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Ingles Tecnico

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faz questão de ressaltar que no original se trata de 
noção expressa por meio de uma palavra só, usará hífens. 210 
Em sentido mais lato podemos chamar de holófrases palavras que designam 
noções peculiares a uma civilização, sem correspondente nos demais ambientes culturais. 
Disto seriam exemplos em alemão, Weltanschauung, Gemütlichkeit e Kitsch; em francês, 
parvenu e savoir-faire; em inglês, understatement; em norte-americano, know-how; em 
italiano, mafia e vendetta; em castelhano, piropo; em português, saudade; em brasileiro, jeito 215 
e sertão – palavras essas que, por mais que tentemos traduzi-las recorrendo a todos os 
circunlóquios possíveis, chegamos à conclusão de só haver exprimido parte do seu conteúdo 
complexo. Tais palavras em geral acabam impondo-se sob sua forma original aos idiomas 
cultos, que, na impossibilidade de forjarem seus equivalentes, as incorporam ao próprio 
vocabulário. 220 
Estudiosos da teoria da tradução têm salientado muito as diferenças de ambiente 
responsáveis pela ausência de determinadas noções e que constituiriam obstáculos 
insuperáveis para o tradutor. Eugene A. Nida, diretor da Sociedade da Bíblia, dá conta de 
algumas dessas dificuldades encontradas na tradução das Escrituras. Nas línguas de certas 
tribos primitivas não há palavra para “peixe”. Há ilhas em que os indígenas não têm uma 225 
noção equivalente a “pai”. Muitos povos ignoram a neve; para eles “branco como a neve”, 
“branco de neve” não têm significação. 
Pelos mesmos motivos era difícil resolver a alusão à serpente bíblica na versão 
para esquimós. Com efeito, estes semelhantes nossos nunca viram uma cobra. Pensou-se em 
substituí-la por foca; mas esse, para o esquimó, é um animal essencialmente bom, camarada 230 
mesmo, e portanto seria impossível imputar-lhe qualquer interferência maldosa. Roger 
Caillois, que citou o caso, não diz a solução a que se chegou. 
(Diga-se de passagem que a existência ou não de certas palavras em determinadas 
línguas já foi tomada como base de caracterologias nacionais. Partindo-se da idéia de 
Humboldt de que a diversidade das línguas é explicável pela divergência das visões do 235 
mundo, chegou-se a inferir que em turco faltavam palavras para “interessante” e “interessar-
se” devido à falta de curiosidade dos turcos, convencidos de que o Alcorão contém tudo que 
um homem precisava saber; que nas línguas do Congo não existe palavra para dizer 
“obrigado” em face da extrema miséria reinante na região, onde, por isso, ninguém pode 
privar-se de coisa alguma nem prestar qualquer serviço; e, até, que os franceses não gostam 240 
de viver em casa por não terem palavra equivalente ao inglês home.) 
 9 
Mas em vez de nos aventurarmos nos terrenos movediços da Etnossociologia, 
voltemos aos da Linguística. A meu ver, têm-se exagerado em excesso as dificuldades da 
tradução das palavras holofrásticas ou exclusivas de uma civilização. Afiguram-se-me bem 
mais frequentes e praticamente insolúveis as que resultam das reações diferentes que as 245 
palavras mais comuns suscitam em ambientes diversos. 
Assim, por exemplo, não pode haver a menor dúvida sobre o sentido da palavra 
setembro, nono mês do ano. Entretanto a famosa poesia “Fim de Setembro”, de Sándor 
Petöfi, uma das mais belas da língua húngara, deixa idéia confusa no espírito do leitor 
brasileiro, porque as imagens de natureza agonizante, folhas murchas e cumes cobertos de 250 
neve não se coadunam com o título. 
Na mesma ordem de idéias, as noções suscitadas pela palavra inverno na mente 
de um carioca em nada se assemelharão às que provoca seu espírito equivalente russo zimá 
no espírito de um habitante de Leningrado. Tampouco a idéia de Natal expressa por outro 
equivalente qualquer coisa em comum no Brasil e na Suécia. 255 
Pelo mesmo motivo, as palavras breakfast e petit-déjeuner, que figuram como 
equivalentes no dicionário inglês-francês, referem-se a duas refeições essencialmente 
diversas; pão, pain, Brot, bread designam produtos semelhantes, mas não idênticos; e o café, 
como o bebemos no Brasil, não é a mistura indefinível que se ingurgita em Nova York. 
Pobre designa nos Estados Unidos uma pessoa que tem automóvel e recebe, a título de 260 
welfare, indenização equivalente ao salário de um professor universitário em certos Estados 
da América do Sul. 
Poder-se-iam multiplicar ad infinitum os exemplos de conotação dessemelhante, 
quase nunca registrada nos dicionários bilíngues. Segundo um léxico francês-português 
empire é equivalente perfeito de império; entretanto eles suscitarão associações totalmente 265 
diversas no espírito de um francês e de um brasileiro. 
Sem o conhecimento da CONOTAÇÃO entende-se menos a origem de muitas 
expressões figuradas: assim pour des prunes (“por um nada”, “a troco de banana”) só é 
motivada para quem sabe que a ameixa é na França fruta das mais corriqueiras e baratas – tal 
como a banana e o abacaxi entre nós ganharam conotação depreciativa em seus empregos 270 
figurados. 
Numa palavra, devido à dessemelhança das condições de vida é impossível que 
qualquer tradução dê a mesma impressão do original. Pois é precisamente esse argumento 
irrespondível que salienta uma das mais importantes razões de ser da tradução: permitir às 
pessoas formular idéia sobre a maneira de viver e de sentir das que vivem noutras partes do 275 
mundo. 
(...) Outra categoria aparentemente neutra e na verdade carregada de significados 
explosivos é a dos TOPÔNIMOS. Rio de Janeiro significa uma coisa para o carioca que nele 
vive e trabalha, outra para o paulista que aí vem passar suas férias, outra para o europeu que 
condensa nesse nome o seu sonho exótico. Mesmo os logradouros de uma cidade –– 280 
Copacabana, Lapa, Wall Street, Avenue des Champs Elysées, Piccadily Circus, Quartier 
Latin, Kurfürstendamm, Nevski Prospekt – acabaram condensando, no decorrer dos tempos, 
um complexo de conotações que reclamaria dezenas de páginas para ser analisado. E quando 
há logradouros do mesmo nome em duas cidades a coisa piora, pois eles têm tão pouca coisa 
em comum como a Lapa do Rio e a de São Paulo. 285 
Nisto reside um dos mais insolúveis problemas da tradução, embora raramente 
haja sido mencionado. 
(...) Causa de muitos erros de tradutor é o fato de terem certos topônimos formas 
diferentes nas diversas línguas. Leghorn é o nome inglês de Livorno; Köln é o nome original 
alemão do francês Cologne e da nossa Colônia. O tradutor brasileiro que falasse em Leghorn 290 
(a não ser em se tratando de uma raça de galinhas) ou em Cologne seria imperdoável. E há 
 10 
casos tão esquisitos com Bratislava, cidade da Tchecoslováquia, mas que durante centenas de 
anos fez parte da Hungria sob o nome de Pozsony e que no ocidente é sobretudo conhecida 
sob seu nome alemão Pressburg! 
Cabe aqui dizer duas palavras a respeito dos adjetivos pátrios, cujo valor 295 
conotativo depende do lugar onde estão sendo usados. Não só norte-americano suscita 
reações diferentes entre ingleses e mexicanos; os adjetivos carioca, gaúcho, mineiro, 
capixaba, unicamente denotativos para um europeu, enchem-se de forte valor conotativo para 
qualquer brasileiro. 
Ainda que as palavras fossem usadas apenas em sentido próprio, a tradução seria 300 
uma operação temerária, dada a falta de correspondência de uma língua para outra. Mas o que 
a torna quimérica é o pendor do espírito humano para a METÁFORA, quer dizer, a utilização 
do vocábulo com um sentido outro que ele parece possuir normalmente. O uso de expressões 
figuradas dá-se em todos os idiomas conhecidos, e não apenas na prática literária. Muitas 
dessas expressões conseguem adoção geral a ponto de serem empregadas sem que a pessoa 305 
falante se lembre do sentido primitivo das palavras que as compõem. “É uma mão na roda” – 
dizemos pensando num auxílio que vem no momento oportuno, sem vermos a imagem da 
carroça encalhada; “Le jeu n’en vaut pas la chandelle” se diz ainda em França apesar de 
quase não mais haver lugares sem luz elétrica.