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13/04/2023, 19:44 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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PRIMEIRAS PÁGINAS
PRIMEIRAS PÁGINAS
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DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
Constituição, Direitos Fundamentais e
Proteção da Natureza
Autores
Ingo Wolfgang Sarlet
Tiago Fensterseifer
Thomson Reuters Brasil
Juliana Mayumi Ono
Diretora responsável
© desta edição [2021]
Av. Dr. Cardoso de Melo, 1855 – 13º andar - Vila Olímpia
CEP 04548-005, São Paulo, SP, Brasil
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio
ou processo, especialmente por sistemas gráficos, microfílmicos, fotográficos, reprográficos,
fonográficos, videográficos. Vedada a memorização e/ou a recuperação total ou parcial, bem como a
inclusão de qualquer parte desta obra em qualquer sistema de processamento de dados. Essas
proibições aplicam-se também às características gráficas da obra e à sua editoração. A violação dos
direitos autorais é punível como crime (art. 184 e parágrafos, do Código Penal), com pena de prisão
e multa, conjuntamente com busca e apreensão e indenizações diversas (arts. 101 a 110 da Lei
9.610, de 19.02.1998, Lei dos Direitos Autorais).
Os autores gozam da mais ampla liberdade de opinião e de crítica, cabendo-lhes a
responsabilidade das ideias e dos conceitos emitidos em seus trabalhos.
Central de Relacionamento Thomson Reuters Selo Revista dos Tribunais
(atendimento, em dias úteis, das 09h às 18h)
Tel. 0800.702.2433
e-mail de atendimento ao consumidor: sacrt@thomsonreuters.com
e-mail para submissão dos originais: aval.livro@thomsonreuters.com
Conheça mais sobre Thomson Reuters: www.thomsonreuters.com.br
Visite nosso site: www.livrariart.com
Profissional
Fechamento desta edição: [03.05.2021]
ISBN 978-65-5614-514-3
13/04/2023, 19:08 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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FICHA CATALOGRÁFICA
FICHA CATALOGRÁFICA
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Ficha catalográfica
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Sarlet, Ingo Wolfgang
Direito Constitucional Ecológico [livro eletrônico] : Constituição, direitos fundamentais e proteção
da natureza / Ingo Wolfgang Sarlet, Tiago Fensterseifer. -- 5. ed. -- São Paulo : Thomson Reuters
Brasil, 2021.
6 Mb ; ePub
5. ed. em e-book baseada na 7. ed. impressa.
Bibliografia.
ISBN 978-65-5614-514-3
1. Direito ambiental - Brasil 2. Direito constitucional - Brasil I. Fensterseifer, Tiago. II. Título.
21-64829 CDU-342:502.7(81)
Índices para catálogo sistemático:
1. Brasil : Direito constitucional ambiental
342:502.7(81)
Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427
13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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PREFÁCIO À 6ª EDIÇÃO - MICHEL PRIEUR
PREFÁCIO À 6ª EDIÇÃO - MICHEL PRIEUR
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Prefácio à 6ª edição1
O Direito Constitucional do Meio Ambiente se tornou a base intangível da proteção do planeta
Terra contra as degradações incessantes que afetam a saúde humana, a sobrevivência das
espécies animais e vegetais e o conjunto das inter-relações complexas entre o homem e a
natureza. O princípio 1º da Declaração do Rio de Janeiro, de 1992, segundo o qual “os seres
humanos estão no centro das preocupações com o desenvolvimento sustentável. Têm direito a
uma vida saudável e produtiva, em harmonia com a natureza” deveria figurar na fachada de todos
os monumentos públicos e em todos os programas escolares destinados às crianças. No mesmo
espírito, as constituições deveriam se inspirar no preâmbulo da Constituição Francesa, cuja Carta
do Meio Ambiente, de 2004, afirma que “o futuro e a própria existência da Humanidade são
indissociáveis do meio natural”.
A constitucionalização do meio ambiente constitui um progresso considerável que se pode
verificar nas últimas décadas. E, nesse sentido, vale ressaltar que o Brasil foi pioneiro, com a
promulgação da Constituição Federal, em 1988. Essa irreversível conquista deve ser preservada
independentemente das áleas políticas, pois é consubstancial aos direitos e deveres fundamentais
de cada um, assim como à dignidade humana.
Pode-se dizer que Ingo Wolfgang Sarlet e Tiago Fensterseifer foram aqueles que lançaram o
alerta nessa direção, ao publicarem a primeira edição de sua obra, em 2011. É, para mim, uma
grande honra prefaciar a 6ª edição desta obra, ato que tem dupla significância, pessoal e científica:
de uma parte está a descoberta do Brasil, graças a meu amigo e colega Paulo Affonso Leme
Machado, pioneiro do Direito Ambiental nesse País e, de outra parte, estão minhas visitas regulares
aos estudantes, professores, advogados, juízes e promotores brasileiros, especialistas do meio
ambiente. Todos contribuem ao desenvolvimento e ao não retrocesso dos instrumentos jurídicos
indispensáveis para assegurar a efetividade do direito fundamental ao meio ambiente, garantido
pela Constituição. Destaque-se, nessa seara, o papel pioneiro de Ingo Wolfgang Sarlet – um dos
promotores do princípio de vedação ao retrocesso, nas suas aulas em Porto Alegre, em 2005 –
para a história do Direito Ambiental no Brasil.
O Direito Constitucional Ambiental, como novo motor das políticas de meio ambiente, é agora
orientado pela comunidade internacional e pelo Direito Internacional dos Direitos Humanos. E,
assim, nota-se a formação de um impressionante elo que reforça a proteção jurídica do meio
ambiente, desmentindo os negacionistas dos Direitos Humanos e das mudanças climáticas e
contradizendo as investidas populistas. Nesse âmbito, basta invocar os relatórios publicados
anualmente, desde 2012, pelo relator especial sobre o direito ao meio ambiente, perante o
Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, a opinião consultiva da Corte
Interamericana de Direitos Humanos, de 15 de novembro de 2017, e as diversas decisões relativas
ao meio ambiente, proferidas pela Corte Europeia de Direitos Humanos desde o caso Lopez Ostra,
de 9 de dezembro de 1994. A adoção, em 4 de março de 2018, da convenção regional de Escazú,
sobre o acesso à informação, a participação pública e o acesso à justiça em matéria ambiental, na
América Latina e no Caribe, é igualmente um sinal de esperança, que conforta o Direito
Constitucional Ambiental no mundo inteiro. Pode-se esperar, desde logo, que o Protocolo de San
Salvador seja emendado, para permitir a todos reclamar o respeito ao artigo 11, que prevê o direito
a um meio ambiente sadio, o qual nem sempre é juridicamente oponível.2
Esse vínculo político-jurídico vem, desde 2007, sendo ampliado no seio da ONU por duas
iniciativas. Uma, conduzida por uma ONG internacional que tenho a honra de presidir, o Centro
Internacional de Direito Ambiental Comparado, com o projeto de um terceiro pacto internacional,
relativo aos direitos dos seres humanos ao meio ambiente, assim como aos direitos que dele
decorrem.3 O outro, conduzido pela França perante as Nações Unidas, propõe um Pacto Mundial
para o Meio Ambiente, o qual foi, inclusive, objeto de uma resolução da Assembleia Geral da ONU,
com vistas a uma futura negociação intergovernamental.4
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13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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Michel Prieur
Professor emérito da Universidade de Limoges – França. Presidente do Centro Internacional de
Direito Ambiental Comparado (CIDCE). Diretor honorário da Faculdade de Direitoe de Ciências
Econômicas de Limoges. Diretor Científico do Centro de Pesquisas Interdisciplinares em Direito
Ambiental, de Ordenamento Territorial e Urbanístico (CRIDEAU). Fundador da Sociedade Francesa
para o Direito Ambiental (SFDE) e da Revista Jurídica do Meio Ambiente (RJE). Membro da
Comissão Mundial do Direito Ambiental da União Internacional para a Conservação da Natureza
(UICN). Autor pela Editora Dalloz do livro Droit de l’environnement, Paris, 8ª edição, 2019 e dos
livros Droit de l’environnement, droit durable e La non régression en droit de l’environnement,
ambos publicados pela editora Bruylant, em 2014 e 2012, respectivamente.
 
1
.Traduzido ao português graças à boa vontade de José Antônio Tietzmann e Silva, professor na
PUC Goiás e representante do Centro Internacional de Direito Ambiental Comparado no Brasil.
2
.Uma proposta de emenda foi elaborada pelo Centro Internacional de Direito Ambiental
Comparado em 2019.
3
.Vide [www.cidce.org] e Conselho dos Direitos Humanos, doc. A/HRC/34/NGO/60, de 15 de
fevereiro de 2017.
4
.Vide [www.globalpactenvironnement.org] e Resolução n. 72/277, de 10 de maio de 2018, Vers
un pacte mondial pour l’’environnement, A/RES/72/277.
13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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APRESENTAÇÃO À 1ª EDIÇÃO - PROF. DR. JOSÉ RUBENS MORATO LEITE
APRESENTAÇÃO À 1ª EDIÇÃO - PROF. DR. JOSÉ RUBENS MORATO LEITE
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Apresentação à 1ª edição
Apraz-me apresentar o livro de Ingo Wolfgang Sarlet e Tiago Fensterseifer, excelentes
pesquisadores do direito, bem como parabenizo a Editora Revista dos Tribunais por proporcionar
aos seus leitores uma nova obra de grande qualidade.
Conheço um pouco da temática do Direito Constitucional Ambiental e posso assegurar que a
pesquisa traz grandes contribuições ao avanço do Direito Ambiental, procurando resgatar e
aprofundar temas importantes da constitucionalização ecológica, principalmente fundado em
excelente revisão bibliográfica, mormente da doutrina alemã. Os pontos ápices dos temas
debatidos são o Direito Constitucional Socioambiental, Dimensão Ecológica da Dignidade da
Pessoa Humana, Estado Socioambiental e Mínimo Existencial, Deveres Fundamentais e Proteção
do Ambiente, Deveres de Proteção Ambiental do Estado e Proibição de Retrocesso em Matéria
Ambiental, bem como o Papel do Poder Judiciário na Efetivação dos Direitos Socioambientais.
Ressalto a importância da atualidade jurídica do debate e do aprofundamento teórico, como foi
feito nesta pesquisa, de maneira séria, sobre o conteúdo e o fundamento da Proibição do
Retrocesso Ecológico e do Mínimo Existencial, pois hoje vivenciamos certa tendência à aprovação
de normas que tentam rever a efetiva proteção ambiental, mesmo diante dos consagrados avanços
normativos, dos conhecimentos técnicos e da justificação cientificamente ancorada. Um segundo
eixo a ser destacado, entre outros, na obra, é o enfoque do exame da jurisprudência e do papel do
Judiciário, pois busca dotar o leitor de uma visão da prática do Direito Ambiental em seu viés
constitucional.
Finalizo, afirmando que o direito ambiental brasileiro ganha muito com a presente pesquisa.
Tenho certeza que a doutrina constitucional sai fortalecida e, principalmente, os preocupados com a
proteção jurídica ambiental efetiva.
Florianópolis, 7 de novembro de 2010.
Prof. Dr. José Rubens Morato Leite
Professor associado dos cursos de graduação e pós graduação em Direito da Universidade
Federal de Santa Catarina – UFSC; pós doutor pelo Centre of Environmental Law, Macquarie
University, Sydney – Austrália; membro e consultor da IUCN – The World Conservation Union –
Comission on Environmental Law (Steering Commitee); vice-presidente do Instituto “O Direito por
um Planeta Verde”; coordenador do Grupo de Pesquisa Direito Ambiental e Ecologia Política na
Sociedade de Risco, do CNPq. Publicou e organizou várias obras e artigos em periódicos nacionais
e estrangeiros. Pesquisador de Produtividade na Pesquisa do CNPq.
13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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NOTA DOS AUTORES À 7ª EDIÇÃO - INGO W. SARLET E TIAGO FENSTERSEIFER
NOTA DOS AUTORES À 7ª EDIÇÃO - INGO W. SARLET E TIAGO FENSTERSEIFER
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Nota dos autores à 7ª edição
“No âmbito do Direito Internacional dos Direitos Humanos tem-se caminhado para reconhecer a
interdependência entre o direito humano ao meio ambiente saudável e uma multiplicidade de outros
direitos humanos, bem como para afirmá-lo como um direito autônomo titulado pela própria
Natureza (e não apenas pelos seres humanos). Há, nesse sentido, duas importantes decisões da
Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH). Na Opinião Consultiva no 23/2017,
estabeleceu que o direito a um meio ambiente saudável é ‘um interesse universal’ e ‘um direito
fundamental para a existência da humanidade”. (Ministro Luis Roberto Barroso) 1
Na edição anterior (6ª) do nosso livro, publicada em 2019, como registrado na longa nota que
elaboramos na ocasião, empreendemos uma mudança teórica importante e alteramos o título e
subtítulo da obra, em decorrência de uma “virada ecológica ou ecocêntrica” na nossa abordagem
do regime jurídico-constitucional de proteção da Natureza - nela incluída a proteção do ser humano
(Homo sapiens). Nesta 7ª edição, seguimos avançando na mesma trilha, o que, inclusive, tem a
sua importância reforçada pela Pandemia do COVID-19, com a qual a humanidade se defrontou de
forma trágica e em escala global no início de 2020, tendo como causa principal zoonose transmitida
ao ser humano por animais selvagens, associada diretamente à destruição e perda do habitat
natural de tais espécies.
Diversas entidades e organizações científicas e sanitárias internacionais - como é o caso da
Organização Mundial da Saúde (OMS)2 e da Organização Mundial para a Saúde Animal3 - têm
defendido o conceito de one health – traduzindo para o português, “saúde única ou integral”. Na
sua essência, tal conceito busca a proteção da saúde de forma integral, contemplando três
dimensões básicas: humana, animal e ecológica ou ecossistêmica. A Pandemia do COVID-19
ilustra de forma trágica a importância de tal compreensão ecológica do conceito de saúde, para
além de um olhar reducionista da saúde humana, na medida em que a sua origem, como dito
antes, está associada à zoonose transmitida por animais silvestres e que, como destacado pelo
Programa das Nações Unidades para o Meio Ambiente (PNUMA) em relatório recentemente
divulgado4, pode ser relacionada à destruição do habitat natural de tais espécies, entre outras
práticas que acarretam destruição e desequilíbrio ecológico. A maior fragilidade da vida animal e da
Natureza de um modo geral levada a efeito pela degradação ambiental implica de forma
indissociável também maior fragilidade e vulnerabilidade existencial para o ser humano, o que
reforça a relevância do princípio da integridade ecológica como Grundnorm do Direito
Constitucional Ecológico (Klaus Bosselmann).
O ano de 2020, por sua vez, contou com importantes decisões judiciais, sobretudo do Supremo
Tribunal Federal, inclusive com a realização de duas audiências públicas de grande importância
sobre a temática da proteção da Floresta Amazônia nos Casos do Fundo Clima (ADPF 708) e do
Fundo Amazônia (ADO 59), tendo os autores desta obra participado da primeira como
representantes da comunidade acadêmica jurídica.5 Para além da jurisprudência nacional, no ano
de 2020, também merece destaque o fato de a Corte Interamericana de Direitos Humanos ter
aplicado o seu entendimento jurisprudencial consolidado no âmbito da Opinião Consultiva 23/2017
(sobre “Meio Ambiente e Direitos Humanos”) num caso contencioso. No julgamento do CasoComunidades Indígenas Membros da Associação Lhaka Honhat (Tierra Nuestra) vs. Argentina, a
Corte IDH declarou que a Argentina violou o direito autônomo a um meio ambiente saudável, bem
como os direitos à propriedade da comunidade indígena, à identidade cultural, à alimentação
adequada e ao acesso à água. Pela primeira vez em um caso contencioso, a Corte IDH analisou os
direitos acima de forma autônoma, com base no artigo 26 da Convenção Americana de Direitos
Humanos, ordenando medidas específicas de reparação e de sua restituição, incluindo ações de
acesso à alimentação adequada e à água, para recuperação de recursos florestais e da cultura
indígena.
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13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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No mais, além de uma cuidadosa atualização jurisprudencial, também desenvolvemos alguns
tópicos novos, como, por exemplo, o direito fundamental à integridade do sistema climático ou
direito fundamental ao clima limpo, estável e seguro, o sistema climático como bem jurídico-
constitucional autônomo, os deveres estatais de proteção climática, o mínimo existencial climático,
o fenômeno da “ecologização” (para além da “constitucionalização”) do Direito Privado, o estado
de coisas inconstitucional ecológico (e climático), entre outros. No mais, esperamos ter cumprido
com a nossa promessa de manter sempre o livro “vivo e em aberto”, como um processo inacabado
de permanente aprendizado, desenvolvimento e aprimoramento, registrando, por fim, o nosso
contato nas redes sociais e e-mail para as eventuais e sempre muito bem-vindas criticas
e sugestões dos queridos amigos leitores, a quem agradecemos profundamente pela confiança
depositada no nosso trabalho e produção cientifica, o que nos permitiu chegar até aqui com esta 7ª
edição.
Porto Alegre/Campinas (em isolamento social), março de 2021.
Ingo W. Sarlet
@professor_ingosarlet
Tiago Fensterseifer
@tiago_fensterseifer
tiagofens@gmail.com
https://t.me/direito_ambiental
 
1
.Passagem da decisão do Ministro Luis Roberto Barroso proferida em 28.06.2020 no Caso
Fundo Clima, ao convocar a audiência pública realizada nos dias 21 e 22.09.2020 perante o
Supremo Tribunal Federal (STF, ADPF 708/DF, Rel. Min. Luis Roberto Barroso, ainda pendente de
julgamento).
2
.Disponível em: https://www.who.int/news-room/q-a-detail/one-health.
3
.Disponível em: https://www.oie.int/en/for-the-media/onehealth/.
4
.UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. Preventing the next pandemic: zoonotic
diseases and how to break the chain of transmission. Nairobi, UNEP, 2020. Íntegra do relatório
disponível em: https://www.unenvironment.org/pt-br/resources/report/preventing-future-zoonotic-
disease-outbreaks-protecting-environment-animals-and.
5
.A íntegra da nossa participação na audiência pública do STF na ADPF 708 (Fundo Clima) -
versão escrita das manifestações e os respectivos vídeos - está disponível em:
http://genjuridico.com.br/2020/09/25/protecao-do-meio-ambiente-adpf-708-df/.
http://mailto:tiagofens@gmail.com/
13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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ABREVIATURAS
ABREVIATURAS
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Abreviaturas
ABRAMPA – Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente
AC – Apelação Cível
ACP – Ação Civil Pública
ADI – Ação Direta de Inconstitucionalidade
ADPF – Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental
AgRg – Agravo Regimental
AI – Agravo de Instrumento
AöR – Archiv des öffentliches Recht (Mohr Siebeck)
AP – Ação Popular
APP – Área de Preservação Permanente
AR – Ação Rescisória
BVerfGE – Bundesverfassungsgerichtsentscheidungen (Coletânea Oficial das Decisões do
Tribunal Constitucional Federal da Alemanha)
BVerwGE – Bundesverwaltungsgericht (Tribunal Federal Administrativo da Alemanha)
CCB – Código Civil Brasileiro ( Lei 10.406/2002)
CDC – Código de Defesa do Consumidor ( Lei 8.078/1990)
CEPAL – Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe da Organização das Nações
Unidas
CF/1988 – Constituição da República Federativa do Brasil de 1988
CIDH – Comissão Interamericana de Direitos Humanos
CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente
Corte IDH – Corte Interamericana de Direitos Humanos
CPC – Código de Processo Civil ( Lei 5.869/1973)
DESCA – Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais
DP – Defensoria Pública
EIA – Estudo de Impacto Ambiental
IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
IC – Inquérito Civil
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13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
IUCN – International Union for Conservation of Nature
j. – julgado em
JZ – Juristen Zeitung (Mohr Siebeck)
LACP – Lei da Ação Civil Pública ( Lei 7.437/1985)
LF – Lei Fundamental da Alemanha (1949)
MC – Medida Cautelar
MERCOSUL – Mercado Comum do Sul
MMA – Ministério do Meio Ambiente
MP – Ministério Público
MS – Mandado de Segurança
NCPC – Novo Código de Processo Civil (Lei 13.105/2015)
OGMs – Organismos Geneticamente Modificados
ONG – Organização Não Governamental
ONU – Organização das Nações Unidas
PGR – Procurador Geral da República
PNEA – Política Nacional de Educação Ambiental ( Lei 9.795/1999)
PNMA – Política Nacional do Meio Ambiente ( Lei 6.938/1981)
PNMC – Política Nacional sobre Mudança do Clima ( Lei 12.187/2009)
PNRH – Política Nacional de Recursos Hídricos ( Lei 9.433/1997)PNRS – Política Nacional de Resíduos Sólidos ( Lei 12.305/2010)
PNSB – Política Nacional de Saneamento Básico ( Lei 11.445/2007)
PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente
POPs – Poluentes Orgânicos Persistentes
RDA – Revista de Direito Ambiental (Editora Revista dos Tribunais)
RE – Recurso Extraordinário
REsp – Recurso Especial
RIMA – Relatório de Impacto Ambiental
RMS – Recurso Ordinário em Mandado de Segurança
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13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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SNUC – Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza ( Lei 9.985/2000)
STF – Supremo Tribunal Federal
STJ – Superior Tribunal de Justiça
TAC – Termo de Ajustamento de Conduta
UCs – Unidades de Conservação da Natureza
UNESCO – Organização das Nações Unidas para Cultura, Ciência e Educação
UNFCCC – Convenção Quadro das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas
UGB – Umweltgesetzbuch (Projeto do Código Ambiental Alemão)
V. – Ver
v. – ver
VVDStRL – Veröffentlichungen der Vereinigung der Deutschen Staatsrechtslehrer (Zeitschrift)
WCEL – World Comision on Environmental Law (da IUCN)
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
0
Introdução ao Direito Constitucional Ecológico
§ 1 O “ESVERDEAR” DO DIREITO CONSTITUCIONAL
“Se a Constituição (Bill of Rights) não contém a garantia de que o cidadão deve ser protegido
contra venenos letais distribuídos tanto por indivíduos privados quanto por representantes oficiais
do governo, isso ocorre certamente porque nossos antepassados, apesar da sua considerável
sabedoria e previdência, não podiam imaginar tal problema à época da sua elaboração” (Rachel
Carson).1
A presente Introdução tem por objetivo disponibilizar ao leitor uma espécie de “roteiro” dos
temas que serão tratados – com maior profundidade e desenvolvimento – ao longo dos Capítulos
que integram a presente obra, além de colocar o leitor em contato, de forma sumária, com algumas
das premissas e categorias do Direito Constitucional Ecológico. A Teoria Constitucional e a Teoria
dos Direitos Fundamentais têm sido marcadas por um processo evolutivo de constante
transformação e aprimoramento, o qual é modelado a partir das relações sociais que legitimam
toda a ordem constitucional, assim como das novas tarefas incorporadas ao Estado e ao Direito de
um modo geral, sempre na busca de uma salvaguarda mais ampla dos direitos fundamentais
(liberais, sociais e ecológicos) e da dignidade da pessoa humana. Os novos valores impulsionados
e legitimados pelas relações sociais contemporâneas, especialmente a partir da Década de 1970,
estabeleceram de forma marcante a defesa ecológica e a melhoria da qualidade de vida, como
decorrência da atual crise ecológica.2 Assim como outrora a Teoria da Constituição e o Direito
Constitucional estiveram comprometidos com a afirmação, na ordem da evolução, dos valores e
direitos liberais e sociais (valores que, embora em contexto e com sentido revisto e reconstruído,
seguem incorporados à agenda constitucional), hoje a proteção e promoção do ambiente desponta
como novo valor e direito de matriz constitucional, de tal sorte que, de acordo com a expressão
cunhada por Vasco Pereira da Silva, se pode falar de um “esverdear”3 da Teoria da Constituição e
do Direito Constitucional, bem como da ordem jurídica como um todo. Não há mais, portanto, como
negar a edificação – em curso e de modo progressivo – de uma Teoria Constitucional Ecológica, o
que torna possível a defesa de um Direito Constitucional Ecológico, inclusive superando hoje o que
se poderia designar, como sua versão prévia, de um Direito Constitucional Ambiental assentado
numa matriz teórica e normativa antropocêntrica, conforme sustentamos ao longo da obra.4 A partir
da força normativa da nova “Constituição Ambiental” (ou Constituição Ecológica, como preferimos),
como refere J. J. Gomes Canotilho, verifica-se o estabelecimento de um novo “programa jurídico-
constitucional”5 de natureza ecológica. Ou, como refere Klaus Bosselmann, da mesma forma como
testemunhamos no passado o processo de “humanização da Constituição” (Humanisierung der
Verfassung), verifica-se, desde a Década de 1970, um novo processo em curso (ainda inacabado)
de “ecologização da Constituição” (Ökologisierung der Verfassung).6
Tomando por base a realidade constitucional portuguesa – que, nesse aspecto, é muito
semelhante à brasileira –, Figueiredo Dias destaca que, em razão da força conferida pelo legislador
constitucional à tutela ambiental, pode-se falar na existência de uma verdadeira Constituição
Ambiental.7 A expressão Constituição Ecológica8, no entanto, nos parece mais adequada à luz do
“estado da arte” de desenvolvimento do Direito Constitucional contemporâneo, notadamente diante
do novo paradigma constitucional ecológico com fortes traços ecocêntricos emergente a partir da
última década. Além das Constituições Portuguesa (1976)e Brasileira (1988)9, que simbolizam de
forma emblemática esse novo panorama normativo constitucional, muitas outras também passaram
a incorporar ao seu texto a proteção do ambiente. Tal é o caso, entre várias outras, da Constituição
Grega (1975), da Constituição Espanhola (1978), da Lei Fundamental Alemã (1949, por meio das
reformas constitucionais de 1994 e 2002), da Constituição Colombiana (1991), da Constituição Sul-
Africana (1996) e da Constituição Suíça (2000). Mais recentemente, já sob a égide do Século XXI,
merecem destaque também a Constituição Francesa (1958, por meio da incorporação
constitucional da Carta do Meio Ambiente de 2004)10, a Constituição Equatoriana (2008) e a
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Constituição Boliviana (2009). De acordo com o Primeiro Relatório Global sobre o Estado de Direito
Ambiental (Environmental Rule of Law), divulgado no início de 2019 pelo Programa das Nações
Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), 11 desde a década de 1970, 88 países reconheceram um
direito constitucional ou fundamental a um ambiente saudável, bem como mais 62 países
consagraram a proteção do ambiente em suas Constituições de alguma forma, totalizando 150
países de todo o mundo com direitos constitucionais e/ou disposições sobre o meio ambiente nas
suas Constituições. Não obstante as diferenças existentes entre os diversos ordenamentos
jurídicos e as particularidades de cada uma das Constituições que agregaram a tutela ecológica ao
seu projeto normativo, resulta evidente que a proteção do ambiente passou a ser compreendida,
em todos os cenários constitucionais citados acima, como um valor constitucional, assim como uma
tarefa do Estado (Estado-Legislador, Estado-Administrador e Estado-Juiz) e da sociedade. Em
alguns ordenamentos constitucionais, caminhou-se, para além da tarefa estatal, consagrando
também um direito (e dever) fundamental ao ambiente, ou seja, o direito do indivíduo e da
coletividade a viver em um ambiente equilibrado, seguro e saudável. Essa foi a orientação, por
exemplo, das Constituições Portuguesa, Brasileira e Sul-Africana. Num passo ainda mais avançado
em termos de tutela constitucional do ambiente, cumpre assinalar o reconhecimento de “direitos da
Natureza (Pacha Mama)” tal como dá conta, de forma paradigmática, a Constituição Equatoriana
(2008)12, o que entendemos ser a nova fronteira a ser desbravada pelo Direito Constitucional
Ecológico à luz de um novo paradigma jurídico ecocêntrico emergente.
O “coroamento” constitucional da tutela do ambiente revelado anteriormente, é oportuno
registrar, foi (a depender do caso) precedido, acompanhado e fortificado pela consagração da
proteção ecológica no âmbito do Direito Internacional, inclusive na esfera do Direito Internacional
dos Direitos Humanos. Para exemplificar, podemos destacar a Declaração de Estocolmo das
Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano (1972), o Protocolo de San Salvador Adicional à
Convenção Americana sobre Direitos Humanos em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e
Culturais (1988), a Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1992),
a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (1992), a Convenção sobre
Diversidade Biológica (1992), a Declaração e Programa de Ação de Viena, promulgada na 2.ª
Conferência Mundial sobre Direitos Humanos (1993), o Protocolo de Quioto (1997), a Convenção
de Aarhus sobre Acesso à Informação, Participação Pública na Tomada de Decisões e Acesso à
Justiça em Matéria Ambiental (1998), o Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança (2000) e a
Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes (2001). Mais recentemente,
registra-se a celebração do Acordo de Paris (2015), no âmbito da Convenção-Quadro das
Mudanças do Clima, negociado durante a COP-21, e, precisamente com o objetivo de fortalecer a
efetivação da legislação ambiental por meio dos “direitos ambientais procedimentais”, nos moldes
do Princípio 10 da Declaração do Rio e da Convenção de Aarhus, merece destaque O Acordo
Regional de Escazú para América Latina e Caribe sobre Acesso à Informação, Participação Pública
e Acesso à Justiça em Matéria Ambiental (2018). O mesmo também se verifica no tocante ao
Direito Comunitário, tendo a Carta de Direitos Fundamentais da União Europeia consagrado a
proteção ecológica no seu corpo normativo, inclusive no sentido de estabelecer um “nível elevado”
de proteção do ambiente e a “melhoria” da sua qualidade, de acordo com o princípio do
desenvolvimento sustentável (art. 37).
Por força de um necessário “diálogo das fontes”13 normativas (e até mesmo de um “Diálogo de
Cortes”14) em matéria ambiental, inclusive a ponto de alguns autores sustentarem um
“constitucionalismo global ambiental ou ecológico”15, é importante sinalizar para a necessária
coordenação e integração entre os planos normativos internacional, comunitário e constitucional16
para assegurar um regime jurídico cada vez mais eficaz e efetivo para o enfrentamento de temas
que transcendem os planos local, regional e nacional, como simboliza de forma emblemática o
caso do aquecimento global e das mudanças climáticas. O diálogo das fontes normativas em
matéria ambiental deve operar no sentido de ampliar de modo progressivo o regime jurídico de
proteção ecológica, reconhecendo a essencialidade da qualidade e integridade do ambiente para o
desfrute de uma vida digna, segura e saudável, inclusive na perspectiva das futuras gerações, bem
como da proteção da vida não humana e da Natureza como um todo, tomando por premissa a
integridade ecológica do Sistema Planetário (Gaia) como um todo.
 
1
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13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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.“If the Bill of Rights contains no guarantee that a citizen shall be secure against lethal poisons distributed either by
private individuals or by public officials, it is surely only because our forefathers, despite their considerable wisdom and
foresight, could conceive of no such problem”. CARSON, Rachel. Silent spring. Fortieth Anniversary Edition (1962).
Boston/New York: Mariner Book, 2002, pp. 12-13. Em 1962, nos Estados Unidos, Rachel Carson, com sua obra
Primavera silenciosa, lançou a semente do que se tornaria uma verdadeira revolução social e cultural, alcançando,
mais tarde, também os universos político e jurídico. Embora não sendo necessariamente a pioneira do movimento
ambientalista, que desde o início da Década de 1960 já era gestado tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, ela
cumpriu um papel fundamental com sua obra e projetou para o espaço público o debate a respeito da
responsabilidade da ciência, dos limites do progresso tecnológico e da relação entre ser humano e Natureza. Mais
especificamente, Carson descreveu como o uso de determinadas substâncias químicas (hidrocarbonetos clorados e
fósforos orgânicos utilizados na composição de agrotóxicos, como o DDT) alteravam os processos celulares de
plantas e animais, atingindo o ambiente natural como um todo e, consequentemente, o ser humano. Embora a
passagem referida acima situar-se no espectro da questão da contaminação química – ainda hoje central na tutela
ambiental –, a sua reflexão extrapola tal perspectiva e alcança a questão ecológica em todas as suas dimensões,
considerando, em especial, o conteúdo da passagem destacada no sentido da importância da inclusão da proteção do
ambienteno catálogo dos direitos fundamentais (Bill of Rights) dos nossos sistemas jurídicos.
2
.Sobre o conceito de “crise ambiental” (Umweltkrise), v. KLOEPFER, Michael. Umweltschutzrecht. München: Verlag C.
H. Beck, 2008, pp. 1-3. De modo a reforçar tal entendimento, registram-se os estudos do Instituto de Tecnologia de
Massachusetts (MIT), respectivamente, The Limits to Growth: a Report for the Club of Rome’s Project on the
Predicament of Mankind (1972) e Beyond the Limits: Confronting Global Collapse, Envisioning a Sustainable Future
(1992). Para versão em português, v. MEADOWS, Donell H.; MEADOWS, Dennis L.; RANDERS, Jorgen; BEHRENS
III, William W. Limites do crescimento: um relatório para o Projeto do Clube de Roma sobre o Dilema da Humanidade.
2. ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 1978 (1ª edição brasileira de 1973).
3
.PEREIRA DA SILVA, Vasco. Verde cor de direito: lições de Direito do Ambiente. Coimbra: Almedina, 2002.
4
.No cenário jurídico brasileiro, tal percepção se fez presente, de certa forma pioneira, na obra de José Afonso da Silva,
com a primeira edição do seu livro Direito Constitucional Ambiental no ano de 1994 (SILVA, José Afonso da. Direito
ambiental constitucional. 4. ed. São Paulo: Malheiros, 2003). Na doutrina brasileira, sobre o Direito Constitucional
Ambiental ou Ecológico, v., entre outros, ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito ambiental. 11. ed. Rio de Janeiro: Lumen
Juris, 2008, especialmente pp. 57-92; BARROSO, Luís Roberto. Proteção do meio ambiente na Constituição
brasileira. Revista Trimestral de Direito Público, n. 2. São Paulo: Malheiros, 1993, pp. 58-79; BENJAMIN, Antonio
Herman. Constitucionalização do ambiente e ecologização da Constituição brasileira. In: CANOTILHO, José Joaquim
Gomes; MORATO LEITE, José Rubens (Orgs.). Direito constitucional ambiental brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2007,
pp. 57-130; BIANCHI, Patrícia. Eficácia das normas ambientais. São Paulo: Saraiva, 2010; CANOTILHO, José
Joaquim Gomes; MORATO LEITE, José Rubens (Orgs.). Direito constitucional ambiental brasileiro. São Paulo:
Saraiva, 2007; CAPPELLI, Sílvia; MARCHESAN, Ana Maria Moreira; STEIGLEDER, Annelise Monteiro. Direito
ambiental. 6. ed. Porto Alegre: Verbo Jurídico, 2010; DERANI, Cristiane. Direito ambiental econômico. 3. ed. São
Paulo: Saraiva, 2008, especialmente pp. 173-260; FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito ambiental
brasileiro. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2009; MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito ambiental brasileiro. 24. ed. São
Paulo: Malheiros, 2016, especialmente pp. 141-179; MILARÉ, Edis. Direito do ambiente. 4. ed. São Paulo: Ed. RT,
2005, especialmente pp. 141-192; MONTERO, Carlos Eduardo Peralta. Tributação ambiental. São Paulo: Saraiva,
2014; MORATO LEITE, José Rubens; AYALA, Patryck de Araújo. Dano ambiental: do individual ao coletivo
extrapatrimonial (teoria e prática). 3. ed. São Paulo: Ed. RT, 2010; PADILHA, Norma Sueli. Fundamentos
constitucionais do direito ambiental brasileiro. São Paulo: Campos/Elsevier, 2010; PASSOS DE FREITAS, Vladimir. A
Constituição Federal e a efetividade das normas ambientais. 3. ed. São Paulo: Ed. RT, 2005; PURVIN DE
FIGUEIREDO, Guilherme. Curso de direito ambiental. 4. ed. São Paulo: Ed. RT, 2011; SAMPAIO, José Adércio Leite.
“Constituição e meio ambiente na perspectiva do direito constitucional comparado”. In: SAMPAIO, José Adércio Leite;
WOLD, Chris; NARDY, Afrânio. Princípios de direito ambiental na dimensão internacional e comparada. Belo
Horizonte: Del Rey, 2003, pp. 37-111; SIRVINSKAS, Luís Paulo. Tutela constitucional do meio ambiente. São Paulo:
Saraiva, 2008; RAMOS, Erasmo Marcos. Direito ambiental comparado Brasil-Alemanha-EUA. Maringá: Midiograf II,
2009; e RODRIGUES, Lucas de Faria. A concretização da constituição ecológica. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2015.
E, especificamente sobre o direito fundamental ao ambiente, v. COSTA, Beatriz Souza. Meio ambiente como direito à
vida. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 2010; DUARTE, Marise Costa de Souza. Meio ambiente sadio: direito
fundamental em crise. Curitiba: Juruá, 2003; GAVIÃO FILHO, Anízio Pires. Direito fundamental ao ambiente. Porto
Alegre: Livraria do Advogado, 2005; KRELL, Andréas J. Discricionariedade administrativa e proteção ambiental. Porto
Alegre: Livraria do Advogado, 2004; MEDEIROS, Fernanda Luiza Fontoura. Meio ambiente: direito e dever
fundamental. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004; TEIXEIRA, Orci Paulino Bretanha. O direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado como direito fundamental. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2006; ALONSO JR.,
Hamilton. Direito fundamental ao ambiente e ações coletivas. São Paulo: Ed. RT, 2006; MOLINARO, Carlos Alberto.
Direito ambiental: proibição de retrocesso. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007; FENSTERSEIFER, Tiago.
Direitos fundamentais e proteção do ambiente. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008; HARTMANN, Ivar Alberto
Martins. E-codemocracia: a proteção do meio ambiente no ciberespaço. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010;
SARLET, Ingo W. (Org.). Estado Socioambiental e direitos fundamentais. Porto Alegre, Livraria do Advogado, 2010; e
13/04/2023, 19:09 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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AYALA, Patryck de Araújo. Devido processo ambiental e o direito fundamental ao meio ambiente. Rio de Janeiro:
Lumen Juris, 2011. Por fim, para uma análise comentada dos dispositivos da CF/1988, em matéria ambiental, v.
SARLET, Ingo W.; MACHADO, Paulo Affonso Leme; FENSTERSEIFER, Tiago. Constituição e legislação ambiental
comentadas. São Paulo: Saraiva, 2015; e CANOTILHO, J. J.; MENDES, G. F.; SARLET, I. W.; STRECK, L. L. (Org.).
Comentários à Constituição do Brasil. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2018.
5
.CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional ambiental português e da União Europeia. In:
CANOTILHO, José Joaquim Gomes; MORATO LEITE, José Rubens (Orgs.). Direito constitucional ambiental
brasileiro. São Paulo: Saraiva, p. 5.
6
.BOSSELMANN, Klaus. Im Namen der Natur: der Weg zum ökologischen Rechtsaat. München: Scherz, 1992, pp. 189-
202.
7
.FIGUEIREDO DIAS, José Eduardo. Direito constitucional e administrativo do ambiente (Cadernos do Centro de
Estudos de Direito do Ordenamento, do Urbanismo e do Ambiente). Coimbra: Almedina, 2002, p. 56.
8
.A expressão “Constituição Ecológica” foi consagrada de forma paradigmática em decisão da Corte Constitucional
Colombiana no julgamento da T-622/16, proferida em 10.11.2016, ao reconhecer e atribuir direitos ao Rio Atrato.
Íntegra da decisão disponível em: [www.corteconstitucional.gov.co/relatoria/2016/t-622-16.htm].
9
.A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 será referida doravante como CF/1988. Em algumas
passagens, também utilizamos a expressão “Lei Fundamental de 1988” para designá-la.
10
.A Constituição Francesa, que data de 1958, teve incorporada ao seu bloco normativo a lei constitucional relativa à
Carta do Meio Ambiente, de 28 de fevereiro de 2005, integrando a “Carta do Meio Ambiente de 2004” entre os textos
de valor constitucional, juntamente com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 e o Preâmbulo
da Constituição de 1946.
11
.PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O MEIO AMBIENTE. Environmental Rule of Law: First Global Report.
Nairobi: PNUMA, 2019, p. 2. Disponível em:
[wedocs.unep.org/bitstream/handle/20.500.11822/27279/Environmental_rule_of_law.pdf?sequence=1&isAllowed=y].
12
.Para um panorama geral sobre as inovações constitucionais trazidas pela Constituição Equatoriana de 2008 e pela
Constituição Boliviana de 2009 (com legislação infraconstitucional específica sobre o tema), v. FATHEUER, Thomas.
Buen vivir: a brief Introduction to Latin America´s new Concepts for the Good Life and the Rights of Nature. Berlin:
Fundação Heinrich Böll, 2011. Disponível em: [www.boell.de/sites/default/files/Buen_Vivir_engl.pdf].KOTZÉ, Louis;
CALZADILLA, Paola Villavicencio. Somewhere between Rhetoric and Reality: Environmental Constitutionalism and the
Rights of Nature in Ecuador. In: Transnational Environmental Law (Cambridge University Press), v. 6 (3), 2017, pp.
401-433; e CALZADILLA, Paola Villavicencio; KOTZÉ, Louis. Living in Harmony with Nature? A Critical Appraisal of the
Rights of Mother Earth in Bolivia. In: Transnational Environmental Law (Cambridge University Press), 2018, pp. 1-28.
13
.V. MARQUES, Cláudia Lima (Coord.). Diálogo das fontes: do conflito à coordenação de normas do direito brasileiro.
São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012.
14
.V. RAMOS, André de Carvalho. O diálogo das cortes: O Supremo Tribunal Federal e a Corte Interamericana de
Direitos Humanos. In: AMARAL JUNIOR, Alberto do; JUBILUT, Liliana Lyra (Org.) O STF e o direito internacional dos
direitos humanos. São Paulo: Quartier Latin, 2009, v. 1, pp. 805-850.
15
.KOTZE, Louis J. Arguing Global Environmental Constitutionalism. In: Transnational Environmental Law (Cambridge
University Press), v. 1 (1), 2012, pp. 199-233.
16
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.V. CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. Tratado de direito internacional dos direitos humanos. 2. ed. Porto
Alegre: SAFE, 2003, v. I, p. 41, bem como, sobre a necessidade de uma abordagem unificadora e coordenada do
direito ambiental internacional (e dos seus sistemas temáticos setorizados de tratados e acordos multilaterais) com
base no conceito de integridade ecológica (como Grundnorm) projetado em escala global, v. BOSSELMAN, Klaus;
KIM, Rakhyun E. International Environmental Law in the Anthropocene: Towards a Purposive System of Multilateral
Environmental Agreements. In: Transnational Environmental Law (Cambridge University Press), v. 2 (2), 2013, pp. 285-
309.
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
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§ 2 A CRISE ECOLÓGICA COMO RESULTADO DAS “PEGADAS”17 DO SER HUMANO NO
NOVO PERÍODO GEOLÓGICO DO ANTROPOCENO (“ERA DOS SERES HUMANOS”)
A abordagem ecológica do Direito Constitucional, conforme já sinalizado em passagem anterior,
justifica-se em razão da importância que a qualidade, o equilíbrio e a segurança ambiental têm para
o desfrute, a tutela e a promoção dos direitos fundamentais (liberais, sociais e ecológicos) – como,
por exemplo, vida, integridade física, propriedade, saúde, educação, moradia, alimentação,
saneamento básico –, o que situa a proteção do ambiente – por si só – como um dos valores
edificantes do nosso Estado de Direito constituído por meio do pacto político-jurídico firmado na Lei
Fundamental de 1988 (art. 225). Assim, cumpre arrolar algumas das “pegadas humanas”, como
sinônimo de degradação perpetrada pela ação humana no meio natural, dado que os efeitos
negativos de tais práticas resultam, na grande maioria das vezes, em violação direta ou mesmo
indireta aos direitos fundamentais do indivíduo, dos grupos sociais e da coletividade como um todo.
Como exemplo de situação de vulnerabilidade existencial do ser humano decorrente da
degradação ecológica, pode-se destacar a contaminação química denunciada por Carson,18 e que,
no caso brasileiro, teve em José Lutzenberger, na época à frente do movimento ambientalista
brasileiro, um baluarte na luta contra o uso de agrotóxicos.19 Nessa mesma perspectiva, podem ser
referidas a questão nuclear, a destruição progressiva das florestas tropicais, a poluição dos rios e
oceanos, a poluição atmosférica – especialmente nos grandes centros urbanos –, entre tantas
outras formas de desequilíbrio ecológico que comprometem sobremaneira o bem-estar e a
qualidade de vida individual e coletiva. No tocante à destruição da Floresta Amazônica brasileira – e
o mesmo ocorre com relação ao Pantanal Mato-Grossense20 –, cumpre assinalar que tal situação,
denunciada mundialmente por Chico Mendes na Década de 1980, ainda está longe de ser
resolvida, especialmente por conta do avanço descontrolado das “fronteiras” agrícola e pecuária
sobre a área florestal, acompanhado de incessantes queimadas e desmatamentos.
O tema que mais ecoa hoje no discurso ambientalista e no debate público em geral – o
movimento de estudantes Fridays for Future21, personificado na estudante sueca Greta Thunberg,
e o fenômeno recente da “litigância climática” ilustram bem esse cenário22 –, inclusive com
inserções políticas e jurídicas cada vez mais importantes, tanto no plano nacional23 quanto
internacional, diz respeito ao aquecimento global. A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre
Mudança do Clima – UNFCCC (1992)24, celebrada por ocasião da Conferência do Rio sobre “Meio
Ambiente e Desenvolvimento”, de 1992, (Eco-92) deu o passo inicial nos esforços da comunidade
internacional na matéria, seguida do Protocolo de Quioto (1997) e, mais recentemente, do Acordo
de Paris (2015). Em Paris, durante a COP 21, em 12 de dezembro de 2015, as Partes da UNFCCC
chegaram a um acordo histórico para combater as alterações climáticas e acelerar e intensificar as
ações e os investimentos necessários para um futuro sustentável com a redução das emissões de
carbono. O Acordo de Paris baseia-se na UNFCCC e – pela primeira vez – traz todos Estados-
Membros para empreenderem esforços ambiciosos no combate às mudanças climáticas e
adaptarem-se aos seus efeitos, inclusive com maior apoio para ajudar os países em
desenvolvimento a fazê-lo. O objetivo central do Acordo de Paris é manter o aumento da
temperatura global neste século bem abaixo dos dois graus Celsius acima dos níveis pré-industriais
e prosseguir os esforços para limitar ainda mais o aumento da temperatura a 1,5 graus Celsius. O
Acordo de Paris foi aberto à assinatura em 22 de abril de 2016 – Dia da Terra – na sede da ONU,
em Nova Iorque, entrando em vigor em 4 de novembro de 2016, 30 dias após ter sido atingido o
chamado “duplo limiar” (ratificação por 55 países que representam pelo menos 55% das emissões
mundiais). Desde então, mais países ratificaram e continuam a ratificar o Acordo, atingindo o
número de 185 Partes (de um total de 197) no início de 2019.
Em sua obra A vingança de Gaia, James Lovelock destaca a “situação-limite” a que chegamos,
ou que talvez até mesmo já tenhamos ultrapassado, em termos de mudança climática,
desencadeada especialmente pela emissão de gases geradores do efeito estufa (greenhouse
effect), como o dióxido de carbono (CO2) e o metano, que são liberados na atmosfera
especialmente pela queima de combustíveis fósseis e pela destruição de florestas tropicais.25 O
fenômeno das mudanças climáticas, como resultado da ação humana – oficial e mundialmente
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reconhecido pela comunidade científica no âmbito do Painel Intergovernamental sobre Mudança do
Clima (IPCC) da ONU há mais de duas décadas 26 –, inclui, entre os seus efeitos, a maior
intensidade e frequência de episódios climáticos extremos,27 a alteração nos regimes de chuvas,
como ocorre na hipótese de chuvas intensas em um curto espaço de tempo, um desregramento
climático cada vez maior e imprevisível, caracterizado, entre outros aspectos, pela constante
quebra de recordes de temperaturas altas em todo mundo, pelo desaparecimento paulatino das
camadas de gelo, acompanhado ainda de um aumento do nível dos oceanos e do nível médio de
temperatura do globo terrestre, entre outros eventos.28
A tais efeitos, soma-se também a perda massiva da biodiversidade global.29 Um dos últimos
alertas globais sobre o tema foi dado no mês de maio de 2019, com a divulgação do sumário do
“Relatório de Avaliação Global sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos” (Global
Assessment Report on Biodiversity and Ecosystem Services), produzido e aprovado na sua 7ª
sessão plenária, realizada em Paris, pela Plataforma Intergovernamental Científico-Política sobre
Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) da ONU, instituição com papel equivalente ao
desempenhado na área das mudanças climáticas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças
Climáticas (IPCC) da ONU. Entre os diversos aspectos alarmantes destacados no documento, que
representa a avaliação mais abrangente já feita mundialmente na matéria, destaca-se o perigoso
declínio “sem precedentes” da Natureza na história da humanidade, com a “aceleração” das taxas
de extinção de espécies, a tal ponto em que “1.000.000 (um milhão) de espécies encontram-se
hoje ameaçadas de extinção no Planeta”. Tal situação também representa graves impactos sobre
as pessoas em todo o mundo. O relatório também destaca que a resposta global atual tem sido
insuficiente, impondo-se a necessidade de “mudanças transformadoras” para restaurar e proteger a
Natureza, notadamente superando a oposição de interesses instalados em prol do bem ou
interesse público ou comum global.30 Enfim, tais questões refletem, em verdade, também uma crise
de ordem ética, pois é justamente o comportamento do ser humano, por meio das suas práticas
nas mais diversas áreas, o fator responsável pela degradação ecológica relatada nas linhas
precedentes, o que, por sua vez, acaba por se voltar contra ele próprio e comprometer os seus
direitos fundamentais e, no limite, a sua dignidade e vida no novo Período Geológico do
Antropoceno (“Era dos Seres Humanos”), como popularizado a partir do ano 2000 pelos trabalhos
científicos de Paul J. Crutzen31, químico atmosférico holandês e Prêmio Nobel de Química (1995),
em razão da nossa intervenção na Natureza afetar, como nunca antes, o equilíbrio planetário em
escala global.
 
17
.A expressão “pegada ecológica” tem sido utilizada por entidades ambientalistas, como é o caso da World Wide Fund
for Nature (WWF), para “calcular”, em termos estimativos, a partir das nossas práticas de consumo – utilização de
recursos naturais, resíduos gerados, entre outros aspectos –, a degradação ecológica produzida individualmente,
inclusive em termos de emissão de gases geradores do efeito estufa. A “pegada ecológica” permite visualizar até que
ponto a nossa forma de viver está de acordo (ou não) com a capacidade do Planeta de oferecer e renovar seus
recursos naturais, bem como absorver os resíduos que geramos. Na página eletrônica da WWF-Brasil, há, inclusive, a
possibilidade de realizar o “cálculo” da pegada ecológica de cada um. Disponível em:
[www.wwf.org.br/natureza_brasileira/especiais/pegada_ecologica].
18
.Em 1996, um novo estudo foi publicado (O Futuro Roubado), de autoria de dois cientistas, Theo Colborn e John
Peterson Myers, e de uma jornalista, Dianne Dumanoski, que, de certa forma, deu sequência aos estudos realizados
por Carson na Década de 1960 (COLBORN, Theo; DUMANOSKI, Dianne; MYERS, John Petersen. O futuro roubado.
Porto Alegre: L&PM, 2002). No prefácio do livro, que também conta com prefácio especial à edição brasileira de
Lutzenberger, Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos e Prêmio Nobel da Paz em 2007 pela sua luta
ambiental, destaca que, com base nos estudos preliminares realizados com animais e seres humanos referidos na
obra, foi relacionado o uso de “agentes químicos a inúmeros problemas, inclusive contagens baixas de
espermatozoides no sêmen; infertilidade; deformações genitais; cânceres desencadeados por hormônios, como o
câncer de mama e de próstata; desordens neurológicas em crianças, como hiperatividade e déficit de atenção; e
problemas de desenvolvimento e reprodução em animais silvestres”. Para além do ponto onde havia chegado Carson,
os autores de O Futuro Roubado ampliaram o estudo a respeito das consequências lesivas causadas aos seres
humanos e ao ambiente natural pelo uso de – e exposição a – substâncias químicas utilizadas pelo ser humano em
praticamente todas as suas atividades habituais. A conclusão mais intrigante a que chegam os autores diz respeito às
baixas taxas de fertilidade e mesmo infertilidade ocasionadas aos seres humanos e aos demais animais, como
decorrência da sua exposição a substâncias químicas, o que acabaria por comprometer, em médio prazo, a própria
sobrevivência da espécie humana. No Brasil, sobre a questão da contaminação química, inclusive com análise da
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Convenção da Basileia sobre o Controle de Movimentos Transfronteiriços de Resíduos Perigosos e seu Depósito
(1989), v. LISBOA, Marijane. Ética e cidadania planetárias na era tecnológica: o caso da Proibição da Basileia. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.
19
.LUTZENBERGER, José. A. Fim do futuro? Manifesto Ecológico Brasileiro. Porto Alegre: Movimento/UFRGS, 1980. O
resultado de tais reivindicações do movimento ambientalista brasileiro pode ser verificado na edição da Lei da Política
Nacional do Meio Ambiente (6.938/1981) e da Lei de Agrotóxicos ( Lei 7.802/1989), bem como na própria
consolidação constitucional da proteção ambiental através da CF/1988 (art. 225). Sobre a vida de Lutzenberger e
a luta ambiental por ele travada, v. DREYER, Lilian. Sinfonia inacabada: a vida de José Lutzenberger. Porto Alegre:
Vidicom Audiovisuais Edições, 2004.
20
.A Floresta Amazônica brasileira e o Pantanal Mato-Grossense, juntamente com a Mata Atlântica, Serra do Mar e a
Zona Costeira, são tratados constitucionalmente como patrimônio nacional, devendo a sua utilização assegurar a
preservação do ambiente e dos recursos naturais (§ 4.º do art. 225).
21
.Disponível em: [www.fridaysforfuture.org].
22
.V. OKUBO, Noriko. Climate Change Litigation: a Global Tendency. In: RUPPEL, Oliver C.; ROSCHMANN, Christian;
RUPPEL-SCHLICHTING, Katharina (Edits.). Climate Change: International Law and Global Governance (Vol. I: Legal
Responses and Global Responsibility). Baden-Baden: Nomos, 2013, pp. 741-758. Na doutrina brasileira, v., por todos,
WEDY, Gabriel. Desenvolvimento sustentável na era das mudanças climáticas: um direito fundamental. São Paulo:
Saraiva (Série IDP), 2018.
23
.No cenário jurídico brasileiro, além de diversas legislações estaduais e municipais que versam sobre a questão, v. a
Lei da Política Nacional sobre Mudança do Clima ( Lei 12.187/2009).
24
.Para mais informações: [unfccc.int].
25
.LOVELOCK, James. A vingança de Gaia. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2006, p. 24.
26
.No início de 2007, foi divulgado o Relatório de Avaliação da Saúde da Atmosfera (AR4) feito pelo quadro de cientistas
da ONU do IPCC, onde resultou diagnosticado que o aquecimento global é causado por atividades humanas,bem
como que as temperaturas poderão subir de 1,8ºC a 4ºC até o final deste século. O AR5 foi divulgado no ano de 2014
e a previsão de divulgação do AR6 é para o ano de 2022. Disponível em: [www.ipcc.ch]. No final de 2018, o IPCC
apresentou um relatório especial sobre os impactos do aquecimento global de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais e
das correspondentes vias de emissão globais de gases com efeito de estufa. O referido relatório foi elaborado por
determinação de decisão da 21ª Conferência das Partes da UNFCCC, ao adotar o Acordo de Paris. Segundo o
relatório, “estima-se que as atividades humanas tenham causado aproximadamente 1,0°C de aquecimento global
acima dos níveis pré-industriais, com uma variação provável de 0,8°C a 1,2°C. É provável que o aquecimento global
atinja 1,5°C entre 2030 e 2052 se continuar a aumentar ao ritmo atual (elevada confiança). O aquecimento provocado
pelas emissões antropogênicas do período pré-industrial até o presente persistirá durante séculos e milénios e
continuará a provocar novas alterações a longo prazo no sistema climático, como a subida do nível do mar, com
impactos associados (elevada confiança), mas é pouco provável que essas emissões, por si só, provoquem um
aquecimento global de 1,5°C (confiança média). Os riscos relacionados ao clima para os sistemas naturais e humanos
são maiores para o aquecimento global de 1,5°C do que atualmente, mas inferiores a 2°C (alta confiança). Esses
riscos dependem da magnitude e da taxa de aquecimento, da localização geográfica, dos níveis de desenvolvimento e
da vulnerabilidade, bem como das escolhas e implementação de opções de adaptação e atenuação (elevada
confiança)”. Para acesso à íntegra do relatório: [www.ipcc.ch/report/sr15/].
27
.Em 2004, como exemplo de episódio climático extremo no Brasil, as populações da região sul do Estado de Santa
Catarina e da região nordeste do Estado do Rio Grande do Sul testemunharam o primeiro furacão – denominado de
Catarina – registrado historicamente no Atlântico Sul. Os cientistas que participaram de encontro promovido pelo
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) para debater o fenômeno natural em questão chegaram ao
consenso no sentido de que o mesmo se tratava de um furacão na sua fase final – Categoria 2, de acordo com a
escala Saffir-Simpson –, com rajadas de ventos de até 180 hm/h. O prejuízo causado pelo episódio climático foi
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estimado em 250 milhões de reais. Sobre a questão, inclusive com destaque para o “ineditismo climático” provocado
pelo Furacão Catarina, v. LYNAS, Mark. Seis graus: o aquecimento global e o que você pode fazer para evitar uma
catástrofe. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, pp. 55-57.
28
.O Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
descreve que a atividade mais intensa das tempestades tropicais é uma das certezas resultantes das alterações
climáticas, de modo que o aquecimento dos oceanos irá impulsionar eventos climáticos cada vez mais intensos (p.
101). Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008 do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas.
Disponível em: [www.undp.org/content/brazil/pt/home/library/relatorios-de-desenvolvimento-humano/relatorio-do-
desenvolvimento-humano-20007.html].
29
.A perda da biodiversidade acarretada pelo aquecimento global é apontada, entre vários outros, por WILSON, Edward
O. A criação: como salvar a vida na Terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 134. Hoje, uma nova questão
relacionada à biodiversidade que tem ganhado cada vez mais relevância diz respeito à proteção jurídica dos insetos
(abelhas, borboletas etc.). A título de exemplo, no Estado alemão da Bavária, realizou-se, no mês de fevereiro de
2019, um plebiscito em favor da proteção das abelhas, anunciado como “histórico” pela imprensa alemã, com mais de
1,7 milhões de votos. Disponível em: [volksbegehren-artenvielfalt.de]. Posteriormente, a Ministra do Meio Ambiente
alemã anunciou que trabalha e apresentará em breve um projeto de “Lei de Proteção dos Insetos”
(Insektenschutzgesetz), que tem como foco a redução dos fatores (agrotóxicos, em especial) que têm levado à
extinção em massa de insetos (em especial, abelhas e borboletas). Disponível em: [www.bundesregierung.de/breg-
de/aktuelles/bundesregierung-will-insekten-besser-schuetzen-1581358].
30
.Disponível em: [www.ipbes.net].
31
.CRUTZEN, Paul J. Geology of Mankind: the Anthropocene. In: Nature, 415, 2002 (jan.), p. 23.
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
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§ 3 O MOVIMENTO AMBIENTALISTA E A LEGITIMAÇÃO POLÍTICO-COMUNITÁRIA DOS
VALORES ECOLÓGICOS COMO FUNDAMENTO DO CONSTITUCIONALISMO
CONTEMPORÂNEO
“It’s a mystery to me
We have a greed
With which we have agreed
You think you have to want
More than you need
Until you have it all you won’t be free (...).”32
A crise ecológica, tomando por base os diversos exemplos de degradação ambiental listadas no
tópico antecedente e muito antes ainda do reconhecimento do Antropoceno, motivou a mobilização
diversos setores e grupos sociais na defesa da Natureza, o que levou ao surgimento de novos
valores e práticas ecológicas. A concepção de uma sociedade civil organizada é resultado, em
grande medida, das mobilizações sociais verificadas de modo emblemático a partir da Década de
1960. As revoltas estudantis de Maio de 1968, em especial na França, refletem de forma simbólica
tal contexto histórico. É certo que diversas lutas sociais (direitos civis, pacifista, feminista etc.)
também ensejaram a articulação organizada da sociedade a partir de tal período. Mas, sem dúvida,
o movimento ambientalista que emergiu em tal momento é um exemplo expressivo no novo
rearranjo social e político que estava em curso. A respeito da questão, Sergio B. Tavolaro, em
estudo sobre o movimento ambientalista, assinala que a sociedade civil passa a se caracterizar
como uma terceira arena de poder, a fim de fazer frente ao Estado e ao Mercado, reforçando o seu
papel na integração social.33 A movimento ambientalista, por tal prisma, objetiva “corrigir” as
distorções – leia-se, crise ecológica – que o Mercado e o Estado não foram capazes de evitar e
solucionar sozinhos, exigindo as devidas responsabilizações e ações corretivas necessárias,
inclusive recorrendo, muitas vezes, ao Sistema de Justiça, com a ampliação dos mecanismos de
participação pública em matéria ambiental proporcionados pelos denominados “direitos ambientais
procedimentais ou de participação”, o que será tratado com maior desenvolvimento no Capítulo 6.
O novo espaço político que passou a ser reivindicado e ocupado pela sociedade civil
organizadaestá amparado na própria reformulação do modelo democrático vigente até então (ao
menos, em parte) no mundo ocidental, com o objetivo de estabelecer mecanismos mais diretos de
participação política. As diversas entidades ambientalistas criadas desde a Década de 1960
proporcionaram a “oxigenação” do espaço político, com o propósito de que os valores ecológicos
por elas defendidos fossem levados em consideração nas decisões políticas e práticas
econômicas. As novas formas de ação direta que sempre caracterizaram as entidades
ambientalistas (inclusive com o recurso a práticas de desobediência civil), por meio de protestos e
campanhas específicas (contra testes nucleares, caça às baleias, lixo tóxico, poluição dos mares,
entre outros temas), com forte utilização do espaço midiático e mobilização da opinião pública,
estabeleceram um novo parâmetro de articulação da sociedade civil e impactaram o espaço
político, o que, mais tarde, também refletiu na consagração da proteção jurídica da Natureza e dos
valores ecológicos. Hoje, também merece destaque a utilização crescente do espaço digital – por
exemplo, por meio das redes sociais – para a mobilização da sociedade civil em torno da temática
ecológica, o que tem impactado a esfera política de forma cada vez mais significativa. Um exemplo
contemporâneo que exemplifica bem esse cenário diz respeito ao movimento de estudantes do
Fridays for Future, conforme já mencionado anteriormente.34
O movimento ambientalista, por sua vez, apresenta múltiplas facetas e diferenças, como se
verifica, por exemplo, entre aqueles que propõem medidas mais radicais de mudança dos padrões
sociais, como é o caso dos grupos inspirados na “Ecologia Profunda” (Deep Ecology) de Arne
Naess, e outros de cunho apenas “reformista”, defendendo a incorporação gradual e relativizada
dos valores e práticas ecológicas no espectro comunitário. Uma vertente cada vez mais expressiva
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do movimento ecológico, inclusive guardando certa autonomia em relação a esse, diz respeito aos
defensores do bem-estar e dos direitos dos animais. Ambas as correntes “animalistas” foram
fortemente influenciadas, entre outros, pela obra Libertação Animal de Peter Singer35. Pode-se
fazer até mesmo um paralelo comparativo, em termos de fonte de inspiração e importância, entre o
significado da obra Primavera Silenciosa de Rachel Carson para o movimento ambientalista, já
tratada anteriormente, e a obra Libertação Animal de Singer para o movimento dos direitos dos
animais. O tema dos direitos dos animais (não humanos), por sua vez, será retomado e
aprofundado no Capítulo 1.
O nosso propósito neste tópico, ao tratar da legitimação social dos valores ecológicos em
momento subsequente ao tópico em que elencamos diversas situações concretas de degradação
ambiental e os seus reflexos negativos para a sociedade de um modo geral, é demonstrar ao leitor
que há uma sequência lógica de tais fatos, ou seja, a partir da constatação da poluição e
degradação dos recursos naturais é que os valores ecológicos emergiram e se legitimaram nas
relações sociais. A legitimação social em questão precede e se coloca como premissa à
consagração – ocorrida mais recentemente – da proteção jurídica do ambiente e,
consequentemente, a “juridicização” dos valores ecológicos, o que se verifica com o surgimento do
Direito Ambiental no início da Década de 1970. Isso tudo, por sua vez, está na base da legitimação
do Direito Constitucional Ambiental e, mais recentemente, do Direito Constitucional Ecológico,
como propomos a partir desta nova edição do nosso livro, seguindo o percurso evolutivo de tal
legitimação social rumo a um novo paradigma ecocêntrico. Por fim, antes de adentrar no espectro
jurídico-constitucional propriamente, iremos abordar alguns aspectos relacionados à ética
ecológica.
 
32
.Passagem da música Society que integra a trilha sonora, composta por Eddie Vedder, do filme Into the Wild (Na
Natureza Selvagem), de 2007, escrito e dirigido por Sean Penn. O filme é uma adaptação do livro de não-ficção de
mesmo nome de 1996, escrito por Jon Krakauer e baseado nas viagens de Christopher McCandless pela América do
Norte e, em particular, pelo Alaska no início da década de 1990. KRAKAUER, Jon. Into the Wild. New York: Anchor,
1997.
33
.TAVOLARO, Sergio Barreira de Faria. Movimento ambientalista e modernidade: sociabilidade, risco e moral. São
Paulo: Annablume/Fapesp, 2001, p. 88.
34
.A respeito da nova relação entre o ser humano e a Natureza que tem sido estimulada por meio do uso da internet, v.
PSCHERA, Alexander. Das Internet der Tiere: der neue Dialog zwischen Mensch und Natur. Berlim: Matthes Seitz,
2014.
35
.SINGER, Peter. Libertação animal. Porto: Via Optima, 2000 (primeira edição em língua inglesa de 1975).
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
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§ 4 A ÉTICA DA RESPONSABILIDADE NA PERSPECTIVA DA “CIVILIZAÇÃO
TECNOLÓGICA” (HANS JONAS) E DA “SOCIEDADE DE RISCO GLOBAL” (ULRICH
BECK): DO DEVER MORAL AO DEVER JURÍDICO-CONSTITUCIONAL DE PROTEÇÃO
ECOLÓGICA
“Somente com a supremacia do pensamento e com o poder da civilização tecnológica
possibilitada por ele, uma forma de vida, ‘o homem’, se colocou numa situação de botar em perigo
para todas as demais formas de vida e, com elas, a si mesmo. A ‘Natureza’ não poderia incorrer em
um risco maior do que o de fazer surgir o homem” (Hans Jonas).36
Nos tópicos anteriores descrevemos algumas das “pegadas” deixadas pelo ser humano na sua
passagem pela Terra, bem como a mobilização social no sentido do enfrentamento da crise
ecológica. Isso tudo, por sua vez, invade a perspectiva ético-filosófica, uma vez que os padrões
comportamentais do ser humano moderno são colocados à prova no Antropoceno, implicando uma
nova relação Sociedade-Natureza. Todos os registros de problemas ambientais aqui apontados são
apenas ilustrativos de um conjunto muito maior de danos ecológicos, muitos ainda desconhecidos,
perpetrados pelo ser humano. E, como destacado na epígrafe de Hans Jonas, o efeito de tais
práticas é cumulativo e, em alguns casos, irreversível, como ocorre no caso da extinção de
espécies naturais da fauna e da flora. A “situação-limite” a que chegamos – no tocante à crise
ambiental – está associada de forma direta à postura filosófica – incorporada nas nossas práticas
cotidianas – de dominação do ser humano em face do mundo natural, adotada desde a ciência
moderna, de inspiração cartesiana, especialmente pela cultura ocidental.37
Na perspectiva da “vocação tecnológica” do ser humano, Milton Santos, alinhado com o
pensamento de Kant, que dizia ser a História um progresso sem fim das técnicas, destaca que o
desenvolvimento da história anda abraçado com o desenvolvimento das técnicas, sendo que a
cada evolução técnica, uma nova etapa histórica se torna possível.38 No entanto, a simples criação
ou mesmo aprimoramento de determinada técnica não nos transporta por si só para um novo
estágio de evolução moral e bem-estar existencial. Assim, os avanços científicos e tecnológicos
operados pela ciência, especialmente a partir da “revolução científica” dos séculos XVI e XVII
(bastaria citar aqui a influência de nomes como os de Copérnico, Descartes, Bacon, Galileu,
Newton, entre outros), a despeito dos notáveis progressos civilizatórios que propiciou,
paralelamente serviram (e ainda servem) de instrumento de intervenção no meio natural e,
consequentemente, de degradação e esgotamento dos recursosnaturais, na medida em que a
Natureza é tratada pelo paradigma filosófico moderno como uma simples máquina, destituída de
qualquer valor intrínseco.39 Os conhecimentos tecnológicos e científicos, que deveriam ter o
desenvolvimento, o bem-estar social e a dignidade e qualidade da vida humana como suas
finalidades maiores, passam a ser, em decorrência da sua instrumentalização inconsequente
levada a cabo pelo ser humano, com todo o seu poder de criação e destruição, a principal ameaça
à manutenção e à sobrevivência da espécie humana, assim como de todo ecossistema
planetário,40 caracterizando, como apontado pelo sociólogo alemão Ulrich Beck, um modelo de
“sociedade de risco” (Risikogesellschaft41) e, mais recentemente e por força da magnitude
geológica e global do impacto da nossa intervenção no Planeta Terra, de “sociedade de risco global
ou mundial” (Weltrisikogesellschaft42).
A existência (e não apenas a dignidade) humana encontra-se ameaçada pela atual crise
ecológica, como decorrência direta da “nossa” intervenção predatória na Natureza. O filósofo
alemão Hans Jonas colocou em cheque a “civilização tecnológica” com o seu princípio da
responsabilidade, propondo uma abordagem ética da ciência, em vista principalmente dos riscos
existenciais trazidos pelas novas tecnologias desenvolvidas pela racionalidade humana, que
expressam, numa dimensão sem precedentes, o triunfo do Homo faber sobre a Natureza e a
vocação tecnológica da humanidade.43 Para ele, a operacionalização do arsenal científico e
tecnológico deve ser pautada pela responsabilidade do cientista e submetida a parâmetros éticos, a
fim de preservar-se a condição existencial humana, bem como a qualidade de vida. A crítica de
Jonas é pertinente, já que na maioria das vezes, a ciência – ou melhor, o uso que se faz dela – está
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a serviço de interesses puramente econômicos, o que, como refere, coloca o ser humano como,
dentre todas as espécies que já habitaram o Planeta Terra, a mais destrutiva e ameaçadora. O uso
de tecnologias – como bem ilustra a questão da energia nuclear e o desastre de Chernobyl – expõe
a existência humana a tal ponto em que o ser humano é colocado como meio ou objeto para a
consecução de determinadas práticas, negando a sua autonomia e condição de fim em si mesmo
ou de sujeito autônomo da sua história de vida, consagrada pelo pensamento kantiano na
caracterização da dignidade da pessoa humana.44
De acordo com Jonas, uma nova concepção ética deve ser construída a partir de uma
adequada compreensão dos reflexos e amplitude da ação humana no contexto do atual estágio
tecnológico e das suas consequências futuras. Em razão de a ética estar diretamente relacionada à
ação humana, com a alteração da natureza dessa última, a compreensão ética também deve ser
reformulada para o efeito de dar conta da complexidade da ação humana na contemporaneidade45,
inclusive contemplando os seus reflexos no futuro e levando em consideração os interesses e
direitos das futuras gerações humanas e mesmo não humanas (na perspectiva dos interesses e
direitos dos animais e da Natureza como um todo). O atual estágio do conhecimento humano
alterou significativamente a relação de forças existente entre ser humano e Natureza. Se há alguns
séculos atrás o poder de intervenção do ser humano no meio natural era limitado, prevalecendo
essa relação de forças em favor da Natureza, hoje a balança se inverteu de forma definitiva. Entre
as diferentes correntes da ética ecológica (portanto, não antropocêntricas), destacam-se o
patocentrismo (animais sencientes), o biocentrismo (todos os seres vivos) e o ecocentrismo (toda a
Natureza, coletiva e individualmente considerada), correspondendo ao movimento de atribuir valor
intrínseco para além do ser humano. A perspectiva “ecocêntrica”, corrente da ética ecológica a qual
nos filiamos para conceber o marco jurídico-constitucional ecológico, abarcando não apenas a
“comunidade biótica”, ou seja, todos os seres vivos (Lebendige) do Planeta Terra, mas também os
elementos abióticos.46 A concepção referida, a nosso ver, é a corrente da ética ecológica que
melhor atende ao princípio da integridade ecológica, como Grundnorm do Direito Constitucional
Ecológico.
A relação de causa e efeito vinculada à ação humana, do ponto de vista ecológico, tem uma
natureza cumulativa e projetada para o futuro. O princípio (e dever) constitucional da precaução
(art. 225, § 1.º, V), analisado nessa perspectiva, reforça a ideia de uma nova ética para o agir
humano, na esteira do pensamento de Jonas, contemplando a responsabilidade do ser humano
para além da dimensão temporal presente e revelando o elo existencial e a interdependência entre
as gerações humanas presentes e futuras. O princípio da precaução (assim como o da prevenção)
anda, por outro lado, abraçado ao princípio da responsabilidade, tudo num contexto em que a
solidariedade e a noção de deveres morais e jurídicos (do Estado e dos particulares) de tutela do
ambiente assumem cada vez maior centralidade no âmbito da nossa comunidade político-estatal.
Da ética da responsabilidade, na esteira da dimensão moral citada por Jonas, deve-se migrar para
a esfera jurídica dos direitos constitucionais da Natureza, de modo, inclusive, a limitar a própria
autonomia da vontade e os demais direitos fundamentais do ser humano, quando tal se fizer
necessário para assegurar o desfrute de uma vida digna e saudável para as gerações presentes e
futuras (humanas e não humanas), tendo por premissa básica a integridade ecológica em escala
planetária.
 
36
.JONAS, Hans. Das Prinzip Verantwortung: Versuch einer Ethik für die technologische Zivilisation. Frankfurt am Main:
Suhrkamp, 2003, (1ª edição de 1979), p. 247.
37
.De acordo com Luc Ferry, “o humanismo cartesiano é, sem dúvida alguma, a doutrina que mais longe chegou na
desvalorização da Natureza em geral e na do animal em particular”. FERRY, Luc. A nova ordem ecológica: a árvore, o
animal, o homem. São Paulo: Ensaio, 1994, p. 29. No mesmo sentido, v. OST, François. A natureza à margem da lei.
Lisboa: Instituto Piaget, 1997, especialmente pp. 39-49.
38
.SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 6. ed. Rio de Janeiro:
Record, 2001, p. 24.
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39
.A concepção cartesiana de “animal-máquina” é desenvolvida em DESCARTES, René. Discurso do método;
Meditações; Objeções e respostas; As paixões da alma; Cartas. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 60.
40
.Segundo Rubem Alves, “o senso comum e a ciência são expressões da mesma necessidade básica, a necessidade
de compreender o mundo, a fim de viver melhor e sobreviver. Para aqueles que teriam a tendência de achar que o
senso comum é inferior à ciência, eu só gostaria de lembrar que, por dezenas de milhares de anos, os homens
sobreviveram sem coisa alguma que se assemelhasse à nossa ciência. Depois de cerca de quatro séculos, desde que
surgiu com seus fundadores, curiosamente a ciência está apresentando sérias ameaças à nossa sobrevivência.”
ALVES, Rubem. Filosofia da ciência: introdução ao jogo e suas regras. 3 ed. São Paulo: Loyola, 2001, p. 21.
41
.BECK, Ulrich. Risokogesellschaft: auf dem Weg in eine andere Moderne. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1986 (1ª
edição de 1986).
42
.BECK, Ulrich. Weltrisokogesellschaft: auf der Suche nach der verloren Sicherheit. Frankfurtam Main: Suhrkamp,
2008.
43
.JONAS, Das Prinzip Verantwortung..., pp. 31 e 47.
44
.De acordo com Carmen Lucia Antunes Rocha, a “tecnologia evoluiu, tornou-se mais eficaz, mas busca ser o seu
próprio fim. A produção – ou o seu produto – não se volta ao homem; antes, tenta fazer com que o homem se volte a
ela. Se um dia o homem buscou humanizar a máquina, parece certo que o que mais se vê agora é a tentativa da
máquina de coisificar o homem”. ANTUNES ROCHA, Cármen Lúcia. “Vida digna: direito, ética e ciência”. In:
ANTUNES ROCHA, Cármen Lúcia (Coord.). O direito à vida digna. Belo Horizonte: Editora Fórum, 2004, p. 25.
45
.JONAS, Das Prinzip Verantwortung...., p. 28.
46
.KREBS, Angellika. Naturethik im Überblick. In: KREBS, Angelika (Org.). Naturethik: Grundtexte der gegenwärtigen
tier- und ökologischen Diskussion. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1997, p. 345. O “biocentrismo” (Biozentrismus) – do
grego bíos, vida – caracteriza-se por defender que “todos os seres vivos merecem consideração por si mesmos”
(“Alles Lebendige verdient Rücksicht um seiner selbst willen”). No caso do “ecocentrismo” – também denominado por
alguns de “ética holística” (holistische Ethik) ou “fisiocentrismo” (radikaler Physiozenrismus), do grego physis, ou seja,
Natureza –, “toda a Natureza (versão holística) ou tudo na Natureza (versão individualista) merece consideração por si
mesmo” (“die ganze Natur – holistische Version – bzw. alles in der Natur – individualistische Version – verdient
Rücksicht um ihrer – seiner – selbst willen”). Há ainda a expressão “patocentrismo” (Pathozentrismus) – do grego
páthein, padecer – para designar a concepção ética de que “todos os seres sencientes merecem consideração por si
mesmos” (“alle empfindungsfähigen Wesen verdienen Rücksicht um ihrer selbst willen”). KREBS, Naturethik im
Überblick…, p. 345. No mesmo sentido v, BOSSELMANN, Im Namen der Natur…, pp. 265-277.
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
0
§ 5 DA ÉTICA ECOLÓGICA AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO: RUMO A UM
NOVO PARADIGMA JURÍDICO-CONSTITUCIONAL ECOCÊNTRICO?
Após destacarmos alguns aspectos da ética ecológica, gostaríamos de esclarecer ao leitor o
nosso posicionamento, já que, a partir do próximo tópico, iremos adentrar propriamente no “mundo
jurídico”. E os fundamentos éticos são determinantes para a compreensão que temos do Direito.
No âmbito do Direito Constitucional Ecológico – assim como do Direito Ambiental (ou Direito
Ecológico, como tem sustentado parte da doutrina mais recentemente) –, há crescente disputa no
campo teórico entre diferentes paradigmas.47 De um lado, aqueles que defendem uma matriz
teórica preponderantemente antropocêntrica. Do outro, os adeptos das correntes da ética
ecológica: patocentrismo, biocentrismo e ecocentrismo. Por isso, cumpre fazermos os devidos
esclarecimentos e evidenciar nossa posição pessoal, inclusive justificando as razões para uma
mudança de posição nesta nova 6ª edição do livro, como já anunciamos na Nota a esta nova
edição. A abordagem teórica de matriz constitucional-ambiental adotada por nós nas edições
anteriores do livro, conforme o leitor poderá constatar ao longo da obra, era marcada por uma
concepção antropocêntrica, tal qual o é essencialmente o Direito (enquanto construção humana).48
Nunca defendemos um antropocentrismo clássico de matriz filosófica cartesiana, numa rígida
relação de sujeito (ser humano) e objeto (Natureza), com nítido caráter instrumental e dicotômico
no trato com a Natureza. Mas sim um antropocentrismo jurídico ecológico – ou mesmo “relativo” ou
“alargado” como sustentam alguns autores (José de S. Cunhal Sendim,49 Vasco Pereira da Silva50
e J. R. Morato Leite e Patryck de A. Ayala)51 –, com o propósito de reconhecer o valor intrínseco
inerente não apenas ao ser humano, como também a outras formas de vida não humanas (e a
Natureza em si). O “reconhecimento” de um valor intrínseco em outras formas de vida não
humanas conduz, por si só, à atribuição de “dignidade” para além da esfera humana, além, é claro,
de permitir a identificação de uma dimensão ecológica da própria dignidade da pessoa humana,
conforme será tratada mais à frente. Nessa ótica, a proteção de valores e bens jurídicos ecológicos
imporá restrições aos próprios direitos e ao comportamento do ser humano, inclusive a ponto de
caracterizar também deveres morais e jurídicos (o próprio direito ao ambiente possui um regime
jurídico constitucional de direito-dever fundamental). E isso não apenas para proteger outros seres
humanos (das presentes e futuras gerações), mas de modo a afirmar valores e proteger bens
jurídicos que transcendem a órbita humana.
Ocorre que, pelas razões já desenvolvidas na Nota à 6ª Edição do livro para justificar a
alteração do título do livro de Direito Constitucional Ambiental para Direito Constitucional Ecológico,
não obstante os significativos avanços dos marcos teóricos que buscaram relativizar a concepção
filosófica e jurídica clássica, de matriz cartesiana, conforme destacadas anteriormente, as mesmas
não deram conta de, ao longo de aproximadamente cinco décadas de desenvolvimento do Direito
Ambiental, a contar do início da Década de 1970, frear o ímpeto predatório do ser humano na sua
relação com a Natureza. E, mais do que isso, estabelecer um marco jurídico regulatório capaz de
equilibrar os eixos que caracterizam o conceito de desenvolvimento sustentável (ecológico, social e
econômico) e, em última instância, assegurar a integridade ecológica, tanto nas esferas locais,
regionais e nacionais quanto em escala planetária. Como defendem Fritjof Capra e Ugo Mattei, é
necessário construir “uma mudança de paradigma inspirada pelo reconhecimento dos princípios
básicos da ecologia e pelo novo pensamento sistêmico da ciência contemporânea”.52 A balança da
justiça não pode mais pender em favor do ser humano e seus interesses, sob pena de, ao não se
ajustar às “leis da Natureza” e assegurar o equilíbrio ecológico planetário, comprometer a sua
própria existência futura.
O Direito precisa atuar não apenas como mecanismo capaz de integrar os novos valores morais
e éticos de natureza ecológica ascendentes no âmbito social, mas também com prognose e
vislumbrando assegurar a proteção da vida, da dignidade e dos direitos fundamentais no plano
temporal futuro. Essa virada jurídica, a nosso ver, envolve necessariamente a reconfiguração
completa da nossa relação com o Planeta Terra em todos os planos e, em particular, o
reconhecimento de um novo status jurídico não apenas em favor dos animais não humanos, mas
da Natureza como um todo e dos seus elementos (rios, florestas, paisagens etc.). Isso, como será
desenvolvido com mais detalhes no Capítulo 1, envolve uma profunda ruptura (ou “revolução”53)
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p p p ( ç )
com a tradição jurídica moderna, simbolizado, no plano constitucional, pela defesa de uma
Constituição Ecológica e de um Direito Constitucional Ecológico alicerçados num novo paradigma
jurídico-constitucional ecocêntrico, apto a reconhecer o valor intrínseco inerente à Natureza no seu
conjunto (elementos bióticos e abióticos). Por mais que esse não seja o paradigma vigente no
plano normativo da grande maioria dos sistemas constitucionais (com exceção, talvez, da
Constituição do Equador de 2008), como ocorre no Brasil, entendemos que é para esse novo
horizonte constitucional que devemos mirar e caminhar, comoafirmado recentemente inclusive por
Ministros da nossa Corte Constitucional54, laborando para que ele se torne uma nova realidade
gradativamente e se concretize a tempo de salvarmos o Planeta Terra (e a nós mesmos) do
colapso ecológico que se avizinha.
Os primeiros passos nessa direção já começaram a ser dados no sentido da “queda do muro
antropocêntrico” construído pelo pensamento moderno para alijar os animais não humanos e a
Natureza do “mundo dos direitos”, inclusive no marco constitucional brasileiro. A atribuição ao
Estado, por intermédio da norma constitucional (art. 225, caput e § 1.º, da CF/1988), de deveres
de proteção – o que caracteriza uma proteção jurídica de natureza objetiva dos bens em questão –
e também aos particulares (sob a forma de deveres fundamentais de proteção do ambiente) no
sentido de “preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico
das espécies e ecossistemas” (art. 225, § 1.º, I), bem como de “proteger a fauna e a flora, vedadas,
na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de
espécies ou submetam os animais a crueldade” (inc. VII do mesmo dispositivo), nos parecem
exemplos expressivos de uma tutela jurídica autônoma dos bens jurídicos ecológicos em questão
(por exemplo, Natureza em si, bem-estar animal, fauna e flora), bem como direitos (fundamentais?
55) dos animais à vida, à liberdade de locomoção, à integridade física, ao bem-estar, entre outros.
Isso, por sua vez, revela uma tomada de rumo jurídico-constitucional bastante evidente no sentido
contrário ao antropocentrismo clássico. A mesma reflexão pode surgir a partir da criminalização de
condutas humanas degradadoras do ambiente, o que foi levado a efeito no plano infraconstitucional
por meio da Lei dos Crimes e Infrações Administrativas Ambientais ( Lei 9.605/1998),56
regulamentando dispositivo da CF/1988 (art. 225, § 3.º). A “criminalização” dos maus-tratos
contra os animais, trazida pela Lei 9.605/1998, pode, em certa medida, conduzir ao
entendimento de que tal norma está fundamentada numa concepção jurídica “ecocêntrica”, ao
dispor, no seu art. 32, que configura crime “praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar
animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos” (caput), bem como que
incorre na mesma pena “quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que
para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos” (§ 1.º) e que “a pena é
aumentada de 1/6 (um sexto) a 1/3 (um terço), se ocorre morte do animal” (§ 2.º).
A criminalização de condutas lesivas ao ambiente, por certo, não é suficiente por si só para
romper com a concepção antropocêntrica do Direito em prol de uma visão ecocêntrica – como
defendida, por exemplo, pela “Ecologia Profunda” (Deep Ecology) de Arne Naess57 e pela ética da
responsabilidade de Hans Jonas, esta última tratada no tópico anterior –, mas já simboliza, em
alguma medida, o movimento progressivo de pequenas rupturas na tradição jurídica
antropocêntrica. Não há hoje edificação jurídica – teórica, normativa e jurisprudencial – para romper
de forma definitiva com a tradição antropocêntrica, mas, por outro lado, já se pode afirmar de forma
categórica, na nossa ótica, a superação do “antropocentrismo clássico”58. O atual regime jurídico
(nacional, comparado59 e internacional) de que dispomos já consagra a conciliação dos valores
humanos e ecológicos, de modo a proporcionar a sua integração e, ao mesmo tempo, reconhecer a
interdependência que lhes é inerente, distanciando-se gradualmente do antropocentrismo
cartesiano. A devida proteção ecológica passa, de acordo com o atual estágio de desenvolvimento
do marco constitucional contemporâneo, pela consolidação e efetivação integradora dos direitos
fundamentais liberais, sociais e ecológicos, bem como pela afirmação da autonomia do bem
jurídico ecológico, sem o que a proteção do ambiente será mera ficção e tinta no papel. Há,
conforme pontua Klaus Bosselmann, a possibilidade de “coexistência” entre os paradigmas
“antropocêntrico” e “ecocêntrico” dentro do sistema protetivo estabelecido pelo Direito Ambiental.60
Como dito anteriormente, por mais que no discurso ambientalista – jurídico e não jurídico – seja
sempre entoado com entusiasmo a defesa de um novo paradigma ecocêntrica – em oposição ao
antropocentrismo –, tal entendimento não reflete (ainda) as construções jurídicas e respectivos
mecanismos normativos dos quais dispomos hoje para promover a tutela e promoção do ambiente.
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Na absoluta maioria das vezes, serão os mesmos fundamentos teóricos, normativos e
jurisprudenciais disponíveis para promover a proteção da vida e da dignidade do ser humano que
servirão para promover a proteção ecológica. Não por outra razão, a nossa abordagem teórica é
construída a partir dos pilares do Direito Constitucional e da Teoria dos Direitos Fundamentais (e
também da Teoria dos Direitos Humanos se tomarmos a perspectiva do Direito Internacional). Para
nós, a proteção do ser humano é a proteção da Natureza, e vice-versa. Talvez aí resida uma marca
“ecocêntrica” na nossa abordagem teórica, porquanto não advogamos qualquer separação entre
ser humano e Natureza. Pelo contrário, entendemos vital tal “religação”, identificando o ser humano
como mais um elemento na cadeia da vida no Planeta Terra. Com Lutzenberger, entendemos que
“não estamos fora, por cima e contra a Natureza, estamos bem dentro. Somos um pedaço dela”.61
O paradigma constitucional ecocêntrico objetiva, forte na premissa da integridade ecológica
(como sua Grundnorm62), ampliar o quadro de bem-estar humano para além dos espectros liberal e
social, inserindo necessariamente a variável ecológica, somado à atribuição de valor intrínseco e
direitos não apenas aos animais, mas também à Natureza. Como entendemos não ser possível a
dicotomia cartesiana entre ser humano e Natureza, por representar uma incoerência do ponto de
vista ontológico, dada a natureza biológica inerente à condição existencial humana, a defesa dos
direitos da Natureza é, em última instância, a defesa da vida, da dignidade e dos direitos
fundamentais dos ser humano, já que os mesmos têm como premissa a integridade ecológica para
o seu exercício e florescimento da vida humana no Planeta Terra. Tal “virada ecológica” na
concepção da Teoria Constitucional, dos direitos fundamentais e também do próprio princípio da
dignidade da pessoa humana (a partir de suadimensão ecológica e mesmo da atribuição da
dignidade para além da fronteira humana)63 implica a imposição de restrições ao exercício dos
demais direitos fundamentais (liberais e sociais),64 mas sempre buscando assegurar a
integralidade, indivisibilidade e interdependência que caracterizam o regime jurídico jusfundamental
e a defesa de tais valores numa perspectiva futura. Trata-se de uma abordagem conciliatória e
integradora dos valores humanos e ecológicos, como duas facetas de uma mesma identidade
jurídico-constitucional.65 Ainda que tal marco não esteja plenamente consolidado na opção político-
jurídica delineada na nossa Lei Fundamental de 1988 (art. 225), esse parece ser o caminho que
devemos seguir no futuro, como inclusive mencionado em decisões recentes da nossa Corte
Constitucional, como referido anteriormente, considerando a nossa responsabilidade – enquanto
geração humana presente – para com os interesses e direitos (?) das futuras gerações (humanas e
não humanas). Lançada a base filosófico-jurídica ecocêntrica que irá nos acompanhar ao longo
deste estudo, retomaremos a análise do marco jurídico-constitucional ecológico.
 
47
.Na doutrina, sobre os diferentes paradigmas, v. KLOEPFER, Michael. Art. 20a. In: KAHL, Wolfgang; WALDHOFF,
Christian; WALTER, Christian. Bonner Kommentar zum Grundgesetz. Heidelberg: C. F. Muller, 2005, Art. 20a, pp. 43-
44.
48
.Com o mesmo entendimento, inclusive aplicado à temática penal ambiental e fundamentado na doutrina alemã, v.
COSTA, Helena Regina Lobo da. Proteção penal ambiental. São Paulo: Saraiva, 2010, pp. 24-25.
49
.SENDIM, José de Sousa Cunhal. Responsabilidade civil por danos ecológicos: da reparação do dano através de
restauração natural. Coimbra: Coimbra Editora, 1998, p. 98 e ss.
50
.PEREIRA DA SILVA, Vasco. Verde cor de direito: lições de Direito do Ambiente. Coimbra: Almedina, 2002, p. 29-30.
51
.MORATO LEITE, José Rubens; AYALA, Patryck de Araújo. Dano ambiental: do individual ao coletivo extrapatrimonial
(teoria e prática). 3. ed. São Paulo: Ed. RT, 2010, p. 77.
52
.CAPRA, Fritjof; MATTEI, Ugo. A revolução ecojurídica: o direito sistêmico em sintonia com a Natureza e a
comunidade. São Paulo: Editora Cultrix, 2018, p. 38.
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53
.CAPRA; MATTEI, A revolução ecojurídica..., pp. 9 e ss.
54
.V., nesse sentido, os votos dos Ministros Rosa Weber e Lewandowski no julgamento da ADI 4.983/CE: STF, ADI
4.983/CE, Tribunal Pleno, Rel. Min. Marco Aurelio, j. 06.10.2016. Mais recentemente, em outra decisão pioneira e
inédita sobre o tema, o STJ reconheceu a ascensão de um novo paradigma jurídico em superação ao
antropocentrismo, atribuindo dignidade e direitos aos animais não humanos e à Natureza: STJ, REsp 1.797.175/SP, 2ª
Turma, Rel. Min. Og Fernandes, j. 21.03.2019.
55
.STUCKI, Saskia. Grundrechte für Tiere: eine Kritik des geltenden Tierschutzrechts und rechtstheoretische
Grundlegung von Tierrechten im Rahmen einer Neupositionierung des Tieres als Rechtssubjekt. Baden-Baden:
Nomos, 2016.
56
.A respeito da criminalização de condutas lesivas ao ambiente e mesmo do reconhecimento da Natureza como sujeito
passivo da criminalidade, v. artigo de SPORLEDER DE SOUZA, Paulo Vinícius. O meio ambiente (natural) como
sujeito passivo dos crimes ambientais. Revista Brasileira de Ciências Criminais. São Paulo: Ed. RT, n. 50, set.-out.
2004, pp. 57-90.
57
.NAESS, Arne. Ecology, community and lifestyle: outline of an ecosophy. Tradução para o inglês e edição de David
Rothenberg. Cambridge: Cambridge University Press, 1989.
58
.V., nesse sentido, voto do Min. Barroso no julgamento da ADI 4.983/CE, Tribunal Pleno, Rel. Min. Marco Aurelio, j.
06.10.2016.
59
.Aqui cabe fazer uma ressalva à Constituição do Equador de 2008, a qual estabeleceu de forma inédita um capítulo
específico sobre os “Direitos da Natureza (ou ‘Pacha Mama’)”, nos seus arts. 71 a 74, de modo a avançar num
horizonte normativo sem precedentes no constitucionalismo contemporâneo, e já numa perspectiva mais próxima do
que se poderia denominar de um “paradigma jurídico ecocêntrico”. Conforme resultou consignado na norma
constitucional equatoriana, “la naturaleza o Pacha Mama, donde se reproduce y realiza la vida, tiene derecho a que se
respete integralmente su existencia y el mantenimiento y regeneración de sus ciclos vitales, estructura, funciones y
procesos evolutivos” (art. 71), bem como que “la naturaleza tiene derecho a la restauración” (art. 72).
60
.BOSSELMANN, Klaus. The Principle of Sustainability: Transforming Law and Governance. Hampshire: Ashgate,
2008, p. 92-94. Para versão em língua portuguesa, v. BOSSELMANN, Klaus. O princípio da sustentabilidade:
transformando direito e governança. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015.
61
.LUTZENBERGER, José. Por uma ética ecológica. In: BONES, Elmar; HASSE, Geraldo. Pioneiros da ecologia: breve
história do movimento ambientalista no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Já Editores, 2002, p. 190.
62
.BRIDGEWATER, Peter; KIM, Rakhyun E.; BOSSELMANN, Klaus. Ecological Integrity: A Relevant Concept for
International Environmental Law in the Anthropocene?. In: Yearbook of international Environmental Law, vol. 25, n. 1
(2015), pp. 75-76.
63
.De modo a inserir a discussão sobre os direitos dos animais na perspectiva da Teoria da Justiça, v. NUSSBAUM,
Martha C. Frontiers of justice. Cambridge: Harvard University Press, 2007, especialmente pp. 325-407.
64
.O § 3.º do art. 225 da CF/1988 expressa de forma bastante contundente as “novas” responsabilidades
jurídicas de feição ecológica (nas esferas civil, penal e administrativa) do ser humano (e também das pessoas
jurídicas) em face do ambiente, limitando, por certo, outros direitos – fundamentais e não fundamentais – com o
propósito de assegurar a proteção ambiental. Dispõe a norma em questão que “as condutas e atividades
consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e
administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados”.
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65
.O § 1 (1) do Esboço do Código Ambiental alemão (UGB – Umweltgesetzbuch), ao dispor, logo no subtítulo inicial, que
a legislação ambiental tem por objetivo a proteção do ser humano e do ambiente (Schutz von Mensch und Umwelt),
procura, em certa medida, conciliar os dois paradigmas jurídicos de forma equilibrada. Disponível em:
[www.bmu.de/service/publikationen/downloads/details/artikel/ugb-referentenentwurf/?
tx_ttnews%5BbackPid%5D=1555].
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
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§ 6 CONSTITUIÇÃO, DIREITOS FUNDAMENTAIS E PROTEÇÃO ECOLÓGICA:O
CONSTITUCIONALISMO ECOLÓGICO EM CONSTRUÇÃO
O Direito, e especialmente o Direito Constitucional e a Teoria dos Direitos Fundamentais, não
podem recusar respostas aos problemas e desafios postos pela situação de risco existencial e
degradação ambiental colocadas no horizonte contemporâneo pela crise ecológica, inclusive em
escala planetária. Uma verdadeira Constituição Ecológica deve ser concebida nesse contexto, com
todas as implicações derivadas para a perspectiva das tarefas atribuídas ao Estado de Direito
contemporâneo e a compreensão dos direitos fundamentais. Cumpre ao Direito, portanto, a fim de
restabelecer o equilíbrio e a segurança nas relações sociais, a missão de posicionar-se em relação
a essas novas ameaças que fragilizam e colocam em risco a ordem de valores e os princípios
republicanos e do Estado (Democrático, Social e) Ecológicode Direito, bem como comprometem
fortemente a sobrevivência (humana e não humana) e a qualidade de vida. Com base em tais
premissas, Canotilho aponta para os “problemas de risco” como um dos principais desafios postos
para a Teoria da Constituição na contemporaneidade.66 De igual maneira, J. C. Vieira de Andrade
situa a problemática do risco no âmbito da Teoria Constitucional, pontuando que os sociólogos
descrevem a sociedade atual, já num contexto pós-industrial, como uma “sociedade de risco”
(Beck) ou uma “sociedade do desaparecimento” (Breuer), seja em face dos “perigos ecológicos” (e
mesmo perigos genéticos) ou, segundo alguns, em virtude de uma caminhada, por força do seu
próprio movimento, para a destruição das condições de vida naturais e sociais, transitando da “da
autorreferência (autopoiesis) para a autodestruição”.67 A Teoria da Constituição e,
consequentemente, a Teoria dos Direitos Fundamentais, assim como o direito constitucional
positivo, devem avançar e se desenvolver, acolhendo os novos conceitos e os valores ecológicos,
especialmente no sentido de uma Teoria Constitucional e dos Direitos Fundamentais
“ecologicamente” adequada e comprometida, inclusive com base em um novo paradigma
ecocêntrico, conforme assinalado no tópico anterior.
 
66
.CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional e teoria da Constituição. 5. ed. Coimbra: Almedina, 2002,
p. 1354. Entre os conceitos de risco, Canotilho elenca: os perigos (conhecidos e desconhecidos) gerados pela
moderna tecnologia; as ameaças de toda a civilização planetária (a partir da teoria de Beck); as potencialidades do
domínio tecnológico da natureza e da pessoa; os desafios colocados às comunidades humanas no plano da
segurança e previsibilidade perante eventuais catástrofes provocadas pela técnica e pela ciência.
67
.ANDRADE, José Carlos Vieira de. Os direitos fundamentais na Constituição Portuguesa de 1976. 2. ed. Coimbra:
Almedina, 2001, p. 61.
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
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§ 7 A INTEGRIDADE ECOLÓGICA COMO GRUNDNORM DO DIREITO CONSTITUCIONAL
ECOLÓGICO (KLAUS BOSSELMANN)
A integridade ecológica68 tem sido abordada pela doutrina como um conceito ou mesmo um
princípio nuclear do Direito Ambiental, tanto na esfera internacional quanto nacional, justamente por
traduzir a ideia de “sistema” que está na base da compreensão do equilíbrio ecológico e da
Natureza como um todo. É, em última instância, a manutenção da integridade dos ecossistemas e
do ecossistema planetário em escala global que expressa tal conceito, com o propósito de
assegurar a proteção dos fundamentos naturais de sustentação da vida humana e não humana no
Planeta Terra. A título de exemplo, a Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento
(1992) estabelece, na primeira parte do seu Princípio 7, que “os Estados devem cooperar num
espírito de parceria global para conservar, proteger e restaurar a saúde e a integridade do
ecossistema da Terra” (destaque nosso). Também a Carta da Terra (Earth Charter), adotada na
sede da UNESCO em Paris no ano 2000, reconhece a integridade ecológica como um dos seus
princípios centrais (Princípio 5): “Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da
Terra, com especial preocupação com a diversidade biológica e os processos naturais que
sustentam a vida” (destaque nosso).
No âmbito constitucional, o conceito de integridade ecológica pode ser facilmente identificado
em várias Constituições. A Lei Fundamental alemã, por exemplo, utiliza, no seu art. 20a, ao dispor
sobre a tutela ecológica como dever e tarefa estatal, a expressão “fundamentos naturais da vida”
(die natürlichen Lebensgrundlagen), cujo conteúdo normativo determina a salvaguarda do equilíbrio
ecológico numa perspectiva ecossistêmica. No sistema constitucional brasileiro (art. 225), as
expressões “processos ecológicos essenciais”69 e “função ecológica”70, inclusive com vedação
expressa a práticas que provoquem a extinção de espécies da biodiversidade, também refletem o
conteúdo do conceito e princípio da integridade ecológica. De tal sorte, pode-se alegar que a
integridade ecológica pode (e deve) ser reconhecida como um princípio constitucional implícito do
regime constitucional ecológico edificado pela nossa Lei Fundamental de 1988. É nessa
perspectiva, por sua vez, que Klaus Bosselmann sustenta ser a integridade ecológica uma espécie
de Grundnorm ou norma fundamental, tanto da ordem jurídica internacional quanto constitucional
(no plano interno dos Estados), dado o seu caráter unificador do regime jurídico de proteção da
Natureza, inclusive na perspectiva de uma governança ecológica global de acordo com os limites
planetários71 (dos diferentes subsistemas, como o regime climático e a biodiversidade).
 
68
.BRIDGEWATER, Peter; KIM, Rakhyun E.; BOSSELMANN, Klaus. Ecological Integrity: A Relevant Concept for
International Environmental Law in the Anthropocene?. In: Yearbook of international Environmental Law, vol. 25, n. 1
(2015), pp. 61-78; e WESTRA Laura; BOSSELMANN Klaus; WESTRA, Richard (Edits.). Reconciling Human Existence
with Ecological Integrity: Science, Ethics, Economics and Law. London: Earthscan, 2008.
69
.“Art. 225 (...) § 1º Para assegurar a efetividade desse direito (ou seja, o direito fundamental ao ambiente), incumbe ao
Poder Público: I - preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies
e ecossistemas.”
70
.“Art. 225 (...) § 1º (...) VII - proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco
sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade.”
71
.BRIDGEWATER; KIM; BOSSELMANN, Ecological Integrity…, pp. 75-76.
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
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§ 8 A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA
A dignidade (da pessoa) humana constitui conceito submetido a permanente processo de
reconstrução, cuidando-se de uma noção histórico-cultural em permanente transformação quanto
ao seu sentido e alcance, o que implica sua permanente abertura aos desafios postos pela vida
social, econômica, política e cultural, ainda mais em virtude do impacto da sociedade tecnológica e
da informação. Atualmente, pelas razões já referidas, pode-se dizer que os valores ecológicos
tomaram assento definitivo no conteúdo do princípio da dignidade da pessoa humana. No contexto
constitucional contemporâneo, consolida-se a formatação de uma dimensão ecológica da dignidadehumana, que abrange a ideia em torno de um bem-estar ecológico (assim como de um bem-estar
social) indispensável a uma vida digna, saudável e segura num contexto de integridade da
Natureza. Dessa compreensão, pode-se conceber a indispensabilidade de um patamar mínimo de
qualidade ambiental ou mínimo existencial ecológico para a concretização da vida humana em
níveis dignos, conforme desenvolvido no Capítulo 2. Aquém de tal padrão ecológico, a vida e a
dignidade humana estariam sendo violadas no seu núcleo essencial. A qualidade (e segurança)
ambiental, com base em tais considerações, passaria a figurar como elemento integrante do
conteúdo normativo do princípio da dignidade da pessoa humana, sendo, portanto, fundamental ao
desenvolvimento de todo o potencial humano num quadrante de completo bem-estar existencial.
Não se pode conceber a vida – com dignidade e saúde – sem um ambiente natural saudável,
equilibrado e seguro. A vida e a saúde humanas (ou como refere o caput do art. 225 da 
CF/1988, conjugando tais valores, a sadia qualidade de vida) só estão asseguradas no âmbito de
determinados padrões ecológicos mínimos. O ambiente está presente nas questões mais vitais e
elementares da condição humana, além de ser essencial à sobrevivência do ser humano como
espécie natural. De tal sorte, o próprio conceito de vida hoje se desenvolve para além de uma
concepção estritamente biológica ou física, uma vez que os adjetivos “digna” e “saudável” acabam
por implicar um conceito mais amplo, que guarda sintonia com a noção de um pleno
desenvolvimento da personalidade humana, para o qual a qualidade do ambiente passa a ser um
componente nuclear. A relação entre dignidade e direitos da personalidade é, de fato, muito
próxima, em vista de ambos estarem diretamente comprometidos com a concretização da vida
humana de forma plena e qualificada (e, portanto, também saudável). A tutela atribuída à
personalidade humana representa uma proteção abrangente em face de todas as possibilidades de
sua violação, o que deve, necessariamente, acompanhar a evolução e a complexidade das
relações sociais contemporâneas, captando a dimensão ecológica dessas.72
No intuito de caracterizar a personalidade como um valor aberto (e em constante processo de
mutação) do nosso ordenamento, M. C. Bodin de Moraes afirma que “a personalidade é, portanto,
não um ‘direito’, mas um valor, o valor fundamental do ordenamento, que está na base de uma
série (aberta) de situações existenciais, nas quais se traduz a sua incessantemente mutável
exigência de tutela”.73 Em vista da abertura conceitual inerente à tutela da personalidade (como
direito e valor do nosso ordenamento),74 a fim de contextualizá-la diante dos riscos existenciais
criados pela “sociedade de risco” contemporânea, deve-se inserir a qualidade ambiental como um
dos elementos-chave da tutela da personalidade humana, em vista da relação intrínseca que
aquela guarda com a condição existencial (presente e futura) do ser humano. A vida situada em um
quadro ambiental degradado compromete o livre desenvolvimento da personalidade humana,
especialmente no que diz respeito à integridade psicofísica do ser humano, que comporta, nas
palavras de Bodin de Moraes, um “amplíssimo direito à saúde”, compreendendo um “completo
bem-estar psicofísico e social”.75 Na mesma linha, Robson da Silva coloca o equilíbrio ambiental
como crucial para que a personalidade humana tenha um “curso normal de desenvolvimento”, o
que, principalmente nas grandes e médias cidades, está constantemente comprometido em razão
dos “desarranjos emocionais e físicos” provocados pela poluição sonora, atmosférica, hídrica etc.,
afetando toda a sociedade e o indivíduo em particular.76 De tal sorte, a qualidade e o equilíbrio dos
fundamentos naturais que dão sustentação à vida são determinantes para o livre desenvolvimento
da personalidade humana, contemplado na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) da
ONU (art. 22), e, portanto, para assegurar uma vida digna e saudável ao indivíduo e à coletividade,
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de modo a consolidar a ideia em torno de uma dimensão ecológica para a dignidade da pessoa
humana, o que será objeto de maior desenvolvimento no Capítulo 1.
 
72
.Segundo Bosselmann, com base no art. 2º da Lei Fundamental de Bonn, “o livre desenvolvimento da personalidade
só seria possível dentro dos limites do direito à existência da Natureza”. BOSSELMANN, Im Namen der Natur…, p.
205.
73
.BODIN DE MORAES, Maria Celina. Danos à pessoa humana: uma leitura civil-constitucional dos danos morais. Rio
de Janeiro/São Paulo: Renovar, 2003, p. 121.
74
.O rol dos direitos da personalidade elencados nos artigos 11 a 21 do novo Código Civil ( Lei 10.406/2002) é
meramente exemplificativo, contemplando a possibilidade de direitos da personalidade fora do referido catálogo.
75
.BODIN DE MORAES, Danos à pessoa humana..., p. 94.
76
.ROBSON DA SILVA, José. Paradigma biocêntrico: do patrimônio privado ao patrimônio ambiental. Rio de Janeiro:
Renovar, 2002, p. 254.
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
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§ 9 A DIGNIDADE (E DIREITOS?) DAS FUTURAS GERAÇÕES
“Quando falamos de passado e futuro, imiscuímos nessas palavras a nossa concepção de
tempo, mas Tchernóbil é antes de tudo uma catástrofe do tempo. Os radionuclídeos espalhados
sobre a nossa terra viverão cinquenta, cem, 200 mil anos. Ou mais. Do ponto de vista da vida
humana, são eternos. Então, o que somos capazes de entender? Está dentro da nossa capacidade
alcançar e reconhecer um sentido nesse horror que ainda desconhecemos?” (Svetlana
Aleksiévitch)77
Outro ponto, vinculado à dimensão ecológica da dignidade humana, diz respeito ao
reconhecimento da dignidade (e direitos?78) às futuras gerações humanas, ampliando-se, assim, a
dimensão temporal da dignidade para as existências humanas futuras. Deve-se, nesse sentido,
reforçar a ideia de responsabilidade e dever jurídico (para além do plano moral) para com as
gerações humanas futuras, inclusive com o reconhecimento da dignidade de tais vidas, mesmo que
potenciais, de modo a afirmar a perpetuidade existencial da espécie humana. As futuras gerações,
nessa perspectiva, são consideradas por alguns autores79 como categoria jurídica detentora de
vulnerabilidade,haja vista que os seus interesses (e direitos?) somente podem ser resguardados e
reivindicados por terceiros (no caso, a geração presente), o que reforça a esfera dos deveres
jurídicos (e morais) que recaem sobre as gerações viventes. Isso, por si só, impõe, como referido
por Dieter Birnbacher, uma “ética do futuro” (Zukunftsethik)80. Em outras palavras, trata-se de uma
ética similar à “ética da responsabilidade” de Jonas, como tratado anteriormente, cujo propósito
elementar consiste em modular as ações humanas de acordo com a manutenção da integridade
ecológica não apenas para o presente, mas também no sentido de resguardar tais condições
naturais indispensáveis à existência e desenvolvimento da vida (humana e não humana) no futuro,
com o reconhecimento tanto de deveres (morais e jurídicos) a cargo das gerações presentes,
independentemente de qualquer responsabilidade maior ou menor das gerações passadas, quanto
direitos – ou pelo menos interesses – (morais e jurídicos) das futuras gerações.
Com base em tais premissas, François Ost esboça a sua preocupação na construção de pontes
existenciais entre as gerações humanas, utilizando a questão ambiental como o paradigma mais
evidente do que ele denomina de “risco de discronia”.81 Para o autor, a proteção do ambiente
revela uma situação de “destemporalização”,82 na medida em que se está a admitir que o
comportamento dos seres humanos contemporâneos (por exemplo, nos modos de produção e
consumo) repercute de forma direta nas condições existenciais das futuras gerações, com a
degradação e poluição ambiental aumentando de forma cumulativa para o futuro. Cabe ao Direito e
ao Estado (sem desconsiderar a responsabilidade de forma individualizada dos membros de
determinada comunidade) sincronizar os “ritmos diferentes” – entre o ser humano e a Natureza; e
entre as gerações presentes e as gerações futuras –, regulando responsabilidades e deveres para
com “seres ainda virtuais, colocados em relação a nós, em relação aos nossos contemporâneos,
numa situação de dependência radical e total assimetria”.83 O princípio constitucional da precaução
revela bem essa responsabilidade para com as gerações futuras, colocando o jurista, de certa
forma, como guardião do tempo e das vidas futuras, o que determina a função prospectiva do
Direito em vista da prevenção e resolução de conflitos futuros.84
A dimensão intergeracional do princípio da solidariedade aponta para um complexo de
responsabilidades e deveres das gerações contemporâneas “viventes” em resguardar as condições
existenciais para as pessoas que virão a habitar o planeta, devendo-se voltar o olhar para o futuro
de um povo. No âmbito do Estado Ecológico de Direito, a “referência ao outro” formatada pelo
Estado Social adquire maior amplitude, na medida em que busca reconhecer e proteger também
um “outro” que se encontra num espaço temporal-geracional distinto do presente (ou seja, no plano
futuro). Pode-se dizer que a dignidade humana fundamenta tanto a sociedade já constituída quanto
a sociedade do futuro, apontando para deveres e responsabilidades das gerações presentes para
com as gerações humanas futuras, em que pese – e também por isso mesmo – a herança negativa
em termos ambientais legada pelas gerações passadas. Tal situação se dá em razão de que a
proteção ecológica objetiva garantir condições ambientais favoráveis ao desenvolvimento da vida
humana em patamares de dignidade não apenas para as gerações que hoje habitam o Planeta
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13/04/2023, 19:11 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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Terra e usufruem dos recursos naturais, mas salvaguardando tais condições também para as
gerações que irão habitá-lo no futuro85, inclusive a partir do que poderia se designar como um
princípio ou imperativo de austeridade ou economia de recursos naturais (Sparsamkeitsgebot86) ou
mesmo de uma responsabilidade de longo prazo (Langzeitverantwortung)87.
O reconhecimento da dignidade das futuras gerações humanas, assim como da dignidade dos
animais não humanos e da Natureza em si, surge como mais um elemento a formatar e ampliar a
noção (e o alcance da proteção e reconhecimento pelo Direito) da noção de dignidade humana
característica da tradição ocidental, especialmente desde Kant, e que nos tem servido como guia
até o atual estágio do pensamento humano. A reflexão proposta traça novas direções e
possibilidades para as construções no campo jurídico, com o objetivo de fortalecer – e, de certa
forma, desvelar – cada vez mais o elo vital entre ser humano e Natureza, possibilitando, a partir de
tal tomada de consciência, a nossa existência futura no Planeta Terra. Tudo isso encontra suporte
constitucional no próprio caput do art. 225 da CF/1988, ao estabelecer que se impõe ao
Poder Público e à coletividade o dever de defender e preservar o ambiente para as presentes e
futuras gerações. É de um direito fundamental à vida, ou seja, a existir no futuro que se trata em
última instância.
 
77
.Passagem da obra Vozes de Tchernóbil da jornalista e escritora ucraniana Svetlana Aleksiévitch, Prêmio Nobel de
Literatura de 2015. ALEKSIÉVITCH, Svetlana. Vozes de Tchernóbil: crônica do futuro (a história oral do desastre
nuclear). São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 39.
78
.O tema dos direitos das futuras gerações é tratado, no campo filosófico, por Dieter Birnbacher: BIRNBACHER, Dieter.
Verantwortung für zukünftige Generation. Stuttgart: Reclam, 1988, pp. 98-101.
79
.HIPPEL, Eike von. Der Schutz des Schwächeren. Tübingen: J.C.B.Mooh, 1982, pp. 140 e ss.; e MIRAGEM, Bruno;
MARQUES, Cláudia Lima. O novo direito privado e a proteção dos vulneráveis. São Paulo: Revista dos Tribunais,
2012, pp. 166 e ss.
80
.BIRNBACHER, Verantwortung für zukünftige Generation…, pp. 9-16.
81
.OST, François. O tempo do Direito. Lisboa: Instituto Piaget, 1999, pp. 39-41.
82
.Idem, p. 39.
83
.Idem, p. 81.
84
.Especificamente sobre a abordagem do princípio da precaução em face dos interesses (e direitos?) das gerações
humanas futuras, v. KISS, Alexandre. Os direitos e interesses das futuras gerações e o princípio da precaução. In:
VARELLA, Marcelo Dias; PLATIAU, Ana Flávia Barros (Orgs.). Princípio da precaução. Belo Horizonte: Del Rey, 2004,
pp. 1-12.
85
.A respeito da tutela penal das gerações futuras pela ótica da proteção ambiental, v. CÂMARA, Guilherme Costa. O
direito penal do ambiente e a tutela das gerações futuras. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2016.
86
.HASELHAUS, Sebastian. Verfassungsrechtliche Grundlagen des Umweltschutzes. In: REHBINDER, Eckard;
SCHINK, Alexander (Org.) Grundzüge des Umweltrechts. 5. ed. Berlim: Erich Schmidt Verlag, 2018, p. 26.
87
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.KLOEPFER, Art. 20a…, p. 47.
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
0
§ 10 A DIGNIDADE PARA ALÉM DO SER HUMANO: O RECONHECIMENTO DO VALOR
INTRÍNSECO DOS ANIMAIS NÃO HUMANOS E DA NATUREZA
“O florescimento da vida humana e não humana na Terra tem valor intrínseco. O valor das
formas de vida não humanas independe da sua utilidade para os estreitos propósitos humanos”.
(Arne Naess)88
A crise ecológica nos conduz a repensar o conceito kantiano de dignidade, no intuito de adaptá-
lo aos enfrentamentos existenciais contemporâneos, bem como a fim de aproximá-lo das novas
configurações morais e culturais impulsionadas pelos valores ecológicos. Isso, como referido
anteriormente, implica refletir sobre o paradigma moderno antropocêntrico conformador do conceito
kantiano de dignidade, ampliando-o ou alargando-o para contemplar o reconhecimento da
dignidade para além da vida humana, ou seja, para abarcar também os animais não humanos89,
todas as formas de vida e a Natureza como um todo (Gaia), à luz de uma matriz jusfilosófica
ecocêntrica apta a reconhecer a teia da vida90 que permeia as relações entre ser humano e
Natureza no Antropoceno. Em relação aos animais não humanos, deve-se reformular o conceito de
dignidade, objetivando o reconhecimento de um fim em si mesmo, ou seja, de um valor intrínseco
conferido aos seres sensitivos não humanos, que passam a ter reconhecido o seu status moral e
dividir – ainda que se possa discutir o nível da relação – com o ser humano a mesma comunidade
moral, conforme proposto pela “Ecologia Profunda” (Deep Ecology) de Arne Naess destacada na
epígrafe. Entendimento similar também pode ser apreendido da “ética do respeito à vida” formulada
por Albert Schweitzer.91
Tais considerações implicam o reconhecimento de deveres jurídicos a cargo dos seres
humanos, tendo como beneficiários os animais não humanos e a Natureza como um todo (e os
elementos naturais, como rios, florestas, paisagens etc.).92 Em outras palavras, pode-se falar
também de limitações aos direitos fundamentais (dos seres humanos) com base no
reconhecimento de interesses e direitos constitucionais de entes não humanos legitimados
constitucionalmente, como é facilmente identificado na tutela dispensada à fauna e à flora por meio
da vedação constitucional de “práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a
extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade” (art. 225, § 1.º, VII), conforme será
desenvolvido no Capítulo 1. O mesmo se pode dizer em relação à proteção da integridade da
Natureza, como bem jurídico autônomo, por meio da previsão do inciso I do mesmo dispositivo
constitucional, ao assinalar como dever do Estado “preservar e restaurar os processos ecológicos
essenciais”.
 
88
.NAESS, Arne. Ecology, community and lifestyle: outline of an ecosophy. Cambridge: Cambridge University Press,
1989, p. 28. O conceito de “Ecologia Profunda” (Deep Ecology) apareceu pela primeira vez no artigo de Naess “The
shallow and the deep, long-range ecology movement: a summary”, publicado na Revista Inquiry n. 16, 1973, pp. 95-
100.
89
.Sobre a dignidade dos animais (Tierwürde), v. STUCKI, Saskia. Grundrechte für Tiere: eine Kritik des geltenden
Tierschutzrechts und rechtstheoretische Grundlegung von Tierrechten im Rahmen einer Neupositionierung des Tieres
als Rechtssubjekt. Baden-Baden: Nomos, 2016, pp. 370-378.
90
.CAPRA, Fritjof. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 1996.
91
.SCHWEITZER, Albert. Filosofia da civilização. São Paulo: Editora UNESP, 2013, pp. 283-302.
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92
.Além da vulnerabilidade das futuras gerações, na seara ecológica, também pode ser aventada a ideia de
vulnerabilidade dos animais (não humanos), com os correspondentes deveres fundamentais (dos particulares)
e deveres estatais no tocante à sua proteção. Na doutrina, sobre esse último ponto, v. MEDEIROS, Fernanda L.
Fontoura de. Direito dos animais. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2013, especialmente pp. 117 e ss.
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
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§ 11 O PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE (INTRAGERACIONAL, INTERGERACIONAL E
INTERESPÉCIES) COMO PILAR NORMATIVO DA CONSTITUIÇÃO ECOLÓGICA
O novo modelo de Estado de Direito edificado pela nossa Constituição Ecológica de 1988 (art.
225), conforme já anunciado em passagem anterior, objetiva conciliar direitos fundamentais liberais,
sociais e ecológicos num mesmo projeto jurídico-político para a comunidade estatal e o
desenvolvimento existencial do ser humano num cenário de integridade ecológica e harmonia na
relação Ser Humano-Natureza. Tal redefinição conceitual do Estado de Direito contemporâneo
justifica-se em face das mudanças ocorridas em função dessa nova orientação ecológica,
assumindo o Estado, portanto, o papel de “guardião” dos direitos fundamentais (de todas as
dimensões) diante dos novos riscos e violações existenciais a que está exposto o ser humano hoje.
Na edificação do novo modelo de Estado de Direito de feição ecológica, com sua base democrática
fundada na democracia participativa e seu marco axiológico fincado no princípio constitucional da
solidariedade, há, na sua essência, uma tentativa de conciliação e diálogo normativo entre a
realização dos direitos sociais e a proteção ambiental, na condição de projetos inacabados da
modernidade, já que apenas os direitos liberais alcançaram – em certa medida – um nível maior de
realização para o conjunto da sociedade, o que é particularmente o caso da sociedade brasileira.
No compasso das promessas não cumpridas da modernidade, os princípios da liberdade e da
igualdade, como os marcos normativos, respectivamente, do Estado Liberal e do Estado Social (de
Direito), não deram conta de, por si só, assegurar uma vida digna e saudável a todos os integrantes
da comunidade humana, deixando para os juristas contemporâneos uma obra normativa ainda
inacabada. O princípio da solidariedade aparece, nesse cenário, como mais uma tentativa histórica
de realizar na integralidade o projeto da modernidade, concluindo o ciclo dos três princípios
revolucionários. A solidariedade expressa a necessidade (e, na forma jurídica, o dever) fundamental
de coexistência (e cooperação) do ser humano em um corpo social, formatando a teia de relações
intersubjetivas e sociais que se traçam no espaço da comunidade estatal. Só que aqui, para além
de uma obrigação ou dever unicamente moral de solidariedade, há que se trazer para o plano
jurídico-normativo tal compreensão. A ideia de “dever” jurídico – tanto sob a ótica dos deveres de
proteção do Estado quanto dos deveres fundamentais dos particulares (pessoas físicas e
jurídicas) – é um dos aspectos normativos mais importantes trazidos pela nova “dogmática” dos
direitos fundamentais, vinculando-se diretamente com o princípio da solidariedade. Na perspectiva
ecológica, a solidariedade apresenta natureza normativa multidimensional (intrageracional,
intergeracional e interespécies) e projeta-se, assim, também em face dos habitantes de outras
nações, das futuras gerações e mesmo dos animais não humanos e da Natureza como um todo,
implicando um conjunto de deveres estatais e deveres fundamentais (atribuídos aos particulares)
em matéria ambiental, os quais,nesse último caso, serão objeto de análise mais detida no Capítulo
4.
 
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
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§ 12 O DIREITO FUNDAMENTAL (E HUMANO) A VIVER EM UM MEIO AMBIENTE
EQUILIBRADO, SAUDÁVEL E SEGURO
“A partir da perspectiva da responsabilidade jurídica do Estado, deve haver pouca diferença
entre um Estado que executa pessoas arbitrariamente e um Estado que permite o envenenamento
da água potável por contaminantes. Nos dois casos, o Estado pode ser responsabilizado por privar
indivíduos das suas vidas, violando seus direitos humanos” (Dinah Shelton).93
O reconhecimento de um direito fundamental, de titularidade do indivíduo e da coletividade, a
viver em um ambiente ecologicamente equilibrado, tal como consagrado de forma paradigmática no
art. 225 da CF/1988 ajusta-se, consoante já enfatizado, aos novos enfrentamentos
históricos de natureza existencial postos pela crise ecológica, complementando os já amplamente
consagrados, ainda que com variações importantes, direitos civis, políticos, econômicos, sociais e
culturais, aumentando significativamente os níveis de complexidade e tarefas atribuídas ao Estado
de Direito contemporâneo. Com efeito, considerando a insuficiência dos direitos de liberdade e
mesmo dos direitos sociais, o reconhecimento de um direito fundamental ao meio ambiente
constitui aspecto central da agenda político-jurídica contemporânea. A incidência direta do
ambiente na existência humana (sua transcendência para o seu desenvolvimento ou mesmo
possibilidade), consoante pontua Antonio E. Perez Luño, é que justifica a sua inclusão no estatuto
dos direitos fundamentais, considerando o ambiente como todo o conjunto de condições externas
que conformam o contexto da vida humana.94 É com razão que, portanto, Viera de Andrade aponta
para “um sistema de direitos fundamentais em permanente transformação, de busca de um
‘estatuto da humanidade’”,95 a fim de contemplar a abertura histórica e cultural inerente à afirmação
dos direitos fundamentais no âmbito jurídico, reconhecendo-se um processo dialético em constante
evolução.
De acordo com Norberto Bobbio – e cientes das justificadas críticas que têm sido formuladas em
relação à classificação dos direitos (humanos e fundamentais) em gerações e mesmo
dimensões96 –, “ao lado dos direitos sociais, que foram chamados de direitos de segunda geração,
emergiram hoje os chamados direitos de terceira geração, que constituem uma categoria, para
dizer a verdade, ainda excessivamente heterogênea e vaga, o que nos impede de compreender do
que efetivamente se trata. O mais importante deles é o reivindicado pelos movimentos ecológicos:
o direito de viver num ambiente não poluído”.97 Na base da terceira categoria de direitos
fundamentais, conforme pontua Bosselmann, radica a ideia de serem eles essencialmente coletivos
(transindividuais), expressando direitos coletivos ou de grupos, bem como o fato de dependerem
fortemente de mecanismos de cooperação substancial de todas as forças sociais para a sua
realização.98 Já para Karl Vasak, a quem é creditada a primeira referência ao conceito de direitos
humanos de terceira dimensão, com seu clássico ensaio intitulado “For the Third Generation of
Human Rights: The Rights of Solidarity”, apresentado em 1979, na aula inaugural da 10.ª Sessão
de Estudos do Instituto Internacional de Direitos Humanos, em Estrasburgo, na França, os novos
direitos se definem na medida em que “eles são novos nas aspirações que expressam, são novos
do ponto de vista dos direitos humanos na medida em que eles objetivam inserir a dimensão
humana em áreas onde ela tem sido frequentemente esquecida, tendo sido deixadas para o Estado
ou Estados (...). Eles são novos na medida em que podem simultaneamente ser invocados contra o
Estado e exigidos deste; mas, acima de tudo (e aqui reside a sua característica essencial), eles só
podem ser realizados por meio de esforços conjuntos de todos os atores da cena social: o
indivíduo, o Estado, corporações públicas e privadas e a comunidade internacional”.99 No
compasso da evolução histórica dos direitos fundamentais, passou-se da perspectiva do indivíduo
à da espécie humana, considerada inclusive em perspectiva futura, por meio da proteção jurídica
dos interesses das futuras gerações. Das liberdades individuais migrou-se à solidariedade
planetária.
Assim como os direitos liberais têm o seu alicerce normativo no princípio da liberdade e os
direitos sociais são formatados sob a égide do princípio da igualdade, os direitos ditos de terceira
dimensão ou geração, como é o caso do direito ao ambiente, encontrariam – segundo a doutrina – o
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seu suporte normativo-axiológico no princípioda solidariedade, inclusive reforçando a dimensão dos
deveres e a natureza de direito-dever inerente ao regime jurídico constitucional de proteção
ecológica. As dimensões liberal e social dos direitos fundamentais – e dos direitos humanos, se
mirarmos pela ótica do direito internacional – conformam as duas maiores tradições políticas (o
pensamento liberal e o pensamento social) dos sistemas jurídicos ocidentais. A primeira resulta do
liberalismo cunhado no Século 18 e reformulado nos Séculos subsequentes, ao passo que a
segunda marca os Séculos 19 e 20, desembocando na estruturação do modelo contemporâneo do
Estado Constitucional, na condição de um Estado Democrático e Social de Direito, comprometido,
para além das liberdades individuais, com as noções de igualdade substancial e solidariedade. O
objetivo da Modernidade teria sido conceber o ser humano como indivíduo numa sociedade livre,
democrática e social. No entanto, conforme alerta Bosselmann, “o tempo passou”, e agora, não
obstante os seres humanos continuarem a ser uma ameaça para seus “companheiros” de espécie
humana; eles, além disso, passaram a representar uma ameaça para as condições naturais da
vida, o que demanda um conceito alargado de solidariedade, incorporando uma dimensão
ecológica à já existente dimensão social, de modo a alcançar uma adequada compreensão dos
direitos humanos e fundamentais.100
No âmbito da consagração normativa da proteção ambiental como direito humano e
fundamental, a Declaração de Estocolmo das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano (1972)
apresenta-se como o marco histórico-normativo inicial da proteção ambiental, projetando pela
primeira vez no horizonte jurídico, especialmente no âmbito internacional, a ideia em torno de um
direito humano a viver em um ambiente equilibrado e saudável, tomando a qualidade do ambiente
como elemento essencial para uma vida humana com dignidade e bem-estar.101 Já no seu
Preâmbulo, encontra-se o registro de que ambos os aspectos do ambiente, natural ou construído,
são essenciais ao bem-estar e ao gozo dos direitos humanos básicos, com destaque para o direitoà vida, compreendido como um direito à vida condigna e saudável. No seu Princípio 1.º, resultou
inscrito que “o homem tem o direito fundamental à liberdade, igualdade e adequadas condições de
vida, num meio ambiente cuja qualidade permita uma vida de dignidade e bem-estar, e tem a
solene responsabilidade de proteger e melhorar o meio ambiente, para a presente e as futuras
gerações”. De acordo com Guido F. Silva Soares, a Declaração de Estocolmo “pode ser
considerada como um documento com a mesma relevância para o Direito Internacional e para a
Diplomacia dos Estados que teve a Declaração Universal dos Direitos do Homem (...). Na verdade,
ambas as Declarações têm exercido o papel de verdadeiros guias e parâmetros na definição dos
princípios mínimos que devem figurar tanto nas legislações domésticas dos Estados, quanto na
adoção dos grandes textos do Direito Internacional da atualidade”.102
O marco jurídico internacional de proteção do ambiente resultou fortificado, vinte anos após a
Declaração de Estocolmo, precisamente no ano de 1992, em razão da Conferência das Nações
Unidas (Eco-92), onde resultou proclamada a Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento, que consigna, no seu Princípio 1.º, que “os seres humanos estão no centro das
preocupações com o desenvolvimento sustentável. Têm direito a uma vida saudável e produtiva em
harmonia, com a Natureza”. Também a Declaração e Programa de Ação de Viena, promulgada no
âmbito da 2.ª Conferência Mundial sobre Direitos Humanos (1993), também conferiu, no seu art.
11, destaque especial ao direito ao desenvolvimento, considerando que o mesmo deve ser
realizado de modo a satisfazer as “necessidades ambientais e de desenvolvimento das gerações
presentes e futuras”. Dessa forma, o direito ao ambiente tomou acento de forma definitiva também
no Direito Internacional dos Direitos Humanos, em razão da sua essencialidade à dignidade da
pessoa humana, pilar de todo o Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos.103 A
Opinião Consultiva n. 23/2017 da Corte IDH, sob o título “Meio Ambiente e Direitos Humanos”,
tratou de assinalar que um patamar mínimo de qualidade ambiental configura-se como premissa ao
exercício dos demais direitos humanos, além, por certo, da existência de um direito humano ao
meio ambiente sadio104, conforme consagrado, há três décadas, no art. 11 do Protocolo de San
Salvador (1988).105 Mais recentemente, no julgamento do Caso Comunidades Indígenas Membros
da Associação Lhaka Honhat (Tierra Nuestra) vs. Argentina, a Corte IDH declarou que a Argentina
violava um direito autônomo a um meio ambiente saudável, bem como os direitos à propriedade da
comunidade indígena, à identidade cultural, à alimentação adequada e ao acesso à água. Pela
primeira vez em um caso contencioso, a Corte IDH analisou os direitos acima autonomamente,
com base no artigo 26 da Convenção Americana de Direitos Humanos, ordenando medidas
específicas de reparação e de sua restituição, incluindo ações de acesso à alimentação adequada
e à água, para recuperação de recursos florestais e da cultura indígena.
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A CF/1988 (art. 225 e art. 5.º, § 2.º), por sua vez, seguindo a influência do direito
constitucional comparado e mesmo do direito internacional, sedimentou e positivou ao longo do seu
texto os alicerces normativos de um constitucionalismo ecológico, atribuindo ao direito ao ambiente
o status de direito fundamental106, em sentido formal e material, orientado pelo princípio da
solidariedade, conforme inclusive já resultou reconhecido pelo STF, no âmbito de emblemática
decisão relatada pelo Ministro Celso de Mello.107 Por outro lado, resulta evidente que a noção de
um direito fundamental à proteção e promoção do ambiente (ou, expresso de modo mais
simplificado, de um direito ao meio ambiente saudável) carece de elucidação, visto que
decodificada em uma dimensão objetiva e subjetiva (nesse ponto, inclusive por meio do
reconhecimento de um direito-garantia ao mínimo existencial ecológico), que, por sua vez,
comunga da multifuncionalidade característica dos direitos fundamentais no Estado Constitucional
e dos direitos humanos no âmbito do Direito Internacional dos Direitos Humanos, aspectos que
serão objeto de desenvolvimento ao longo da obra.
 
93
.“From the perspective of the law of the state responsibility, there may be little difference between a state that arbitrarily
executes persons and a state that knowingly allows drinking water to be poisoned by contaminants. In both instances,
the state can be responsible for depriving individuals of their life in violation of human rights law”. SHELTON, Dinah.
“Human rights, health and environmental protection: linkages in law and practice”. In: LEÃO, Renato Zerbini Ribeiro
(Coord.). Os rumos do Direito Internacional dos Direitos Humanos: estudos em homenagem ao Professor Antônio
Augusto Cançado Trindade. Porto Alegre: Fabris, 2005, p. 424.
94
.PÉREZ LUÑO, Antonio Enrique. Derechos Humanos, Estado de Derecho y Constitución. 5. ed. Madrid: Editorial
Tecnos, 1995, p. 463.
95
.VIEIRA DE ANDRADE, Os direitos fundamentais..., p. 65.
96
.A respeito da trajetória “evolutiva” dos direitos fundamentais e especialmente no que diz com uma perspectiva crítica
da classificação em gerações e dimensões (inclusive no tocante ao aspecto terminológico), v., por todos, SARLET,
Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. 12. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2015, especialmente
pp. 41-58.
97
.BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. 10. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1992, p. 06. Diferentemente de outros
constitucionalistas que reconhecem apenas três dimensões de direitos fundamentais, Bonavides defende a existência
de uma quarta categoria – direito à democracia, à informação e ao pluralismo – (BONAVIDES, Paulo. Curso de direito
constitucional. São Paulo: Malheiros, 2002, pp. 524-525), bem como, mais recentemente, tem se pronunciado a favor
de uma “quinta” dimensão de direitos fundamentais, deslocando o direito à paz para tal categoria. BONAVIDES,
Paulo. O direito à paz como direito fundamental de quinta geração. Revista Interesse Público, n. 40, Porto Alegre:
Editora Notadez, nov.-dez., 2006, pp. 15-22.
98
.BOSSELMANN, Klaus. Ökologische Grundrechte: zum Verhältnis zwischen individueller Freiheit und Natur. Baden-
Baden: Nomos Verlagsgesellschaft, 1998, p. 293.
99
.Apud BOSSELMANN, Ökologische Grundrechte..., pp. 293-294.
100
.BOSSELMANN, Klaus. Environmental tights and duties: the concept of ecological human rights. Artigo apresentado
no 10.º Congresso Internacional de Direito Ambiental, em São Paulo, 5-8 de junho de 2006, p. 12.
101
.Sobre a abordagem do Direito Internacional do Meio Ambiente, no âmbito da doutrina brasileira, v. CANÇADO
TRINDADE, Antônio Augusto. Direitos humanos e meio ambiente: paralelo dos sistemas de proteção internacional.
Porto Alegre: Fabris, 1993; CRETELLA NETO, José. Curso de direito internacional do meio ambiente. São Paulo:
Saraiva, 2012; NASCIMENTO E SILVA, Geraldo Eulálio do. Direito ambiental internacional: meio ambiente,
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desenvolvimento sustentável eos desafios da nova ordem mundial. 2. ed. Rio de Janeiro: Thex, 2002; e SOARES,
Guido Fernando Silva. Direito internacional do meio ambiente: emergência, obrigações e responsabilidades. 2. ed.
São Paulo: Atlas, 2003. Na doutrina internacional, v. BIRNIE, Patrícia; BOYLE, Alan. International law and the
environment. 2. ed. Oxford/New York: Oxford University Press, 2002; ANTON, Donald K.; SHELTON, Dinah L.
Environmental protection and human rights. Cambridge: Cambridge University Press, 2011; e BEYERLIN, Ulrich.
Umweltvölkerrecht. Baden-Baden: C. F. Beck, 2000.
102
.SOARES, Direito internacional do meio ambiente..., p. 55.
103
.Sobre o tema, cumpre registrar o Esboço da Declaração de Princípios sobre Direitos Humanos e Meio Ambiente
(Draft Principles on Human Rights and the Environment), realizado, no ano de 1994, por um grupo internacional de
especialistas (Grupo de Gênova), reunido a pedido do Sierra Club, Legal Defense Fund, Association Mondiale pour
L’école Instrument de Paix e a Société Suisse pour la Protection de L’environnement, e de Fatma Zohra Ksentini,
Relatora Especial sobre Direitos Humanos e Meio Ambiente da Subcomissão sobre Prevenção de Discriminação e
Proteção das Minorias da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Econômico e Social da ONU. Disponível em:
[hrlibrary.umn.edu/instree/1994-dec.htm]. Em março de 2012, o Comitê de Direitos Humanos da ONU, decidiu
estabelecer, no âmbito do Alto Comissariado para Direitos Humanos um mandato específico sobre os “direitos
humanos e o ambiente”, com o proposito, entre outras tarefas, de estudar as obrigações em matéria de direitos
humanos relacionadas com o usufruto de um ambiente seguro, limpo, saudável e sustentável, bem como promover as
melhores práticas relacionadas com a utilização dos direitos humanos na elaboração das políticas ambientais. O
primeiro relator designado foi John Knox, nomeado em agosto de 2012, para atuar como Especialista Independente
(2012-2015) e como Relator Especial para os Direitos Humanos e Meio Ambiente (2015-2018). Em março de 2018, o
Conselho de Direitos Humanos prorrogou o mandato (resolução 37/8) e nomeou, em agosto de 2018, David. R. Boyd
como Relator Especial. Disponível em:
[www.ohchr.org/en/Issues/environment/SRenvironment/Pages/SRenvironmentIndex.aspx]. A íntegra dos relatórios está
disponível em: [www.ohchr.org/EN/Issues/Environment/SREnvironment/Pages/Annualreports.aspx].
104
.Disponível em: [www.corteidh.or.cr/docs/opiniones/seriea_23_esp.pdf].
105
.Na doutrina, sobre a temática meio ambiente e direitos humanos, v. BEYERLIN, Ulrich. Umweltschutz und
Menschenrechte. In: Zeitschrift für ausländisches öffentliches Recht und Völkerrecht (ZaöRV), 2005, pp. 525-541.
Disponível em: [www.zaoerv.de/ 65_2005/65_2005_3_a_525_542.pdf].
106
.Na doutrina, em sede de direito comparado, v. BOYD, David R. The Environmental Rights Revolution: a Global Study
of Constitutions, Human Rights, and the Environment. Vancouver: University of British Columbia Press, 2012.
107
.“A questão do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado – direito de terceira geração – princípio da
solidariedade. O direito à integridade do meio ambiente – típico direito de terceira geração – constitui prerrogativa
jurídica de titularidade coletiva, refletindo, dentro do processo de afirmação dos direitos humanos, a expressão
significativa de um poder atribuído, não ao indivíduo identificado em sua singularidade, mas, num sentido
verdadeiramente mais abrangente, a própria coletividade social. Enquanto os direitos de primeira geração (Direito
Civis e Políticos) – que compreendem as liberdades clássicas, negativas ou formais – realçam o princípio da liberdade
e os direitos de segunda geração (Direitos Econômicos, Sociais e Culturais) – que se identificam com as liberdades
positivas, reais ou concretas – acentuam o princípio da igualdade, os direitos de terceira geração, que materializam
poderes de titularidade coletiva atribuídos genericamente a todas as formações sociais, consagram o princípio da
solidariedade e constituem um momento importante no processo de desenvolvimento, expansão e reconhecimento
dos direitos humanos, caracterizados, enquanto valores fundamentais indisponíveis, pela nota de uma essencial
inexauribilidade” (STF, MS 22.164/SP, Pleno, rel. Min. Celso de Mello, j. 30.10.1995).
13/04/2023, 19:11 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
0
§ 13 DIREITO FUNDAMENTAL À INTEGRIDADE DO SISTEMA CLIMÁTICO OU AO CLIMA
LIMPO, ESTÁVEL E SEGURO E OS CORRELATOS DEVERES ESTATAIS DE PROTEÇÃO
CLIMÁTICA
A atual crise climática decorrente do aquecimento global e das mudanças climáticas, inclusive a
ponto de alguns países decretarem um “estado de emergência climática”, como feito recentemente
pelo Parlamento Europeu108 , tem suscitado importante discussão doutrinária109 em torno do
reconhecimento de um direito fundamental à integridade do sistema climático ou direito
fundamental ao clima estável, limpo e seguro, como derivado do regime constitucional de proteção
ecológica e, em particular, do direito fundamental ao meio ambiente (art. 225 da 
CF/1988).110 De tal sorte, a integridade e estabilidade climática integraria tanto o núcleo essencial
do direito fundamental ao meio ambiente, quanto o conteúdo do chamado mínimo existencial
ecológico, podendo-se falar, inclusive, de um mínimo existencial climático, como indispensável a
assegurar uma vida humana digna, saudável e segura.
Tal entendimento também conduz ao reconhecimento de deveres estatais específicos de
proteção do sistema climático, derivados diretamente da previsão do inciso I no § 1º do art. 225
da CF/1988, que dispõe sobre a proteção dos “processos ecológicos essenciais”. O sistema
climático, nesse sentido, deve ser reconhecido como um novo bem jurídico autônomo de estatura
constitucional, tal como defendido recentemente pelo Ministro Antônio Herman Benjamin do STJ,
somado à consagração expressa da proteção da integridade do sistema climático no Novo Código
Florestal ( Lei 12.651/2012), art. 1º-A, parágrafo único, e na Lei da Política Nacional sobre
Mudança do Clima ( Lei 12.187/2009), art. 4º, I.
O reconhecimento de uma nova dimensão climática inerente ao regime constitucional ecológico
estabelecido no art. 225 da CF/1988 enseja a caracterização de deveres específicos de
proteção e promoção, inclusive de natureza organizacional e procedimental, no que diz respeito ao
combate, contenção e diminuição das causas e consequências das mudanças climáticas,
implicando, no caso de descumprimento por ação e/ou omissão (geral e parcial), a possibilidade de
controle jurisdicional (ademais do indispensável e permanente controle social) e, nesse contexto,
operando como parâmetro material para a aplicação do princípio da proibição de retrocesso
climático.
O tema em questão se coloca na perspectiva de um diálogo de fontes – e mesmo de um diálogo
jurisprudencial – entre o marco normativo internacional (de direitos humanos e direito ambiental) e
a ordem jurídica nacional (constitucional e infraconstitucional). Cuida-se, portanto, de uma
abordagem constitucional de múltiplos níveis, o que, no tocante ao problema da proteção e
promoção de um meio ambiente equilibrado e saudável e, em particular, de condições climáticas
íntegras, estáveis e seguras, assume especial relevância, dado o fato de que tal problema
apresenta dimensão global e, independentemente do nível de participação individual de cada
Estado (menor ou maior), em termos de emissões de gases de efeito estufa, cada um deve
contribuir para a sua superação. Ressalta-se, nesse sentido, que o Estado concebido pela 
CF/1988, tal como facilmente se percebe mediante simples leitura do art. 4º, que dispõe sobre os
princípios que regem as relações internacionaisbrasileiras, é um Estado constitucional aberto e
cooperativo.111
Não por outra razão, os sistemas internacionais (global e regionais) de proteção dos direitos
humanos têm se encarregado cada vez mais de abordar a atual crise climática e a violação de
direitos humanos dela decorrente, como exemplo, na questão dos refugiados ou deslocados
climáticos. A título de exemplo, o reconhecimento de um “direito humano ao ar limpo” e as
obrigações estatais correlatas foram expressamente reconhecidos no “Informe sobre a Questão
das Obrigações de Direitos Humanos Relacionadas com o Gozo de um Meio Ambiente Seguro,
Limpo, Saudável e Sustentável” (A/HRC/40/55), elaborado pelo Relator Especial sobre Direitos
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13/04/2023, 19:11 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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Humanos e Meio Ambiente do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, David R. Boyd,
datado do início do ano de 2019112. Segundo aponta o documento, “a má qualidade do ar tem
implicações para uma ampla gama de direitos humanos, incluindo os direitos à vida, à saúde, à
água, à alimentação, à moradia e a um padrão de vida adequado. A poluição do ar também viola
claramente o direito a um meio ambiente saudável e sustentável. Embora a Assembleia Geral
tenha adotado numerosas resoluções sobre o direito à água limpa, ela nunca adotou uma
resolução sobre o direito ao ar limpo. Claramente, se há um direito humano à água limpa, deve
haver um direito humano ao ar limpo. Ambos são essenciais para a vida, saúde, dignidade e bem-
estar.”113
De modo complementar, em informe mais recente apresentado à Assembleia Geral da ONU em
que examina a necessidade urgente de ação para garantir um clima seguro para a humanidade
(A/74/161), o Relator Especial para Direitos Humanos e Meio Ambiente destaca que: “Em termos
de obrigações substantivas, os Estados não devem violar o direito a um ambiente seguro através
de suas próprias ações, devem impedir que esse direito seja violado por terceiros, especialmente
empresas, e devem estabelecer, implementar e fazer cumprir leis, políticas e programas para
implementar esse direito. Estados também devem evitar a discriminação e medidas retrocessivas.
Todas as medidas relacionadas ao clima, incluindo as obrigações relacionadas à mitigação,
adaptação, financiamento e perdas e danos, são regidas por esses princípios”.114
 
108
.O Parlamento Europeu declarou, no dia 28 de novembro de 2019, a “emergência climática” na União Europeia (UE),
tornando a Europa o primeiro continente a decretar a medida. O ato é, em grande parte, simbólico, e se destina a
aumentar a pressão sobre os agentes públicos por medidas concretas contra as mudanças climáticas. Disponível em:
<https://www.dw.com/pt-br/parlamento-europeu-declara-emerg%C3%AAncia-clim%C3%A1tica/a-51450872>.
109
.WEDY, Gabriel. Desenvolvimento sustentável na era das mudanças climáticas: um direito fundamental. São Paulo:
Saraiva (Série IDP), 2018; e WEDY, Gabriel. Litígios climáticos: de acordo com o direito brasileiro, norte-americano e
alemão. São Paulo: JusPodivm, 2019.
110
.Tramita no Congresso Nacional proposta de emenda constitucional (PEC 233/2019) que tem por escopo integrar a
agenda climática expressamente no texto da CF/1988. A prevalecer a sua redação atual, a PEC 233/2019
acrescenta, respectivamente, o inciso X ao art. 170 e o inciso VIII ao § 1º do art. 225, conforme redação que segue:
“art. 170 [...] X – manutenção da estabilidade climática, adotando ações de mitigação da mudança do clima e
adaptação de seus efeitos adversos” e “art. 225 (...) VIII – adotar ações de mitigação da mudança do clima e
adaptação de seus efeitos adversos”.
111
.Sobre o Estado cooperativo v., em especial, HÄBERLE, Peter. Estado constitucional cooperativo. Rio de Janeiro:
Renovar, 2008.
112
.Os demais informes e documentos elaborados pela Relatoria Especial sobre Direitos Humanos e Meio Ambiente do
Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU encontram-se disponíveis em:
https://www.ohchr.org/en/Issues/environment/SRenvironment/Pages/SRenvironmentIndex.aspx.
113
.RELATOR ESPECIAL SOBRE DIREITOS HUMANOS E MEIO AMBIENTE DO ALTO COMISSARIADO DE DIREITOS
HUMANOS DA ONU. Informe sobre a Questão das Obrigações de Direitos Humanos Relacionadas com o Gozo de
um Meio Ambiente Seguro, Limpo, Saudável e Sustentável” (A/HRC/40/55), 2019, par. 44, p. 9. Disponível em:
https://documents-dds-ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/G19/002/57/PDF/G1900257.pdf?OpenElement.
114
.RELATOR ESPECIAL SOBRE DIREITOS HUMANOS E MEIO AMBIENTE DO ALTO COMISSARIADO DE DIREITOS
HUMANOS DA ONU. Informe sobre a Questão das Obrigações de Direitos Humanos Relacionadas com o Gozo de
um Meio Ambiente Seguro, Limpo, Saudável e Sustentável” (A/74/161), 2019, par. 65, p. 22. Disponível em:
https://documents-dds-ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/N19/216/45/PDF/N1921645.pdf?OpenElement.
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
0
§ 14 MÍNIMO EXISTENCIAL ECOLÓGICO (E CLIMÁTICO)?
O reconhecimento da jusfundamentalidade do direito ao ambiente ecologicamente equilibrado
opera no sentido de agregar novos elementos normativos ao conteúdo do assim chamado “mínimo
existencial”, abrindo caminho para a noção de uma dimensão ecológica do direito-garantia ao
mínimo existencial, que, em virtude da necessária integração com a agenda da proteção e
promoção de uma existência digna em termos socioculturais (portanto, não restrita a um mínimo
vital ou fisiológico), há de ser designada pelo rótulo de um mínimo existencial ecológico, coerente,
aliás, com o projeto político-jurídico do Estado de Direito de feição ecológica e de uma Constituição
Ecológica, como consagrado pela CF/1988 (art. 225). A preocupação doutrinária de se
conceituar e definir, em termos normativos, um padrão mínimo em termos ecológicos para a
realização de uma vida digna e saudável justifica-se a partir da importância essencial que a
qualidade (e segurança) ambiental representa para o desenvolvimento da vida humana em toda a
sua potencialidade.
Tais condições materiais elementares – de natureza socioambiental – constituem-se em
premissas do próprio exercício dos demais direitos (fundamentais ou não), resultando, em razão da
sua essencialidade para a existência humana, em uma espécie de direito a ter e exercer os demais
direitos. Sem o acesso a tais condições existenciais básicas (que, todavia, não podem ser
compreendidas no sentido de uma redução da proteção dos direitos ecológicos a um patamar
minimalista), o que inclui necessariamente um padrão mínimo de integridade ecológica, não há que
se falar em liberdade real ou fática, quanto menos em um padrão de vida digno. Entre outras
justificativas que se poderia invocar, também para efeitos do reconhecimento de um direito-garantia
constitucional ao mínimo existencial ecológico115, assume relevância a noção do dever de respeito
e consideração, por parte da sociedade e do Estado, pela vida de cada indivíduo, que, de acordo
com o imperativo categórico formulado por Kant (ainda que sujeito a uma releitura e
contextualização), deve ser sempre tomada como um fim em si mesmo, em sintonia com a
dignidade (e sua dimensão ecológica) inerente atribuída e reconhecida a cada ser humano e à
coletividade no seu conjunto. Mais recentemente, como já referido no tópico anterior, com a
consagração de uma nova dimensão protetiva da dignidade da pessoa humana diante dos riscos
existenciais derivados do aquecimento global e das mudanças climáticas, pode-se, inclusive,
defender o reconhecimento de um mínimo existencial climático.
 
115
.Na doutrina alemã, de onde provem a origem da expressão “mínimo existencial ecológico” (ökologische
Existenzminimum), inclusive como um esforço doutrinário para caracterizar posições jurídicas subjetivas em matéria
ambiental e, em alguma medida, superar a ausência de um direito fundamental ao ambiente na Lei Fundamental de
Bonn, v. KLOEPFER, Art. 20a…, pp. 6-8; e HASELHAUS, Sebastian. Verfassungsrechtliche Grundlagen des
Umweltschutzes. In: REHBINDER, Eckard; SCHINK, Alexander (Org.) Grundzüge des Umweltrechts. 5. ed. Berlim:
Erich Schmidt Verlag, 2018, p. 29.
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
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§ 15 O DIREITO AO MEIO AMBIENTE COMO UM “DIREITO FUNDAMENTAL EM
SENTIDO AMPLO OU COMO UM TODO” (ROBERT ALEXY)
No âmbito da Teoria dos Direitos Fundamentais formulada por Robert Alexy, o direito
fundamental ao ambiente (Umweltgrundrecht) se configura como um direito fundamental em
sentido amplo ou como um todo (Grundrechtals Ganzes), contemplando um feixe complexo e
abrangente de posições jurídicas. De acordo com o autor alemão, conjuntamente com as posições
jurídicas derivadas da sua configuração como direito de defesa (dimensão negativa ou em face do
Estado para que se abstenha de degradar o ambiente), como direito à proteção (imposta ao Estado
frente a intervenções lesivas ao ambiente praticadas por terceiros) e como direito à prestação fática
(dimensão positiva ou prestacional imposta ao Estado para promover medidas fáticas voltadas à
tutela ecológica), emerge do regime jurídico-constitucional do direito fundamental ao ambiente
também a sua dimensão como direito a procedimentos, ou seja, “um direito a que o Estado inclua o
titular do direito fundamental nos procedimentos relevantes para o meio ambiente”. 116
Compreendido em sentido amplo, o direito fundamental ao ambiente apresenta tanto uma feição
defensiva quanto outra prestacional, no sentido de poder ser decodificado, notadamente na sua
dimensão subjetiva, em um complexo heterogêneo de posições subjetivas de natureza “negativa” e
“positiva”, expressa ou implicitamente asseguradas no plano constitucional. O direito fundamental
ao ambiente apresenta como conteúdo não apenas a liberdade-autonomia (liberdade perante o
Estado), mas também da liberdade por intermédio do Estado, partindo da premissa de que o
indivíduo, no que concerne à conquista e manutenção de sua liberdade, depende em muito de uma
postura ativa dos poderes públicos.
Da consagração do direito ao ambiente como direito fundamental e do “novo” papel do Estado
como “guardião e amigo” dos direitos fundamentais, extraem-se inúmeras projeções normativas. A
dupla perspectiva subjetiva e objetiva do direito fundamental ao ambiente, representa, assim,
simultaneamente seu reconhecimento como um direito subjetivo de titularidade individual e coletiva
e um valor comunitário. A perspectiva subjetiva encarrega-se de reconhecer que o “direito” (em
verdade, os “direitos”) vinculado ao respeito, proteção e promoção do ambiente, constitui posição
jurídica subjetiva “justiciável”, o que permite levar ao Poder Judiciário os casos de lesão ou ameaça
de lesão ao bem jurídico ecológico, tanto na hipótese de serem praticados por particulares
(pessoas físicas e jurídicas) quanto pelos próprios entes estatais. A perspectiva objetiva, por sua
vez, projeta-se em um complexo de projeções normativas, entre as quais: o dever fundamental de
proteção ambiental conferido aos particulares, o dever de proteção do Estado no que tange a tutela
ambiental, as perspectivas procedimental e organizacional do direito fundamental ao ambiente e a
eficácia entre particulares do direito fundamental ao ambiente. Tal configuração normativa
estabelece todo um sistema normativo integrado e multidimensional de tutela e promoção do direito
fundamental ao ambiente, tendo como objetivo a sua máxima eficácia e efetividade, conforme será
desenvolvido ao longo dos diversos Capítulos que integram a obra.
 
116
.ALEXY, Theorie der Grundrechte..., pp. 403-404.
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13/04/2023, 19:13 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
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§ 16 GEORG JELLINEK, A TEORIA DO STATUS (STATUSLEHRE) E O STATUS
OECOLOGICUS
No ano de 2011, em homenagem aocentenário da morte do jurista alemão Georg Jellinek, foi
publicado um importante texto de Winfried Brugger, da Universidade de Heidelberg. No seu texto,
Brugger propôs uma leitura atualizada da clássica “Teoria do(s) Status” (Statuslehre) de Jellinek117,
abordada na sua obra System der subjektiven öffentlichen Rechte118 (“Sistema de Direitos Públicos
Subjetivos”), de 1892 (com 2ª edição revisada de 1905). A obra de Jellinek, entre outros aspectos,
aborda a relação entre indivíduo e Estado no âmbito do Direito Público, estabelecendo as esferas
de domínio de cada um. Pela ótica dos direitos públicos subjetivos (expressão ainda hoje
recorrente para descrever os direitos fundamentais, notadamente pela perspectiva da sua
dimensão subjetiva119), a Teoria do(s) Status estabeleceu, em grande medida, os pilares fundantes
da Teoria dos Direitos Fundamentais contemporânea, como é fácil de perceber na análise do
conteúdo de cada status.120
Segundo Jellinek, os direitos fundamentais (para ele, “direitos públicos subjetivos”)
apresentariam três funções básicas (Grundrechtsfunkionen121) representadas pelos seguintes
status: 1) status negativus; 2) status positivus; e 3) status activus. No caso do status negativus, os
direitos fundamentais são tomados como direitos de defesa (Grundrechte als Abwerrechte). O
status positivus, por sua vez, configura-se como a função prestacional dos direitos fundamentais
(Grundrechte als Leistungsrechte). Já o status activus (ou status aktiver Zivität) caracteriza os
direitos fundamentais como direitos de participação ativa (Grundrechte als Rechte zur aktiven
Teilnahme), como na esfera política, caracterizando a própria configuração da cidadania política. O
status activus já havia recebido uma releitura contemporânea feita por Peter Häberle,
denominando-o de status activus processualis122, o que está de acordo com a dimensão
organizacional e procedimental dos direitos fundamentais ou mesmo com a ideia de proteção dos
direitos fundamentais por meio do(s) procedimento(s) (Grundrechtschutz durch Verfahren123). Mas
Jellinek não parou por aí. Ele também destacou um quarto status: o status subiectionis ou
statuspassivus, o qual estaria relacionado à esfera dos deveres e responsabilidades do indivíduo
(individuellen Pflicthsphäre) para com o Estado e, de certa forma, para com o conjunto da
sociedade. A faceta contemporânea de tal status pode ser caracterizada por meio dos deveres
fundamentais estabelecidos pela atual Teoria dos Direitos Fundamentais, balizando, inclusive,
como é peculiar ao Direito, os limites para o exercício, pelo indivíduo, do seu status libertatis num
quadrante comunitário, como, aliás, é característico da natureza de direito-dever fundamental que
caracteriza o regime constitucional de tutela ecológica consagrado na CF/1988 (art. 225).
Para além dos “quatro status” propostos por Jellinek, Brugger explora dois novos status na
perspectiva da relação Estado-Cidadão (Staat-Bürger): o status oecologicus e o status culturalis. E,
para além da clássica relação Estado Nacional-Cidadão, o autor também aborda outros dois: o
status europeus e o status universalis. No caso do status oecologicus, que particularmente nos
interessa aqui, tal decorreria, num primeiro plano, da nova tarefa ou objetivo atribuído ao Estado
(Staatszielbestimmumg), tal como estabelecido no artigo 20a da Lei Fundamental alemã desde
1994 (e, no caso da Constituição brasileira, no art. 225, com o plus do reconhecimento também de
um direito fundamental ao ambiente, diferentemente do que ocorre na norma constitucional
germânica), bem como da imposição da toda uma nova legislação infraconstitucional voltada à
proteção ambiental124 (ou da Natureza). De acordo com Brugger, não obstante a rejeição expressa
que o autor faz ao reconhecimento e atribuição de “direitos” próprios da Natureza ou dos elementos
naturais, o Estado, ao regular a matéria, por exemplo, no uso e exploração do solo, da água e do
ar, deve deixar claro ao cidadão a esfera e os limites para o exercício do seu status libertatis e a
partir de onde o Estado imporá e exigirá o respeito ao seu status subiectionis, o que tornaria
possível, a partir de tal ótica, o reconhecimento de um status oecologicus125. O status oecologicus
proposto por Brugger alinha-se, em alguma medida, com o pensamento de Alexy tratado
anteriormente, ao reconhecer a faceta “multidimensional” do regime jurídico-constitucional
ecológico (como um direito fundamental “completo” ou “como um todo”), exigindo o seu lugar de
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destaque, dada a relevância comunitária e mesmo existencial do bem jurídico ecológico, no âmbito
da Teoria dos Direitos Fundamentais contemporânea.
 
117
.BRUGGER, Winfried. Georg Jellineks Statuslehre: national und international: Eine Würdigung und Aktualisierung
anlässlich seines 100. Todestages im Jahr 2011. In: AöR, Vol. 136, n. 1, março, 2011, pp. 1-43.
118
.JELLINEK, Georg. System der subjektiven öffentlichen Recht. 2. ed. Tübingen: Scientia Verlag Aalen, 1979
(originalmente publicada em 1905), pp. 86-87.
119
.A título de exemplo, a CF/1988 utiliza tal expressão ao assinalar, no art. 208, § 1º, que “o acesso ao ensino
obrigatório e gratuito é direito público subjetivo” (destaque nosso).
120
.Sobre a teoria do status de Jellinek na perspectiva da Teoria dos Direitos Fundamentais contemporânea, inclusive
com aporte crítico, v. ALEXY, Theorie der Grundrechte…, pp. 229-248.
121
.HUFEN, Friedhelm. Staatsrecht II: Grundrechte. 4. ed. Munique: C.H.Beck, 2014, p. 51.
122
.HÄBERLE, Peter. Grundrechte im Leistungsstaat. In: VVDStRL, 1972, pp. 81 e ss.
123
.HUFEN, Staatsrecht…, p. 58.
124
.BRUGGER, Georg Jellineks Statuslehre…, pp. 28-29.
125
.BRUGGER, Georg Jellineks Statuslehre…, p. 29.
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
0
§ 17 ESTADO DEMOCRÁTICO, SOCIAL E ECOLÓGICO DE DIREITO, DEVERES
ESTATAIS DE PROTEÇÃO AMBIENTAL E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
No tocante ao modelo contemporâneo de Estado de Direito, é possível aderir à ideia da
superação do modelo do Estado Social (que, por sua vez, já havia superado o Estado Liberal) –
pelo menos na forma assumida após a Segunda Grande Guerra – por um modelo de Estado
(Democrático, Social e) Ecológico126, também designado por alguns de Pós-Social,127 que, em
verdade, não abandona as conquistas dos demais modelos de Estado de Direito em termos de
salvaguarda da dignidade humana, mas apenas agrega a elas uma dimensão ecológica,
comprometendo-se com o enfrentamento e prevenção do quadro de riscos e degradação
ecológica. O processo de afirmação histórica dos direitos fundamentais, pela ótica das suas
diferentes dimensões (liberal, social e ecológica), reforça a caracterização constitucional de um
novo modelo de Estado Constitucional, em superaçãoaos modelos de Estado Liberal e Social. O
marco jurídico-constitucional ecológico ajusta-se à necessidade da tutela e promoção – integrada e
interdependente – dos direitos sociais e dos direitos ecológicos num mesmo projeto jurídico-político
para o desenvolvimento humano em padrões sustentáveis, inclusive pela perspectiva da noção
ampliada e integrada dos direitos fundamentais socioambientais ou direitos fundamentais
econômicos, sociais, culturais e ambientais (DESCA).
Em vista de tais reflexões, é possível destacar o surgimento de um
constitucionalismoecológico – ou, pelo menos, da necessidade de se construir tal noção –,
avançando em relação ao modelo do constitucionalismo social, designadamente para corrigir o
quadro de desigualdade e degradação humana em termos de acesso às condições mínimas de
bem-estar. Em face de tal cenário, não é possível tolerar extremismos (fundamentalismos)
ecológicos ou mesmo compreensões “maniqueístas” do fenômeno ambiental, de modo a não se
admitir uma tutela ecológica que desconsidere as mazelas sociais que estão, conforme já se
assinalou anteriormente, na base de qualquer projeto político-econômico-jurídico que mereça a
qualificação de sustentável. Não sem razão, adota-se aqui a formulação de Winter e o
reconhecimento dos três pilares centrais que integram e dão suporte à noção de desenvolvimento
sustentável, quais sejam, o econômico, o social e o ambiental,128 o que, diga-se de passagem,
encontra perfeita sintonia com o projeto normativo da nossa Lei Fundamental de 1988, facilmente
apreensível do somatório entre o objetivo constitucional erradicar a pobreza, reduzir as
desigualdades sociais (art. 3.º, I e III), o estabelecimento de uma ordem econômica sustentável
(art. 170, VI) e o dever de tutela ecológica atribuído ao Estado e à sociedade (art. 225).
A nova formatação ecológica do Estado de Direito, à luz de uma Constituição Ecológica, nesse
novo cenário constitucional, tem por missão e dever jurídico vinculante para todos os entes estatais
(Estado-Legislador, Estado-Administrador e Estado-Juiz)129 atender ao comando normativo
emanado do art. 225 da CF/1988, considerando, inclusive, o extenso rol exemplificativo de
deveres de proteção ecológica elencado no seu § 1.º, sob pena de, não o fazendo, tanto sob a
ótica da sua ação quanto da sua omissão, incorrer em práticas inconstitucionais ou antijurídicas
autorizadoras da sua responsabilização por danos causados a terceiros – além do dano causado
ao meio ambiente em si. Nesse contexto, a CF/1988 delineou a competência administrativa (art.
23), em sintonia com os deveres de proteção ambiental, de todos os entes federativos (Municípios,
Estados, Distrito Federal e União) na seara ambiental, de modo que incumbe a todos a tarefa – e
responsabilidade solidária – de “proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de
suas formas” (inciso VI) e “preservar as florestas, a fauna e a flora” (inciso VII).130 A partir de tal
entendimento, a não atuação (quando lhe é imposto juridicamente agir) ou a atuação insuficiente
(de modo a não proteger o direito fundamental de modo adequado e suficiente), no tocante a
medidas legislativas e administrativas voltadas ao combate às causas geradoras da degradação do
ambiente, pode ensejar, em alguns casos, até mesmo a intervenção e o controle judicial, inclusive
no tocante às políticas públicas levadas a cabo pelos entes federativos em matéria ambiental.
Nessa perspectiva, deve-se considerar não apenas um papel determinante do Poder Judiciário,
mas também das instituições públicas voltadas à tutela dos direitos ecológicos e que dispõem de
legitimidade para a adoção de medidas extrajudiciais e judiciais – por exemplo, do termo de
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ajustamento de conduta e da ação civil pública – para a resolução de tais conflitos, como é o caso
do Ministério Público e da Defensoria Pública, além, é claro, das associações civis de proteção
ambiental e do próprio cidadão, este último por meio do manuseio da ação popular. Tais aspectos,
aqui apenas esquematicamente expostos, serão desenvolvidos ao longo dos vários capítulos do
livro.
 
126
.Na doutrina, v. VOIGT, Christina (Edit.). Rule of Law for Nature: New Dimensions and Ideas in Environmental Law.
Cambridge: Cambridge University Press, 2013.
127
.Sobre a concepção de Estado Pós-Social, no âmbito da doutrina nacional, v. SARMENTO, Daniel. “Os direitos
fundamentais nos paradigmas liberal, social e pós-social (pós-modernidade constitucional?)”. In: SAMPAIO, José
Adércio Leite (Coord.). Crise e desafios da Constituição: perspectivas críticas da teoria e das práticas constitucionais
brasileiras. Belo Horizonte: Del Rey, 2003, pp. 375-414.
128
.WINTER, Gerd. Desenvolvimento sustentável, OGM e responsabilidade civil na União Europeia. Campinas:
Millennium Editora, 2009, pp. 2 e ss. Na doutrina brasileira, a respeito do princípio do desenvolvimento sustentável, v.
FENSTERSEIFER, Tiago; SARLET, Ingo W. Princípios do direito ambiental. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2017, pp. 119-
138.
129
.KLOEPFER, Art. 20a…, p. 27.
130
.A norma constitucional em questão foi regulamentada no âmbito infraconstitucional por meio da Lei
Complementar 140/2011 (Competência administrativa em matéria ambiental).
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
0
§ 18 DIREITOS FUNDAMENTAIS SOCIOAMBIENTAIS? A INTERDEPENDÊNCIA E
INDIVISIBILIDADE DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS
“Existem problemas novos convivendo com antigos – a persistência da pobreza e de
necessidades essenciais não satisfeitas, fomes coletivas (...) e ameaças cada vez mais graves ao
nosso meio ambiente e à sustentabilidade de nossa vida econômica e social” (Amartya Sen).131
A consagração constitucional do Estado (Democrático, Social e) Ecológico de Direito, por sua
vez, guarda sintonia com a tese da indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos e
fundamentais.132 As dimensões dos direitos humanos e fundamentais, na sua essência,
materializam as diferentes refrações do princípio da dignidade da pessoa humana, pilar central da
arquitetura constitucional contemporânea, reclamando uma compreensão integrada, desde logo
incompatível com um sistema de preferências no que diz com a prevalência, em tese, de
determinados direitos em relaçãoa outros. O projeto político-jurídico de realização dos direitos
fundamentais sociais longe está de uma realização satisfatória, ainda mais considerando a
privação – até mesmo na esfera de um patamar minimalista (também no tocante ao assim chamado
mínimo existencial) – do acesso aos bens sociais básicos, em especial verificável no caso dos
direitos à saúde, à educação e à moradia.133 Assim, a orientação ora lançada no âmbito deste
estudo introdutório, no sentido de uma tutela integrada dos direitos sociais e da proteção do
ambiente, na perspectiva dos direitos fundamentais socioambientais, atende justamente a um
critério de justiça socioambiental, para além da ideia de justiça social, erradicando as mazelas
socioambientais que alijam parte significativa da população brasileira do desfrute de uma vida
digna e saudável, em um ambiente equilibrado, seguro e hígido.
A respeito da questão, cumpre assinalar que o tratamento integrado de tais direitos – sob o
marco constitucional ecológico – se faz necessário também em razão de certo descaso político-
jurídico que marcou historicamente a sua consagração constitucional, especialmente perceptível no
caso dos direitos sociais e da sua ainda relativamente recente inclusão nos textos constitucionais.
De tal sorte, há a necessidade de um adequado enquadramento e tratamento normativo tanto dos
direitos sociais quanto dos direitos ecológicos, de modo a que não se perpetue o entendimento de
que tais direitos tenham sido consagrados em normas constitucionais de cunho eminentemente
programático ou de “baixa” normatividade, portanto, incapazes de caracterizar posições subjetivas
“justiciáveis”.134 A tudo isso também se soma a própria natureza da carga normativa de tais direitos
e do papel do Estado na sua efetivação. Assim, pode-se dizer que há a preponderância de uma
carga normativa prestacional comum a tais direitos – não obstante a carga normativa defensiva
também estar presente em várias situações –, demandando, em grande medida, que a realização
de tais direitos passe pela atuação estatal, especialmente por intermédio da promoção de políticas
públicas, diferentemente do que ocorre no tocante aos direitos liberais, onde prepondera a carga
normativa defensiva.
A semelhança da sua feição normativa em alguns aspectos e mesmo do conteúdo propriamente
dito de tais direitos135 permite a possibilidade de um aproveitamento e adaptação em grande
medida do desenvolvimento teórico – e mesmo jurisprudencial – verificado no campo dos direitos
sociais para os direitos ecológicos. A edificação teórica dos direitos sociais precede historicamente
o desenvolvimento do direito ambiental e dos direitos fundamentais ecológicos, encontrando-se em
estágio muito mais avançado em alguns aspectos, especialmente no tocante aos mecanismos
normativos para combater a baixa efetividade das normas que tutelam tais direitos, como
decorrência da omissão ou atuação insuficiente dos entes estatais. De modo a reforçar tal
entendimento, no sentido de um tratamento normativo equiparado entre os direitos sociais e o
direito ao ambiente, cumpre assinalar que o Protocolo de San Salvador Adicional à Convenção
Americana sobre Direitos Humanos em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1988),
reconheceu, no corpo do seu texto, que “toda pessoa tem direito a viver em um meio ambiente
sadio e a contar com os serviços públicos básicos” (art. 11.1), bem como que “os Estados-Partes
promoverão a proteção e melhoramento do meio ambiente” (art. 11.2). Mais recentemente, resultou
consagrado no Princípio 25 da Declaração do Rio de 1992 que “a paz, o desenvolvimento e a
proteção ambiental são interdependentes e indivisíveis”.
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A tese da indivisibilidade, unidade e interdependência dos direitos fundamentais, refuta, de certa
maneira, o conceito de “gerações” de direitos fundamentais, no sentido de que todos os direitos
fundamentais, de diferentes dimensões, complementam-se na busca de uma tutela integral e
efetiva da dignidade da pessoa humana, não havendo, portanto, como defendem alguns, primazia
ou superioridade hierárquica entre tais direitos como decorrência de integrarem uma geração
precedente. Nesse sentido, Cançado Trindade, ao formular sua crítica à concepção de “gerações
de direitos humanos”, com o que estamos de pleno acordo, destaca a “natureza complementar” de
todos os direitos humanos. O internacionalista pontua que, subjacente à perspectiva “fantasiosa”
das gerações, está uma visão fragmentária dos direitos humanos, a qual tem operado a
postergação da realização de alguns dos direitos humanos, como ocorre com os direitos
econômicos, sociais e culturais.136 Contra tal mal, a tese da unidade e indivisibilidade dos direitos
humanos (e o mesmo ocorre com os direitos fundamentais) é o melhor antídoto, rompendo com
qualquer hierarquização ou priorização da realização de direitos humanos em razão da sua
precedência geracional, no sentido de afirmar que todos os direitos humanos (e fundamentais)
expressam conteúdos essenciais conformadores da dignidade humana, o que também é o caso
dos direitos ecológicos.
De modo exemplificativo, é oportuno referir a conexão entre a proteção do direito ao ambiente e
do direito à saúde137 – e o mesmo poderia ser dito em relação aos demais direitos sociais –,
inclusive, em alguns casos, no sentido do compartilhamento de parcela do conteúdo normativo
integrante do âmbito de proteção de tais direitos. O próprio Pacto Internacional dos Direitos
Econômicos, Sociais e Culturais – PIDESC (1966), já sinalizava a sua receptividade e abertura à
tutela ecológica – ainda bastante incipiente à época no plano normativo internacional, considerando
que a Declaração de Estocolmo das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano datada de
1972 –, de modo que alguns dispositivos do seu texto já destacam a relação da proteção do
ambiente com os direitos sociais, na medida em que dispõe sobre o direito de toda pessoa a um
nível de vida adequado e de uma melhoria contínua das condições de vida (art. 11.1), bem como, já
sob o enfoque do direito à saúde, acerca do direito de toda pessoa a desfrutar do mais elevado
nível de saúde física e mental relacionado à melhoria de todos os aspectos de higiene do trabalho
e do meio ambiente (art. 12.1 e 12.2.b). Conforme se pode apreender dos dispositivos em questão,
a importância da qualidade e equilíbrio ambiental para a proteção da saúde já se fazia presente no
PIDESC. A Convenção sobre os Direitos da Criança (1989), por sua vez, no dispositivo que trata do
direito à saúde da criança (art. 24), estabelece que os Estados-partes adotarão as medidas
necessárias a “combater as doenças e a desnutrição, dentro do contexto dos cuidados básicos de
saúde mediante, inter alia, a aplicação de tecnologia disponível e o fornecimento de alimentos
nutritivos e de água potável, tendo em vista os perigos e riscos da poluição ambiental” (24.2, ‘c’).
Tomando por premissa um conceito amplo para o direito à saúde, Baldassarre acentua que o
direito à saúde está dirigido à tutela da integridade física e psíquica da pessoa frente a qualquer
ameaça proveniente do ambiente externo, o que diz respeito a agressões à saúde que derivem de
condições impróprias do lugar de trabalho, da escola, da cidade e de qualquer outro ambiente de
vida.138 A formulação do jurista italiano inclui o ambiente natural – e, de certa forma, também o
ambiente artificial – como um todo, considerando que a saúde humana é totalmente dependente da
qualidade e equilíbrio das bases naturais que dão suporte à vida. Para reforçar tal premissa, o art.
3.º, I, da Lei da Política Nacional do Meio Ambiente ( Lei 6.938/1981), ao conceituar meio
ambiente, determina ser esse “o conjuntode condições, leis, influências e interações de ordem
física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas” (incluindo a
humana). O mesmo diploma legal, no seu art. 3.º, III, a, ao conceituar poluição, dispõe ser tal a
degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente
“prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da população”.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, estabelece como parâmetro para
determinar uma vida saudável “um completo bem-estar físico, mental e social”, o que coloca
indiretamente a qualidade ambiental como elemento fundamental para o “completo bem-estar”
caracterizador de uma vida saudável. Seguindo tal orientação, a Lei 8.080/1990, que trata das
condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento
dos serviços correspondentes, ao regulamentar o art. 196 da CF/1988, dispõe sobre o
direito à saúde por intermédio da garantia de condições de bem-estar físico, mental e social (art.
3.º, parágrafo único), bem como registra o ambiente como fator determinante e condicionante à
saúde (art. 3.º, caput).139 Portanto, em vista da formulação conceitual traçada pela OMS, e
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devidamente recepcionada pelo ordenamento jurídico (constitucional e infraconstitucional)
brasileiro, tem-se um parâmetro normativo importante para caracterizar um conceito amplo de
saúde, que necessariamente integra a qualidade ambiental no seu âmbito de proteção,
considerado este último numa perspectiva alargada. Cançado Trindade, nessa linha, destaca a
ampliação do âmbito de proteção do direito à saúde em face da tutela jurídica do ambiente, o que,
para ele, se dá em razão da própria indivisibilidade e da inter-relação de todos os direitos
humanos.140 Segundo J. Afonso da Silva, há dois objetos por trás da tutela do ambiente: um
imediato, que é a qualidade do ambiente; e outro mediato, que é a saúde, o bem-estar e a
segurança que vêm se sintetizando na expressão “qualidade de vida”,141 o que permite concluir,
conforme assinalado por Cançado Trindade, pela necessidade de uma tutela integrada dos direitos
fundamentais (liberais, sociais e ecológicos).142
 
131
.SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 9.
132
.Sobre a questão, v. a Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento (1986), a qual estabelece que “todos os direitos
humanos e liberdades fundamentais são indivisíveis e interdependentes; atenção igual e consideração urgente devem
ser dadas à implementação, promoção e proteção dos direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais” (art.
6.2), bem como a Declaração e Programa de Ação de Viena (1993), promulgada na 2.ª Conferência Mundial sobre
Direitos Humanos, a qual destaca que “todos os direitos humanos são universais, indivisíveis, interdependentes e
inter-relacionados” (art. 5.º). Tais diplomas internacionais reconhecem, em outras palavras, que as diferentes
dimensões de direitos humanos – e o mesmo raciocínio se aplica aos direitos fundamentais – conformam um sistema
integrado de tutela da dignidade da pessoa humana. A respeito do tema, v. WEIS, Carlos. Direitos humanos
contemporâneos. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 2010, pp. 171-174.
133
.Para a verificação dos indicadores sociais da população brasileira, v. o último levantamento realizado pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Disponível em: [www.ibge.gov.br/home/mapa_site/mapa_site.php].
134
.Conforme entendimento sustentado por Piovesan e com o qual concordamos, a ideia de “não justiciabilidade” dos
direitos sociais é meramente ideológica, e não propriamente científica. PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e direito
constitucional internacional. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 180.
135
.Sobre o tratamento doutrinário do direito ao ambiente como direito social, v. ALEXY, Robert. Theorie der
Grundrechte…, pp. 403-404.
136
.CANÇADO TRINDADE, Tratado de direito internacional..., p. 43.
137
.A respeito da relação entre saúde e proteção do ambiente, ganha relevância a abordagem do meio ambiente do
trabalho e dos direitos fundamentais socioambientais do trabalhador, inclusive com respaldo normativo constitucional
(art. 7.º, XXII, e 200, VIII). Sobre o tema, v. PURVIN DE FIGUEIREDO, Guilherme José. Direito ambiental e a saúde
do trabalhador. 2. ed. São Paulo: LTr, 2007; e, mais recentemente, MARANHÃO, Ney. Poluição labor-ambiental. Rio
de Janeiro: Lumen Juris, 2017.
138
.BALDASSARRE, Antonio. Los derechos sociales. Bogotá: Universidad Externado de Colômbia, 2001, p. 167.
139
.A Lei 11.934/2009, que dispõe sobre limites à exposição humana a campos elétricos, magnéticos e
eletromagnéticos, consignou, de forma expressa, no seu art. 1º, que as suas disposições visam a garantir a proteção
da saúde e do meio ambiente, inclusive seguindo os parâmetros estabelecidos no âmbito da OMS para a exposição
ocupacional e da população em geral a campos elétricos, magnéticos e eletromagnéticos gerados por estações
transmissoras de radiocomunicação, por terminais de usuário e por sistemas de energia elétrica que operam na faixa
até 300 GHz. (art. 4.º).
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140
.CANÇADO TRINDADE, Direitos humanos e meio ambiente..., p. 84.
141
.SILVA, José Afonso da. Comentário contextual à Constituição. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 835.
142
.Em sintonia com tal entendimento, cumpre assinalar trechos do voto da Min. Eliana Calmon do STJ no julgamento do
REsp 1.120.117/AC sobre a imprescritibilidade do dever de reparação do dano ambiental, onde resultou consignado
que a lesão ao patrimônio ambiental “está protegida pelo manto da imprescritibilidade, por se tratar de direito inerente
à vida, fundamental e essencial à afirmação dos povos (...) antecedendo todos os demais direitos, pois sem ele não
há vida, nem saúde, nem trabalho, nem lazer (...)” (STJ, REsp 1.120.117/AC, 2.ª T., rel. Min. Eliana Calmon, j.
10.11.2009).
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
0
§ 19 PESSOAS VULNERÁVEIS EM TERMOS ECOLÓGICOS E O PROBLEMA DOS
REFUGIADOS OU DESLOCADOS “AMBIENTAIS” E “CLIMÁTICOS”
O Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008 do Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (PNUD), intitulado Combatendo a mudança climática: solidariedade humana num
mundo dividido, revelou um quadro preocupante e injusto no horizonte humano, com um mundo
cada vez mais dividido entre nações ricas altamente poluidoras e países pobres, de modo a
evidenciar a necessidade de uma abordagem socioambiental para o enfrentamento da crise
ecológica. Segundo o Relatório, não obstante os países pobres contribuírem de forma pouco
significativa para o aquecimento global, são eles que mais sofrerão os resultados imediatos das
mudanças climáticas.143 O mesmo raciocínio, trazido para o âmbito interno dos Estados nacionais,
permite concluir que tal quadro de desigualdade e injustiça – de cunho social e ambiental – também
se registra entre pessoas pobres e ricas que integram determinada comunidade estatal. No caso do
Brasil, que registra um dos maiores índices de concentração de renda do mundo, de modo a
reproduzir um quadro de profunda desigualdade e miséria social, o fato de algumas pessoas
disporem de alto padrão de consumo – e, portanto, serem grandes poluidoras –, ao passo que
outras tantas muito pouco ou nada consomem, também deve ser considerado para aferir sobre
quem deve recair o ônus social e ambiental dos danos ocasionados pelas mudanças climáticas e
pela deterioração ambiental em geral. A sujeição de tais indivíduos e grupos sociais aos efeitos
negativos da degradação ecológica irá agravar ainda mais a vulnerabilidade das suas condições
existenciais, submetendo-as a um quadro de ainda maior indignidade, inclusive de modo a
enquadrá-las na situação jurídica de necessitados ecológicos ou mesmo refugiados ambientais. Ou
ainda necessitados ou refugiados climáticos, pela ótica da condição de vulnerabilidade de
indivíduos e grupos sociais provocada pelos efeitos negativos das mudanças climáticas. Não há
dúvida, com efeito, que as pessoas mais vulneráveis aos efeitos negativos da degradação
ambiental são aquelas mais pobres, as quais possuem uma condição de vida precária em termos
de bem-estar, desprovidas do acesso aos seus direitos sociais básicos (moradia adequada e
segura, saúde básica, saneamento básico e água potável, educação, alimentação adequada etc.).
A utilização da expressão pessoas vulneráveis ou necessitadas em termos ecológicos (ou
socioambientais)144 tem por objetivo guardar sintonia com o nosso texto constitucional (art. 134,
caput),145 bem como com o art. 1.º da Lei Complementar Federal 80/1994 (Lei Orgânica
Nacional da Defensoria Pública),146 com redação trazida pela Lei Complementar Federal
132/2009, ressalvando-se que a condição de necessitado, inclusive na perspectiva da assistência
jurídica integral e gratuita prestada pela Defensoria Pública, não se restringe apenas à perspectiva
econômica – consagrada, de modo exemplificativo no hoje revogado (pelo Novo Código de
Processo Civil de 2015) art. 2.º, parágrafo único, da Lei 1.060/1950 –, mas abarca também
outras hipóteses em que indivíduos ou mesmo grupos sociais encontram-se em situação de
vulnerabilidade existencial no tocante aos seus direitos fundamentais e dignidade, conforme dispõe
o art. 4.º, VII e X, da Lei Complementar 80/1994.147 Tal compreensão está de acordo com o
entendimento de Ada Pellegrini Grinover, ao defender que “existem os que são necessitados no
plano econômico, mas também existem os necessitados do ponto de vista organizacional. Ou seja,
todos aqueles que são socialmente vulneráveis: os consumidores, os usuários de serviços
públicos, os usuários de planos de saúde, os que queiram implementar ou contestar políticas
públicas, como as atinentes à saúde, à moradia, ao saneamento básico, ao meio ambiente etc.”.148
A carência econômica, por certo, constitui o aspecto central a determinar o enquadramento
jurídico-constitucional de determinada pessoa na condição de necessitada ou vulnerável, o que se
dá em razão da fragilidade existencial provocada pela falta de acesso e privação sofrida por
determinado indivíduo – e, por vezes, grupos sociais inteiros – aos bens sociais básicos, como, por
exemplo, saúde, educação, moradia, saneamento básico, alimentação etc. Tal situação provoca a
marginalização social, política e cultural da pessoa, na medida em que a mesma se vê
impossibilitada de formatar as suas relações sociais e jurídicas em condições de igualdade com os
demais indivíduos e os próprios entes estatais, tornando-se imperativa a atuação do Estado no
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sentido de incluir (integrar) tais indivíduos e grupos sociais no pacto social (agora também
ecológico). A assistência jurídica integral e gratuita a tais pessoas cumpre exatamente tal papel,
com o objetivo de, por meio da tutela e promoção dos seus direitos, proporcionar um quadro
comunitário de maior igualdade, notadamente em questões que digam respeito aos direitos
fundamentais e à dignidade de tais indivíduos e grupos sociais.
Segundo as Regras de Brasília sobre Acesso à Justiça das Pessoas em Condições de
Vulnerabilidade, aprovadas no âmbito da XIV Conferência Judicial Ibero-Americana, realizada em
Brasília, no ano de 2008, consideram-se pessoas em condição de vulnerabilidade aquelas “que,
por razão da sua idade, gênero, estado físico ou mental, ou por circunstâncias sociais, econômicas,
étnicas e/ou culturais, encontram especiais dificuldades em exercitar com plenitude perante o
sistema de justiça os direitos reconhecidos pelo ordenamento jurídico”. Ainda, do mesmo
documento, consta que poderão constituir causas de vulnerabilidade, entre outras – e aí fica o
registro de que não se trata de rol taxativo, mas apenas exemplificativo –, as seguintes: a idade, a
incapacidade, a pertença a comunidades indígenas ou a minorias, a vitimização, a migração e o
deslocamento interno, a pobreza, o gênero e a privação de liberdade.149 O conceito de pessoas em
condição de vulnerabilidade não difere substancialmente do conceito de pessoas necessitadas,
especialmente se tomarmos o seu sentido mais amplo, de acordo com o entendimento por nós
sustentado,não se restringindo, portanto, apenas à perspectiva econômica.150 Tanto a
necessidade em sentido estrito – com viés puramente econômico – quanto à necessidade em
sentido amplo – em termos de vulnerabilidade de determinados grupos sociais – conduzem à
legitimidade da atuação da Defensoria Pública na tutela e promoção dos direitos das pessoas que
se enquadrarem em tais situações. A ausência de condições ambientais favoráveis – com
qualidade, higidez e segurança –, coloca o indivíduo e mesmo determinados grupos sociais na
condição de pessoa necessitada ou vulnerável, uma vez que certamente tais pessoas encontrar-
se-ão em especial dificuldade de “exercitar com plenitude perante o Sistema de Justiça os direitos
reconhecidos pelo ordenamento jurídico”.151
Outro aspecto importante relacionado especialmente às mudanças climáticas diz respeito ao
surgimento dos assim chamados refugiados ambientais ou climáticos.152 Os episódios climáticos
extremos, muitas vezes, em decorrência da sua intensidade e dos danos pessoais e materiais
gerados, alteram o cotidiano de vida de inúmeras pessoas e grupos sociais, ocasionando, muitas
vezes, o seu deslocamento para outras regiões, de modo a “fugirem” de tais desastres ecológicos e
resguardarem as suas vidas. Conforme apontado pelo Diretor do Instituto para o Meio Ambiente e
Segurança Humana da Universidade das Nações Unidas, Janos Bogardi, existiriam, em todo
mundo (por volta do ano de 2010), pelo menos cinquenta milhões de refugiados ambientais, sendo
que os países mais pobres seriam – como costuma ocorrer – os mais afetados, em especial nas
áreas rurais, fenômeno que tem como principal causa a degradação da terra e a desertificação,
decorrentes do mau uso da terra somado às mudanças climáticas e amplificado pelo crescimento
populacional.153 Assim, nos parece inquestionável que a figura dos refugiados ambientais guarda
relação direta com a questão climática e, por consequência, o cenário socioambiental que lhe está
subjacente, uma vez que o deslocamento de tais pessoas dos seus locais originários será
motivado, na maioria das vezes, pela busca de condições de vida que atendam a um padrão de
bem-estar mínimo, tanto em termos sociais quanto ambientais. Ignorar a feição socioambiental que
se incorpora hoje aos problemas ecológicos potencializa ainda mais a exclusão e marginalização
social (tão alarmantes no nosso contexto social), já que o desfrute de uma vida saudável e
ecologicamente equilibrada se constitui de premissa ao exercício dos demais direitos fundamentais,
sejam eles liberais ou sejam eles sociais.
 
143
.Alicerçado em tal premissa socioambiental, o Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008 do Programa das
Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) refere que “vivendo em habitações improvisadas situadas em
encostas vulneráveis a inundações e deslizamentos de terra, os habitantes das zonas degradadas estão altamente
expostos e vulneráveis aos impactos das alterações climáticas” (p. 102). E destaca ainda, já com o olhar voltado à
atuação estatal, que “as políticas públicas podem melhorar a resiliência em muitas zonas, desde o controlo de
inundações à proteção infraestrutural contra os deslizamentos de terra e à provisão de direitos formais de habitação
aos habitantes de áreas urbanas degradadas” (p. 102). PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O
DESENVOLVIMENTO. Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008. Disponível em:
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[www.undp.org/content/brazil/pt/home/library/relatorios-de-desenvolvimento-humano/relatorio-do-desenvolvimento-
humano-20007.html].
144
.Para maiores desenvolvimentos sobre o conceito de necessitado em termos ecológicos ou socioambientais, v.
FENSTERSEIFER, Tiago. A legitimidade da Defensoria Pública para a propositura da ação civil pública ambiental e a
caracterização de pessoas necessitadas em termos (socio)ambientais: uma questão de acesso à justiça
socioambiental. Revista de Processo, v. 193. São Paulo: RT, mar. 2011, pp. 53 e ss.; e, mais recentemente,
FENSTERSEIFER, Tiago. Defensoria pública, direitos fundamentais e ação civil pública. São Paulo: Saraiva, 2015.
145
.“Art. 134. A Defensoria Pública é instituição essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a orientação
jurídica e a defesa, em todos os graus, dos necessitados, na forma do art. 5.º, LXXIV)”.
146
.“Art. 1.º A Defensoria Pública é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe,
como expressão e instrumento do regime democrático, fundamentalmente, a orientação jurídica, a promoção dos
direitos humanos e a defesa, em todos os graus, judicial e extrajudicial, dos direitos individuais e coletivos, de forma
integral e gratuita, aos necessitados, assim considerados na forma do inc. LXXIV do art. 5.º da Constituição Federal”.
147
.“Art. 4.º São funções institucionais da Defensoria Pública, dentre outras: (...) VII – promover ação civil pública e todas
as espécies de ações capazes de propiciar a adequada tutela dos direitos difusos, coletivos ou individuais
homogêneos quando o resultado da demanda puder beneficiar grupo de pessoas hipossuficientes; (...) X – promover a
mais ampla defesa dos direitos fundamentais dos necessitados, abrangendo seus direitos individuais, coletivos,
sociais, econômicos, culturais e ambientais, sendo admissíveis todas as espécies de ações capazes de propiciar sua
adequada e efetiva tutela”. Na doutrina, v. PAIVA, Caio; FENSTERSEIFER, Tiago. Comentários à Lei Nacional da
Defensoria Pública. Belo Horizonte: CEI, 2019.
148
.GRINOVER, Ada Pellegrini. Parecer sobre a legitimidade da Defensoria Pública para a propositura de ação civil
pública formulado no âmbito da Ação Direta de Inconstitucionalidade n. 3.943 (STF). Disponível em:
[www.sbdp.org.br/arquivos/material/542_ADI3943_pareceradapellegrini.pdf].
149
.Regras de Brasília sobre Acesso à Justiça das Pessoas em Condições de Vulnerabilidade (2008). Disponível em:
[www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/repositorio/0/100%20Regras%20de%20Acesso%20%c3%a0%20Justi%c3%a7a.pdf].
150
.Em sintonia com a proposta aqui delineada de uma compreensão “ampliada” do conceito de necessitado ou
vulnerável, para além do aspecto estritamente econômico, inclusive no sentido de reconhecer a legitimidade da
Defensoria Pública para a propositura de ações coletivas, ver julgados do STJ: REsp 931.513/RS, 1ª Seção, rel. Min.
Herman Benjamin, j. 25.11.2009; REsp 1.064.009/SC, 2.ª T., rel. Min. Herman Benjamin, j. 04.08.2009; e EREsp
1.192.577/RS, Corte Especial, Rel. Min. Laurita Vaz, j. 21.10.2015. Mais recentemente, o STF acolheu o mesmo
entendimento: STF, ADI 3.943/DF, Tribunal Pleno, Rel. Min. Cármen Lúcia, j. 07.05.2015.
151
.No tocante ao reconhecimento da legitimidade da Defensoria Pública para a propositura de ação civil pública em
matéria ambiental, em questão envolvendo a exigência prévia de estudo de impacto ambiental (e, inclusive, de
audiência pública) para o plantio comercial de eucalipto, v. decisões do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo:
TJSP, AI759.170-5/3-00, Seção de Direito Público, Câmara Especial de Meio Ambiente, rel. Des. Samuel Júnior, j.
28.08.2008; e TJSP, AI 0086748-55, Seção de Direito Público, Câmara Especial de Meio Ambiente, rel. Des. Renato
Nalini, j. 02.06.2011.
152
.No ano de 2008, foi publicado o Esboço para uma Convenção sobre o Status Internacional dos Refugiados
Ambientais (Draft Convention on the International Status of Environmentally-Displaced Persons), o que resultou do
trabalho desenvolvido pelo CRIDEAU (Interdisciplinary Canter of Research on Environmental, Planning and Urban
Law), pelo CRDP (Center of Research on Persons Rights), por grupos temáticos do OMIJ (Institutional and JudicialMutations Observatory) e pela Faculdade de Direito e Ciência Econômica da Universidade de Limoges, com o apoio
do CIDCE (International Center of Comparative Environmental Law). O Esboço da Convenção foi publicado na Revue
Européenne de Droit de l’Environnement (Francophone European Environmental Law Review), n. 4-2008, p. 381.
Disponível em: [www.cidce.org ]. Na doutrina brasileira, v. LEÃO, Márcia Brandão Carneiro. Direitos humanos e meio
ambiente: mudanças climáticas, refugiados” ambientais e direito internacional. Disponível em: [www.nima.puc-
rio.br/aprodab/artigos/clima_e_refugiados_ambientais_marcia_brandao_carneiro_leao.pdf].
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153
.BOGARDI, Janos. A era dos refugiados ambientais. In: O Globo. Noticiário de 31 de dezembro de 2006. Publicação:
12/10/2005. Disponível em: [pib.socioambiental.org/pt/noticias?id=30823].
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
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§ 20 DIREITOS AMBIENTAIS PROCEDIMENTAIS, DEMOCRACIA PARTICIPATIVA E
CIDADANIA ECOLÓGICA
Os direitos procedimentais, como faceta da própria proteção constitucional do ambiente e da
sua natureza de direito-dever fundamental (e dimensão procedimental), apresentam cada vez
maior importância no âmbito do Direito Ambiental e, em particular, do Direito Constitucional
Ecológico. O escopo maior dos direitos ambientais procedimentais, também denominados pela
doutrina como direitos ambientais de acesso ou direitos ambientais de participação154 reside
justamente na efetivação da legislação ambiental por meio de uma participação mais ativa da
sociedade, exercendo maior controle sobre as práticas poluidoras (ou potencialmente poluidoras)
do ambiente perpetradas tanto por agentes públicos quanto privados.
A consolidação dos direitos ambientais procedimentais é derivada de avanços verificados
originariamente no plano internacional, ou seja, no âmbito do Direito Internacional do Meio
Ambiente. A gênese normativa de tais direitos pode ser atribuída ao Princípio 10 da Declaração do
Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1992). Posteriormente, a Convenção de Aarhus
sobre Acesso à Informação, Participação Pública na Tomada de Decisão e Acesso à Justiça em
Matéria Ambiental (1998), muito embora o seu espectro limitado inicialmente ao âmbito europeu
(mas posteriormente ampliada para o plano global), tratou de forma paradigmática sobre o tema,
consagrando a chamada “tríade” dos direitos ambientais procedimentais: acesso à informação,
participação pública na tomada de decisão e acesso à justiça. Mais recentemente, os direitos
ambientais procedimentais foram consagrados, com força vinculante, no Acordo Regional de
Escazú para América Latina e Caribe sobre Acesso à Informação, Participação Pública e Acesso à
Justiça em Matéria Ambiental (2018), o qual foi elaborado no âmbito da Comissão Econômica para
a América Latina e o Caribe (CEPAL) da ONU.
No cenário jurídico brasileiro, a fonte normativa primária de tais direitos ambientais
procedimentais pode ser extraída da própria CF/1988, mais precisamente do conteúdo
expresso do seu art. 225. Ao consagrar os deveres de proteção estatais e o direito fundamental ao
ambiente, o caput do dispositivo em questão enuncia, para além do direito em si, o dever
fundamental (ou deveres fundamentais) da sociedade, ou seja, dos particulares “de defendê-lo e
preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. Não por outra razão, a doutrina identifica a
natureza de direito-dever fundamental inerente ao regime constitucional de proteção ambiental. Há,
em outras palavras, verdadeiro dever jurídico (e não apenas moral) de proteção ambiental atribuído
aos cidadãos (e, portanto, não apenas ao Estado), o qual deve ser exercido por meio de uma maior
participação e controle pela sociedade sobre as práticas que atentam contra o equilíbrio ecológico,
conforme desenvolvemos com maior profundidade no Capítulo 6.
 
154
.A doutrina também utiliza a expressão “direitos humanos procedimentais” (procedural human rights), destacando a
tríade de direitos relacionados a tal conceito: acesso à informação, participação pública e acesso à justiça (ANTON,
Donald K.; SHELTON, Dinah L. Environmental protection and human rights. Cambridge: Cambridge University Press,
2011, pp. 356 e ss.). Na doutrina brasileira, acerca dos direitos ambientais procedimentais, v. MIRRA, Álvaro Luiz
Valery. Participação, processo civil e defesa do meio ambiente. São Paulo: Letras Jurídicas, 2011.
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
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§ 21 A INCORPORAÇÃO, COM STATUS CONSTITUCIONAL (OU, AO MENOS,
SUPRALEGAL), DOS TRATADOS INTERNACIONAIS EM MATÉRIA AMBIENTAL
A recepção, no âmbito doméstico, da legislação internacional em matéria ambiental é tema
deveras relevante pelo prisma das fontes do Direito Constitucional Ambiental ou Ecológico. A
incorporação ao direito interno de normas internacionais, com destaque aqui para os tratados
internacionais como ato típico de direito internacional público que estabelece direitos e obrigações
recíprocas entre os Estados-Parte, não é um privilégio reservado aos tratados em matéria de
direitos humanos, já que todo e qualquer tratado internacional, uma vez celebrado pelo Poder
Executivo e referendado pelo Congresso Nacional (que vem utilizando o instrumento formal do
Decreto Legislativo para tanto), passa a viger como norma jurídica vinculante e com força de lei
ordinária na esfera jurídica interna brasileira, quando não for o caso de um tratado de direitos
humanos, pois a esses foi assegurada uma hierarquia mais qualificada155. Com efeito, por força do
disposto no art. 5.º, § 2.º e § 3.º, da CF/1988,156 os tratados internacionais em matéria de
direitos humanos - o que se evidencia também no caso da proteção ambiental, a teor do que
sinaliza o art. 11 do Protocolo de San Salvador Adicional à Convenção Americana de Direito
Humanos em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1988157 e, mais
recentemente, a Opinião Consultiva n. 23/2017 da Corte IDH, passaram a fruir de um estatuto
jurídico-constitucional privilegiado, agregando-se ao conjunto dos direitos e garantias fundamentais
estabelecidos pelo Constituinte de 1988, no âmbito do que se convencionou designar de cláusula
de abertura em matéria de direitos fundamentais. No nosso sentir, cuidando-se de tratados de
direitos humanos (pelo menos no que diz com parte de seus preceitos), os tratados internacionais
em matéria ambiental deveriam ter reconhecido o seu status constitucional.
Desde logo, importa frisar que existe divergência a respeito do procedimento de incorporação
dos tratados internacionais sobre direitos humanos. Especialmente desde a inserção, mediante a
EC 45/2004 (Reforma do Judiciário), do citado § 3.º do art. 5.º da CF/1988, a matéria voltou
a ser objeto de atenção pela doutrina e jurisprudência, pois tal dispositivo prevê que os tratados
aprovados pelo Congresso Nacional mediante o procedimento ali regulado (maioria de três quintos,nas duas casas do Congresso e em dois turnos de votação), passam a ter valor equivalente ao das
emendas constitucionais, ainda que não venham a alterar o texto da Constituição. Isso, contudo,
não significa que os tratados aprovados antes da vigência do § 3.º do art. 5.º da CF/1988 não
possam ter reconhecida sua hierarquia constitucional já por força do próprio § 2.º do mesmo artigo,
como, aliás, vinha sustentando importante doutrina,158 mas é certo que, mediante o novo
procedimento, os tratados assim aprovados terão sempre hierarquia normativa constitucional.
Todavia, independentemente do posicionamento aqui adotado no sentido da hierarquia
constitucional de todos os tratados de direitos humanos, já por força do disposto no art. 5.º § 2.º, da
CF/1988,159 o STF, desde o julgamento do RE 466.343/SP, ocorrido em 2008, muito embora
alguns Ministros tenham adotado posição em prol da hierarquia constitucional de todos os tratados
de direitos humanos, acabou chancelando a tese da supralegalidade dos tratados internacionais de
direitos humanos, ressalvados os tratados aprovados pelo rito previsto no § 3.º do art. 5.º da 
CF/1988.160 Assim, a nossa Corte Constitucional entende que os tratados internacionais em
matéria de direitos humanos aprovados anteriormente ou – pelo menos é o que sinaliza a
orientação adotada – os que vierem a ser aprovados por maioria simples em um turno de votação,
ocupam posição normativo-hierárquica superior à legislação infraconstitucional de um modo geral,
cedendo apenas em face da Constituição. Dito de outra forma, tais tratados situam-se apenas
abaixo da Constituição, de tal sorte que segue cabendo o controle de sua constitucionalidade. Tal
entendimento, convém lembrar, resultou cristalizado na hipótese da prisão civil do depositário infiel,
que foi considerada incompatível com a Convenção Interamericana de Direitos Humanos (ou Pacto
de San José da Costa Rica), que estabelece apenas a possibilidade de prisão civil do devedor de
alimentos,161 de tal sorte que a tendência vai no sentido de ampliação dos casos levados ao STF
no sentido de ver reconhecida a prevalência dos tratados sobre a legislação interna, no âmbito do
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13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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que se convencionou chamar de controle de convencionalidade, que será objeto de atenção logo a
seguir.
Com base nesse raciocínio, nos parece correto afirmar que também os tratados internacionais
em matéria ambiental, especialmente no tocante ao seu conteúdo nuclear (tanto de natureza
material quanto procedimental), vinculado diretamente à proteção do direito humano ao ambiente,
passariam a ter ao menos (salvo se aprovados pelo rito do art. 5.º, § 3.º, da CF/1988) natureza
hierárquico-normativa supralegal, prevalecendo, portanto, em face da legislação infraconstitucional.
Nesse sentido, como o primeiro julgamento da nossa Corte Constitucional que se tem notícia no
sentido de reconhecer a supralegalidade de tratado internacional em matéria ambiental – portanto,
com o mesmo tratamento assegurado aos tratados internacionais de direitos humanos –, registra-
se fundamentação do voto-relator da Min. Rosa Weber no julgamento da ADI 4.066/DF (Caso do
Amianto). No seu voto, a Ministra Rosa Weber atribui status supralegal à Convenção de Basileia
sobre o Controle de Movimentos Transfronteiriços de Resíduos Perigosos e seu Depósito, de 1989,
aprovada no Brasil pelo Decreto Legislativo n. 34/1992 e promulgada pelo Decreto n. 875/1993.
Segundo a Ministra assinalou no seu voto, “porque veiculadoras de regimes protetivos de direitos
fundamentais, as Convenções n. 139 e 162 da OIT, bem como a Convenção da Basileia, assumem,
no nosso ordenamento jurídico, status de supralegalidade (…)”.162 Isso, por certo, só valeria para
aquele conteúdo de caráter mais protetivo em termos materiais e procedimentais disposto nos
diplomas internacionais em matéria ambiental, e, especialmente, em relação ao conteúdo nuclear
do regime jurídico de proteção e que trata de forma direta do núcleo normativo da proteção do
direito humano ao ambiente.163 Do contrário, se a legislação internacional fosse mais permissiva,
prevaleceria a legislação infraconstitucional, considerando a incidência do princípio pro homine164,
ou seja, dito de modo mais preciso, fazendo prevalecer a norma mais favorável à proteção da
pessoa (no tocante aos seus direitos humanos e fundamentais e dignidade). Na sua vertente
ecológica, poderíamos inclusive, com base numa hermenêutica ecológica, também considerar a
existência de um princípio pro natura, fazendo prevalecer a normativa mais protetiva à integridade
ecológica.
 
155
.Sobre o conceito de tratados internacionais e sua ratificação e incorporação ao direito interno, v., por todos,
MAZZUOLI, Curso de direito internacional público..., pp. 373 e ss.
156
.De acordo com os dispositivos citados (art. 5.º): “§ 2.º - Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não
excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a
República Federativa do Brasil seja parte. § 3.º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que
forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos
membros, serão equivalentes às emendas constitucionais” (incluído pela EC 45/2004). A respeito da discussão,
inclusive em sede constituinte sobre a inserção do dispositivo em análise, v. TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. A
proteção internacional dos direitos humanos e o Brasil (1948-1997): as primeiras cinco décadas. 2. ed. Brasília:
Editora Universidade de Brasília, 2000, especialmente pp. 169 e ss.
157
.“Artigo 11 (Direito a um meio ambiente sadio) 1. Toda pessoa tem direito a viver em meio ambiente sadio e a contar
com os serviços públicos básicos. 2. Os Estados Partes promoverão a proteção, preservação e melhoramento do
meio ambiente”. O Protocolo de San Salvador entrou em vigor no plano internacionalem novembro de 1999, quando
foi depositado o 11.º instrumento de ratificação (art. 21). O Brasil, por sua vez, ratificou o Protocolo de San Salvador
no ano de 1999, tendo o mesmo sido promulgado internamente por meio do Decreto n. 3.321/99.
158
.PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2007, pp. 71
e ss.
159
.SARLET. A eficácia dos diretos fundamentais..., pp. 120 e ss.
160
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13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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.Até a presente data, os únicos tratados internacionais de direitos humanos incorporados pela via do § 3.º do art. 5.º
seriam a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e o seu Protocolo Facultativo, assinados em
Nova Iorque, em 2007. A aprovação dos referidos documentos internacionais deu-se por intermédio do Decreto
Legislativo n. 186/2008, bem como a sua promulgação deu-se por meio do Decreto n. 6.949/2009.
161
.Mais recentemente, destacam-se outros julgamentos do STF confirmando o mesmo entendimento: “Habeas corpus.
(...) Depositário infiel. Prisão civil. Inadmissibilidade. Orientação plenária deste Supremo Tribunal Federal. Ordem
concedida de ofício. 1. O Plenário do Supremo Tribunal Federal firmou a orientação de que só é possível a prisão civil
do ‘responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia’ (inc. LXVII do art. 5.º da 
CF/1988). Precedentes: HCs 87.585 e 92.566, da relatoria do Min. Marco Aurélio. (...) 3. O Pacto de San José da
Costa Rica (ratificado pelo Brasil - Decr. 678, de 6 de novembro de 1992), para valer como norma jurídica interna do
Brasil, há de ter como fundamento de validade o § 2.º do art. 5.º da Magna Carta. A se contrapor, então, a qualquer
norma ordinária originariamente brasileira que preveja a prisão civil por dívida. Noutros termos: o Pacto de San José
da Costa Rica, passando a ter como fundamento de validade o § 2.º do art. 5.º da CF/1988, prevalece como
norma supralegal em nossa ordem jurídica interna e, assim, proíbe a prisão civil por dívida. Não é norma
constitucional - à falta do rito exigido pelo § 3.º do art. 5.º -, mas a sua hierarquia intermediária de norma supralegal
autoriza afastar regra ordinária brasileira que possibilite a prisão civil por dívida. 4. Na concreta situação dos autos, a
prisão civil do paciente foi decretada com base nos arts. 652 do CC e 904, parágrafo único, do Diploma Civil
Adjetivo (...)” (grifos nossos) (STF, HC 94.523/SP, 1ª T., rel. Min. Carlos Ayres Britto, j. 10.02.2009).
162
.STF, ADI 4.066/DF, Tribunal Pleno, Rel. Min. Rosa Weber, j. 24.08.2017.
163
.Na doutrina brasileira, sustentando o mesmo entendimento, v. CAPPELLI, Sílvia; MARCHESAN, Ana Maria Moreira;
STEIGLEDER, Annelise Monteiro. Direito ambiental. 7. ed. Porto Alegre: Editora Verbo Jurídico, 2013, p. 40.
164
.V. MAZZUOLI, Curso de direito internacional público..., p. 914.
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13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
0
§ 22 O CONTROLE DE CONVENCIONALIDADE DA LEGISLAÇÃO
INFRACONSTITUCIONAL NACIONAL EM MATÉRIA AMBIENTAL
O entendimento adotado pelo STF, por ocasião da decisão que referimos no tópico anterior, no
sentido de reconhecer o caráter supralegal dos tratados internacionais sobre direitos humanos,
implica a possibilidade do controle de convencionalidade da legislação infraconstitucional165.
Conforme assinala Valério de Oliveira Mazzuoli, o controle de convencionalidade das leis “nada
mais é que o processo de compatibilização vertical (sobretudo material) das normas domésticas
com os comandos encontrados nas convenções internacionais de direitos humanos. À medida que
os tratados de direitos humanos ou são materialmente constitucionais (art. 5.º, § 2.º) ou material e
formalmente constitucionais (art. 5.º, § 3.º), é lícito entender que o clássico ‘controle de
constitucionalidade’ deve agora dividir espaço com esse novo tipo de controle (de
convencionalidade) da produção e aplicação da normatividade interna”.166 Na medida em que os
tratados internacionais em matéria ambiental, por deterem a mesma natureza dos tratados
internacionais de direitos humanos – e, portanto, statussupralegal –, o seu conteúdo prevalece em
face da legislação infraconstitucional. Mas, cumpre reiterar, a prevalência ocorre apenas no tocante
ao conteúdo que estabelecer um padrão normativo mais protetivo e rígido. Do contrário, prevalece
a legislação infraconstitucional nacional, haja vista os princípios que norteiam o Direito
Internacional dos Direitos Humanos, bem como o regime jurídico-constitucional das competências
legislativas traçado pela CF/1988, inclusive pelo prisma de um federalismo cooperativo
ecológico e de um critério hermenêutico de prevalência da norma mais protetiva, aplicando-se aqui
o conhecido postulado do in dubio pro natura.167
Um exemplo atual que ilustra bem a questão diz respeito ao princípio da proibição de retrocesso
ecológico. Isso porque, independentemente de a doutrina – brasileira e comparada - já o
reconhecer como um princípio geral do Direito Ambiental168, não há previsão expressa do mesmo
na legislação brasileira (constitucional ou infraconstitucional). Tal princípio, todavia,foi objeto de
expresso reconhecimento pelo Protocolo de San Salvador Adicional à Convenção Americana sobre
Direito Humanos em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1988), mais
precisamente no seu art. 1.º, somando-se o fato de o art. 11 (11.1 e 11.2) do referido diploma
internacional, conforme sinalizamos no tópico anterior, prever expressamente o direito ao ambiente
como direito humano. E, mais recentemente, o princípio da proibição de retrocesso ecológico (e o
correlato dever de progressividade em matéria ambiental) foi consagrado de forma expressa no art.
3º, “c”, do Acordo de Escazú para América Latina e Caribe sobre Acesso à Informação,
Participação Pública e Acesso à Justiça em Matéria Ambiental (2018). De tal sorte, o
statussupralegal do Protocolo de San Salvador e do Acordo de Escazú, uma vez verificada a sua
incorporação no direito interno (em virtude da ratificação do tratado169), na linha do entendimento
do STF, torna possível o controle de convencionalidade da legislação infraconstitucional em face da
proibição de retrocesso ecológico, aplicando-se a toda e qualquer nova medida legislativa
infraconstitucional que tenha por escopo a flexibilização, de forma desproporcional e arbitrária, da
legislação ambiental brasileira atualmente vigente. Assim, importa enfatizar, um dos aspectos mais
importantes do controle de convencionalidade diz respeito ao “dever ex officio” de Juízes e
Tribunais internos atentarem para o conteúdo dos diplomas internacionais sobre direitos humanos
e, consequentemente, também dos que versam sobre matéria ambiental. Em homenagem ao
necessário diálogo das fontes normativas, cabe aos aplicadores do Direito interpretarem a
legislação nacional infraconstitucional não apenas pelo prisma do regime constitucional de proteção
dos direitos fundamentais, mas também em vista do regime internacional de proteção dos direitos
humanos, entre os quais se destaca o direito a viver em um ambiente sadio, equilibrado e
seguro.170
 
165
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13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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.Sobre o tema, v. por todos MARINONI, Luiz Guilherme; MAZZUOLI, Valério de Oliveira (Coord.). Controle de
Convencionalidade: um panorama Latino-Americano. Brasília: Gazeta Jurídica, 2013, com destaque para as
contribuições dos organizadores, dos Ministros Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes, de Flavia Piovesan e do
primeiro autor da presente obra (Sarlet).
166
.MAZZUOLI, Curso de direito internacional público..., pp. 421-422. Para Mazzuoli, os tratados internacionais de
direitos humanos, independentemente da adoção do rito previsto no art. 5.º, § 3.º, da CF/1988, por serem os
mesmos materialmente constitucionais (art. 5.º, § 2.º), ensejariam o controle difuso de convencionalidade, ao passo
que os tratados internacionais de direitos humanos submetidos ao procedimento do § 3.º do art. 5.º, por serem
material e formalmente constitucionais, possibilitariam o controle concentrado de constitucionalidade, por exemplo, por
meio de ADI perante o STF (pp. 427-433).
167
.STJ, REsp 1.198.727/MG, 2.ª T., rel. Min. Herman Benjamin, j. 14.08.2012.
168
.PRIEUR, Michel. Princípio da proibição de retrocesso ambiental. In: COMISSÃO DE MEIO AMBIENTE, DEFESA DO
CONSUMIDOR E FISCALIZAÇÃO E CONTROLE DO SENADO FEDERAL (Org.). O princípio da proibição de
retrocesso ambiental. Brasília: Senado Federal, 2012, pp. 45 e ss.
169
.No caso do Acordo de Escazú, o Brasil ainda não havia ratificado internamente o referido Diploma até o fechamento
da presente edição. O Acordo de Escazú foi aberto para assinatura dos Estados-Membros em 27.09.2018, já tendo
sido colhidas 24 assinaturas (inclusive do Brasil) e 12 ratificações, sendo as duas últimas da Argentina e do México,
formalizadas no mês de janeiro de 2021, o que possibilitou a sua entrada em vigor a partir do dia 22.04.2021.
Disponível em: https://www.cepal.org/pt-br/acordodeescazu.
170
.O tema do controle de convencionalidade (e o dever dos Juízes e Tribunais internos de exercê-lo) resultou
consignado, de forma pioneira e paradigmática, em decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, por
ocasião do julgamento do Caso Almonacid Arellano e outros Vs. Chile, em 26 de setembro de 2006. De acordo com o
§ 124 da referida sentença, decidida de forma unânime, “la Corte es consciente que los jueces y tribunales internos
están sujetos al imperio de la ley y, por ello, están obligados a aplicar las disposiciones vigentes en el ordenamiento
jurídico. Pero cuando un Estado ha ratificado un tratado internacional como la Convención Americana, sus jueces,
como parte del aparato del Estado, también están sometidos a ella, lo que les obliga a velar porque los efectos de las
disposiciones de la Convención no se vean mermadas por la aplicación de leyes contrarias a su objeto y fin, y que
desde un inicio carecen de efectos jurídicos. Em otras palabras, el Poder Judicial debe ejercer una especie de ‘control
de convencionalidad’ entre las normas jurídicas internas que aplican en los casos concretos y la Convención
Americana sobre Derechos Humanos. En esta tarea, el Poder Judicial debe tener en cuenta no solamente el tratado,
sino también la interpretación que del mismo ha hecho la Corte Interamericana, intérprete última de la Convención
Americana” (grifos nossos). Disponível em: [www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_154_esp.pdf].
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
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§ 23 O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA PROIBIÇÃO DE RETROCESSO ECOLÓGICO
(E O CORRELATO DEVER DE PROGRESSIVIDADE)
Outra questão relevante, especialmente diante do atual cenário político-jurídico de
“flexibilizações” da legislação ambiental diz respeito ao princípio constitucional da proibição de
retrocesso (ou regressividade) ecológico, que, assim como verificado no caso da proibição de
retrocesso social, apresenta-se como uma garantia constitucional implícita, com base, entre outros,
nos princípios da segurança jurídica e da confiança, objetivando “blindar” as conquistas
legislativas – e também as administrativas – no âmbito dos direitos fundamentais ecológicos contra
retrocessos que venham a comprometer o seu gozo e exercício. Tal garantia evidencia o processo
evolutivo e cumulativo que subjaz ao reconhecimento dos direitos fundamentais ao longo da
trajetória histórico-constitucional, de modo a implicar uma cada vez mais ampla e intensa tutela da
dignidade da pessoa humana, incluindo uma blindagem (sempre relativa) contra qualquer
retrocesso que possa comprometer os direitos fundamentais, aqui com destaque para os direitos
ecológicos, de modo especial no que diz com a salvaguarda de seu núcleo essencial, inclusive
naquilo em que tenham sido objeto de concretização na esfera infraconstitucional. Recentemente,
como já referido em passagem anterior, merece destaque O Acordo de Escazú (2018), o qual
inovou e consagrou, expressamente noseu artigo 3, “c”, tanto o “princípio de vedação do
retrocesso” quanto o “princípio de progressividade” em matéria ambiental. De tal sorte, não há
como negligenciar (e aqui se poderia falar de uma espécie de dupla face normativa da garantia
constitucional em questão) que em matéria de realização (eficácia social) dos direitos ecológicos se
registra um dever de progressividade, ou seja, a adoção de medidas legislativas – e
administrativas – que busquem sempre uma melhoria ou aprimoramento do seu regime jurídico
constitucional e infraconstitucional de proteção, aspectos que serão analisados de modo mais
detido no Capítulo 5.
 
13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
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§ 24 O DIREITO FUNDAMENTAL AO MEIO AMBIENTE COMO CLÁUSULA PÉTREA DA
CF/1988
Inicialmente, cabe destacar que não há qualquer distinção quanto ao regime jurídico ou força
jurídica a ser aplicada aos direitos fundamentais presentes no catálogo e àqueles incluídos no rol
por meio da abertura do art. 5.º, § 2.º, da CF/1988, tendo, portanto, o direito fundamental ao
ambiente aplicação imediata, na linha do que dispõe o § 1.º do art. 5.º, bem como constituindo-se
de norma de eficácia direta e irradiante frente a todo o ordenamento jurídico e passando a integrar
o rol das cláusulas pétreas (art. 60, § 4.º, IV, da CF/1988). Por uma perspectiva material, houve
uma decisão tomada pelo constituinte brasileiro ao consolidar o direito subjetivo dos indivíduos e da
coletividade a viverem em um ambiente ecologicamente equilibrado, considerando ser o mesmo
“essencial à sadia qualidade de vida” (art. 225, caput, da CF/1988). Ao declarar ser a
qualidade ambiental essencial a uma vida humana saudável (e também digna), o constituinte
consignou no pacto constitucional sua escolha de incluir a proteção ambiental entre os valores
permanentes e fundamentais da República brasileira. E, portanto, eventual retrocesso em tal
matéria constitucional, como a supressão total ou parcial do conteúdo na norma inscrita no art. 225,
representaria flagrante violação aos valores edificantes do nosso sistema constitucional. Conforme
a lição de José Afonso da Silva, em razão da aderência do direito ao ambiente, ao direito, à vida,
há a contaminação da proteção ambiental com uma qualidade que impede sua eliminação por via
de emenda constitucional171, estando, por via de consequência, inserido materialmente no rol das
matérias componentes dos limites materiais ao poder de reforma constantes do art. 60, § 4.º, da
CF/1988, de modo a conferir ao direito fundamental ao ambiente o status de cláusula pétrea.
Outra não poderia ser a interpretação constitucional dada ao direito ao ambiente, em vista da
consagração da sua jusfundamentalidade. A consolidação constitucional da proteção ambiental
como cláusula pétrea corresponde à decisão essencial da Lei Fundamental brasileira, em razão da
sua importância do desfrute de uma vida digna, de acordo, inclusive, com o reconhecimento de
uma nova dimensão ecológica da dignidade da pessoa humana, conforme já tratamos
anteriormente e que será desenvolvido com maiores detalhes no Capítulo 1. Com o
reconhecimento da proteção ambiental como cláusula pétrea, a Constituição brasileira, como
identificou Herman Benjamin, conferiu um “valioso atributo de durabilidade” à proteção ambiental
no âmbito ordenamento jurídico-constitucional brasileiro, o qual “funciona como barreira à
desregulamentação e a alterações ao sabor de crises e emergências momentâneas, artificiais ou
não”.172 O reforço constitucional que se pretende conferir ao direito fundamental ao ambiente por
meio do seu reconhecimento como cláusula pétrea também está em consonância com a garantia
constitucional de proibição de retrocesso (social e ecológico), já que tal instituto jurídico-
constitucional objetiva blindar o bloco normativo constitucional-ambiental contra eventuais
retrocessos, especialmente no tocante proteção conferida aos direitos fundamentais e à dignidade
da pessoa humana. De acordo com tal entendimento, José Rubens Morato Leite pontua que “o
direito fundamental ao ambiente não admite retrocesso ecológico, pois está inserido como norma e
garantia fundamental de todos, tendo aplicabilidade imediata, consoante art. 5.º, §§ 1.º e 2.º, da 
CF/1988. Além do que o art. 60, § 4.º, IV, também da Carta Magna, proíbe proposta de abolir o
direito fundamental ambiental, nesse sentido considerado cláusula pétrea devido à sua relevância
para o sistema constitucional brasileiro”.173
 
171
.SILVA, José Afonso da. Fundamentos constitucionais da proteção do meio ambiente. Revista de Direito Ambiental, n.
27, jul.-set., 2002, p. 55.
172
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.BENJAMIN, Antonio Herman. Constitucionalização do ambiente e ecologização da Constituição brasileira. In:
CANOTILHO, José Joaquim Gomes; MORATO LEITE, José Rubens (Org.). Direito constitucional ambiental brasileiro.
São Paulo: Saraiva, 2007, p. 79.
173
.MORATO LEITE, José Rubens. Sociedade de Risco e Estado. In: CANOTILHO, José Joaquim Gomes; e MORATO
LEITE, José Rubens (Org.). Direito constitucional ambiental brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 198.
13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
0
§ 25 DA “CONSTITUCIONALIZAÇÃO” À “ECOLOGIZAÇÃO” DO DIREITO PRIVADO
A “constitucionalização” do Direito Civil, marcada, no âmbito do Direito brasileiro, pela
promulgação da CF/1988, estabeleceu um novo panorama normativo para a relação entre o
Direito Privado e o DireitoPúblico, consagrando a tutela e promoção dos direitos fundamentais e da
dignidade da pessoa humana como objetivos comuns e integradores de ambos os sistemas. O
reconhecimento da eficácia dos direitos fundamentais no âmbito das relações privadas174 ilustra
bem esse contexto. A superação do paradigma liberal-individualista do Direito Civil clássico
“oitocentista” estabelecida no antigo Código Civil de 1916 ( Lei 3.071/1916) pode ser facilmente
identificada por intermédio da consagração de “novos” direitos de matriz coletiva, verificados antes
mesmo da CF/1988 (por intermédio, por exemplo, da Lei 6.938/81 e da Lei 7.437/85),
como é o caso do Direito do Consumidor, do Direito Urbanístico e do Direito Ambiental. Esse novo
cenário normativo consagra a edificação de um “novo” Direito Civil, reconstruído à luz da nova
ordem constitucional e do modelo de Estado de Direito da CF/1988, o que também conduz à
sua vinculação aos valores e direitos ecológicos.
A “Virada de Copérnico” do Direito Civil, conforme expressão consagrada pelo Ministro Luiz
Edson Fachin em artigo clássico sobre o tema,175 pode ser verificada num dos seus pilares, ou
seja, no direito de propriedade. Sem desenvolver o tema em maiores detalhes, até porque que não
se trata do nosso propósito aqui, identifica-se hoje forte tendência de “funcionalização” do direito de
propriedade – como um direito-dever –, vinculando o seu exercício a interesses que extrapolam a
esfera do seu titular, como é o caso da proteção ecológica. Não que a ideia de função social – e
mais recentemente, também a função ambiental ou ecológica – inerente ao direito de propriedade
seja algo novo – basta rememorar a previsão expressa na Constituição de Weimar de 1919 no
sentido de que a “a propriedade obriga” –, já que a sua consagração na legislação brasileira é
anterior à CF/1988. O Estatuto da Terra ( Lei 4.504/64) e o (hoje revogado) Código Florestal
de 1965 ( Lei 4.771/65) já havia consagrado em grande medida a função social da propriedade,
trazendo limitações de ordem pública ao exercício do direito de propriedade, inclusive com os
primeiros contornos ecológicos inerentes a tal função.
O Código Civil de 2002, fortalecendo esse cenário, consagrou expressamente a função
ecológica da propriedade, por meio do seu paradigmático art. 1.228, § 1º, ao dispor que “o direito
de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais e
de modo que sejam preservados, de conformidade com o estabelecido em lei especial, a flora, a
fauna, as belezas naturais, o equilíbrio ecológico e o patrimônio histórico e artístico, bem como
evitada a poluição do ar e das águas”. Igualmente, o Código Florestal de 2012 ( Lei
12.651/2012) seguiu no mesmo caminho, mantendo os institutos jurídicos (já existentes na sua
versão anterior de 1965) que expressam a função ecológica da propriedade, como é o caso da
área de preservação permanente e da reserva legal. A ideia de “funcionalização” dos institutos do
Direito Civil também encontra fundamento na função social do contrato, consagrada
expressamente no Código Civil de 2002.176 Também o princípio da boa-fé objetiva pode ser
concebido com uma dimensão ecológica, por exemplo, estabelecendo deveres ecológicos conexos
no âmbito de determinada relação jurídica privada.
O cenário jurídico-constitucional hoje é muito diferente daquele que concebeu o Direito Civil
clássico, consagrado pelo Código Civil de 1916 e replicado em grande medida também no Código
Civil de 2002, especialmente por conta da centralidade ocupada posteriormente a 1988 pela
Constituição na ordem jurídica nacional (quando antes o Código Civil ocupava tal lugar
privilegiado), e também pela vinculação e da eficácia da dignidade da pessoa humanae dos direitos
fundamentais (liberais, sociais e ecológicos) nas relações entre particulares (a denominada eficácia
horizontal). Igualmente, o Direito Privado, inspirado não apenas nos seus cânones da autonomia
privada e da liberdade, tem se desenvolvido na afirmação dos princípios da igualdade e da
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13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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solidariedade, notadamente em vista da proteção de indivíduos e grupos sociais (hiper)vulneráveis.
Entre os novos sujeitos vulneráveis, a serem protegidos no âmbito das relações jurídicas privadas,
a doutrina tem avançado no sentido de incluir também às futuras gerações humanas, os animais
(não humanos) e a Natureza em si.
Está em curso um processo de “ecologização” do Direito Privado, como tem defendido, entre
outros, Gonzalo Sozzo. Como assinala o autor argentino, “el Derecho Privado deberiainternalizar
las perspectivas que las ciências experimentales están produciendo sobre la transformación del
estado del planeta y las necesidades que esto genera. Hay que construir un Derecho Privado para
el Antropoceno”.177 A “ecologização” do Direito Civil é um corolário lógico da própria
“constitucionalização” da ordem jurídica privada, na medida em que a CF/1988 – nomeada pelo
Ministro Luiz Fux de “Constituição Verde”178 – incorporou os valores ecológicos no seu núcleo
normativo axiológico, reconhecendo tanto o dever estatal de proteção ambiental, quanto o direito
fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, titularizado pelos indivíduos e pela
sociedade como um todo (art. 225).
O status normativo supralegal dos tratados internacionais em matéria ambiental, como já
reconhecido pelo STF179 e em sintonia com a jurisprudência mais recente da Corte IDH180,
também reforça o fenômeno da “ecologização” do Direito Civil e vinculação de toda a ordem
jurídica privada ao parâmetro normativo internacional ambiental, ressalvando-se, inclusive, a
possibilidade do controle de convencionalidade da legislação privada infraconstitucional a ser
levado a efeito (ex officio) por Juízes e Tribunais. A título de exemplo, o Código Civil e
Comercial da Argentina (2015), de modo inovador, reconheceu expressamente os tratados
internacionais de direitos humanos – entre eles os tratados internacionais ambientais, dada a
natureza de direito humano atribuída ao direito ao meio ambiente – como fonte normativa do Direito
Privado.181
As relações jurídicas privadas e os institutos jurídicos clássicos do Direito Civil (contrato,
propriedade, responsabilidade civil etc.)182 encontram-se, portanto, vinculados normativamente ao
direito fundamental ao meio ambiente e ao respeito aos valores ecológicos por força do comando
constitucional (art. 225), inclusive. Igualmente, destaca-se a natureza de direito-dever inerente ao
regime jurídico-constitucional ecológico, com a atribuição de deveres fundamentais de proteção
ecológica a cargo dos particulares, a ponto de limitar o exercício e gozo de outros direitos de
âmbito privado. No caso dos institutos jurídicos, o seu conteúdo passa a ser reconstruído com base
nesse novo paradigma ambiental ou ecológico183.
A título de exemplo, o instituto do abuso de direito, consagrado no art. 187 do Código Civil de
2002184, foi “repaginado” recentemente pelo Código Civil e Comercial da Argentina (2015), ao
dispor da seguinte forma a respeito do instituto no seu art. 14, parágrafo segundo:
ARTICULO 14.- Derechos individuales y de incidencia colectiva.
En este Código se reconocen:
a) derechos individuales;
b) derechos de incidencia colectiva.
La ley no ampara el ejercicio abusivo de los derechos individuales cuando pueda afectar al ambiente y
a los derechos de incidencia colectiva en general.
É possível, por essa ótica, falar da caracterização do que se pode denominar de abuso de
direito ecológico – ou “ecoabuso” de direito, como referido por Sozzo.185 Ao comentar o dispositivo
citado e conectar a legislação civil com a norma constitucional argentina, o autor assinala que “la
inovación del nuevo Código Civil y Comercial, que aqui llamo giro ecológico del abuso del
derecho, es un nuevo jalón em esta historia del abuso del derecho que basicamente consiste em
haber internalizado, em la propia estrutura del derecho subjetivo lo que en principio constituye um
limite externo al derecho subjetivo que proviene de los ‘derechos de incidência colectiva’ (DIC) (art.
41, CN). Em otras palavras, se assigna a los derechos subjetivos um doble función: a) satisfacer
las necessidades individuales (función individualista); b) satisfacer las necesidades comunes o
colectivas”.186 O Acordo de Escazú (2018), por sua vez, consagrou expressamente o “princípio da
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13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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boa-fé” no seu rol de princípios estabelecido no seu art. 3º do diploma, o que nos permite falar de
um princípio da boa-fé objetiva ambiental ou ecológica, inclusive como fundamento para o
reconhecimento de deveres conexos de natureza ambiental em determinada relação jurídica
privada que tenha repercussão na integridade de algum bem jurídico ecológico.
 
174
.No tocante à eficácia dos direitos fundamentais nas relações entre particulares, v. SARLET, Ingo W. A eficácia dos
direitos fundamentais..., p. 374-383; e, especificamente em relação à eficácia do direito fundamental ao ambiente nas
relações entre particulares, v. FENSTERSEIFER, Direitos fundamentais e proteção do ambiente..., p. 245-258.
175
.FACHIN, Luiz Edson. “Virada de Copérnico”: um convite à reflexão sobre o direito civil brasileiro contemporâneo. In:
FACHIN, Luiz Edson (coord.). Repensando os fundamentos do direito civil brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro:
Renovar, 2000, p. 317-324.
176
.“Art. 421. A liberdade contratual será exercida nos limites da função social do contrato. (Redação dada pela Lei nº
13.874/2019) (...). Art. 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua
execução, os princípios de probidade e boa-fé”.
177
.SOZZO, Gonzalo. Derecho privado ambiental: el giro ecológico del derecho privado. Buenos Aires: Rubinzal– Culzoni
Editores, 2019, p. 16.
178
.STF, ADC 42/DF, Tribunal Pleno, Rel. Min. Luiz Fux, j. 28.02.2018, DJe 01.03.2018.
179
.STF, ADI 4.066/DF, Tribunal Pleno, Rel. Min. Rosa Weber, j. 24.08.2017, DJe 24.08.2017. Em decisão recente, por
ocasião do julgamento da medida cautelar na ADPF 747/DF, acerca do status normativo das resoluções do CONAMA,
a Ministra Rosa Weber voltou a defender o status supralegal do marco normativo internacional em matéria ambiental,
conforme se pode observar na passagem que segue: “a Resolução nº 500, de 28 de setembro de 2020, do Conselho
Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), ao revogar as Resoluções nºs 284/2001, 302/2002 e 303/2002, vulnera
princípios basilares da Constituição, sonega proteção adequada e suficiente ao direito fundamental ao meio ambiente
equilibrado nela assegurado e promove desalinho em relação a compromissos internacionais de caráter supralegal
assumidos pelo Brasil e que moldam o conteúdo desses direitos” (STF, MC na ADPF 747/DF, Tribunal Pleno, Rel. Min.
Rosa Weber, j. 28.10.2020, DJe 29.10.2020).
180
.Vide Opinião Consultiva 23/2017 da Corte IDH sobre “Meio Ambiente e Direitos Humanos” e, mais recentemente, a
decisão da Corte IDH no Caso Tierra Nuestra vs. Argentina (2020).
181.“ARTICULO 1°.- Fuentes y aplicación. Los casos que este Código rige deben ser resueltos según las leyes que
resulten aplicables, conforme con la Constitución Nacional y los tratados de derechos humanos en los que la
República sea parte. A tal efecto, se tendrá en cuenta la finalidad de la norma. Los usos, prácticas y costumbres son
vinculantes cuando las leyes o los interesados se refieren a ellos o en situaciones no regladas legalmente, siempre
que no sean contrarios a derecho.”
182
.Nem o Direito de Família tem escapado desse novo cenário jurídico, haja vista, por exemplo, os desenvolvimentos
recentes decorrentes do novo status jurídico de seres sencientes dos animais não humanos, impactando as relações
jurídicas familiares em temas como divórcio, guarda, regulamentação de visitas e etc.
183
.De acordo com Ricardo L. Lorenzetti e Pablo Lorenzetti, “en el caso del paradigma ambiental el pensamento se basa
em: a) uma concepción sistémica; b) búsqueda de uma coordinación em el funcionamento entre los sistemas
económico, social y natural; c) comunicabilidade de los princípios entre el Derecho Público y el Privado; y d) existência
de bienes colectivos”. LORENZETTI, Ricardo L.; LORENZETTI, Pablo. Derecho ambiental. Santa Fe: Rubinzal-
Culzoni Editores, 2018, p. 92-93.
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184
.“Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites
impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes”.
185
.SOZZO, Derecho privado ambiental..., p. 532-533.
186
.SOZZO, Derecho privado ambiental..., p. 554.
13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
0
§ 26 ESTADO DE COISAS INCONSTITUCIONAL ECOLÓGICO (E CLIMÁTICO)
À luz de alguns exemplos, podemos identificar situações que ilustram a profunda e sistemática
incapacidade institucional do Estado – em especial, do Poder Executivo – de gerenciar as políticas
públicas ambientais de modo minimamente eficiente e suficiente (em face do princípio da proibição
de proteção insuficiente ou deficiente), como ilustram de forma categórica o aumento galopante do
desmatamento na Amazônia187 e no Pantanal Mato-grossense, os desastres de Mariana (2015) e
Brumadinho (2019), bem como, por último, o derramamento de óleo no litoral do Nordeste (2019).
Tais situações, dadas a sua magnitude e violação massiva de direitos fundamentais que provocam
e provocaram, demandam uma atuação do Poder Judiciário no sentido de dar respostas de âmbito
estrutural, ou seja, medidas corretivas de grande amplitude nas políticas públicas levadas a efeito
pelo Poder Executivo. É aí que surge a discussão acerca do “estado de coisas inconstitucional
ambiental ou ecológico”188, recordando-se que o STF já se serviu de tal instituto jurídico – utilizado
de forma pioneira pela Corte Constitucional colombiana189 – no julgamento da ADPF 347/DF, ao
tratar, entre outros aspectos, da superlotação e violação massiva de direitos fundamentais
verificada no âmbito do sistema carcerário brasileiro.
A Corte Constitucional colombiana estabelece os “fatores” caracterizadores do estado de coisas
inconstitucional:
“Dentro de los factores valorados por la Corte para definir si existe un estado de cosas
inconstitucional, cabe destacar los siguientes: (i) la vulneración masiva y generalizada de varios derechos
constitucionales que afecta a un número significativo de personas; (ii) la prolongada omisión de las
autoridades en el cumplimiento de sus obligaciones para garantizar los derechos; (ii) la adopción de
prácticas inconstitucionales, como la incorporación de la acción de tutela como parte del procedimiento
para garantizar el derecho conculcado; (iii) la no expedición de medidas legislativas, administrativas o
presupuestales necesarias para evitar la vulneración de los derechos; (iv) la existencia de un problema
social cuya solución compromete la intervención de varias entidades, requiere la adopción de un conjunto
complejo y coordinado de acciones y exige un nivel de recursos que demanda un esfuerzo presupuestal
adicional importante; (v) si todas las personas afectadas por el mismo problema acudieran a la acción de
tutela para obtener la protección de sus derechos, se produciría una mayor congestión judicial”.
Tomando por base os fatores e situações descritas pela Corte Constitucional colombiana é
perfeitamente possível o enquadramento de violações massivas a direitos ecológicos na
configuração do instituto do estado de coisas inconstitucional, como verificado nos exemplos
citados no início deste tópico, ressaltando-se a persistente omissão do Estado em dar respostas
efetivas e satisfatórias. A título de exemplo, a redução contundente da estrutura administrativa de
proteção ecológica reforça o movimento refratário e omissivo do Estado – notadamente do Poder
Executivo – de assegurar o cumprimento da norma constitucional consagrada no art. 225 da
CF/1988.
A discussão em torno de um suposto “estado de coisas inconstitucional em matéria ambiental”
tomou assento recentemente no STF na ADPF 708/DF (Caso Fundo Clima). O argumento foi
suscitado na inicial e endossado na decisão do Ministro-Relator Luis Roberto Barroso190 que
convocou audiência pública (realizada nos dias 21 e 22.09.2020) para ouvir autoridades,
especialistas e entidades da sociedade civil, a fim de estabelecer um relato oficial sobre as políticas
públicas ambientais e a situação verificada especialmente em relação ao desmatamento na região
amazônica, de modo a apurar a caracterização ou não de um “estado de coisas inconstitucional em
matéria ambiental”. Como fundamentos lançados na inicial pelos autores da ação para a sua
configuração, destacam-se: ações e omissões persistentes, comprometedoras da tutela do meio
ambiente e da operação do Fundo Clima imputáveis a autoridades diversas e ensejadoras de
violações massivas a direitos fundamentais, tudo a sugerir a existência de um estado de coisas
inconstitucional em matéria ambiental.
A decisão judicial a ser tomada diante da caracterização de um estado de coisas
inconstitucional envolve a adoção das denominadas medidas estruturais ou estruturantes,
ingressando o Poder Judiciário no âmbito do controle das políticas públicas, dada a
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13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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g p p
excepcionalidade e gravidade da situação, caracterizada, na sua essência, pelas ações e omissõessistemáticas e reiteradas do Estado (por diversos órgãos da estrutura estatal) e violação massiva
de direitos fundamentais. No caso da ADPF 708/DF, as ações e omissões reiteradas e sistemáticas
são atribuídas, por exemplo, a órgãos como o Ministério do Meio Ambiente, o IBAMA, o ICMBio, a
FUNAI, entre outros, resultando, em última instância, num cenário administrativo e políticas
públicas em total desacordo com os deveres constitucionais de proteção ecológica impostos pelo
art. 225 da CF/1988.
Além da imposição de medidas judiciais para a correção de tal situação de violação massiva a
direitos fundamentais, é possível suscitar também a instalação de comitê ou comissão de
emergência ou crise ambiental (ou sala de situação ambiental)191 – formada por autoridades e
órgãos públicos, entidades científicas (universidades, institutos etc.), entidades da sociedade civil
de proteção ecológica, entidades representantes de povos indígenas etc –, a fim de possibilitar a
gestão da crise ambiental, subsidiar a tomada de decisões e acompanhar o cumprimento das
medidas impostas judicialmente. No STF, tramita nesse sentido a ADPF 743/DF, proposta pelo
Partido Rede Sustentabilidade, sob a relatoria do Ministro Marco Aurélio, em que é pleiteada, além
do reconhecimento de um estado de coisas inconstitucional decorrente da omissão e insuficiência
das políticas públicas ambientais do Governo Federal e imposição de inúmeras medidas – por
exemplo, que apresente, no prazo de 10 dias, um plano de prevenção e combate aos incêndios no
Pantanal e na Amazônia –, a criação de uma “sala de situação”, de modo a permitir a gestão da
crise em questão, subsidiar a tomada de decisões e acompanhar o cumprimento das medidas
impostas judicialmente.
Na ADPF 709/DF, o Ministro Luís Roberto Barroso, relator da ação, determinou que o governo
federal adote uma série de medidas para conter o contágio e a mortalidade por Covid-19 entre a
população indígena, entre as quais: planejamento com a participação das comunidades, ações
para contenção de invasores em reservas e criação de barreiras sanitárias no caso de indígenas
em isolamento (aqueles que por escolha própria decidiram não ter contato com a sociedade) ou
contato recente (aqueles que têm baixa compreensão do idioma e costumes), acesso de todos os
indígenas ao Subsistema Indígena de Saúde e elaboração de plano para enfrentamento e
monitoramento da Covid-19. Ademais, o Ministro determinou a instalação de “sala de situação” –
prevista em portaria do Ministério da Saúde e da Funai –, pelo Governo Federal para gestão de
ações de combate à pandemia quanto a povos indígenas em isolamento ou de contato recente,
com participação das comunidades, por meio da APIB, da Procuradoria-Geral da República e da
Defensoria Pública da União.
A Corte Suprema de Justiça argentina, em ação coletiva de proteção ambiental promovida por
associação civil (“Equística Defensa del Medio Ambiente”) contra o Estado Nacional, as províncias
de Santa Fé e Entre Ríos e os municípios de Rosário e Victoria, devido aos incêndios irregulares
que vêm ocorrendo na cadeia de ilhas ao largo da costa da cidade de Rosário, em decisão de
11.08.2020, ordenou, como medida preventiva, que as províncias e municípios processados
constituíssem, imediatamente, um Comitê de Emergência Ambiental, com o objetivo de adotar
medidas efetivas para a prevenção, controle e cessação de incêndios irregulares na região do
Delta do Paraná. A decisão ordenou igualmente que, dentro de 15 dias de calendário, fosse
apresentado ao Tribunal um relatório sobre o cumprimento da medida ordenada, a criação do
Comitê de Emergência Ambiental e as ações tomadas. O Tribunal considerou, amparado na
recente legislação climática argentina – Lei de Pressupostos Mínimos de Adaptação e Mitigação ao
Câmbio Climático Global (Lei 27.520, de 18 de dezembro de 2019) –, que existem elementos
suficientes para considerar que os incêndios acima mencionados, embora constituam uma prática
antiga, adquiriram uma dimensão que afeta todo o ecossistema e a saúde da população, de modo
que não se trata de uma queima isolada de pastagens, mas sim o efeito cumulativo de numerosos
incêndios que se espalharam por toda a região, colocando o meio ambiente em risco.192
O Poder Judiciário, diante de tal cenário institucional omissivo e violador de direitos
fundamentais em escala massiva, deve assumir o papel de guardião da Constituição e dos direitos
fundamentais – entre eles o direito fundamental a viver em um meio ambiente íntegro, de qualidade
e seguro –, exercendo a coordenação das políticas públicas193 necessárias à correção de tal
cenário violador de direitos, por meio, inclusive, do que se poderia denominar de uma governança
judicial ecológica.
 
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13/04/2023, 19:14 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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187
.Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE), no mês de novembro de 2019, o
desmatamento na Amazônia entre julho de 2018 e agosto de 2019 foi o maior dos últimos 11 anos. O Sistema
PRODES de monitoramento anual registrou 9.762 quilômetros quadrados de desmatamento no período referido,
aproximadamente 30% maior do que o verificado no registro do ano anterior. Disponível em:
<http://www.obt.inpe.br/OBT/assuntos/programas/amazonia/prodes>.
188
.Na doutrina brasileira, destaca-se estudo pioneiro de Bleine Queiroz Caúla e Francisco Lisboa Rodrigues sobre a
versão “ecológica” do instituto do estado de coisas inconstitucional: CAÚLA, Bleine Queiroz; RODRIGUES Francisco
Lisboa. O estado de coisas inconstitucional ambiental. Revista de Direito Público Contemporânea, ano 2, v. 1, n. 2, p.
137-151, jul.-dez. 2018.
189
.A Corte Constitucional colombiana estabeleceu o que seria o estado de coisas inconstitucional na Sentencia T-025,
de 16.05.2004: “es una decisión judicial, por medio de la cual la Corte Constitucional declara que hay una violación
masiva generalizada y sistemática de los derechos fundamentales es de tal magnitud, que configura una realidad
contraria a los principios fundantes de la Constitución Nacional y estas situaciones pueden provenir de una autoridad
pública específica que vulnera de manera constante los derechos fundamentales, o de un problema estructural que no
solo compromete una autoridad sino que incluye también la organización y el funcionamiento del Estado, y que por
tanto se puede calificar como una política pública, de donde nace la violación generalizada de los derechos
fundamentales”. Disponível em: <http://www.corteconstitucional.gov.co/relatoria/2004/t-025-04.htm>.
190
.STF, ADPF 708/DF, Rel. Min. Roberto Barroso, decisão monocrática,j. 28.06.2020.
191
.Segundo dispõe o art. 6º, VII, da Lei sobre a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil – PNPDEC ( Lei
12.608/2012) compete à União “instituir e manter sistema para declaração e reconhecimento de situação de
emergência ou de estado de calamidade pública; [...]”.
192
.Disponível em: https://www.cij.gov.ar/nota-38022-La-Corte-Suprema-ordena-constituir-un--Comit--de-Emergencia-
Ambiental--para-detener-y-controlar-los-incendios-irregulares-en-el-Delta-del-Paran-.html.
193
.Sobre o papel a ser exercido pelo Poder Judiciário no sentido de “coordenar” as políticas públicas diante da
caracterização de um “estado de coisas inconstitucional”, destaca-se passagem do voto-relator do Ministro Marco
Aurélio na ADPF 347/DF, que tratou do sistema carcerário brasileiro, na liminar concedida: “Nada do que foi afirmado
autoriza, todavia, o Supremo a substituir-se ao Legislativo e ao Executivo na consecução de tarefas próprias. O
Tribunal deve superar bloqueios políticos e institucionais sem afastar esses Poderes dos processos de formulação e
implementação das soluções necessárias. Deve agir em diálogo com os outros Poderes e com a sociedade. Cabe ao
Supremo catalisar ações e políticas públicas, coordenar a atuação dos órgãos do Estado na adoção dessas medidas
e monitorar a eficiência das soluções. Não lhe incumbe, no entanto, definir o conteúdo próprio dessas políticas, os
detalhes dos meios a serem empregados. Em vez de desprezar as capacidades institucionais dos outros Poderes,
deve coordená-las, a fim de afastar o estado de inércia e deficiência estatal permanente. Não se trata de substituição
aos demais Poderes, e sim de oferecimento de incentivos, parâmetros e objetivos indispensáveis à atuação de cada
qual, deixando-lhes o estabelecimento das minúcias. Há de se alcançar o equilíbrio entre respostas efetivas às
violações de direitos e as limitações institucionais reveladas na Carta da República” (STF, MC na ADPF 347/DF,
Tribunal Pleno, Rel. Min. Marco Aurélio, j. 09.09.2015, DJe 19.02.2016).
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13/04/2023, 19:15 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
0
§ 27 A ÚLTIMA FRONTEIRA DO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO: O
RECONHECIMENTO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS DE TITULARIDADE DOS ANIMAIS
NÃO HUMANOS E DA NATUREZA
“No âmbito do Direito Internacional dos Direitos Humanos tem-se caminhado para reconhecer a
interdependência entre o direito humano ao meio ambiente saudável e uma multiplicidade de outros
direitos humanos, bem como para afirmá-lo como um direito autônomo titulado pela própria
Natureza (e não apenas pelos seres humanos). Há, nesse sentido, duas importantes decisões da
Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH). Na Opinião Consultiva no 23/2017,
estabeleceu que o direito a um meio ambiente saudável é ‘um interesse universal’ e ‘um direito
fundamental para a existência da humanidade”. (Ministro Luis Roberto Barroso)194
O reconhecimento dos direitos dos animais não humanos e dos direitos da Natureza (e dos
elementos naturais como florestas, plantas, rios etc.), atribuindo-lhes valor intrínseco e, portanto,
dissociado de qualquer valor instrumental ou utilitário que possam representar ao ser humano, têm
encontrado cada vez maior consenso em sede de direito comparado e internacional. Desde a
gênese de tal discussão, representada paradigmaticamente pelo artigo Should trees have
standing? Toward legal rights for natural objects (“As árvores têm legitimidade para litigar? Rumo
ao reconhecimento de direitos para os elementos naturais”), de Chistopher D. Stone195, publicado
em 1972, o tema tem encontrado cada vez maior adesão doutrinaria196, legislativa e
jurisprudencial, especialmente na última década. O ressurgimento da discussão a respeito dos
direitos da Natureza, especialmente pela ótica constitucional, pode ser identificado
paradigmaticamente na Constituição do Equador (2008), ou seja, a primeira no mundo a
reconhecer expressamente os direitos da Pachamama. No ano de 2018, a Corte Suprema
colombiana reconheceu, em caso de litigância climática contra o desmatamento florestal, a
Amazônia Colombiana como “entidade sujeito de direitos”197, repetindo entendimento
jurisprudencial anterior da Corte Constitucional do País que havia atribuído, em decisão de 2016, o
mesmo status jurídico ao Rio Atrato198. A Corte Interamericana de Direitos Humanos, alinhada com
tal cenário que desponta no cenário jurídico atual, reconheceu expressamente na Opinião
Consultiva n. 23/2017 a proteção jurídica autônoma, ou seja, “em si mesma” da Natureza,
destacando “uma tendência a reconhecer a personalidade jurídica e, por fim, os direitos da
Natureza, não só em decisões judiciais, mas também nos ordenamentos constitucionais”.199 Essa,
na linha da discussão envolvendo um novo paradigma constitucional ecocêntrico, como, aliás, já foi
objeto de análise pela nossa Corte Constitucional200, representa a última e mais desafiadora
fronteira a ser desbravada pelo Direito Constitucional Ecológico, o que será objeto de
desenvolvimento no Capítulo 1.
 
194
.Passagem da decisão do Ministro Luis Roberto Barroso proferida em 28.06.2020 no Caso Fundo Clima, ao convocar
a audiência pública realizada nos dias 21 e 22.09.2020 perante o Supremo Tribunal Federal (STF, ADPF 708/DF, Rel.
Min. Luis Roberto Barroso, ainda pendente de julgamento).
195
.O artigo, publicado originalmente em 1972 na Southern California Law Review, foi republicado como livro em 1974,
tendo sido reeditado e substancialmente ampliado posteriormente: STONE, Chistopher D. Should trees have
standing? Law, morality, and the environment. 3. ed. New York: Oxford University Press, 2010.
196
.A título de exemplo, v. BOYD, David R. The rights of Nature: a legal revolution that could save the world. Toronto:
ECW Press, 2017.
197
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13/04/2023, 19:15 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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.Íntegra da decisão proferida pela Corte Suprema Colombiana, no julgamento da STC4360-2018 (Radicacion n. 1100-
22.03-000-2018-00319-01), proferida em 05.04.2018. Disponível em:
[www.cortesuprema.gov.co/corte/index.php/2018/04/05/corte-suprema-ordena-proteccion-inmediata-de-la-amazonia-
colombiana/].
198
.Íntegra da decisão proferida pela Corte Constitucional Colombiana, no julgamento da T-622/16, proferida em
10.11.2016. Disponível em: [www.corteconstitucional.gov.co/relatoria/2016/t-622-16.htm].
199
.CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, Opinião Consultiva n. 23/2017..., pp. 28- 29.
200
.No Brasil, a discussão sobre o novo paradigma jurídico ecocêntrico apareceu na fundamentação dos votos e
manifestações dos Ministros Rosa Weber e Ricardo Lewandowski do STF no julgamento da ADI 4.983/CE sobre a
prática da “vaquejada”: STF, ADI 4.983/CE, Tribunal Pleno, Rel. Min. Marco Aurelio, j. 06.10.2016. O tema, por sua
vez, já tratado de passagem na Nota à 6ª Edição, será retomado e desenvolvido com maiores detalhes no Capítulo 1.
13/04/2023, 19:15 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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INTRODUÇÃO AO DIREITOCONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
0
§ 28 O “MITO DA CAVERNA” DE PLATÃO E O PAPEL DO CIENTISTA DE DAR VOZ
(POLÍTICO-JURÍDICA) À NATUREZA E TRAZER LUZ PARA AS LEIS DOS HOMENS
AMPARADO NAS LEIS DA NATUREZA: DE FACTO, DE JURE! (BRUNO LATOUR)
Por força da atual crise ecológica, o papel do cientista e da ciência no debate público nunca foi
tão relevante nos rumos civilizatórios quanto hoje, dadas implicações que envolvem a nossa
própria sobrevivência como espécie. O cientista a que me refiro aqui é aquele “desbravador” das
leis da Natureza em todas as suas dimensões, e não o “cientista” das chamadas “ciências
humanas” ou “humanidades”. Aproveitando a definição de ciência (Natural Science) elaborada de
forma concisa por Edward O. Wilson, na linha da clássica distinção anglo-saxã entre Science e
Humanities, a mesma é entendida como “a entidade organizada e sistemática que reúne
conhecimentos sobre o mundo e condensa os conhecimentos em leis e princípios
comprováveis”.201 Para ilustrar, inclusive o caráter universal da ciência (ou das ciências ditas
“duras”), Wilson destaca, por exemplo, que a matemática pode, em alguma medida, ser
considerada a “linguagem natural da ciência”, bem como que “as leis da física são de fato tão
exatas e precisas a ponto de transcender diferenças culturais”.202 Em outras palavras, o(s)
Sistema(s) Jurídico(s) e as “leis humanas”, por maior que seja o empenho de estabelecer, por
exemplo, uma ordem jurídica internacional, como na seara dos direitos humanos, com a pretensão
de um marco jurídico mínimo (minimum core obligation203) de proteção da pessoa universalizável,
são, em regra, variáveis e diferentes ao redor do globo terrestre, a depender da história, cultura etc.
de cada Estado-Nação. As leis da Natureza não. Elas são universais, independentemente do lugar
do Planeta Terra em que se esteja. E valem para todos. A maçã, ao amadurecer e se desprender
da macieira, inevitavelmente cairá no chão, estejamos no Brasil ou na China, como exemplo em
alusão à “metáfora” da descoberta das leis da gravidade pelo físico britânico Isaac Newton (1642-
1727). Já os Sistemas Jurídicos do Brasil e da China...
Esse “descompasso” entre as leis da Natureza e as leis dos homens nunca foi tão desafiado
quanto hoje, sendo urgente um realinhamento pela ótica da proteção da Natureza (e da nossa
própria existência), ajustando as leis humanas às leis da Natureza para que o sistema de Gaia204
possa reencontrar novamente um ponto de equilíbrio capaz de salvaguardar com segurança e de
forma sustentável as bases naturais que regem e tornam possível a vida (humana e não humana)
no Planeta Terra. A prova mais simbólica da gravidade da intervenção do ser humano na Natureza
está no recente reconhecimento pela comunidade científica de que entramos em um novo Período
Geológico do Planeta Terra denominado de “Antropoceno”, como já tratado anteriormente, com as
nossas ações afetando, como nunca antes, o seu equilíbrio em escala global. O aquecimento
global, a poluição dos oceanos e a extinção em massa da biodiversidade, entre inúmeros outros
exemplos das nossas “pegadas”, dão conta de ilustrar bem esse cenário. O “mundo social” precisa
se reencontrar com o “mundo natural”. E é justamente aqui que o cientista joga como uma peça
chave no tabuleiro planetário para a transformação de tal cenário de vulnerabilidade existencial em
que se encontra (por sua culpa exclusiva) o Homo sapiens.
O filosofo francês Bruno Latour utiliza a Alegoria ou Mito da Caverna de Platão, descrito na sua
obra clássica A República205, para tratar justamente do papel do cientista, como ponte de contato
entre o mundo social e o mundo natural, ou seja, como uma espécie de “tradutor” das leis da
Natureza para a sociedade. Como dito por Latour, “o filósofo e, mais tarde, o cientista têm que se
libertar da tirania da dimensão social, da vida pública, da política, dos sentimentos subjetivos, da
agitação popular – em suma, da caverna escura – se quiserem aceder à verdade”. Seguindo, afirma
ele: “o cientista, uma vez equipado com leis não feitas por mãos humanas que ele acaba de
contemplar porque conseguiu libertar-se da prisão do mundo social, pode voltar à caverna para lhe
dar ordem com incontestáveis descobertas que silenciarão a tagarelice sem fim da multidão
ignorante”.206 Os “encontrados incontestáveis” dos cientistas referem-se justamente às leis
objetivas e irrefutáveis da Natureza descobertas por eles ao deixarem a “caverna”. As leis da
Natureza, por essa ótica, representam uma espécie de “lei natural” imperativa (e com força
normativa) imposta pelas coisas não humanas e a realidade do mundo natural que, na maioria das
vezes, não é devidamente compreendida pela sociedade, não sendo, portanto, representada na
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13/04/2023, 19:15 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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esfera política, não obstante diga respeito a questões existências elementares e determinantes
para a vida humana e o futuro da sociedade como um todo. Como dito por Latour, de facto, de
jure!207
Ao transpor para a atualidade o Mito ou Alegoria da Caverna, Latour destaca que ela permite
uma “Constituição” que “organiza a vida pública em duas casas. A primeira é a obscura sala
retratada por Platão, onde pessoas ignorantes se encontram acorrentadas, incapazes de se
olharem diretamente, comunicando-se apenas através de ficções projetadas em uma espécie de
tela de cinema”. Já a segunda casa “está localizada fora, em um mundo feito não de humanos, mas
de não humanos, indiferentes às nossas querelas, nossas ignorâncias e os limites de nossas
representações e ficções. O gênio do modelo deriva do papel desempenhado por um número muito
pequeno de pessoas, as únicas capazes de ir e vir entre as duas assembleias e converter a
autoridade de uma em autoridade da outra. Apesar do fascínio exercido pelas Ideias (mesmo sobre
aqueles que afirmam denunciar o idealismo da solução platónica), não se trata em absoluto de opor
o mundo sombra ao mundo real, mas de redistribuir poderes inventando tanto uma certa definição
de Ciência como uma certa definição de política” (destaque nosso).208 Ainda segundo o autor, “a
primeira casa reúne a totalidade dos seres humanos falantes, que se encontram sem nenhum
poder, exceto o de serem ignorantes em comum ou de concordarem por convenção em criar
ficções desprovidas de qualquer realidade externa. A segunda casa é constituída exclusivamente
de objetos reais que têm a propriedade de definir o que existe, mas que carecem do dom da fala.
Por um lado, temos a tagarelice das ficções; por outro, o silêncio da realidade. A sutileza dessa
organização repousa inteiramente no poder dado aos que podem se movimentar entre as casas. O
pequeno número de especialistas escolhidos a dedo, por sua vez, presumivelmente tem a
capacidade de falar (já que são humanos), a capacidade de dizer a verdade (pois fogem do mundo
social, graças à ascese do conhecimento) e, finalmente, a capacidade de trazer ordem à reunião de
humanos, mantendo seus membros em silêncio (já que os especialistas podem voltar à casa
inferior para reformar os escravos que estão acorrentados na sala). Em suma, esses poucos
eleitos, como eles mesmos veem isso, são dotados da mais fabulosa capacidade política jamais
inventada: eles podem fazer falar o mundo mudo, dizer a verdade sem serem desafiados, pôr fim
aos intermináveis argumentos por meio de uma forma incontestável de autoridade que derivaria
das próprias coisas (...)”.209
A “redistribuição de poderes” referida por Latour pode ser compreendida por meio de um novo
pacto político de natureza ecológica capaz de assegurar a devida representação dos interesses (e
direitos?) não humanos. Em outras palavras, um novo rearranjo político-jurídicocapaz de, como
dito pelo filósofo francês, “fazer falar o mundo mudo”, tema que será tratado no tópico
subsequente.
 
201
.WILSON, Edward O. Consilience: the Unity of Knowledge. Vintage Books/Random House, 1999. No original: “the
organized, systematic enterprise that gathers knowledge about the world and condenses the knowledge into testable
laws and principles”.
202
.WILSON, Consilience…, p. 53.
203
.V. PIOVESAN, Flávia. Social Rights: A Theoretical Perspective on South America. In: BINDER, Christina; EBERHARD
Harald; LACHMAYER Konrad; RIBAROV, Gregor; THALLINGER, Gerhard (Org.) Corporate Social Responsibility and
Social Rights (Proceedings of the 5th Vienna Workshop on International Constitutional Law). Baden-Baden: Nomos,
2010, p. 150 (pp. 147-171).
204
.LOVELOCK, James. A vingança de Gaia. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2006.
205
.LATOUR, Bruno. Politics of Nature: How to Bring the Sciences into Democracy. Cambridge: Harvard University Press,
2004, p. 10.
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13/04/2023, 19:15 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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206
.LATOUR, Politics of Nature…, pp. 10-11.
207
.LATOUR, Bruno. Facing Gaia: eight lectures on the new climate regime. Cambridge: Polity, 2017, p. 23.
208
.LATOUR, Politics of Nature…, pp. 13-14.
209
.LATOUR, Politics of Nature…, pp. 14.
13/04/2023, 19:15 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL ECOLÓGICO
0
§ 29 UM NOVO PACTO OU CONTRATO POLÍTICO-CONSTITUCIONAL NO
ANTROPOCENO SOB UM “VÉU DA IGNORÂNCIA ECOLÓGICO”?
As premissas lançadas no tópico anterior revelam a necessidade de transcender de um pacto
apenas social para um novo pacto político-jurídico ecológico, em vista de contemplar o novo papel
que o Estado e a sociedade desempenham no âmbito da atual conformação do Estado de Direito
contemporâneo. Uma nova postura política (e também jurídica) coloca-se para a sociedade civil,
que, por força do marco normativo da solidariedade intergeracional e da sustentabilidade, deverá
compartilhar com o Estado (não obstante em menor intensidade) a carga de responsabilidades e
deveres de tutela ecológica tanto para as gerações presentes quanto as futuras. As decisões
adotadas hoje pelos Estado e pela sociedade devem necessariamente contemplar o “estado do
ambiente” no marco temporal futuro, assegurando a proteção dos interesses (e direitos?) das
futuras gerações. Isso envolve, conforme pontua Peter Saladin, os problemas de proteção
ambiental a longo prazo (langfristigen Umweltschutzes). Segundo o autor, temos a
responsabilidade, consagrada no direito constitucional dos Estados de Direito modernos (moderner
Rechtsstaaten) e no direito internacional, de abster-nos de sobrecarregar e alterar para pior o
estado dos recursos naturais, bem como a obrigação correlata de fornecer aos nossos
descendentes recursos naturais suficientes em quantidade e qualidade, destituídos de poluição e
em segurança. Por fim, destaca o autor que tal compromisso de posteridade não tem limite de
tempo ou temporal, tendo em vista que hoje, em razão do poder tecnológico desenvolvido, “temos
a possibilidade de sobrecarregar e prejudicar a posteridade durante muito tempo, ou mesmo de
forma irreversível”.210
O comando constitucional expresso no art. 225, caput, da CF/1988, tem especial
relevância nesse sentido, pois consagra expressamente o regime de responsabilidades e encargos
ecológicos compartilhados entre Estado e sociedade, quando subscreve, por exemplo, que se
impõe “ao Poder Público e à coletividade o dever ” de defender e proteger o ambiente para as
presentes e futuras gerações, destacando que os deveres de proteção e promoção do ambiente,
para além do Estado, são atribuídos agora também aos particulares. A responsabilidade em relação
ao futuro e até mesmo a um direito a existir ou um direito à vida (com dignidade) no futuro211, de
titularidade pelas futuras gerações, colocam-se como desafios contemporâneos. Os interesses das
futuras gerações – assim como das crianças e adolescentes de hoje – devem necessariamente ser
objeto de adequada representação político-jurídica na conformação de um novo pacto jurídico
ecológico capaz de assegurar condições naturais compatíveis com um padrão de vida digno. O
mesmo se pode dizer em relação aos interesses (e direitos?) dos animais não humanos e da
Natureza como um todo (e dos elementos naturais, como rios, florestas, paisagens etc.), que
também devem ser reconhecidos e protegidos nesse novo pacto político-jurídico de natureza
ecológica.212
Para utilizar a expressão de Jonh Rawls na sua obra clássica Uma Teoria da Justiça213, no
momento da formatação do pacto social e do consenso político comunitário que envolve o mesmo,
os celebrantes de tal contrato político-jurídico – como integrantes de uma assembleia constitucional
para elaborar uma nova Constituição – deveriam vestir o “véu da ignorância ecológico”, ou seja,
desconhecer a sua posição não apenas no âmbito social ou da “comunidade humana”, mas
tampouco a sua posição ou lugar existencial no contexto mais amplo da Natureza ou da
comunidade biológica ou natural. Em outras palavras, o celebrante de tal pacto, assim como não
saberia o sexo, a raça, a religião, a orientação sexual, entre outras questões denominada por
Rawls na posição original, também desconheceria a sua posição no contexto mais amplo da
Natureza. Se seria um ser humano ou um animal não humano, como um elefante, uma arara-azul
em perigo de extinção, uma floresta desmatada, um rio degradado e poluído etc. O véu da
ignorância, como uma situação metafórica, define a “posição original”, colocando-se como uma
barreira contra o uso de interesses parciais na determinação dos princípios da justiça. É, em outras
palavras, o que Paul Taylor denomina de princípio da imparcialidade entre espécies (Principle of
Species-Impartiality), inclusive como forma de rejeitar a superioridade humana em relação aos
outros seres vivos.214 Uma teoria da justiça ecológica ou da Natureza e, portanto, não restrita
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apenas ao espectro dos interesses e direitos humanos, deveria necessariamente estabelecer um
novo contrato político-jurídico ecológico, cujos princípios da justiça contemplariam, a título de
exemplo, também a justiça intergeracional e a justiça interespécies.
Por derradeiro, retoma-se a afirmação de Rachel Carson, referida no início desta Introdução, no
sentido de que a proteção ecológica deveria integrar o Bill of Rights (o catálogo de direitos
fundamentais) da comunidade estatal, o que, no caso brasileiro, foi devidamente considerado pelo
Constituinte de 1988, mediante a consagração não apenas do direito ao meio ambiente sadio
(ecologicamente equilibrado),mas também de todo um arcabouço de normas impositivas de
deveres destinados a assegurar, inclusive no plano organizatório e procedimental, a proteção do
meio ambiente, sempre em sinergia com a proteção e promoção da dignidade (e dos correlatos
direitos e deveres) da pessoa humana e da dignidade do animal não humano e da Natureza, tudo
no contexto do que se poderia designar de um constitucionalismo ecológico à luz de um novo
paradigma jurídico ecocêntrico (em construção).
 
210
.SALADIN, Peter. Probleme des langfristigen Umweltschutzes. In: Kritische Vierteljahresschrift für Gesetzgebung und
Rechtswissenschaft (KritV), Neue Folge, vol. 4 [72], n. 1 (1989), p. 28.
211
.V. HIPPEL, Eike von. Kampfplätze der Gerechtigkeit: Studien zu aktuellen rechtspolitischen Problemen. Berlim:
Berliner Wissenschafts Verlag, 2009, p. 244.
212
.A respeito da discussão envolvendo um novo “contrato social” de natureza ecológica e os interesses (e direitos?) dos
atores ou agentes não humanos (nichtmenschliche Akteure), v. KERSTEN, Jens. Das Antropozän-Konzept: Kontrakt-
Komposition-Konflikt. Baden-Baden: Nomos, 2014, pp. 88-92.
213
.RAWLS, John. A Theory of Justice (Revised Edition). Cambridge: Harvard University Press, 1999, pp. 118-123.
214
.TAYLOR, Paul W. Respect for Nature: a Theory of Environmental Ethics. Princeton: Princeton University Press, 2011,
p. 45.
13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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CAPÍTULO 1. A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A DIGNIDADE
DO ANIMAL NÃO HUMANO E DA NATUREZA
CAPÍTULO 1. A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A DIGNIDADE
DO ANIMAL NÃO HUMANO E DA NATUREZA
0
Capítulo 1. A dimensão ecológica da dignidade da pessoa
humana e a dignidade do animal não humano e da natureza
“Na minha opinião, a mudança necessária aqui poderia começar melhor com o reconhecimento
explícito da dignidade do ambiente natural (die eigene Würde der natürlichen Mitwelt),
especialmente dos animais superiores, da terra, dos oceanos, assim como da vida e da Natureza
no seu conjunto, também na Constituição e nas leis individuais” (Klaus Michael Meyer-Abich).1
1. A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA
“O homem tem o direito fundamental à liberdade, à igualdade e a condições adequadas de vida,
num meio ambiente de qualidade que lhe permita uma vida digna e de bem-estar (...).” (Princípio 1
da Declaração de Estocolmo sobre Meio Ambiente Humano de 1972)2
A matriz filosófica moderna da concepção de dignidade humana é reconduzida essencialmente
e na maior parte das vezes ao pensamento do filósofo alemão Immanuel Kant. Até hoje a fórmula
elaborada por Kant influencia a grande maioria das conceituações jurídico-constitucionais da
dignidade da pessoa humana.3 A formulação kantiana coloca a ideia de que o ser humano não
pode ser empregado como simples meio (bloße als Mittel), ou seja, objeto para a satisfação de
qualquer vontade alheia, mas sempre deve ser tomado como fim em si mesmo (als Zweck), ou
seja, sujeito em qualquer relação,4 seja em face do Estado seja em face de particulares. Isso se
deve, em grande medida, ao reconhecimento de um valor intrínseco a cada existência humana
individualmente considerada, já que a fórmula de se tomar sempre o ser humano como um fim em
si mesmo está diretamente vinculada às ideias de autonomia, de liberdade, de racionalidade e de
autodeterminação inerentes à condição humana. A proteção – ética e jurídica – do ser humano
contra qualquer reificação da sua existência e o respeito à sua condição de sujeito nas relações
sociais e intersubjetivas são seguramente manifestações da concepção kantiana de dignidade da
pessoa humana, embora, por certo, encontradas já em pensadores anteriores.
A CF/1988, voltando-nos ao direito constitucional positivo, consagra expressamente no seu
art. 1.º, III, a dignidade da pessoa humana como princípio fundamental edificante do Estado
Democrático de Direito, e, portanto, como ponto de partida e fonte de legitimação de toda a ordem
estatal, com destaque aqui para o sistema jurídico pátrio. A dignidade da pessoa humana, como,
aliás, já tem sido largamente difundido, assume a condição de matriz axiológica do ordenamento
jurídico, visto que é a partir deste valor e princípio que os demais princípios (assim como as regras)
se projetam e recebem impulsos que dialogam com os seus respectivos conteúdos normativo-
axiológicos, o que não implica aceitação da tese de que a dignidade é o único valor a cumprir tal
função e nem a adesão ao pensamento de que todos os direitos fundamentais (especialmente se
assim considerados os que foram como tais consagrados pela Constituição) encontram seu
fundamento direto e exclusivo na dignidade da pessoa humana.5 Assim, a dignidade humana, para
além de ser também um valor constitucional, configura-se como sendo – juntamente com o respeito
e a proteção da vida – o princípio de maior hierarquia da CF/1988 e de todas as demais ordens
jurídicas que a reconheceram.6 A dignidade da pessoa humana apresenta-se, além disso, como a
pedra basilar da edificação constitucional do Estado (Democrático, Social e Ecológico) de Direito
brasileiro, na medida em que, aderindo a uma trajetória consolidada especialmente a partir do II
Pós-Guerra e inspirada fortemente na visão humanista de Kant e tantos outros, o constituinte
reconheceu que é o Estado que existe em função da pessoa humana, e não o contrário, já que o
ser humano constitui a finalidade precípua, e não meio da atividade estatal,7 o que, diga-se de
passagem, demarca a equiparação de forças na relação Estado-cidadão, em vista da proteção e
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afirmação existencial do último, especialmente no que tange à tutela e promoção dos seus direitos
fundamentais.
No âmbito de um Estado de Direito que, para além de Democrático e Social, também tem
incorporada à sua formatação normativa a qualificação de Ecológico,8 tal qual consagrado na 
CF/1988 (art. 225), a dignidade da pessoa humana é tomada como o principal, mas não o exclusivo
fundamento (e tarefa) da comunidade estatal,9 projetando a sua luz normativa sobre todo o
ordenamento jurídico e, assim, vinculando de forma direta todos os entes públicos e privados. Para
além de uma força normativa autônoma como princípio (e também valor) jurídico, a dignidade da
pessoa humana se projeta especialmente em conjunto com toda uma gama de direitos tanto de
natureza defensiva (negativa) como prestacional (positiva), implicando também toda uma gama de
deveres fundamentais, que, embora não sejam necessariamente todos deduzidos diretamente da
dignidade da pessoa humana, geralmente também atuam como concretizações em maior ou menor
medida da dignidade e que também por essa razão podem ser igualmente (como o princípio da
dignidade individualmente considerado) opostos tanto em face do Estado quanto frente a
particulares.10 Neste último ponto, merece destaque o reconhecimento da eficáciaentre
particulares dos direitos fundamentais (e principalmente da dignidade humana), assim como da
dimensão normativa (vinculante) do princípio (e dever) constitucional da solidariedade e dos
deveres jurídico (para além da dimensão ética e moral) que lhe são inerentes. O princípio da
dignidade humana, no mais das vezes em articulação com outros valores e bens jurídico-
constitucionais, projeta-se todo um leque de posições jurídicas subjetivas e objetivas, com a função
precípua de tutelar a condição existencial humana contra quaisquer violações do seu âmbito de
proteção, assegurando o livre e pleno desenvolvimento da personalidade de cada ser humano.
Ainda nesse contexto, é possível destacar uma dimensão social (ou comunitária) inerente ao
princípio da dignidade da pessoa humana, já que, apesar de ser sempre em primeira linha
encarregar-se da dignidade da pessoa concreta, individualmente considerada, a sua compreensão
constitucionalmente adequada – ainda mais sob a formatação de um Estado Social – implica
necessariamente também um permanente olhar para o outro, visto que indivíduo e a comunidade
são elementos integrantes de uma mesma realidade político-social. Em outras palavras, a
dignidade do indivíduo nunca é a do indivíduo isolado ou socialmente irresponsável, exigindo
também igual dignidade de todos os integrantes do grupo social.11 Como acentua Antunes Rocha,
à luz de uma perspectiva fundada no princípio constitucional da solidariedade, “a dignidade
humana – mais que aquela garantida à pessoa – é a que se exerce com o outro”,12 com o que
apenas se enfatiza a perspectiva relacional da pessoa humana em face do corpo social que
integra, bem como o compromisso jurídico (e não apenas moral) do Estado e dos particulares na
composição de um quadro social de dignidade para (e com) todos.
Com efeito, já alinhando a reflexão com o propósito deste Capítulo, não nos parece possível
excluir de uma compreensão necessariamente multidimensional e não reducionista da dignidade da
pessoa humana, aquilo que se poderá designar de uma dimensão ecológica (ou, quem sabe,
formulado de um modo integrativo, socioambiental) da dignidade humana, que, por sua vez,
também não poderá ser restringida a uma dimensão puramente biológica ou física, pois contempla
a qualidade de vida como um todo, inclusive do ambiente em que a vida humana (mas também a
não humana) se desenvolve. É importante, aliás, conferir um destaque especial para as interações
entre a dimensão natural ou biológica da dignidade humana e a sua dimensão ecológica, sendo
que esta última objetiva ampliar o conteúdo da dignidade da pessoa humana no sentido de
assegurar um padrão de qualidade, integridade e segurança ambiental mais amplo (e não apenas
no sentido da garantia da existência ou sobrevivência biológica), mesmo que muitas vezes esteja
em causa em questões ecológicas a própria existência natural da espécie humana, para além
mesmo da garantia de um nível de vida com qualidade ambiental.
Há, portanto, uma lógica evolutiva e cumulativa nas dimensões (liberal, social e ecológica) da
dignidade da pessoa humana que também podem ser compreendidas a partir da perspectiva
histórica da evolução e consagração político-jurídica dos direitos humanos e fundamentais, já que
tais, em larga medida, simbolizam a própria materialização da proteção e promoção da dignidade
humana em cada etapa histórica, inclusive como afirmação progressiva e indivisível dos princípios
da liberdade, da igualdade e da fraternidade (ou solidariedade). Assim como outrora os direitos
liberais e os direitos sociais formataram progressivamente o conteúdo da dignidade humana, hoje
também os “direitos ecológicos ou de solidariedade”, como é o caso especialmente do direito a
viver em um ambiente sadio, equilibrado e seguro, passam a conformar o seu conteúdo, ampliando
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13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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o seu âmbito de proteção. Daí falar-se, conforme já anunciado anteriormente, em uma nova
dimensão ecológica para a dignidade humana, em vista especialmente dos novos desafios
existenciais de matriz ambiental que afligem o ser humano no âmbito deste mundo de novos
“riscos” que se ampliam no horizonte contemporâneo e desafiam a proteção do ser humano,
conforme resultou evidenciado de forma paradigmática no Princípio 1 da Declaração de Estocolmo
(1972) em destaque na epigrafe de abertura deste tópico.13
Outro importante desenvolvimento recente da dimensão ecológica da dignidade da pessoa
humana, notadamente pelo prisma do Direito Internacional dos Direitos Humanos, diz respeito à
Opinião Consultiva n. 23/2017 sobre “Meio Ambiente e Direitos Humanos” da Corte Interamericana
de Direitos Humanos, como já referida anteriormente, representando o ápice até aqui do
denominado “greening”14 do Sistema Interamericano de Direitos Humanos15. A Corte, no referido
documento, reconheceu expressamente “la existencia de una relación innegable entre la protección
del medio ambiente y la realización de otros derechos humanos, en tanto la degradación ambiental
y los efectos adversos del cambio climático afectan el goce efectivo de los derechos humanos”16,
“que varios derechos de rango fundamental requieren, como una precondición necesaria para su
ejercicio, una calidad medioambiental míima, y se ven afectados en forma profunda por la
degradación de los recursos naturales”17, de modo que se tem como consequência disso “la
interdependencia e indivisibilidad entre los derechos humanos y la protección del medio
ambiente”.18 A decisão proferida pela Corte IDH, no âmbito da sua jurisdição consultiva, reforça o
reconhecimento da dimensão ecológica da dignidade da pessoa humana, inclusive pela
perspectiva da interdependência e indivisibilidade dos direitos humanos (e também dos direitos
fundamentais, no âmbito constitucional).
A decisão da Corte IDH conecta de forma definitiva a relação entre direitos humanos e proteção
ecológica, reconhecendo, em última instância, o direito humano a viver em um ambiente sadio, tal
como consagrado há mais de três décadas no art. 11 (11.1 e 11.2) do Protocolo de San Salvador
em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1988). No mesmo sentido, também em
sede internacional, a Assembleia Geral da ONU, em 14 de maio de 2018, adotou a Resolução
A/RES/72/277 com o propósito de estabelecer um grupo de trabalho ad hoc (ad hoc open-ended
working group) para desenvolver o esboço de um “Pacto Global para o Meio Ambiente” (Global
Pact for the Environment).19 Ao adotar tal medida, com o reconhecimento do direito ao ambiente
como uma nova dimensão ou geração de direitos humanos (direitos de solidariedade ou
fraternidade), a ONU opera no sentido de complementar a Carta Internacional dos Direitos
Humanos no Sistema Global, integrada, essencialmente, pela Carta da ONU (1945), pela
Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) e pelos Pactos Internacionais de Nova Iorque
de 1966, respectivamente, o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto
Internacional dos Direitos Econômicos Sociais e Culturais. Em outras palavras, o novo documento
internacional em gestação poderia (ou até mesmo deveria) ser denominado como Pacto
Internacional dos Diretos Ambientais ou Ecológicos.
As reflexões elaboradas aqui tomam o conceito jurídico de dignidade da pessoa humana
formulado pelo primeiro autor20 como moldura conceitual-normativa aberta a uma reformulação
parcial, especialmente para o efeito de enfatizar a inclusãode uma dimensão ecológica e, de tal
modo, tornar o conceito mais responsivo aos novos desafios existenciais impostos pela degradação
ambiental, mas também em vista da evolução cultural e dos novos valores ecológicos legitimados
no âmbito comunitário, como verificado no exemplo do Direito Internacional dos Direitos Humanos.
A reflexão aqui lançada também se propõe a apontar para a necessidade de reconhecimento de
uma dignidade da vida em geral (dos animais não humanos e da Natureza como um todo),
portanto, não apenas da vida humana, bem como ampliando o seu espectro de incidência
temporal, do reconhecimento de uma dignidade atribuível à vida das gerações futuras, humanas e
não humanas, a fim de demarcar, em termos jurídico-constitucionais, a existência de deveres de
proteção da dignidade por parte da atual geração. Para cumprir esse desiderato, após traçar a
moldura conceitual para a dignidade da pessoa humana à luz de uma matriz kantiano-
antropocêntrica e a caracterização de sua dimensão ecológica, como, aliás, reconhecida
expressamente em decisões recentes do Superior Tribunal de Justiça (STJ)21, os seus limites
normativos serão ampliados em vista de uma comunicação da compreensão kantiana com os
novos valores culturais e éticos que sedimentam as relações sociais no marco da sociedade de
risco22 (e em risco de extinção) no início do Século XXI, bem como diante de sua necessária
contextualização no âmbito de um modelo de Estado (Democrático, Social e) Ecológico de Direito.
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13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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Em razão de ser a dignidade humana a pedra fundamental de toda a edificação jurídico-
constitucional contemporânea, qualquer modificação em termos conceituais e de conteúdo no seu
regime jurídico acaba por repercutir e projetar-se para todo o sistema jurídico, principalmente no
que tange aos direitos fundamentais e à conformação do modelo de Estado de Direito. De outra
parte, não é demais lembrar que o nosso propósito aqui é apenas de lançar algumas questões para
o debate e de algum modo contribuir para o seu desenvolvimento, mesmo porque não é a certeza
que nos move, mas a inquietude. A única certeza é a de que é preciso refletir e avançar,
notadamente em vista dos desafios existenciais postos no horizonte civilizatório no novo período
geológico do Antropoceno. A partir de agora, caracterizada a dimensão ecológica da dignidade da
pessoa humana, iremos avançar na reflexão para além do antropocentrismo kantiano e do espectro
humano no que tange ao reconhecimento de um valor intrínseco, buscando caracterizar a
dignidade do animal não humano e da Natureza como um todo.
 
1
.MEYER-ABICH, Klaus Michael. Aufstand für die Natur: von der Umwelt zur Mitwelt. Munique: Carl Hanser, 1990, p.
137.
2
.“Man has the fundamental right to freedom, equality and adequate conditions of life, in an environment of a quality that
permits a life of dignity and well-being (…)”.
3
.V. o art. I da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948): “Todas as pessoas nascem livres e iguais em
dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de
fraternidade”. Destacando os exemplos da DUDH (Preâmbulo e art. 1) e da Lei Fundamental de Bonn de 1949 (art. 1,
1) para pontuar a importância política e jurídica do conceito kantiano de dignidade da pessoa humana, v. PFORDTEN,
Dietmar von der. Zur Würde des Menschen bei Kant. Jahrbuch für Recht und Ethik (Recht und Sittlichkeit bei Kant), v.
14, 2006, pp. 501-517 (e, especialmente, p. 502).
4
.KANT, Immanuel. Crítica da razão pura e outros textos filosóficos (Coleção Os Pensadores). São Paulo: Abril Cultural,
1974, p. 229.
5
.Sobre este tópico v. SARLET, Dignidade da pessoa humana..., pp. 95 e ss.
6
.Idem, pp. 73 e ss.
7
.Idem, pp. 68-69.
8
.Dentre outros fundamentos aptos a justificar a defesa de um Estado de Direito Ecológico, verifica-se que há todo um
percurso social, econômico, político, cultural e jurídico não concluído pelo Estado Social, ao que se agrega hoje a
proteção ambiental. Na doutrina, v. SARLET, Ingo W. (Org.). Estado Socioambiental e direitos fundamentais. Porto
Alegre: Livraria do Advogado, 2010, e, particularmente defendendo um Estado Ecológico de Direito, LEITE, José
Rubens Morato; MELO, Melissa; MICHALSKI, Ely Heidi Ribeiro (Orgs.). Innovations in the Ecological Rule of Law. São
Paulo: Inst. O Direito por um Planeta Verde, 2018. Disponível em:
[www.planetaverde.org/arquivos/biblioteca/arquivo_20180807153924_7633.pdf].
9
.HÄBERLE, Peter. A dignidade humana como fundamento da comunidade estatal. In: SARLET, Ingo Wolfgang (Org.).
Dimensões da dignidade: ensaios de Filosofia do Direito e Direito Constitucional. Porto Alegre: Livraria do Advogado,
2005, p. 116.
10
.Quanto ao desenvolvimento teórico da dignidade como limite e tarefa do Estado, da comunidade e dos particulares, v.
SARLET, Dignidade da pessoa humana..., especialmente, pp. 89-93.
13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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11
.A noção de uma dignidade socialmente contextualizada, no sentido da dignidade atribuída ao ser humano não como
um indivíduo egoísta e possessivo, mas socialmente vinculado e responsável, marcou, desde o seu primórdio, a
jurisprudência constitucional alemã. Nesse sentido, v., em caráter ilustrativo, decisão prolatada pelo Tribunal
Constitucional Federal da Alemanha, em 08.11.2006 (BVerfGE 117, p. 89), de acordo com a qual “o indivíduo consiste
em personalidade que se desenvolve no âmbito da comunidade social(...). A tensão existente entre o indivíduo e a
comunidade foi resolvida no âmbito da ordem constitucional no sentido da afirmação de uma vinculação social e
comunitária do indivíduo, de modo que o indivíduo deve tolerar restrições na esfera dos seus direitos fundamentais,
com vistas a assegurar bens de matriz comunitária” (“Der Einzelne ist eine sich innerhalb der sozialen Gemeinschaft
entfaltende Persönlichkeit (...). Die Spannung zwischen dem Individuum und der Gemeinschaft hat das Grundgesetz
allerdings insofern im Sinne der Gemeinschaftsbezogenheit und Gemeinschaftsgebundenheit der Person entschieden,
als der Einzelne Einschränkungen seiner Grundrechte hinnehmen muss.”).
12
.ANTUNES ROCHA, Cármen Lúcia. Vida digna: direitos, ética e ciência. In: ROCHA, Cármen Lúcia Antunes (Coord.).
O direito à vida digna. Belo Horizonte: Editora Fórum, 2004, p. 78.
13
.Amparando a tese aqui defendida em torno de uma dimensão ecológica da dignidade da pessoa humana, registram-
se, a título de exemplo, alguns dispositivos de diplomas legislativos ambientais que consagram de forma expressa a
vinculação da tutela da dignidade humana à proteção ambiental: art. 2.º, caput, da Lei 6.938/1981 (Lei da Política
Nacional do Meio Ambiente) e art. 3.º, II, da Lei Complementar 140/2011 (Competência administrativa em matéria
ambiental).
14
.Na doutrina, v. TEIXEIRA, Gustavo de Faria Moreira. Greening no sistema interamericano de direitos humanos.
Curitiba: Juruá, 2011.
15
.No sentido de fortalecer ainda mais a tutela ecológica no Sistema Regional Interamericano, inclusive por meio dos
direitos ambientais procedimentais, registra-se a proposta de emenda ao Protocolo de San Salvador com o objetivo de
tornar oponível a defesa do direito humano ao ambiente perante a Comissão e a Corte Interamericana de Direitos
Humanos. A proposta em questão, que deve ser apresentada futuramente perante a Assembleia Geral da
Organização dos EstadosAmericanos (OEA), seria implementada por meio da inserção de referência expressa ao art.
11 no parágrafo 6º do art. 19, seguindo, assim, o procedimento do art. 22 do Protocolo de San Salvador.
16
.CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, Opinião Consultiva n. 23/2017..., pp. 21- 22.
17
.Idem, p. 22.
18
.Idem, p. 25.
19
.Disponível em: [www.iucn.org/commissions/world-commission-environmental-law/wcel-resources/global-pact-
environment].
20
.Tem-se por dignidade humana “a qualidade intrínseca e distintiva reconhecida em cada ser humano que o faz
merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando, neste sentido, um
complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho
degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável,
além de propiciar e promover sua participação ativa e corresponsável nos destinos da própria existência e da vida em
comunhão com os demais seres humanos, mediante o devido respeito aos demais seres que integram a rede da
vida”. SARLET, Dignidade da pessoa humana..., pp. 70-71.
21
.Segundo passagem do voto-relator do Ministro Og Fernandes no AREsp 667.867/SP, em caso envolvendo a
responsabilidade civil ambiental por dano ecológico decorrente do derramamento de óleo: “em observância à
dimensão intergeracional do princípio (dever) da solidariedade, torna-se necessário consubstanciar as
responsabilidades e deveres das gerações contemporâneas – geração de viventes –, de forma a resguardar as
condições mínimas de existências para as pessoas que habitarão o planeta, devendo-se voltar o olhar para o futuro
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13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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do nosso povo. O reconhecimento da necessidade de preservação para as futuras gerações amplia a dimensão
temporal do conceito de dignidade humana para as existências humanas futuras. Cuida-se da dimensão ecológica da
dignidade da pessoa humana. Atualmente, pelas razões já referidas, pode-se dizer que os valores ecológicos
tomaram assento definitivo no conteúdo do princípio da dignidade humana. Portanto, consolidou-se a formatação de
uma dimensão ecológica da dignidade humana, que abrange a ideia em torno de um bem-estar ambiental – assim
como o bem-estar social – indispensável a uma vida digna, saudável e segura. Ademais, a dignidade humana é um
conceito em permanente processo de reconstrução quanto ao sentido do seu alcance, o que implica sua permanente
abertura aos desafios postos pela vida social, econômica, política, cultural e ambiental, ainda mais em virtude do
impacto da sociedade tecnológica e da informação. Não se pode conceber uma vida digna sem um ambiente natural
saudável e equilibrado. Na espécie, considerar que um derramamento de óleo – independente da quantidade – não
configura poluição ou degradação ambiental, implica distorção da regra disposta no art. 3º, III, da Lei n.
6.938/1981, assim como vilipêndio de todo o ordenamento jurídico ambiental. Derramamento de óleo é poluição. Seja
por inobservância dos padrões ambientais (inteligência do art. 3º, III, ‘e’, da Lei n. 6.938/81, c/c o art. 17 da
Lei n. 9.966/2000) seja por conclusão lógica na estrita observância dos princípios da solidariedade, dimensão
ecológica da dignidade humana, prevenção, educação ambiental e preservação das gerações futuras” (STJ, AREsp
667.867/SP, 2ª Turma, rel. Min. Og Fernandes, j. 17.10.2018). Na jurisprudência citada, a 2ª Turma do STJ acolheu
expressamente a tese por nós desenvolvida desde a primeira edição desta obra (2008) e também na obra resultante
da dissertação de mestrado do coautor Tiago, orientada pelo coautor Ingo (FENSTERSEIFER, Tiago. Direitos
fundamentais e proteção do ambiente: a dimensão ecológica da dignidade humana no marco jurídico-constitucional do
Estado Socioambiental de Direito. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008), com a transcrição de passagem da 5ª
edição da nossa obra no voto-relator do Min. Og Fernandes. Mais recentemente, em outra decisão pioneira e inédita
sobre o tema que comentaremos na sequência, o STJ, para além da dimensão ecológica do princípio da dignidade da
pessoa humana, mais uma vez servindo-se da tese desenvolvida no nosso livro, com a transcrição de inúmeras
passagens dele, também reconheceu e atribuiu dignidade e direitos aos animais não humanos e à Natureza: STJ,
REsp 1.797.175/SP, 2ª Turma, Rel. Min. Og Fernandes, j. 21.03.2019.
22
.BECK, Ulrich. La sociedad del riesgo: hacia una nueva modernidad. Barcelona: Paidós, 2001.
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CAPÍTULO 1. A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A DIGNIDADE
DO ANIMAL NÃO HUMANO E DA NATUREZA
CAPÍTULO 1. A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A DIGNIDADE
DO ANIMAL NÃO HUMANO E DA NATUREZA
0
2. O RECONHECIMENTO DA DIGNIDADE DO ANIMAL NÃO HUMANO E DA NATUREZA
“No âmbito do Direito Internacional dos Direitos Humanos tem-se caminhado para reconhecer a
interdependência entre o direito humano ao meio ambiente saudável e uma multiplicidade de outros
direitos humanos, bem como para afirmá-lo como um direito autônomo titulado pela própria
Natureza (e não apenas pelos seres humanos). Há, nesse sentido, duas importantes decisões da
Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH). Na Opinião Consultiva no 23/2017,
estabeleceu que o direito a um meio ambiente saudável é ‘um interesse universal’ e ‘um direito
fundamental para a existência da humanidade”. (Ministro Luis Roberto Barroso)23
2.1. O reconhecimento do valor intrínseco (e dignidade)dos animais não humanos e da
Natureza no campo filosófico
2.1.1. Ética ecológica
“Deixou de ser absurdo indagar se a condição da Natureza extra-humana, a Biosfera no todo e
em suas partes, hoje subjugadas ao nosso poder, exatamente por isso não se tornaram um bem a
nós confiados, capaz de nos impor algo como uma exigência moral - não somente por nossa
própria causa, mas também em causa própria (ihrer selbst willen) e por seu próprio direito (eigenem
Recht)”24 (Hans Jonas).
A matriz filosófica moderna para a concepção de dignidade – atribuída exclusivamente por tal
paradigma filosófico à pessoa humana – radica essencialmente no pensamento kantiano, de modo
que qualquer tentativa de superação de tal “paradigma” teórico e conceitual requer um diálogo com
as suas formulações e razões. A formulação central do pensamento kantiano, como referido
anteriormente, coloca a premissa de que o ser humano não pode ser empregado como simples
meio (ou seja, objeto) para a satisfação de qualquer vontade alheia (de terceiro), mas sempre deve
ser tomado como fim em si mesmo (ou seja, sujeito) em qualquer relação, seja em face do Estado,
seja em face de outros indivíduos.25 Tal entendimento revela a atribuição de um valor intrínseco ou
inerente a cada vida humana pelo simples fato de existir, o que implica, entre outros aspectos, o
respeito à sua condição de sujeito nas relações sociais e intersubjetivas que são travadas no
quadrante da comunidade político-estatal. A condição de sujeito – e, traduzindo tal status especial
para o plano jurídico, de sujeito de direitos dotado de personalidade jurídica – por si só valora de
modo especial a sua existência, separando-a dos objetos e coisas destituídos de qualquer valor
intrínseco (tanto no plano filosófico-ético quanto jurídico).
Ocorre que cada vez mais a leitura estritamente antropocêntrica de tal paradigma filosófico
moderno é desafiada e colocada à prova diante da atual crise ecológica e dos valores correlatos
emergentes no cenário contemporâneo. O marco antropocêntrico que está na base tanto do
pensamento kantiano26 quanto da tradição filosófica ocidental de um modo geral é confrontada
pelos novos valores ecológicos contemporâneos, reclamando uma nova concepção ética de
respeito à vida para além do limitado espectro do Homo sapiens.27 A vedação (ética e jurídica) da
“objetificação” ou “coisificação” (ou seja, tratamento como simples “meio”) da vida não deve, em
princípio, ser limitada apenas à vida humana, mas ter o seu espectro ampliado para contemplar
também outras formas de vida não humana. A concepção kantiana de dignidade deve ser
repensada no sentido do reconhecimento de um fim em si mesmo inerente também a outras formas
de vida (ou à vida de um modo geral, seja humana, seja não humana), atribuindo-lhes um valor
próprio e não meramente instrumental, ou seja, uma dignidade que igualmente implica um conjunto
de deveres para o ser humano. Além disso, comunga-se da inquietação em torno da possibilidade
de pelo menos questionar a existência de autênticos direitos, ou, no mínimo, de interesses e bens
fundamentais juridicamente tuteláveis, não sendo nosso propósito enunciar aqui juízos conclusivos
a respeito de tal aspecto da problemática.
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Todas as concepções (e a de Kant é provavelmente apenas a mais influente) que sustentam ser
a dignidade atributo exclusivo da pessoa humana encontram-se, pelo menos em princípio, sujeitas
à crítica de um excessivo antropocentrismo, notadamente naquilo em que sustentam que a pessoa
humana, em função de sua racionalidade, ocupa lugar superior e privilegiado em relação aos
demais seres vivos. De acordo com Kant, conforme anunciado na citação precedente da sua obra,
todo o universo “não humano” estaria enquadrado no conceito de coisas, e, portanto, não de
pessoas, tendo apenas um valor relativo, na medida em que se prestariam – em maior ou menor
grau – como “meio” para a satisfação da vontade humana. No entanto, de acordo com o nosso
entendimento, para além de tal “compreensão especista”, sempre haverá como sustentar a
dignidade da própria vida e da Natureza de um modo geral, ainda mais numa época em que o
reconhecimento da proteção do ambiente como valor ético-jurídico fundamental indicia que não
mais está em causa apenas a vida humana, mas a preservação de todos os recursos naturais,
incluindo todas as formas de vida existentes no Planeta Terra, ainda que se possa argumentar que
tal proteção da vida em geral constitua, em última análise, exigência da vida humana e, acima de
tudo, da vida humana com dignidade.28
Em razão das mudanças ocorridas também no tocante à ação humana, notadamente por força
do impacto ocasionado pela civilização tecnológica, Jonas questiona a validade da concepção
antropocêntrica de toda a ética moderna. Nesse sentido, para o filósofo alemão, é com razão que
se discute, por uma perspectiva moral, a possibilidade de reconhecer direitos próprios da Natureza,
atribuindo-se o status de um “fim em si mesmo” para além da esfera humana.29 A reflexão proposta
constitui um prenúncio dos novos caminhos que deverão ser percorridos no horizonte evolutivo do
pensamento humano, já que, como pontua, “só uma ética fundada na amplitude do ser, e não
apenas na singularidade ou na peculiaridade do ser humano, é que pode ser de importância no
universo das coisas”.30 Em virtude de tais considerações, Jonas destaca a ampliação do próprio
dever humano, que, para além da sua própria dimensão, também deve abarcar uma dimensão
extra-humana, a fim de abranger o respeito pelas e o interesse das “coisas extra-humanas”.31
Em que pese uma fundamentação doutrinária ainda em evolução (pelo menos no campo
jurídico) em defesa de uma perspectiva “biocêntrica” – abarcando apenas a comunidade biótica, ou
seja, todos os seres vivos (Lebendige) do Planeta Terra32 – e mesmo “ecocêntrica” – portanto, mais
ampla, contemplando tanto os elementos bióticos quanto abióticos – para a concepção da
dignidade humana (e também do Direito de um modo geral), a relevância do tema, diante da
exposição existencial a que está submetido o ser humano contemporâneo e da emergência de
novos valores culturais (veiculados, por exemplo, pelo movimento ecológico e pelo movimento dos
direitos dos animais), parece justificar a presente releitura da questão. O dilema existencial com
que se defronta a humanidade no Antropoceno revela cada vez mais a fragilidade (para não dizer
falácia) da separação cartesiana entre ser humano e Natureza. Em tempos de poluição plástica dos
oceanos, poluição química, aquecimento global e outras questões que desnudam o vínculo
existencial elementar existente entre o ser humano e as bases naturais da vida, revela-se como
insustentável pensar o humano sem relacioná-lo diretamente com o seu espaço ambiental e toda a
cadeia de vida que fundamenta a sua existência.
Com a fragilização da base natural que lhe dá suporte, também a vida humana é colocada em
situação de vulnerabilidade. Nesse contexto, assim como se fala em dignidade da pessoa humana,
atribuindo-se valor intrínseco à vida humana, também devemos considerar a atribuição de
dignidade às bases naturais da vida, conferindo-se à Natureza e aos elementos naturais (rios,
florestas, paisagens etc.) um valor intrínseco. O filósofo alemão Hans Jonas, em sua obra O
princípio da vida, à luz de uma biologia filosófica, busca reformular a compreensão ética moderna
da relação entre ser humano e Natureza, em vista de afirmar que há algo de transcendente e
espiritual já na própria base da vida (e não apenas na etapa evolutiva onde se encontra o ser
humano), havendo, portanto, um valor intrínseco a ser reconhecido à própria existência orgânica
como tal.33 Mas, para alémda compreensão de Jonas, também nos parece possível considerar
uma perspectiva ética de matriz ecocêntrica, no sentido de reconhecer a dignidade não apenas na
“existência orgânica ou dos seres vivos”, mas também nos elementos abióticos da Natureza, sem o
que a sua integridade resulta comprometida e, consequentemente, o equilíbrio do qual toda a
cadeia da vida planetária é dependente.
 
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23
.Passagem da decisão do Ministro Luis Roberto Barroso proferida em 28.06.2020 no Caso Fundo Clima, ao convocar
a audiência pública realizada nos dias 21 e 22.09.2020 perante o Supremo Tribunal Federal (STF, ADPF 708/DF, Rel.
Min. Luis Roberto Barroso, ainda pendente de julgamento).
24
.JONAS, Hans. Das Prinzip Verantwortung. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2003 (1ª edição em 1979), p. 29. Tradução
para o português: JONAS, Hans. O princípio responsabilidade. Rio de Janeiro: Contraponto/PUCRio, 2006.
25
.KANT, Crítica da razão pura..., p. 229.
26
.A citação que segue marca de forma expressa o excessivo antropocentrismo do pensamento kantiano, sobre o qual
se pretende refletir e verificar neste trabalho a sua pertinência e atualidade à luz dos novos valores ecológicos que
permeiam o pensamento contemporâneo. “Os seres cuja existência depende, não em verdade da nossa vontade, mas
da natureza, têm, contudo, se são seres irracionais, apenas um valor relativo como meios e por isso se chamam
coisas, ao passo que os seres racionais se chamam pessoas, porque a sua natureza os distingue já como fins em si
mesmos, quer dizer, como algo que não pode ser empregado como simples meio e que, por conseguinte, limita nessa
medida todo o arbítrio (e é um objeto do respeito)”. KANT, Crítica da razão pura..., p. 229.
27
.No campo filosófico, analisando o pensamento de diferentes autores sobre a questão da dignidade dos animais (não
humanos), v. BRENNER, Andreas. Umweltethik: ein Lehr- und Lesebuch. Fribourg: Academic Press, 2008, pp. 157 e
ss.
28
.Tais reflexões encontram-se também em SARLET, Dignidade da pessoa humana..., pp. 41 e ss.
29
.JONAS, Hans. El principio de responsabilidad: ensayo de una ética para la civilización tecnológica. Barcelona:
Herder, 1995, p. 35.
30
.JONAS, O princípio da vida..., p. 272.
31
.“¿Y si el nuevo modo de acción humana significase que es preciso considerar más cosas que únicamente el interés
de ‘el hombre’, que nuestro deber se extiende más lejos y que ha dejado de ser válida la limitación antropocéntrica de
toda ética anterior? Al menos ya no es un sinsentido preguntar si el estado de la naturaleza extrahumana – la biosfera
en su conjunto y en sus parte, que se encuentra ahora sometida a nuestro poder – se ha convertido precisamente por
ello en un bien encomendado a nuestra tutela y puede plantearnos algo así como una exigencia moral, no solo en
razón de nosotros, sino también en razón de ella y por su derecho propio”. JONAS, El principio de responsabilidad...,
p. 35.
32
.KREBS, Angellika. Naturethik im Überblick. In: KREBS, Angelika (Org.). Naturethik: Grundtexte der gegenwärtigen
tier- und ökologischen Diskussion. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1997, p. 345. O “biocentrismo” (Biozentrismus) – do
grego bíos, vida – caracteriza-se por defender que “todos os seres vivos merecem consideração por si mesmos”
(“Alles Lebendige verdient Rücksicht um seiner selbst willen”). No caso do “ecocentrismo” – também denominado por
alguns de “ética holística” (holistische Ethik) ou “fisiocentrismo” (radikaler Physiozenrismus), do grego physis, ou seja,
Natureza –, “toda a Natureza (versão holística) ou tudo na Natureza (versão individualista) merece consideração por si
mesmo” (“die ganze Natur – holistische Version –- bzw. alles in der Natur – individualistische Version – verdient
Rücksicht um ihrer – seiner – selbst willen”). Há ainda a expressão “patocentrismo” (Pathozentrismus) – do grego
páthein, padecer – para designar a concepção ética de que “todos os seres sencientes merecem consideração por si
mesmos” (“alle empfindungsfähigen Wesen verdienen Rücksicht um ihrer selbst willen”). KREBS, Naturethik im
Überblick…, p. 345. No mesmo sentido v, BOSSELMANN, Im Namen der Natur…, pp. 265-277.
33
.JONAS, Hans. O princípio da vida. Petrópolis: Editora Vozes, 2004, p. 15.
13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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CAPÍTULO 1. A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A DIGNIDADE
DO ANIMAL NÃO HUMANO E DA NATUREZA
CAPÍTULO 1. A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A DIGNIDADE
DO ANIMAL NÃO HUMANO E DA NATUREZA
0
2.1.2. Ética animal
A discussão sobre a atribuição e o reconhecimento de um valor intrínseco à vida animal (não
humana), bem como a atribuição de direitos aos animais tem sido objeto de acirrada discussão no
âmbito filosófico, mais especificadamente no campo da ética (bioética). A assim designada ética
animal34 questiona, entre outros pontos polêmicos, a condição moral dos animais, a questão dos
direitos e interesses dos animais, bem como os deveres dos seres humanos para com os animais
não humanos. Por esse prisma, diversos autores – de filósofos a juristas – têm discutido a natureza
do comportamento humano e da ação humana para com os animais, o que, por si só, iniciou um
movimento praticamente mundial de defesa do bem-estar dos animais e também em prol do
reconhecimento de direitos dos animais, inclusive com a consagração normativa de tais
reivindicações em diversos ordenamentos jurídicos.35 Um dos exemplos mais significativos (se não
o mais) desse movimento está na obra A libertação animal (1975) de Peter Singer.36 No entanto, as
mesmas reflexões também se fizeram presentes no pensamento de outros importantes autores,
como é o caso de Tom Regan, Ursula Wolf, Raymond G. Frey, Gunther Patzig, Gary L. Francione,
entre outros.37
Antes de adentrar no desenvolvimento da ética animal, é importante destacar alguns aspectos
da filosofia moderna, notadamente de matriz cartesiana, que se colocam como a antítese da ética
animal. Um paradigma filosófico que modelou, em grande medida, o pensamento moderno de
matriz iluminista, e que influencia até hoje o nosso método de abordagem científica (e o Direito não
fica alheio a tal condicionamento), é a ideia de “animal-máquina” formulada por Descartes
(Discurso do Método, Quinta Parte).38 O filósofo francês defende o entendimento de que os
animais podem ser equiparados a máquinas móveis ou autômatos, já que, diferentemente do
homem que é composto de corpo e alma (e, portanto, nunca poderia ser identificado com uma
simples máquina), apenas possuem corpo.39 Ao afirmar que os animais não possuem nenhuma
razão40 e, portanto, tampouco valor intrínseco, Descartes abriu caminho para a separação entre ser
humano e Natureza que até hoje marca a abordagem científica em quase todas as áreas do
conhecimento, bem como para o processo de instrumentalização da vida animal (e da Natureza em
geral).
Como contraponto a tal panorama filosófico moderno de matriz cartesiana, Singer defende o
princípio ético sobre o qual assenta a igualdade humana nos obriga a ter igual consideração para
com os animais não humanos, considerando que “a defesa da igualdade não depende da
inteligência, da capacidade moral, da força física ou características semelhantes. A igualdade é
uma ideia moral, e não a afirmação de um fato”.41 Nesse ponto, Singer denuncia a “tirania dos
animais humanos” sobre os animais não humanos, defendendo que estes deveriam ser tratados
como seres “sencientes”42 e independentes que são, e não comoum meio para os fins humanos. O
movimento de libertação animal capitaneado por sua obra propõe-se a acabar com os preconceitos
e discriminações baseados em características arbitrárias como a espécie animal (assim como
ocorrido, especialmente no passado, em relação à raça e ao gênero humano). A discriminação
arbitrária referida caracterizaria o que Singer denomina de especismo, que configuraria “um
preconceito ou atitude de favorecimento dos interesses dos membros de uma espécie em
detrimento dos interesses dos membros de outras espécies”,43 já que, assim como se verificou – e
ainda se verifica – no racismo e no sexismo, o que está em jogo agora não são os interesses dos
membros da mesma raça ou do mesmo sexo, mas os interesses dos membros da mesma espécie
animal (ou natural). De modo similar a Singer, mas num contexto ainda mais amplo, contemplando
todas as formas de vida, Paul Taylor trata do princípio da imparcialidade entre espécies (Principle of
Species-Impartiality), inclusive como forma de rejeitar a superioridade humana em relação aos
outros seres vivos.44
Numa abordagem marcada por um viés filosófico utilitarista, com base nas formulações de
Bentham, Singer afirma que está na “capacidade de sofrimento a característica vital que concede a
um ser o direito a uma consideração igual”, e não na faculdade da razão ou na faculdade da
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linguagem ou discurso.45 Se um ser (humano ou não humano) sofre, não haveria justificativa moral
para recusar ter em conta esse sofrimento, e da mesma forma não haveria qualquer justificativa
moral para considerar a dor (ou prazer) que os animais sentem como menos importante do que a
mesma dor (ou prazer) sentida pelo ser humano.46 Como refere Singer, “a dor e o sofrimento são
maus em si mesmos, devendo ser evitados ou minimizados, independentemente da raça, do sexo
ou da espécie do ser que sofre”, cabendo ao ser humano, diante de tal constatação, “transportar os
animais não humanos para a esfera da preocupação moral e deixar de tratar as suas vidas como
banais, utilizando-as para quaisquer fins que tenhamos em mente”. 47
Direcionando fortes críticas ao tratamento dispensado aos animais pela filosofia kantiana, que
os destituía de qualquer valor intrínseco e colocava os deveres dos seres humanos para com os
animais apenas como um dever indireto para com a própria humanidade (justamente a perspectiva
antropocêntrica ora questionada), Nussbaum alerta para o fato de que o reconhecimento da
dignidade de determinadas existências não humanas implica uma questão básica de justiça, já que,
na esteira do que foi afirmado por Aristóteles, há algo de admirável ou respeitável (wonderful;
wonder-inspiring) em todas as formas complexas de vida animal.48 A autora, de outra parte, rejeita
a ideia de compaixão e humanidade no tratamento dos animais não humanos, defendendo uma
ideia de justiça que transcenda tal perspectiva para reconhecer o valor intrínseco e a dignidade de
animais não humanos. O dever moral de um tratamento não cruel dos animais não humanos deve
buscar o seu fundamento não mais na dignidade humana ou na compaixão humana, mas sim na
própria dignidade inerente às existências dos animais não humanos. Tal reflexão, na nossa
compreensão, pode ser ampliada para a vida em termos gerais, não se limitando à esfera animal.
O marco referencial para a atribuição de dignidade ou de valor intrínseco a determinada forma
de vida, diante de tal fundamentação filosófica, está na sua capacidade de sentir dor (seres
sensitivos), o que se dá em razão do desenvolvimento (em maior ou menor grau) do seu sistema
nervoso central, característico dos animais vertebrados. Nesse sentido, Feijó defende a
sensibilidade fisiológica como critério de moralidade, a partir da identificação de receptores
especializados (os nociceptores) que tornam um ser sensível, o que, segundo tal entendimento,
justificaria o ingresso dos animais sensitivos não humanos na mesma comunidade moral integrada
pelos seres humanos, bem como o reconhecimento de um valor intrínseco em tais manifestações
existenciais.49
Regan, por sua vez, a partir de uma fundamentação filosófica de matriz deontológica, com sua
clássica obra The Case for Animal Rights,50 datada de 1983, defende a ideia de que os animais
humanos e não humanos são sujeitos de uma vida, o que os torna iguais do ponto de vista moral,
e, portanto, depositários do mesmo respeito e consideração, não podendo ser tomadas as suas
vidas como um simples meio, mas sim como um fim em si mesmo.51 Destaca o autor que
“verdades biológicas”, como a inclusão de um ser na mesma espécie animal, raça ou sexo, não
têm importância para a discussão moral de atribuir ou não a determinado ser direitos e respeito por
sua existência,52 sendo os animais sujeitos de uma vida igual em aspectos relevantes,
relacionados aos direitos conferidos aos seres humanos, como é o caso dos direitos à vida, à
integridade física e à liberdade.53 Quando trabalha com o conceito de sujeitos de uma vida, Regan
estabelece a premissa de que os animais enquadrados em tal situação não podem ter as suas
vidas tomadas como mero objeto, mas sim devem ter reconhecida a sua condição de sujeitos, ou
seja, de protagonistas do destino das suas existências.
As reflexões formuladas por Singer e Regan, entre outros pensadores identificados com o que
se tem designado de uma “ética animal”, ainda que não seja o caso de assumir como corretas
todas as suas formulações, nos fazem pelo menos repensar a justificativa moral para a ação
humana, o que passa pela reformulação, em maior ou menor escala, dos nossos hábitos
alimentares, dos métodos agrícolas e pecuários utilizados, assim como pela revisão das práticas
experimentais no campo da ciência.54 Da mesma forma, uma ética e uma responsabilidade jurídica
para com a vida não humana revela-se especialmente impactante no que diz respeito a nossa
atitude em relação à vida selvagem e à caça, o uso de peles, a utilização de animais como diversão
em circos, rodeios e jardins zoológicos, entre outras formas de se considerar a vida animal não
humana como simples meio ou mero objeto à disposição da vontade do ser humano, e não como
um fim em si mesma. A consagração de um status moral dos animais sensitivos não humanos, que
passam, nesse sentido, a integrar uma comunidade moral partilhada com os seres humanos,
constitui certamente um possível fundamento para o reconhecimento da dignidade do animal não
humano.
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13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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De outra parte, é preciso agregar que as ponderações tecidas em relação ao discurso ético
aplicado aos animais não excluem a consideração de uma dignidade da vida de um modo geral (e
à Natureza como um todo) e não apenas dos animais sensitivos, já que não são apenas estes que
integram a complexa e interdependente teia da vida no Planeta Terra, o que faz sentido
especialmente quando se examina a questão à luz de uma concepção abrangente do que seja um
meio ambiente ecologicamente equilibrado também para o Direito. Tomando-se a discussão em
torno de uma “ética animal” como exemplificativa de uma concepção mais alargada de uma ética
do respeito à vida, na linha da postura que já preconizava Albert Schweitzer55 esem que se
pretenda aqui avançar qualquer conclusão, já que apenas tangenciada a questão, o que mais
importa é ter presente a necessidade de transferir a discussão do plano ético também para o
discurso jurídico, apontando não apenas para a possibilidade, como para a necessidade de uma
sintonia entre ambos.
 
34
.Para um panorama geral acerca das diferentes correntes filosóficas na seara da ética animal, v. NACONECY, Carlos.
Ética e animais: um guia de argumentação filosófica. 2. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2014.
35
.Por exemplo, o Animal Welfare Act, nos Estado Unidos, em 1985; o British Animals (Scientific Procedures) Act, na
Inglaterra, em 1986; e o International Guiding Principles for Biomedical Research Involving Animals, de 1984. No
contexto brasileiro, merecem registro a Lei 11.794/2008, que, de modo a revogar a antiga Lei 6.638/1979 e
regulamentar o inc. VII do § 1.º do art. 225 da CF/1988, estabeleceu procedimentos para o uso científico de
animais entre outras medidas; a Lei 9.605/1998 (Lei dos Crimes Ambientais); a Lei 10.519/2002 sobre a
promoção e fiscalização da defesa sanitária animal na realização de rodeios; bem como a própria CF/1988, que,
no seu art. 225, § 1.º, VII, veda práticas que provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais à crueldade.
36
.Destaca-se que a primeira edição da obra de SINGER data de 1975, tendo sido reformulada em 1990. SINGER,
Peter. Libertação animal. Porto: Via Optima, 2000. Do autor, v. também SINGER, Peter. Ética prática. São Paulo:
Martins Fontes, 2002.
37
.V. KREBS, Angelika (Org.). Naturethik: Grundtexte der gegenwärtigen tier- und ökologischen Diskussion. Frankfurt am
Main: Suhrkamp, 1997; e WOLF, Ursula (Org.) Texte zur Tierethik. Stuttgart: Reclam, 2008.
38
.DESCARTES, René. Discurso do método; meditações; objeções e respostas; as paixões da alma; cartas. 2. ed. São
Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 60.
39
.Idem, p. 55.
40
.Idem, p. 61.
41
.SINGER, Libertação animal..., p. 4.
42
.SINGER designa como “seres sencientes” aqueles que detêm capacidade de sofrer e/ou experimentar alegria,
determinando a fronteira que coloca o limite da preocupação moral dos seres humanos relativamente aos interesses
dos outros seres (Idem, p. 8).
43
.Idem, p. 6.
44
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13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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.TAYLOR, Paul W. Respect for nature: a theory of environmental ethics. Princeton: Princeton University Press, 2011, p.
45.
45
.SINGER, Libertação animal..., p. 7. Para exemplificar a formulação exposta, é oportuna a passagem da obra de
Singer: “Uma pedra não tem interesses porque não é capaz de sofrimento. Nada que lhe façamos fará a mais
pequena diferença em termos do seu bem-estar. A capacidade de sofrimento e alegria é, no entanto, não apenas
necessária, mas também suficiente para que possamos afirmar que um ser tem interesses – a um nível mínimo
absoluto, o interesse de não sofrer. Um rato, por exemplo, tem interesse em não ser pontapeado ao longo da rua, pois
sofrerá se isso lhe for feito” (Idem, ibidem). Desenvolvendo o ponto, mediante recurso à fundamentação adicional, v.
ARAÚJO, Fernando, A hora dos direitos dos animais, pp. 95 e ss.
46
.Idem, p. 14.
47
.Idem, pp. 16-18.
48
.NUSSBAUM, Martha C. “Beyond ‘compassion and humanity’: justice for nonhuman animals”. In: SUNSTEIN, Cass R.;
NUSSBAUM, Martha C. (Orgs.). Animal rights: current debates and new directions. Nova York: Oxford University
Press, 2004, p. 306. O texto em questão encontra-se traduzido para o português em: MOLINARO, Carlos A.;
MEDEIROS, Fernanda L. F.; SARLET, Ingo W.; FENSTERSEIFER, Tiago (Org.). A dignidade da vida e os direitos
fundamentais para além dos humanos: uma discussão necessária. Belo Horizonte: Editora Fórum, 2008, pp. 85-126.
49
.FEIJÓ, Anamaria. A utilização de animais na investigação e docência: uma reflexão ética necessária. Porto Alegre:
EDIPUCRS, 2005, p. 22 e 129. A autora estabelece uma distinção entre agentes morais e pacientes morais, sendo
que, não obstante ambos serem membros da mesma comunidade moral, e, portanto, detentores de valor intrínseco e
de direitos próprios, apenas aos agentes morais são atribuídos deveres. De um modo geral, há identidade entre os
pacientes morais e os animais “sencientes” não humanos, assim como entre os agentes morais e os seres humanos,
mas nem todos os seres humanos são ou estão na condição de agentes morais. Aos agentes morais, cumpre zelar
pelos interesses e direitos dos pacientes morais (pp. 130-131).
50
.REGAN, Tom. The case for animal rights. Berkeley: University of California Press, 1983.
51
.REGAN, Jaulas vazias..., pp. 61-62.
52
.Idem, p. 78.
53
.Idem, p. 60.
54
.No que tange ao uso de animais em experimentos científicos e na prática docente, v. entre outros, FEIJÓ, Anamaria.
A utilização de animais na investigação e docência: uma reflexão ética necessária. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005.
55
.Sobre o tema da ética do respeito à vida, vale sempre retomar as lições de Albert Schweitzer, Prêmio Nobel da Paz
em 1952. Já no início da década de 1930, o autor “profetizava” que “ainda veremos o dia em que a opinião pública
não mais há de tolerar nenhum divertimento popular que se realize à custa de maus tratos de animais”.
SCHWEITZER, Albert. Minha vida e minhas ideias. São Paulo: Edições Melhoramentos, p. 242. Do autor, v. também
SCHWEITZER, Albert. Filosofia da civilização. São Paulo: Editora UNESP, 2013, especialmente pp. 283-302.
13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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CAPÍTULO 1. A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A DIGNIDADE
DO ANIMAL NÃOHUMANO E DA NATUREZA
CAPÍTULO 1. A DIMENSÃO ECOLÓGICA DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A DIGNIDADE
DO ANIMAL NÃO HUMANO E DA NATUREZA
0
3. O RECONHECIMENTO DA DIGNIDADE E DOS DIREITOS DA NATUREZA NA ORDEM
CONSTITUCIONAL? UMA (RE)LEITURA ECOCÊNTRICA DA EXPRESSÃO “TODOS” DO
CAPUT DO ART. 225 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988
3.1. A superação do antropocentrismo clássico e a ascensão de um novo paradigma
jurídico ecocêntrico no âmbito constitucional?
“A Constituição, no seu artigo 225, § 1º, VII, acompanha o nível de esclarecimento alcançado
pela humanidade no sentido de superação da limitação antropocêntricaque coloca o homem no
centro de tudo e todo o resto como instrumento a seu serviço, em prol do reconhecimento de que
os animais possuem uma dignidade própria que deve ser respeitada. O bem protegido pelo inciso
VII do § 1º do artigo 225 da Constituição, enfatizo, possui matriz biocêntrica, dado que a
Constituição conferevalor intrínseco às formas de vida não humanas e o modo escolhido pela Carta
da República para a preservação da fauna e do bem-estar” (Passagem do voto da Ministra Rosa
Weber do STF no julgamento da ADI 4.983).56
O Direito Constitucional Ecológico, dada a natureza multidisciplinar das suas fontes, deve
pautar-se pela realidade planetária, o que, a nosso ver, impõe necessariamente a discussão em
torno de uma nova fase do seu desenvolvimento à luz de um novo paradigma ecocêntrico dada a
magnitude dos desafios de ordem existencial relacionados ao atual “estado ambiental global”
postos no Antropoceno. Igualmente, não há como negar um certo “fracasso” do Direito Ambiental,
tanto em âmbito internacional quanto doméstico, após aproximadamente cinco décadas de
existência e edificado com base em um paradigma predominantemente antropocêntrico, em conter
os rumos civilizacionais predatórios na nossa relação com a Natureza. Como já nos havia alertado
Vittorio Hösle, no sentido de estarmos situados num ponto de viragem na história da humanidade
(Wendepunkt der Geschichte des Menschen)57, nunca antes na esfera jurídica a discussão em
torno de uma virada copernicana de matriz “ecocêntrica” se fez tão presente (e urgente), sobretudo
após o reconhecimento de que estamos vivendo em um novo período geológico (Antropoceno)
derivado do nosso impacto na integridade ecológica do Planeta Terra.
A Assembleia Geral da ONU, por meio da Resolução 63/278, de 22 abril de 2009, designou o
dia 22 de abril como o “Dia Internacional da Mãe Terra” (International Mother Earth Day). Um ano
antes, a Assembleia Geral da ONU também havia proclamado o ano de 2008 como o “Ano
Internacional do Planeta Terra” (International Year of Planet Earth).58 Na Resolução 63/278, a
Assembleia Geral da ONU consignou que:
“Reconhecendo que a Terra e seus ecossistemas são nosso lar, e convencidos de que para alcançar
um justo equilíbrio entre as necessidades econômicas, sociais e ambientais das gerações presentes e
futuras, é necessário promover a harmonia com a Natureza e a Terra,
Reconhecendo que a Mãe Terra é uma expressão comum para o planeta Terra em vários países e
regiões, o que reflete a interdependência que existe entre os seres humanos, outras espécies vivas e o
planeta que todos nós habitamos”.
Posteriormente, por meio da Resolução 67/214, de 21 de dezembro de 2012, a Assembleia
Geral da ONU, de modo complementar e inclusive remetendo ao conteúdo da Carta Mundial da
Natureza (World Charter for Nature) de 198259 e destacando a atual tendência de reconhecimento
dos direitos da Natureza, assinalou que:
“5. Reconhece que o Planeta Terra e os seus ecossistemas são a nossa casa e que a ‘Mãe Terra’ é
uma expressão comum em vários países e regiões, e que alguns países reconhecem os direitos da
Natureza (the rights of Nature) no contexto da promoção do desenvolvimento sustentável, e está
convencido de que, para alcançar um justo equilíbrio entre as necessidades económicas, sociais e
ambientais das gerações presentes e futuras, é necessário promover a harmonia com a Natureza;
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13/04/2023, 19:17 Thomson Reuters ProView - Direito Constitucional Ecológico - Ed. 2021
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6. Apela a abordagens holísticas e integradas ao desenvolvimento sustentável que guiem a
humanidade a viver em harmonia com a Natureza e conduzam a esforços para restaurar a saúde e
integridade dos ecossistemas da Terra;
A nossa percepção (científica, filosófico-ética, econômica, jurídica etc.) da Natureza e do
Planeta Terra alterou-se radicalmente na última Década, como bem ilustram as passagens das
resoluções da Assembleia Geral da ONU, acompanhadas de inúmeros outros diplomas
internacionais em matéria ambiental antecedentes, como a Convenção-Quadro sobre Mudanças
Climáticas (1992), acompanhada do Acordo de Paris (2015), e a Convenção-Quadro sobre
Diversidade Biológica (1992). De (apenas) “recursos” necessários para o desenvolvimento
civilizatório, a Natureza passou a ser reconhecida cada vez mais como algo intrínseco e
interdependente à existência humana. A ameaça cada vez mais premente de um colapso
ecológico, como bem ilustram os exemplos das mudanças climáticas e da perda massiva de
biodiversidade, nos obriga a mirar a “big picture”, ou seja, a identificar o Planeta Terra (ou Mãe
Terra) como um ente vivo, assim como o Homo sapiens. Um sistema complexo de vida totalmente
interdependente tanto em nível local quanto global ou planetário. O comprometimento da sua
integridade ecológica implica o desequilíbrio de toda a cadeia de vida que o habita, entre os quais
se encontra o ser humano. É, como dito nas resoluções da Assembleia Geral da ONU citadas, a
“nossa casa ou lar” (our home), assim como de todas as demais formas de vida que o habitam e
que, cada vez mais, estão ameaçadas de extinção. Como dito de forma reiterada pela jovem
ativista climática sueca Greta Thunberg do movimento Fridays for Future nos seus discursos: “a
nossa casa está em chamas ou pegando fogo” (“our House is on Fire”).60
Não é mais possível sustentar, como fez a Declaração de Estocolmo sobre Meio Ambiente
Humano (1972) no seu Preâmbulo (item 5), documento que simboliza a gênese do Direito
Ambiental no plano internacional, ao dispor que: “de todas as coisas do mundo, as pessoas são as
mais preciosas”61. Essa pretensa “centralidade”, acompanhada de uma ideia de superioridade, que
o ser humano se (auto) atribui não encontra consonância com as “leis da Natureza” e a história
natural do Planeta Terra de 3.8 bilhões de anos. Pelo contrário, impõe-se a necessidade de um
novo paradigma filosófico, jurídico, econômico etc. acerca da compreensão do nosso lugar na
Natureza e da nossa relação com a “comunidade viva ou da vida no Planeta Terra” (Earth’s
Community of Life), como dito por Paul W. Taylor62, tomando como premissa que a integramos
apenas como mais um ser biológico na cadeia da vida planetária e somos totalmente dependentes
das suas bases naturais de sustentação.
É preciso urgentemente reequacionar moral e juridicamente a nossa relação com a Natureza. A
raiz antropocêntrica que se perpetuou ao longo de quase meio século de desenvolvimento do
Direito Ambiental desde o início da Década de 1970, como referido anteriormente, não se mostra
mais compatível com os desafios que enfrenta a humanidade hoje e, mais do que isso, diante de
todo o arcabouço científico que – por força da obra, entre outros, de Darwin e Humboldt a partir de
meados do século XIX – se desenvolveu progressivamente no âmbito das ciências naturais para
caracterizar a relação vital entre ser humano e Natureza. A hoje designada “ciência planetária ou
ciência da Terra (Earth Science)”, como se verifica no exemplo da “ciência climática”, é o ponto
culminante desse novo paradigma científico ecossistêmico. O ser humano é um ser biológico num
mundo natural. Fato; e não ideologia. Soma-se a isso tudo os valores morais

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