante para todos os entes estatais (Estado-Legislador, Estado-Administrador e Estado-Juiz)129 atender ao comando normativo emanado do art. 225 da CF/1988, considerando, inclusive, o extenso rol exemplificativo de deveres de proteção ecológica elencado no seu § 1.º, sob pena de, não o fazendo, tanto sob a ótica da sua ação quanto da sua omissão, incorrer em práticas inconstitucionais ou antijurídicas autorizadoras da sua responsabilização por danos causados a terceiros – além do dano causado ao meio ambiente em si. Nesse contexto, a CF/1988 delineou a competência administrativa (art. 23), em sintonia com os deveres de proteção ambiental, de todos os entes federativos (Municípios, Estados, Distrito Federal e União) na seara ambiental, de modo que incumbe a todos a tarefa – e responsabilidade solidária – de “proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas” (inciso VI) e “preservar as florestas, a fauna e a flora” (inciso VII).130 A partir de tal entendimento, a não atuação (quando lhe é imposto juridicamente agir) ou a atuação insuficiente (de modo a não proteger o direito fundamental de modo adequado e suficiente), no tocante a medidas legislativas e administrativas voltadas ao combate às causas geradoras da degradação do ambiente, pode ensejar, em alguns casos, até mesmo a intervenção e o controle judicial, inclusive no tocante às políticas públicas levadas a cabo pelos entes federativos em matéria ambiental. Nessa perspectiva, deve-se considerar não apenas um papel determinante do Poder Judiciário, mas também das instituições públicas voltadas à tutela dos direitos ecológicos e que dispõem de legitimidade para a adoção de medidas extrajudiciais e judiciais – por exemplo, do termo de javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=A.225&unit2Scroll=LGL-1988-3|A.225&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) 13/04/2023, 19:13 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/2 ajustamento de conduta e da ação civil pública – para a resolução de tais conflitos, como é o caso do Ministério Público e da Defensoria Pública, além, é claro, das associações civis de proteção ambiental e do próprio cidadão, este último por meio do manuseio da ação popular. Tais aspectos, aqui apenas esquematicamente expostos, serão desenvolvidos ao longo dos vários capítulos do livro. 126 .Na doutrina, v. VOIGT, Christina (Edit.). Rule of Law for Nature: New Dimensions and Ideas in Environmental Law. Cambridge: Cambridge University Press, 2013. 127 .Sobre a concepção de Estado Pós-Social, no âmbito da doutrina nacional, v. SARMENTO, Daniel. “Os direitos fundamentais nos paradigmas liberal, social e pós-social (pós-modernidade constitucional?)”. In: SAMPAIO, José Adércio Leite (Coord.). Crise e desafios da Constituição: perspectivas críticas da teoria e das práticas constitucionais brasileiras. Belo Horizonte: Del Rey, 2003, pp. 375-414. 128 .WINTER, Gerd. Desenvolvimento sustentável, OGM e responsabilidade civil na União Europeia. Campinas: Millennium Editora, 2009, pp. 2 e ss. Na doutrina brasileira, a respeito do princípio do desenvolvimento sustentável, v. FENSTERSEIFER, Tiago; SARLET, Ingo W. Princípios do direito ambiental. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2017, pp. 119- 138. 129 .KLOEPFER, Art. 20a…, p. 27. 130 .A norma constitucional em questão foi regulamentada no âmbito infraconstitucional por meio da Lei Complementar 140/2011 (Competência administrativa em matéria ambiental). https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2011%5C%5C4970&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2011-4970|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:13 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/4 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 18 DIREITOS FUNDAMENTAIS SOCIOAMBIENTAIS? A INTERDEPENDÊNCIA E INDIVISIBILIDADE DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS “Existem problemas novos convivendo com antigos – a persistência da pobreza e de necessidades essenciais não satisfeitas, fomes coletivas (...) e ameaças cada vez mais graves ao nosso meio ambiente e à sustentabilidade de nossa vida econômica e social” (Amartya Sen).131 A consagração constitucional do Estado (Democrático, Social e) Ecológico de Direito, por sua vez, guarda sintonia com a tese da indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos e fundamentais.132 As dimensões dos direitos humanos e fundamentais, na sua essência, materializam as diferentes refrações do princípio da dignidade da pessoa humana, pilar central da arquitetura constitucional contemporânea, reclamando uma compreensão integrada, desde logo incompatível com um sistema de preferências no que diz com a prevalência, em tese, de determinados direitos em relaçãoa outros. O projeto político-jurídico de realização dos direitos fundamentais sociais longe está de uma realização satisfatória, ainda mais considerando a privação – até mesmo na esfera de um patamar minimalista (também no tocante ao assim chamado mínimo existencial) – do acesso aos bens sociais básicos, em especial verificável no caso dos direitos à saúde, à educação e à moradia.133 Assim, a orientação ora lançada no âmbito deste estudo introdutório, no sentido de uma tutela integrada dos direitos sociais e da proteção do ambiente, na perspectiva dos direitos fundamentais socioambientais, atende justamente a um critério de justiça socioambiental, para além da ideia de justiça social, erradicando as mazelas socioambientais que alijam parte significativa da população brasileira do desfrute de uma vida digna e saudável, em um ambiente equilibrado, seguro e hígido. A respeito da questão, cumpre assinalar que o tratamento integrado de tais direitos – sob o marco constitucional ecológico – se faz necessário também em razão de certo descaso político- jurídico que marcou historicamente a sua consagração constitucional, especialmente perceptível no caso dos direitos sociais e da sua ainda relativamente recente inclusão nos textos constitucionais. De tal sorte, há a necessidade de um adequado enquadramento e tratamento normativo tanto dos direitos sociais quanto dos direitos ecológicos, de modo a que não se perpetue o entendimento de que tais direitos tenham sido consagrados em normas constitucionais de cunho eminentemente programático ou de “baixa” normatividade, portanto, incapazes de caracterizar posições subjetivas “justiciáveis”.134 A tudo isso também se soma a própria natureza da carga normativa de tais direitos e do papel do Estado na sua efetivação. Assim, pode-se dizer que há a preponderância de uma carga normativa prestacional comum a tais direitos – não obstante a carga normativa defensiva também estar presente em várias situações –, demandando, em grande medida, que a realização de tais direitos passe pela atuação estatal, especialmente por intermédio da promoção de políticas públicas, diferentemente do que ocorre no tocante aos direitos liberais, onde prepondera a carga normativa defensiva. A semelhança da sua feição normativa em alguns aspectos e mesmo do conteúdo propriamente dito de tais direitos135 permite a possibilidade de um aproveitamento e adaptação em grande medida do desenvolvimento teórico – e mesmo jurisprudencial – verificado no campo dos direitos sociais para os direitos ecológicos. A edificação teórica dos direitos sociais precede historicamente o desenvolvimento do direito ambiental e dos direitos fundamentais ecológicos, encontrando-se em estágio muito mais avançado em alguns aspectos, especialmente no tocante aos mecanismos normativos para combater a baixa efetividade das normas que tutelam tais direitos, como decorrência da omissão ou atuação insuficiente dos entes estatais. De modo a reforçar tal entendimento, no sentido de um tratamento normativo equiparado entre os direitos sociais e o direito ao ambiente, cumpre assinalar que o Protocolo de San Salvador Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1988), reconheceu, no corpo do seu texto, que “toda pessoa tem direito a viver em um meio ambiente sadio e a contar com os serviços públicos básicos” (art. 11.1), bem como que “os Estados-Partes promoverão a proteção e melhoramento do meio ambiente” (art. 11.2). Mais recentemente, resultou consagrado no Princípio 25 da Declaração do Rio de 1992 que “a paz, o desenvolvimento e a proteção ambiental são interdependentes e indivisíveis”. javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:13 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/4 A tese da indivisibilidade, unidade e interdependência dos direitos fundamentais, refuta, de certa maneira, o conceito de “gerações” de direitos fundamentais, no sentido de que todos os direitos fundamentais, de diferentes dimensões, complementam-se na busca de uma tutela integral e efetiva da dignidade da pessoa humana, não havendo, portanto, como defendem alguns, primazia ou superioridade hierárquica entre tais direitos como decorrência de integrarem uma geração precedente. Nesse sentido, Cançado Trindade, ao formular sua crítica à concepção de “gerações de direitos humanos”, com o que estamos de pleno acordo, destaca a “natureza complementar” de todos os direitos humanos. O internacionalista pontua que, subjacente à perspectiva “fantasiosa” das gerações, está uma visão fragmentária dos direitos humanos, a qual tem operado a postergação da realização de alguns dos direitos humanos, como ocorre com os direitos econômicos, sociais e culturais.136 Contra tal mal, a tese da unidade e indivisibilidade dos direitos humanos (e o mesmo ocorre com os direitos fundamentais) é o melhor antídoto, rompendo com qualquer hierarquização ou priorização da realização de direitos humanos em razão da sua precedência geracional, no sentido de afirmar que todos os direitos humanos (e fundamentais) expressam conteúdos essenciais conformadores da dignidade humana, o que também é o caso dos direitos ecológicos. De modo exemplificativo, é oportuno referir a conexão entre a proteção do direito ao ambiente e do direito à saúde137 – e o mesmo poderia ser dito em relação aos demais direitos sociais –, inclusive, em alguns casos, no sentido do compartilhamento de parcela do conteúdo normativo integrante do âmbito de proteção de tais direitos. O próprio Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais – PIDESC (1966), já sinalizava a sua receptividade e abertura à tutela ecológica – ainda bastante incipiente à época no plano normativo internacional, considerando que a Declaração de Estocolmo das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano datada de 1972 –, de modo que alguns dispositivos do seu texto já destacam a relação da proteção do ambiente com os direitos sociais, na medida em que dispõe sobre o direito de toda pessoa a um nível de vida adequado e de uma melhoria contínua das condições de vida (art. 11.1), bem como, já sob o enfoque do direito à saúde, acerca do direito de toda pessoa a desfrutar do mais elevado nível de saúde física e mental relacionado à melhoria de todos os aspectos de higiene do trabalho e do meio ambiente (art. 12.1 e 12.2.b). Conforme se pode apreender dos dispositivos em questão, a importância da qualidade e equilíbrio ambiental para a proteção da saúde já se fazia presente no PIDESC. A Convenção sobre os Direitos da Criança (1989), por sua vez, no dispositivo que trata do direito à saúde da criança (art. 24), estabelece que os Estados-partes adotarão as medidas necessárias a “combater as doenças e a desnutrição, dentro do contexto dos cuidados básicos de saúde mediante, inter alia, a aplicação de tecnologia disponível e o fornecimento de alimentos nutritivos e de água potável, tendo em vista os perigos e riscos da poluição ambiental” (24.2, ‘c’). Tomando por premissa um conceito amplo para o direito à saúde, Baldassarre acentua que o direito à saúde está dirigido à tutela da integridade física e psíquica da pessoa frente a qualquer ameaça proveniente do ambiente externo, o que diz respeito a agressões à saúde que derivem de condições impróprias do lugar de trabalho, da escola, da cidade e de qualquer outro ambiente de vida.138 A formulação do jurista italiano inclui o ambiente natural – e, de certa forma, também o ambiente artificial – como um todo, considerando que a saúde humana é totalmente dependente da qualidade e equilíbrio das bases naturais que dão suporte à vida. Para reforçar tal premissa, o art. 3.º, I, da Lei da Política Nacional do Meio Ambiente ( Lei 6.938/1981), ao conceituar meio ambiente, determina ser esse “o conjuntode condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas” (incluindo a humana). O mesmo diploma legal, no seu art. 3.º, III, a, ao conceituar poluição, dispõe ser tal a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente “prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da população”. A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, estabelece como parâmetro para determinar uma vida saudável “um completo bem-estar físico, mental e social”, o que coloca indiretamente a qualidade ambiental como elemento fundamental para o “completo bem-estar” caracterizador de uma vida saudável. Seguindo tal orientação, a Lei 8.080/1990, que trata das condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes, ao regulamentar o art. 196 da CF/1988, dispõe sobre o direito à saúde por intermédio da garantia de condições de bem-estar físico, mental e social (art. 3.º, parágrafo único), bem como registra o ambiente como fator determinante e condicionante à saúde (art. 3.º, caput).139 Portanto, em vista da formulação conceitual traçada pela OMS, e javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1981%5C%5C21&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1981-21|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1990%5C%5C41&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1990-41|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=A.196&unit2Scroll=LGL-1988-3|A.196&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) 13/04/2023, 19:13 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 3/4 devidamente recepcionada pelo ordenamento jurídico (constitucional e infraconstitucional) brasileiro, tem-se um parâmetro normativo importante para caracterizar um conceito amplo de saúde, que necessariamente integra a qualidade ambiental no seu âmbito de proteção, considerado este último numa perspectiva alargada. Cançado Trindade, nessa linha, destaca a ampliação do âmbito de proteção do direito à saúde em face da tutela jurídica do ambiente, o que, para ele, se dá em razão da própria indivisibilidade e da inter-relação de todos os direitos humanos.140 Segundo J. Afonso da Silva, há dois objetos por trás da tutela do ambiente: um imediato, que é a qualidade do ambiente; e outro mediato, que é a saúde, o bem-estar e a segurança que vêm se sintetizando na expressão “qualidade de vida”,141 o que permite concluir, conforme assinalado por Cançado Trindade, pela necessidade de uma tutela integrada dos direitos fundamentais (liberais, sociais e ecológicos).142 131 .SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 9. 132 .Sobre a questão, v. a Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento (1986), a qual estabelece que “todos os direitos humanos e liberdades fundamentais são indivisíveis e interdependentes; atenção igual e consideração urgente devem ser dadas à implementação, promoção e proteção dos direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais” (art. 6.2), bem como a Declaração e Programa de Ação de Viena (1993), promulgada na 2.ª Conferência Mundial sobre Direitos Humanos, a qual destaca que “todos os direitos humanos são universais, indivisíveis, interdependentes e inter-relacionados” (art. 5.º). Tais diplomas internacionais reconhecem, em outras palavras, que as diferentes dimensões de direitos humanos – e o mesmo raciocínio se aplica aos direitos fundamentais – conformam um sistema integrado de tutela da dignidade da pessoa humana. A respeito do tema, v. WEIS, Carlos. Direitos humanos contemporâneos. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 2010, pp. 171-174. 133 .Para a verificação dos indicadores sociais da população brasileira, v. o último levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Disponível em: [www.ibge.gov.br/home/mapa_site/mapa_site.php]. 134 .Conforme entendimento sustentado por Piovesan e com o qual concordamos, a ideia de “não justiciabilidade” dos direitos sociais é meramente ideológica, e não propriamente científica. PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e direito constitucional internacional. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 180. 135 .Sobre o tratamento doutrinário do direito ao ambiente como direito social, v. ALEXY, Robert. Theorie der Grundrechte…, pp. 403-404. 136 .CANÇADO TRINDADE, Tratado de direito internacional..., p. 43. 137 .A respeito da relação entre saúde e proteção do ambiente, ganha relevância a abordagem do meio ambiente do trabalho e dos direitos fundamentais socioambientais do trabalhador, inclusive com respaldo normativo constitucional (art. 7.º, XXII, e 200, VIII). Sobre o tema, v. PURVIN DE FIGUEIREDO, Guilherme José. Direito ambiental e a saúde do trabalhador. 2. ed. São Paulo: LTr, 2007; e, mais recentemente, MARANHÃO, Ney. Poluição labor-ambiental. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2017. 138 .BALDASSARRE, Antonio. Los derechos sociales. Bogotá: Universidad Externado de Colômbia, 2001, p. 167. 139 .A Lei 11.934/2009, que dispõe sobre limites à exposição humana a campos elétricos, magnéticos e eletromagnéticos, consignou, de forma expressa, no seu art. 1º, que as suas disposições visam a garantir a proteção da saúde e do meio ambiente, inclusive seguindo os parâmetros estabelecidos no âmbito da OMS para a exposição ocupacional e da população em geral a campos elétricos, magnéticos e eletromagnéticos gerados por estações transmissoras de radiocomunicação, por terminais de usuário e por sistemas de energia elétrica que operam na faixa até 300 GHz. (art. 4.º). javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2009%5C%5C2049&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2009-2049|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:13 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 4/4 140 .CANÇADO TRINDADE, Direitos humanos e meio ambiente..., p. 84. 141 .SILVA, José Afonso da. Comentário contextual à Constituição. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 835. 142 .Em sintonia com tal entendimento, cumpre assinalar trechos do voto da Min. Eliana Calmon do STJ no julgamento do REsp 1.120.117/AC sobre a imprescritibilidade do dever de reparação do dano ambiental, onde resultou consignado que a lesão ao patrimônio ambiental “está protegida pelo manto da imprescritibilidade, por se tratar de direito inerente à vida, fundamental e essencial à afirmação dos povos (...) antecedendo todos os demais direitos, pois sem ele não há vida, nem saúde, nem trabalho, nem lazer (...)” (STJ, REsp 1.120.117/AC, 2.ª T., rel. Min. Eliana Calmon, j. 10.11.2009). 13/04/2023,19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/4 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 19 PESSOAS VULNERÁVEIS EM TERMOS ECOLÓGICOS E O PROBLEMA DOS REFUGIADOS OU DESLOCADOS “AMBIENTAIS” E “CLIMÁTICOS” O Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), intitulado Combatendo a mudança climática: solidariedade humana num mundo dividido, revelou um quadro preocupante e injusto no horizonte humano, com um mundo cada vez mais dividido entre nações ricas altamente poluidoras e países pobres, de modo a evidenciar a necessidade de uma abordagem socioambiental para o enfrentamento da crise ecológica. Segundo o Relatório, não obstante os países pobres contribuírem de forma pouco significativa para o aquecimento global, são eles que mais sofrerão os resultados imediatos das mudanças climáticas.143 O mesmo raciocínio, trazido para o âmbito interno dos Estados nacionais, permite concluir que tal quadro de desigualdade e injustiça – de cunho social e ambiental – também se registra entre pessoas pobres e ricas que integram determinada comunidade estatal. No caso do Brasil, que registra um dos maiores índices de concentração de renda do mundo, de modo a reproduzir um quadro de profunda desigualdade e miséria social, o fato de algumas pessoas disporem de alto padrão de consumo – e, portanto, serem grandes poluidoras –, ao passo que outras tantas muito pouco ou nada consomem, também deve ser considerado para aferir sobre quem deve recair o ônus social e ambiental dos danos ocasionados pelas mudanças climáticas e pela deterioração ambiental em geral. A sujeição de tais indivíduos e grupos sociais aos efeitos negativos da degradação ecológica irá agravar ainda mais a vulnerabilidade das suas condições existenciais, submetendo-as a um quadro de ainda maior indignidade, inclusive de modo a enquadrá-las na situação jurídica de necessitados ecológicos ou mesmo refugiados ambientais. Ou ainda necessitados ou refugiados climáticos, pela ótica da condição de vulnerabilidade de indivíduos e grupos sociais provocada pelos efeitos negativos das mudanças climáticas. Não há dúvida, com efeito, que as pessoas mais vulneráveis aos efeitos negativos da degradação ambiental são aquelas mais pobres, as quais possuem uma condição de vida precária em termos de bem-estar, desprovidas do acesso aos seus direitos sociais básicos (moradia adequada e segura, saúde básica, saneamento básico e água potável, educação, alimentação adequada etc.). A utilização da expressão pessoas vulneráveis ou necessitadas em termos ecológicos (ou socioambientais)144 tem por objetivo guardar sintonia com o nosso texto constitucional (art. 134, caput),145 bem como com o art. 1.º da Lei Complementar Federal 80/1994 (Lei Orgânica Nacional da Defensoria Pública),146 com redação trazida pela Lei Complementar Federal 132/2009, ressalvando-se que a condição de necessitado, inclusive na perspectiva da assistência jurídica integral e gratuita prestada pela Defensoria Pública, não se restringe apenas à perspectiva econômica – consagrada, de modo exemplificativo no hoje revogado (pelo Novo Código de Processo Civil de 2015) art. 2.º, parágrafo único, da Lei 1.060/1950 –, mas abarca também outras hipóteses em que indivíduos ou mesmo grupos sociais encontram-se em situação de vulnerabilidade existencial no tocante aos seus direitos fundamentais e dignidade, conforme dispõe o art. 4.º, VII e X, da Lei Complementar 80/1994.147 Tal compreensão está de acordo com o entendimento de Ada Pellegrini Grinover, ao defender que “existem os que são necessitados no plano econômico, mas também existem os necessitados do ponto de vista organizacional. Ou seja, todos aqueles que são socialmente vulneráveis: os consumidores, os usuários de serviços públicos, os usuários de planos de saúde, os que queiram implementar ou contestar políticas públicas, como as atinentes à saúde, à moradia, ao saneamento básico, ao meio ambiente etc.”.148 A carência econômica, por certo, constitui o aspecto central a determinar o enquadramento jurídico-constitucional de determinada pessoa na condição de necessitada ou vulnerável, o que se dá em razão da fragilidade existencial provocada pela falta de acesso e privação sofrida por determinado indivíduo – e, por vezes, grupos sociais inteiros – aos bens sociais básicos, como, por exemplo, saúde, educação, moradia, saneamento básico, alimentação etc. Tal situação provoca a marginalização social, política e cultural da pessoa, na medida em que a mesma se vê impossibilitada de formatar as suas relações sociais e jurídicas em condições de igualdade com os demais indivíduos e os próprios entes estatais, tornando-se imperativa a atuação do Estado no javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1994%5C%5C26&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1994-26|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2009%5C%5C2012&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2009-2012|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1950%5C%5C1&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1950-1|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1994%5C%5C26&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1994-26|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/4 sentido de incluir (integrar) tais indivíduos e grupos sociais no pacto social (agora também ecológico). A assistência jurídica integral e gratuita a tais pessoas cumpre exatamente tal papel, com o objetivo de, por meio da tutela e promoção dos seus direitos, proporcionar um quadro comunitário de maior igualdade, notadamente em questões que digam respeito aos direitos fundamentais e à dignidade de tais indivíduos e grupos sociais. Segundo as Regras de Brasília sobre Acesso à Justiça das Pessoas em Condições de Vulnerabilidade, aprovadas no âmbito da XIV Conferência Judicial Ibero-Americana, realizada em Brasília, no ano de 2008, consideram-se pessoas em condição de vulnerabilidade aquelas “que, por razão da sua idade, gênero, estado físico ou mental, ou por circunstâncias sociais, econômicas, étnicas e/ou culturais, encontram especiais dificuldades em exercitar com plenitude perante o sistema de justiça os direitos reconhecidos pelo ordenamento jurídico”. Ainda, do mesmo documento, consta que poderão constituir causas de vulnerabilidade, entre outras – e aí fica o registro de que não se trata de rol taxativo, mas apenas exemplificativo –, as seguintes: a idade, a incapacidade, a pertença a comunidades indígenas ou a minorias, a vitimização, a migração e o deslocamento interno, a pobreza, o gênero e a privação de liberdade.149 O conceito de pessoas em condição de vulnerabilidade não difere substancialmente do conceito de pessoas necessitadas, especialmente se tomarmos o seu sentido mais amplo, de acordo com o entendimento por nós sustentado,não se restringindo, portanto, apenas à perspectiva econômica.150 Tanto a necessidade em sentido estrito – com viés puramente econômico – quanto à necessidade em sentido amplo – em termos de vulnerabilidade de determinados grupos sociais – conduzem à legitimidade da atuação da Defensoria Pública na tutela e promoção dos direitos das pessoas que se enquadrarem em tais situações. A ausência de condições ambientais favoráveis – com qualidade, higidez e segurança –, coloca o indivíduo e mesmo determinados grupos sociais na condição de pessoa necessitada ou vulnerável, uma vez que certamente tais pessoas encontrar- se-ão em especial dificuldade de “exercitar com plenitude perante o Sistema de Justiça os direitos reconhecidos pelo ordenamento jurídico”.151 Outro aspecto importante relacionado especialmente às mudanças climáticas diz respeito ao surgimento dos assim chamados refugiados ambientais ou climáticos.152 Os episódios climáticos extremos, muitas vezes, em decorrência da sua intensidade e dos danos pessoais e materiais gerados, alteram o cotidiano de vida de inúmeras pessoas e grupos sociais, ocasionando, muitas vezes, o seu deslocamento para outras regiões, de modo a “fugirem” de tais desastres ecológicos e resguardarem as suas vidas. Conforme apontado pelo Diretor do Instituto para o Meio Ambiente e Segurança Humana da Universidade das Nações Unidas, Janos Bogardi, existiriam, em todo mundo (por volta do ano de 2010), pelo menos cinquenta milhões de refugiados ambientais, sendo que os países mais pobres seriam – como costuma ocorrer – os mais afetados, em especial nas áreas rurais, fenômeno que tem como principal causa a degradação da terra e a desertificação, decorrentes do mau uso da terra somado às mudanças climáticas e amplificado pelo crescimento populacional.153 Assim, nos parece inquestionável que a figura dos refugiados ambientais guarda relação direta com a questão climática e, por consequência, o cenário socioambiental que lhe está subjacente, uma vez que o deslocamento de tais pessoas dos seus locais originários será motivado, na maioria das vezes, pela busca de condições de vida que atendam a um padrão de bem-estar mínimo, tanto em termos sociais quanto ambientais. Ignorar a feição socioambiental que se incorpora hoje aos problemas ecológicos potencializa ainda mais a exclusão e marginalização social (tão alarmantes no nosso contexto social), já que o desfrute de uma vida saudável e ecologicamente equilibrada se constitui de premissa ao exercício dos demais direitos fundamentais, sejam eles liberais ou sejam eles sociais. 143 .Alicerçado em tal premissa socioambiental, o Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) refere que “vivendo em habitações improvisadas situadas em encostas vulneráveis a inundações e deslizamentos de terra, os habitantes das zonas degradadas estão altamente expostos e vulneráveis aos impactos das alterações climáticas” (p. 102). E destaca ainda, já com o olhar voltado à atuação estatal, que “as políticas públicas podem melhorar a resiliência em muitas zonas, desde o controlo de inundações à proteção infraestrutural contra os deslizamentos de terra e à provisão de direitos formais de habitação aos habitantes de áreas urbanas degradadas” (p. 102). PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO. Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008. Disponível em: javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 3/4 [www.undp.org/content/brazil/pt/home/library/relatorios-de-desenvolvimento-humano/relatorio-do-desenvolvimento- humano-20007.html]. 144 .Para maiores desenvolvimentos sobre o conceito de necessitado em termos ecológicos ou socioambientais, v. FENSTERSEIFER, Tiago. A legitimidade da Defensoria Pública para a propositura da ação civil pública ambiental e a caracterização de pessoas necessitadas em termos (socio)ambientais: uma questão de acesso à justiça socioambiental. Revista de Processo, v. 193. São Paulo: RT, mar. 2011, pp. 53 e ss.; e, mais recentemente, FENSTERSEIFER, Tiago. Defensoria pública, direitos fundamentais e ação civil pública. São Paulo: Saraiva, 2015. 145 .“Art. 134. A Defensoria Pública é instituição essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a orientação jurídica e a defesa, em todos os graus, dos necessitados, na forma do art. 5.º, LXXIV)”. 146 .“Art. 1.º A Defensoria Pública é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe, como expressão e instrumento do regime democrático, fundamentalmente, a orientação jurídica, a promoção dos direitos humanos e a defesa, em todos os graus, judicial e extrajudicial, dos direitos individuais e coletivos, de forma integral e gratuita, aos necessitados, assim considerados na forma do inc. LXXIV do art. 5.º da Constituição Federal”. 147 .“Art. 4.º São funções institucionais da Defensoria Pública, dentre outras: (...) VII – promover ação civil pública e todas as espécies de ações capazes de propiciar a adequada tutela dos direitos difusos, coletivos ou individuais homogêneos quando o resultado da demanda puder beneficiar grupo de pessoas hipossuficientes; (...) X – promover a mais ampla defesa dos direitos fundamentais dos necessitados, abrangendo seus direitos individuais, coletivos, sociais, econômicos, culturais e ambientais, sendo admissíveis todas as espécies de ações capazes de propiciar sua adequada e efetiva tutela”. Na doutrina, v. PAIVA, Caio; FENSTERSEIFER, Tiago. Comentários à Lei Nacional da Defensoria Pública. Belo Horizonte: CEI, 2019. 148 .GRINOVER, Ada Pellegrini. Parecer sobre a legitimidade da Defensoria Pública para a propositura de ação civil pública formulado no âmbito da Ação Direta de Inconstitucionalidade n. 3.943 (STF). Disponível em: [www.sbdp.org.br/arquivos/material/542_ADI3943_pareceradapellegrini.pdf]. 149 .Regras de Brasília sobre Acesso à Justiça das Pessoas em Condições de Vulnerabilidade (2008). Disponível em: [www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/repositorio/0/100%20Regras%20de%20Acesso%20%c3%a0%20Justi%c3%a7a.pdf]. 150 .Em sintonia com a proposta aqui delineada de uma compreensão “ampliada” do conceito de necessitado ou vulnerável, para além do aspecto estritamente econômico, inclusive no sentido de reconhecer a legitimidade da Defensoria Pública para a propositura de ações coletivas, ver julgados do STJ: REsp 931.513/RS, 1ª Seção, rel. Min. Herman Benjamin, j. 25.11.2009; REsp 1.064.009/SC, 2.ª T., rel. Min. Herman Benjamin, j. 04.08.2009; e EREsp 1.192.577/RS, Corte Especial, Rel. Min. Laurita Vaz, j. 21.10.2015. Mais recentemente, o STF acolheu o mesmo entendimento: STF, ADI 3.943/DF, Tribunal Pleno, Rel. Min. Cármen Lúcia, j. 07.05.2015. 151 .No tocante ao reconhecimento da legitimidade da Defensoria Pública para a propositura de ação civil pública em matéria ambiental, em questão envolvendo a exigência prévia de estudo de impacto ambiental (e, inclusive, de audiência pública) para o plantio comercial de eucalipto, v. decisões do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: TJSP, AI759.170-5/3-00, Seção de Direito Público, Câmara Especial de Meio Ambiente, rel. Des. Samuel Júnior, j. 28.08.2008; e TJSP, AI 0086748-55, Seção de Direito Público, Câmara Especial de Meio Ambiente, rel. Des. Renato Nalini, j. 02.06.2011. 152 .No ano de 2008, foi publicado o Esboço para uma Convenção sobre o Status Internacional dos Refugiados Ambientais (Draft Convention on the International Status of Environmentally-Displaced Persons), o que resultou do trabalho desenvolvido pelo CRIDEAU (Interdisciplinary Canter of Research on Environmental, Planning and Urban Law), pelo CRDP (Center of Research on Persons Rights), por grupos temáticos do OMIJ (Institutional and JudicialMutations Observatory) e pela Faculdade de Direito e Ciência Econômica da Universidade de Limoges, com o apoio do CIDCE (International Center of Comparative Environmental Law). O Esboço da Convenção foi publicado na Revue Européenne de Droit de l’Environnement (Francophone European Environmental Law Review), n. 4-2008, p. 381. Disponível em: [www.cidce.org ]. Na doutrina brasileira, v. LEÃO, Márcia Brandão Carneiro. Direitos humanos e meio ambiente: mudanças climáticas, refugiados” ambientais e direito internacional. Disponível em: [www.nima.puc- rio.br/aprodab/artigos/clima_e_refugiados_ambientais_marcia_brandao_carneiro_leao.pdf]. 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 4/4 153 .BOGARDI, Janos. A era dos refugiados ambientais. In: O Globo. Noticiário de 31 de dezembro de 2006. Publicação: 12/10/2005. Disponível em: [pib.socioambiental.org/pt/noticias?id=30823]. 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/1 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 20 DIREITOS AMBIENTAIS PROCEDIMENTAIS, DEMOCRACIA PARTICIPATIVA E CIDADANIA ECOLÓGICA Os direitos procedimentais, como faceta da própria proteção constitucional do ambiente e da sua natureza de direito-dever fundamental (e dimensão procedimental), apresentam cada vez maior importância no âmbito do Direito Ambiental e, em particular, do Direito Constitucional Ecológico. O escopo maior dos direitos ambientais procedimentais, também denominados pela doutrina como direitos ambientais de acesso ou direitos ambientais de participação154 reside justamente na efetivação da legislação ambiental por meio de uma participação mais ativa da sociedade, exercendo maior controle sobre as práticas poluidoras (ou potencialmente poluidoras) do ambiente perpetradas tanto por agentes públicos quanto privados. A consolidação dos direitos ambientais procedimentais é derivada de avanços verificados originariamente no plano internacional, ou seja, no âmbito do Direito Internacional do Meio Ambiente. A gênese normativa de tais direitos pode ser atribuída ao Princípio 10 da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1992). Posteriormente, a Convenção de Aarhus sobre Acesso à Informação, Participação Pública na Tomada de Decisão e Acesso à Justiça em Matéria Ambiental (1998), muito embora o seu espectro limitado inicialmente ao âmbito europeu (mas posteriormente ampliada para o plano global), tratou de forma paradigmática sobre o tema, consagrando a chamada “tríade” dos direitos ambientais procedimentais: acesso à informação, participação pública na tomada de decisão e acesso à justiça. Mais recentemente, os direitos ambientais procedimentais foram consagrados, com força vinculante, no Acordo Regional de Escazú para América Latina e Caribe sobre Acesso à Informação, Participação Pública e Acesso à Justiça em Matéria Ambiental (2018), o qual foi elaborado no âmbito da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) da ONU. No cenário jurídico brasileiro, a fonte normativa primária de tais direitos ambientais procedimentais pode ser extraída da própria CF/1988, mais precisamente do conteúdo expresso do seu art. 225. Ao consagrar os deveres de proteção estatais e o direito fundamental ao ambiente, o caput do dispositivo em questão enuncia, para além do direito em si, o dever fundamental (ou deveres fundamentais) da sociedade, ou seja, dos particulares “de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. Não por outra razão, a doutrina identifica a natureza de direito-dever fundamental inerente ao regime constitucional de proteção ambiental. Há, em outras palavras, verdadeiro dever jurídico (e não apenas moral) de proteção ambiental atribuído aos cidadãos (e, portanto, não apenas ao Estado), o qual deve ser exercido por meio de uma maior participação e controle pela sociedade sobre as práticas que atentam contra o equilíbrio ecológico, conforme desenvolvemos com maior profundidade no Capítulo 6. 154 .A doutrina também utiliza a expressão “direitos humanos procedimentais” (procedural human rights), destacando a tríade de direitos relacionados a tal conceito: acesso à informação, participação pública e acesso à justiça (ANTON, Donald K.; SHELTON, Dinah L. Environmental protection and human rights. Cambridge: Cambridge University Press, 2011, pp. 356 e ss.). Na doutrina brasileira, acerca dos direitos ambientais procedimentais, v. MIRRA, Álvaro Luiz Valery. Participação, processo civil e defesa do meio ambiente. São Paulo: Letras Jurídicas, 2011. javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/3 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 21 A INCORPORAÇÃO, COM STATUS CONSTITUCIONAL (OU, AO MENOS, SUPRALEGAL), DOS TRATADOS INTERNACIONAIS EM MATÉRIA AMBIENTAL A recepção, no âmbito doméstico, da legislação internacional em matéria ambiental é tema deveras relevante pelo prisma das fontes do Direito Constitucional Ambiental ou Ecológico. A incorporação ao direito interno de normas internacionais, com destaque aqui para os tratados internacionais como ato típico de direito internacional público que estabelece direitos e obrigações recíprocas entre os Estados-Parte, não é um privilégio reservado aos tratados em matéria de direitos humanos, já que todo e qualquer tratado internacional, uma vez celebrado pelo Poder Executivo e referendado pelo Congresso Nacional (que vem utilizando o instrumento formal do Decreto Legislativo para tanto), passa a viger como norma jurídica vinculante e com força de lei ordinária na esfera jurídica interna brasileira, quando não for o caso de um tratado de direitos humanos, pois a esses foi assegurada uma hierarquia mais qualificada155. Com efeito, por força do disposto no art. 5.º, § 2.º e § 3.º, da CF/1988,156 os tratados internacionais em matéria de direitos humanos - o que se evidencia também no caso da proteção ambiental, a teor do que sinaliza o art. 11 do Protocolo de San Salvador Adicional à Convenção Americana de Direito Humanos em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1988157 e, mais recentemente, a Opinião Consultiva n. 23/2017 da Corte IDH, passaram a fruir de um estatuto jurídico-constitucional privilegiado, agregando-se ao conjunto dos direitos e garantias fundamentais estabelecidos pelo Constituinte de 1988, no âmbito do que se convencionou designar de cláusula de abertura em matéria de direitos fundamentais. No nosso sentir, cuidando-se de tratados de direitos humanos (pelo menos no que diz com parte de seus preceitos), os tratados internacionais em matéria ambiental deveriam ter reconhecido o seu status constitucional. Desde logo, importa frisar que existe divergência a respeito do procedimento de incorporação dos tratados internacionais sobre direitos humanos. Especialmente desde a inserção, mediante a EC 45/2004 (Reforma do Judiciário), do citado § 3.º do art. 5.º da CF/1988, a matéria voltou a ser objeto de atenção pela doutrina e jurisprudência, pois tal dispositivo prevê que os tratados aprovados pelo Congresso Nacional mediante o procedimento ali regulado (maioria de três quintos,nas duas casas do Congresso e em dois turnos de votação), passam a ter valor equivalente ao das emendas constitucionais, ainda que não venham a alterar o texto da Constituição. Isso, contudo, não significa que os tratados aprovados antes da vigência do § 3.º do art. 5.º da CF/1988 não possam ter reconhecida sua hierarquia constitucional já por força do próprio § 2.º do mesmo artigo, como, aliás, vinha sustentando importante doutrina,158 mas é certo que, mediante o novo procedimento, os tratados assim aprovados terão sempre hierarquia normativa constitucional. Todavia, independentemente do posicionamento aqui adotado no sentido da hierarquia constitucional de todos os tratados de direitos humanos, já por força do disposto no art. 5.º § 2.º, da CF/1988,159 o STF, desde o julgamento do RE 466.343/SP, ocorrido em 2008, muito embora alguns Ministros tenham adotado posição em prol da hierarquia constitucional de todos os tratados de direitos humanos, acabou chancelando a tese da supralegalidade dos tratados internacionais de direitos humanos, ressalvados os tratados aprovados pelo rito previsto no § 3.º do art. 5.º da CF/1988.160 Assim, a nossa Corte Constitucional entende que os tratados internacionais em matéria de direitos humanos aprovados anteriormente ou – pelo menos é o que sinaliza a orientação adotada – os que vierem a ser aprovados por maioria simples em um turno de votação, ocupam posição normativo-hierárquica superior à legislação infraconstitucional de um modo geral, cedendo apenas em face da Constituição. Dito de outra forma, tais tratados situam-se apenas abaixo da Constituição, de tal sorte que segue cabendo o controle de sua constitucionalidade. Tal entendimento, convém lembrar, resultou cristalizado na hipótese da prisão civil do depositário infiel, que foi considerada incompatível com a Convenção Interamericana de Direitos Humanos (ou Pacto de San José da Costa Rica), que estabelece apenas a possibilidade de prisão civil do devedor de alimentos,161 de tal sorte que a tendência vai no sentido de ampliação dos casos levados ao STF no sentido de ver reconhecida a prevalência dos tratados sobre a legislação interna, no âmbito do javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2004%5C%5C2637&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2004-2637|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/3 que se convencionou chamar de controle de convencionalidade, que será objeto de atenção logo a seguir. Com base nesse raciocínio, nos parece correto afirmar que também os tratados internacionais em matéria ambiental, especialmente no tocante ao seu conteúdo nuclear (tanto de natureza material quanto procedimental), vinculado diretamente à proteção do direito humano ao ambiente, passariam a ter ao menos (salvo se aprovados pelo rito do art. 5.º, § 3.º, da CF/1988) natureza hierárquico-normativa supralegal, prevalecendo, portanto, em face da legislação infraconstitucional. Nesse sentido, como o primeiro julgamento da nossa Corte Constitucional que se tem notícia no sentido de reconhecer a supralegalidade de tratado internacional em matéria ambiental – portanto, com o mesmo tratamento assegurado aos tratados internacionais de direitos humanos –, registra- se fundamentação do voto-relator da Min. Rosa Weber no julgamento da ADI 4.066/DF (Caso do Amianto). No seu voto, a Ministra Rosa Weber atribui status supralegal à Convenção de Basileia sobre o Controle de Movimentos Transfronteiriços de Resíduos Perigosos e seu Depósito, de 1989, aprovada no Brasil pelo Decreto Legislativo n. 34/1992 e promulgada pelo Decreto n. 875/1993. Segundo a Ministra assinalou no seu voto, “porque veiculadoras de regimes protetivos de direitos fundamentais, as Convenções n. 139 e 162 da OIT, bem como a Convenção da Basileia, assumem, no nosso ordenamento jurídico, status de supralegalidade (…)”.162 Isso, por certo, só valeria para aquele conteúdo de caráter mais protetivo em termos materiais e procedimentais disposto nos diplomas internacionais em matéria ambiental, e, especialmente, em relação ao conteúdo nuclear do regime jurídico de proteção e que trata de forma direta do núcleo normativo da proteção do direito humano ao ambiente.163 Do contrário, se a legislação internacional fosse mais permissiva, prevaleceria a legislação infraconstitucional, considerando a incidência do princípio pro homine164, ou seja, dito de modo mais preciso, fazendo prevalecer a norma mais favorável à proteção da pessoa (no tocante aos seus direitos humanos e fundamentais e dignidade). Na sua vertente ecológica, poderíamos inclusive, com base numa hermenêutica ecológica, também considerar a existência de um princípio pro natura, fazendo prevalecer a normativa mais protetiva à integridade ecológica. 155 .Sobre o conceito de tratados internacionais e sua ratificação e incorporação ao direito interno, v., por todos, MAZZUOLI, Curso de direito internacional público..., pp. 373 e ss. 156 .De acordo com os dispositivos citados (art. 5.º): “§ 2.º - Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. § 3.º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais” (incluído pela EC 45/2004). A respeito da discussão, inclusive em sede constituinte sobre a inserção do dispositivo em análise, v. TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. A proteção internacional dos direitos humanos e o Brasil (1948-1997): as primeiras cinco décadas. 2. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2000, especialmente pp. 169 e ss. 157 .“Artigo 11 (Direito a um meio ambiente sadio) 1. Toda pessoa tem direito a viver em meio ambiente sadio e a contar com os serviços públicos básicos. 2. Os Estados Partes promoverão a proteção, preservação e melhoramento do meio ambiente”. O Protocolo de San Salvador entrou em vigor no plano internacionalem novembro de 1999, quando foi depositado o 11.º instrumento de ratificação (art. 21). O Brasil, por sua vez, ratificou o Protocolo de San Salvador no ano de 1999, tendo o mesmo sido promulgado internamente por meio do Decreto n. 3.321/99. 158 .PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2007, pp. 71 e ss. 159 .SARLET. A eficácia dos diretos fundamentais..., pp. 120 e ss. 160 https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2004%5C%5C2637&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2004-2637|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1999%5C%5C93&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1999-93|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 3/3 .Até a presente data, os únicos tratados internacionais de direitos humanos incorporados pela via do § 3.º do art. 5.º seriam a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e o seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova Iorque, em 2007. A aprovação dos referidos documentos internacionais deu-se por intermédio do Decreto Legislativo n. 186/2008, bem como a sua promulgação deu-se por meio do Decreto n. 6.949/2009. 161 .Mais recentemente, destacam-se outros julgamentos do STF confirmando o mesmo entendimento: “Habeas corpus. (...) Depositário infiel. Prisão civil. Inadmissibilidade. Orientação plenária deste Supremo Tribunal Federal. Ordem concedida de ofício. 1. O Plenário do Supremo Tribunal Federal firmou a orientação de que só é possível a prisão civil do ‘responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia’ (inc. LXVII do art. 5.º da CF/1988). Precedentes: HCs 87.585 e 92.566, da relatoria do Min. Marco Aurélio. (...) 3. O Pacto de San José da Costa Rica (ratificado pelo Brasil - Decr. 678, de 6 de novembro de 1992), para valer como norma jurídica interna do Brasil, há de ter como fundamento de validade o § 2.º do art. 5.º da Magna Carta. A se contrapor, então, a qualquer norma ordinária originariamente brasileira que preveja a prisão civil por dívida. Noutros termos: o Pacto de San José da Costa Rica, passando a ter como fundamento de validade o § 2.º do art. 5.º da CF/1988, prevalece como norma supralegal em nossa ordem jurídica interna e, assim, proíbe a prisão civil por dívida. Não é norma constitucional - à falta do rito exigido pelo § 3.º do art. 5.º -, mas a sua hierarquia intermediária de norma supralegal autoriza afastar regra ordinária brasileira que possibilite a prisão civil por dívida. 4. Na concreta situação dos autos, a prisão civil do paciente foi decretada com base nos arts. 652 do CC e 904, parágrafo único, do Diploma Civil Adjetivo (...)” (grifos nossos) (STF, HC 94.523/SP, 1ª T., rel. Min. Carlos Ayres Britto, j. 10.02.2009). 162 .STF, ADI 4.066/DF, Tribunal Pleno, Rel. Min. Rosa Weber, j. 24.08.2017. 163 .Na doutrina brasileira, sustentando o mesmo entendimento, v. CAPPELLI, Sílvia; MARCHESAN, Ana Maria Moreira; STEIGLEDER, Annelise Monteiro. Direito ambiental. 7. ed. Porto Alegre: Editora Verbo Jurídico, 2013, p. 40. 164 .V. MAZZUOLI, Curso de direito internacional público..., p. 914. https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2008%5C%5C2605&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2008-2605|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2009%5C%5C2353&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2009-2353|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2002%5C%5C400&fromProview=true&fcwh=true&unit=A.652&unit2Scroll=LGL-2002-400|A.652&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/2 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 22 O CONTROLE DE CONVENCIONALIDADE DA LEGISLAÇÃO INFRACONSTITUCIONAL NACIONAL EM MATÉRIA AMBIENTAL O entendimento adotado pelo STF, por ocasião da decisão que referimos no tópico anterior, no sentido de reconhecer o caráter supralegal dos tratados internacionais sobre direitos humanos, implica a possibilidade do controle de convencionalidade da legislação infraconstitucional165. Conforme assinala Valério de Oliveira Mazzuoli, o controle de convencionalidade das leis “nada mais é que o processo de compatibilização vertical (sobretudo material) das normas domésticas com os comandos encontrados nas convenções internacionais de direitos humanos. À medida que os tratados de direitos humanos ou são materialmente constitucionais (art. 5.º, § 2.º) ou material e formalmente constitucionais (art. 5.º, § 3.º), é lícito entender que o clássico ‘controle de constitucionalidade’ deve agora dividir espaço com esse novo tipo de controle (de convencionalidade) da produção e aplicação da normatividade interna”.166 Na medida em que os tratados internacionais em matéria ambiental, por deterem a mesma natureza dos tratados internacionais de direitos humanos – e, portanto, statussupralegal –, o seu conteúdo prevalece em face da legislação infraconstitucional. Mas, cumpre reiterar, a prevalência ocorre apenas no tocante ao conteúdo que estabelecer um padrão normativo mais protetivo e rígido. Do contrário, prevalece a legislação infraconstitucional nacional, haja vista os princípios que norteiam o Direito Internacional dos Direitos Humanos, bem como o regime jurídico-constitucional das competências legislativas traçado pela CF/1988, inclusive pelo prisma de um federalismo cooperativo ecológico e de um critério hermenêutico de prevalência da norma mais protetiva, aplicando-se aqui o conhecido postulado do in dubio pro natura.167 Um exemplo atual que ilustra bem a questão diz respeito ao princípio da proibição de retrocesso ecológico. Isso porque, independentemente de a doutrina – brasileira e comparada - já o reconhecer como um princípio geral do Direito Ambiental168, não há previsão expressa do mesmo na legislação brasileira (constitucional ou infraconstitucional). Tal princípio, todavia,foi objeto de expresso reconhecimento pelo Protocolo de San Salvador Adicional à Convenção Americana sobre Direito Humanos em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1988), mais precisamente no seu art. 1.º, somando-se o fato de o art. 11 (11.1 e 11.2) do referido diploma internacional, conforme sinalizamos no tópico anterior, prever expressamente o direito ao ambiente como direito humano. E, mais recentemente, o princípio da proibição de retrocesso ecológico (e o correlato dever de progressividade em matéria ambiental) foi consagrado de forma expressa no art. 3º, “c”, do Acordo de Escazú para América Latina e Caribe sobre Acesso à Informação, Participação Pública e Acesso à Justiça em Matéria Ambiental (2018). De tal sorte, o statussupralegal do Protocolo de San Salvador e do Acordo de Escazú, uma vez verificada a sua incorporação no direito interno (em virtude da ratificação do tratado169), na linha do entendimento do STF, torna possível o controle de convencionalidade da legislação infraconstitucional em face da proibição de retrocesso ecológico, aplicando-se a toda e qualquer nova medida legislativa infraconstitucional que tenha por escopo a flexibilização, de forma desproporcional e arbitrária, da legislação ambiental brasileira atualmente vigente. Assim, importa enfatizar, um dos aspectos mais importantes do controle de convencionalidade diz respeito ao “dever ex officio” de Juízes e Tribunais internos atentarem para o conteúdo dos diplomas internacionais sobre direitos humanos e, consequentemente, também dos que versam sobre matéria ambiental. Em homenagem ao necessário diálogo das fontes normativas, cabe aos aplicadores do Direito interpretarem a legislação nacional infraconstitucional não apenas pelo prisma do regime constitucional de proteção dos direitos fundamentais, mas também em vista do regime internacional de proteção dos direitos humanos, entre os quais se destaca o direito a viver em um ambiente sadio, equilibrado e seguro.170 165 javascript:void(0) javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/2 .Sobre o tema, v. por todos MARINONI, Luiz Guilherme; MAZZUOLI, Valério de Oliveira (Coord.). Controle de Convencionalidade: um panorama Latino-Americano. Brasília: Gazeta Jurídica, 2013, com destaque para as contribuições dos organizadores, dos Ministros Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes, de Flavia Piovesan e do primeiro autor da presente obra (Sarlet). 166 .MAZZUOLI, Curso de direito internacional público..., pp. 421-422. Para Mazzuoli, os tratados internacionais de direitos humanos, independentemente da adoção do rito previsto no art. 5.º, § 3.º, da CF/1988, por serem os mesmos materialmente constitucionais (art. 5.º, § 2.º), ensejariam o controle difuso de convencionalidade, ao passo que os tratados internacionais de direitos humanos submetidos ao procedimento do § 3.º do art. 5.º, por serem material e formalmente constitucionais, possibilitariam o controle concentrado de constitucionalidade, por exemplo, por meio de ADI perante o STF (pp. 427-433). 167 .STJ, REsp 1.198.727/MG, 2.ª T., rel. Min. Herman Benjamin, j. 14.08.2012. 168 .PRIEUR, Michel. Princípio da proibição de retrocesso ambiental. In: COMISSÃO DE MEIO AMBIENTE, DEFESA DO CONSUMIDOR E FISCALIZAÇÃO E CONTROLE DO SENADO FEDERAL (Org.). O princípio da proibição de retrocesso ambiental. Brasília: Senado Federal, 2012, pp. 45 e ss. 169 .No caso do Acordo de Escazú, o Brasil ainda não havia ratificado internamente o referido Diploma até o fechamento da presente edição. O Acordo de Escazú foi aberto para assinatura dos Estados-Membros em 27.09.2018, já tendo sido colhidas 24 assinaturas (inclusive do Brasil) e 12 ratificações, sendo as duas últimas da Argentina e do México, formalizadas no mês de janeiro de 2021, o que possibilitou a sua entrada em vigor a partir do dia 22.04.2021. Disponível em: https://www.cepal.org/pt-br/acordodeescazu. 170 .O tema do controle de convencionalidade (e o dever dos Juízes e Tribunais internos de exercê-lo) resultou consignado, de forma pioneira e paradigmática, em decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, por ocasião do julgamento do Caso Almonacid Arellano e outros Vs. Chile, em 26 de setembro de 2006. De acordo com o § 124 da referida sentença, decidida de forma unânime, “la Corte es consciente que los jueces y tribunales internos están sujetos al imperio de la ley y, por ello, están obligados a aplicar las disposiciones vigentes en el ordenamiento jurídico. Pero cuando un Estado ha ratificado un tratado internacional como la Convención Americana, sus jueces, como parte del aparato del Estado, también están sometidos a ella, lo que les obliga a velar porque los efectos de las disposiciones de la Convención no se vean mermadas por la aplicación de leyes contrarias a su objeto y fin, y que desde un inicio carecen de efectos jurídicos. Em otras palabras, el Poder Judicial debe ejercer una especie de ‘control de convencionalidad’ entre las normas jurídicas internas que aplican en los casos concretos y la Convención Americana sobre Derechos Humanos. En esta tarea, el Poder Judicial debe tener en cuenta no solamente el tratado, sino también la interpretación que del mismo ha hecho la Corte Interamericana, intérprete última de la Convención Americana” (grifos nossos). Disponível em: [www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_154_esp.pdf]. https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/1 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 23 O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA PROIBIÇÃO DE RETROCESSO ECOLÓGICO (E O CORRELATO DEVER DE PROGRESSIVIDADE) Outra questão relevante, especialmente diante do atual cenário político-jurídico de “flexibilizações” da legislação ambiental diz respeito ao princípio constitucional da proibição de retrocesso (ou regressividade) ecológico, que, assim como verificado no caso da proibição de retrocesso social, apresenta-se como uma garantia constitucional implícita, com base, entre outros, nos princípios da segurança jurídica e da confiança, objetivando “blindar” as conquistas legislativas – e também as administrativas – no âmbito dos direitos fundamentais ecológicos contra retrocessos que venham a comprometer o seu gozo e exercício. Tal garantia evidencia o processo evolutivo e cumulativo que subjaz ao reconhecimento dos direitos fundamentais ao longo da trajetória histórico-constitucional, de modo a implicar uma cada vez mais ampla e intensa tutela da dignidade da pessoa humana, incluindo uma blindagem (sempre relativa) contra qualquer retrocesso que possa comprometer os direitos fundamentais, aqui com destaque para os direitos ecológicos, de modo especial no que diz com a salvaguarda de seu núcleo essencial, inclusive naquilo em que tenham sido objeto de concretização na esfera infraconstitucional. Recentemente, como já referido em passagem anterior, merece destaque O Acordo de Escazú (2018), o qual inovou e consagrou, expressamente noseu artigo 3, “c”, tanto o “princípio de vedação do retrocesso” quanto o “princípio de progressividade” em matéria ambiental. De tal sorte, não há como negligenciar (e aqui se poderia falar de uma espécie de dupla face normativa da garantia constitucional em questão) que em matéria de realização (eficácia social) dos direitos ecológicos se registra um dever de progressividade, ou seja, a adoção de medidas legislativas – e administrativas – que busquem sempre uma melhoria ou aprimoramento do seu regime jurídico constitucional e infraconstitucional de proteção, aspectos que serão analisados de modo mais detido no Capítulo 5. 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/2 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 24 O DIREITO FUNDAMENTAL AO MEIO AMBIENTE COMO CLÁUSULA PÉTREA DA CF/1988 Inicialmente, cabe destacar que não há qualquer distinção quanto ao regime jurídico ou força jurídica a ser aplicada aos direitos fundamentais presentes no catálogo e àqueles incluídos no rol por meio da abertura do art. 5.º, § 2.º, da CF/1988, tendo, portanto, o direito fundamental ao ambiente aplicação imediata, na linha do que dispõe o § 1.º do art. 5.º, bem como constituindo-se de norma de eficácia direta e irradiante frente a todo o ordenamento jurídico e passando a integrar o rol das cláusulas pétreas (art. 60, § 4.º, IV, da CF/1988). Por uma perspectiva material, houve uma decisão tomada pelo constituinte brasileiro ao consolidar o direito subjetivo dos indivíduos e da coletividade a viverem em um ambiente ecologicamente equilibrado, considerando ser o mesmo “essencial à sadia qualidade de vida” (art. 225, caput, da CF/1988). Ao declarar ser a qualidade ambiental essencial a uma vida humana saudável (e também digna), o constituinte consignou no pacto constitucional sua escolha de incluir a proteção ambiental entre os valores permanentes e fundamentais da República brasileira. E, portanto, eventual retrocesso em tal matéria constitucional, como a supressão total ou parcial do conteúdo na norma inscrita no art. 225, representaria flagrante violação aos valores edificantes do nosso sistema constitucional. Conforme a lição de José Afonso da Silva, em razão da aderência do direito ao ambiente, ao direito, à vida, há a contaminação da proteção ambiental com uma qualidade que impede sua eliminação por via de emenda constitucional171, estando, por via de consequência, inserido materialmente no rol das matérias componentes dos limites materiais ao poder de reforma constantes do art. 60, § 4.º, da CF/1988, de modo a conferir ao direito fundamental ao ambiente o status de cláusula pétrea. Outra não poderia ser a interpretação constitucional dada ao direito ao ambiente, em vista da consagração da sua jusfundamentalidade. A consolidação constitucional da proteção ambiental como cláusula pétrea corresponde à decisão essencial da Lei Fundamental brasileira, em razão da sua importância do desfrute de uma vida digna, de acordo, inclusive, com o reconhecimento de uma nova dimensão ecológica da dignidade da pessoa humana, conforme já tratamos anteriormente e que será desenvolvido com maiores detalhes no Capítulo 1. Com o reconhecimento da proteção ambiental como cláusula pétrea, a Constituição brasileira, como identificou Herman Benjamin, conferiu um “valioso atributo de durabilidade” à proteção ambiental no âmbito ordenamento jurídico-constitucional brasileiro, o qual “funciona como barreira à desregulamentação e a alterações ao sabor de crises e emergências momentâneas, artificiais ou não”.172 O reforço constitucional que se pretende conferir ao direito fundamental ao ambiente por meio do seu reconhecimento como cláusula pétrea também está em consonância com a garantia constitucional de proibição de retrocesso (social e ecológico), já que tal instituto jurídico- constitucional objetiva blindar o bloco normativo constitucional-ambiental contra eventuais retrocessos, especialmente no tocante proteção conferida aos direitos fundamentais e à dignidade da pessoa humana. De acordo com tal entendimento, José Rubens Morato Leite pontua que “o direito fundamental ao ambiente não admite retrocesso ecológico, pois está inserido como norma e garantia fundamental de todos, tendo aplicabilidade imediata, consoante art. 5.º, §§ 1.º e 2.º, da CF/1988. Além do que o art. 60, § 4.º, IV, também da Carta Magna, proíbe proposta de abolir o direito fundamental ambiental, nesse sentido considerado cláusula pétrea devido à sua relevância para o sistema constitucional brasileiro”.173 171 .SILVA, José Afonso da. Fundamentos constitucionais da proteção do meio ambiente. Revista de Direito Ambiental, n. 27, jul.-set., 2002, p. 55. 172 https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=A.225&unit2Scroll=LGL-1988-3|A.225&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/2 .BENJAMIN, Antonio Herman. Constitucionalização do ambiente e ecologização da Constituição brasileira. In: CANOTILHO, José Joaquim Gomes; MORATO LEITE, José Rubens (Org.). Direito constitucional ambiental brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 79. 173 .MORATO LEITE, José Rubens. Sociedade de Risco e Estado. In: CANOTILHO, José Joaquim Gomes; e MORATO LEITE, José Rubens (Org.). Direito constitucional ambiental brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 198. 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/4 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 25 DA “CONSTITUCIONALIZAÇÃO” À “ECOLOGIZAÇÃO” DO DIREITO PRIVADO A “constitucionalização” do Direito Civil, marcada, no âmbito do Direito brasileiro, pela promulgação da CF/1988, estabeleceu um novo panorama normativo para a relação entre o Direito Privado e o DireitoPúblico, consagrando a tutela e promoção dos direitos fundamentais e da dignidade da pessoa humana como objetivos comuns e integradores de ambos os sistemas. O reconhecimento da eficácia dos direitos fundamentais no âmbito das relações privadas174 ilustra bem esse contexto. A superação do paradigma liberal-individualista do Direito Civil clássico “oitocentista” estabelecida no antigo Código Civil de 1916 ( Lei 3.071/1916) pode ser facilmente identificada por intermédio da consagração de “novos” direitos de matriz coletiva, verificados antes mesmo da CF/1988 (por intermédio, por exemplo, da Lei 6.938/81 e da Lei 7.437/85), como é o caso do Direito do Consumidor, do Direito Urbanístico e do Direito Ambiental. Esse novo cenário normativo consagra a edificação de um “novo” Direito Civil, reconstruído à luz da nova ordem constitucional e do modelo de Estado de Direito da CF/1988, o que também conduz à sua vinculação aos valores e direitos ecológicos. A “Virada de Copérnico” do Direito Civil, conforme expressão consagrada pelo Ministro Luiz Edson Fachin em artigo clássico sobre o tema,175 pode ser verificada num dos seus pilares, ou seja, no direito de propriedade. Sem desenvolver o tema em maiores detalhes, até porque que não se trata do nosso propósito aqui, identifica-se hoje forte tendência de “funcionalização” do direito de propriedade – como um direito-dever –, vinculando o seu exercício a interesses que extrapolam a esfera do seu titular, como é o caso da proteção ecológica. Não que a ideia de função social – e mais recentemente, também a função ambiental ou ecológica – inerente ao direito de propriedade seja algo novo – basta rememorar a previsão expressa na Constituição de Weimar de 1919 no sentido de que a “a propriedade obriga” –, já que a sua consagração na legislação brasileira é anterior à CF/1988. O Estatuto da Terra ( Lei 4.504/64) e o (hoje revogado) Código Florestal de 1965 ( Lei 4.771/65) já havia consagrado em grande medida a função social da propriedade, trazendo limitações de ordem pública ao exercício do direito de propriedade, inclusive com os primeiros contornos ecológicos inerentes a tal função. O Código Civil de 2002, fortalecendo esse cenário, consagrou expressamente a função ecológica da propriedade, por meio do seu paradigmático art. 1.228, § 1º, ao dispor que “o direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais e de modo que sejam preservados, de conformidade com o estabelecido em lei especial, a flora, a fauna, as belezas naturais, o equilíbrio ecológico e o patrimônio histórico e artístico, bem como evitada a poluição do ar e das águas”. Igualmente, o Código Florestal de 2012 ( Lei 12.651/2012) seguiu no mesmo caminho, mantendo os institutos jurídicos (já existentes na sua versão anterior de 1965) que expressam a função ecológica da propriedade, como é o caso da área de preservação permanente e da reserva legal. A ideia de “funcionalização” dos institutos do Direito Civil também encontra fundamento na função social do contrato, consagrada expressamente no Código Civil de 2002.176 Também o princípio da boa-fé objetiva pode ser concebido com uma dimensão ecológica, por exemplo, estabelecendo deveres ecológicos conexos no âmbito de determinada relação jurídica privada. O cenário jurídico-constitucional hoje é muito diferente daquele que concebeu o Direito Civil clássico, consagrado pelo Código Civil de 1916 e replicado em grande medida também no Código Civil de 2002, especialmente por conta da centralidade ocupada posteriormente a 1988 pela Constituição na ordem jurídica nacional (quando antes o Código Civil ocupava tal lugar privilegiado), e também pela vinculação e da eficácia da dignidade da pessoa humanae dos direitos fundamentais (liberais, sociais e ecológicos) nas relações entre particulares (a denominada eficácia horizontal). Igualmente, o Direito Privado, inspirado não apenas nos seus cânones da autonomia privada e da liberdade, tem se desenvolvido na afirmação dos princípios da igualdade e da https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1916%5C%5C1&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1916-1|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1981%5C%5C21&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1981-21|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1985%5C%5C356&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1985-356|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1964%5C%5C10&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1964-10|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1965%5C%5C16&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1965-16|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2012%5C%5C1856&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2012-1856|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2002%5C%5C400&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2002-400|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/4 solidariedade, notadamente em vista da proteção de indivíduos e grupos sociais (hiper)vulneráveis. Entre os novos sujeitos vulneráveis, a serem protegidos no âmbito das relações jurídicas privadas, a doutrina tem avançado no sentido de incluir também às futuras gerações humanas, os animais (não humanos) e a Natureza em si. Está em curso um processo de “ecologização” do Direito Privado, como tem defendido, entre outros, Gonzalo Sozzo. Como assinala o autor argentino, “el Derecho Privado deberiainternalizar las perspectivas que las ciências experimentales están produciendo sobre la transformación del estado del planeta y las necesidades que esto genera. Hay que construir un Derecho Privado para el Antropoceno”.177 A “ecologização” do Direito Civil é um corolário lógico da própria “constitucionalização” da ordem jurídica privada, na medida em que a CF/1988 – nomeada pelo Ministro Luiz Fux de “Constituição Verde”178 – incorporou os valores ecológicos no seu núcleo normativo axiológico, reconhecendo tanto o dever estatal de proteção ambiental, quanto o direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, titularizado pelos indivíduos e pela sociedade como um todo (art. 225). O status normativo supralegal dos tratados internacionais em matéria ambiental, como já reconhecido pelo STF179 e em sintonia com a jurisprudência mais recente da Corte IDH180, também reforça o fenômeno da “ecologização” do Direito Civil e vinculação de toda a ordem jurídica privada ao parâmetro normativo internacional ambiental, ressalvando-se, inclusive, a possibilidade do controle de convencionalidade da legislação privada infraconstitucional a ser levado a efeito (ex officio) por Juízes e Tribunais. A título de exemplo, o Código Civil e Comercial da Argentina (2015), de modo inovador, reconheceu expressamente os tratados internacionais de direitos humanos – entre eles os tratados internacionais ambientais, dada a natureza de direito humano atribuída ao direito ao meio ambiente – como fonte normativa do Direito Privado.181 As relações jurídicas privadas e os institutos jurídicos clássicos do Direito Civil (contrato, propriedade, responsabilidade civil etc.)182 encontram-se, portanto, vinculados normativamente ao direito fundamental ao meio ambiente e ao respeito aos valores ecológicos por força do comando constitucional (art. 225), inclusive. Igualmente, destaca-se a natureza de direito-dever inerente ao regime jurídico-constitucional ecológico, com a atribuição de deveres fundamentais de proteção ecológica a cargo dos particulares, a ponto de limitar o exercício e gozo de outros direitos de âmbito privado. No caso dos institutos jurídicos, o seu conteúdo passa a ser reconstruído com base nesse novo paradigma ambiental ou ecológico183. A título de exemplo, o instituto do abuso de direito, consagrado no art. 187 do Código Civil de 2002184, foi “repaginado” recentemente pelo Código Civil e Comercial da Argentina (2015), ao dispor da seguinte forma a respeito do instituto no seu art. 14, parágrafo segundo: ARTICULO 14.- Derechos individuales y de incidencia colectiva. En este Código se reconocen: a) derechos individuales; b) derechos de incidencia colectiva. La ley no ampara el ejercicio abusivo de los derechos individuales cuando pueda afectar al ambiente y a los derechos de incidencia colectiva en general. É possível, por essa ótica, falar da caracterização do que se pode denominar de abuso de direito ecológico – ou “ecoabuso” de direito, como referido por Sozzo.185 Ao comentar o dispositivo citado e conectar a legislação civil com a norma constitucional argentina, o autor assinala que “la inovación del nuevo Código Civil y Comercial, que aqui llamo giro ecológico del abuso del derecho, es un nuevo jalón em esta historia del abuso del derecho que basicamente consiste em haber internalizado, em la propia estrutura del derecho subjetivo lo que en principio constituye um limite externo al derecho subjetivo que proviene de los ‘derechos de incidência colectiva’ (DIC) (art. 41, CN). Em otras palavras, se assigna a los derechos subjetivos um doble función: a) satisfacer las necessidades individuales (función individualista); b) satisfacer las necesidades comunes o colectivas”.186 O Acordo de Escazú (2018), por sua vez, consagrou expressamente o “princípio da javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2002%5C%5C400&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2002-400|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2002%5C%5C400&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2002-400|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2002%5C%5C400&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2002-400|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 3/4 boa-fé” no seu rol de princípios estabelecido no seu art. 3º do diploma, o que nos permite falar de um princípio da boa-fé objetiva ambiental ou ecológica, inclusive como fundamento para o reconhecimento de deveres conexos de natureza ambiental em determinada relação jurídica privada que tenha repercussão na integridade de algum bem jurídico ecológico. 174 .No tocante à eficácia dos direitos fundamentais nas relações entre particulares, v. SARLET, Ingo W. A eficácia dos direitos fundamentais..., p. 374-383; e, especificamente em relação à eficácia do direito fundamental ao ambiente nas relações entre particulares, v. FENSTERSEIFER, Direitos fundamentais e proteção do ambiente..., p. 245-258. 175 .FACHIN, Luiz Edson. “Virada de Copérnico”: um convite à reflexão sobre o direito civil brasileiro contemporâneo. In: FACHIN, Luiz Edson (coord.). Repensando os fundamentos do direito civil brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro: Renovar, 2000, p. 317-324. 176 .“Art. 421. A liberdade contratual será exercida nos limites da função social do contrato. (Redação dada pela Lei nº 13.874/2019) (...). Art. 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé”. 177 .SOZZO, Gonzalo. Derecho privado ambiental: el giro ecológico del derecho privado. Buenos Aires: Rubinzal– Culzoni Editores, 2019, p. 16. 178 .STF, ADC 42/DF, Tribunal Pleno, Rel. Min. Luiz Fux, j. 28.02.2018, DJe 01.03.2018. 179 .STF, ADI 4.066/DF, Tribunal Pleno, Rel. Min. Rosa Weber, j. 24.08.2017, DJe 24.08.2017. Em decisão recente, por ocasião do julgamento da medida cautelar na ADPF 747/DF, acerca do status normativo das resoluções do CONAMA, a Ministra Rosa Weber voltou a defender o status supralegal do marco normativo internacional em matéria ambiental, conforme se pode observar na passagem que segue: “a Resolução nº 500, de 28 de setembro de 2020, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), ao revogar as Resoluções nºs 284/2001, 302/2002 e 303/2002, vulnera princípios basilares da Constituição, sonega proteção adequada e suficiente ao direito fundamental ao meio ambiente equilibrado nela assegurado e promove desalinho em relação a compromissos internacionais de caráter supralegal assumidos pelo Brasil e que moldam o conteúdo desses direitos” (STF, MC na ADPF 747/DF, Tribunal Pleno, Rel. Min. Rosa Weber, j. 28.10.2020, DJe 29.10.2020). 180 .Vide Opinião Consultiva 23/2017 da Corte IDH sobre “Meio Ambiente e Direitos Humanos” e, mais recentemente, a decisão da Corte IDH no Caso Tierra Nuestra vs. Argentina (2020). 181.“ARTICULO 1°.- Fuentes y aplicación. Los casos que este Código rige deben ser resueltos según las leyes que resulten aplicables, conforme con la Constitución Nacional y los tratados de derechos humanos en los que la República sea parte. A tal efecto, se tendrá en cuenta la finalidad de la norma. Los usos, prácticas y costumbres son vinculantes cuando las leyes o los interesados se refieren a ellos o en situaciones no regladas legalmente, siempre que no sean contrarios a derecho.” 182 .Nem o Direito de Família tem escapado desse novo cenário jurídico, haja vista, por exemplo, os desenvolvimentos recentes decorrentes do novo status jurídico de seres sencientes dos animais não humanos, impactando as relações jurídicas familiares em temas como divórcio, guarda, regulamentação de visitas e etc. 183 .De acordo com Ricardo L. Lorenzetti e Pablo Lorenzetti, “en el caso del paradigma ambiental el pensamento se basa em: a) uma concepción sistémica; b) búsqueda de uma coordinación em el funcionamento entre los sistemas económico, social y natural; c) comunicabilidade de los princípios entre el Derecho Público y el Privado; y d) existência de bienes colectivos”. LORENZETTI, Ricardo L.; LORENZETTI, Pablo. Derecho ambiental. Santa Fe: Rubinzal- Culzoni Editores, 2018, p. 92-93. https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2019%5C%5C8262&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2019-8262|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 4/4 184 .“Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes”. 185 .SOZZO, Derecho privado ambiental..., p. 532-533. 186 .SOZZO, Derecho privado ambiental..., p. 554. 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/3 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 26 ESTADO DE COISAS INCONSTITUCIONAL ECOLÓGICO (E CLIMÁTICO) À luz de alguns exemplos, podemos identificar situações que ilustram a profunda e sistemática incapacidade institucional do Estado – em especial, do Poder Executivo – de gerenciar as políticas públicas ambientais de modo minimamente eficiente e suficiente (em face do princípio da proibição de proteção insuficiente ou deficiente), como ilustram de forma categórica o aumento galopante do desmatamento na Amazônia187 e no Pantanal Mato-grossense, os desastres de Mariana (2015) e Brumadinho (2019), bem como, por último, o derramamento de óleo no litoral do Nordeste (2019). Tais situações, dadas a sua magnitude e violação massiva de direitos fundamentais que provocam e provocaram, demandam uma atuação do Poder Judiciário no sentido de dar respostas de âmbito estrutural, ou seja, medidas corretivas de grande amplitude nas políticas públicas levadas a efeito pelo Poder Executivo. É aí que surge a discussão acerca do “estado de coisas inconstitucional ambiental ou ecológico”188, recordando-se que o STF já se serviu de tal instituto jurídico – utilizado de forma pioneira pela Corte Constitucional colombiana189 – no julgamento da ADPF 347/DF, ao tratar, entre outros aspectos, da superlotação e violação massiva de direitos fundamentais verificada no âmbito do sistema carcerário brasileiro. A Corte Constitucional colombiana estabelece os “fatores” caracterizadores do estado de coisas inconstitucional: “Dentro de los factores valorados por la Corte para definir si existe un estado de cosas inconstitucional, cabe destacar los siguientes: (i) la vulneración masiva y generalizada de varios derechos constitucionales que afecta a un número significativo de personas; (ii) la prolongada omisión de las autoridades en el cumplimiento de sus obligaciones para garantizar los derechos; (ii) la adopción de prácticas inconstitucionales, como la incorporación de la acción de tutela como parte del procedimiento para garantizar el derecho conculcado; (iii) la no expedición de medidas legislativas, administrativas o presupuestales necesarias para evitar la vulneración de los derechos; (iv) la existencia de un problema social cuya solución compromete la intervención de varias entidades, requiere la adopción de un conjunto complejo y coordinado de acciones y exige un nivel de recursos que demanda un esfuerzo presupuestal adicional importante; (v) si todas las personas afectadas por el mismo problema acudieran a la acción de tutela para obtener la protección de sus derechos, se produciría una mayor congestión judicial”. Tomando por base os fatores e situações descritas pela Corte Constitucional colombiana é perfeitamente possível o enquadramento de violações massivas a direitos ecológicos na configuração do instituto do estado de coisas inconstitucional, como verificado nos exemplos citados no início deste tópico, ressaltando-se a persistente omissão do Estado em dar respostas efetivas e satisfatórias. A título de exemplo, a redução contundente da estrutura administrativa de proteção ecológica reforça o movimento refratário e omissivo do Estado – notadamente do Poder Executivo – de assegurar o cumprimento da norma constitucional consagrada no art. 225 da CF/1988. A discussão em torno de um suposto “estado de coisas inconstitucional em matéria ambiental” tomou assento recentemente no STF na ADPF 708/DF (Caso Fundo Clima). O argumento foi suscitado na inicial e endossado na decisão do Ministro-Relator Luis Roberto Barroso190 que convocou audiência pública (realizada nos dias 21 e 22.09.2020) para ouvir autoridades, especialistas e entidades da sociedade civil, a fim de estabelecer um relato oficial sobre as políticas públicas ambientais e a situação verificada especialmente em relação ao desmatamento na região amazônica, de modo a apurar a caracterização ou não de um “estado de coisas inconstitucional em matéria ambiental”. Como fundamentos lançados na inicial pelos autores da ação para a sua configuração, destacam-se: ações e omissões persistentes, comprometedoras da tutela do meio ambiente e da operação do Fundo Clima imputáveis a autoridades diversas e ensejadoras de violações massivas a direitos fundamentais, tudo a sugerir a existência de um estado de coisas inconstitucional em matéria ambiental. A decisão judicial a ser tomada diante da caracterização de um estado de coisas inconstitucional envolve a adoção das denominadas medidas estruturais ou estruturantes, ingressando o Poder Judiciário no âmbito do controle das políticas públicas, dada a javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=A.225&unit2Scroll=LGL-1988-3|A.225&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/3 g p p excepcionalidade e gravidade da situação, caracterizada, na sua essência, pelas ações e omissõessistemáticas e reiteradas do Estado (por diversos órgãos da estrutura estatal) e violação massiva de direitos fundamentais. No caso da ADPF 708/DF, as ações e omissões reiteradas e sistemáticas são atribuídas, por exemplo, a órgãos como o Ministério do Meio Ambiente, o IBAMA, o ICMBio, a FUNAI, entre outros, resultando, em última instância, num cenário administrativo e políticas públicas em total desacordo com os deveres constitucionais de proteção ecológica impostos pelo art. 225 da CF/1988. Além da imposição de medidas judiciais para a correção de tal situação de violação massiva a direitos fundamentais, é possível suscitar também a instalação de comitê ou comissão de emergência ou crise ambiental (ou sala de situação ambiental)191 – formada por autoridades e órgãos públicos, entidades científicas (universidades, institutos etc.), entidades da sociedade civil de proteção ecológica, entidades representantes de povos indígenas etc –, a fim de possibilitar a gestão da crise ambiental, subsidiar a tomada de decisões e acompanhar o cumprimento das medidas impostas judicialmente. No STF, tramita nesse sentido a ADPF 743/DF, proposta pelo Partido Rede Sustentabilidade, sob a relatoria do Ministro Marco Aurélio, em que é pleiteada, além do reconhecimento de um estado de coisas inconstitucional decorrente da omissão e insuficiência das políticas públicas ambientais do Governo Federal e imposição de inúmeras medidas – por exemplo, que apresente, no prazo de 10 dias, um plano de prevenção e combate aos incêndios no Pantanal e na Amazônia –, a criação de uma “sala de situação”, de modo a permitir a gestão da crise em questão, subsidiar a tomada de decisões e acompanhar o cumprimento das medidas impostas judicialmente. Na ADPF 709/DF, o Ministro Luís Roberto Barroso, relator da ação, determinou que o governo federal adote uma série de medidas para conter o contágio e a mortalidade por Covid-19 entre a população indígena, entre as quais: planejamento com a participação das comunidades, ações para contenção de invasores em reservas e criação de barreiras sanitárias no caso de indígenas em isolamento (aqueles que por escolha própria decidiram não ter contato com a sociedade) ou contato recente (aqueles que têm baixa compreensão do idioma e costumes), acesso de todos os indígenas ao Subsistema Indígena de Saúde e elaboração de plano para enfrentamento e monitoramento da Covid-19. Ademais, o Ministro determinou a instalação de “sala de situação” – prevista em portaria do Ministério da Saúde e da Funai –, pelo Governo Federal para gestão de ações de combate à pandemia quanto a povos indígenas em isolamento ou de contato recente, com participação das comunidades, por meio da APIB, da Procuradoria-Geral da República e da Defensoria Pública da União. A Corte Suprema de Justiça argentina, em ação coletiva de proteção ambiental promovida por associação civil (“Equística Defensa del Medio Ambiente”) contra o Estado Nacional, as províncias de Santa Fé e Entre Ríos e os municípios de Rosário e Victoria, devido aos incêndios irregulares que vêm ocorrendo na cadeia de ilhas ao largo da costa da cidade de Rosário, em decisão de 11.08.2020, ordenou, como medida preventiva, que as províncias e municípios processados constituíssem, imediatamente, um Comitê de Emergência Ambiental, com o objetivo de adotar medidas efetivas para a prevenção, controle e cessação de incêndios irregulares na região do Delta do Paraná. A decisão ordenou igualmente que, dentro de 15 dias de calendário, fosse apresentado ao Tribunal um relatório sobre o cumprimento da medida ordenada, a criação do Comitê de Emergência Ambiental e as ações tomadas. O Tribunal considerou, amparado na recente legislação climática argentina – Lei de Pressupostos Mínimos de Adaptação e Mitigação ao Câmbio Climático Global (Lei 27.520, de 18 de dezembro de 2019) –, que existem elementos suficientes para considerar que os incêndios acima mencionados, embora constituam uma prática antiga, adquiriram uma dimensão que afeta todo o ecossistema e a saúde da população, de modo que não se trata de uma queima isolada de pastagens, mas sim o efeito cumulativo de numerosos incêndios que se espalharam por toda a região, colocando o meio ambiente em risco.192 O Poder Judiciário, diante de tal cenário institucional omissivo e violador de direitos fundamentais em escala massiva, deve assumir o papel de guardião da Constituição e dos direitos fundamentais – entre eles o direito fundamental a viver em um meio ambiente íntegro, de qualidade e seguro –, exercendo a coordenação das políticas públicas193 necessárias à correção de tal cenário violador de direitos, por meio, inclusive, do que se poderia denominar de uma governança judicial ecológica. https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=A.225&unit2Scroll=LGL-1988-3|A.225&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=A.225&unit2Scroll=LGL-1988-3|A.225&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 3/3 187 .Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE), no mês de novembro de 2019, o desmatamento na Amazônia entre julho de 2018 e agosto de 2019 foi o maior dos últimos 11 anos. O Sistema PRODES de monitoramento anual registrou 9.762 quilômetros quadrados de desmatamento no período referido, aproximadamente 30% maior do que o verificado no registro do ano anterior. Disponível em: <http://www.obt.inpe.br/OBT/assuntos/programas/amazonia/prodes>. 188 .Na doutrina brasileira, destaca-se estudo pioneiro de Bleine Queiroz Caúla e Francisco Lisboa Rodrigues sobre a versão “ecológica” do instituto do estado de coisas inconstitucional: CAÚLA, Bleine Queiroz; RODRIGUES Francisco Lisboa. O estado de coisas inconstitucional ambiental. Revista de Direito Público Contemporânea, ano 2, v. 1, n. 2, p. 137-151, jul.-dez. 2018. 189 .A Corte Constitucional colombiana estabeleceu o que seria o estado de coisas inconstitucional na Sentencia T-025, de 16.05.2004: “es una decisión judicial, por medio de la cual la Corte Constitucional declara que hay una violación masiva generalizada y sistemática de los derechos fundamentales es de tal magnitud, que configura una realidad contraria a los principios fundantes de la Constitución Nacional y estas situaciones pueden provenir de una autoridad pública específica que vulnera de manera constante los derechos fundamentales, o de un problema estructural que no solo compromete una autoridad sino que incluye también la organización y el funcionamiento del Estado, y que por tanto se puede calificar como una política pública, de donde nace la violación generalizada de los derechos fundamentales”. Disponível em: <http://www.corteconstitucional.gov.co/relatoria/2004/t-025-04.htm>. 190 .STF, ADPF 708/DF, Rel. Min. Roberto Barroso, decisão monocrática,j. 28.06.2020. 191 .Segundo dispõe o art. 6º, VII, da Lei sobre a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil – PNPDEC ( Lei 12.608/2012) compete à União “instituir e manter sistema para declaração e reconhecimento de situação de emergência ou de estado de calamidade pública; [...]”. 192 .Disponível em: https://www.cij.gov.ar/nota-38022-La-Corte-Suprema-ordena-constituir-un--Comit--de-Emergencia- Ambiental--para-detener-y-controlar-los-incendios-irregulares-en-el-Delta-del-Paran-.html. 193 .Sobre o papel a ser exercido pelo Poder Judiciário no sentido de “coordenar” as políticas públicas diante da caracterização de um “estado de coisas inconstitucional”, destaca-se passagem do voto-relator do Ministro Marco Aurélio na ADPF 347/DF, que tratou do sistema carcerário brasileiro, na liminar concedida: “Nada do que foi afirmado autoriza, todavia, o Supremo a substituir-se ao Legislativo e ao Executivo na consecução de tarefas próprias. O Tribunal deve superar bloqueios políticos e institucionais sem afastar esses Poderes dos processos de formulação e implementação das soluções necessárias. Deve agir em diálogo com os outros Poderes e com a sociedade. Cabe ao Supremo catalisar ações e políticas públicas, coordenar a atuação dos órgãos do Estado na adoção dessas medidas e monitorar a eficiência das soluções. Não lhe incumbe, no entanto, definir o conteúdo próprio dessas políticas, os detalhes dos meios a serem empregados. Em vez de desprezar as capacidades institucionais dos outros Poderes, deve coordená-las, a fim de afastar o estado de inércia e deficiência estatal permanente. Não se trata de substituição aos demais Poderes, e sim de oferecimento de incentivos, parâmetros e objetivos indispensáveis à atuação de cada qual, deixando-lhes o estabelecimento das minúcias. Há de se alcançar o equilíbrio entre respostas efetivas às violações de direitos e as limitações institucionais reveladas na Carta da República” (STF, MC na ADPF 347/DF, Tribunal Pleno, Rel. Min. Marco Aurélio, j. 09.09.2015, DJe 19.02.2016). https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2012%5C%5C1222&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2012-1222|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:15 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/2 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 27 A ÚLTIMA FRONTEIRA DO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO: O RECONHECIMENTO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS DE TITULARIDADE DOS ANIMAIS NÃO HUMANOS E DA NATUREZA “No âmbito do Direito Internacional dos Direitos Humanos tem-se caminhado para reconhecer a interdependência entre o direito humano ao meio ambiente saudável e uma multiplicidade de outros direitos humanos, bem como para afirmá-lo como um direito autônomo titulado pela própria Natureza (e não apenas pelos seres humanos). Há, nesse sentido, duas importantes decisões da Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH). Na Opinião Consultiva no 23/2017, estabeleceu que o direito a um meio ambiente saudável é ‘um interesse universal’ e ‘um direito fundamental para a existência da humanidade”. (Ministro Luis Roberto Barroso)194 O reconhecimento dos direitos dos animais não humanos e dos direitos da Natureza (e dos elementos naturais como florestas, plantas, rios etc.), atribuindo-lhes valor intrínseco e, portanto, dissociado de qualquer valor instrumental ou utilitário que possam representar ao ser humano, têm encontrado cada vez maior consenso em sede de direito comparado e internacional. Desde a gênese de tal discussão, representada paradigmaticamente pelo artigo Should trees have standing? Toward legal rights for natural objects (“As árvores têm legitimidade para litigar? Rumo ao reconhecimento de direitos para os elementos naturais”), de Chistopher D. Stone195, publicado em 1972, o tema tem encontrado cada vez maior adesão doutrinaria196, legislativa e jurisprudencial, especialmente na última década. O ressurgimento da discussão a respeito dos direitos da Natureza, especialmente pela ótica constitucional, pode ser identificado paradigmaticamente na Constituição do Equador (2008), ou seja, a primeira no mundo a reconhecer expressamente os direitos da Pachamama. No ano de 2018, a Corte Suprema colombiana reconheceu, em caso de litigância climática contra o desmatamento florestal, a Amazônia Colombiana como “entidade sujeito de direitos”197, repetindo entendimento jurisprudencial anterior da Corte Constitucional do País que havia atribuído, em decisão de 2016, o mesmo status jurídico ao Rio Atrato198. A Corte Interamericana de Direitos Humanos, alinhada com tal cenário que desponta no cenário jurídico atual, reconheceu expressamente na Opinião Consultiva n. 23/2017 a proteção jurídica autônoma, ou seja, “em si mesma” da Natureza, destacando “uma tendência a reconhecer a personalidade jurídica e, por fim, os direitos da Natureza, não só em decisões judiciais, mas também nos ordenamentos constitucionais”.199 Essa, na linha da discussão envolvendo um novo paradigma constitucional ecocêntrico, como, aliás, já foi objeto de análise pela nossa Corte Constitucional200, representa a última e mais desafiadora fronteira a ser desbravada pelo Direito Constitucional Ecológico, o que será objeto de desenvolvimento no Capítulo 1. 194 .Passagem da decisão do Ministro Luis Roberto Barroso proferida em 28.06.2020 no Caso Fundo Clima, ao convocar a audiência pública realizada nos dias 21 e 22.09.2020 perante o Supremo Tribunal Federal (STF, ADPF 708/DF, Rel. Min. Luis Roberto Barroso, ainda pendente de julgamento). 195 .O artigo, publicado originalmente em 1972 na Southern California Law Review, foi republicado como livro em 1974, tendo sido reeditado e substancialmente ampliado posteriormente: STONE, Chistopher D. Should trees have standing? Law, morality, and the environment. 3. ed. New York: Oxford University Press, 2010. 196 .A título de exemplo, v. BOYD, David R. The rights of Nature: a legal revolution that could save the world. Toronto: ECW Press, 2017. 197 javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:15 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/2 .Íntegra da decisão proferida pela Corte Suprema Colombiana, no julgamento da STC4360-2018 (Radicacion n. 1100- 22.03-000-2018-00319-01), proferida em 05.04.2018. Disponível em: [www.cortesuprema.gov.co/corte/index.php/2018/04/05/corte-suprema-ordena-proteccion-inmediata-de-la-amazonia- colombiana/]. 198 .Íntegra da decisão proferida pela Corte Constitucional Colombiana, no julgamento da T-622/16, proferida em 10.11.2016. Disponível em: [www.corteconstitucional.gov.co/relatoria/2016/t-622-16.htm]. 199 .CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, Opinião Consultiva n. 23/2017..., pp. 28- 29. 200 .No Brasil, a discussão sobre o novo paradigma jurídico ecocêntrico apareceu na fundamentação dos votos e manifestações dos Ministros Rosa Weber e Ricardo Lewandowski do STF no julgamento da ADI 4.983/CE sobre a prática da “vaquejada”: STF, ADI 4.983/CE, Tribunal Pleno, Rel. Min. Marco Aurelio, j. 06.10.2016. O tema, por sua vez, já tratado de passagem na Nota à 6ª Edição, será retomado e desenvolvido com maiores detalhes no Capítulo 1. 13/04/2023, 19:15 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/3 INTRODUÇÃO AO DIREITOCONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 28 O “MITO DA CAVERNA” DE PLATÃO E O PAPEL DO CIENTISTA DE DAR VOZ (POLÍTICO-JURÍDICA) À NATUREZA E TRAZER LUZ PARA AS LEIS DOS HOMENS AMPARADO NAS LEIS DA NATUREZA: DE FACTO, DE JURE! (BRUNO LATOUR) Por força da atual crise ecológica, o papel do cientista e da ciência no debate público nunca foi tão relevante nos rumos civilizatórios quanto hoje, dadas implicações que envolvem a nossa própria sobrevivência como espécie. O cientista a que me refiro aqui é aquele “desbravador” das leis da Natureza em todas as suas dimensões, e não o “cientista” das chamadas “ciências humanas” ou “humanidades”. Aproveitando a definição de ciência (Natural Science) elaborada de forma concisa por Edward O. Wilson, na linha da clássica distinção anglo-saxã entre Science e Humanities, a mesma é entendida como “a entidade organizada e sistemática que reúne conhecimentos sobre o mundo e condensa os conhecimentos em leis e princípios comprováveis”.201 Para ilustrar, inclusive o caráter universal da ciência (ou das ciências ditas “duras”), Wilson destaca, por exemplo, que a matemática pode, em alguma medida, ser considerada a “linguagem natural da ciência”, bem como que “as leis da física são de fato tão exatas e precisas a ponto de transcender diferenças culturais”.202 Em outras palavras, o(s) Sistema(s) Jurídico(s) e as “leis humanas”, por maior que seja o empenho de estabelecer, por exemplo, uma ordem jurídica internacional, como na seara dos direitos humanos, com a pretensão de um marco jurídico mínimo (minimum core obligation203) de proteção da pessoa universalizável, são, em regra, variáveis e diferentes ao redor do globo terrestre, a depender da história, cultura etc. de cada Estado-Nação. As leis da Natureza não. Elas são universais, independentemente do lugar do Planeta Terra em que se esteja. E valem para todos. A maçã, ao amadurecer e se desprender da macieira, inevitavelmente cairá no chão, estejamos no Brasil ou na China, como exemplo em alusão à “metáfora” da descoberta das leis da gravidade pelo físico britânico Isaac Newton (1642- 1727). Já os Sistemas Jurídicos do Brasil e da China... Esse “descompasso” entre as leis da Natureza e as leis dos homens nunca foi tão desafiado quanto hoje, sendo urgente um realinhamento pela ótica da proteção da Natureza (e da nossa própria existência), ajustando as leis humanas às leis da Natureza para que o sistema de Gaia204 possa reencontrar novamente um ponto de equilíbrio capaz de salvaguardar com segurança e de forma sustentável as bases naturais que regem e tornam possível a vida (humana e não humana) no Planeta Terra. A prova mais simbólica da gravidade da intervenção do ser humano na Natureza está no recente reconhecimento pela comunidade científica de que entramos em um novo Período Geológico do Planeta Terra denominado de “Antropoceno”, como já tratado anteriormente, com as nossas ações afetando, como nunca antes, o seu equilíbrio em escala global. O aquecimento global, a poluição dos oceanos e a extinção em massa da biodiversidade, entre inúmeros outros exemplos das nossas “pegadas”, dão conta de ilustrar bem esse cenário. O “mundo social” precisa se reencontrar com o “mundo natural”. E é justamente aqui que o cientista joga como uma peça chave no tabuleiro planetário para a transformação de tal cenário de vulnerabilidade existencial em que se encontra (por sua culpa exclusiva) o Homo sapiens. O filosofo francês Bruno Latour utiliza a Alegoria ou Mito da Caverna de Platão, descrito na sua obra clássica A República205, para tratar justamente do papel do cientista, como ponte de contato entre o mundo social e o mundo natural, ou seja, como uma espécie de “tradutor” das leis da Natureza para a sociedade. Como dito por Latour, “o filósofo e, mais tarde, o cientista têm que se libertar da tirania da dimensão social, da vida pública, da política, dos sentimentos subjetivos, da agitação popular – em suma, da caverna escura – se quiserem aceder à verdade”. Seguindo, afirma ele: “o cientista, uma vez equipado com leis não feitas por mãos humanas que ele acaba de contemplar porque conseguiu libertar-se da prisão do mundo social, pode voltar à caverna para lhe dar ordem com incontestáveis descobertas que silenciarão a tagarelice sem fim da multidão ignorante”.206 Os “encontrados incontestáveis” dos cientistas referem-se justamente às leis objetivas e irrefutáveis da Natureza descobertas por eles ao deixarem a “caverna”. As leis da Natureza, por essa ótica, representam uma espécie de “lei natural” imperativa (e com força normativa) imposta pelas coisas não humanas e a realidade do mundo natural que, na maioria das vezes, não é devidamente compreendida pela sociedade, não sendo, portanto, representada na javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:15 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/3 esfera política, não obstante diga respeito a questões existências elementares e determinantes para a vida humana e o futuro da sociedade como um todo. Como dito por Latour, de facto, de jure!207 Ao transpor para a atualidade o Mito ou Alegoria da Caverna, Latour destaca que ela permite uma “Constituição” que “organiza a vida pública em duas casas. A primeira é a obscura sala retratada por Platão, onde pessoas ignorantes se encontram acorrentadas, incapazes de se olharem diretamente, comunicando-se apenas através de ficções projetadas em uma espécie de tela de cinema”. Já a segunda casa “está localizada fora, em um mundo feito não de humanos, mas de não humanos, indiferentes às nossas querelas, nossas ignorâncias e os limites de nossas representações e ficções. O gênio do modelo deriva do papel desempenhado por um número muito pequeno de pessoas, as únicas capazes de ir e vir entre as duas assembleias e converter a autoridade de uma em autoridade da outra. Apesar do fascínio exercido pelas Ideias (mesmo sobre aqueles que afirmam denunciar o idealismo da solução platónica), não se trata em absoluto de opor o mundo sombra ao mundo real, mas de redistribuir poderes inventando tanto uma certa definição de Ciência como uma certa definição de política” (destaque nosso).208 Ainda segundo o autor, “a primeira casa reúne a totalidade dos seres humanos falantes, que se encontram sem nenhum poder, exceto o de serem ignorantes em comum ou de concordarem por convenção em criar ficções desprovidas de qualquer realidade externa. A segunda casa é constituída exclusivamente de objetos reais que têm a propriedade de definir o que existe, mas que carecem do dom da fala. Por um lado, temos a tagarelice das ficções; por outro, o silêncio da realidade. A sutileza dessa organização repousa inteiramente no poder dado aos que podem se movimentar entre as casas. O pequeno número de especialistas escolhidos a dedo, por sua vez, presumivelmente tem a capacidade de falar (já que são humanos), a capacidade de dizer a verdade (pois fogem do mundo social, graças à ascese do conhecimento) e, finalmente, a capacidade de trazer ordem à reunião de humanos, mantendo seus membros em silêncio (já que os especialistas podem voltar à casa inferior para reformar os escravos que estão acorrentados na sala). Em suma, esses poucos eleitos, como eles mesmos veem isso, são dotados da mais fabulosa capacidade política jamais inventada: eles podem fazer falar o mundo mudo, dizer a verdade sem serem desafiados, pôr fim aos intermináveis argumentos por meio de uma forma incontestável de autoridade que derivaria das próprias coisas (...)”.209 A “redistribuição de poderes” referida por Latour pode ser compreendida por meio de um novo pacto político de natureza ecológica capaz de assegurar a devida representação dos interesses (e direitos?) não humanos. Em outras palavras, um novo rearranjo político-jurídicocapaz de, como dito pelo filósofo francês, “fazer falar o mundo mudo”, tema que será tratado no tópico subsequente. 201 .WILSON, Edward O. Consilience: the Unity of Knowledge. Vintage Books/Random House, 1999. No original: “the organized, systematic enterprise that gathers knowledge about the world and condenses the knowledge into testable laws and principles”. 202 .WILSON, Consilience…, p. 53. 203 .V. PIOVESAN, Flávia. Social Rights: A Theoretical Perspective on South America. In: BINDER, Christina; EBERHARD Harald; LACHMAYER Konrad; RIBAROV, Gregor; THALLINGER, Gerhard (Org.) Corporate Social Responsibility and Social Rights (Proceedings of the 5th Vienna Workshop on International Constitutional Law). Baden-Baden: Nomos, 2010, p. 150 (pp. 147-171). 204 .LOVELOCK, James. A vingança de Gaia. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2006. 205 .LATOUR, Bruno. Politics of Nature: How to Bring the Sciences into Democracy. Cambridge: Harvard University Press, 2004, p. 10. javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:15 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 3/3 206 .LATOUR, Politics of Nature…, pp. 10-11. 207 .LATOUR, Bruno. Facing Gaia: eight lectures on the new climate regime. Cambridge: Polity, 2017, p. 23. 208 .LATOUR, Politics of Nature…, pp. 13-14. 209 .LATOUR, Politics of Nature…, pp. 14. 13/04/2023, 19:15 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/2 INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO 0 § 29 UM NOVO PACTO OU CONTRATO POLÍTICO-CONSTITUCIONAL NO ANTROPOCENO SOB UM “VÉU DA IGNORÂNCIA ECOLÓGICO”? As premissas lançadas no tópico anterior revelam a necessidade de transcender de um pacto apenas social para um novo pacto político-jurídico ecológico, em vista de contemplar o novo papel que o Estado e a sociedade desempenham no âmbito da atual conformação do Estado de Direito contemporâneo. Uma nova postura política (e também jurídica) coloca-se para a sociedade civil, que, por força do marco normativo da solidariedade intergeracional e da sustentabilidade, deverá compartilhar com o Estado (não obstante em menor intensidade) a carga de responsabilidades e deveres de tutela ecológica tanto para as gerações presentes quanto as futuras. As decisões adotadas hoje pelos Estado e pela sociedade devem necessariamente contemplar o “estado do ambiente” no marco temporal futuro, assegurando a proteção dos interesses (e direitos?) das futuras gerações. Isso envolve, conforme pontua Peter Saladin, os problemas de proteção ambiental a longo prazo (langfristigen Umweltschutzes). Segundo o autor, temos a responsabilidade, consagrada no direito constitucional dos Estados de Direito modernos (moderner Rechtsstaaten) e no direito internacional, de abster-nos de sobrecarregar e alterar para pior o estado dos recursos naturais, bem como a obrigação correlata de fornecer aos nossos descendentes recursos naturais suficientes em quantidade e qualidade, destituídos de poluição e em segurança. Por fim, destaca o autor que tal compromisso de posteridade não tem limite de tempo ou temporal, tendo em vista que hoje, em razão do poder tecnológico desenvolvido, “temos a possibilidade de sobrecarregar e prejudicar a posteridade durante muito tempo, ou mesmo de forma irreversível”.210 O comando constitucional expresso no art. 225, caput, da CF/1988, tem especial relevância nesse sentido, pois consagra expressamente o regime de responsabilidades e encargos ecológicos compartilhados entre Estado e sociedade, quando subscreve, por exemplo, que se impõe “ao Poder Público e à coletividade o dever ” de defender e proteger o ambiente para as presentes e futuras gerações, destacando que os deveres de proteção e promoção do ambiente, para além do Estado, são atribuídos agora também aos particulares. A responsabilidade em relação ao futuro e até mesmo a um direito a existir ou um direito à vida (com dignidade) no futuro211, de titularidade pelas futuras gerações, colocam-se como desafios contemporâneos. Os interesses das futuras gerações – assim como das crianças e adolescentes de hoje – devem necessariamente ser objeto de adequada representação político-jurídica na conformação de um novo pacto jurídico ecológico capaz de assegurar condições naturais compatíveis com um padrão de vida digno. O mesmo se pode dizer em relação aos interesses (e direitos?) dos animais não humanos e da Natureza como um todo (e dos elementos naturais, como rios, florestas, paisagens etc.), que também devem ser reconhecidos e protegidos nesse novo pacto político-jurídico de natureza ecológica.212 Para utilizar a expressão de Jonh Rawls na sua obra clássica Uma Teoria da Justiça213, no momento da formatação do pacto social e do consenso político comunitário que envolve o mesmo, os celebrantes de tal contrato político-jurídico – como integrantes de uma assembleia constitucional para elaborar uma nova Constituição – deveriam vestir o “véu da ignorância ecológico”, ou seja, desconhecer a sua posição não apenas no âmbito social ou da “comunidade humana”, mas tampouco a sua posição ou lugar existencial no contexto mais amplo da Natureza ou da comunidade biológica ou natural. Em outras palavras, o celebrante de tal pacto, assim como não saberia o sexo, a raça, a religião, a orientação sexual, entre outras questões denominada por Rawls na posição original, também desconheceria a sua posição no contexto mais amplo da Natureza. Se seria um ser humano ou um animal não humano, como um elefante, uma arara-azul em perigo de extinção, uma floresta desmatada, um rio degradado e poluído etc. O véu da ignorância, como uma situação metafórica, define a “posição original”, colocando-se como uma barreira contra o uso de interesses parciais na determinação dos princípios da justiça. É, em outras palavras, o que Paul Taylor denomina de princípio da imparcialidade entre espécies (Principle of Species-Impartiality), inclusive como forma de rejeitar a superioridade humana em relação aos outros seres vivos.214 Uma teoria da justiça ecológica ou da Natureza e, portanto, não restrita javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=A.225&unit2Scroll=LGL-1988-3|A.225&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:15 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/2 apenas ao espectro dos interesses e direitos humanos, deveria necessariamente estabelecer um novo contrato político-jurídico ecológico, cujos princípios da justiça contemplariam, a título de exemplo, também a justiça intergeracional e a justiça interespécies. Por derradeiro, retoma-se a afirmação de Rachel Carson, referida no início desta Introdução, no sentido de que a proteção ecológica deveria integrar o Bill of Rights (o catálogo de direitos fundamentais) da comunidade estatal, o que, no caso brasileiro, foi devidamente considerado pelo Constituinte de 1988, mediante a consagração não apenas do direito ao meio ambiente sadio (ecologicamente equilibrado),mas também de todo um arcabouço de normas impositivas de deveres destinados a assegurar, inclusive no plano organizatório e procedimental, a proteção do meio ambiente, sempre em sinergia com a proteção e promoção da dignidade (e dos correlatos direitos e deveres) da pessoa humana e da dignidade do animal não humano e da Natureza, tudo no contexto do que se poderia designar de um constitucionalismo ecológico à luz de um novo paradigma jurídico ecocêntrico (em construção). 210 .SALADIN, Peter. Probleme des langfristigen Umweltschutzes. In: Kritische Vierteljahresschrift für Gesetzgebung und Rechtswissenschaft (KritV), Neue Folge, vol. 4 [72], n. 1 (1989), p. 28. 211 .V. HIPPEL, Eike von. Kampfplätze der Gerechtigkeit: Studien zu aktuellen rechtspolitischen Problemen. Berlim: Berliner Wissenschafts Verlag, 2009, p. 244. 212 .A respeito da discussão envolvendo um novo “contrato social” de natureza ecológica e os interesses (e direitos?) dos atores ou agentes não humanos (nichtmenschliche Akteure), v. KERSTEN, Jens. Das Antropozän-Konzept: Kontrakt- Komposition-Konflikt. Baden-Baden: Nomos, 2014, pp. 88-92. 213 .RAWLS, John. A Theory of Justice (Revised Edition). Cambridge: Harvard University Press, 1999, pp. 118-123. 214 .TAYLOR, Paul W. Respect for Nature: a Theory of Environmental Ethics. Princeton: Princeton University Press, 2011, p. 45. 13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/6 CAPÍTULO 1. A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A DIGNIDADE DO ANIMAL NÃO HUMANO E DA NATUREZA CAPÍTULO 1. A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A DIGNIDADE DO ANIMAL NÃO HUMANO E DA NATUREZA 0 Capítulo 1. A dimensão ecológica da dignidade da pessoa humana e a dignidade do animal não humano e da natureza “Na minha opinião, a mudança necessária aqui poderia começar melhor com o reconhecimento explícito da dignidade do ambiente natural (die eigene Würde der natürlichen Mitwelt), especialmente dos animais superiores, da terra, dos oceanos, assim como da vida e da Natureza no seu conjunto, também na Constituição e nas leis individuais” (Klaus Michael Meyer-Abich).1 1. A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA “O homem tem o direito fundamental à liberdade, à igualdade e a condições adequadas de vida, num meio ambiente de qualidade que lhe permita uma vida digna e de bem-estar (...).” (Princípio 1 da Declaração de Estocolmo sobre Meio Ambiente Humano de 1972)2 A matriz filosófica moderna da concepção de dignidade humana é reconduzida essencialmente e na maior parte das vezes ao pensamento do filósofo alemão Immanuel Kant. Até hoje a fórmula elaborada por Kant influencia a grande maioria das conceituações jurídico-constitucionais da dignidade da pessoa humana.3 A formulação kantiana coloca a ideia de que o ser humano não pode ser empregado como simples meio (bloße als Mittel), ou seja, objeto para a satisfação de qualquer vontade alheia, mas sempre deve ser tomado como fim em si mesmo (als Zweck), ou seja, sujeito em qualquer relação,4 seja em face do Estado seja em face de particulares. Isso se deve, em grande medida, ao reconhecimento de um valor intrínseco a cada existência humana individualmente considerada, já que a fórmula de se tomar sempre o ser humano como um fim em si mesmo está diretamente vinculada às ideias de autonomia, de liberdade, de racionalidade e de autodeterminação inerentes à condição humana. A proteção – ética e jurídica – do ser humano contra qualquer reificação da sua existência e o respeito à sua condição de sujeito nas relações sociais e intersubjetivas são seguramente manifestações da concepção kantiana de dignidade da pessoa humana, embora, por certo, encontradas já em pensadores anteriores. A CF/1988, voltando-nos ao direito constitucional positivo, consagra expressamente no seu art. 1.º, III, a dignidade da pessoa humana como princípio fundamental edificante do Estado Democrático de Direito, e, portanto, como ponto de partida e fonte de legitimação de toda a ordem estatal, com destaque aqui para o sistema jurídico pátrio. A dignidade da pessoa humana, como, aliás, já tem sido largamente difundido, assume a condição de matriz axiológica do ordenamento jurídico, visto que é a partir deste valor e princípio que os demais princípios (assim como as regras) se projetam e recebem impulsos que dialogam com os seus respectivos conteúdos normativo- axiológicos, o que não implica aceitação da tese de que a dignidade é o único valor a cumprir tal função e nem a adesão ao pensamento de que todos os direitos fundamentais (especialmente se assim considerados os que foram como tais consagrados pela Constituição) encontram seu fundamento direto e exclusivo na dignidade da pessoa humana.5 Assim, a dignidade humana, para além de ser também um valor constitucional, configura-se como sendo – juntamente com o respeito e a proteção da vida – o princípio de maior hierarquia da CF/1988 e de todas as demais ordens jurídicas que a reconheceram.6 A dignidade da pessoa humana apresenta-se, além disso, como a pedra basilar da edificação constitucional do Estado (Democrático, Social e Ecológico) de Direito brasileiro, na medida em que, aderindo a uma trajetória consolidada especialmente a partir do II Pós-Guerra e inspirada fortemente na visão humanista de Kant e tantos outros, o constituinte reconheceu que é o Estado que existe em função da pessoa humana, e não o contrário, já que o ser humano constitui a finalidade precípua, e não meio da atividade estatal,7 o que, diga-se de passagem, demarca a equiparação de forças na relação Estado-cidadão, em vista da proteção e javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/6 afirmação existencial do último, especialmente no que tange à tutela e promoção dos seus direitos fundamentais. No âmbito de um Estado de Direito que, para além de Democrático e Social, também tem incorporada à sua formatação normativa a qualificação de Ecológico,8 tal qual consagrado na CF/1988 (art. 225), a dignidade da pessoa humana é tomada como o principal, mas não o exclusivo fundamento (e tarefa) da comunidade estatal,9 projetando a sua luz normativa sobre todo o ordenamento jurídico e, assim, vinculando de forma direta todos os entes públicos e privados. Para além de uma força normativa autônoma como princípio (e também valor) jurídico, a dignidade da pessoa humana se projeta especialmente em conjunto com toda uma gama de direitos tanto de natureza defensiva (negativa) como prestacional (positiva), implicando também toda uma gama de deveres fundamentais, que, embora não sejam necessariamente todos deduzidos diretamente da dignidade da pessoa humana, geralmente também atuam como concretizações em maior ou menor medida da dignidade e que também por essa razão podem ser igualmente (como o princípio da dignidade individualmente considerado) opostos tanto em face do Estado quanto frente a particulares.10 Neste último ponto, merece destaque o reconhecimento da eficáciaentre particulares dos direitos fundamentais (e principalmente da dignidade humana), assim como da dimensão normativa (vinculante) do princípio (e dever) constitucional da solidariedade e dos deveres jurídico (para além da dimensão ética e moral) que lhe são inerentes. O princípio da dignidade humana, no mais das vezes em articulação com outros valores e bens jurídico- constitucionais, projeta-se todo um leque de posições jurídicas subjetivas e objetivas, com a função precípua de tutelar a condição existencial humana contra quaisquer violações do seu âmbito de proteção, assegurando o livre e pleno desenvolvimento da personalidade de cada ser humano. Ainda nesse contexto, é possível destacar uma dimensão social (ou comunitária) inerente ao princípio da dignidade da pessoa humana, já que, apesar de ser sempre em primeira linha encarregar-se da dignidade da pessoa concreta, individualmente considerada, a sua compreensão constitucionalmente adequada – ainda mais sob a formatação de um Estado Social – implica necessariamente também um permanente olhar para o outro, visto que indivíduo e a comunidade são elementos integrantes de uma mesma realidade político-social. Em outras palavras, a dignidade do indivíduo nunca é a do indivíduo isolado ou socialmente irresponsável, exigindo também igual dignidade de todos os integrantes do grupo social.11 Como acentua Antunes Rocha, à luz de uma perspectiva fundada no princípio constitucional da solidariedade, “a dignidade humana – mais que aquela garantida à pessoa – é a que se exerce com o outro”,12 com o que apenas se enfatiza a perspectiva relacional da pessoa humana em face do corpo social que integra, bem como o compromisso jurídico (e não apenas moral) do Estado e dos particulares na composição de um quadro social de dignidade para (e com) todos. Com efeito, já alinhando a reflexão com o propósito deste Capítulo, não nos parece possível excluir de uma compreensão necessariamente multidimensional e não reducionista da dignidade da pessoa humana, aquilo que se poderá designar de uma dimensão ecológica (ou, quem sabe, formulado de um modo integrativo, socioambiental) da dignidade humana, que, por sua vez, também não poderá ser restringida a uma dimensão puramente biológica ou física, pois contempla a qualidade de vida como um todo, inclusive do ambiente em que a vida humana (mas também a não humana) se desenvolve. É importante, aliás, conferir um destaque especial para as interações entre a dimensão natural ou biológica da dignidade humana e a sua dimensão ecológica, sendo que esta última objetiva ampliar o conteúdo da dignidade da pessoa humana no sentido de assegurar um padrão de qualidade, integridade e segurança ambiental mais amplo (e não apenas no sentido da garantia da existência ou sobrevivência biológica), mesmo que muitas vezes esteja em causa em questões ecológicas a própria existência natural da espécie humana, para além mesmo da garantia de um nível de vida com qualidade ambiental. Há, portanto, uma lógica evolutiva e cumulativa nas dimensões (liberal, social e ecológica) da dignidade da pessoa humana que também podem ser compreendidas a partir da perspectiva histórica da evolução e consagração político-jurídica dos direitos humanos e fundamentais, já que tais, em larga medida, simbolizam a própria materialização da proteção e promoção da dignidade humana em cada etapa histórica, inclusive como afirmação progressiva e indivisível dos princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade (ou solidariedade). Assim como outrora os direitos liberais e os direitos sociais formataram progressivamente o conteúdo da dignidade humana, hoje também os “direitos ecológicos ou de solidariedade”, como é o caso especialmente do direito a viver em um ambiente sadio, equilibrado e seguro, passam a conformar o seu conteúdo, ampliando javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 3/6 o seu âmbito de proteção. Daí falar-se, conforme já anunciado anteriormente, em uma nova dimensão ecológica para a dignidade humana, em vista especialmente dos novos desafios existenciais de matriz ambiental que afligem o ser humano no âmbito deste mundo de novos “riscos” que se ampliam no horizonte contemporâneo e desafiam a proteção do ser humano, conforme resultou evidenciado de forma paradigmática no Princípio 1 da Declaração de Estocolmo (1972) em destaque na epigrafe de abertura deste tópico.13 Outro importante desenvolvimento recente da dimensão ecológica da dignidade da pessoa humana, notadamente pelo prisma do Direito Internacional dos Direitos Humanos, diz respeito à Opinião Consultiva n. 23/2017 sobre “Meio Ambiente e Direitos Humanos” da Corte Interamericana de Direitos Humanos, como já referida anteriormente, representando o ápice até aqui do denominado “greening”14 do Sistema Interamericano de Direitos Humanos15. A Corte, no referido documento, reconheceu expressamente “la existencia de una relación innegable entre la protección del medio ambiente y la realización de otros derechos humanos, en tanto la degradación ambiental y los efectos adversos del cambio climático afectan el goce efectivo de los derechos humanos”16, “que varios derechos de rango fundamental requieren, como una precondición necesaria para su ejercicio, una calidad medioambiental míima, y se ven afectados en forma profunda por la degradación de los recursos naturales”17, de modo que se tem como consequência disso “la interdependencia e indivisibilidad entre los derechos humanos y la protección del medio ambiente”.18 A decisão proferida pela Corte IDH, no âmbito da sua jurisdição consultiva, reforça o reconhecimento da dimensão ecológica da dignidade da pessoa humana, inclusive pela perspectiva da interdependência e indivisibilidade dos direitos humanos (e também dos direitos fundamentais, no âmbito constitucional). A decisão da Corte IDH conecta de forma definitiva a relação entre direitos humanos e proteção ecológica, reconhecendo, em última instância, o direito humano a viver em um ambiente sadio, tal como consagrado há mais de três décadas no art. 11 (11.1 e 11.2) do Protocolo de San Salvador em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1988). No mesmo sentido, também em sede internacional, a Assembleia Geral da ONU, em 14 de maio de 2018, adotou a Resolução A/RES/72/277 com o propósito de estabelecer um grupo de trabalho ad hoc (ad hoc open-ended working group) para desenvolver o esboço de um “Pacto Global para o Meio Ambiente” (Global Pact for the Environment).19 Ao adotar tal medida, com o reconhecimento do direito ao ambiente como uma nova dimensão ou geração de direitos humanos (direitos de solidariedade ou fraternidade), a ONU opera no sentido de complementar a Carta Internacional dos Direitos Humanos no Sistema Global, integrada, essencialmente, pela Carta da ONU (1945), pela Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) e pelos Pactos Internacionais de Nova Iorque de 1966, respectivamente, o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos Sociais e Culturais. Em outras palavras, o novo documento internacional em gestação poderia (ou até mesmo deveria) ser denominado como Pacto Internacional dos Diretos Ambientais ou Ecológicos. As reflexões elaboradas aqui tomam o conceito jurídico de dignidade da pessoa humana formulado pelo primeiro autor20 como moldura conceitual-normativa aberta a uma reformulação parcial, especialmente para o efeito de enfatizar a inclusãode uma dimensão ecológica e, de tal modo, tornar o conceito mais responsivo aos novos desafios existenciais impostos pela degradação ambiental, mas também em vista da evolução cultural e dos novos valores ecológicos legitimados no âmbito comunitário, como verificado no exemplo do Direito Internacional dos Direitos Humanos. A reflexão aqui lançada também se propõe a apontar para a necessidade de reconhecimento de uma dignidade da vida em geral (dos animais não humanos e da Natureza como um todo), portanto, não apenas da vida humana, bem como ampliando o seu espectro de incidência temporal, do reconhecimento de uma dignidade atribuível à vida das gerações futuras, humanas e não humanas, a fim de demarcar, em termos jurídico-constitucionais, a existência de deveres de proteção da dignidade por parte da atual geração. Para cumprir esse desiderato, após traçar a moldura conceitual para a dignidade da pessoa humana à luz de uma matriz kantiano- antropocêntrica e a caracterização de sua dimensão ecológica, como, aliás, reconhecida expressamente em decisões recentes do Superior Tribunal de Justiça (STJ)21, os seus limites normativos serão ampliados em vista de uma comunicação da compreensão kantiana com os novos valores culturais e éticos que sedimentam as relações sociais no marco da sociedade de risco22 (e em risco de extinção) no início do Século XXI, bem como diante de sua necessária contextualização no âmbito de um modelo de Estado (Democrático, Social e) Ecológico de Direito. javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 4/6 Em razão de ser a dignidade humana a pedra fundamental de toda a edificação jurídico- constitucional contemporânea, qualquer modificação em termos conceituais e de conteúdo no seu regime jurídico acaba por repercutir e projetar-se para todo o sistema jurídico, principalmente no que tange aos direitos fundamentais e à conformação do modelo de Estado de Direito. De outra parte, não é demais lembrar que o nosso propósito aqui é apenas de lançar algumas questões para o debate e de algum modo contribuir para o seu desenvolvimento, mesmo porque não é a certeza que nos move, mas a inquietude. A única certeza é a de que é preciso refletir e avançar, notadamente em vista dos desafios existenciais postos no horizonte civilizatório no novo período geológico do Antropoceno. A partir de agora, caracterizada a dimensão ecológica da dignidade da pessoa humana, iremos avançar na reflexão para além do antropocentrismo kantiano e do espectro humano no que tange ao reconhecimento de um valor intrínseco, buscando caracterizar a dignidade do animal não humano e da Natureza como um todo. 1 .MEYER-ABICH, Klaus Michael. Aufstand für die Natur: von der Umwelt zur Mitwelt. Munique: Carl Hanser, 1990, p. 137. 2 .“Man has the fundamental right to freedom, equality and adequate conditions of life, in an environment of a quality that permits a life of dignity and well-being (…)”. 3 .V. o art. I da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948): “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade”. Destacando os exemplos da DUDH (Preâmbulo e art. 1) e da Lei Fundamental de Bonn de 1949 (art. 1, 1) para pontuar a importância política e jurídica do conceito kantiano de dignidade da pessoa humana, v. PFORDTEN, Dietmar von der. Zur Würde des Menschen bei Kant. Jahrbuch für Recht und Ethik (Recht und Sittlichkeit bei Kant), v. 14, 2006, pp. 501-517 (e, especialmente, p. 502). 4 .KANT, Immanuel. Crítica da razão pura e outros textos filosóficos (Coleção Os Pensadores). São Paulo: Abril Cultural, 1974, p. 229. 5 .Sobre este tópico v. SARLET, Dignidade da pessoa humana..., pp. 95 e ss. 6 .Idem, pp. 73 e ss. 7 .Idem, pp. 68-69. 8 .Dentre outros fundamentos aptos a justificar a defesa de um Estado de Direito Ecológico, verifica-se que há todo um percurso social, econômico, político, cultural e jurídico não concluído pelo Estado Social, ao que se agrega hoje a proteção ambiental. Na doutrina, v. SARLET, Ingo W. (Org.). Estado Socioambiental e direitos fundamentais. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010, e, particularmente defendendo um Estado Ecológico de Direito, LEITE, José Rubens Morato; MELO, Melissa; MICHALSKI, Ely Heidi Ribeiro (Orgs.). Innovations in the Ecological Rule of Law. São Paulo: Inst. O Direito por um Planeta Verde, 2018. Disponível em: [www.planetaverde.org/arquivos/biblioteca/arquivo_20180807153924_7633.pdf]. 9 .HÄBERLE, Peter. A dignidade humana como fundamento da comunidade estatal. In: SARLET, Ingo Wolfgang (Org.). Dimensões da dignidade: ensaios de Filosofia do Direito e Direito Constitucional. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2005, p. 116. 10 .Quanto ao desenvolvimento teórico da dignidade como limite e tarefa do Estado, da comunidade e dos particulares, v. SARLET, Dignidade da pessoa humana..., especialmente, pp. 89-93. 13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 5/6 11 .A noção de uma dignidade socialmente contextualizada, no sentido da dignidade atribuída ao ser humano não como um indivíduo egoísta e possessivo, mas socialmente vinculado e responsável, marcou, desde o seu primórdio, a jurisprudência constitucional alemã. Nesse sentido, v., em caráter ilustrativo, decisão prolatada pelo Tribunal Constitucional Federal da Alemanha, em 08.11.2006 (BVerfGE 117, p. 89), de acordo com a qual “o indivíduo consiste em personalidade que se desenvolve no âmbito da comunidade social(...). A tensão existente entre o indivíduo e a comunidade foi resolvida no âmbito da ordem constitucional no sentido da afirmação de uma vinculação social e comunitária do indivíduo, de modo que o indivíduo deve tolerar restrições na esfera dos seus direitos fundamentais, com vistas a assegurar bens de matriz comunitária” (“Der Einzelne ist eine sich innerhalb der sozialen Gemeinschaft entfaltende Persönlichkeit (...). Die Spannung zwischen dem Individuum und der Gemeinschaft hat das Grundgesetz allerdings insofern im Sinne der Gemeinschaftsbezogenheit und Gemeinschaftsgebundenheit der Person entschieden, als der Einzelne Einschränkungen seiner Grundrechte hinnehmen muss.”). 12 .ANTUNES ROCHA, Cármen Lúcia. Vida digna: direitos, ética e ciência. In: ROCHA, Cármen Lúcia Antunes (Coord.). O direito à vida digna. Belo Horizonte: Editora Fórum, 2004, p. 78. 13 .Amparando a tese aqui defendida em torno de uma dimensão ecológica da dignidade da pessoa humana, registram- se, a título de exemplo, alguns dispositivos de diplomas legislativos ambientais que consagram de forma expressa a vinculação da tutela da dignidade humana à proteção ambiental: art. 2.º, caput, da Lei 6.938/1981 (Lei da Política Nacional do Meio Ambiente) e art. 3.º, II, da Lei Complementar 140/2011 (Competência administrativa em matéria ambiental). 14 .Na doutrina, v. TEIXEIRA, Gustavo de Faria Moreira. Greening no sistema interamericano de direitos humanos. Curitiba: Juruá, 2011. 15 .No sentido de fortalecer ainda mais a tutela ecológica no Sistema Regional Interamericano, inclusive por meio dos direitos ambientais procedimentais, registra-se a proposta de emenda ao Protocolo de San Salvador com o objetivo de tornar oponível a defesa do direito humano ao ambiente perante a Comissão e a Corte Interamericana de Direitos Humanos. A proposta em questão, que deve ser apresentada futuramente perante a Assembleia Geral da Organização dos EstadosAmericanos (OEA), seria implementada por meio da inserção de referência expressa ao art. 11 no parágrafo 6º do art. 19, seguindo, assim, o procedimento do art. 22 do Protocolo de San Salvador. 16 .CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, Opinião Consultiva n. 23/2017..., pp. 21- 22. 17 .Idem, p. 22. 18 .Idem, p. 25. 19 .Disponível em: [www.iucn.org/commissions/world-commission-environmental-law/wcel-resources/global-pact- environment]. 20 .Tem-se por dignidade humana “a qualidade intrínseca e distintiva reconhecida em cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação ativa e corresponsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos, mediante o devido respeito aos demais seres que integram a rede da vida”. SARLET, Dignidade da pessoa humana..., pp. 70-71. 21 .Segundo passagem do voto-relator do Ministro Og Fernandes no AREsp 667.867/SP, em caso envolvendo a responsabilidade civil ambiental por dano ecológico decorrente do derramamento de óleo: “em observância à dimensão intergeracional do princípio (dever) da solidariedade, torna-se necessário consubstanciar as responsabilidades e deveres das gerações contemporâneas – geração de viventes –, de forma a resguardar as condições mínimas de existências para as pessoas que habitarão o planeta, devendo-se voltar o olhar para o futuro https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1981%5C%5C21&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1981-21|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2011%5C%5C4970&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2011-4970|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 6/6 do nosso povo. O reconhecimento da necessidade de preservação para as futuras gerações amplia a dimensão temporal do conceito de dignidade humana para as existências humanas futuras. Cuida-se da dimensão ecológica da dignidade da pessoa humana. Atualmente, pelas razões já referidas, pode-se dizer que os valores ecológicos tomaram assento definitivo no conteúdo do princípio da dignidade humana. Portanto, consolidou-se a formatação de uma dimensão ecológica da dignidade humana, que abrange a ideia em torno de um bem-estar ambiental – assim como o bem-estar social – indispensável a uma vida digna, saudável e segura. Ademais, a dignidade humana é um conceito em permanente processo de reconstrução quanto ao sentido do seu alcance, o que implica sua permanente abertura aos desafios postos pela vida social, econômica, política, cultural e ambiental, ainda mais em virtude do impacto da sociedade tecnológica e da informação. Não se pode conceber uma vida digna sem um ambiente natural saudável e equilibrado. Na espécie, considerar que um derramamento de óleo – independente da quantidade – não configura poluição ou degradação ambiental, implica distorção da regra disposta no art. 3º, III, da Lei n. 6.938/1981, assim como vilipêndio de todo o ordenamento jurídico ambiental. Derramamento de óleo é poluição. Seja por inobservância dos padrões ambientais (inteligência do art. 3º, III, ‘e’, da Lei n. 6.938/81, c/c o art. 17 da Lei n. 9.966/2000) seja por conclusão lógica na estrita observância dos princípios da solidariedade, dimensão ecológica da dignidade humana, prevenção, educação ambiental e preservação das gerações futuras” (STJ, AREsp 667.867/SP, 2ª Turma, rel. Min. Og Fernandes, j. 17.10.2018). Na jurisprudência citada, a 2ª Turma do STJ acolheu expressamente a tese por nós desenvolvida desde a primeira edição desta obra (2008) e também na obra resultante da dissertação de mestrado do coautor Tiago, orientada pelo coautor Ingo (FENSTERSEIFER, Tiago. Direitos fundamentais e proteção do ambiente: a dimensão ecológica da dignidade humana no marco jurídico-constitucional do Estado Socioambiental de Direito. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008), com a transcrição de passagem da 5ª edição da nossa obra no voto-relator do Min. Og Fernandes. Mais recentemente, em outra decisão pioneira e inédita sobre o tema que comentaremos na sequência, o STJ, para além da dimensão ecológica do princípio da dignidade da pessoa humana, mais uma vez servindo-se da tese desenvolvida no nosso livro, com a transcrição de inúmeras passagens dele, também reconheceu e atribuiu dignidade e direitos aos animais não humanos e à Natureza: STJ, REsp 1.797.175/SP, 2ª Turma, Rel. Min. Og Fernandes, j. 21.03.2019. 22 .BECK, Ulrich. La sociedad del riesgo: hacia una nueva modernidad. Barcelona: Paidós, 2001. https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1981%5C%5C21&fromProview=true&fcwh=true&unit=A.3&unit2Scroll=LGL-1981-21|A.3&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1981%5C%5C21&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1981-21|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1981%5C%5C21&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1981-21|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2000%5C%5C249&fromProview=true&fcwh=true&unit=A.17&unit2Scroll=LGL-2000-249|A.17&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2000%5C%5C249&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2000-249|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/3 CAPÍTULO 1. A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A DIGNIDADE DO ANIMAL NÃO HUMANO E DA NATUREZA CAPÍTULO 1. A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A DIGNIDADE DO ANIMAL NÃO HUMANO E DA NATUREZA 0 2. O RECONHECIMENTO DA DIGNIDADE DO ANIMAL NÃO HUMANO E DA NATUREZA “No âmbito do Direito Internacional dos Direitos Humanos tem-se caminhado para reconhecer a interdependência entre o direito humano ao meio ambiente saudável e uma multiplicidade de outros direitos humanos, bem como para afirmá-lo como um direito autônomo titulado pela própria Natureza (e não apenas pelos seres humanos). Há, nesse sentido, duas importantes decisões da Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH). Na Opinião Consultiva no 23/2017, estabeleceu que o direito a um meio ambiente saudável é ‘um interesse universal’ e ‘um direito fundamental para a existência da humanidade”. (Ministro Luis Roberto Barroso)23 2.1. O reconhecimento do valor intrínseco (e dignidade)dos animais não humanos e da Natureza no campo filosófico 2.1.1. Ética ecológica “Deixou de ser absurdo indagar se a condição da Natureza extra-humana, a Biosfera no todo e em suas partes, hoje subjugadas ao nosso poder, exatamente por isso não se tornaram um bem a nós confiados, capaz de nos impor algo como uma exigência moral - não somente por nossa própria causa, mas também em causa própria (ihrer selbst willen) e por seu próprio direito (eigenem Recht)”24 (Hans Jonas). A matriz filosófica moderna para a concepção de dignidade – atribuída exclusivamente por tal paradigma filosófico à pessoa humana – radica essencialmente no pensamento kantiano, de modo que qualquer tentativa de superação de tal “paradigma” teórico e conceitual requer um diálogo com as suas formulações e razões. A formulação central do pensamento kantiano, como referido anteriormente, coloca a premissa de que o ser humano não pode ser empregado como simples meio (ou seja, objeto) para a satisfação de qualquer vontade alheia (de terceiro), mas sempre deve ser tomado como fim em si mesmo (ou seja, sujeito) em qualquer relação, seja em face do Estado, seja em face de outros indivíduos.25 Tal entendimento revela a atribuição de um valor intrínseco ou inerente a cada vida humana pelo simples fato de existir, o que implica, entre outros aspectos, o respeito à sua condição de sujeito nas relações sociais e intersubjetivas que são travadas no quadrante da comunidade político-estatal. A condição de sujeito – e, traduzindo tal status especial para o plano jurídico, de sujeito de direitos dotado de personalidade jurídica – por si só valora de modo especial a sua existência, separando-a dos objetos e coisas destituídos de qualquer valor intrínseco (tanto no plano filosófico-ético quanto jurídico). Ocorre que cada vez mais a leitura estritamente antropocêntrica de tal paradigma filosófico moderno é desafiada e colocada à prova diante da atual crise ecológica e dos valores correlatos emergentes no cenário contemporâneo. O marco antropocêntrico que está na base tanto do pensamento kantiano26 quanto da tradição filosófica ocidental de um modo geral é confrontada pelos novos valores ecológicos contemporâneos, reclamando uma nova concepção ética de respeito à vida para além do limitado espectro do Homo sapiens.27 A vedação (ética e jurídica) da “objetificação” ou “coisificação” (ou seja, tratamento como simples “meio”) da vida não deve, em princípio, ser limitada apenas à vida humana, mas ter o seu espectro ampliado para contemplar também outras formas de vida não humana. A concepção kantiana de dignidade deve ser repensada no sentido do reconhecimento de um fim em si mesmo inerente também a outras formas de vida (ou à vida de um modo geral, seja humana, seja não humana), atribuindo-lhes um valor próprio e não meramente instrumental, ou seja, uma dignidade que igualmente implica um conjunto de deveres para o ser humano. Além disso, comunga-se da inquietação em torno da possibilidade de pelo menos questionar a existência de autênticos direitos, ou, no mínimo, de interesses e bens fundamentais juridicamente tuteláveis, não sendo nosso propósito enunciar aqui juízos conclusivos a respeito de tal aspecto da problemática. javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/3 Todas as concepções (e a de Kant é provavelmente apenas a mais influente) que sustentam ser a dignidade atributo exclusivo da pessoa humana encontram-se, pelo menos em princípio, sujeitas à crítica de um excessivo antropocentrismo, notadamente naquilo em que sustentam que a pessoa humana, em função de sua racionalidade, ocupa lugar superior e privilegiado em relação aos demais seres vivos. De acordo com Kant, conforme anunciado na citação precedente da sua obra, todo o universo “não humano” estaria enquadrado no conceito de coisas, e, portanto, não de pessoas, tendo apenas um valor relativo, na medida em que se prestariam – em maior ou menor grau – como “meio” para a satisfação da vontade humana. No entanto, de acordo com o nosso entendimento, para além de tal “compreensão especista”, sempre haverá como sustentar a dignidade da própria vida e da Natureza de um modo geral, ainda mais numa época em que o reconhecimento da proteção do ambiente como valor ético-jurídico fundamental indicia que não mais está em causa apenas a vida humana, mas a preservação de todos os recursos naturais, incluindo todas as formas de vida existentes no Planeta Terra, ainda que se possa argumentar que tal proteção da vida em geral constitua, em última análise, exigência da vida humana e, acima de tudo, da vida humana com dignidade.28 Em razão das mudanças ocorridas também no tocante à ação humana, notadamente por força do impacto ocasionado pela civilização tecnológica, Jonas questiona a validade da concepção antropocêntrica de toda a ética moderna. Nesse sentido, para o filósofo alemão, é com razão que se discute, por uma perspectiva moral, a possibilidade de reconhecer direitos próprios da Natureza, atribuindo-se o status de um “fim em si mesmo” para além da esfera humana.29 A reflexão proposta constitui um prenúncio dos novos caminhos que deverão ser percorridos no horizonte evolutivo do pensamento humano, já que, como pontua, “só uma ética fundada na amplitude do ser, e não apenas na singularidade ou na peculiaridade do ser humano, é que pode ser de importância no universo das coisas”.30 Em virtude de tais considerações, Jonas destaca a ampliação do próprio dever humano, que, para além da sua própria dimensão, também deve abarcar uma dimensão extra-humana, a fim de abranger o respeito pelas e o interesse das “coisas extra-humanas”.31 Em que pese uma fundamentação doutrinária ainda em evolução (pelo menos no campo jurídico) em defesa de uma perspectiva “biocêntrica” – abarcando apenas a comunidade biótica, ou seja, todos os seres vivos (Lebendige) do Planeta Terra32 – e mesmo “ecocêntrica” – portanto, mais ampla, contemplando tanto os elementos bióticos quanto abióticos – para a concepção da dignidade humana (e também do Direito de um modo geral), a relevância do tema, diante da exposição existencial a que está submetido o ser humano contemporâneo e da emergência de novos valores culturais (veiculados, por exemplo, pelo movimento ecológico e pelo movimento dos direitos dos animais), parece justificar a presente releitura da questão. O dilema existencial com que se defronta a humanidade no Antropoceno revela cada vez mais a fragilidade (para não dizer falácia) da separação cartesiana entre ser humano e Natureza. Em tempos de poluição plástica dos oceanos, poluição química, aquecimento global e outras questões que desnudam o vínculo existencial elementar existente entre o ser humano e as bases naturais da vida, revela-se como insustentável pensar o humano sem relacioná-lo diretamente com o seu espaço ambiental e toda a cadeia de vida que fundamenta a sua existência. Com a fragilização da base natural que lhe dá suporte, também a vida humana é colocada em situação de vulnerabilidade. Nesse contexto, assim como se fala em dignidade da pessoa humana, atribuindo-se valor intrínseco à vida humana, também devemos considerar a atribuição de dignidade às bases naturais da vida, conferindo-se à Natureza e aos elementos naturais (rios, florestas, paisagens etc.) um valor intrínseco. O filósofo alemão Hans Jonas, em sua obra O princípio da vida, à luz de uma biologia filosófica, busca reformular a compreensão ética moderna da relação entre ser humano e Natureza, em vista de afirmar que há algo de transcendente e espiritual já na própria base da vida (e não apenas na etapa evolutiva onde se encontra o ser humano), havendo, portanto, um valor intrínseco a ser reconhecido à própria existência orgânica como tal.33 Mas, para alémda compreensão de Jonas, também nos parece possível considerar uma perspectiva ética de matriz ecocêntrica, no sentido de reconhecer a dignidade não apenas na “existência orgânica ou dos seres vivos”, mas também nos elementos abióticos da Natureza, sem o que a sua integridade resulta comprometida e, consequentemente, o equilíbrio do qual toda a cadeia da vida planetária é dependente. javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 3/3 23 .Passagem da decisão do Ministro Luis Roberto Barroso proferida em 28.06.2020 no Caso Fundo Clima, ao convocar a audiência pública realizada nos dias 21 e 22.09.2020 perante o Supremo Tribunal Federal (STF, ADPF 708/DF, Rel. Min. Luis Roberto Barroso, ainda pendente de julgamento). 24 .JONAS, Hans. Das Prinzip Verantwortung. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2003 (1ª edição em 1979), p. 29. Tradução para o português: JONAS, Hans. O princípio responsabilidade. Rio de Janeiro: Contraponto/PUCRio, 2006. 25 .KANT, Crítica da razão pura..., p. 229. 26 .A citação que segue marca de forma expressa o excessivo antropocentrismo do pensamento kantiano, sobre o qual se pretende refletir e verificar neste trabalho a sua pertinência e atualidade à luz dos novos valores ecológicos que permeiam o pensamento contemporâneo. “Os seres cuja existência depende, não em verdade da nossa vontade, mas da natureza, têm, contudo, se são seres irracionais, apenas um valor relativo como meios e por isso se chamam coisas, ao passo que os seres racionais se chamam pessoas, porque a sua natureza os distingue já como fins em si mesmos, quer dizer, como algo que não pode ser empregado como simples meio e que, por conseguinte, limita nessa medida todo o arbítrio (e é um objeto do respeito)”. KANT, Crítica da razão pura..., p. 229. 27 .No campo filosófico, analisando o pensamento de diferentes autores sobre a questão da dignidade dos animais (não humanos), v. BRENNER, Andreas. Umweltethik: ein Lehr- und Lesebuch. Fribourg: Academic Press, 2008, pp. 157 e ss. 28 .Tais reflexões encontram-se também em SARLET, Dignidade da pessoa humana..., pp. 41 e ss. 29 .JONAS, Hans. El principio de responsabilidad: ensayo de una ética para la civilización tecnológica. Barcelona: Herder, 1995, p. 35. 30 .JONAS, O princípio da vida..., p. 272. 31 .“¿Y si el nuevo modo de acción humana significase que es preciso considerar más cosas que únicamente el interés de ‘el hombre’, que nuestro deber se extiende más lejos y que ha dejado de ser válida la limitación antropocéntrica de toda ética anterior? Al menos ya no es un sinsentido preguntar si el estado de la naturaleza extrahumana – la biosfera en su conjunto y en sus parte, que se encuentra ahora sometida a nuestro poder – se ha convertido precisamente por ello en un bien encomendado a nuestra tutela y puede plantearnos algo así como una exigencia moral, no solo en razón de nosotros, sino también en razón de ella y por su derecho propio”. JONAS, El principio de responsabilidad..., p. 35. 32 .KREBS, Angellika. Naturethik im Überblick. In: KREBS, Angelika (Org.). Naturethik: Grundtexte der gegenwärtigen tier- und ökologischen Diskussion. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1997, p. 345. O “biocentrismo” (Biozentrismus) – do grego bíos, vida – caracteriza-se por defender que “todos os seres vivos merecem consideração por si mesmos” (“Alles Lebendige verdient Rücksicht um seiner selbst willen”). No caso do “ecocentrismo” – também denominado por alguns de “ética holística” (holistische Ethik) ou “fisiocentrismo” (radikaler Physiozenrismus), do grego physis, ou seja, Natureza –, “toda a Natureza (versão holística) ou tudo na Natureza (versão individualista) merece consideração por si mesmo” (“die ganze Natur – holistische Version –- bzw. alles in der Natur – individualistische Version – verdient Rücksicht um ihrer – seiner – selbst willen”). Há ainda a expressão “patocentrismo” (Pathozentrismus) – do grego páthein, padecer – para designar a concepção ética de que “todos os seres sencientes merecem consideração por si mesmos” (“alle empfindungsfähigen Wesen verdienen Rücksicht um ihrer selbst willen”). KREBS, Naturethik im Überblick…, p. 345. No mesmo sentido v, BOSSELMANN, Im Namen der Natur…, pp. 265-277. 33 .JONAS, Hans. O princípio da vida. Petrópolis: Editora Vozes, 2004, p. 15. 13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/4 CAPÍTULO 1. A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A DIGNIDADE DO ANIMAL NÃO HUMANO E DA NATUREZA CAPÍTULO 1. A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A DIGNIDADE DO ANIMAL NÃO HUMANO E DA NATUREZA 0 2.1.2. Ética animal A discussão sobre a atribuição e o reconhecimento de um valor intrínseco à vida animal (não humana), bem como a atribuição de direitos aos animais tem sido objeto de acirrada discussão no âmbito filosófico, mais especificadamente no campo da ética (bioética). A assim designada ética animal34 questiona, entre outros pontos polêmicos, a condição moral dos animais, a questão dos direitos e interesses dos animais, bem como os deveres dos seres humanos para com os animais não humanos. Por esse prisma, diversos autores – de filósofos a juristas – têm discutido a natureza do comportamento humano e da ação humana para com os animais, o que, por si só, iniciou um movimento praticamente mundial de defesa do bem-estar dos animais e também em prol do reconhecimento de direitos dos animais, inclusive com a consagração normativa de tais reivindicações em diversos ordenamentos jurídicos.35 Um dos exemplos mais significativos (se não o mais) desse movimento está na obra A libertação animal (1975) de Peter Singer.36 No entanto, as mesmas reflexões também se fizeram presentes no pensamento de outros importantes autores, como é o caso de Tom Regan, Ursula Wolf, Raymond G. Frey, Gunther Patzig, Gary L. Francione, entre outros.37 Antes de adentrar no desenvolvimento da ética animal, é importante destacar alguns aspectos da filosofia moderna, notadamente de matriz cartesiana, que se colocam como a antítese da ética animal. Um paradigma filosófico que modelou, em grande medida, o pensamento moderno de matriz iluminista, e que influencia até hoje o nosso método de abordagem científica (e o Direito não fica alheio a tal condicionamento), é a ideia de “animal-máquina” formulada por Descartes (Discurso do Método, Quinta Parte).38 O filósofo francês defende o entendimento de que os animais podem ser equiparados a máquinas móveis ou autômatos, já que, diferentemente do homem que é composto de corpo e alma (e, portanto, nunca poderia ser identificado com uma simples máquina), apenas possuem corpo.39 Ao afirmar que os animais não possuem nenhuma razão40 e, portanto, tampouco valor intrínseco, Descartes abriu caminho para a separação entre ser humano e Natureza que até hoje marca a abordagem científica em quase todas as áreas do conhecimento, bem como para o processo de instrumentalização da vida animal (e da Natureza em geral). Como contraponto a tal panorama filosófico moderno de matriz cartesiana, Singer defende o princípio ético sobre o qual assenta a igualdade humana nos obriga a ter igual consideração para com os animais não humanos, considerando que “a defesa da igualdade não depende da inteligência, da capacidade moral, da força física ou características semelhantes. A igualdade é uma ideia moral, e não a afirmação de um fato”.41 Nesse ponto, Singer denuncia a “tirania dos animais humanos” sobre os animais não humanos, defendendo que estes deveriam ser tratados como seres “sencientes”42 e independentes que são, e não comoum meio para os fins humanos. O movimento de libertação animal capitaneado por sua obra propõe-se a acabar com os preconceitos e discriminações baseados em características arbitrárias como a espécie animal (assim como ocorrido, especialmente no passado, em relação à raça e ao gênero humano). A discriminação arbitrária referida caracterizaria o que Singer denomina de especismo, que configuraria “um preconceito ou atitude de favorecimento dos interesses dos membros de uma espécie em detrimento dos interesses dos membros de outras espécies”,43 já que, assim como se verificou – e ainda se verifica – no racismo e no sexismo, o que está em jogo agora não são os interesses dos membros da mesma raça ou do mesmo sexo, mas os interesses dos membros da mesma espécie animal (ou natural). De modo similar a Singer, mas num contexto ainda mais amplo, contemplando todas as formas de vida, Paul Taylor trata do princípio da imparcialidade entre espécies (Principle of Species-Impartiality), inclusive como forma de rejeitar a superioridade humana em relação aos outros seres vivos.44 Numa abordagem marcada por um viés filosófico utilitarista, com base nas formulações de Bentham, Singer afirma que está na “capacidade de sofrimento a característica vital que concede a um ser o direito a uma consideração igual”, e não na faculdade da razão ou na faculdade da javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/4 linguagem ou discurso.45 Se um ser (humano ou não humano) sofre, não haveria justificativa moral para recusar ter em conta esse sofrimento, e da mesma forma não haveria qualquer justificativa moral para considerar a dor (ou prazer) que os animais sentem como menos importante do que a mesma dor (ou prazer) sentida pelo ser humano.46 Como refere Singer, “a dor e o sofrimento são maus em si mesmos, devendo ser evitados ou minimizados, independentemente da raça, do sexo ou da espécie do ser que sofre”, cabendo ao ser humano, diante de tal constatação, “transportar os animais não humanos para a esfera da preocupação moral e deixar de tratar as suas vidas como banais, utilizando-as para quaisquer fins que tenhamos em mente”. 47 Direcionando fortes críticas ao tratamento dispensado aos animais pela filosofia kantiana, que os destituía de qualquer valor intrínseco e colocava os deveres dos seres humanos para com os animais apenas como um dever indireto para com a própria humanidade (justamente a perspectiva antropocêntrica ora questionada), Nussbaum alerta para o fato de que o reconhecimento da dignidade de determinadas existências não humanas implica uma questão básica de justiça, já que, na esteira do que foi afirmado por Aristóteles, há algo de admirável ou respeitável (wonderful; wonder-inspiring) em todas as formas complexas de vida animal.48 A autora, de outra parte, rejeita a ideia de compaixão e humanidade no tratamento dos animais não humanos, defendendo uma ideia de justiça que transcenda tal perspectiva para reconhecer o valor intrínseco e a dignidade de animais não humanos. O dever moral de um tratamento não cruel dos animais não humanos deve buscar o seu fundamento não mais na dignidade humana ou na compaixão humana, mas sim na própria dignidade inerente às existências dos animais não humanos. Tal reflexão, na nossa compreensão, pode ser ampliada para a vida em termos gerais, não se limitando à esfera animal. O marco referencial para a atribuição de dignidade ou de valor intrínseco a determinada forma de vida, diante de tal fundamentação filosófica, está na sua capacidade de sentir dor (seres sensitivos), o que se dá em razão do desenvolvimento (em maior ou menor grau) do seu sistema nervoso central, característico dos animais vertebrados. Nesse sentido, Feijó defende a sensibilidade fisiológica como critério de moralidade, a partir da identificação de receptores especializados (os nociceptores) que tornam um ser sensível, o que, segundo tal entendimento, justificaria o ingresso dos animais sensitivos não humanos na mesma comunidade moral integrada pelos seres humanos, bem como o reconhecimento de um valor intrínseco em tais manifestações existenciais.49 Regan, por sua vez, a partir de uma fundamentação filosófica de matriz deontológica, com sua clássica obra The Case for Animal Rights,50 datada de 1983, defende a ideia de que os animais humanos e não humanos são sujeitos de uma vida, o que os torna iguais do ponto de vista moral, e, portanto, depositários do mesmo respeito e consideração, não podendo ser tomadas as suas vidas como um simples meio, mas sim como um fim em si mesmo.51 Destaca o autor que “verdades biológicas”, como a inclusão de um ser na mesma espécie animal, raça ou sexo, não têm importância para a discussão moral de atribuir ou não a determinado ser direitos e respeito por sua existência,52 sendo os animais sujeitos de uma vida igual em aspectos relevantes, relacionados aos direitos conferidos aos seres humanos, como é o caso dos direitos à vida, à integridade física e à liberdade.53 Quando trabalha com o conceito de sujeitos de uma vida, Regan estabelece a premissa de que os animais enquadrados em tal situação não podem ter as suas vidas tomadas como mero objeto, mas sim devem ter reconhecida a sua condição de sujeitos, ou seja, de protagonistas do destino das suas existências. As reflexões formuladas por Singer e Regan, entre outros pensadores identificados com o que se tem designado de uma “ética animal”, ainda que não seja o caso de assumir como corretas todas as suas formulações, nos fazem pelo menos repensar a justificativa moral para a ação humana, o que passa pela reformulação, em maior ou menor escala, dos nossos hábitos alimentares, dos métodos agrícolas e pecuários utilizados, assim como pela revisão das práticas experimentais no campo da ciência.54 Da mesma forma, uma ética e uma responsabilidade jurídica para com a vida não humana revela-se especialmente impactante no que diz respeito a nossa atitude em relação à vida selvagem e à caça, o uso de peles, a utilização de animais como diversão em circos, rodeios e jardins zoológicos, entre outras formas de se considerar a vida animal não humana como simples meio ou mero objeto à disposição da vontade do ser humano, e não como um fim em si mesma. A consagração de um status moral dos animais sensitivos não humanos, que passam, nesse sentido, a integrar uma comunidade moral partilhada com os seres humanos, constitui certamente um possível fundamento para o reconhecimento da dignidade do animal não humano. javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 3/4 De outra parte, é preciso agregar que as ponderações tecidas em relação ao discurso ético aplicado aos animais não excluem a consideração de uma dignidade da vida de um modo geral (e à Natureza como um todo) e não apenas dos animais sensitivos, já que não são apenas estes que integram a complexa e interdependente teia da vida no Planeta Terra, o que faz sentido especialmente quando se examina a questão à luz de uma concepção abrangente do que seja um meio ambiente ecologicamente equilibrado também para o Direito. Tomando-se a discussão em torno de uma “ética animal” como exemplificativa de uma concepção mais alargada de uma ética do respeito à vida, na linha da postura que já preconizava Albert Schweitzer55 esem que se pretenda aqui avançar qualquer conclusão, já que apenas tangenciada a questão, o que mais importa é ter presente a necessidade de transferir a discussão do plano ético também para o discurso jurídico, apontando não apenas para a possibilidade, como para a necessidade de uma sintonia entre ambos. 34 .Para um panorama geral acerca das diferentes correntes filosóficas na seara da ética animal, v. NACONECY, Carlos. Ética e animais: um guia de argumentação filosófica. 2. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2014. 35 .Por exemplo, o Animal Welfare Act, nos Estado Unidos, em 1985; o British Animals (Scientific Procedures) Act, na Inglaterra, em 1986; e o International Guiding Principles for Biomedical Research Involving Animals, de 1984. No contexto brasileiro, merecem registro a Lei 11.794/2008, que, de modo a revogar a antiga Lei 6.638/1979 e regulamentar o inc. VII do § 1.º do art. 225 da CF/1988, estabeleceu procedimentos para o uso científico de animais entre outras medidas; a Lei 9.605/1998 (Lei dos Crimes Ambientais); a Lei 10.519/2002 sobre a promoção e fiscalização da defesa sanitária animal na realização de rodeios; bem como a própria CF/1988, que, no seu art. 225, § 1.º, VII, veda práticas que provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais à crueldade. 36 .Destaca-se que a primeira edição da obra de SINGER data de 1975, tendo sido reformulada em 1990. SINGER, Peter. Libertação animal. Porto: Via Optima, 2000. Do autor, v. também SINGER, Peter. Ética prática. São Paulo: Martins Fontes, 2002. 37 .V. KREBS, Angelika (Org.). Naturethik: Grundtexte der gegenwärtigen tier- und ökologischen Diskussion. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1997; e WOLF, Ursula (Org.) Texte zur Tierethik. Stuttgart: Reclam, 2008. 38 .DESCARTES, René. Discurso do método; meditações; objeções e respostas; as paixões da alma; cartas. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 60. 39 .Idem, p. 55. 40 .Idem, p. 61. 41 .SINGER, Libertação animal..., p. 4. 42 .SINGER designa como “seres sencientes” aqueles que detêm capacidade de sofrer e/ou experimentar alegria, determinando a fronteira que coloca o limite da preocupação moral dos seres humanos relativamente aos interesses dos outros seres (Idem, p. 8). 43 .Idem, p. 6. 44 javascript:void(0) https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2008%5C%5C3014&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2008-3014|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1979%5C%5C20&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1979-20|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=A.225&unit2Scroll=LGL-1988-3|A.225&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1998%5C%5C75&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1998-75|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C2002%5C%5C494&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-2002-494|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun https://signon.thomsonreuters.com/?productid=WLBR&returnto=http://www.revistadostribunais.com.br/maf/app/authentication/signon&bhcp=1&redirect=/maf/app/document?stid=st-rql&marg=LGL%5C%5C1988%5C%5C3&fromProview=true&fcwh=true&unit=&unit2Scroll=LGL-1988-3|&mdfilter=exclude-ficha-ind-comun 13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 4/4 .TAYLOR, Paul W. Respect for nature: a theory of environmental ethics. Princeton: Princeton University Press, 2011, p. 45. 45 .SINGER, Libertação animal..., p. 7. Para exemplificar a formulação exposta, é oportuna a passagem da obra de Singer: “Uma pedra não tem interesses porque não é capaz de sofrimento. Nada que lhe façamos fará a mais pequena diferença em termos do seu bem-estar. A capacidade de sofrimento e alegria é, no entanto, não apenas necessária, mas também suficiente para que possamos afirmar que um ser tem interesses – a um nível mínimo absoluto, o interesse de não sofrer. Um rato, por exemplo, tem interesse em não ser pontapeado ao longo da rua, pois sofrerá se isso lhe for feito” (Idem, ibidem). Desenvolvendo o ponto, mediante recurso à fundamentação adicional, v. ARAÚJO, Fernando, A hora dos direitos dos animais, pp. 95 e ss. 46 .Idem, p. 14. 47 .Idem, pp. 16-18. 48 .NUSSBAUM, Martha C. “Beyond ‘compassion and humanity’: justice for nonhuman animals”. In: SUNSTEIN, Cass R.; NUSSBAUM, Martha C. (Orgs.). Animal rights: current debates and new directions. Nova York: Oxford University Press, 2004, p. 306. O texto em questão encontra-se traduzido para o português em: MOLINARO, Carlos A.; MEDEIROS, Fernanda L. F.; SARLET, Ingo W.; FENSTERSEIFER, Tiago (Org.). A dignidade da vida e os direitos fundamentais para além dos humanos: uma discussão necessária. Belo Horizonte: Editora Fórum, 2008, pp. 85-126. 49 .FEIJÓ, Anamaria. A utilização de animais na investigação e docência: uma reflexão ética necessária. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005, p. 22 e 129. A autora estabelece uma distinção entre agentes morais e pacientes morais, sendo que, não obstante ambos serem membros da mesma comunidade moral, e, portanto, detentores de valor intrínseco e de direitos próprios, apenas aos agentes morais são atribuídos deveres. De um modo geral, há identidade entre os pacientes morais e os animais “sencientes” não humanos, assim como entre os agentes morais e os seres humanos, mas nem todos os seres humanos são ou estão na condição de agentes morais. Aos agentes morais, cumpre zelar pelos interesses e direitos dos pacientes morais (pp. 130-131). 50 .REGAN, Tom. The case for animal rights. Berkeley: University of California Press, 1983. 51 .REGAN, Jaulas vazias..., pp. 61-62. 52 .Idem, p. 78. 53 .Idem, p. 60. 54 .No que tange ao uso de animais em experimentos científicos e na prática docente, v. entre outros, FEIJÓ, Anamaria. A utilização de animais na investigação e docência: uma reflexão ética necessária. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005. 55 .Sobre o tema da ética do respeito à vida, vale sempre retomar as lições de Albert Schweitzer, Prêmio Nobel da Paz em 1952. Já no início da década de 1930, o autor “profetizava” que “ainda veremos o dia em que a opinião pública não mais há de tolerar nenhum divertimento popular que se realize à custa de maus tratos de animais”. SCHWEITZER, Albert. Minha vida e minhas ideias. São Paulo: Edições Melhoramentos, p. 242. Do autor, v. também SCHWEITZER, Albert. Filosofia da civilização. São Paulo: Editora UNESP, 2013, especialmente pp. 283-302. 13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 1/6 CAPÍTULO 1. A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A DIGNIDADE DO ANIMAL NÃOHUMANO E DA NATUREZA CAPÍTULO 1. A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A DIGNIDADE DO ANIMAL NÃO HUMANO E DA NATUREZA 0 3. O RECONHECIMENTO DA DIGNIDADE E DOS DIREITOS DA NATUREZA NA ORDEM CONSTITUCIONAL? UMA (RE)LEITURA ECOCÊNTRICA DA EXPRESSÃO “TODOS” DO CAPUT DO ART. 225 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 3.1. A superação do antropocentrismo clássico e a ascensão de um novo paradigma jurídico ecocêntrico no âmbito constitucional? “A Constituição, no seu artigo 225, § 1º, VII, acompanha o nível de esclarecimento alcançado pela humanidade no sentido de superação da limitação antropocêntricaque coloca o homem no centro de tudo e todo o resto como instrumento a seu serviço, em prol do reconhecimento de que os animais possuem uma dignidade própria que deve ser respeitada. O bem protegido pelo inciso VII do § 1º do artigo 225 da Constituição, enfatizo, possui matriz biocêntrica, dado que a Constituição conferevalor intrínseco às formas de vida não humanas e o modo escolhido pela Carta da República para a preservação da fauna e do bem-estar” (Passagem do voto da Ministra Rosa Weber do STF no julgamento da ADI 4.983).56 O Direito Constitucional Ecológico, dada a natureza multidisciplinar das suas fontes, deve pautar-se pela realidade planetária, o que, a nosso ver, impõe necessariamente a discussão em torno de uma nova fase do seu desenvolvimento à luz de um novo paradigma ecocêntrico dada a magnitude dos desafios de ordem existencial relacionados ao atual “estado ambiental global” postos no Antropoceno. Igualmente, não há como negar um certo “fracasso” do Direito Ambiental, tanto em âmbito internacional quanto doméstico, após aproximadamente cinco décadas de existência e edificado com base em um paradigma predominantemente antropocêntrico, em conter os rumos civilizacionais predatórios na nossa relação com a Natureza. Como já nos havia alertado Vittorio Hösle, no sentido de estarmos situados num ponto de viragem na história da humanidade (Wendepunkt der Geschichte des Menschen)57, nunca antes na esfera jurídica a discussão em torno de uma virada copernicana de matriz “ecocêntrica” se fez tão presente (e urgente), sobretudo após o reconhecimento de que estamos vivendo em um novo período geológico (Antropoceno) derivado do nosso impacto na integridade ecológica do Planeta Terra. A Assembleia Geral da ONU, por meio da Resolução 63/278, de 22 abril de 2009, designou o dia 22 de abril como o “Dia Internacional da Mãe Terra” (International Mother Earth Day). Um ano antes, a Assembleia Geral da ONU também havia proclamado o ano de 2008 como o “Ano Internacional do Planeta Terra” (International Year of Planet Earth).58 Na Resolução 63/278, a Assembleia Geral da ONU consignou que: “Reconhecendo que a Terra e seus ecossistemas são nosso lar, e convencidos de que para alcançar um justo equilíbrio entre as necessidades econômicas, sociais e ambientais das gerações presentes e futuras, é necessário promover a harmonia com a Natureza e a Terra, Reconhecendo que a Mãe Terra é uma expressão comum para o planeta Terra em vários países e regiões, o que reflete a interdependência que existe entre os seres humanos, outras espécies vivas e o planeta que todos nós habitamos”. Posteriormente, por meio da Resolução 67/214, de 21 de dezembro de 2012, a Assembleia Geral da ONU, de modo complementar e inclusive remetendo ao conteúdo da Carta Mundial da Natureza (World Charter for Nature) de 198259 e destacando a atual tendência de reconhecimento dos direitos da Natureza, assinalou que: “5. Reconhece que o Planeta Terra e os seus ecossistemas são a nossa casa e que a ‘Mãe Terra’ é uma expressão comum em vários países e regiões, e que alguns países reconhecem os direitos da Natureza (the rights of Nature) no contexto da promoção do desenvolvimento sustentável, e está convencido de que, para alcançar um justo equilíbrio entre as necessidades económicas, sociais e ambientais das gerações presentes e futuras, é necessário promover a harmonia com a Natureza; javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) 13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021 https://proview.thomsonreuters.com/title.html?redirect=true&titleKey=rt%2Fmonografias%2F93001289%2Fv7.4&titleStage=F&titleAcct=7fc5f12a9b124d4f9e… 2/6 6. Apela a abordagens holísticas e integradas ao desenvolvimento sustentável que guiem a humanidade a viver em harmonia com a Natureza e conduzam a esforços para restaurar a saúde e integridade dos ecossistemas da Terra; A nossa percepção (científica, filosófico-ética, econômica, jurídica etc.) da Natureza e do Planeta Terra alterou-se radicalmente na última Década, como bem ilustram as passagens das resoluções da Assembleia Geral da ONU, acompanhadas de inúmeros outros diplomas internacionais em matéria ambiental antecedentes, como a Convenção-Quadro sobre Mudanças Climáticas (1992), acompanhada do Acordo de Paris (2015), e a Convenção-Quadro sobre Diversidade Biológica (1992). De (apenas) “recursos” necessários para o desenvolvimento civilizatório, a Natureza passou a ser reconhecida cada vez mais como algo intrínseco e interdependente à existência humana. A ameaça cada vez mais premente de um colapso ecológico, como bem ilustram os exemplos das mudanças climáticas e da perda massiva de biodiversidade, nos obriga a mirar a “big picture”, ou seja, a identificar o Planeta Terra (ou Mãe Terra) como um ente vivo, assim como o Homo sapiens. Um sistema complexo de vida totalmente interdependente tanto em nível local quanto global ou planetário. O comprometimento da sua integridade ecológica implica o desequilíbrio de toda a cadeia de vida que o habita, entre os quais se encontra o ser humano. É, como dito nas resoluções da Assembleia Geral da ONU citadas, a “nossa casa ou lar” (our home), assim como de todas as demais formas de vida que o habitam e que, cada vez mais, estão ameaçadas de extinção. Como dito de forma reiterada pela jovem ativista climática sueca Greta Thunberg do movimento Fridays for Future nos seus discursos: “a nossa casa está em chamas ou pegando fogo” (“our House is on Fire”).60 Não é mais possível sustentar, como fez a Declaração de Estocolmo sobre Meio Ambiente Humano (1972) no seu Preâmbulo (item 5), documento que simboliza a gênese do Direito Ambiental no plano internacional, ao dispor que: “de todas as coisas do mundo, as pessoas são as mais preciosas”61. Essa pretensa “centralidade”, acompanhada de uma ideia de superioridade, que o ser humano se (auto) atribui não encontra consonância com as “leis da Natureza” e a história natural do Planeta Terra de 3.8 bilhões de anos. Pelo contrário, impõe-se a necessidade de um novo paradigma filosófico, jurídico, econômico etc. acerca da compreensão do nosso lugar na Natureza e da nossa relação com a “comunidade viva ou da vida no Planeta Terra” (Earth’s Community of Life), como dito por Paul W. Taylor62, tomando como premissa que a integramos apenas como mais um ser biológico na cadeia da vida planetária e somos totalmente dependentes das suas bases naturais de sustentação. É preciso urgentemente reequacionar moral e juridicamente a nossa relação com a Natureza. A raiz antropocêntrica que se perpetuou ao longo de quase meio século de desenvolvimento do Direito Ambiental desde o início da Década de 1970, como referido anteriormente, não se mostra mais compatível com os desafios que enfrenta a humanidade hoje e, mais do que isso, diante de todo o arcabouço científico que – por força da obra, entre outros, de Darwin e Humboldt a partir de meados do século XIX – se desenvolveu progressivamente no âmbito das ciências naturais para caracterizar a relação vital entre ser humano e Natureza. A hoje designada “ciência planetária ou ciência da Terra (Earth Science)”, como se verifica no exemplo da “ciência climática”, é o ponto culminante desse novo paradigma científico ecossistêmico. O ser humano é um ser biológico num mundo natural. Fato; e não ideologia. Soma-se a isso tudo os valores morais