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Unidade de Estudos 2 - Formação 
sociocultural do Brasil I
Apresentação
A realidade cultural, social, política ou econômica de um país não pode se explicar apenas pela 
situação presente. Tudo o que vivemos faz parte de um longo processo histórico, que encontra 
raízes no modo de viver em sociedade dos nossos ancestrais. O processo pelo qual o Brasil foi 
ocupado e colonizado; a diversidade de povos que constituíram esse país; a forma como esses 
povos se miscigenaram e se multiplicaram pelas diversas regiões do nosso território; tudo isso 
explica em muito quem é o brasileiro e a sociedade brasileira atual.
Bons estudos.
Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Reconhecer a realidade social e cultural do Brasil.•
Explicar os efeitos da ocupação e colonização brasileira.•
Valorizar as diferentes manifestações culturais de etnias e raças (negra, indígena, branca).•
Infográfico
No mercantilismo, a riqueza dos países era medida pelo lucro advindo das trocas comerciais. 
Portugal não possuía grandes manufaturas (fábricas) e precisava importar produtos de outros 
países, principalmente da Inglaterra. Em troca, deveria oferecer a matéria-prima produzida de suas 
colônias. Observe o infográfico.
Conteúdo do Livro
Nesse capítulo, você conhecerá os elementos que formaram a conjuntura histórica que leva à 
formação da realidade social e cultural do Brasil contemporâneo. Embora a noção contemporânea 
de nacionalidade tenha sido cunhada pela ideia de pertencimento e de construção de laços sociais 
internos a partir da proclamação da República, como parte da legitimação do processo de 
constituição da nova forma de Estado após o fim do Império, ainda reflete as estruturas de 
organização social provenientes da colonização. 
Assim, ao longo do texto, você verá quais foram os impactos da colonização e os três povos que 
formam a base da sociedade brasileira, tendo em vista as dinâmicas de poder entre colonizadores e 
colonizados que coloca em xeque o mito da igualdade racial. 
Verá ainda a grande contribuição cultural das diversas etnias de povos negros para a formação das 
práticas sociais e expressões culturais brasileiras, da língua à música, mas tendo pontuadas as 
dinâmicas de violência resultantes da escravização, reproduzidas nas relações familiares, e 
principalmente, nas relações de trabalho. 
Por fim, entenderá que a multiplicidade étnica da sociedade brasileira forma unicidade identitária, 
mas ao mesmo tempo, promove particularidades reconhecidas internamente, pelos sujeitos sociais. 
Além disso, verá que o reconhecimento da desigualdade racial dentro da premissa de unicidade 
social é o caminho para o desenvolvimento de ações de resistência, preservação das memórias e 
das identidades, assim como para a equidade social."
Boa leitura!
HUMANIDADES
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
• Reconhecer a realidade social e cultural do Brasil.
• Explicar os efeitos da ocupação e colonização brasileira.
• Valorizar as diferentes manifestações culturais de etnias e raças.
Introdução
Neste capítulo, você vai compreender quais foram as origens da formação da 
sociedade brasileira contemporânea, retomando a premissa da organização 
colonial e as dinâmicas estabelecidas entre os povos colonizadores, os povos 
e sociedades que já existiam no território brasileiro e os povos que mais tarde 
foram trazidos — forçados ou de forma livre.
Vai compreender também que as relações sociais foram determinadas pelo 
tipo de organização econômica estabelecida, e, por isso, a utilização de mão de 
obra escravizada teve grande influência nas manifestações simbólicas e culturais 
da sociedade em formação, especialmente nas relações familiares afetivas que 
se constituam entre cuidadores negros e as crianças brancas.
Por fim, verá que houve e há resistência de diferentes composições étnicas, 
especialmente negra e indígena, ao longo de todo o processo de constituição da 
sociedade brasileira contemporânea, identificando a importância de reconhecer 
Formação 
sociocultural 
do Brasil I
Aline Michele Nascimento Augustinho
as dinâmicas de poder e de classe na manutenção de privilégios que afastam as 
elites das bases das pirâmides sociais.
Origens socioculturais do Brasil
O Brasil republicano foi simbolicamente desenhado como uma nação miscige-
nada, formada por várias culturas que não apenas conviveriam pacificamente, 
mas que também contribuíram para a formação de uma cultura e de uma 
identidade nacionais exclusivas do Brasil. Porém, nas reflexões acadêmicas 
e sociais que se realizam, ao olhar para as culturas que formam a identidade 
brasileira é possível identificar as falácias no discurso da miscigenação pacífica 
e integradora. Muito embora seja verdade que a identidade nacional e os 
elementos culturais que a permeiam — como a música, as artes, o idioma, a 
culinária, as tradições, religiões, costumes e comportamentos sociais — sejam 
de fato produto da interação de culturas de diferentes origens, especialmente 
de povos indígenas, povos negros e povos europeus, não é mais possível que 
no século XXI se reproduza a ideia da miscigenação sem a reflexão da violência 
estrutural resultante das relações de poder entre esses povos.
A reflexão sobre essas relações de poder, além de oferecer melhor compre-
ensão sobre a história do país, pode ainda contribuir para políticas públicas 
de reparação de violências e injustiças, reorganizando as dinâmicas sociais 
contemporâneas e ajustando os espaços e acessos de povos de diferentes 
origens aos itens de bem-estar social e à efetivação da cidadania, como assim 
define a Constituição Federal de 1988.
Para compreender como se constitui a realidade social e cultural do Bra-
sil contemporâneo, com suas possibilidades, desafios e a necessidade de 
resgates históricos, é necessário antes retomar as origens dessa sociedade. 
Retomar o processo de colonização é fundamental, mas, para compreender 
a formação de nossa identidade brasileira contemporânea, é preciso retomar 
o contexto de formação da república brasileira.
É na formação do Estado-nação republicano, no final do século XIX, que 
surgiu a necessidade de criação de um elemento simbólico que levasse os 
sujeitos à validar a noção de pertencimento à nação. A noção de pertenci-
mento é um dado simbólico que influencia a formação da identidade dos 
sujeitos, associando tais identidades aos laços sociais constituídos em sua 
formação como um sujeito que pertence a determinada cultura, que pertence 
a determinado país. 
A noção de pertencimento foi intencionalmente desenvolvida no Brasil 
republicano especialmente por meio da educação pública, a fim de difundir 
Formação sociocultural do Brasil I2
o conceito de identidade nacional — e esse pressuposto tinha um objetivo 
político: o fim do Império. Nesse sentido, o exílio do imperador Dom Pedro 
II não foi um ato de ruptura popular com o absolutismo, como aconteceu na 
Europa dos séculos XVIII e XIX. Pelo contrário, o imperador Dom Pedro II era 
benquisto pelos brasileiros de classes mais baixas, que não participaram do 
movimento golpista que levou à constituição da República.
Assim, a construção da sensação de pertencimento ajudava a formar e 
legitimar a identidade nacional, e essa identidade, por sua vez, estreitaria 
os laços do povo com o novo Estado e sua forma de organização e governo, 
prevenindo movimentos separatistas, mantendo unido o território vasto do 
antigo Império e salientando a unidade nacional frente a possíveis ameaças 
externas.
Naquele momento, no final do século XIX, a constituição da República 
buscava criar a imagem de um país moderno e economicamente alinhado às 
principais potências capitalistas mundiais — Estados Unidos e França. Para 
isso, os ideais de liberdade, igualdade e participação que permearam as 
revoluções burguesas nesses dois países precisavam ser aqui reproduzidas, 
com a transição da forma do Estado monárquico para o republicano. 
Assim, buscou-se criar elementos simbólicosque afastassem a memória 
social dos contextos de colonização e da égide da monarquia portuguesa 
como expressões de dominação europeia — muito embora o país fosse inde-
pendente desde 1822, os laços com a coroa portuguesa não foram cortados, 
mesmo que a monarquia brasileira se mostrasse mais conectada ao Brasil 
que às memórias das cortes europeias.
Na busca pela criação de uma identidade nacional que se descolasse das 
memórias coloniais e do impacto da dominação cultural, política e econômica, 
as dinâmicas de poder entre as culturas que formariam o povo e a identidade 
culturais brasileiras foram moldadas para salientar uma espécie de simbiose 
entre diferentes culturas, apagando um histórico de dominação e violência.
Assim, surgiu a noção de que povo brasileiro, miscigenado entre povos 
negros, brancos e indígenas, convivia em paz com as diferentes origens 
que formariam uma só cultura, diversificada, única e sobretudo pacífica e 
integrada.
Desse modo, a identidade nacional e a noção de pertencimento foram 
estabelecidas no início do século XX, resultando na manutenção de violências 
estruturais e simbólicas de povos durante a colonização, com a valorização da 
influência dos povos europeus, sem, no entanto, que se admitisse a existência 
do racismo, levando à formação do mito da igualdade racial.
Formação sociocultural do Brasil I 3
De acordo com o sociólogo brasileiro Florestan Fernandes (1978), a socie-
dade brasileira do século XX foi pautada no mito da igualdade entre todos seus 
componentes étnicos, o que, segundo sua perspectiva, seria uma inverdade, 
já que as relações raciais coloniais mantiveram os traços de segregação e 
violência na constituição da divisão social do trabalho capitalista no Brasil 
do século XX. Nesse âmbito, os negros seguiram marginalizados nas dinâ-
micas sociais com as elites, tendo acesso restrito ao trabalho e à educação 
e reproduzindo dispositivos que impediam sua autonomia.
No próximo tópico, você verá como se deu o reconhecimento dos povos 
nativos e das sociedades já estabelecidas no território que se tornaria o 
Brasil no contexto da colonização.
Ocupação e colonização brasileira
Consideradas as interações múltiplas e a intenção sociopolítica na criação do 
conceito de identidade nacional e da noção de pertencimento para o fortale-
cimento e legitimação da República, chega o momento de uma reflexão que 
retoma pontos históricos ainda mais longínquos: o processo de colonização.
Afinal, é a partir desse processo que o Brasil se torna um Estado, com 
uma sociedade que submete às regras legais e de conduta centrais. Isso, 
porém, não significa que uma sociedade com cultura, condutas e hábitos 
particulares se estabelece apenas com a colonização. Antes da ocupação do 
território brasileiro pelos portugueses, a região era habitada por diferentes 
povos indígenas, que mantinham dinâmicas internas específicas de auxílio 
mútuo ou de belicosidade, de trocas comerciais e disputas territoriais. 
Assim, é preciso ressaltar que sociedades nativas, indígenas, ocupavam 
o território brasileiro antes da chegada e da posterior ocupação forçada 
dos portugueses. Aliás, esses povos nativos mantinham contato e trocas 
comerciais e culturais por toda a América do Sul, estabelecendo diálogos 
com grandes impérios nativos como os Incas, na região do Peru, até os Maias, 
na América Central. 
Uma das provas dessas dinâmicas é o Caminho de Peabiru, uma trilha de 
cerca de 3 mil quilômetros de extensão, em muitas partes pavimentada com 
pedras, que ligava o litoral de São Paulo, na região de São Vicente, à região 
de Cuzco, no Peru, coração do Império Inca antes da invasão e colonização 
espanhola naquela região (Figura 1). 
Formação sociocultural do Brasil I4
Figura 1. Trajetória pré-colombiana do Caminho de Peabiru, do litoral de São Paulo até a 
região de Cuzco, capital do antigo Império Inca, no Peru.
Fonte: Colavite e Barros (2009, p. 89).
A trilha apresentava centenas de “ramais”, pequenas trilhas anexas que 
ligavam a trilha central a aldeias e comunidades, de modo que o Caminho de 
Peabiru se configurava como instrumento de comunicação e troca comercial 
local e intercontinental, mesmo considerando a multiplicidade de etnias, 
idiomas e culturas indígenas nativas ao longo do trajeto.
Apenas com o reconhecimento do Caminho de Peabiru já é possível refletir 
sobre pontos importantes do processo de formação cultural da sociedade 
brasileira: em primeiro plano, havia sociedades plenamente estabelecidas 
num território que foi invadido por um povo colonizador, que tomou para si 
as terras e suas riquezas. 
Nesse contexto, houve um processo de imposição pela força, de modo 
que o povo colonizador, os portugueses, pudesse subjugar os povos nativos, 
Formação sociocultural do Brasil I 5
forçando-os ao trabalho segundo sua definição, invadindo e destruindo 
vilarejos, raptando crianças para a formação católica forçada — desse modo 
aprenderiam o idioma do colonizador, seus valores morais por meio da religião, 
e poderiam ser mais facilmente controlados, afastados de sua cultura nativa.
Os primeiros 60 anos de colonização, concentrados nas regiões de São 
Vicente, sul da Bahia e Recife, foram orientados à exploração de bens já 
disponíveis, como o pau-brasil, enquanto testes de adaptabilidade do solo 
para o plantio de cana-de-açúcar e cacau eram realizados. Nesse contexto, a 
mão de obra indígena, também escravizada, era a utilizada. Os portugueses 
estabeleceram-se como senhores da terra ocupada, legalizando a ocupação 
com outros europeus, os espanhóis, com os quais dividiram as porções con-
tinentais a serem exploradas. 
De modos diversos, os dois povos colonizadores buscaram anular as or-
ganizações sociais já estabelecidas no período pré-ocupação, e isso significa 
não apenas a imposição de violência e exploração de mão de obra escravizada, 
mas o apagamento de itens simbólicos, como fortificações, estruturas urbanas, 
templos e totens religiosos, além do impedimento da comunicação entre as 
comunidades, o que dificultava — mas não impedia — a resistência nativa.
Há dois fatores nesse processo que levaram os portugueses a inserirem 
a mão de obra de povos negros escravizados no Brasil: em primeiro lugar, 
a adaptação da cana-de-açúcar ao clima e ao solo do nordeste brasileiro. A 
criação de engenhos exigia conhecimento técnico que os nativos indígenas 
não possuíam e relutavam em aplicar. No entanto, tanto Portugal quanto 
Espanha, Holanda, Inglaterra e França já haviam utilizado mão de obra de 
povos africanos escravizados em plantios na América Central. 
A experiência anterior de escravização levou os colonizadores a iniciarem 
a forçada diáspora africana para o Brasil, cumprindo a necessidade de criar, 
expandir e movimentar os engenhos de cana-de-açúcar. Essa ação teve ainda 
cunho político: com o território do nordeste tendo sua população ampliada e 
atividades comerciais mais ativas, mantinha-se afastada a ameaça de invasão 
holandesa, intenção que permaneceu ativa até o século XVIII.
O segundo fator foi a necessidade de ocupação territorial continental, ou 
seja, a expansão das atividades para além da faixa costeira. Essa necessidade 
surgiu já no século XVII, quando o sucesso na exploração de ouro e minerais 
preciosos na porção continental ocupada pela Espanha levou os portugueses 
a temerem que a exploração espanhola ultrapassasse os limites acordados, 
além da perspectiva de encontrar ouro em abundância mais ao interior do 
continente.
Formação sociocultural do Brasil I6
Assim, em busca de minas e veios de ouro iniciou-se a expansão territorial 
e a ocupação por meio da composição de vilarejos e cidades em torno de 
regiões com veios e minas de ouro na região sudeste. Como as incursões 
exploratórias não permitiam lutar com indígenas, ocupar espaços e formar 
vilarejos sem os retornos financeiros esperados, a mão de obra de povos 
negros foi inserida já no processo de exploração do território.
Com a paulatina ocupação do litoralbrasileiro principalmente pelos colonizadores 
portugueses, para além de tentativas de ocupação francesa e holandesa, acarre-
taram-se imensos prejuízos para os inúmeros grupos étnicos, que se destacavam 
por sua diversidade linguística, religiosa e cultural, e que foram progressivamente 
reduzidos ou, em muitos casos, até mesmo dizimados. Com o tempo, os atos de 
violência perpetrados pelos invasores de Pindorama também passaram a ter 
como alvo diversas etnias africanas que foram sequestradas de seus respectivos 
territórios de origem, para serem então comercializadas e exploradas no Brasil 
Colônia de forma inumana (ROMÃO, 2018, documento on-line).
Ao longo do tempo, com a expansão territorial e a consolidação dos vilare-
jos e expansão da população portuguesa chegada para explorar o território, 
crescia também a presença de escravizados negros, ao passo que diminuía 
a de povos nativos, mortos pela recusa a ceder território ou pela recusa à 
escravização.
A ocupação inicial do território brasileiro oferece então a composição social 
da nova colônia: no topo da pirâmide social, nobres e ricos comerciantes. Na 
base, os povos explorados: povos negros e indígenas escravizados. Havia 
também pessoas brancas não nobres, que partiam de Portugal em busca 
de oportunidades no Novo Mundo, mas que viam-se sem lócus, sem espaço 
social a ser ocupado na ausência de titulação aristocrática, grandes posses ou 
carreira militar. Essas pessoas, no entanto, foram importantes para estruturar 
os vilarejos e o processo de ocupação territorial.
Se por um lado observaram-se formas de controle e imposição do poderio 
do colonizador, por meio da violência e da catequese (imposição religiosa, 
fonte do apagamento cultural nativo), observou-se no Brasil Colônia também o 
processo de resistência que levaria a importantes núcleos da cultura nacional: 
a formação dos quilombos.
Os quilombos eram territórios social, política, econômica e militarmente 
organizados, que recebiam povos negros e também indígenas que fugiam da 
condição de escravidão. Tais territórios promoviam a autossustentabilidade, já 
que não podiam expor sua localização, sobretudo quando especializavam-se 
na insurgência e no enfrentamento do poder dos colonizadores. Havia, porém, 
Formação sociocultural do Brasil I 7
aqueles que atuavam também no comércio, com os excedentes produzidos 
e artesanatos.
Tereza de Benguela é um exemplo de líder quilombola que orientava sua 
microssociedade, o Quilombo de Cariterê, ao comércio, mas também à ativi-
dade bélica. Segundo Anal de Vila Bela do ano de 1770, no atual Mato Grosso:
Governava esse quilombo a modo de parlamento, tendo para o conselho uma 
casa destinada, para a qual, em dias assinalados de todas as semanas, entrava os 
deputados, sendo o de maior autoridade, tipo por conselheiro, José Piolho, escravo 
da herança do defunto Antônio Pacheco de Morais, Isso faziam, tanto que eram 
chamados pela rainha, que era a que presidia e que naquele negral Senado se 
assentava, e se executava à risca, sem apelação nem agravo (FUNDAÇÃO CULTURAL 
PALMARES, 2017, documento on-line).
Uma das táticas de apagamento da cultura nativa indígena e so-
breposição forçada da cultura colonizadora era a disseminação 
da ideia de inferioridade artística ou intelectual e de inverdade associada às 
religiões indígenas. Assim, ao mesmo tempo em que se disseminava a noção 
de superioridade cultural das sociedades europeias, atribuía-se as ações de 
violência e até extermínio à ideia de auxílio no desenvolvimento, ou seja, de que 
os europeus estariam ajudando os nativos a conhecerem culturas mais eficien-
tes, mais desenvolvidas e superiores. Essa ideia parte da violência simbólica, 
mas concretiza-se em violência real, e fez parte do itinerário do desenrolar da 
sociedade brasileira republicana, com a noção de marginalização atribuída às 
expressões culturais e religiosas de matrizes indígenas e africanas (CARNEIRO, 
2020). 
Colonização e relações de poder
O processo de colonização determinou um padrão de relacionamentos sociais 
em que havia dinâmicas de poder estabelecidas entre dominadores e domina-
dos: colonizadores, brancos europeus, determinaram a língua, a religião e as 
formas de organização social que regrariam as condutas coletivas, como na 
formação de famílias ou exercício do trabalho. O que surgiu, com isso, segundo 
Darcy Ribeiro (2016, p. 19–20), foi um povo ao mesmo tempo novo e velho:
Novo porque surge como uma etnia nacional, diferenciada culturalmente de suas 
matrizes formadoras, fortemente mestiçada, dinamizada por uma cultura sincrética 
e singularizada pela redefinição de traços culturais delas oriundos. Também novo 
porque se vê a si mesmo e é visto como uma gente nova, um novo gênero humano 
Formação sociocultural do Brasil I8
diferente de quantos existam. Povo novo, ainda, porque é um novo modelo de 
estruturação societária, que inaugura uma forma singular de organização socioe-
conômica, fundada num tipo renovado de escravismo e numa servidão continuada 
ao mercado mundial. Novo, inclusive, pela inverossímil alegria e espantosa vontade 
de felicidade, num povo tão sacrificado, que alenta e comove a todos os brasileiros. 
Velho, porém, porque se viabiliza como um proletariado externo. Quer dizer, como 
um implante ultramarino da expansão europeia que não existe para si mesmo, 
mas para gerar lucros exportáveis pelo exercício da função de provedor colonial 
de bens para o mercado mundial, através do desgaste da população que recruta 
no país ou importa. 
A sociedade e a cultura brasileiras são conformadas como variantes da versão 
lusitana da tradição civilizatória europeia ocidental, diferenciadas por coloridos 
herdados dos índios americanos e dos negros africanos. O Brasil emerge, assim, 
como um renovo mutante, remarcado de características próprias, mas atado 
genesicamente à matriz portuguesa, cujas potencialidades insuspeitadas de ser 
e de crescer só aqui se realizariam plenamente.
Tais dinâmicas de poder influenciariam também a formação das iden-
tidades dos diferentes povos que compunham a sociedade brasileira nos 
contextos da colonização e também dos dois períodos imperiais, até 1889. Isso 
porque “[...] a identidade é uma categoria social discursivamente construída, 
expressa e percebida por diferentes linguagens: escritas, corporais, gestu-
ais, imagéticas, midiáticas” (MORENO, 2014, documento on-line), ou seja, a 
identidade é construída e percebida pelos sujeitos à medida que as práticas 
e comportamentos a ela associados são reproduzidos. 
Mais incisivamente do que a noção de cultura, a identidade implica a produção 
de discursos portadores de signos de identificação. Nem sempre um grupo com 
uma cultura em comum percebe-se, denomina-se, reconhece-se ou é objeto de 
discursos identitários. A identidade estaria ligada, desta forma, à representação 
da cultura de um ou mais grupos humanos (MORENO, 2014, documento on-line).
Por isso, as dinâmicas das relações de poder são tão relevantes na for-
mação das identidades: ao reafirmar e reproduzir lugares e condutas onde 
há privilegiados e oprimidos, cria-se a referência do pertencimento, o que 
pode dificultar ações de resistência. 
No Brasil, foi especialmente no trabalho doméstico e na relação estreita 
entre trabalhadoras negras e as famílias brancas que se operou a reprodução 
do lócus social pautado nas relações de poder coloniais. De acordo com Eneida 
Gaspar (2008), na língua e nos laços, as dinâmicas entre culturas que formam 
costumes novos e desenvolvem novas formações culturais podem ser vistas 
nas relações coloniais e pós-coloniais entre mulheres negras cuidadoras de 
crianças brancas, como você pode ver na cantiga “Neném bagunceiro”:
Formação sociocultural do Brasil I 9
Neném faz lambança comendo canjica.
Babá se enquizila e dá um chilique:
— Moleque sapeca! Não faça bagunça!
Nenê, encabulado, funga, faz dendo...
Babá engambela, faz um cafuné:
— Nana, nenê, que a Cuca já vem...
Nenê esquece a fuzarca... bambeia...e cochila... (GASPAR, 2008, p. 21).
Tais relações, repetidas em diversas unidades familiares por reproduzirem 
um padrão de dominação social, terminam exacerbando as unidades fami-
liares e reproduzidas, fazendo parte do contexto cultural. No poema acima, 
para além das relações de cuidado entre a mulher e a criança cuidada, há a 
reprodução de palavras de origem banto, como “neném”, “cafuné”, “lambança”, 
que terminaram como parte da língua falada, o português do Brasil.
Cultura imaterial 
A diáspora africana no Brasil causada pela escravização de povos negros 
influencia a formação da cultura brasileira, imprimindo impactos na cultura 
imaterial, incluindo o idioma, as religiões, a culinária, a música, mas também 
influencia os sentidos dados à essas expressões imateriais.
Esses povos não aceitavam a condição da escravidão, e a partir do sé-
culo XVI, fugindo dos engenhos e das fazendas escravistas, desenvolveram 
comunidades específicas onde pudessem viver em liberdade e onde suas 
tradições e saberes ancestrais pudessem ser protegidos e transmitidos aos 
descendentes. Observe o poema a seguir:
Batuca o bumbo,
sacoleja o caxixi,
cutuca a cuíca,
toca marimba e ganzá.
Desencabula,
saçarica na catira,
ginga no samba,
no fandango e carimbo (GASPAR, 2008, p. 21).
Esse texto utiliza palavras de origem africana, trazidas ao Brasil por meio 
dos povos escravizados, que terminaram se tornando parte integrante do 
idioma, mas não apenas suas palavras e sentidos, como também aquilo que 
descrevem: a música, o ritmo e as manifestações culturais, provas da influência 
dos povos escravizados na formação da cultura imaterial nacional, como nos 
ritmos da catira, do samba, do carimbó e do fandango. Perceba que cada uma 
Formação sociocultural do Brasil I10
dessas expressões musicais se atrela a uma região específica do Brasil (o 
samba ao Sudeste, o fandango ao Sul, a catira ao Centro-Oeste e o carimbó 
ao Norte e Nordeste), mas são todas influenciadas pela perspectiva cultural, 
simbólica e linguística banto, povo africano escravizado e concentrado no 
Brasil especialmente na região do Rio de Janeiro.
A sociedade brasileira multiétnica projeta nas expressões culturais tanto 
as origens dos povos quanto o produto das dinâmicas entre eles: dinâmicas 
de poder, de assimilação ou de confluência. O território do país era ocupado 
por nativos de diferentes etnias, formando milhares de microssociedades, 
mas que podem ser identificados por meio de quatro troncos linguísticos, que 
denotam coesão sociocultural entre si: nas faixas litorâneas, tupis-guaranis; 
na porção centro-oeste e do Planalto Central, macro-jê/tapuias; na região 
amazônica, dois troncos, aruaques e caraíbas (karib).
Entre os povos negros escravizados, houve maior diversidade étnica 
entre o sudeste e o nordeste, sendo trazidos forçadamente povos bantos 
do Congo, Angola e Moçambique, para o Rio de Janeiro, Minas e São Paulo, 
enquanto povos sudaneses originários de Costa de Marfim e Nigéria foram 
levados às lavouras do nordeste, especialmente à Bahia. Foram trazidos ao 
Brasil aproximadamente 4 milhões de pessoas africanas até o século XIX 
(FLORENTINO, 1995).
Você sabia que as comunidades e sociedades indígenas pré-colom-
bianas, ou seja, que antecederam a ocupação colonial pela invasão 
de povos europeus no território, eram organizadas e possuíam delimitações 
específicas para centros comerciais, centros militares e centros religiosos? O 
processo de colonização buscou apagar as marcas dessas populações, atri-
buindo-lhes uma imagem de desorganização e ausência de desenvolvimento 
artístico e cultural, o que os primeiros antropólogos chamavam de “primitivas”. 
Hoje, sabe-se que o conceito de primitivo é etnocêntrico, ou seja, considera uma 
cultura como centralizadora para análises comparativas. Saiba mais sobre essa 
reflexão no artigo “Urbanismo mesoamericano pré-colombiano: Teotihuacán” 
(BERNARDES, 2008). 
Formação sociocultural do Brasil I 11
Diferentes manifestações culturais: 
identidades coletivas e identidades 
ancestrais
Os diferentes povos que formaram a sociedade brasileira não dispunham dos 
mesmos privilégios e acessos a itens de conforto, bem-estar e segurança, e 
tampouco a um processo de legitimação, configuração reforçada e continua-
mente reproduzida principalmente por meio das relações trabalhistas, que 
marginalizavam os povos negros e anulavam os povos indígenas. 
Com a intensificação do processo de industrialização e expansão da 
urbanização no século XX, especialmente em capitais como São Paulo e Rio 
de Janeiro, a configuração espacial das cidades passou também a reproduzir 
as dinâmicas e relações de poder que centralizam os brancos e marginalizam 
os não brancos. Vejamos o trecho a seguir sobre o espaço urbano da cidade 
de São Paulo na metade do século XIX:
[...] as ruas, alamedas e praças da cidade, todas as suas áreas de circulação e 
reunião pública, estavam de posse dos escravos (que constituíam mais de 1/4 
da população) e de homens livres humildes: tropeiros, vendeiros, lavradores. As 
famílias patriarcais viviam retiradas em seus sobrados. Não tinham pontos diários 
de reunião em público, nem passeios, nem centros de lojas, nem restaurantes 
elegantes (MORSE, 1970, p. 62).
Essa reflexão percebe a ocupação dos espaços públicos pela população 
racial e economicamente marginalizada, o que, em tese, impedia a ocupação 
desses espaços pelas famílias patriarcais, pelas representantes das elites 
e do statu quo vigente.
Essa percepção levou às reformas higienistas nos espaços urbanos em 
São Paulo e no Rio de Janeiro, que construíram praças, alamedas e passeios 
públicos a serem ocupados pelas elites em seu trânsito e lazer, numa tentativa 
de assemelhar as capitais brasileiras às capitais europeias, especialmente à 
Paris, símbolo da modernidade e da elegância associadas à riqueza capitalista 
emergente.
Como um Estado que procurava modernizar-se e criar uma nova identi-
dade nacional, a remodelação do espaço público fazia parte do processo. No 
entanto, a sociedade não foi interpretada como miscigenada e plural, embora 
única, como a premissa nacionalista divulgava: trabalhadores, escravizados 
e ex-escravizados eram retirados à força dos espaços públicos e até presos 
quando não cumpriam a ordem de abandonar os espaços destinados às 
“famílias tradicionais”. 
Formação sociocultural do Brasil I12
O entorno das praças e passeios públicos também foi afetado pelo projeto 
higienista urbano, demolindo moradias simples e levando à formação das 
favelas e cortiços às margens das cidades. As músicas e expressões artísticas 
de origem negra, como a capoeira e o samba, foram por décadas proibidas 
em espaços públicos e associados à “vadiagem”, punidos com prisão.
Do período higienista até a década de 1930, o samba, ritmo criado 
por povos negros e associado à cultura brasileira como característica 
nacional, foi considerado vadiagem e punido com até 30 dias de prisão. Você 
pode saber mais sobre esse contexto na matéria “Carnaval 2020: quando tocar 
samba dava cadeia no Brasil” (CARNAVAL..., 2020). 
O samba continuou sendo tocado e vivido para além das áreas centrais das 
cidades remodeladas, como uma forma de resistência cultural que salientava 
a formação de microssociedades com identidades particulares e conectadas 
à ancestralidade. Assim, a ideia de possível homogeneidade que criou uma 
só cultura com o processo de miscigenação não existia de fato.
Assim como a música, o sincretismo religioso pode ser visto como uma 
forma de resistência e sobrevivência à marginalização e à violência com que 
as manifestações religiosas de matriz africana, especialmente, mas também 
indígena, foram reprimidas. Roger Bastide (2001) pontua sobre as diferentes 
nações, ou etnias, de povos negros que formaram novas comunidades no Brasil 
a partir dos sujeitos escravizados, mesclando crenças e ritos já praticados, mas 
associando suas divindades às divindades católicas, aceitas pela elite branca:
Os candombléspertencem a ‘nações’ diversas e perpetuam, portanto, tradições 
diferentes: angola, congo, jeje (isto é, euê), nagô (termo com que os franceses 
designavam todos os negros de fala ioruba), da Costa dos Escravos), queto, ijexá. É 
possível distinguir essas ‘nações’ umas das outras pela maneira de tocar o tambor 
(seja com a mão, seja com as varetas), pela música, pelo idioma dos cânticos, pelas 
vestes litúrgicas, algumas vezes pelos nomes das divindades, e enfim por certos 
traços do ritual. Todavia, a influência dos iorubás domina sem contestação o con-
junto das seitas africanas, impondo seus deuses, a estrutura de suas cerimônias 
e sua metafísica aos daomeanos, aos bantos (BASTIDE, 2001, p. 29).
O sincretismo resultou em diferentes expressões religiosas, sendo o can-
domblé uma das mais proeminentes e que mais tarde terminou ganhando fiéis 
brancos e partícipes da elite. Não se trata de assimilação ou de aculturação; 
nesse caso, quando uma cultura dominante (por questões políticas ou eco-
nômicas) é pouco a pouco absorvida por outra, passando a ter novos valores 
Formação sociocultural do Brasil I 13
e expressões da cultura assimilante, o sincretismo foi na verdade um projeto 
de resistência para a manutenção do culto a divindades de matriz africana.
E essa escolha pode ter sido também reflexo da violência com que os colo-
nizadores portugueses impuseram o catolicismo aos indígenas, especialmente 
por meio das missões jesuítas nas regiões sul, sudeste e amazônica, quando 
não apenas as crenças religiosas eram forçadamente trocadas por aquelas 
ditas como “verdadeiras”, mas para professá-las, era necessário adotar o 
idioma, as vestimentas, os hábitos alimentares e sociais dos colonizadores, 
despindo os povos indígenas de suas características socioculturais.
De acordo com Darcy Ribeiro (2016), para além da formação triplo-étnica 
da sociedade brasileira entre brancos, negros e indígenas, que por si só con-
tribui para a heterogeneidade cultural, há ainda as diferenças internas entre 
cada um desses povos, dadas as múltiplas sociedades indígenas, diferentes 
nacionalidades e etnias de povos negros e diferentes nacionalidades de povos 
brancos que, chegando após a colonização, puderam atrelar-se aos privilégios 
sociais e econômicos associados à elite dominante, como os italianos que 
chegaram ao Brasil durante o ciclo do café. Por isso, Ribeiro (2016) sustenta 
que até há uma unidade cultural e simbólica que forma a cultura e a ideia de 
nacionalidade brasileiras, mas nela não há uniformidade, sendo as diferenças 
influenciadas por três elementos principais.
O primeiro deles, segundo Ribeiro (2016), é a ecologia (ambiente). De fato, 
os fatores ambientais geoclimáticos afetaram, em conjunto com as culturas 
ancestrais dos povos que chegaram durante a colonização, a formação de 
culturas locais, que se ligavam com expressões mais amplas e gerais, mas 
revelavam peculiaridades advindas dos diálogos diretos dos sujeitos com 
seus ambientes.
O segundo elemento é a economia — nesse caso, o autor pondera sobre 
dois níveis: quais tipos de vínculo os povos tinham com a economia (escravi-
zados, assalariados, nobres, mercadores) e a condição brasileira de colônia 
de exploração e em transição para uma economia capitalista autônoma, mas 
periférica. A construção do país como Estado capitalista a partir do século 
XIX tem impacto direto na formação sociocultural, derivada das formas de 
organização social do trabalho. Um exemplo é a escolha de trazer imigrantes 
europeus como trabalhadores assalariados para as lavouras paulistas, sem 
a integração econômica dos povos negros após a abolição da escravatura.
Por fim, o terceiro elemento a influenciar diferenças é a imigração não 
negra, que especialmente a partir do século XVIII trouxe ao Brasil grandes 
contingentes de povos europeus, árabes e asiáticos, concentrados em regiões 
específicas do país. Assim, essas novas imigrações associadas a fatores 
Formação sociocultural do Brasil I14
como a economia (e suas relações de trabalho) e a influência geoclimática 
terminaram por criar expressões socioculturais, nas palavras de Ribeiro 
(2016), “abrasileiradas”. Isso significa que não houve aculturação, mas um 
processo de assimilação que nem absorveu a nova cultura por completo e 
nem a apagou, criando uma composição híbrida. 
Esses três fatores viriam a formar as expressões tipicamente brasileiras 
influenciadas por povos não nativos, “[...] como sertanejos do Nordeste, ca-
boclos da Amazônia, crioulos do litoral, caipiras do Sudeste e centro do país, 
gaúchos das campanhas sulinas, além de ítalo-brasileiros, teuto-brasileiros, 
nipo-brasileiros” (RIBEIRO, 2016, p. 20). 
A unicidade não homogênea da composição sociocultural brasileira seria 
marcada, portanto, tanto pelo que os brasileiros têm em comum quanto 
pelas suas diferenças advindas de “[...] adaptações regionais ou funcionais, 
ou de miscigenação e aculturação que emprestam fisionomia própria a uma 
ou outra parcela da população” (RIBEIRO, 2016, p. 20). 
A partir da promulgação da Constituição de 1988, diversas formas 
de organização para horizontalização do diálogo e participação 
democrática entre Estado e sociedade civil foram determinadas, incluindo 
processos de descentralização administrativa, como conselhos de justiça e 
fóruns. Dois exemplos de organizações importantes na luta pela equidade social 
na sociedade brasileira contemporânea são o Fórum Nacional de Lideranças 
Indígenas e o Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (FNEEI). Por sua 
vez, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) mantém Comissões para Igualdade 
Racial em cada unidade federativa, promovendo o cumprimento das práticas 
de equidade descritas na Constituição nos processos legislativos. 
No Brasil, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicí-
lios (PNAD) de 2019 (IBGE, 2019), 42,7% dos brasileiros se declararam brancos, 
46,8% pardos, 9,4% pretos e 1,1% amarelo ou indígena. Dessa forma, 57,3%, a 
maioria dos brasileiros, entende-se como não branca, colocando em xeque 
a noção de minoria étnica não branca criada pela centralização colonizadora 
europeia, que manteve a população branca nas elites, com o passar do tempo 
e as diferentes formas de Estado e movimentações do tecido social. Mesmo 
que não pertençam às elites econômicas, no Brasil as populações brancas 
terminam por sentir com menor intensidade a exclusão capitalista e têm 
maior acessos a itens de bem-estar social, mobilidade social e efetividade 
da cidadania (Figura 2).
Formação sociocultural do Brasil I 15
Figura 2. Composição social brasileira segundo a raça.
Fonte: IBGE (2019, documento on-line).
Esse reconhecimento é necessário para que se compreenda como o pas-
sado e as relações de dominação e poder influenciam as dinâmicas sociais 
contemporâneas, especialmente aquelas nos espaços educacionais e de 
trabalho. No entanto, isso não elimina as facetas reais de integração entre 
as culturas que modelam a sociedade brasileira contemporânea, sobretudo 
por meio do idioma, da culinária e da música. 
A confluência de tantas e tão variadas matrizes formadoras poderia ter resultado 
numa sociedade multiétnica, dilacerada pela oposição de componentes dife-
renciados e imiscíveis. Ocorreu justamente o contrário, uma vez que, apesar de 
sobreviverem na fisionomia somática e no espírito dos brasileiros os signos de sua 
múltipla ancestralidade, não se diferenciaram em antagônicas minorias raciais, 
culturais ou regionais, vinculadas a lealdades étnicas próprias e disputantes de 
autonomia frente à nação. As únicas exceções são algumas microetnias tribais que 
sobreviveram como ilhas, cercadas pela população brasileira. Ou que, vivendo para 
além das fronteiras da civilização, conservam sua identidade étnica. São tão peque-
nas, porém, que qualquer que seja seu destino já não podem afetar à macroetnia 
em que estão contidas. O que tenham os brasileiros de singular em relação aos 
portugueses decorre das qualidades diferenciadorasoriundas de suas matrizes 
indígenas e africanas; da proporção particular em que elas se congregaram no 
Brasil; das condições ambientais que enfrentaram aqui e, ainda, da natureza dos 
objetivos de produção que as engajou e reuniu (RIBEIRO, 2016, p. 21).
A sociedade multiétnica não homogênea, mas em unicidade, como pontua 
Ribeiro, exprime suas relações sociais e a interpretação das manifestações 
culturais e simbólicas na contemporaneidade por meio das dinâmicas de 
classe e poder orientadas pelo capitalismo periférico, dependente e neo-
liberal. De acordo com Florestan Fernandes (1978), portanto, a sociedade 
Formação sociocultural do Brasil I16
brasileira organiza suas relações sociais por meio das relações de poder 
advindas da estratificação social, das associações entre classe e poder, já que 
os trabalhadores estariam sujeitos à lógica e ao projeto político das elites. 
Porém, as relações de poder entre as classes no Brasil seriam, segundo esse 
sociólogo, produto direto das relações raciais determinadas pelo processo 
de colonização. 
A luta dos povos indígenas na resistência à ditadura militar ocor-
rida entre 1964 e 1985 se deu em um contexto em que a cultura, a 
identidade e as religiões indígenas foram ameaçadas de forma violenta por um 
modo de organização social em que a elite estruturalmente branca impunha, 
dessa vez segundo intenções e valores políticos, a sua própria visão de mundo. 
Para saber mais, acesse o site Memórias da Ditadura, verbete “Repressão e 
resistência”, subverbete “Indígenas”.
Assim, compreender as dinâmicas socioculturais no Brasil é um trabalho 
em dois níveis, que têm características próprias, mas que nesse contexto não 
se separam, porque foram forjados segundo a mesma lógica: as relações de 
classe e as relações raciais exprimem um modelo capitalista de exploração 
racista.
A noção de pertencimento e a identidade nacional foram legitimadas com 
o passar do tempo no país. No entanto, é preciso ter em mente a inexistência 
da homogeneidade cultural que seria produto da pretensa igualdade racial, 
comprovadamente uma falácia no Brasil, ainda que atualmente haja muito 
trabalho de grupos transversais na defesa de plataformas e políticas públicas 
que assegurem a equidade social.
As marcas do racismo estrutural permanecem reproduzidas na so-
ciedade contemporânea brasileira, uma vez que as contribuições dos 
povos negros parecem validadas pelas elites somente — e momentaneamente 
— quando sobressaem-se em manifestações artísticas ou esportivas, relegando 
à população preta brasileira os maiores índices de encarceramento, os maiores 
índices de violência obstétrica e os menores índices de acesso à educação 
superior. Reconhecer a violência escravocrata e, a partir de tal reconhecimento, 
desenvolver políticas públicas de reparação pode ser um caminho para que se 
alcance a equidade étnica na sociedade brasileira. 
Na letra da canção “Identidade”, de autoria do sambista Jorge Aragão, você 
pode observar um reflexo claro da segregação, do racismo estrutural e da 
violência simbólica expressas na marginalização de pessoas negras quando têm 
Formação sociocultural do Brasil I 17
de utilizar elevadores de serviço ao invés do social, uma separação tipicamente 
brasileira:
Se preto de alma branca pra você 
É o exemplo da dignidade 
Não nos ajuda, só nos faz sofrer 
Nem resgata nossa identidade 
Elevador é quase um templo 
Exemplo pra minar teu sono 
Sai desse compromisso 
Não vai no de serviço 
Se o social tem dono, não vai 
Quem cede a vez não quer vitória 
Somos herança da memória 
Temos a cor da noite 
Filhos de todo açoite 
Fato real de nossa história (ARAGÃO, 2021, documento on-line).
Referências 
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Formação sociocultural do Brasil I20
Dica do Professor
A realidade cultural, social, política ou econômica de um país não pode ser explicada pela sua 
situação presente, uma vez que tudo faz parte de um longo processo histórico. A ocupação e a 
forma de colonização, os povos que constituíram e miscigenaram esse país, tudo isso explica a 
sociedade e sua realidade atual. Nesse vídeo, abordaremos a colonização e a formação da 
sociedade brasileira, o tipo de exploração de acordo com a realidade de Portugal e a diferenciação 
desta colonização da Espanha e Inglaterra.
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Na prática
Veja a seguir uma reflexão sobre a colonização portuguesa no Brasil.
 
Saiba mais
Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor:
Sociologia
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História - Formação Sociocultural do Brasil - 2/2
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História - Formação Sociocultural do Brasil - 1/2
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