A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
60 pág.
Ingles Tecnico

Pré-visualização | Página 2 de 18

da mesma origem e de forma 
suficientemente próxima para revelar o parentesco à primeira vista. Assim o nosso vocábulo 
“cópia” existe em francês, italiano e inglês sob forma quase igual, no sentido de “imitação”, 15 
“reprodução”. Mas copie em francês designa, além disto, trabalho escrito de aluno, assim 
como manuscrito entregue à tipografia de um jornal, acepções que faltam a copia em italiano 
e a copy em inglês; em compensação estas duas palavras possuem o sentido de exemplar, que 
falta em francês e português. 
Uma das principais culpadas das cincadas de tradução é a ETIMOLOGIA. 20 
O instinto etimologizador, que existe em todos nós, se é auxiliar precioso, pode 
também produzir enganos. Sem dúvida, tinha razão de sobra Valery Larbaud ao escrever que 
a etimologia era o sal das línguas literárias, pois só ela dava sabor e duração ao material 
verbal, acrescentando que tinha pena das pessoas que, não sabendo latim, ignoravam as 
etimologias. Para elas todas as palavras devem dar a impressão de não repousarem sobre 25 
nada, de puros e absurdos conglomerados convencionais de sílabas, palavras no ar; e a 
ortografia, com suas anomalias demasiadamente reais, deve parecer-lhes um quebra-cabeça 
infernal. Efetivamente, no espírito de quem sabe do parentesco entre père e paternel, mère e 
maternel, main e manocuvre, estas palavras estão motivadas e, portanto, de um emprego mais 
fácil. Essa mesma consciência etimológica permite, não raro, adivinhar a significação da 30 
palavra estrangeira vista pela primeira vez; mas como em duas línguas da mesma família 
palavras da mesma origem têm quase sempre evolução diferente, ela deve ser submetida a 
permanente controle. Uma pessoa francófona de instrução razoável facilmente descobrirá o 
parentesco dos verbos prêter e “prestar”; mas só o estudo e o exercício do português lhe 
ensinarão que prêter de l’argent não é “prestar” e sim “emprestar dinheiro”. Poste e “posta” 35 
são evidentemente o mesmo vocábulo; mas, no seu sentido mais comum, poste é vertida em 
português por “correio”. 
Em face da diferenciação nas noções, uma mesma palavra ganha vários sentidos 
novos no decorrer de sua evolução. “Respeito” guarda em português o mesmo sentido 
primordial que o francês respect; mas a acepção “ponto de vista” (na expressão “a esse 40 
respeito”) é-lhe peculiar. O português “fato” e o italiano fatto são facilmente relacionáveis; 
mas só à primeira dessas formas cabe o sentido de “terno completo”, aliás de uso bem maior 
em Portugal que no Brasil. 
Essa diversificação do sentido, a que se dá o nome de POLISSEMIA, faz com que a 
uma palavra possam corresponder diversos equivalentes segundo o contexto. Ora, palavras 45 
 5 
cognatas de duas línguas quase nunca apresentam polissemia no mesmo grau. O nosso 
vocábulo “mão” na maioria dos casos se traduz em francês por main; mas quando se refere a 
direção de trânsito, deve ser vertido por sens. Office em francês e o nosso “ofício” possuem 
ambos as acepções de “função”, “tarefa”, “cargo”. Mas o sentido de “escritório” é exclusivo 
do francês e o de “carta de repartição pública”, do português. Para “miserável” o inglês tem 50 
duas palavras da mesma origem: miserable, sinônimo de “digno de compaixão” ou 
“desprezível”, e miser, sinônimo de “sovina”, “unha-de-fome”. 
É claro que a polissemia não constitui perigo apenas quando se trata de termos 
cognatos. Abro ao acaso o Dicionário Inglês-Português de Leonel e Lino Vallandro e no 
verbete slip encontro, entre muitas outras, as acepções “escorregadela”, “erro”, “tropeço”, 55 
“fuga”, “fronha de travesseiro”, “anágua”, “bibe de criança”, “calção de banho”, “trela de 
cão”, “corrediça”, “plano inclinado” “rampa de lançamento”, “patins de trenó”, “tira de 
papel”, “bilhete”, “banco de igreja”, “enxerto”. E isto é apenas como equivalentes do 
substantivo, pois há também o verbo to slip e o adjetivo slip. Quantos alçapões para um só 
tradutor! 60 
Naturalmente, os bons dicionários como esse registram em separado as diversas 
acepções de um vocábulo; mas para tirar deles o proveito possível cumpre ter boa dose de 
desconfiança, que só se adquire no decorrer de longa prática. Há, aliás, diferenças sutis não 
consignadas nos dicionários. O francês vagabond traduz-se em português “vagabundo”, mas 
este tem uma conotação pejorativa que falta à variante francesa, e, portanto, se verteria para o 65 
francês, em muitos casos, por uma palavra totalmente diversa. 
A polissemia faz com que a uma palavra do idioma A correspondam duas 
palavras no idioma B. À nossa palavra “relação” podem corresponder duas palavras em 
francês, relation e rapport, nem sempre substituíveis. Por outro lado, ao adjetivo francês 
simple correspondem em português “simples” e “singelo”. O tradutor, inclinado a usar a 70 
forma que é mais parecida, é ameaçado de nunca usar a mais rara, que representa uma 
riqueza da própria língua. Luís de Lima ponderou-me com razão, que o equivalente exato de 
Un Coeur simple, de Flaubert, que figura sob o título “Um Coração Simples”, em Mar de 
Histórias, estaria melhor se intitulado “Um Coração Singelo”. 
Perigo maior representam os cognatos aparentes ou FALSOS AMIGOS, palavras 75 
semelhantes em duas línguas, mas de sentidos totalmente diversos. Basta um momento de 
distração para o tradutor verter a expressão par hasard por “por azar” em vez de por “por 
acaso” e éleveur, “criador de animais”, por “elevador”. 
Os falsos amigos muitas vezes são palavras de origem comum cujo sentido se 
distanciou por efeito da evolução semântica diferente. Um par de falsos amigos é constituído 80 
pelo latim casa e o português “casa”. O primeiro na verdade significava “cabana”, 
“choupana”. Para designar uma residência, os romanos usavam a palavra domus. (em 
português “domo”) passou a ser reservada a construções importantes, como por exemplo uma 
catedral. 
Outras vezes a semelhança é mera coincidência, resultado da evolução 85 
convergente de duas palavras totalmente diversas na origem, como por exemplo o francês 
cor, “calo”, e o português cor (francês couleur). Nas relações de cada duas línguas existe 
certa quantidade de falsos amigos. Os do francês em relação ao português não são os mesmos 
que ele tem em confronto com o inglês. Entre eles figuram, por exemplo, abonné (que não é 
“abonado” ), affamé (que não é “afamado”), apporter (que não é “aportar”) e assim por 90 
diante. 
Fizeram-se várias coleções dos falsos amigos do tradutor de inglês. “Dessas 
armadilhas citemos algumas das mais conhecidas: actually não é “atualmente”, mas 
“realmente”; to apologize não é “apologizar” mas “desculpar-se”; casualty pode se 
“casualidade”, mas no plural casualties é “baixas”, “perdas”; dog days não são “dias de 95 
 6 
cachorro”, mas “canícula”; idiom pode ser “idioma”, mas também “idiomantismo”; luxury 
não é “luxúria”, “luxo”; physician não é “físico”, mas “médico”; etc., etc. 
Muito menor a probabilidade de o tradutor de outras línguas, não aparentadas 
com a nossa, encontrar desses falsos cognatos: poucos haverá entre o alemão e o português, 
ou o português e o russo. Mas a grande maioria dos textos que se traduzem pertence 100 
precisamente aos idiomas em que a possibilidade da confusão é maior. 
Nesse campo, o poliglotismo pode constituir uma armadilha. Gift pode ser 
palavra tanto alemã como inglesa (salvo que no primeiro caso principia sempre com 
maiúscula), mas significa “veneno” ou “dádiva”. 
Os HOMÔNIMOS existentes dentro de cada língua também representam outras 105 
tantas ciladas. 
As estilísticas distinguem entre homônimos etimológicos, palavras de origem 
diferente, às quais o acaso das mutações fonéticas acabou conferindo pronúncia e, 
frequentemente, grafia idênticas ou semelhantes; assim em português escatologia (= 
coprologia) e escatologia (= doutrina sobre a consumação do tempo e da história), derivados 110 
respectivamente das palavras gregas skor, skatos, “excremento”, e eschatos, “último”, ou em 
alemão kosten, “custar”, e kosten, “provar” ( que