Prévia do material em texto
Unidade de Estudos 2 - Formação sociocultural do Brasil I Apresentação A realidade cultural, social, política ou econômica de um país não pode se explicar apenas pela situação presente. Tudo o que vivemos faz parte de um longo processo histórico, que encontra raízes no modo de viver em sociedade dos nossos ancestrais. O processo pelo qual o Brasil foi ocupado e colonizado; a diversidade de povos que constituíram esse país; a forma como esses povos se miscigenaram e se multiplicaram pelas diversas regiões do nosso território; tudo isso explica em muito quem é o brasileiro e a sociedade brasileira atual. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer a realidade social e cultural do Brasil.• Explicar os efeitos da ocupação e colonização brasileira.• Valorizar as diferentes manifestações culturais de etnias e raças (negra, indígena, branca).• Infográfico No mercantilismo, a riqueza dos países era medida pelo lucro advindo das trocas comerciais. Portugal não possuía grandes manufaturas (fábricas) e precisava importar produtos de outros países, principalmente da Inglaterra. Em troca, deveria oferecer a matéria-prima produzida de suas colônias. Observe o infográfico. Conteúdo do Livro Nesse capítulo, você conhecerá os elementos que formaram a conjuntura histórica que leva à formação da realidade social e cultural do Brasil contemporâneo. Embora a noção contemporânea de nacionalidade tenha sido cunhada pela ideia de pertencimento e de construção de laços sociais internos a partir da proclamação da República, como parte da legitimação do processo de constituição da nova forma de Estado após o fim do Império, ainda reflete as estruturas de organização social provenientes da colonização. Assim, ao longo do texto, você verá quais foram os impactos da colonização e os três povos que formam a base da sociedade brasileira, tendo em vista as dinâmicas de poder entre colonizadores e colonizados que coloca em xeque o mito da igualdade racial. Verá ainda a grande contribuição cultural das diversas etnias de povos negros para a formação das práticas sociais e expressões culturais brasileiras, da língua à música, mas tendo pontuadas as dinâmicas de violência resultantes da escravização, reproduzidas nas relações familiares, e principalmente, nas relações de trabalho. Por fim, entenderá que a multiplicidade étnica da sociedade brasileira forma unicidade identitária, mas ao mesmo tempo, promove particularidades reconhecidas internamente, pelos sujeitos sociais. Além disso, verá que o reconhecimento da desigualdade racial dentro da premissa de unicidade social é o caminho para o desenvolvimento de ações de resistência, preservação das memórias e das identidades, assim como para a equidade social." Boa leitura! HUMANIDADES OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM • Reconhecer a realidade social e cultural do Brasil. • Explicar os efeitos da ocupação e colonização brasileira. • Valorizar as diferentes manifestações culturais de etnias e raças. Introdução Neste capítulo, você vai compreender quais foram as origens da formação da sociedade brasileira contemporânea, retomando a premissa da organização colonial e as dinâmicas estabelecidas entre os povos colonizadores, os povos e sociedades que já existiam no território brasileiro e os povos que mais tarde foram trazidos — forçados ou de forma livre. Vai compreender também que as relações sociais foram determinadas pelo tipo de organização econômica estabelecida, e, por isso, a utilização de mão de obra escravizada teve grande influência nas manifestações simbólicas e culturais da sociedade em formação, especialmente nas relações familiares afetivas que se constituam entre cuidadores negros e as crianças brancas. Por fim, verá que houve e há resistência de diferentes composições étnicas, especialmente negra e indígena, ao longo de todo o processo de constituição da sociedade brasileira contemporânea, identificando a importância de reconhecer Formação sociocultural do Brasil I Aline Michele Nascimento Augustinho as dinâmicas de poder e de classe na manutenção de privilégios que afastam as elites das bases das pirâmides sociais. Origens socioculturais do Brasil O Brasil republicano foi simbolicamente desenhado como uma nação miscige- nada, formada por várias culturas que não apenas conviveriam pacificamente, mas que também contribuíram para a formação de uma cultura e de uma identidade nacionais exclusivas do Brasil. Porém, nas reflexões acadêmicas e sociais que se realizam, ao olhar para as culturas que formam a identidade brasileira é possível identificar as falácias no discurso da miscigenação pacífica e integradora. Muito embora seja verdade que a identidade nacional e os elementos culturais que a permeiam — como a música, as artes, o idioma, a culinária, as tradições, religiões, costumes e comportamentos sociais — sejam de fato produto da interação de culturas de diferentes origens, especialmente de povos indígenas, povos negros e povos europeus, não é mais possível que no século XXI se reproduza a ideia da miscigenação sem a reflexão da violência estrutural resultante das relações de poder entre esses povos. A reflexão sobre essas relações de poder, além de oferecer melhor compre- ensão sobre a história do país, pode ainda contribuir para políticas públicas de reparação de violências e injustiças, reorganizando as dinâmicas sociais contemporâneas e ajustando os espaços e acessos de povos de diferentes origens aos itens de bem-estar social e à efetivação da cidadania, como assim define a Constituição Federal de 1988. Para compreender como se constitui a realidade social e cultural do Bra- sil contemporâneo, com suas possibilidades, desafios e a necessidade de resgates históricos, é necessário antes retomar as origens dessa sociedade. Retomar o processo de colonização é fundamental, mas, para compreender a formação de nossa identidade brasileira contemporânea, é preciso retomar o contexto de formação da república brasileira. É na formação do Estado-nação republicano, no final do século XIX, que surgiu a necessidade de criação de um elemento simbólico que levasse os sujeitos à validar a noção de pertencimento à nação. A noção de pertenci- mento é um dado simbólico que influencia a formação da identidade dos sujeitos, associando tais identidades aos laços sociais constituídos em sua formação como um sujeito que pertence a determinada cultura, que pertence a determinado país. A noção de pertencimento foi intencionalmente desenvolvida no Brasil republicano especialmente por meio da educação pública, a fim de difundir Formação sociocultural do Brasil I2 o conceito de identidade nacional — e esse pressuposto tinha um objetivo político: o fim do Império. Nesse sentido, o exílio do imperador Dom Pedro II não foi um ato de ruptura popular com o absolutismo, como aconteceu na Europa dos séculos XVIII e XIX. Pelo contrário, o imperador Dom Pedro II era benquisto pelos brasileiros de classes mais baixas, que não participaram do movimento golpista que levou à constituição da República. Assim, a construção da sensação de pertencimento ajudava a formar e legitimar a identidade nacional, e essa identidade, por sua vez, estreitaria os laços do povo com o novo Estado e sua forma de organização e governo, prevenindo movimentos separatistas, mantendo unido o território vasto do antigo Império e salientando a unidade nacional frente a possíveis ameaças externas. Naquele momento, no final do século XIX, a constituição da República buscava criar a imagem de um país moderno e economicamente alinhado às principais potências capitalistas mundiais — Estados Unidos e França. Para isso, os ideais de liberdade, igualdade e participação que permearam as revoluções burguesas nesses dois países precisavam ser aqui reproduzidas, com a transição da forma do Estado monárquico para o republicano. Assim, buscou-se criar elementos simbólicosque afastassem a memória social dos contextos de colonização e da égide da monarquia portuguesa como expressões de dominação europeia — muito embora o país fosse inde- pendente desde 1822, os laços com a coroa portuguesa não foram cortados, mesmo que a monarquia brasileira se mostrasse mais conectada ao Brasil que às memórias das cortes europeias. Na busca pela criação de uma identidade nacional que se descolasse das memórias coloniais e do impacto da dominação cultural, política e econômica, as dinâmicas de poder entre as culturas que formariam o povo e a identidade culturais brasileiras foram moldadas para salientar uma espécie de simbiose entre diferentes culturas, apagando um histórico de dominação e violência. Assim, surgiu a noção de que povo brasileiro, miscigenado entre povos negros, brancos e indígenas, convivia em paz com as diferentes origens que formariam uma só cultura, diversificada, única e sobretudo pacífica e integrada. Desse modo, a identidade nacional e a noção de pertencimento foram estabelecidas no início do século XX, resultando na manutenção de violências estruturais e simbólicas de povos durante a colonização, com a valorização da influência dos povos europeus, sem, no entanto, que se admitisse a existência do racismo, levando à formação do mito da igualdade racial. Formação sociocultural do Brasil I 3 De acordo com o sociólogo brasileiro Florestan Fernandes (1978), a socie- dade brasileira do século XX foi pautada no mito da igualdade entre todos seus componentes étnicos, o que, segundo sua perspectiva, seria uma inverdade, já que as relações raciais coloniais mantiveram os traços de segregação e violência na constituição da divisão social do trabalho capitalista no Brasil do século XX. Nesse âmbito, os negros seguiram marginalizados nas dinâ- micas sociais com as elites, tendo acesso restrito ao trabalho e à educação e reproduzindo dispositivos que impediam sua autonomia. No próximo tópico, você verá como se deu o reconhecimento dos povos nativos e das sociedades já estabelecidas no território que se tornaria o Brasil no contexto da colonização. Ocupação e colonização brasileira Consideradas as interações múltiplas e a intenção sociopolítica na criação do conceito de identidade nacional e da noção de pertencimento para o fortale- cimento e legitimação da República, chega o momento de uma reflexão que retoma pontos históricos ainda mais longínquos: o processo de colonização. Afinal, é a partir desse processo que o Brasil se torna um Estado, com uma sociedade que submete às regras legais e de conduta centrais. Isso, porém, não significa que uma sociedade com cultura, condutas e hábitos particulares se estabelece apenas com a colonização. Antes da ocupação do território brasileiro pelos portugueses, a região era habitada por diferentes povos indígenas, que mantinham dinâmicas internas específicas de auxílio mútuo ou de belicosidade, de trocas comerciais e disputas territoriais. Assim, é preciso ressaltar que sociedades nativas, indígenas, ocupavam o território brasileiro antes da chegada e da posterior ocupação forçada dos portugueses. Aliás, esses povos nativos mantinham contato e trocas comerciais e culturais por toda a América do Sul, estabelecendo diálogos com grandes impérios nativos como os Incas, na região do Peru, até os Maias, na América Central. Uma das provas dessas dinâmicas é o Caminho de Peabiru, uma trilha de cerca de 3 mil quilômetros de extensão, em muitas partes pavimentada com pedras, que ligava o litoral de São Paulo, na região de São Vicente, à região de Cuzco, no Peru, coração do Império Inca antes da invasão e colonização espanhola naquela região (Figura 1). Formação sociocultural do Brasil I4 Figura 1. Trajetória pré-colombiana do Caminho de Peabiru, do litoral de São Paulo até a região de Cuzco, capital do antigo Império Inca, no Peru. Fonte: Colavite e Barros (2009, p. 89). A trilha apresentava centenas de “ramais”, pequenas trilhas anexas que ligavam a trilha central a aldeias e comunidades, de modo que o Caminho de Peabiru se configurava como instrumento de comunicação e troca comercial local e intercontinental, mesmo considerando a multiplicidade de etnias, idiomas e culturas indígenas nativas ao longo do trajeto. Apenas com o reconhecimento do Caminho de Peabiru já é possível refletir sobre pontos importantes do processo de formação cultural da sociedade brasileira: em primeiro plano, havia sociedades plenamente estabelecidas num território que foi invadido por um povo colonizador, que tomou para si as terras e suas riquezas. Nesse contexto, houve um processo de imposição pela força, de modo que o povo colonizador, os portugueses, pudesse subjugar os povos nativos, Formação sociocultural do Brasil I 5 forçando-os ao trabalho segundo sua definição, invadindo e destruindo vilarejos, raptando crianças para a formação católica forçada — desse modo aprenderiam o idioma do colonizador, seus valores morais por meio da religião, e poderiam ser mais facilmente controlados, afastados de sua cultura nativa. Os primeiros 60 anos de colonização, concentrados nas regiões de São Vicente, sul da Bahia e Recife, foram orientados à exploração de bens já disponíveis, como o pau-brasil, enquanto testes de adaptabilidade do solo para o plantio de cana-de-açúcar e cacau eram realizados. Nesse contexto, a mão de obra indígena, também escravizada, era a utilizada. Os portugueses estabeleceram-se como senhores da terra ocupada, legalizando a ocupação com outros europeus, os espanhóis, com os quais dividiram as porções con- tinentais a serem exploradas. De modos diversos, os dois povos colonizadores buscaram anular as or- ganizações sociais já estabelecidas no período pré-ocupação, e isso significa não apenas a imposição de violência e exploração de mão de obra escravizada, mas o apagamento de itens simbólicos, como fortificações, estruturas urbanas, templos e totens religiosos, além do impedimento da comunicação entre as comunidades, o que dificultava — mas não impedia — a resistência nativa. Há dois fatores nesse processo que levaram os portugueses a inserirem a mão de obra de povos negros escravizados no Brasil: em primeiro lugar, a adaptação da cana-de-açúcar ao clima e ao solo do nordeste brasileiro. A criação de engenhos exigia conhecimento técnico que os nativos indígenas não possuíam e relutavam em aplicar. No entanto, tanto Portugal quanto Espanha, Holanda, Inglaterra e França já haviam utilizado mão de obra de povos africanos escravizados em plantios na América Central. A experiência anterior de escravização levou os colonizadores a iniciarem a forçada diáspora africana para o Brasil, cumprindo a necessidade de criar, expandir e movimentar os engenhos de cana-de-açúcar. Essa ação teve ainda cunho político: com o território do nordeste tendo sua população ampliada e atividades comerciais mais ativas, mantinha-se afastada a ameaça de invasão holandesa, intenção que permaneceu ativa até o século XVIII. O segundo fator foi a necessidade de ocupação territorial continental, ou seja, a expansão das atividades para além da faixa costeira. Essa necessidade surgiu já no século XVII, quando o sucesso na exploração de ouro e minerais preciosos na porção continental ocupada pela Espanha levou os portugueses a temerem que a exploração espanhola ultrapassasse os limites acordados, além da perspectiva de encontrar ouro em abundância mais ao interior do continente. Formação sociocultural do Brasil I6 Assim, em busca de minas e veios de ouro iniciou-se a expansão territorial e a ocupação por meio da composição de vilarejos e cidades em torno de regiões com veios e minas de ouro na região sudeste. Como as incursões exploratórias não permitiam lutar com indígenas, ocupar espaços e formar vilarejos sem os retornos financeiros esperados, a mão de obra de povos negros foi inserida já no processo de exploração do território. Com a paulatina ocupação do litoralbrasileiro principalmente pelos colonizadores portugueses, para além de tentativas de ocupação francesa e holandesa, acarre- taram-se imensos prejuízos para os inúmeros grupos étnicos, que se destacavam por sua diversidade linguística, religiosa e cultural, e que foram progressivamente reduzidos ou, em muitos casos, até mesmo dizimados. Com o tempo, os atos de violência perpetrados pelos invasores de Pindorama também passaram a ter como alvo diversas etnias africanas que foram sequestradas de seus respectivos territórios de origem, para serem então comercializadas e exploradas no Brasil Colônia de forma inumana (ROMÃO, 2018, documento on-line). Ao longo do tempo, com a expansão territorial e a consolidação dos vilare- jos e expansão da população portuguesa chegada para explorar o território, crescia também a presença de escravizados negros, ao passo que diminuía a de povos nativos, mortos pela recusa a ceder território ou pela recusa à escravização. A ocupação inicial do território brasileiro oferece então a composição social da nova colônia: no topo da pirâmide social, nobres e ricos comerciantes. Na base, os povos explorados: povos negros e indígenas escravizados. Havia também pessoas brancas não nobres, que partiam de Portugal em busca de oportunidades no Novo Mundo, mas que viam-se sem lócus, sem espaço social a ser ocupado na ausência de titulação aristocrática, grandes posses ou carreira militar. Essas pessoas, no entanto, foram importantes para estruturar os vilarejos e o processo de ocupação territorial. Se por um lado observaram-se formas de controle e imposição do poderio do colonizador, por meio da violência e da catequese (imposição religiosa, fonte do apagamento cultural nativo), observou-se no Brasil Colônia também o processo de resistência que levaria a importantes núcleos da cultura nacional: a formação dos quilombos. Os quilombos eram territórios social, política, econômica e militarmente organizados, que recebiam povos negros e também indígenas que fugiam da condição de escravidão. Tais territórios promoviam a autossustentabilidade, já que não podiam expor sua localização, sobretudo quando especializavam-se na insurgência e no enfrentamento do poder dos colonizadores. Havia, porém, Formação sociocultural do Brasil I 7 aqueles que atuavam também no comércio, com os excedentes produzidos e artesanatos. Tereza de Benguela é um exemplo de líder quilombola que orientava sua microssociedade, o Quilombo de Cariterê, ao comércio, mas também à ativi- dade bélica. Segundo Anal de Vila Bela do ano de 1770, no atual Mato Grosso: Governava esse quilombo a modo de parlamento, tendo para o conselho uma casa destinada, para a qual, em dias assinalados de todas as semanas, entrava os deputados, sendo o de maior autoridade, tipo por conselheiro, José Piolho, escravo da herança do defunto Antônio Pacheco de Morais, Isso faziam, tanto que eram chamados pela rainha, que era a que presidia e que naquele negral Senado se assentava, e se executava à risca, sem apelação nem agravo (FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES, 2017, documento on-line). Uma das táticas de apagamento da cultura nativa indígena e so- breposição forçada da cultura colonizadora era a disseminação da ideia de inferioridade artística ou intelectual e de inverdade associada às religiões indígenas. Assim, ao mesmo tempo em que se disseminava a noção de superioridade cultural das sociedades europeias, atribuía-se as ações de violência e até extermínio à ideia de auxílio no desenvolvimento, ou seja, de que os europeus estariam ajudando os nativos a conhecerem culturas mais eficien- tes, mais desenvolvidas e superiores. Essa ideia parte da violência simbólica, mas concretiza-se em violência real, e fez parte do itinerário do desenrolar da sociedade brasileira republicana, com a noção de marginalização atribuída às expressões culturais e religiosas de matrizes indígenas e africanas (CARNEIRO, 2020). Colonização e relações de poder O processo de colonização determinou um padrão de relacionamentos sociais em que havia dinâmicas de poder estabelecidas entre dominadores e domina- dos: colonizadores, brancos europeus, determinaram a língua, a religião e as formas de organização social que regrariam as condutas coletivas, como na formação de famílias ou exercício do trabalho. O que surgiu, com isso, segundo Darcy Ribeiro (2016, p. 19–20), foi um povo ao mesmo tempo novo e velho: Novo porque surge como uma etnia nacional, diferenciada culturalmente de suas matrizes formadoras, fortemente mestiçada, dinamizada por uma cultura sincrética e singularizada pela redefinição de traços culturais delas oriundos. Também novo porque se vê a si mesmo e é visto como uma gente nova, um novo gênero humano Formação sociocultural do Brasil I8 diferente de quantos existam. Povo novo, ainda, porque é um novo modelo de estruturação societária, que inaugura uma forma singular de organização socioe- conômica, fundada num tipo renovado de escravismo e numa servidão continuada ao mercado mundial. Novo, inclusive, pela inverossímil alegria e espantosa vontade de felicidade, num povo tão sacrificado, que alenta e comove a todos os brasileiros. Velho, porém, porque se viabiliza como um proletariado externo. Quer dizer, como um implante ultramarino da expansão europeia que não existe para si mesmo, mas para gerar lucros exportáveis pelo exercício da função de provedor colonial de bens para o mercado mundial, através do desgaste da população que recruta no país ou importa. A sociedade e a cultura brasileiras são conformadas como variantes da versão lusitana da tradição civilizatória europeia ocidental, diferenciadas por coloridos herdados dos índios americanos e dos negros africanos. O Brasil emerge, assim, como um renovo mutante, remarcado de características próprias, mas atado genesicamente à matriz portuguesa, cujas potencialidades insuspeitadas de ser e de crescer só aqui se realizariam plenamente. Tais dinâmicas de poder influenciariam também a formação das iden- tidades dos diferentes povos que compunham a sociedade brasileira nos contextos da colonização e também dos dois períodos imperiais, até 1889. Isso porque “[...] a identidade é uma categoria social discursivamente construída, expressa e percebida por diferentes linguagens: escritas, corporais, gestu- ais, imagéticas, midiáticas” (MORENO, 2014, documento on-line), ou seja, a identidade é construída e percebida pelos sujeitos à medida que as práticas e comportamentos a ela associados são reproduzidos. Mais incisivamente do que a noção de cultura, a identidade implica a produção de discursos portadores de signos de identificação. Nem sempre um grupo com uma cultura em comum percebe-se, denomina-se, reconhece-se ou é objeto de discursos identitários. A identidade estaria ligada, desta forma, à representação da cultura de um ou mais grupos humanos (MORENO, 2014, documento on-line). Por isso, as dinâmicas das relações de poder são tão relevantes na for- mação das identidades: ao reafirmar e reproduzir lugares e condutas onde há privilegiados e oprimidos, cria-se a referência do pertencimento, o que pode dificultar ações de resistência. No Brasil, foi especialmente no trabalho doméstico e na relação estreita entre trabalhadoras negras e as famílias brancas que se operou a reprodução do lócus social pautado nas relações de poder coloniais. De acordo com Eneida Gaspar (2008), na língua e nos laços, as dinâmicas entre culturas que formam costumes novos e desenvolvem novas formações culturais podem ser vistas nas relações coloniais e pós-coloniais entre mulheres negras cuidadoras de crianças brancas, como você pode ver na cantiga “Neném bagunceiro”: Formação sociocultural do Brasil I 9 Neném faz lambança comendo canjica. Babá se enquizila e dá um chilique: — Moleque sapeca! Não faça bagunça! Nenê, encabulado, funga, faz dendo... Babá engambela, faz um cafuné: — Nana, nenê, que a Cuca já vem... Nenê esquece a fuzarca... bambeia...e cochila... (GASPAR, 2008, p. 21). Tais relações, repetidas em diversas unidades familiares por reproduzirem um padrão de dominação social, terminam exacerbando as unidades fami- liares e reproduzidas, fazendo parte do contexto cultural. No poema acima, para além das relações de cuidado entre a mulher e a criança cuidada, há a reprodução de palavras de origem banto, como “neném”, “cafuné”, “lambança”, que terminaram como parte da língua falada, o português do Brasil. Cultura imaterial A diáspora africana no Brasil causada pela escravização de povos negros influencia a formação da cultura brasileira, imprimindo impactos na cultura imaterial, incluindo o idioma, as religiões, a culinária, a música, mas também influencia os sentidos dados à essas expressões imateriais. Esses povos não aceitavam a condição da escravidão, e a partir do sé- culo XVI, fugindo dos engenhos e das fazendas escravistas, desenvolveram comunidades específicas onde pudessem viver em liberdade e onde suas tradições e saberes ancestrais pudessem ser protegidos e transmitidos aos descendentes. Observe o poema a seguir: Batuca o bumbo, sacoleja o caxixi, cutuca a cuíca, toca marimba e ganzá. Desencabula, saçarica na catira, ginga no samba, no fandango e carimbo (GASPAR, 2008, p. 21). Esse texto utiliza palavras de origem africana, trazidas ao Brasil por meio dos povos escravizados, que terminaram se tornando parte integrante do idioma, mas não apenas suas palavras e sentidos, como também aquilo que descrevem: a música, o ritmo e as manifestações culturais, provas da influência dos povos escravizados na formação da cultura imaterial nacional, como nos ritmos da catira, do samba, do carimbó e do fandango. Perceba que cada uma Formação sociocultural do Brasil I10 dessas expressões musicais se atrela a uma região específica do Brasil (o samba ao Sudeste, o fandango ao Sul, a catira ao Centro-Oeste e o carimbó ao Norte e Nordeste), mas são todas influenciadas pela perspectiva cultural, simbólica e linguística banto, povo africano escravizado e concentrado no Brasil especialmente na região do Rio de Janeiro. A sociedade brasileira multiétnica projeta nas expressões culturais tanto as origens dos povos quanto o produto das dinâmicas entre eles: dinâmicas de poder, de assimilação ou de confluência. O território do país era ocupado por nativos de diferentes etnias, formando milhares de microssociedades, mas que podem ser identificados por meio de quatro troncos linguísticos, que denotam coesão sociocultural entre si: nas faixas litorâneas, tupis-guaranis; na porção centro-oeste e do Planalto Central, macro-jê/tapuias; na região amazônica, dois troncos, aruaques e caraíbas (karib). Entre os povos negros escravizados, houve maior diversidade étnica entre o sudeste e o nordeste, sendo trazidos forçadamente povos bantos do Congo, Angola e Moçambique, para o Rio de Janeiro, Minas e São Paulo, enquanto povos sudaneses originários de Costa de Marfim e Nigéria foram levados às lavouras do nordeste, especialmente à Bahia. Foram trazidos ao Brasil aproximadamente 4 milhões de pessoas africanas até o século XIX (FLORENTINO, 1995). Você sabia que as comunidades e sociedades indígenas pré-colom- bianas, ou seja, que antecederam a ocupação colonial pela invasão de povos europeus no território, eram organizadas e possuíam delimitações específicas para centros comerciais, centros militares e centros religiosos? O processo de colonização buscou apagar as marcas dessas populações, atri- buindo-lhes uma imagem de desorganização e ausência de desenvolvimento artístico e cultural, o que os primeiros antropólogos chamavam de “primitivas”. Hoje, sabe-se que o conceito de primitivo é etnocêntrico, ou seja, considera uma cultura como centralizadora para análises comparativas. Saiba mais sobre essa reflexão no artigo “Urbanismo mesoamericano pré-colombiano: Teotihuacán” (BERNARDES, 2008). Formação sociocultural do Brasil I 11 Diferentes manifestações culturais: identidades coletivas e identidades ancestrais Os diferentes povos que formaram a sociedade brasileira não dispunham dos mesmos privilégios e acessos a itens de conforto, bem-estar e segurança, e tampouco a um processo de legitimação, configuração reforçada e continua- mente reproduzida principalmente por meio das relações trabalhistas, que marginalizavam os povos negros e anulavam os povos indígenas. Com a intensificação do processo de industrialização e expansão da urbanização no século XX, especialmente em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro, a configuração espacial das cidades passou também a reproduzir as dinâmicas e relações de poder que centralizam os brancos e marginalizam os não brancos. Vejamos o trecho a seguir sobre o espaço urbano da cidade de São Paulo na metade do século XIX: [...] as ruas, alamedas e praças da cidade, todas as suas áreas de circulação e reunião pública, estavam de posse dos escravos (que constituíam mais de 1/4 da população) e de homens livres humildes: tropeiros, vendeiros, lavradores. As famílias patriarcais viviam retiradas em seus sobrados. Não tinham pontos diários de reunião em público, nem passeios, nem centros de lojas, nem restaurantes elegantes (MORSE, 1970, p. 62). Essa reflexão percebe a ocupação dos espaços públicos pela população racial e economicamente marginalizada, o que, em tese, impedia a ocupação desses espaços pelas famílias patriarcais, pelas representantes das elites e do statu quo vigente. Essa percepção levou às reformas higienistas nos espaços urbanos em São Paulo e no Rio de Janeiro, que construíram praças, alamedas e passeios públicos a serem ocupados pelas elites em seu trânsito e lazer, numa tentativa de assemelhar as capitais brasileiras às capitais europeias, especialmente à Paris, símbolo da modernidade e da elegância associadas à riqueza capitalista emergente. Como um Estado que procurava modernizar-se e criar uma nova identi- dade nacional, a remodelação do espaço público fazia parte do processo. No entanto, a sociedade não foi interpretada como miscigenada e plural, embora única, como a premissa nacionalista divulgava: trabalhadores, escravizados e ex-escravizados eram retirados à força dos espaços públicos e até presos quando não cumpriam a ordem de abandonar os espaços destinados às “famílias tradicionais”. Formação sociocultural do Brasil I12 O entorno das praças e passeios públicos também foi afetado pelo projeto higienista urbano, demolindo moradias simples e levando à formação das favelas e cortiços às margens das cidades. As músicas e expressões artísticas de origem negra, como a capoeira e o samba, foram por décadas proibidas em espaços públicos e associados à “vadiagem”, punidos com prisão. Do período higienista até a década de 1930, o samba, ritmo criado por povos negros e associado à cultura brasileira como característica nacional, foi considerado vadiagem e punido com até 30 dias de prisão. Você pode saber mais sobre esse contexto na matéria “Carnaval 2020: quando tocar samba dava cadeia no Brasil” (CARNAVAL..., 2020). O samba continuou sendo tocado e vivido para além das áreas centrais das cidades remodeladas, como uma forma de resistência cultural que salientava a formação de microssociedades com identidades particulares e conectadas à ancestralidade. Assim, a ideia de possível homogeneidade que criou uma só cultura com o processo de miscigenação não existia de fato. Assim como a música, o sincretismo religioso pode ser visto como uma forma de resistência e sobrevivência à marginalização e à violência com que as manifestações religiosas de matriz africana, especialmente, mas também indígena, foram reprimidas. Roger Bastide (2001) pontua sobre as diferentes nações, ou etnias, de povos negros que formaram novas comunidades no Brasil a partir dos sujeitos escravizados, mesclando crenças e ritos já praticados, mas associando suas divindades às divindades católicas, aceitas pela elite branca: Os candombléspertencem a ‘nações’ diversas e perpetuam, portanto, tradições diferentes: angola, congo, jeje (isto é, euê), nagô (termo com que os franceses designavam todos os negros de fala ioruba), da Costa dos Escravos), queto, ijexá. É possível distinguir essas ‘nações’ umas das outras pela maneira de tocar o tambor (seja com a mão, seja com as varetas), pela música, pelo idioma dos cânticos, pelas vestes litúrgicas, algumas vezes pelos nomes das divindades, e enfim por certos traços do ritual. Todavia, a influência dos iorubás domina sem contestação o con- junto das seitas africanas, impondo seus deuses, a estrutura de suas cerimônias e sua metafísica aos daomeanos, aos bantos (BASTIDE, 2001, p. 29). O sincretismo resultou em diferentes expressões religiosas, sendo o can- domblé uma das mais proeminentes e que mais tarde terminou ganhando fiéis brancos e partícipes da elite. Não se trata de assimilação ou de aculturação; nesse caso, quando uma cultura dominante (por questões políticas ou eco- nômicas) é pouco a pouco absorvida por outra, passando a ter novos valores Formação sociocultural do Brasil I 13 e expressões da cultura assimilante, o sincretismo foi na verdade um projeto de resistência para a manutenção do culto a divindades de matriz africana. E essa escolha pode ter sido também reflexo da violência com que os colo- nizadores portugueses impuseram o catolicismo aos indígenas, especialmente por meio das missões jesuítas nas regiões sul, sudeste e amazônica, quando não apenas as crenças religiosas eram forçadamente trocadas por aquelas ditas como “verdadeiras”, mas para professá-las, era necessário adotar o idioma, as vestimentas, os hábitos alimentares e sociais dos colonizadores, despindo os povos indígenas de suas características socioculturais. De acordo com Darcy Ribeiro (2016), para além da formação triplo-étnica da sociedade brasileira entre brancos, negros e indígenas, que por si só con- tribui para a heterogeneidade cultural, há ainda as diferenças internas entre cada um desses povos, dadas as múltiplas sociedades indígenas, diferentes nacionalidades e etnias de povos negros e diferentes nacionalidades de povos brancos que, chegando após a colonização, puderam atrelar-se aos privilégios sociais e econômicos associados à elite dominante, como os italianos que chegaram ao Brasil durante o ciclo do café. Por isso, Ribeiro (2016) sustenta que até há uma unidade cultural e simbólica que forma a cultura e a ideia de nacionalidade brasileiras, mas nela não há uniformidade, sendo as diferenças influenciadas por três elementos principais. O primeiro deles, segundo Ribeiro (2016), é a ecologia (ambiente). De fato, os fatores ambientais geoclimáticos afetaram, em conjunto com as culturas ancestrais dos povos que chegaram durante a colonização, a formação de culturas locais, que se ligavam com expressões mais amplas e gerais, mas revelavam peculiaridades advindas dos diálogos diretos dos sujeitos com seus ambientes. O segundo elemento é a economia — nesse caso, o autor pondera sobre dois níveis: quais tipos de vínculo os povos tinham com a economia (escravi- zados, assalariados, nobres, mercadores) e a condição brasileira de colônia de exploração e em transição para uma economia capitalista autônoma, mas periférica. A construção do país como Estado capitalista a partir do século XIX tem impacto direto na formação sociocultural, derivada das formas de organização social do trabalho. Um exemplo é a escolha de trazer imigrantes europeus como trabalhadores assalariados para as lavouras paulistas, sem a integração econômica dos povos negros após a abolição da escravatura. Por fim, o terceiro elemento a influenciar diferenças é a imigração não negra, que especialmente a partir do século XVIII trouxe ao Brasil grandes contingentes de povos europeus, árabes e asiáticos, concentrados em regiões específicas do país. Assim, essas novas imigrações associadas a fatores Formação sociocultural do Brasil I14 como a economia (e suas relações de trabalho) e a influência geoclimática terminaram por criar expressões socioculturais, nas palavras de Ribeiro (2016), “abrasileiradas”. Isso significa que não houve aculturação, mas um processo de assimilação que nem absorveu a nova cultura por completo e nem a apagou, criando uma composição híbrida. Esses três fatores viriam a formar as expressões tipicamente brasileiras influenciadas por povos não nativos, “[...] como sertanejos do Nordeste, ca- boclos da Amazônia, crioulos do litoral, caipiras do Sudeste e centro do país, gaúchos das campanhas sulinas, além de ítalo-brasileiros, teuto-brasileiros, nipo-brasileiros” (RIBEIRO, 2016, p. 20). A unicidade não homogênea da composição sociocultural brasileira seria marcada, portanto, tanto pelo que os brasileiros têm em comum quanto pelas suas diferenças advindas de “[...] adaptações regionais ou funcionais, ou de miscigenação e aculturação que emprestam fisionomia própria a uma ou outra parcela da população” (RIBEIRO, 2016, p. 20). A partir da promulgação da Constituição de 1988, diversas formas de organização para horizontalização do diálogo e participação democrática entre Estado e sociedade civil foram determinadas, incluindo processos de descentralização administrativa, como conselhos de justiça e fóruns. Dois exemplos de organizações importantes na luta pela equidade social na sociedade brasileira contemporânea são o Fórum Nacional de Lideranças Indígenas e o Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (FNEEI). Por sua vez, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) mantém Comissões para Igualdade Racial em cada unidade federativa, promovendo o cumprimento das práticas de equidade descritas na Constituição nos processos legislativos. No Brasil, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicí- lios (PNAD) de 2019 (IBGE, 2019), 42,7% dos brasileiros se declararam brancos, 46,8% pardos, 9,4% pretos e 1,1% amarelo ou indígena. Dessa forma, 57,3%, a maioria dos brasileiros, entende-se como não branca, colocando em xeque a noção de minoria étnica não branca criada pela centralização colonizadora europeia, que manteve a população branca nas elites, com o passar do tempo e as diferentes formas de Estado e movimentações do tecido social. Mesmo que não pertençam às elites econômicas, no Brasil as populações brancas terminam por sentir com menor intensidade a exclusão capitalista e têm maior acessos a itens de bem-estar social, mobilidade social e efetividade da cidadania (Figura 2). Formação sociocultural do Brasil I 15 Figura 2. Composição social brasileira segundo a raça. Fonte: IBGE (2019, documento on-line). Esse reconhecimento é necessário para que se compreenda como o pas- sado e as relações de dominação e poder influenciam as dinâmicas sociais contemporâneas, especialmente aquelas nos espaços educacionais e de trabalho. No entanto, isso não elimina as facetas reais de integração entre as culturas que modelam a sociedade brasileira contemporânea, sobretudo por meio do idioma, da culinária e da música. A confluência de tantas e tão variadas matrizes formadoras poderia ter resultado numa sociedade multiétnica, dilacerada pela oposição de componentes dife- renciados e imiscíveis. Ocorreu justamente o contrário, uma vez que, apesar de sobreviverem na fisionomia somática e no espírito dos brasileiros os signos de sua múltipla ancestralidade, não se diferenciaram em antagônicas minorias raciais, culturais ou regionais, vinculadas a lealdades étnicas próprias e disputantes de autonomia frente à nação. As únicas exceções são algumas microetnias tribais que sobreviveram como ilhas, cercadas pela população brasileira. Ou que, vivendo para além das fronteiras da civilização, conservam sua identidade étnica. São tão peque- nas, porém, que qualquer que seja seu destino já não podem afetar à macroetnia em que estão contidas. O que tenham os brasileiros de singular em relação aos portugueses decorre das qualidades diferenciadorasoriundas de suas matrizes indígenas e africanas; da proporção particular em que elas se congregaram no Brasil; das condições ambientais que enfrentaram aqui e, ainda, da natureza dos objetivos de produção que as engajou e reuniu (RIBEIRO, 2016, p. 21). A sociedade multiétnica não homogênea, mas em unicidade, como pontua Ribeiro, exprime suas relações sociais e a interpretação das manifestações culturais e simbólicas na contemporaneidade por meio das dinâmicas de classe e poder orientadas pelo capitalismo periférico, dependente e neo- liberal. De acordo com Florestan Fernandes (1978), portanto, a sociedade Formação sociocultural do Brasil I16 brasileira organiza suas relações sociais por meio das relações de poder advindas da estratificação social, das associações entre classe e poder, já que os trabalhadores estariam sujeitos à lógica e ao projeto político das elites. Porém, as relações de poder entre as classes no Brasil seriam, segundo esse sociólogo, produto direto das relações raciais determinadas pelo processo de colonização. A luta dos povos indígenas na resistência à ditadura militar ocor- rida entre 1964 e 1985 se deu em um contexto em que a cultura, a identidade e as religiões indígenas foram ameaçadas de forma violenta por um modo de organização social em que a elite estruturalmente branca impunha, dessa vez segundo intenções e valores políticos, a sua própria visão de mundo. Para saber mais, acesse o site Memórias da Ditadura, verbete “Repressão e resistência”, subverbete “Indígenas”. Assim, compreender as dinâmicas socioculturais no Brasil é um trabalho em dois níveis, que têm características próprias, mas que nesse contexto não se separam, porque foram forjados segundo a mesma lógica: as relações de classe e as relações raciais exprimem um modelo capitalista de exploração racista. A noção de pertencimento e a identidade nacional foram legitimadas com o passar do tempo no país. No entanto, é preciso ter em mente a inexistência da homogeneidade cultural que seria produto da pretensa igualdade racial, comprovadamente uma falácia no Brasil, ainda que atualmente haja muito trabalho de grupos transversais na defesa de plataformas e políticas públicas que assegurem a equidade social. As marcas do racismo estrutural permanecem reproduzidas na so- ciedade contemporânea brasileira, uma vez que as contribuições dos povos negros parecem validadas pelas elites somente — e momentaneamente — quando sobressaem-se em manifestações artísticas ou esportivas, relegando à população preta brasileira os maiores índices de encarceramento, os maiores índices de violência obstétrica e os menores índices de acesso à educação superior. Reconhecer a violência escravocrata e, a partir de tal reconhecimento, desenvolver políticas públicas de reparação pode ser um caminho para que se alcance a equidade étnica na sociedade brasileira. Na letra da canção “Identidade”, de autoria do sambista Jorge Aragão, você pode observar um reflexo claro da segregação, do racismo estrutural e da violência simbólica expressas na marginalização de pessoas negras quando têm Formação sociocultural do Brasil I 17 de utilizar elevadores de serviço ao invés do social, uma separação tipicamente brasileira: Se preto de alma branca pra você É o exemplo da dignidade Não nos ajuda, só nos faz sofrer Nem resgata nossa identidade Elevador é quase um templo Exemplo pra minar teu sono Sai desse compromisso Não vai no de serviço Se o social tem dono, não vai Quem cede a vez não quer vitória Somos herança da memória Temos a cor da noite Filhos de todo açoite Fato real de nossa história (ARAGÃO, 2021, documento on-line). Referências ARAGÃO, J. Identidade. In: LETRAS. [S. l.: s. n.], 2021. Disponível em: https://www.letras. mus.br/jorge-aragao/77012/. Acesso em: 31 ago. 2021. BASTIDE, R. O candomblé da Bahia. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. BERNARDES, A. G. M. Urbanismo mesoamericano pré-colombiano: Teotihuacán. 2008. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) — Universidade de Brasília, Brasília, 2008. Disponível em: https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/11291/1/2008_An- dreaGoncalvesMoreiraBernardes.pdf. Acesso em: 31 ago. 2021. CARNAVAL 2020: quando tocar samba dava cadeia no Brasil. BBC News Brasil, 21 fev. 2020. Disponível em: https://www.terra.com.br/diversao/arte-e-cultura/carnaval-2020- -quando-tocar-samba-dava-cadeia-no-brasil,f4e5777d6b8e6820648c338bb1485afe- p9f6bszg.html. Acesso em: 31 ago. 2021. CARNEIRO, B. A cultura negra para além da escravidão. In: COMBATE racismo ambiental. [S. l.: s. n.], 2020. Disponível em: https://racismoambiental.net.br/2020/04/23/a-cultura- -negra-para-alem-da-escravidao. Acesso em: 31 ago. 2021. COLAVITE, A. P.; BARROS, M. V. F. Geoprocessamento aplicado a estudos do Caminho de Peabiru. Revista da ANPEGE, v. 5, p. 86–105, 2009. Disponível em: https://ojs.ufgd.edu. br/index.php/anpege/article/view/6590/3590. Acesso em: 31 ago. 2021. FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Tereza de Benguela, a Rainha Tereza. Brasília: Fun- dação Cultural Palmares, 2017. Disponível em: http://www.palmares.gov.br/?p=46450. Acesso em: 31 ago. 2021. GASPAR, E. Falando banto. 2. ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2008. IBGE. Desigualdades sociais por cor e raça no Brasil. Estudos e Pesquisas: informação demográfica e socioeconômica n. 41, p. 1–12, 2019. Disponível em: https://biblioteca. ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101681_informativo.pdf. Acesso em: 31 ago. 2021. FERNANDES, F. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Ática, 1978. FLORENTINO, M. G. Em costas negras: uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995. Formação sociocultural do Brasil I18 ROMÃO, T. L. C. Sicretismo religioso como estratégia de sobrevivência transnacional e translacional: divindades africanas e santos católicos. Trabalhos em Linguística Aplicada, n. 57.1, p. 353–381, jan./abr. 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ tla/a/BYNWpsPRxzMYh4gGGCwH5Vk/?lang=pt&format=pdf. Acesso em: 31 ago. 2021. MORSE, R. Formação Histórica de São Paulo: da comunidade a metrópole. 3. ed. São Paulo: Difusão Européia de Livro, 1970. MORENO, J. C. Revisitando o conceito de identidade nacional. In: RODRIGUES, C. C.; LUCA, T. R.; GUIMARÃES, V. (org.). Identidades brasileiras: composições e recomposições. São Paulo: Editora UNESP; Cultura Acadêmica, 2014. p. 7–29. Disponível em: http://books. scielo.org/id/h5jt2/pdf/rodrigues-9788579835155-03.pdf. Acesso em: 31 ago. 2021. RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Global Editora, 2016. Leituras recomendadas AQUINO, M. A.; SANTANA, V. A. Entre a informação e o conhecimento, imbricam-se tensas relações para inclusão de negros na sociedade contemporânea. Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação e Biblioteconomia, v. 6, n. 1, p. 41–51, 2012. Disponível em: http://www.brapci.inf.br/_repositorio/2011/07/pdf_640b99a40d_0017677.pdf. Acesso em: 31 ago. 2021. BRASIL. Fundação Nacional do Índio. 6º Fórum Nacional de Lideranças Indígenas. Brasília: FUNAI, [2021?]. Disponível em: http://www.funai.gov.br/index.php/comuni- cacao/galeria-de-imagens/2806-6-forum-nacional-de-liderancas-indigenas. Acesso em: 31 ago. 2021. CARVALHO, S. Os povos da América Latina Antes da invasão Europeia. Dossiê Terra indígena, [202-?]. Disponível em: http://fundacaoarapora.org.br/moitara/wp-content/ uploads/2017/05/V3-49-54-OS-POVOS-DA-AM%C3%89RICA-ANTES-DA-INVAS%C3%83O- -EUROP%C3%89IA.pdf. Acesso em: 31 ago. 2021. IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD). Características gerais dos domicílios e dos moradores 2019. Rio de Janeiro: IBGE, 2019. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101707_informativo.pdf. Acesso em: 31 ago. 2021. JESUS, C. M. de. Quarto de despejo. São Paulo: Ática, 2021. MEMÓRIAS DA DITADURA. Indígenas. [S. l.: s. n., 202-?]. Disponívelem: http://memo- riasdaditadura.org.br/indigenas/. Acesso em: 31 ago. 2021. OLIVEIRA, R. F. de O.; PARAÍSO, M. H. B. Tecendo memórias: identidade e resistência indígena no Planalto da Conquista nos fins do século XX e princípios do século XXI. Educação, Gestão e Sociedade: revista da Faculdade Eça de Queiros, ano 1, n. 2, p. 1–20, 2011. Disponível em: http://uniesp.edu.br/sites/_biblioteca/uploads/20170427132808. pdf. Acesso em: 31 ago. 2021. ORDEM DOS AVOGADOS DO BRASIL. Comissões: igualdade racial. São Paulo: OAB/ SP, 2021. Disponível em: https://www.oabsp.org.br/comissoes2010/igualdade-racial. Acesso em: 31 ago. 2021. SANTOS, M. A. Contribuição do Negro para a cultura brasileira. RTES: Temas em Educação e Saúde, v. 12, n. 2, p. 217–229, 2016. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/ tes/article/download/10229/6668. Acesso em: 31 ago. 2021. Formação sociocultural do Brasil I 19 SOCIEDADES indígenas brasileiras no século XVI. Rio de Janeiro: Multirio, [202-?]. Disponí- vel em: http://www.multirio.rj.gov.br/historia/modulo01/soc_indigenas.html#imagem2- 13-amp.html. Acesso em: 31 ago. 2021. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Formação sociocultural do Brasil I20 Dica do Professor A realidade cultural, social, política ou econômica de um país não pode ser explicada pela sua situação presente, uma vez que tudo faz parte de um longo processo histórico. A ocupação e a forma de colonização, os povos que constituíram e miscigenaram esse país, tudo isso explica a sociedade e sua realidade atual. Nesse vídeo, abordaremos a colonização e a formação da sociedade brasileira, o tipo de exploração de acordo com a realidade de Portugal e a diferenciação desta colonização da Espanha e Inglaterra. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/b3cb419f3c54b6c6ab48b1ed28a0b4ff Na prática Veja a seguir uma reflexão sobre a colonização portuguesa no Brasil. Saiba mais Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Sociologia Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! História - Formação Sociocultural do Brasil - 2/2 Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. História - Formação Sociocultural do Brasil - 1/2 Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://www.youtube.com/embed/rys4PmAa4BU https://www.youtube.com/embed/Mj8a9J9b6pw