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FACULDADE VENDA NOVA DO IMIGRANTE POLÍTICAS EDUCACIONAIS VENDA NOVA DO IMIGRANTE – ES SUMÁRIO 1 LEGISLAÇÃO EDUCACIONAL E POLÍTICAS PÚBLICAS ................................... 3 1.1 O que é legislação educacional? .................................................................... 3 1.2 O que são políticas públicas? ......................................................................... 6 1.3 Objetivos das políticas públicas ...................................................................... 7 1.4 Quais são alguns exemplos de Políticas Públicas ou de Legislação educacional? ............................................................................................................... 8 1.5 Limites das políticas públicas educacionais brasileiras: ................................. 8 1.6 Período heroico .............................................................................................. 8 2 EDUCAÇÃO E MOBILIDADE SOCIAL ............................................................... 11 2.1 Educação e desenvolvimento ....................................................................... 12 2.2 A educação como mecanismo de mobilidade social: o mercado como via de acesso........................................................................................................................15 2.3 A organização do trabalho como parâmetro da legislação educacional ....... 18 3 EDUCAÇÃO NO BRASIL COLÔNIA E IMPÉRIO ............................................... 27 3.1 Educação na república velha ........................................................................ 29 3.2 Educação e reformas na Era Vargas ............................................................ 32 3.3 A influência do pensamento neoliberal na lei 4.024/61 e lei 5.692/71 e suas consequências para as políticas públicas de educação ............................................ 37 3.4 A promulgação da constituição de 1988, a nova ldb 9.349/96 e a conquista do espaço da educação infantil no cenário educacional ................................................ 39 4 LEGISLAÇÃO EDUCACIONAL A ORGANIZAÇÃO LEGAL DA EDUCAÇÃO BÁSICA ..................................................................................................................... 43 4.1 O sistema federativo brasileiro e a educação ............................................... 43 5 A EDUCAÇÃO NO TEXTO CONSTITUCIONAL ................................................ 47 6 A ORGANIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO BÁSICA, DE ACORDO COM A LEGISLAÇÃO ............................................................................................................ 51 7 OS SISTEMAS DE ENSINO E SEU FUNCIONAMENTO ................................... 52 8 FINANCIAMENTO DA EDUCAÇÃO ................................................................... 54 9 CUSTO ALUNO QUALIDADE (CAQ) ................................................................. 57 10 O CURRÍCULO ESCOLAR DO ENSINO FUNDAMENTAL ................................ 58 11 ENSINO MÉDIO ................................................................................................. 63 12 EDUCAÇÃO INFANTIL ....................................................................................... 64 13 COMENTÁRIOS GERAIS SOBRE AS DIRETRIZES CURRICULARES PARA A EDUCAÇÃO INFANTIL ............................................................................................. 66 14 COMO ESTÁ ORGANIZADO O ENSINO FUNDAMENTAL ............................... 68 15 COMO ESTÁ ORGANIZADO O ENSINO MÉDIO .............................................. 72 16 EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS – EJA ................................................... 76 17 EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA .............................................. 78 18 EDUCAÇÃO INCLUSIVA .................................................................................... 80 19 EDUCAÇÃO ESPECIAL ..................................................................................... 81 20 A EDUCAÇÃO ESPECIAL NO PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO (PNE) ..... 83 21 EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA ................................................................... 85 22 EDUCAÇÃO QUILOMBOLA ............................................................................... 87 23 EDUCAÇÃO NO CAMPO ................................................................................... 88 24 A POLÍTICA NACIONAL PARA A FORMAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇAO .............................................................................................................. 90 25 DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS PARA EDUCAÇÃO BÁSICA ....... 93 26 BIBLIOGRAFIA BÁSICA ..................................................................................... 96 3 1 LEGISLAÇÃO EDUCACIONAL E POLÍTICAS PÚBLICAS 1.1 O que é legislação educacional? Fonte: www.martarelloadvogados.com.br São um conjunto de decisões, planos, metas e ações governamentais (seja a nível nacional, estadual ou municipal) voltados para a resolução de problemas de interesse público. Pode ser considerada como o corpo ou conjunto de leis referentes à educação, seja ela estritamente voltada ao ensino ou às questões à matéria educacional, como, por exemplo, a profissão de professor, a democratização de ensino ou as mensalidades escolares. Ainda assim, a partir da nova ordem geral da educação nacional, decorrente da Lei 9.394/96, poderíamos de alguma forma cogitar o uso das expressões legislação educacional e legislação de ensino. Quanto utilizarmos a expressão legislação educacional ou legislação da educação estaremos nos referindo à legislação que trata da educação escolar, nos níveis de educação (básica e superior). 4 Quando dizemos legislação educacional estamos nos referindo, portanto, de forma geral, à educação básica (educação infantil, ensino fundamental e ensino médio) e à educação superior. Daí, posso referir-me apenas à legislação da educação básica ou à legislação da educação superior. Se desejo referir-me aos níveis de ensino fundamental e ensino médio, que formam à educação básica, posso utilizar a expressão legislação do ensino fundamental ou legislação do ensino médio. Certo é que a legislação educacional pode ser, pois, tomada como corpo ou conjunto de leis referentes à educação. É um complexo de leis cujo destinatário é o homem trabalhador ou o homem consumidor. É este o sentido de legislação como legis data. A legislação se revela, sobretudo, em regulamentos ditos orgânicos ou ordenados, expedidos pelos magistrados em face da outorga popular. A legislação educacional, como nos parece sugerir, é uma disciplina de imediato interesse do Direito ou mais precisamente do Direito Educacional. Mas um olhar interdisciplinar dirá que ela é central na Pedagogia quando no estudo da organização escolar. Por não termos alcançado, ainda, uma fase de pleno gozo de equidade, diríamos que a legislação educacional é até final do século XX a única forma de Direito Educacional que conhecemos e vivenciamos na estrutura e funcionamento da educação brasileira. Desta forma, a legislação educacional pode ser entendida como a soma de regras instituídas regular e historicamente a respeito da educação. Todas as normas educacionais, legais e infralegais, leis e regulamentos, com instrução jurídica, relativas ao setor educacional, na contemporaneidade e no passado, são de interesse da legislação educacional. Vemos, deste modo, que a legislação educacional pode ter uma acepção ampla, isto é, pode significar as leis da educação, que brotam das constituições nacionais, como a Constituição Federal, considerada a Lei Maior do ordenamento jurídico do país, às leis aprovadas pelo Congresso Nacional e sancionadas pelo Presidente da República. 5 Pode, também, alegislação abranger os decretos presidenciais, as portarias ministeriais e interministeriais, as resoluções e pareceres dos órgãos ministeriais ou da administração superior da educação brasileira. Para este trabalho, vai nos interessar o sentido da Legislação Educacional como ação do Estado sobre a educação, vista, pelo Estado-gestor, como política social. A legislação educacional é, portanto, base da sustentação da estrutura político-jurídica da educação. A legislação Educacional possui duas naturezas: uma reguladora e uma regulamentadora. A partir de seu caráter, podemos derivar sua tipologia. Dizemos que a legislação é reguladora, quando se manifesta através de leis, sejam federais, estaduais ou municipais. As normas constitucionais que tratam da educação são as fontes primárias da regulação e organização da educação nacional, pois, por elas, definem- se as competências constitucionais e atribuições administrativas da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Abaixo das normas constitucionais, temos as leis federais, ordinárias ou complementares, que regulam o sistema nacional de educação. A legislação reguladora estabelece, pois, a regra geral, a norma jurídica fundamental. Daí o processo regulatório voltar-se sempre aos princípios gerais e à disposição da educação como direito, seja social ou público subjetivo. O principal traço da regulação é sua força de regular, isto é, poder, regularmente, ou que pode traduzido também pela democraticamente, estabelecer regras gerais de Direito ou normas gerais criadores de Direito. Quando dizemos que a educação é direito social ou que o acesso ao ensino fundamental é direito público subjetivo, a imperatividade normativa reside na origem da fonte de direito, a Constituição, seja Federal, Estadual ou Municipal. Por isso, uma vez aprovadas, as leis devem ser respeitadas e cumpridas. A legislação regulamentadora, ao contrário da legislação reguladora não é descritiva, mas prescritiva, volta-se à própria práxis da educação. Os decretos presidenciais, as portarias ministeriais e interministeriais, as resoluções e pareceres dos órgãos do Ministério da Educação, como o Conselho Nacional da Educação ou o Fundo de Desenvolvimento da Educação como serão executadas as regras jurídicas ou das disposições legais contidas no processo de 6 regulação da educação nacional. A regulamentação não cria direito porque limita-se a instituir normas sobre a execução da lei, tomando as providências indispensáveis para o funcionamento dos serviços educacionais. Diríamos, em substância, que a estrutura político-jurídica da educação contida na Constituição Federal e nas Leis Federais regulam a estrutura político-jurídica da educação enquanto os decretos, as portarias, as resoluções, os pareceres, as instruções, enfim, prescrevem a forma de funcionamento do serviço educacional. 1.2 O que são políticas públicas? Conjunto de normas educacionais, leis e regulamentos, com instrução jurídica, relativas ao setor educacional. “Políticas públicas” são diretrizes, princípios norteadores de ação do poder público; regras e procedimentos para as relações entre poder público e sociedade, mediações entre atores da sociedade e do Estado. São, nesse caso, políticas explicitadas, sistematizadas ou formuladas em documentos (leis, programas, linhas de financiamentos) que orientam ações que normalmente envolvem aplicações de recursos públicos. Nem sempre, porém, há compatibilidade entre as intervenções e declarações de vontade e as ações desenvolvidas. Devem ser consideradas também as “não ações”, as omissões, como formas de manifestação de políticas, pois representam opções e orientações dos que ocupam cargos. As políticas públicas traduzem, no seu processo de elaboração e implantação e, sobretudo, em seus resultados, formas de exercício do poder político, envolvendo a distribuição e redistribuição de poder, o papel do conflito social nos processos de decisão, a repartição de custos e benefícios sociais. Como o poder é uma relação social que envolve vários atores com projetos e interesses diferenciados e até contraditórios, há necessidade de mediações sociais e institucionais, para que se possa obter um mínimo de consenso e, assim, as políticas públicas possam ser legitimadas e obter eficácia. Elaborar uma política pública significa definir quem decide o quê, quando, com que consequências e para quem. São definições relacionadas com a natureza do regime político em que se vive, com o grau de organização da sociedade civil e com a cultura política vigente. Nesse sentido, cabe distinguir “Políticas Públicas” de 7 “Políticas Governamentais”. Nem sempre “políticas governamentais” são públicas, embora sejam estatais. Para serem “públicas”, é preciso considerar a quem se destinam os resultados ou benefícios, e se o seu processo de elaboração é submetido ao debate público. A presença cada vez mais ativa da sociedade civil nas questões de interesse geral torna a publicitação fundamental. As políticas públicas tratam de recursos públicos diretamente ou através de renúncia fiscal (isenções), ou de regular relação que envolve interesses públicos. Elas se realizam num campo extremamente contraditório onde se entrecruzam interesses e visões de mundo conflitantes e onde os limites entre público e privado são de difícil demarcação. Daí a necessidade do debate público, da transparência, da sua elaboração em espaços públicos e não nos gabinetes governamentais.1 1.3 Objetivos das políticas públicas As políticas públicas visam responder a demandas, principalmente dos setores marginalizados da sociedade, considerados como vulneráveis. Essas demandas são interpretadas por aqueles que ocupam o poder, mas influenciadas por uma agenda que se cria na sociedade civil através da pressão e mobilização social. Visam ampliar e efetivar direitos de cidadania, também gestados nas lutas sociais e que passam a ser reconhecidos institucionalmente. Outras políticas objetivam promover o desenvolvimento, criando alternativas de geração de emprego e renda como forma compensatória dos ajustes criados por outras políticas de cunho mais estratégico (econômicas). Ainda outras são necessárias para regular conflito entre os diversos atores sociais que, mesmo hegemônicos, têm contradições de interesses que não se resolvem por si mesmas ou pelo mercado e necessitam de mediação. Os objetivos das políticas têm uma referência valorativa e exprimem as opções e visões de mundo daqueles que controlam o poder, mesmo que, para sua legitimação, necessitem contemplar certos interesses de segmentos sociais dominados, dependendo assim da sua capacidade de organização e negociação. 1 Texto Extraído: https://www.direitonet.com.br 8 1.4 Quais são alguns exemplos de Políticas Públicas ou de Legislação educacional? Política Pública Educacional brasileira: antecedentes históricos. “Podemos dizer que a política educacional brasileira desde o final da ditadura (1985) até os dias de hoje se apresenta com características condensadas nas seguintes palavras: filantropia, protelação, fragmentação e improvisação” Demerval Saviani 1.5 Limites das políticas públicas educacionais brasileiras: Histórica resistências que as elites dirigentes opõe-se à manutenção da educação pública Descontinuidade das medidas educacionais acionadas pelo Estado 1.6 Período heroico Fonte: www.novaresistencia.org 9 1548 Primeiro documento de política educacional no Brasil “Regimentos” de D. João III orientar as ações do primeiro governador geral do Brasil Cabia à Coroa manter o “Ensino” (recursos para manutenção e vestimenta dos jesuítas. 1564 Coroa portuguesa adotou o plano da redízima (10% dos impostos arrecadados da colônia brasileira para manutenção dos colégiosjesuíticos. Fase de relativa prosperidade “escola pública religiosa” 1990 Nosso índice de analfabetismo: 65% da população Na França: Jogos Olímpicos Na Alemanha: Ferdinand von Zappelin realiza a primeira prova com um dirigível Itália: guerra contra o Império Austríaco EUA: desenvolvimento dos Estados Unidos Industrial (1870 - 1900) Brasil Colônia Governo absolutista; educação reduzida aos colégios confessionais - formação do clero. Primeira República (fim do séc XIX início XX) Modelo intervencionista; educação como desenvolvimento do país; “Associação Brasileira de Educação” Manifesto dos Pioneiros da Educação (década de 30) “escola pública, laica e de responsabilidade do Estado) Revolução de 30 - sinais de inquietação representou um salto na regulamentação das PP educacionais Criação do Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública...uma série de decretos. A partir de 1937 Estado Novo (imposto por Getúlio Vargas) a Constituição de 1934 foi revogada, criação da “Polaca” surge uma segunda Reforma do Ensino “Leis Orgânicas” (intuito de estabilizar as correntes ideológicas contrárias) 10 Fim da década de 1940 Aprovação da LDB de 1961 prejuízos fortaleceu o setor privado, limitou a expansão do ensino público, anulada a obrigatoriedade escolar do primário vitória do lado conservador elaboração do primeiro Plano Nacional de Educação contexto: criado o FMI, ONU 1964 Golpe Militar Regime autoritário/antidemocrático até 1985 políticas de caráter desenvolvimentista, reorganização do Estado. Implantação de pacote de leis, decretos (regulamentação da participação dos estudantes, suspensão da UNE) Lei 5.692 (primeiro grau: 8 séries e segundo grau: 3 séries Ideologia compensatória, projetos paliativos. Fim da década de 70 Pressões contra o regime militar surgem a ANPED, ANDES, CNTE Anos 80 Ruptura com o pensamento educacional vigente luta dos educadores pela: melhoria da educação, valorização e qualificação dos professores, democratização da gestão, financiamento, ampliação da escolaridade obrigatória. Término do Regime Militar Eleição direta de Tancredo (1985) vitória da oposição; abertura aos intelectuais; espaço para importantes discussões: projeto nacional de educação / movimento e elaboração da nova constituição 1988 Nova Constituição “cidadã” anos 80: a década perdida. Década de 1990 Novas configurações internacionais “crise econômica” Nova LDB (1996) não correspondia aos anseios da década anterior habilidoso jogo linguístico que invertia termos e sinais 2 projetos de LDB: Dermeval Saviani / Darcy Ribeiro 11 1994 – FHC Projeto sancionado por Darcy Ribeiro foi sancionado. Nova LDB (algumas distorções) Capacitação dos professores Profissionalização Participação da sociedade Articulação empresários Autonomia Desobrigação do Estado Melhoria na qualidade Adequação do mercado Estado que promove o bem- estar social Estado Mínimo2 2 EDUCAÇÃO E MOBILIDADE SOCIAL Fonte: www.ualg.pt 2 TEXTO EXTRAÍDO: https://docente.ifsc.edu.br 12 2.1 Educação e desenvolvimento A educação veio sendo afirmada e firmada, desde o final do século XIX e início do século XX, no Brasil, como fator fundamental para o desenvolvimento da nação, pelo viés da ascensão social e melhoria de qualidade de vida, tanto individual quanto social. Importante se faz, antes de qualquer coisa, refletir e explicitar sobre que pressupostos se parece sustentar, até os dias de hoje, enquanto tal. Fato notório na história do país é a sua marca de intensa desigualdade social. Assim, não é possível discutir desenvolvimento no Brasil sem tocar nesta questão e, por consequência, nas possibilidades, ou não, de mobilidade social que o desenvolvimento pode trazer. Parte-se aqui do princípio de que, no Brasil, o crescimento económico não teve por consequência maiores possibilidades de mobilidade social e de diminuição das desigualdades sociais absurdas que testemunhamos ainda hoje. Na década de 1960, por exemplo, momento de um modelo de desenvolvimento específico, de intenso crescimento económico e industrialização, ocorreu uma intensificação das desigualdades, o exato contrário do que fora até então proclamado e defendido. A literatura sobre desenvolvimento econômico do último quarto de século nos dá um exemplo meridiano desse papel diretor dos mitos nas ciências sociais: pelo menos noventa por cento do que aí encontramos se funda na idéia, que se dá por evidente, segundo a qual o desenvolvimento econômico, tal como vem sendo praticado pelos países que lideraram a revolução industrial, pode ser universalizado. (Furtado, 1981: 16, itálico do autor) Percebe-se, no entanto, que as políticas públicas e os discursos produzidos vêm, paulatinamente, seguindo em direção à maior abertura e extensão da escolarização às camadas desprivilegiadas da população. Tal abertura é engendrada, mormente, a todo um movimento da sociedade capitalista na direção da constante e necessária revolução dos meios de produção, e às diferentes formas de organização dessa produção. É neste trilho que a educação escolar passa a ser vista, de forma cada vez mais importante, como possibilidade de ascensão social, pela via do esforço individual, o que se crê trazer consequências graves à sociedade, como veremos à frente. Embora demasiado óbvia, haja vista a necessidade que o sistema capitalista tem de um contínuo progresso técnico-científico (Marx e Engels 2007), pensa-se que as políticas públicas de educação refletem tal constatação. Assim, as duas leis aqui postas sob análise comparativa refletem os seus respectivos contextos históricos, 13 principalmente no que se refere ao modelo de desenvolvimento próprio de cada uma, a saber: 1) a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1961 e o nacional- desenvolvimentismo, cujo auge se dá nas décadas de 1950 e 1960; e 2) a LDB de 1996 e o processo de reestruturação produtiva, iniciado no final de década de 1970 (Aguiar & Durães, 2008). Romanelli (1983), autora de referência na discussão sobre a história da educação brasileira, corrobora a tese de que há uma forte ligação entre a expansão do sistema de ensino e o processo de industrialização e modernização das relações sociais, confirmando a noção de que o desenvolvimento brasileiro exigiu maior qualificação, o que alavancou a expansão do sistema de ensino. Assim, para a autora, o sistema de ensino expandiu-se, no Brasil, de forma mais significativa a partir da década de 1930, defendendo que as razões para tal seriam o intenso crescimento demográfico do período, aliado à intensificação do processo de industrialização e urbanização. Porém, a autora sustenta que tal expansão, embora tenha efetivamente ocorrido, foi, além de insuficiente em termos quantitativos, estruturalmente deficiente. Duas são as funções, no Brasil, segundo Cunha (1985), do fenómeno que o autor chama de «liberação da educação», ou seja, da ampliação do sistema de ensino às camadas populares: as funções económicas e as funções político-ideológicas. A primeira diz respeito às relações entre escolaridade e emprego, entre educação e mercado de trabalho ou, por outras palavras, à ideia de investimento em capital humano, argumentando que este pressupõe uma relação direta e necessária entre capacitação do trabalhador e desenvolvimento económico, pela via do mercado de trabalho. A segunda diz do fortalecimento da díade educação-desenvolvimento, através da ideia de que não se restringe apenas ao incremento da produção, mas também que a educação escolar viria a produzir novos hábitos de consumo na população, por meio da construção de uma imagem de necessária industrialização e urbanização do país. Por outras palavras, afirma: A imagem da escola é a de um mecanismo peloqual os talentos inatos são transformados em habilitações cambiáveis, por sua vez, em renda, sob a forma de salário ou lucro. A sociedade aberta é aquela que permite aos indivíduos de cada qualidade/quantidade de talento atingirem o seu degrau. A sociedade brasileira, no seu estado atual, entretanto, não é ainda completamente aberta, pois há fatores que impedem a entrada (ou exigem a saída prematura) de muitos indivíduos da escola/escada antes de atingirem o «seu» degrau. (ibidem: 52) 14 É, portanto, fato corriqueiro na literatura especializada encontrar a ideia de que a extensão da educação à população é um marco de democracia, pois retira o privilégio da elite dominante. Tal premissa é absolutamente falaciosa, pois os acessos não são objetivamente garantidos, tampouco a qualidade e as condições para a permanência no sistema de ensino (Cunha, 1985). Pretende-se com o presente artigo demonstrar que a construção da representação da educação enquanto fator maior – se não único – de desenvolvimento e crescimento social, que ocorre no Brasil, sofre uma importante influência desse movimento constante do sistema capitalista. E, para além disso, nota-se um processo de passagem, nas últimas décadas, da ligação direta entre educação e desenvolvimento social à ideologia da ascensão social pela via individual. A partir da crise do capitalismo avançado, a educação passa a desempenhar novo papel, sendo chamada não mais a promover o desenvolvimento econômico (conforme preconizava a teoria do capital humano), mas a aumentar as chances individuais de inserção no mercado de trabalho ou, em outros termos, a aumentar a empregabilidade dos indivíduos, num cenário em que o desemprego tecnológico parece que veio para ficar. (Castells, 1999, cit in. Lemos, Dubeux, & Pinto, 2009) Souza (2007: 7) descreve o lugar que a educação escolar tem vindo a assumir na sociedade moderna de forma precisa: Tornou-se senso comum apontar a educação como fator de reconstrução social. Por extensão, universalizou-se também a associação de educação à escola, à modernidade, à cidadania, e ao desenvolvimento social. Palavra mágica no discurso cotidiano, a educação passou a ser vista como elemento- chave no combate a todos os males do corpo e da alma, os transtornos da ausência de sentido para a vida, as aflições de um cotidiano atormentado por exclusão social, preconceito, violência, desemprego, crise de valores, ausência de limites, etc. Assim, a comparação do texto das leis a que se referiu, nos pontos em que se aproximam e em que se afastam, é o ponto norteador do presente texto. Para que tal intento se efetive, contudo, faz-se necessária alguma explanação quanto ao método comparativo, suas especificidades e características que contribuem para a elucidação da citada ilusão. Pesquisar, nas ciências sociais, é comparar. Isso porque, implícita ou explicitamente, quando fatos sociais são postos sob análise estão, mesmo que não de forma consciente e intencional, a ser comparados com algo. O próprio Durkheim 15 (1947: 37, cit. in Sartori, 1994: 34) afirmou essa ideia de forma inequívoca quando escreveu que «a sociologia comparativa não é um ramo da sociologia, é a própria sociologia na medida em que tenta explicar os factos». Schneider e Schimitt (1998: 49) lançam uma explicação do porquê se compara nas ciências sociais: A impossibilidade de aplicar o método experimental às ciências sociais, reproduzindo, em nível de laboratório, os fenômenos estudados, faz com que a comparação se torne um requisito fundamental em termos de objetividade científica. É ela que nos permite romper com a singularidade dos eventos, formulando leis capazes de explicar o social. Nesse sentido, a comparação aparece como sendo inerente a qualquer pesquisa no campo das ciências sociais, esteja ela direcionada para a compreensão de um evento singular ou volta da para o estudo de uma série de casos previamente escolhidos. Entretanto, o presente estudo primo pelo exercício da comparação explícita, já que se pauta nos textos de duas leis de diretrizes e bases (LDB) da educação brasileira, como dito. Assim sendo, outros aspectos ainda precisam ser pensados, pontos-chave que buscam, lato sensu, justificar o uso da comparação. O ponto chave eleito enquanto variável de controle para tornar possível e legítima a comparação proposta é a dicotomia entre uma educação de cunho generalista e outra voltada para a formação para o trabalho. A comparação aqui realizada é aquilo que Little, Berdugo e Castro (1993) denominam «contraste de contextos», já que busca clarificar as especificidades de cada um dos objetos colocados, contrastando-os. Contudo é necessário, a priori, defini-los de forma mais precisa, para então proceder à comparação propriamente dita. Assim, a metodologia de análise utilizada na pesquisa foi de caráter qualitativo, não havendo intenção alguma de levantar dados estatísticos, ou partir deles, para efetivar a comparação do texto das duas leis em questão. O objetivo é compará-las, e não descrever os impactos provocados ou não pela implementação de cada uma, por exemplo, mas tentar compreender como cada uma é produto e reprodutora de um contexto político e económico específico. 2.2 A educação como mecanismo de mobilidade social: o mercado como via de acesso A década de 1960 é um exemplo mais claro desse processo, pois figura como um momento de intenso discurso modernizador e progressista por parte do Estado, 16 onde se abrem espaços às discussões a respeito da ligação entre educação e desenvolvimento. Esse período foi, sem dúvida, um momento de intensa discussão e de um reformismo pedagógico ainda devedor do movimento da Escola Nova, ocorrido na década de 1930. Naquele momento, a principal mudança proposta, e assumida pelo Estado, foi a passagem de uma educação tradicional, de cunho humanista e generalista, para uma educação técnica e científica. Essa proposição, como dito, já vinha a ocorrer desde o início do século XX, porém o ideário da política desenvolvimentista conferiu-lhe um novo fôlego, devido à necessidade de formação de mão de obra para a indústria nacional nascente (Souza, 2008). Romanelli (1983: 25), oferece uma contribuição deveras importante: Em educação, esse nível de percepção, quando chega a distinguir a defasagem entre aquilo que a escola oferece e aquilo de que carece o desenvolvimento, tende a provocar mudanças que procuram tão-somente escolher modelos de estrutura educacional mais avançados, sem se preocupar com a análise crítica da situação que provocou e alimentou a defasagem. Empenha-se, então, em modernizar a estrutura do ensino, equipá-la para tarefas mais dinâmicas e dotá-la de mais eficiência na produção do contingente humano de que carece o modelo econômico. É também nesse momento que surgem com grande força estudos baseados naquilo que depois passou a ser chamado de teoria do capital humano. Esta, por sua vez, possui fortes ligações com a chamada economia da educação, cuja tese central é, segundo Freitag (1986), a de que há uma taxa de retorno individual e social àquilo que se investe na formação do trabalhador, tratada esta última, neste contexto, enquanto sinónimo de educação. Para a mesma autora, tal tese «mascara a exploração e alienação da força de trabalho» (p. 32), o que elucida o processo de transformação das relações de trabalho do período. Segundo Oliveira (2000: 223, cit. in Aguiar, 2008: 242): Surgida no bojo da ideologia desenvolvimentista, a teoria do capital humano contribuiu largamente para o discurso e a crença na eficácia da educação como instrumento de distribuição de renda e equalização social. Esta teoria apareceu assim como instrumento indispensável aos países subdesenvolvidos [regiões] para alcançar o desenvolvimento pretendido. A teoria do capital humano partia da suposição de que o indivíduo na produção era uma combinaçãode trabalho físico e educação ou treinamento. Considerava o indivíduo produtor de suas próprias capacidades de produção, por isso denominava investimento humano o fluxo de despesas que o próprio indivíduo devia efetuar em educação para aumentar a sua produtividade. 17 Nota-se que a teoria do capital humano exerceu grande influência na construção de um ideário meritocrata na educação brasileira e latino-americana, como corroboram Bonal e Tarabini (2010: 21): Si hay un terreno que há resultado central em la formulación de las políticas de desarrollo éste ha sido sin duda el de la educación. Desde que la teoría del capital humano conceptualizara la educación como una inversión productiva con rentabilidad privada y social, las distintas variantes de las teorías del desarrollo han situado a la educación como factor central para explicar el crecimiento económico y la potencial reducción de la desigualdad. Theodore Schultz, economista norte-americano, é um nome de referência na explanação que aqui será delineada, considerando o seu pioneirismo no campo da economia da educação. Em obra fundante dos principais termos da teoria do capital humano, Schultz (1967) argumenta, ainda no seu prefácio, em favor da necessidade premente dos estudos económicos da época em esclarecer o chamado «terceiro fator», ou seja, o que, além do capital e da força de trabalho, influiria no processo de crescimento económico de um país ou região. Para ele, a educação estaria ligada a esse terceiro fator, já que o investimento no trabalhador promoveria uma elevação da sua «produtividade econômica» (p. 12). Ainda na introdução do texto, o economista afirma que: Este (sic) ensaio se fundamenta na proposição segundo a qual as pessoas valorizam as suas capacidades, quer como produtores, quer como consumidores, pelo auto-investimento, e de que a instrução é o maior investimento no capital humano. (...) O valor econômico da educação depende, predominantemente, da procura e da oferta da instrução, considerada como investimento. (ibidem: 13) O autor pauta-se na comparação explícita entre a escola e a indústria para a explanação acerca do necessário investimento em educação e no retorno individual e social que tal investimento proveria quando afirma que as «escolas podem ser consideradas empresas especializadas em “produzir” instrução» (ibidem: 19). Ainda na mesma página, procura dimensionar de forma mais clara sua proposição: É verdade que a instituição educacional não possui algumas das características econômicas de uma indústria convencional. Com algumas exceções sem importância, as escolas não são organizadas e administradas para obtenção de lucro. (...) Os estudantes, ou as famílias que os mantêm, via de regra, não pagam todos os gastos acarretados pela instrução. Segundo a concepção de que a instrução eleva as futuras rendas do estudante, tal instrução possui os atributos de um investimento. (ibidem: 19-20) 18 No trecho acima, o autor deixa evidente o pressuposto económico da teoria, segundo o qual o investimento que o trabalhador realiza em si mesmo transforma-se, necessariamente, em capital humano, já que o torna mais capacitado e qualificado para o exercício do seu trabalho, para a melhoria da sua renda e aumentaria as possibilidades de mobilidade social. 2.3 A organização do trabalho como parâmetro da legislação educacional A organização do sistema de ensino será o principal ponto de ancoragem da comparação proposta, pois pensa-se que esta evidencia a ligação entre a educação e o mundo do trabalho. Abaixo constam alguns trechos da LDB de 1961, a primeira do país, que elucidam como a mesma organizou o ensino brasileiro no período: Art. 23. A educação pré-primária destina-se aos menores até sete anos, e será ministrada em escolas maternais ou jardins-de-infância. Art. 26. O ensino primário será ministrado, no mínimo, em quatro séries anuais. Art. 33. A educação de grau médio, em prosseguimento à ministrada na escola primária, destina-se à formação do adolescente. Art. 34. O ensino médio será ministrado em dois ciclos, o ginasial e o colegial, e abrangerá, entre outros, os cursos secundários, técnicos e de formação de professôres (sic) para o ensino primário e pré-primário. Art. 44. O ensino secundário admite variedade de currículos, segundo as matérias optativas que forem preferidas pelos estabelecimentos. § 1º O ciclo ginasial terá a duração de quatro séries anuais e o colegial, de três no mínimo. § 2º Entre as disciplinas e práticas educativas de caráter optativo no 1º e 2º ciclos, será incluída uma vocacional, dentro das necessidades e possibilidades locais. Art. 47. O ensino técnico de grau médio abrange os seguintes cursos: a) industrial; b) agrícola; c) comercial. Art. 49. Os cursos industrial, agrícola e comercial serão ministrados em dois ciclos: o ginasial, com a duração de quatro anos, e o colegial, no mínimo de três anos. 19 Art. 52. O ensino normal tem por fim a formação de professôres (sic), orientadores, supervisores e administradores escolares destinados ao ensino primário, e o desenvolvimento dos conhecimentos técnicos relativos à educação da infância. Art. 53. A formação de docentes para o ensino primário far-se-á: a) em escola normal de grau ginasial no mínimo de quatro séries anuais onde além das disciplinas obrigatórias do curso secundário ginasial será ministrada preparação pedagógica; b) em escola normal de grau colegial, de três séries anuais, no mínimo, em prosseguimento ao vetado grau ginasial. Art. 66. O ensino superior tem por objetivo a pesquisa, o desenvolvimento das ciências, letras e artes, e a formação de profissionais de nível universitário. Art. 67. O ensino superior será ministrado em estabelecimentos, agrupados ou não em universidades, com a cooperação de institutos de pesquisa e centros de treinamento profissional. (Lei nº 4.024, 1961) Como se pode notar, a escolarização primária abrange quatro anos, e a secundária é formada por dois ciclos, o ginasial, de quatro anos, e o colegial, de três anos. É dado um forte enfoque aos ensinos secundário e técnico, o que demonstra a ligação direta entre a formação deste nível e as necessidades do país, que rumava em direção ao desenvolvimento económico, à formação de um grande contingente de mão de obra capacitada. As maiores transformações deram-se no que diz respeito ao ensino secundário, quando o «conteúdo marcadamente humanista até então predominante, gozando de enorme legitimidade social, foi substituído pela cultura científica e técnica orientada para o trabalho» (Souza, 2008: 228). A autora prossegue afirmando a relação entre o direcionamento de uma educação para o trabalho na década de 1960: A educação para o trabalho vista como parte da educação geral impactava profundamente a concepção do ensino secundário prevalecente no Brasil, desde o século XIX, e a disseminação dessa idéia entre intelectuais, educadores e políticos no final dos anos 50 e início dos anos 60 no campo educacional deve-se, em grande parte, à ideologia nacional- desenvolvimentista. (ibidem: 255) 20 A ideologia nacional-desenvolvimentista baseava-se, segundo Fonseca (2005), num jogo de forças de quatro grupos, que a defendem cada qual com os discursos que lhes cabem. Seriam eles: a) a defesa da industrialização; b) a defesa do intervencionismo pró-crescimento; c) o nacionalismo; e d) o positivismo. Chaves (2006: 706) descreve assim esse período: Nos anos 1950, o Brasil estava mergulhado em um grande debate nacional em torno da necessidade de sua modernização econômica, política, social e cultural. Estado e sociedade organizada procuravam alternativas que permitissem à nação romper com seu passado colonial, marcado pela exploração e pela estagnação econômica, e afirmar sua autonomia pela aceleração do processo de industrialização. Grande era apolémica quanto aos reais objetivos dessa mudança. Para alguns educadores, entre eles Lourenço Filho, tratava-se de uma mudança não só benéfica, mas necessária ao desenvolvimento do país, haja vista a situação deplorável em que se encontrava o sistema de ensino brasileiro e o seu atraso económico e social. Para outros, a questão não se restringia, ou não se deveria restringir, somente a atender as exigências do desenvolvimento, pois tratava também da possibilidade de emancipação das camadas populares da sociedade (Souza, 2008). Mais à frente este ponto será melhor abordado, já que ambas as visões são, ao mesmo tempo, fundamentadas e ilusórias. O ensino superior é marcadamente direcionado para a formação de profissionais liberais e para a pesquisa, o que o manteve ainda distante da maior parte da população brasileira. Abaixo, da mesma forma, constam alguns trechos da LDB de 1996, concernentes também à organização do ensino: Art. 21. A educação escolar compõe-se de: I – Educação básica, formada pela educação infantil, ensino fundamental e ensino médio; II – Educação superior. Art. 22. A educação básica tem por finalidades desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores. Art. 32. O ensino fundamental, com duração mínima de oito anos, obrigatório e gratuito na escola pública, terá por objetivo a formação básica do cidadão (...). 21 Art. 36. O currículo do ensino médio observará o disposto na Seção I deste Capítulo e as seguintes diretrizes: I – Destacará a educação tecnológica básica, a compreensão do significado da ciência, das letras e das artes; o processo histórico de transformação da sociedade e da cultura; a língua portuguesa como instrumento de comunicação, acesso ao conhecimento e exercício da cidadania; II – Adotará metodologias de ensino e de avaliação que estimulem a iniciativa dos estudantes; III – será incluída uma língua estrangeira moderna, como disciplina obrigatória, escolhida pela comunidade escolar, e uma segunda, em caráter optativo, dentro das disponibilidades da instituição. Art. 39. A educação profissional, integrada às diferentes formas de educação, ao trabalho, à ciência e à tecnologia, conduz ao permanente desenvolvimento de aptidões para a vida produtiva. Art. 44. A educação superior abrangerá os seguintes cursos e programas: I – Cursos sequenciais por campo de saber, de diferentes níveis de abrangência, abertos a candidatos que atendam aos requisitos estabelecidos pelas instituições de ensino; II – De graduação, abertos a candidatos que tenham concluído o ensino médio ou equivalente e tenham sido classificados em processo seletivo; III – de pós-graduação, compreendendo programas de mestrado e doutorado, cursos de especialização, aperfeiçoamento e outros, abertos a candidatos diplomados em cursos de graduação e que atendam às exigências das instituições de ensino; IV – De extensão, abertos a candidatos que atendam aos requisitos estabelecidos em cada caso pelas instituições de ensino. (Lei nº 9.394, 1996) Assim, uma diferença óbvia é a extensão do ensino fundamental, na LDB de 1996, outrora tratado como primário, a 11 anos, e não mais quatro anos, como na LDB de 1961. Tal extensão fundamenta-se, sem dúvida, na necessidade do mercado de trabalho e do sistema capitalista de produção, reflexo de um processo complexo e muitas vezes pouco claro de mundialização do capital, mediante uma reestruturação produtiva que necessita aqui ser mais bem explicada. 22 Falar do mundo do trabalho tomando como referência os anos 90 do século XX é afirmar que o setor está passando por uma série de transformações. O processo de reestruturação produtiva, surgido como resposta à crise do antigo modelo de gestão capitalista, as mudanças ocorridas na forma de organização do mundo do trabalho e as novas tecnologias são alguns dos fatores que estão atingindo diretamente as questões do trabalho. (Aguiar & Durães, 2008: 27-28) A ideologia da globalização, aqui entendida como mundialização do capital (Alves, 2003; Chesnais, 2006), não é um processo iniciado na segunda metade do século XX, mas alcança hoje o seu mais complexo ponto de desenvolvimento. Para Chesnais (2006), o progresso técnico, aqui tomado do ponto de vista da estrutura educacional brasileira, é afirmado enquanto um processo absolutamente benéfico e necessário, ficando a cargo dos países em desenvolvimento adaptarem-se às novas exigências do mundo do trabalho. Se, na década de 1960, a teoria do capital humano iniciava um processo perverso de responsabilização do trabalhador pela sua própria capacitação para o trabalho, a reestruturação produtiva alimentou ainda mais esse processo. Termos como qualificação, empreendedorismo e empregabilidade surgem, dentro do discurso neoliberal, como parte de um movimento natural do mundo do trabalho, cabendo aos trabalhadores adaptarem-se a ele (Aguiar & Durães, 2008). Isso, por exemplo, não aparece na LDB de 1961, pois o momento histórico ainda é o do nacional-desenvolvimentismo, onde ainda reinava o modelo fordista/taylorista, onde os trabalhadores tinham o mínimo acesso possível ao processo de produção, e instruções mínimas eram suficientes. Por outras palavras, um ensino técnico deveras direcionado à execução de tais tarefas era suficiente. Já na LDB de 1996, influenciada pela reestruturação das relações de produção, quando contém no seu texto a afirmação «a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores» (Lei nº 9.394, 1996), evidencia o caráter meritocrata da proposta de sistema de ensino no final do século XX. Romanelli (1983: 15) descreve as reformas educacionais efetuadas na década de 1960, e que de fato já vinham a ocorrer desde décadas anteriores, de forma estritamente ligada ao almejado desenvolvimento do país: As reformas efetuadas nesse período [de 1930 a 1964] visaram, teoricamente, a uma adequação maior do sistema educativo ao modelo de desenvolvimento adotado. Nesse sentido, ganhou importância a necessidade de afastar do sistema tudo quanto tivesse relação com a velha concepção de 23 educação própria da mentalidade pré-capitalista, e os termos «eficácia» e «produtividade» adquiriram um conteúdo ideológico. Vejamos então a definição que Dourado, Oliveira e Catani (2003: 19) têm das mudanças implementadas pela LDB de 1996, cabendo esclarecer que o fazem direcionados ao ensino superior, mas pensa-se que a reflexão é extensiva às outras faixas de escolarização: Na área educacional, várias mudanças vão se efetivando no que concerne ao papel social das instâncias educativas, seu financiamento e abrangência de atuação, entre outros. Qual é o papel da educação superior e da universidade, especialmente a pública, nesse cenário de mudanças na sociedade contemporânea? Na perspectiva da reestruturação capitalista em curso, a universidade administrada passa a ser entendida como lócus da formação de profissionais. Nesse sentido, compete à universidade contribuir significativamente com a produção de mais-valia relativa, ou seja, ela deve formar profissionais e gerar tecnologias e inovações que sejam colocadas a serviço do capital produtivo. Assim, parece haver uma congruência entre as mudanças ocorridas entre uma e outra LDB e entre uma e outra forma de organização das relações de trabalho capitalista, respectivamente o desenvolvimentismo e a reestruturação produtiva. Gallart (1997: 103-104) descreve com clareza esse processo de mudança: Este proceso de reestructuración productiva recrea la organización de la empresa y la relación entre ellas. El estilo fordista de organización em serie de productos idénticosdesarollada em grandes plantas estructuradas jerárquicamente, y consecuentemente, em el trabajo especializado y la estrutura ocupacional jerárquica. Em cambio, em los nuevos modelos baseados em la producción flexible y la organización más horizontal em células productivas, responsables por la producción y la calidad, se requieren calificaciones polivalentes de los trabajadores. O trabalhador, que na década de 1960 possuía quatro anos de escolarização, era considerado apto ao trabalho, pois com instruções básicas as suas funções podiam ser cumpridas sem dificuldades. A responsabilidade pela formação desse trabalhador, como evidenciado na LDB de 1961, era dividida de forma mais equitativa entre este e o Estado. Já a partir da década de 1980, ou seja, a partir da reestruturação produtiva, essa responsabilidade passa a ser quase que exclusiva do próprio trabalhador, devendo este tornar-se empregável. Termos como empregabilidade, empreendedorismo e qualificação ganham nuances ideológicos, passando a meritocracia a ser o principal mecanismo de inserção do trabalhador no mercado. Um ponto em que se nota um afastamento de ambas as LDB é o concernente à 24 privatização do ensino. Embora seja fato que a LDB de 1961 abriu espaço à formação de um sistema de ensino privado, o mesmo se deu ao nível do ensino técnico. Na LDB de 1996, onde a abertura é deveras maior, basta uma análise de cunho quantitativo para se notar tal fato. O termo «iniciativa privada» aparece, na LDB de 1961, duas vezes, uma quando trata do ensino técnico, como dito, e outra quando trata do ensino das «crianças excepcionais» (Lei nº 4.024, 1961). Já na LDB de 1996 constam 13 aparições do termo, relacionadas com todos os níveis de educação escolar, principalmente o ensino superior (Lei nº 9.394, 1996). Destarte, retomando Chesnais (2006), da mesma forma que os países em desenvolvimento passam a ter que se adaptar às contínuas transformações do capitalismo, cada vez mais a nível mundial, o trabalhador passa a ter que se tornar empregável, a qualificar-se, sempre em níveis crescentemente maiores e mais complexos. Souza esclarece tal ponto de forma absolutamente clara: Outro elemento relevante desse exercício é pensar o movimento da história e as exigências de educação escolar. Foi no século XIX que ela saiu do arbítrio individual e se tornou obrigação pública. Mas, até meados do século XX, bastavam quatro anos de escolarização para alguém ser considerado «formado» em nível básico. Os anos 60 e 70 marcaram a popularização do ginásio, ou a expansão do ensino fundamental para oito anos. A partir da LDBEN 9.394/96, a «educação básica» passou a ser definida como aquela a ser garantida até a idade de 17 anos, portanto um contínuo entre ensino infantil, primário, fundamental e médio. As transformações cada vez mais vertiginosas no sistema produtivo passaram a exigir uma elevação geral no nível de escolarização e, presumivelmente, de formação humana, de qualificação para o trabalho e exercício da cidadania. (2007: 17) Assim, tomar os dois momentos históricos por um viés de análise comparativa propicia uma possibilidade de generalização, embora esta deva ser feita sempre com cautela nas ciências sociais, já que não se trata apenas de um momento em que o Estado adequa às suas ações institucionais ao desenvolvimento pretendido ou buscado. Abre-se aqui uma brecha que, em futuras pesquisas, poderá ser mais detalhada e, por isso, justificada e explicada, pois a presente comparação transparece a atuação do Estado na regulação das relações capitalistas de produção. Comparativamente, as políticas públicas de educação, tomadas aqui as Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1961 e 1996 enquanto exemplos concretos destas, relacionam-se de forma absolutamente direta aos projetos de modernização e evolução das relações capitalistas de produção. Na verdade, o nosso principal argumento é de que tem havido, no Brasil, uma progressiva caracterização 25 e organização do sistema educativo como unicamente de formação para o ingresso no mercado de trabalho, em detrimento de um processo formativo do ponto de vista de acesso ao conhecimento historicamente produzido, pela cultura produzida por uma sociedade, um país. Isso coaduna-se com uma construção ideológica meritocrata e conservadora, que afirma e reafirma a sociedade sobre bases liberais de organização. Outro texto clássico, de uma rigorosidade comparativa extrema, é A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Engels (2000), com edição original de 1884. Nele, o autor elucida e justifica o papel que possui o Estado na regulação do mercado e nas relações capitalistas de produção. Faz-se referência a este texto com o intuito de fortalecer as análises de cunho macrossocial, o que se tem tornado, nos últimos anos, quase um atraso, em termos científicos. Não se crê aqui que uma análise de cunho marxista esteja, em absoluto, fora do seu tempo, como a academia tem tentado argumentar, justificando para tanto, quase sempre, no próprio processo de contínuas mudanças do capitalismo, formas cada vez mais eficientes de impor a ideologia que lhe é própria. Nessa mesma obra, Engels afirma, e demonstra por meio de uma análise comparativa, que a função do Estado é a de re-adequar, continuamente, a sociedade «frente ao esgotamento das formas de acumulação, numa sociedade que já vive o antagonismo de classes, com a dominação de uma sobre a outra» (Marcassa, 2006: 88). É pois, dessa forma, que o exercício comparativo enriquece a análise da realidade educacional brasileira nos dois momentos aqui tratados. Dizer que há uma certa adequação da LDB de 1961 com os ideais desenvolvimentistas seria demasiado limitado, embora correto; mas fazê-lo tomando a LDB de 1996 e o contexto da reestruturação produtiva enquanto parâmetros para comparação enriquece e fortalece a argumentação de que há uma relação, na sociedade moderna, entre as políticas públicas de educação e as ações do Estado. Os modelos de desenvolvimento, que sempre perpassaram pela ampliação do mercado, ou seja, modelos de desenvolvimento económico, de cada um dos dois momentos históricos aqui postos sob análise, estiveram sempre respaldados pelas ações do Estado no que concerne à organização do sistema de ensino, buscando criar mais espaço à iniciativa privada, por exemplo, ou mais forte ainda, criando a ilusão de que é no esforço individual que reside a possibilidade de mobilidade social, como se todas as crianças que chegam à escola o fizessem da mesma forma. Cada criança chega à escola com uma bagagem cultural específica, tendo passado, muitas 26 vezes, por um tortuoso caminho, carregado de privações de todas as ordens, e quer- se que estas crianças tenham o mesmo desempenho que outras que tiveram respeitados os seus direitos à saúde, à habitação, à alimentação e ao convívio familiar. A lógica do capital parece, realmente, articular toda a organização do sistema de ensino brasileiro, pelo menos no que tange ao texto das leis aqui analisadas. O presente artigo objetivou possibilitar a abertura de espaços para outras pesquisas, a partir das reflexões realizadas, como o movimento de privatização, que foi muito alimentado pelos ideais neoliberalistas da década de 1990. Assim, a educação brasileira tem vindo, progressivamente, a direcionar-se para a formação para o trabalho de uma forma cada vez mais sólida. A escola tornou-se o único lugar, na sociedade contemporânea, onde um indivíduo se pode capacitar para o trabalho. Isso porque hoje só se considera enquanto trabalho aquela relação formal entre um empregador e um empregado, nos moldes de uma relação capitalista de produção. O fulcro central das visões apologéticas de produtividade e de trabalho produtivo resulta na ideia de que cada trabalhador é socialmente remunerado ou socialmente valorizado paramanter-se empregado ou não, de acordo com sua produtividade, vale dizer, de acordo com a sua efetiva contribuição para a sociedade. Ou seja, o que o trabalhador ganha corresponde ao que contribui, e o que cada um tem em termos de riqueza depende de seu mérito, de seu esforço. (Frigotto & Ciavatta, 2003: 50) Já que tal ligação é clara, pode ainda a educação ser considerada enquanto instituição de transformação social, já que parece servir para a manutenção das desigualdades sociais? Recorre-se a Bourdieu (2008: 241), tendo esta citação justamente direcionado uma forte crítica à teoria do capital humano, na década de 1960: É preciso, portanto, relacionar as propriedades de estrutura e de funcionamento que um sistema de ensino deve à sua função própria e às funções externas dessa função própria com as disposições socialmente condicionadas que os agentes (emissores e receptores) devem à sua origem e à sua condição de classe assim como à posição que ocupam na instituição, para compreender adequadamente a natureza das relações que unem o sistema escolar à estrutura das relações de classe. Trazendo a discussão para a atualidade, pode-se afirmar que apesar da relativa perda de prestígio da teoria do capital humano nas décadas que se seguiram, o processo de fortalecimento da díade educação-desenvolvimento encontra-se bastante presente através de um viés cada vez mais meritocrata e individualista que 27 domina e estabelece a ligação entre a educação e empregabilidade no Brasil. A reestruturação produtiva capitalista, desencadeada no final da década de 1980, desempenhou um papel reforçador demasiado importante nesse processo. Assim, nota-se uma crescente retirada da responsabilidade do Estado da cena educacional, e uma correspondente ampla abertura ao sistema privado de ensino, principalmente ao nível do ensino superior (Ide & Rota Júnior, 2009). Repensar a educação é um projeto político, mais do que nunca, e não puramente pedagógico, pensando aqui numa pedagogia cega à realidade social em que a escola se institui e atenta às constantes mudanças dela dentro do processo de contínuas adaptações do sistema capitalista aos becos sem saída que ele mesmo cria, inexoravelmente.3 3 EDUCAÇÃO NO BRASIL COLÔNIA E IMPÉRIO Fonte: www.pt.slideshare.net 3 Texto Extraído: https://www.fpce.up.pt 28 Desde a época de Colônia e Império que a educação brasileira já enfrentava graves problemas de ordem político-econômica e administrativa. Com uma sociedade aristocrática de modelo econômico agrário com mão de obra escrava e um precário sistema de arrecadação tributária eram parcos os recursos destinados à educação. De acordo com ARANHA (1996) primeiro sistema de educação existente no Brasil foi organizado pelos padres jesuítas e durou aproximadamente 210 anos desde sua chegada ao Brasil em 1549 com Tomé de Sousa, até a Reforma Pombalina que os expulsou de Portugal e do Brasil. A pedagogia jesuítica era fundamentada no cristianismo e direcionada pelo Ratio Studiorum (conjunto de regras e métodos educacionais que regia as práticas pedagógicas dos jesuítas), sua finalidade era difundir a fé cristã e converter os nativos ao cristianismo. A educação oferecida pelos colégios jesuítas aos filhos dos colonos portugueses era diferente da educação dada aos curumins, a estes era ministrada uma espécie de aculturação. Segundo GHIRALDELLI (2008) o curso ministrado nos colégios jesuítas estava voltado mais para os jovens já instruídos do que para a educação infantil, o currículo era direcionado para a área de humanas como, Filosofia e Teologia. As demais carreiras acadêmicas só poderiam ser cursadas em Portugal. Com a chegada de D. João VI ao Brasil em 1808, o Brasil se tornou sede da coroa portuguesa e algumas medidas foram implantadas no campo da educação como a criação da Biblioteca Real, do Museu Nacional e de várias faculdades na área de: Medicina, Engenharia, Direito e Artes, dentre outras que deram uma nova roupagem à educação brasileira, conforme WEREBE (2004). No entanto, esse incentivo dado à educação superior só contemplou a classe aristocrática que não precisava mais enviar seus filhos para estudar na universidade de Coimbra em Lisboa. Os demais níveis de ensino continuaram esquecidos pelo governo reforçando o caráter excludente da educação brasileira. Diante da difícil situação econômica em que se encontrava o Brasil no período colonial, não havia condições de construir novas escolas, de investir na formação de seus professores e de remunerá-los decentemente. ARANHA (1996, p. 154) afirmava que: “Por isso não é boa a qualidade do ensino, com professores improvisados, incompetentes, e devido aos baixos salários eram obrigados a se dedicarem a outras atividades ao mesmo tempo”. Dessa forma, o que prevalecia eram as iniciativas privadas e as importações de preceptoras estrangeiras para educar os filhos da elite 29 em suas casas. Enquanto que à população era oferecida uma educação elementar nas raras escolas existentes, nas quais se ensinava apenas ler, escrever e contar. Percebe-se aí o evidente descaso do poder público para com a incipiente educação pública brasileira que desde seu advento foi estigmatizada por um caráter antidemocrático e marcada pela ausência de políticas públicas que assegurasse à população o direito a uma educação democrática e gratuita. Este fato comprometeu seriamente a qualidade da educação pública brasileira caracterizando-a como elitista e reprodutora das desigualdades sociais. Durante esse período em que o Brasil foi colônia e império não houve nenhuma política educacional voltada para a educação infantil, por mais de três séculos o tratamento direcionado às crianças pobres menores de sete anos foi de cunho puramente assistencialista, filantrópico e caridoso. 3.1 Educação na república velha As últimas décadas do século XIX foram marcadas por transformações sociais, econômicas, políticas e culturais que resultaram na Abolição da Escravidão em 13 de maio de 1888, seguida pela queda do Império e Proclamação da República pelo Marechal Deodoro da Fonseca em 15 de novembro de 1889. Ambos os acontecimentos decorreram da luta de um grupo de abolicionistas e republicanos que estudaram em Universidades da Europa e foram influenciados pelos princípios iluministas e pelos ideais de Liberdade, Fraternidade e Igualdade que inspiraram a Revolução Francesa em 1789. Esta elite intelectual, formada em centros europeus, principalmente em Coimbra, em contato com as ideias liberais que circulavam nestes centros, influenciados pela Independência dos Estados Unidos e pela Revolução Francesa. Voltava ao Brasil com disposições de trabalhar pela libertação nacional (WEREBE, 2004, p. 425). Ao retornarem ao Brasil, o grupo supracitado almejava implantar mudanças de ordem política, econômica e social visando o progresso e a modernização do país. Paralelo aos abolicionistas e republicanos, havia também movimentos populares em defesa da abolição e da república, como por exemplo, os quilombos, movimentos de resistência à escravidão, organizados pelos próprios escravos. Em se tratando da luta em prol da República, segundo FAUSTO (2007) os militares insatisfeitos com o 30 tratamento recebido pelo imperador também se aliaram aos republicanos no combate à monarquia, fato este que contribuiu significativamente para a proclamação da República. A República nasceu em um contexto marcado por importantes mudanças socioeconômicas inéditas na história do país, com o fim da escravidão e a expansão da lavoura cafeeira era necessário aos fazendeiros de café, segundo PRADO (1976) importar mão de obra estrangeira. A solução do problema da mão de obra, a grande questão do passado, fora completa: de um lado pela abolição da escravidão se removera o obstáculo oposto ao desenvolvimentodo trabalho livre; doutro, pela imigração subvencionada e contando com o superpovoamento de várias regiões da Europa, se conseguira canalizar para o Brasil uma forte e regular corrente de trabalhadores (PRADO, 1976, p.207). Dessa forma, com a chegada dos imigrantes europeus, trabalhadores livres e assalariados, a mão de obra escrava foi substituída pela assalariada, marcando o início de um novo modelo de produção no Brasil. No campo político administrativo a Região Sudeste foi beneficiada com a política intitulada “Política café-com-leite”, na qual os Estados de Minas Gerais e São Paulo (grandes produtores de leite e café) Detrimento das demais regiões do país. Nesse contexto, a grande maioria da população era analfabeta, realidade que o ideal republicano pretendia mudar através da universalização da escola pública, laica e gratuita. Para isso, algumas reformas educacionais foram empreendidas como: a Reforma Benjamin Constant (1891), Reforma Epitácio Pessoa (1901), Lei Rivadávia Corrêa (1911), Reforma Carlos Maximiliano (1915) e a reforma Rocha Vaz (1925), segundo PALMA FILHO (2005). Todavia, tais reformas não atingiram a maioria da população e nem chegaram a ser de fato implantadas, apesar de ter conseguido descentralizar um pouco a educação no país, está evoluiu de forma diferente e o ensino brasileiro permaneceu dualista. As reformas empreendidas pelos republicanos não foram bem vistas pela igreja católica, nem pela oligarquia cafeeira que não eram favoráveis à democratização do ensino público. Além desses problemas, elas enfrentaram outros. As reformas não se implantaram de fato devido à falta de infraestrutura e de apoio das elites (oligarquia do café), avessas a qualquer renovação cultural. Além disso, a Igreja Católica reagia de forma negativa às novidades positivistas atribuídas ao governo republicano, considerado ateu, e que na Constituição estabelecera a separação da Igreja e do Estado e a laicização do ensino nos estabelecimentos públicos (ARANHA, 1996, p. 197). 31 Esse fato revela a fragilidade da educação pública brasileira que desde sua gênese sofre com a interferência da elite dominante, a escassez de investimento por parte do governo e enfrenta a concorrência com o ensino privado. Percebe-se também, um antigo problema que ainda hoje persegue as políticas públicas de educação no Brasil a distância existente entre a legislação e a realidade, ou seja, há uma discrepância histórica entre a teoria e a prática. As reformas defendidas nesse período contemplaram unicamente o ensino superior e secundário que ficaram sob responsabilidade da União e estavam destinados à elite, por isso, recebiam maiores investimentos. Enquanto isso, o ensino elementar destinado à população continuava esquecido pelo poder público e suas políticas educacionais excludentes. Nesse contexto, a educação infantil inexistia para as crianças oriundas das camadas populares. O que havia até então no atendimento às crianças menores de sete anos eram políticas de assistência à infância através das creches e asilos que cuidavam das crianças pequenas enquanto suas mães trabalhavam. Conforme KRAMER (2001) durante os primeiros anos da República não existia nenhum compromisso político para com a escolarização da infância. Esse período era caracterizado pelo surgimento de algumas instituições que apenas cuidavam das crianças carentes. Dentre esses grupos, encontrava-se o fundador do Instituto de Proteção à Infância do Brasil, com sede no Rio de Janeiro. Criado em 1899, o Instituto tinha como objetivos: atender aos menores de oito anos; elaborar leis que regulassem a vida e a saúde dos recém-nascidos; regulamentar os serviços das amas de leite, velar pelos menores trabalhadores e criminosos; atender às crianças pobres, doentes, defeituosas. Maltratadas e moralmente abandonadas; criar maternidades, creches e jardins de infância (KRAMER, 2001, p. 52). Já para as crianças da elite, conforme BASTOS (2001) foi criado o primeiro Jardim de Infância instalado no Colégio Menezes Vieira no Rio de Janeiro, em 1875, pelo médico Joaquim José Meneses Vieira e sua esposa D.Carlota. Essa instituição era inspirada na concepção educacional froebeliana e ensinava música, cálculo, ginástica, religião, história, leitura, escrita e outras atividades atendendo apenas ao público infantil do sexo masculino de três a seis anos. É notável o descaso do Estado para com a educação da população brasileira que adentrava o século XX com índices inaceitáveis de analfabetismo e uma educação elitista que priorizava o ensino superior e secundário em detrimento do ensino fundamental. Além disso, era precária a política assistencial direcionada à infância desvalida. 32 3.2 Educação e reformas na Era Vargas Desde o início de 1930 que o poder da oligarquia cafeicultora se encontrava ameaçado pela crise econômica que afetou o mundo em 1929 e repercutiu diretamente no poder da elite brasileira dificultando sua permanência no controle da política nacional. Outro fato que ameaçava a política café-com-leite era o crescimento e a organização dos grupos opositores que estavam dispostos a lutar para derrubar o governo oligárquico. O clima no país conforme FAUSTO (2007) era de insatisfação de vários setores da sociedade civil e tensão política que culminou com a eclosão da Revolução de 30 que depôs o governo de Washington Luís. A partir de então, dava início ao período da História brasileira conhecido como a Era Vargas que durou segundo FAUSTO (2007), de 1930 até 1945 e foi dividido em três fases: Governo Provisório (1930-1934); Governo Constitucional (1934-1937) e Estado Novo (1937- 1945). Vargas encontrou um Brasil tipicamente rural e pouco industrializado com uma economia agroexportadora e marcado pelas disparidades regionais e sociais e pelos altos índices de desemprego e analfabetismo. A crise de 1929 havia afetado diretamente o modelo econômico brasileiro agroexportador contribuindo para o aumento da pobreza e das desigualdades sociais. A combinação entre a crise na produção agrícola e o crescente processo de industrialização apontava para um novo modelo de produção e desenvolvimento urbano. Esse novo contexto social teve como consequência, por um lado, o surgimento de uma classe burguesa emergente que passava a exigir do governo a ampliação da oferta de ensino público. Por outro lado, o próprio desenvolvimento industrial exigia mão de obra qualificada, isto é, fazia-se necessário investir na formação de recursos humanos. Sendo assim, coube ao governo de Vargas elaborar e implantar políticas econômicas e sociais que libertasse o país da crise na qual estava imerso. Para isso, o governo instituiu o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, designou medidas de proteção à economia nacional, concedeu direitos reivindicados pela classe dos trabalhadores, conferiu às mulheres o direito ao voto, dentre outras medidas que foram tomadas em favor da população. Todavia, seu governo também foi marcado pelo intervencionismo, pelos conflitos armados, pela censura, pela repressão aos seus opositores e pela ditadura implantada no Estado Novo que conforme FAUSTO (2007, p. 372) “[...] perseguiu, prendeu, torturou, forçou ao exílio intelectuais e políticos, sobretudo de esquerda e 33 alguns liberais”. No campo da educação a primeira atitude do governo Vargas assim que assumiu a presidência em 1930, foi criar o Ministério da Educação e Saúde Pública cargo ocupado por Francisco Campos que realizou a reforma educacional que recebeu seu nome. Essa reforma teve um importante papel na organização nacional do ensino, estruturação das Universidades e criação do Conselho Nacional de Educação. Ela também rege sobre o ensino secundário que passa a ter dois ciclos, conforme salienta (ARANHA, 1996, p. 201) “[...] um ensino fundamental de cinco anos e outro complementar de dois anos, esteúltimo visando à preparação para o curso superior. [...]” são estabelecidas normas de admissão de professores. Segundo GHIRALDELLI (2008) Francisco Campos através do Decreto 20.158 organizou o ensino comercial e regulamentou a profissão de contador. Embora essa reforma tenha representado importantes avanços para a educação brasileira, ela também desenvolveu uma política de educação seletiva e discriminatória. Outra atitude importante tomada pelo então presidente Vargas, foi o desafio lançado aos educadores durante a realização da IV Conferência Nacional de Educação organizada pela Associação Brasileira de Educação (ABE), em 1931. Nesse evento ao discursar para os professores juntamente com o ministro Francisco Campos, Getúlio Vargas propôs aos mesmos que definissem o “sentido pedagógico da Revolução de 1930” (GHIRALDELLI, 2008, p. 41). No ano seguinte foi publicado o documento intitulado Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova que influenciaria a Constituição de 1934, na qual a Educação aparece pela primeira vez na História do Brasil como direito de todos e dever da família e dos poderes públicos. Ao ser publicado em 1932 por um grupo de intelectuais denominado os “Escolanovistas” cujos principais representantes eram: Fernando Azevedo, Anísio Teixeira e Florestan Fernandes, o documento conhecido como Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova contrapunha-se ao modelo de educação tradicional católica vigente ao apresentar uma visão renovada de educação objetivando à democratização do ensino público. Esse documento defendia uma educação pública, laica, gratuita e obrigatória, distinguindo os educadores liberais dos tradicionais e conservadores católicos. De acordo com GHIRALDELLI (2008), o Manifesto elegeu a educação dentre todos os problemas existentes no país como o mais importante, por isso, ela deveria ser prioridade do governo. Os escola novistas viam a educação como a mola propulsora das transformações sociais, políticas e econômicas pelas quais o Brasil precisava passar 34 para acoplar-se aos países desenvolvidos. Daí a importância de se elaborar um Plano Nacional de Educação que norteasse a organização de um sistema de educação em âmbito nacional e atendesse às necessidades de modernização do país. Conforme afirma Saviani: Pela leitura global do “Manifesto”, pode-se perceber que a ideia de plano de educação se aproxima, aí, da ideia de sistema educacional, isto é, a organização lógica, coerente e eficaz do conjunto das atividades educativas levadas a efeito numa sociedade determinada ou, mais especificamente, num país. Trata-se, no caso em questão, do conceito de plano entendido como instrumento de introdução da racionalidade científica no campo da educação [...] (SAVIANI, 2008, p. 178). Nota-se a relevância desse Manifesto para o desenvolvimento da educação brasileira que até então não possuía uma homogeneidade em sua organização a nível nacional, sendo, portanto, fragmentada de acordo com as disparidades regionais que contemplavam em sua maioria os grandes centros urbanos concentrados na região Sudeste, em detrimento principalmente das regiões do Norte e Nordeste do país. Essas regiões eram marginalizadas em relação à educação e apresentavam um índice maior de pobreza e analfabetismo se comparada com as demais. Embora a Constituição de 1934, cujo capítulo referente à Educação foi inspirado nas ideias liberais do Manifesto dos Pioneiros tenha significado um avanço na busca pela solução dos problemas educacionais brasileiros, com a Constituição outorgada em 1937, essas conquistas foram suprimidas. A partir daí o governo Vargas instalou um período de Ditadura, denominado “Estado Novo”. Essa nova política aboliu a necessidade de se implantar um “Plano Nacional de Educação”, que inclusive já estava pronto, segundo SAVIANI (2008) com 504 artigos. Vargas passou a redirecionar sua política educacional de acordo com os interesses políticos e ideológicos de seu governo. Assim, enquanto para os educadores alinhados com o movimento renovador o plano de educação era entendido como instrumento de introdução da racionalidade científica na política educacional, para Getúlio Vargas e Gustavo Capanema o plano convertia-se em instrumento destinado a revestir de racionalidade o controle político-ideológico exercido pela política educacional (SAVIANI, 2008, p. 179). Para isso, foi realizada a Reforma Capanema, na qual muitos decretos-leis foram assinados entre 1942 e 1946, recebendo o nome de Leis Orgânicas do Ensino. A essas leis cabia reestruturar novamente o ensino secundário intensificando as 35 diferenças entre o ensino propedêutico e acadêmico direcionado à classe média e alta, tendo em vista o ingresso nas universidades e o ensino profissionalizante visando à preparação da classe popular para atender à demanda do mercado de trabalho. Quanto ao ensino primário, sua regulamentação só ocorreu com o fim do Estado Novo em 1946, mais uma vez a prioridade foi do ensino secundário, enquanto que o fundamental continuava as margens das políticas de educação, institucionalizando o tradicional dualismo educacional. Nessa época, de acordo com GHIRALDELLI (2008), o Brasil se encontrava em ritmo acelerado de desenvolvimento econômico embalado pelo crescente parque industrial, pela criação da CLT- Consolidação das Leis Trabalhistas que garantia aos trabalhadores antigas reivindicações da classe operária conferindo a Getúlio Vargas o título de “pai dos pobres” e pela apologia ao nacionalismo e ao patriotismo exacerbados. Diante de todo esse crescimento industrial houve uma escassez de mão de obra especializada para atender ao mercado, este fato levou o governo a criar dois tipos de ensino profissionalizante, um mantido pelo Estado e o outro pelas empresas. Sendo assim, ainda conforme Ghiraldelli (2008) foi criado o SENAI- Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, que além de formar novos profissionais, reciclavam outros. O SENAI era estruturado e mantido pelas próprias indústrias. Posteriormente, em 1946 foi criado o SENAC- Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, que funcionava no mesmo esquema do SENAI. Esses dois cursos eram mais rápidos e eficientes na formação de mão de obra qualificada. As Leis Orgânicas da Reforma Capanema criou e subdividiu o ensino técnico-profissionalizante em quatro modalidades: Industrial, Comercial, Agrícola e Normal, Conforme (GHIRALDELLI, 2008, p. 85). A partir daí, o curso Normal de formação de professores passou a ser regulamentado, centralizado, vislumbrando a possibilidade de se organizar e implantar uma carreira docente que valorizasse e remunerasse dignamente o professor. Todavia, a política autoritária desenvolvida pelo Estado Novo postergou esses ideais escola novistas. Em se tratando de Educação Infantil, as Reformas Francisco Campos e Capanema não a menciona, evidencia-se então que não havia políticas públicas de educação direcionadas às crianças de zero a seis anos. Entretanto, devido ao quadro socioeconômico em que vivia a maioria da infância brasileira pobre, marcado pelas péssimas condições de vida que favorecia o aparecimento de doenças, desnutrição, abandono e delinquência, o governo optou pela implantação de uma política de intervenção social junto à infância desvalida. 36 Dessa forma, KRAMER (2001) afirma que o Estado reconhece a necessidade de modificar a situação, porém não assume sua função enquanto poder público e solicita a colaboração da sociedade civil para a proteção à criança, reforçando o histórico caráter filantrópico e assistencialista da educação infantil brasileira. Se desde o século XVII a assistência social privada, principalmente católica, precedera a ação oficial no Brasil, a partir da década de 30 o Estado assumia essa atribuição e convocava indivíduos isolados e associações particulares a colaborarem financeiramente com as instituiçõesdestinadas à proteção da infância [...] era reconhecido que cabia ao governo o dever de fundar e sustentar estabelecimentos tais como creches, lactários, jardins de infância e hospitais: por outro lado, afirmava-se que não existia uma só municipalidade no País que pudesse cumprir integralmente essa obrigação com seus próprios recursos. Daí se tornar indispensável a ajuda financeira de indivíduos abastados e de entidades filantrópicas (KRAMER, 2001, p. 61). Em decorrência do projeto desenvolvimentista implantado no Brasil pelo Estado nacional Varguista, a infância passou a ser vista e reconhecida como o futuro do país. Daí a importância de protegê-la e educá-la, para a obediência, a moralidade e o trabalho, segundo os princípios autoritários estabelecidos pelo Estado. Para isso, conforme salienta NUNES (2005), foram desenvolvidos os programas de higienização, assistência social e capacitação para o mercado de trabalho, era uma forma do governo intervir na família integrando crianças e jovens, exercendo assim um controle social das camadas populares. A partir daí, conforme KRAMER (2001) foram criados vários órgãos, alguns públicos e outros ligados à esfera privada para prestar atendimento à infância, à maternidade e à adolescência como: Departamento Nacional da Criança (1940), Serviço de Assistência a Menores (1941), Legião Brasileira de Assistência (1942), dentre outros. Todos estes programas estavam mais direcionados à área de saúde, higiene, assistência social e jurídica do que a área de educação. Os recursos financeiros destinados a estes projetos eram escassos dificultando o sucesso de sua implementação. Assim sendo, o Estado nacional Varguista embora tenha sido marcado por avanços e retrocessos na História da Educação Brasileira, e tenha reconhecido a necessidade de assumir a responsabilidade para com a educação infantil elaborando políticas públicas que contemplasse a criança enquanto cidadã de direito, não cumpriu seu papel como deveria. Pois alegou insuficiência de recursos públicos e delegou funções que seriam do governo à sociedade civil ao convocá-la para contribuir financeiramente com a 37 fundação e manutenção de instituições sociais direcionadas para o atendimento da infância abandonada e pobre. Dessa forma, Vargas inaugurou uma visão da criança como trabalhadora e colaboradora com o progresso da pátria, ao invés de uma criança cidadã possuidora de direitos inerentes à infância como: condições de vida digna e segura em companhia de sua família, liberdade de brincar, estudar e viver plenamente sua infância. Segundo KRAMER (2001, p. 60) “[...] surgia a criança trabalhadora, que passava a ser reconhecida como importante. [...] não se pode deixar de comentar o caráter demagógico que revestia a valorização da criança trabalhadora”. 3.3 A influência do pensamento neoliberal na lei 4.024/61 e lei 5.692/71 e suas consequências para as políticas públicas de educação Ao falar sobre Políticas Públicas para a Educação no Brasil, é impossível não mencionar o Neoliberalismo e a interferência norte-americana. Segundo Fonseca (1998), desde a década de 30 que há uma integração de ideias entre educadores brasileiros e americanos. Posteriormente, a partir da década de 50 e seguintes essa cooperação passou para o campo técnico e econômico. O Banco Mundial e o BIRD começaram a financiar projetos de educação no Brasil e demais países pobres da África e América Latina objetivando melhorar a infraestrutura e a qualidade do ensino através da ampliação de matrículas e redução da evasão e repetência. Todavia, para que esses empréstimos fossem realizados era necessário que o Brasil aceitasse as condições impostas pelo Banco Mundial que embora estivessem mascaradas sob o disfarce da “qualidade” a realidade era outra. A verdadeira intenção dos organismos internacionais é difundir as ideias neoliberais de desmonte do Estado e redução da máquina administrativa pública. Na educação, isso pode ser feito através do corte de gastos com a formação do professor, incentivo ao voluntariado na escola pública, o aumento do número de alunos em sala de aula, impregnação da ideologia neoliberal no livro didático, ampliação do número de pessoas alfabetizadas (mão de obra para o mercado de trabalho), sucateamento das universidades públicas, expansão do ensino superior à distância e privatização do ensino público. No decorrer de sua história as leis instituídas no Brasil sempre atenderam aos interesses das elites dominantes, sendo assim, a primeira LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) 38 promulgada no país, a Lei Nº4. 024/61 também foi fortemente influenciada por esta classe. Esta lei havia deixado os caminhos abertos para o investimento no ensino privado, pois permitia a concessão de bolsas para alunos carentes estudarem em escolas particulares incentivando a aplicação dos recursos públicos em instituições privadas, conforme CUNHA (1998). A Lei Nº 4.024, de 20 de dezembro de 1961em seu (capítulo I Da Educação Pré-Primária, Artigo 24) reconhece a obrigatoriedade do ensino público para crianças a partir dos sete anos e estimula as empresas que possuem mães com crianças de idade até seis anos a buscarem parceria com órgãos públicos ou assumirem por conta própria a educação dessas crianças em instituições denominadas pré-primárias, Brasil (1961). Evidencia-se aí a total ausência do Estado em relação à educação de crianças provenientes das classes populares ao negar suas atribuições enquanto responsável pela promoção do bem comum transferindo-as às empresas. Tal atitude conferiu caráter puramente assistencialista à educação dessas crianças. Com a implantação da segunda LDB, a Lei Nº 5.692/71 o contexto político vigente no país era outro, além das ideologias impostas pela elite brasileira, havia também segundo FONSECA (1998), a influência do pensamento neoliberal presente nos organismos internacionais que iniciavam o financiamento de projetos educacionais no Brasil e exigiam uma abertura cada vez maior das políticas educacionais brasileiras ao setor privado. A partir de então, a nova LDB priorizava o ensino tecnicista visando atender as necessidades das indústrias ao preparar o aluno exclusivamente para atender à demanda do mercado de trabalho. Até início dos anos 60 o Brasil possuía uma rede de ensino público de qualidade, mas a partir do golpe de 1964 que instaurou a Ditadura Militar o cenário educacional brasileiro foi modificado pela política econômica adotada pelos militares que abriram a economia do país ao capital estrangeiro. Essa atitude, conforme CUNHA (1998) favoreceu o privatismo e a economia de mercado em detrimento das políticas públicas e sociais. Iniciou-se uma campanha nos meios de comunicação de massa dirigida pelos grandes empresários visando disseminar a ideologia neoliberal de redução da função do Estado na administração pública ao denominá-lo incapaz de controlar as empresas estatais e os serviços públicos da área de: saúde, educação, saneamento básico, transporte, previdência social, energia, abastecimento de água e habitação dentre outros. O período de 1964 até 1973 foi segundo CUNHA (1998), o de maior expansão do ensino privado, onde escolas particulares receberam incentivos públicos para ampliarem sua 39 oferta de ensino primário para o 1º e 2º graus, mesmo que precariamente. Algumas se organizaram e abriram até cursinhos pré- vestibulares e faculdades se fortalecendo enquanto redes privadas, acumulando capital suficiente para transformarem essas faculdades em universidades. É lamentável que a escola pública tenha sido atacada dessa forma pelos interesses de uma minoria de políticos e empresários brasileiros totalmente descomprometidos com os direitos dos cidadãos e com o desenvolvimento, crescimento e fortalecimento do povo brasileiro enquanto nação soberana. 3.4 A promulgaçãoda constituição de 1988, a nova ldb 9.349/96 e a conquista do espaço da educação infantil no cenário educacional A década de 1980 foi marcada pela efervescência política dos movimentos organizados pela sociedade civil em prol da liberdade política, anistia, educação, construção e manutenção de creches, saúde, terra, entre outros, inclusive rompimento com o FMI. De acordo com ROSEMBERG (2008), foi neste contexto histórico que a Constituição de 1988 foi elaborada e aprovada tendo como modelo político o Estado do bem-estar social e a democracia que até então não havia sido afetado pelo ideal político Neoliberal. A partir dos anos 90, embora tenha sido promulgada uma Constituição democrática em 1988, há um retrocesso nas conquistas dos movimentos sociais e uma ascendência do neoliberalismo e da ideologia globalizada que ganham força política principalmente no governo de Fernando Henrique Cardoso que adere à proposta político-econômica norte-americana. O resultado dos sete anos do Governo Fernando Henrique Cardoso mostra que as conquistas da década de 1980 foram sendo uma a uma anuladas em nome do ajuste da economia e da atração do capital especulativo, mediante os mecanismos da desregulamentação, descentralização, flexibilização e privatização. A ditadura das leis do mercado vale dizer do capital e, particularmente, o capital financeiro especulativo, condena milhões de brasileiros ao desmonte dos direitos públicos de saúde, educação, trabalho, cultura, renda mínima, transporte, habilitação e aposentadoria. A consequência no âmbito social é a indigência de quase um terço da população brasileira (FRIGOTTO, 2002, p. 55, 56). É neste contexto que a atual LDB em vigor, a Lei Nº 9.394/96 surge, de acordo com ROSEMBERG (2008) em um novo modelo político-econômico marcado pela globalização da economia e a redução da função do Estado. Neste novo paradigma econômico concentra-se sua “política social” de distribuição de auxílios aos mais 40 carentes e socialmente vulneráveis. A nova LDB seria resultado do debate democrático de diferentes setores da sociedade e expressava o desejo desses segmentos de que a educação fosse assumida como prioridade do Estado. No entanto, esse primeiro projeto denominado Substitutivo Jorge Haje que já havia sido aprovado em diversas comissões da câmara foi substituído pelo projeto de lei do senador Darcy Ribeiro sendo alterado e moldado, segundo FRIGOTTO (2002), pelo Neoliberalismo infringindo os princípios democráticos da escola pública brasileira. Após sua aprovação nos trâmites legais e sanção pelo então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, foi promulgada em dezembro de 1996 a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei Nº 9.394/96. Analisando o longo processo pelo qual passou a LDB 9.394/96 até ser promulgada percebe-se o quanto os governantes brasileiros são submissos às regras ditadas pela política neoliberal, e como isto afetou diretamente aos interesses da população brasileira que teve os avanços conquistados na Constituição de 1988 castrados pelo pensamento neoliberal. Em se tratando de Educação Infantil no decorrer da História da Educação brasileira, é histórica a omissão do Estado na elaboração e implementação de políticas públicas que a contemple. Não havia instituições educacionais para esse público, o que houve durante séculos foram caridade e assistencialismo prestados nas áreas de saúde, social e jurídica visando manter vivas crianças pobres e rejeitadas, às vezes, pela própria família ou pela sociedade racista e preconceituosa que as tiravam da rua guardando-as em abrigos por considerá-las como uma ameaça, NUNES (2005). A partir da década de 70, houve uma expansão no atendimento de crianças de quatro a seis anos através de programas educacionais compensatórios para o pré-escolar visando reduzir as carências econômicas, afetivas e culturais dentre outras apresentadas pelas crianças que dificultavam sua aprendizagem. Segundo Kramer (2006) o MEC foi influenciado pela presença de organismos internacionais e programas desenvolvidos nos EUA e na Europa que viam na pré-escola a redentora do ensino público brasileiro. Só a partir do final século XX, depois que o país já tinha passado por várias transformações sociais, políticas, econômicas e culturais, após muitas reivindicações sociais pela liberdade política, pela democratização da educação das crianças de zero a seis anos, elas conseguiram em 1988 com a promulgação da Constituição Federal ser consideradas cidadãs de direito. A partir daí, a educação infantil tornou-se: direito da criança e dever não só da família, mas também do Estado. Mas para que esse direito 41 fosse concretizado com maior legitimidade era necessário que o mesmo estivesse na lei que rege a Educação Nacional, fato ocorrido em dezembro de 1996 com a promulgação da Lei Nº 9.394/96 que integrou a Educação Infantil à Educação Básica e em seu Art. 29 determina que: A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até cinco anos de idade, em seus aspectos físicos, psicológicos, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade (BRASIL, 1996). Percebe-se que não há uma obrigatoriedade do Estado em garantir que as crianças de zero a seis anos estejam efetivamente na escola, a lei é clara cabe ao Estado complementar a ação da família e da comunidade; bem diferente da seriedade com que é tratado o Ensino Fundamental. Em relação ao Ensino Fundamental a LDB em seu Art. 32 diz: “O ensino fundamental, com duração mínima de oito anos, obrigatório e gratuito na escola pública [...]”. Mais uma vez se evidencia o descaso com a Educação Infantil ao ser colocada à margem das demais etapas da Educação Básica. No que tange à formação de professores, a Educação Infantil foi contemplada pela primeira vez em sua história na LDB que exige uma formação inicial mínima para esses docentes conforme seu Art. 62 da Lei 9.394/96, alterado pelo Decreto nº 3.554, de 2000. A formação em nível superior de professores para a atuação multidisciplinar, destinada ao magistério na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental, far-se-á, preferencialmente, em cursos normais superiores (BRASIL, 1996). Além da formação mínima inicial a LDB também assegura a esses profissionais o direito à formação continuada. Essas conquistas são de fundamental importância para a recente história da Educação Infantil Brasileira, que até pouco tempo não era reconhecida como direito da criança e os seus profissionais não tinham garantidos em lei o direito de se qualificarem profissionalmente. Após a entrada da LDB 9.394/96 em vigor, planos, referenciais, diretrizes curriculares, e demais documentos têm sido elaborados pelo MEC abordando a Educação Infantil como primeira etapa da Educação Básica e sua relevância no processo educativo das crianças. Porém, surge no cenário da política nacional brasileira uma nova ameaça aos direitos das crianças de zero a cinco anos considerada uma afronta à Constituição e à LDB, são as 42 interferências dos organismos internacionais nas leis e políticas que regem a Educação Nacional. A proposta apresentada pelo Banco Mundial põe em perigo a frágil e recente história da Educação Infantil na busca de se efetivar enquanto direito da criança. Tais propostas políticas resgatam a tão criticada política assistencialista que sempre norteou a educação infantil no decorrer de sua história. Ora, no campo da Educação Infantil, o Banco Mundial entra no Brasil com uma nova concepção: a de “desenvolvimento infantil”, que, a meu ver, não significa apenas alteração na terminologia. Significa, sim, alteração de concepção, pois programas para o desenvolvimento infantil podem ser implantados pelas mães, por visitadoras domiciliares, no contexto da casa, da rua, da brinquedotecasob a responsabilidade de qualquer instância administrativa. E mais: no bojo de programas “focalizados” para o combate à pobreza corre-se o risco (já conhecido) de que eles não sejam complementares, mas substitutos dos programas setoriais universais (ROSEMBERG, 2008, p. 66). Considerando as lutas empreendidas pela sociedade, em particular pelos educadores e demais profissionais e pesquisadores da Educação Infantil, em prol dos direitos das crianças menores de seis anos e por uma educação que as considerem em suas dimensões biológicas, psicológicas, intelectuais, afetivas e sócio-histórico- culturais, não se pode permitir que políticas alheias aos interesses da população brasileira se sobreponham à sua democracia. Para tanto, é necessário que todos os envolvidos no processo educacional estejam atentos quanto à ideologia neoliberal presentes nas entrelinhas desses programas que prometem resolver os problemas apelando à participação social, à solidariedade e ao voluntariado, pois aí estão presentes, mesmo que de forma camuflada, políticas puramente assistencialistas.4 4 Texto Extraído: http://www.conhecer.org.br 43 4 LEGISLAÇÃO EDUCACIONAL A ORGANIZAÇÃO LEGAL DA EDUCAÇÃO BÁSICA Fonte: www.politize.com.br 4.1 O sistema federativo brasileiro e a educação Como se distribuem as competências legislativas, ou seja, quem legisla sobre o quê? Do ponto de vista histórico, o regime federativo no Brasil surge com o Decreto nº 1, de 15 de novembro de 1889, que também instituiu a forma republicana de governo. A consolidação desse regime veio com a Constituição Republicana de 1891. De modo geral, as Constituições que se seguiram a essa consolidação mantiveram o sistema federativo, embora não se possa dizer que, no período vigente das Constituições de 1937, 1967, bem como durante a vigência da Emenda Constitucional nº 1/69, o Brasil vivesse em sua plenitude o regime federativo. Na prática, era uma federação de fachada (LENZA, 2008, p. 248). O artigo 1º da Constituição de 1988 afirma que a http://www.politize.com.br/ 44 República Federativa do Brasil está constituída pela união indissolúvel dos Estados e Municípios, e do Distrito Federal, estabelecendo-se em Estado Democrático de Direito. Por sua vez, o caput do artigo 18 (BRASIL, 2012a) assevera: “A organização político-administrativa da República Federativa do Brasil compreende a União, os Estados, os Municípios e o Distrito Federal, todos autônomos.” Conforme ensina José Afonso da Silva (2004): A autonomia das entidades federativas pressupõe a repartição de competências para o exercício e desenvolvimento de sua atividade normativa. Esta distribuição constitucional de poderes é o ponto nuclear da noção de Estado Federal. Ao repartir as competências no sistema federativo, o legislador constituinte levou em consideração o interesse de cada ente federativo. Desse modo, competirão à União as matérias de predominante interesse nacional, como por exemplo: manter relações com Estados Estrangeiros e participar de organizações internacionais (BRASIL, 2012a, art. 21, I). Neste caso, tem-se a denominada competência exclusiva, que não se confunde com a competência privativa, uma vez que esta pode ser delegada e aquela outra não. Um exemplo de competência privativa da União pode ser visto no artigo 22, XXIV da Constituição Federal (CF) (Legislar sobre Diretrizes e Bases da Educação Nacional). A Constituição Federal é a principal fonte de onde emanam normas gerais para a estruturação do sistema educacional, compreendido em seus três níveis: União, Estados e Municípios. Para tanto, há no texto constitucional um capítulo especial (art. 205 a 214), inserido no Título VIII (Da Ordem Social). Há, ainda, matéria educacional esparsa em outros dispositivos constitucionais, como é o caso, por exemplo, do art. 6º (Direitos Sociais) e o que dispõe o art. 22, XXIV (Competência privativa da União sobre Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBEN, BRASIL, 2012a). Abaixo da Constituição Federal tem-se a LDBEN (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo Presidente da República em 20 de dezembro de 1996. A Lei Federal nº 9.394 veio a ser a segunda LDBEN que o país conheceu. A primeira foi sancionada pelo Presidente João Goulart em 20 de Dezembro de 1961, mas foi bastante alterada em 1968 (Lei 5.540 – também conhecida como Lei da Reforma Universitária, que reorganizou todo o ensino superior em nosso país). A Lei 5.692, de 11 de agosto de 1971, reorganizou 45 todo o ensino primário e secundário que passaram a ser denominados como Ensino de 1º e 2º Graus. No âmbito das unidades federadas (Estados e Distrito Federal), encontram-se dispositivos educacionais. Estes estão presentes nas Constituições Estaduais e na esfera municipal das Leis Orgânicas, uma espécie de Constituição Municipal. A LDBEN (BRASIL, 2012b) prevê a existência de órgãos normativos dos diferentes sistemas de ensino. No âmbito da União, há o Conselho Nacional de Educação (CNE) criado pela Lei Federal nº 9.151/1995, vinculado ao Ministério da Educação (MEC). Nos estados, existem os Conselhos Estaduais de Educação e nos Municípios há a possibilidade de organização dos Conselhos Municipais de Educação. Esta possibilidade decorre de dispositivo constitucional que, pela primeira vez, em nossa história educacional instituiu a figura do sistema municipal de educação. Cabe ao Conselho Nacional de Educação, entre outras atribuições, interpretar o que dispõe, em 92 artigos, a LDBEN. Os atos normativos do CNE são produzidos na forma de Resoluções e Pareceres que, necessariamente, devem ser apreciados pelo Ministro da Educação, quando serão homologados ou não. Trata-se de um órgão colegiado, integrado por 24 Conselheiros distribuídos em duas Câmaras: a) Câmara de Ensino Superior (CES) e b) Câmara de Educação Básica (CEB). O titular da Secretaria de Ensino Superior do MEC e o titular da Secretaria de Educação Básica, também do MEC, são membros natos, ou seja, obrigatoriamente ocupam duas vagas, entre as 24 existentes. Determinadas matérias terminam nas Câmaras, outras são submetidas ao Conselho Pleno (CP), integrado pela totalidade dos conselheiros. O mandato de cada conselheiro é de quatro anos, permitida uma recondução consecutiva. Metade das vagas é preenchida por entidades representativas do campo educacional, sindical ou científica e a outra metade é de livre escolha do Presidente da República. Devem estar igualmente representados o setor público e privado, bem como deve se observar uma distribuição regional, que nem sempre vem sendo seguida. No caso do Conselho Estadual do Estado de São Paulo, os atos normativos são deliberações, pareceres e indicações, e nem todos necessitam de homologação do Secretário da Educação. Cabe, ainda, a esse conselho, entre outras atribuições, aprovar convênios propostos pela Secretaria da Educação, bem como, apreciar a aplicação dos recursos decorrentes do Salário Educação. Também, no caso do 46 CEE/SP, são vinte e quatro conselheiros distribuídos em duas Câmaras: 1) Educação Básica e 2) Ensino Superior. O conselho conta, ainda, com Comissões Permanentes, como é o caso da Comissão sobre Legislação e Normas (CLN) e da Comissão de Planejamento (CP). Comissões especiais, também, podem ser criadas a critério do Conselho Pleno. O mandato de cada conselheiro é de três anos, não havendo restrições quanto ao número de reconduções. Os membros são nomeados pelo Governador do Estado. Pode haver indicações por parte de entidades da sociedade civil que, entretanto, poderão ou não ser levadas em consideração pelo chefe do poder executivo. A lei que rege o funcionamento do Conselho Estadual de Educação de São Paulo é a de nº 10.403, de 06 de julho de 1971, alterada em 1999,pela lei nº 10.238/99. Como se vê, trata-se de legislação antiga, na sua maior parte, superada pela Constituição Federal (05.10.1988) e também pela própria LDBEN. Urge, então, o encaminhamento à Assembleia Legislativa, pelo Chefe do Poder Executivo, de lei que atualize o funcionamento do conselho estadual aos ditames da legislação nacional, editada a partir da redemocratização do país, ou lei que parta da própria iniciativa do legislativo. Como já decorreram mais de quarenta anos desde a criação do conselho estadual, muitas das atribuições desse conselho já não estão sendo mais observadas. Por fim, cabe assinalar que o Estatuto da Criança e do Adolescente, também, contém matéria de interesse educacional e, por isso, precisa ser conhecido pelos profissionais que atuam no campo educacional. 47 5 A EDUCAÇÃO NO TEXTO CONSTITUCIONAL Fonte: www.nossaanadia.com.br Por ocasião do estudo da LDBEN (Introdução à educação, vol. 1, p. 70-108), comentamos muito brevemente alguns dispositivos do texto constitucional. Isto se deu pelo fato de que reservamos um estudo mais detalhado, por ocasião do Bloco que trata da gestão educacional. Como já é tradicional em nossas constituições, principalmente, no período republicano, a partir de 1891, a educação tem merecido destaque. Esse destaque também aparece na atual Constituição. Como já assinalado, o texto constitucional atual consagra todo um capítulo para a educação. Desde a promulgação em 1988, a educação já foi objeto de quatro emendas constitucionais: EC nº 11/96; EC nº 14/96; EC nº 53/2005 e EC nº 59/2009. A primeira delas acrescentou dois parágrafos ao artigo 207 (BRASIL, 2012a), com as seguintes redações: Art. 207 § 1º É facultado às universidades admitir professores, técnicos e cientistas estrangeiros, na forma da lei. http://www.nossaanadia.com.br/ 48 § 2º O disposto neste artigo aplica-se às instituições de pesquisa científica e tecnológica. A EC nº 14 (BRASIL, 2012c), de 12 de setembro de 1996, foi mais ampla. Modificou os artigos 34, 208, 211 e deu nova redação ao artigo 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). O art. 34 ficou com a seguinte redação: Art. 34. Alínea “e” – aplicação do mínimo exigido da receita proveniente de impostos estaduais, compreendida a proveniente de transferências, na manutenção e desenvolvimento do ensino e nas ações e serviços públicos de saúde. (Redação final dada pela EC nº 29, de 13.9.2000, que alterou a redação anteriormente dada pela EC nº 14). O Inciso II do art. 208 (BRASIL, 2012c) recebeu a seguinte redação: Art. 208 II – Progressiva universalização do ensino médio gratuito. Em relação ao art. 211(BRASIL, 2012c), três parágrafos foram modificados: Art. 211 § 1º A União organizará o sistema federal de ensino e dos Territórios, financiará as instituições de ensino públicas federais e exercerá, em matéria educacional, função redistributiva e supletiva, de forma a garantir equalização de oportunidades educacionais e padrão mínimo de qualidade do ensino mediante assistência técnica e financeira aos Estados, Distrito Federal e Municípios. A redação anterior era bem mais restritiva e não mencionava a garantia de equalização de oportunidades educacionais e nem se preocupava com o estabelecimento de padrão mínimo de qualidade do ensino e, ainda, restringia a ação supletiva da União apenas ao ensino obrigatório, ou seja, ao ensino fundamental. Entretanto, cabe assinalar que, ainda, não foi regulamentado o que venha a ser padrão mínimo de qualidade, nos termos do que dispõe o inciso VII da Constituição Federal “§ 2º Os Municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e na educação infantil” (BRASIL, 2012a, grifo nosso). A redação anterior mencionava a obrigatoriedade de atuar no ensino fundamental e na pré-escola. Provavelmente, o legislador constitucional tomou pré- escola como sinônimo de educação infantil, esquecendo-se da creche. É bem verdade 49 que, anteriormente, a creche era vista como local de ação de assistência social e não tinha a função de educar. Em boa hora, esse entendimento foi corrigido, neste caso, para melhor. Entretanto, conforme estabelece a LDB (BRASIL, 2012b): “§ 3º Os Estados e o Distrito Federal atuarão prioritariamente no ensino fundamental e médio”. Observe-se que o ensino fundamental deve ser compartilhado tanto pelos Estados, Distrito Federal e Municípios. De acordo com o que dispõe a Constituição Federal no art. 211 (§1º e § 2º), Art. 76 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, a EC nº 14 deu nova redação ao caput e introduziu sete novos parágrafos. Em linhas gerais, a nova redação possibilitou a criação do Fundo Nacional para o Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério, conhecido pela sigla FUNDEF, mais tarde, substituído pelo FUNDEB. Entretanto, as alterações perderam validade por ocasião da edição da EC nº 53, analisada a seguir. A mesa deu nova redação aos artigos 208, 211, 212, 214 e artigo 76 das Disposições Constitucionais Transitórias. Em relação ao artigo 208 (BRASIL, 2012d), foram dadas novas redações aos Incisos I e VII: I – educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria; VII – atendimento ao educando, em todas as etapas da educação básica, por meio de programas suplementares de material didático escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde. O contido no Inciso I será de implantação progressiva até o ano de 2016, e contará com apoio técnico e financeiro da União. Outra alteração foi a do § 4º do artigo 211 da CF (BRASIL, 2012d) que ficou com a seguinte redação: Art. 211. § 4º Na organização de seus sistemas de ensino, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios definirão formas de colaboração, de modo a assegurar a universalização do ensino obrigatório. Trata-se, no caso, do chamado regime de colaboração entre os entes federativos no campo educacional, também previsto no artigo 23 da CF, mas que ainda não foi regulamentado pela União. O § 3º do artigo 212 (BRASIL, 2012d) passa a ter a seguinte redação: 50 Art. 212 § 3º A distribuição dos recursos públicos assegurará prioridade ao atendimento das necessidades do ensino obrigatório, no que se refere a universalização, garantia de padrão de qualidade, nos termos do Plano Nacional de Educação. Atualmente, discute-se no Congresso Nacional a proposta de Plano Nacional de Educação (PNE), encaminhada pelo Poder Executivo. Foram apresentadas mais de duas mil emendas pelos parlamentares e, desde 2011, o país está sem o PNE. Pode- se deduzir, então, que a sua aprovação tem urgência. Também o artigo 214 foi objeto de nova redação dada pela EC nº 59 (BRASIL, 2012e): Art. 214. A lei estabelecerá o plano nacional de educação, de duração decenal, com o objetivo de articular o sistema nacional de educação em regime de colaboração e definir diretrizes, objetivos, metas e estratégias de implementação para assegurar a manutenção e desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis, etapas e modalidades por meio de ações integradas dos poderes públicos das diferentes esferas federativas que conduzam a: [...] VI – estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do produto interno bruto. Há vários aspectos a serem considerados como inovadores nessa nova redação dada ao artigo em apreço, o qual: Institui que, por meio do PNE, será alcançado o objetivo de articular o sistema nacional de educação, expressão que aparece pela primeira vez na legislação educacional e é alçada à condição de mandamento constitucional. Importante frisar que, no texto constitucional originário de 1988, aparece apenas o sistema federal, o dos estados e o dos municípios.Fica ausente a figura de articulação entre os diferentes entes federativos. Estabelece, como referencial para aplicação de recursos públicos em educação, uma proporção do produto interno bruto (PIB), ou seja, caso haja aumento do PIB, a educação deverá se beneficiar na mesma proporção de crescimento do mesmo. Por fim, acrescenta um § 3º ao artigo 76 (BRASIL, 2012e) do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), com a seguinte redação: Art. 76 § 3º Para efeito do cálculo dos recursos para manutenção do ensino de que trata o art. 212 da Constituição, o percentual referido no caput deste 51 artigo será de 12,5% (doze inteiros e cinco décimos por cento) no exercício de 2009, 5% (cinco por cento) no exercício de 2010 e nulo no exercício de 2011. O artigo 76 do ADCT criou a figura da desvinculação de receitas da União, conhecida pela sigla DRU. De acordo com essa disposição transitória, a União passa a aplicar na educação, não mais 18% como previsto no artigo 212, mas sim 14,4%, ou seja, há uma redução de 20%. Assim, a partir de 2011, o Ministério da Educação passou a contar com mais recursos para investir na educação. Todavia, é importante considerar que, a partir de 2016, passa a ser plenamente obrigatória a educação de crianças de 4 a 5 anos na pré-escola, todas as crianças e pré-adolescentes no ensino fundamental e todos os jovens de 15 a 17 anos no ensino médio. 6 A ORGANIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO BÁSICA, DE ACORDO COM A LEGISLAÇÃO Nesse sentido, serão abordados os seguintes assuntos: I – Os sistemas de ensino e seu financiamento II – O currículo escolar do ensino fundamental III – O currículo escolar do ensino médio IV - Educação Infantil V - Ensino Fundamental VI - Ensino Médio VII – Educação Profissional VIII – Educação Inclusiva (EJA, Educação Especial, Educação Indígena, Educação Quilombola e Educação nas prisões) IX – Sistema Nacional de Avaliação X – A formação dos profissionais da educação 52 7 OS SISTEMAS DE ENSINO E SEU FUNCIONAMENTO Originariamente, a LDB previa três sistemas de ensino, consoante o ordenamento jurídico estabelecido pela Constituição Federal: Federal (art. 16 da LDB) Dos Estados e do Distrito Federal (art. 17) Dos Municípios (art. 18) Com a Emenda Constitucional nº 59/09 surge a figura do Sistema Nacional de Educação, decorrente de alteração do artigo 214 do texto constitucional, que determina que o PNE preveja ações conjuntas dos diferentes entes federativos (União, Estados, Distrito Federal e Municípios), com a finalidade de criar um Sistema Nacional de Educação articulado, tema amplamente debatido por ocasião da Conferência Nacional de Educação (CONAE) realizada no ano de 2010. O sistema federal de ensino tem suas atribuições estabelecidas pelo artigo 9º da LDB (BRASIL, 2012b), entre outras, destacam-se: 1. Elaborar, em colaboração com os demais entes federativos, o Plano Nacional de Educação (PNE). 2. Prestar assistência técnica e financeira aos demais entes federativos, com a finalidade de desenvolver os diferentes sistemas de ensino e o atendimento prioritário à escolaridade obrigatória e, desse modo, exercendo sua função redistributiva e supletiva. 3. Estabelecer em colaboração com os Estados, Distrito Federal e Municípios, competências e diretrizes para a educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio, que nortearão os currículos e seus conteúdos mínimos, de modo a assegurar formação básica e comum. 4. Assegurar processo nacional de avaliação do rendimento escolar no ensino fundamental, médio e superior, em colaboração com os sistemas de ensino, com a finalidade de definir prioridades e a melhoria da qualidade do ensino. De acordo com artigo 16 (BRASIL, 2012b), integram o sistema federal de ensino: I. As instituições de ensino mantidas pela União 53 Em 2007, a União mantinha 106 instituições de ensino superior, atendendo 155 mil estudantes em cursos presenciais. Quanto à educação básica, haviam 300 escolas e um total de 217.738 estudantes matriculados (INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS, 2009 apud PILETTI; ROSSATO, 2010). II. As instituições de educação superior, criadas e mantidas pela iniciativa privada. Dados do Censo do Ensino Superior, do ano de 2009, indicavam que 2069 IES eram de natureza privada contra 245 IES públicas. Quanto ao tipo de instituição, 186 eram universidades (8%); 127 centros universitários (9,5%); 1966 faculdades (85%) e 35 CEFETs (1,5%). Em 2009, o ensino a distância respondia por 14,1% da matrícula, sendo que, em 2001, respondia por apenas 0,2% da matrícula no ensino superior. III. O s órgãos federais de educação Nos termos do artigo 17 (BRASIL, 2012b), os sistemas de ensino dos Estados e do Distrito Federal são integrados por: I. Instituições de ensino mantidas, respectivamente, pelo Poder Público estadual e pelo Distrito Federal; II. Instituições de ensino superior mantidas pelo Município; III. Instituições de ensino fundamental e médio, criadas e mantidas pela iniciativa privada; IV. Órgãos de educação estaduais e do Distrito Federal. O artigo 18 (BRASIL, 2012b) refere-se às instituições de ensino e aos órgãos que integram o sistema municipal de ensino. Este artigo inclui: I. As instituições de educação infantil (creches e pré-escolas) e de ensino fundamental e de ensino médio; II. As instituições de educação infantil, criadas e mantidas pela iniciativa privada; III. Os órgãos municipais de educação. 54 8 FINANCIAMENTO DA EDUCAÇÃO As responsabilidades do Poder Público no campo da educação básica Após termo conceituado os sistemas de ensino, passamos a tratar da questão do financiamento da educação básica. Garantir recursos adequados para fornecer educação de qualidade a todos, no caso brasileiro, é uma preocupação tardia. Embora as Constituições Federais, de 1934, 1946, 1967 e mesmo a atual de 1988, previssem percentuais de impostos a serem investidos na educação pelos diferentes entes federativos, o fato é que a destinação específica para a educação básica só irá acontecer em meados da década de 1990, com a criação do Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério (FUNDEF), como consequência da Emenda Constitucional nº 14/96, já comentada na disciplina de Política Educacional e também na síntese que, anteriormente, fizemos em relação à LDB. Com o término do prazo de validade do FUNDEF (2006), a Emenda Constitucional nº 53 abre caminho para a criação do Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica e Valorização do Magistério (FUNDEB). Este Fundo estende para toda a educação básica a aplicação de menos de 20% dos impostos arrecadados para cobrir as despesas com a manutenção de instituições escolares, que vão desde creches até o ensino médio. Em grande parte, a nova orientação, seguida a partir dos anos 1990, decorre do que foi estabelecido pela Constituição Federal de 1988 que, no § 1º do artigo 208, institui a figura jurídica do direito público subjetivo à educação obrigatória. Na esteira do dispositivo constitucional, a LDB atual introduz mecanismos que aperfeiçoam a questão do financiamento da educação pública (assunto já tratado na disciplina de Política Educacional, no capítulo: “Políticas Públicas de financiamento da educação no Brasil”). A LDB (BRASIL, 2012b) destina um capítulo inteiro aos artigos 68 e 77. Importante assinalar que os artigos 70 e 71 disciplinam melhor o que pode e o que não pode ser considerado como gastos com educação. Já o artigo 69 elenca os procedimentos que deverão ser adotados para o repasse dos recursos para o setor educacional. 55 No que diz respeito à valorização do magistério, a Emenda Constitucional nº 53 (BRASIL, 2012d) adiciona ao artigo 206 o inciso VIII que institui aobrigatoriedade do estabelecimento de piso salarial nacional para o magistério, já regulamentado por lei. Esta lei ficou conhecida como a “lei do piso”, a qual também determina que 1/3 da jornada de trabalho do professor seja dedicada às atividades de natureza pedagógica a serem realizadas fora da sala de aula. Governadores de alguns estados arguiram junto ao STF (Supremo Tribunal Federal) a inconstitucionalidade da lei 11.738. Entretanto, o STF entende ser a lei constitucional em relação ao piso salarial. Posteriormente, essa lei conheceu nova arguição de inconstitucionalidade, desta vez, em relação à jornada de trabalho do magistério. Ainda em relação ao magistério público da educação básica, o § 2º do artigo 2º da lei do piso, declara que são profissionais do magistério público, todos (BRASIL, 2012f) [...] aqueles que desempenham as atividades de docência ou as de atividade de suporte pedagógico à docência, isto é, a direção ou administração, planejamento, inspeção, supervisão, orientação e coordenação educacionais, exercidas no âmbito das unidades escolares de educação básica, em suas diversas etapas e modalidades, com a formação mínima determinada pela legislação federal de diretrizes e bases da educação nacional. Fato é que, embora a legislação reguladora da questão do financiamento da educação pública tenha, como assinalamos anteriormente, aperfeiçoado a aplicação desses recursos na educação básica, quer priorizando a mesma quer impedindo que despesas de natureza não educacional acabassem sendo remetidas à conta da educação, se levarmos em conta a expansão da matrícula nos diferentes níveis e modalidades da educação básica, constataremos com facilidade que é necessário aumentar a participação da educação na divisão do PIB (Produto Interno Bruto). Durante os últimos vinte anos, o percentual do PIB aplicado no campo educacional oscilou entre 4,5% e 5,5%, sendo insuficiente para a oferta de educação de qualidade para todos e, principalmente, para melhorar a condição salarial e as condições de trabalho para os profissionais da educação. A seguir, para entender o tamanho do desafio a ser enfrentado no campo da educação em nosso país, apresentamos alguns dados quantitativos que indicam 56 claramente a necessidade de maiores investimentos em educação, caso queiramos atingir, até 2020, as metas que estão sendo estabelecidas pelo Plano Nacional de Educação. Dados do Censo Escolar da Educação Básica apontavam, para o ano de 2009, um total de 52.987.483 alunos matriculados (INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS, 2009), assim distribuídos: Creche: 1.896.363 Pré-Escola: 4.866.268 Ensino Fundamental (anos iniciais): 17.295.618 Ensino Fundamental (anos finais): 14. 409.910 Ensino Médio regular: 7.966.794 Ensino Médio normal/magistério: 194.535 Ensino Médio integrado à formação profissional: 175.831 Educação Profissional concomitante com o EM: 351.867 Educação Profissional subsequente ao EM: 509.247 Educação Especial (todas as modalidades): 639.718 Educação de Jovens e Adultos – EM: 1.566.808 Atualmente (junho de 2012), discute-se no Congresso Nacional a fixação no Plano Nacional de Educação (PNE) de um mínimo de 10% do PIB para o setor educacional. Ao concluirmos os breves comentários que fizemos em relação ao financiamento público da educação básica e à guisa de sintetizar o que foi dito, devemos considerar que, a partir da Constituição Federal de 1988 e do texto da LDB, com os vários acréscimos que sofreu ao longo dos quinze anos desde a sua promulgação, muitas foram a mudanças introduzidas pelas Emendas Constitucionais, com destaque para a EC nº 14, EC nº 53 e EC nº 59, bem como para as leis federais que criaram o FUNDEF e o FUNDEB. 57 9 CUSTO ALUNO QUALIDADE (CAQ) Atualmente, a Campanha pelo Direito à Educação vem realizando um esforço especial, com a finalidade de colocar em discussão e definir os insumos necessários que uma escola deva possuir para que seja considerada de qualidade (CARREIRA; PINTO, 2007, apud AMARAL, 2007, p. 183). Já estão concluídos os estudos em relação às escolas de tempo parcial. Para a Campanha, qualidade é conceituada como um processo que: Gera sujeitos de direitos, de aprendizagem e de conhecimento, e sujeitos de vida plena; É comprometido com: a inclusão cultural e social; uma melhor qualidade de vida no cotidiano; o respeito à diversidade; o avanço da sustentabilidade ambiental e da democracia; e a consolidação do Estado de Direito; Exige investimentos financeiros em longo prazo e o reconhecimento das diversidades culturais, sociais e políticas; Reconhece e enfrenta as desigualdades sociais em educação, devidamente contextualizado no conjunto das políticas sociais e econômicas do País; Se referência nas necessidades, nos contextos e nos desafios do desenvolvimento de uma região, de um país, de uma localidade; Está indissociado da quantidade, da garantia do acesso ao direito à educação; Se aproxima por meio da participação social e política, garantida por meio de sua institucionalidade e de processos participativos e democráticos que independem da vontade política do gestor ou da gestora em exercício. (CARREIRA; PINTO, 2007, p. 24). 58 10 O CURRÍCULO ESCOLAR DO ENSINO FUNDAMENTAL Fonte: integradocolegio.com.br Na LDB, o currículo da educação básica (ensino fundamental e médio) está prescrito pelos artigos 26 e 27 (BRASIL, 2012b). São normas gerais que se aplicam tanto ao ensino fundamental, quanto ao ensino médio. Antes de entrarmos na análise detalhada desses artigos, entendemos ser necessária uma apresentação mais genérica do currículo. De acordo com Piletti e Rossato (2010, p. 55): O termo currículo deriva de diversas palavras latinas, como currere, significando correr, cursus, que quer dizer carreira e curriculum, o mesmo que caminho. Portanto, significa não apenas o ato de correr em si, mas o modo de traçar e realizar um percurso desejado. O currículo escolar consiste em uma seleção de conteúdos retirados da cultura em um dado instante histórico, os quais são organizados em uma determinada sequência. Tanner e Tanner (TANNER; TANNER, 1975, apud LOPES; MACEDO, 2011, p. 20) consideram o currículo [...] como as experiências de aprendizagem planejadas e guiadas e os resultados de aprendizagens não desejados formulados através da reconstrução sistemática do conhecimento e da experiência sob os auspícios da escola para o crescimento contínuo e deliberado da competência pessoal e social do aluno. 59 Em uma acepção restrita o termo currículo designa somente as disciplinas, os temas, conteúdos, estudos e componentes curriculares que são estudados na escola. Por sua vez, Apple (1982, p. XX), ao estudar a questão do currículo sob a ótica da ideologia, ressalta que “[...] a estruturação do conhecimento e do símbolo em nossas instituições educacionais está intimamente relacionada aos princípios de controle social e cultural numa dada sociedade.” De acordo com Palma Filho (1989), o elemento central da análise feita por Apple diz respeito ao modo como as escolas, enquanto instituições sociais de preservação e distribuição cultural, produzem e reproduzem formas de consciência que permitem a manutenção do controle social sem que os grupos sociais dominantes tenham que recorrer a mecanismos declarados de dominação. Para identificar esses mecanismos, Apple propõe examinar a relação entre a dominação econômica e a dominação cultural. Desse modo, considera que o currículo escolar resulta de uma seleção de elementos retirados do campo cultural e que, portanto, enquanto parte do cultural, o currículo escolar relaciona-se de modo diferenciado com a esfera econômica. De outra parte, essa relação revela diferentes enfoques ideológicos, considerando-sea ideologia, nesse contexto, como uma concepção de mundo, no qual o ser humano é parte integrante e indissociável (PALMA FILHO, 2005, p. 5). Luiz Antonio Cunha (2011, p. 585), no artigo “Contribuições para a análise das interferências mercadológicas nos currículos escolares”, assinala a interferência de forças externas ao currículo de natureza mercadológica, destacando duas vertentes das pressões dos mercados; a de natureza ideológica e a econômica. O autor atribui essas interferências “a débil autonomia do campo educacional.” De acordo com Domingues (1986, p. 351): [...] quando se penetra na realidade do currículo, vê-se que as divergências na definição não são apenas decorrência da alteração semântica, pois longe de ser um ato neutro, fazer currículo é um ato de comprometimento e filiação social de uma particular comunidade ocupacional. Para o intento de introduzir o tema do currículo escolar na análise da legislação escolar, essas considerações iniciais são suficientes, uma vez que o tema será aprofundado na disciplina de Gestão Curricular. O tema do currículo já aparece no texto constitucional de 1988 (BRASIL, 2012a) (art. 210 e seus dois parágrafos). O 60 caput do artigo cria a obrigação de a União fixar conteúdos mínimos para o ensino fundamental, com a finalidade de assegurar uma formação básica comum que respeite os valores culturais e artísticos nacionais e regionais. O § 1º estabelece a obrigatoriedade do ensino religioso no ensino fundamental, regulamentado posteriormente pelo artigo 33 da LDB, com caráter ecumênico, vedado, portanto, o proselitismo religioso, bem como o respeito a todos os credos religiosos. O ensino religioso deve figurar obrigatoriamente no horário regular das aulas, mas é de caráter opcional e apenas nas escolas públicas. O § 2º estabelece que o ensino fundamental será ministrado na língua portuguesa, respeitando no caso das comunidades indígenas o ensino na língua materna e processos próprios de aprendizagem. Na análise do currículo escolar para o ensino fundamental, também devemos levar em consideração o que estabelecem as Diretrizes Curriculares, recentemente, aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação. No caso, aliás, são duas resoluções (Resolução nº 4, de 13.07.2010 – Define Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica; Resolução nº 7, de 14.12.2010 – Fixa Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental de 9 (nove) anos). Inicialmente, discorreremos sobre o que dispõe a LDB no tocante à questão curricular, uma vez que as diretrizes curriculares, necessariamente, devem se ajustar ao texto constitucional e ao disposto na LDB. Nesta, a matéria está contida nos artigos 26, 27 e 28. No tocante à organização curricular, o artigo 26 (BRASIL, 2012b) mantém o entendimento que já vinha expresso na Lei 5.692, de 11 de agosto de 1971. Neste artigo, os currículos escolares do ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum que, em cada sistema de ensino e escola, deve ser complementada por uma parte diversificada, em função das características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e do alunado. Os currículos deverão, obrigatoriamente, contemplar o estudo de língua portuguesa e da matemática, do mundo físico e natural, e da realidade social e política, especialmente do Brasil, mas não só (art. 26, § 1º). Importante notar que a LDB não se refere à disciplina, mas sim, ao estudo. O § 2º, com a redação dada pela lei federal nº 12.287/2010 (BRASIL, 2012g, grifo nosso), ficou com a seguinte redação: “O ensino da arte, especialmente em suas expressões regionais, constituirá componente curricular obrigatório nos diversos 61 níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos”. No caso de arte, portanto, chama de componente curricular e não de disciplina. O § 3º que passou por duas alterações, ficou com a seguinte redação dada pela lei federal nº 10.793, de 1º.12.2003 (BRASIL, 2012h): A educação física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular obrigatório da educação básica, sendo sua prática facultativa ao aluno: I. Que cumpra jornada de trabalho igual ou superior a seis horas; Maior de trinta anos de idade; II. Que estiver prestando serviço militar inicial ou que, em situação similar, estiver obrigado à prática de educação física; III. Amparado pelo Decreto-Lei 1.044, de 21 de outubro de 1969; IV. VETADO; V. Que tenha prole. O item V foi vetado por se tratar de dispensa para aqueles que estejam cursando cursos de Pós-Graduação, uma vez que a matéria refere-se apenas a quem esteja cursando a educação básica. O § 4º (BRASIL, 2012b) estabelece que “[...] o ensino de História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente das matrizes indígena, africana e europeia.” O § 5º (BRASIL, 2012b) prevê que, na parte diversificada do currículo, “[...] será incluído, obrigatoriamente, a partir da quinta série, o ensino de pelo menos uma língua estrangeira moderna, cuja escolha ficará a cargo da comunidade escolar, dentro das possibilidades da instituição.” Ainda faz parte, obrigatoriamente, mas não de modo exclusivo, do currículo da educação básica, o conteúdo de música, integrado ao ensino de arte (§ 6º). O artigo 26-A, na redação dada pela lei federal nº 11.645 de 2008 (BRASIL, 2012i, §§ 1º, 2º), estabelece a obrigatoriedade de incluir nos conteúdos dos componentes curriculares de educação artística, e de literatura e história brasileiras, o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas 62 no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira, e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil. O artigo 27 (BRASIL, 2012b) estabelece quatro diretrizes que deverão ser observadas na organização das matrizes curriculares, tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio: I. Difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e a ordem democrática; II. Consideração das condições de escolaridade dos alunos em cada estabelecimento de ensino; III. Orientação para o trabalho; IV. Promoção do desporto educacional e apoio às práticas não formais. A LDB, também, estabelece condições especiais para o currículo escolar para a população rural. Para tanto, prescreve adaptações necessárias, especialmente no que diz respeito aos conteúdos curriculares e às metodologias de ensino, que deverão observar as reais necessidades e os interesses dos alunos, incluindo um calendário escolar adequado às fases do ciclo agrícola e às condições climáticas, bem como fazendo adequações às condições de trabalho na zona rural (BRASIL, 2012b, art. 28). Especificamente em relação ao ensino fundamental, dois parágrafos (5ºe 6º) no artigo 32 da LDB foram inclusos. O primeiro deles, foi incluso pela lei federal 11.525 de 2007 (BRASIL, 2012j), a qual estabelece a obrigatoriedade de estudos relacionados com o direito das crianças e dos adolescentes, adotando como orientação o que dispõe a Lei 8.069, de 13 de julho de 1990, que trata do Estatuto da criança e do adolescente. Neste caso, deverão ser providenciadas, pelos sistemas de ensino, a produção e a distribuição de material didático adequado. O § 6º (BRASIL, 2012b) inclui, no currículo do ensino fundamental, “[...] o estudo sobre os símbolos nacionais, como tema transversal.” O artigo 33 inclui no currículo, em caráter obrigatório para escola, mas facultativo para o estudante, o ensino religioso, de acordo com a redação dada pela lei federal nº 9.476 de 22 de julho de 1997 (BRASIL, 2012k). Nos termosdessa lei, os conteúdos 63 e as normas para admissão de professores deverão ser fixados pelos sistemas de ensino. 11 ENSINO MÉDIO Fonte: www.metropoles.com Além das normas curriculares gerais que deverão ser observadas por toda educação básica, algumas são específicas do ensino médio. Justamente, estas serão apresentadas a seguir. O artigo 36 da LDB (BRASIL, 2012b) estabelece as seguintes diretrizes especiais para o ensino médio: I. Atenção especial à educação tecnológica básica, à compreensão do significado da ciência, das letras e das artes; ao processo histórico de transformação da sociedade e da cultura, à língua portuguesa como instrumento de comunicação, ao acesso ao conhecimento; e ao exercício da cidadania. 64 II. Inclusão obrigatória de uma língua estrangeira moderna, escolhida pela comunidade escolar, e de uma segunda, em caráter optativo, dentro das disponibilidades das instituições de ensino. III. Inclusão obrigatória das disciplinas de Filosofia e Sociologia em todas as séries do ensino médio (redação dada pela Lei nº 11.684, de 2008). 12 EDUCAÇÃO INFANTIL De acordo com a LDB (BRASIL, 2012b, arts. 21, 29), a educação infantil constitui se na primeira etapa da educação básica e tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físicos, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. Nos termos do artigo 30, a educação infantil será oferecida em creches ou instituições equivalentes, para crianças de até três anos de idade, e em pré-escolas, para crianças de quatro a seis anos de idade. Importante assinalar que, como dever do Estado, a educação infantil surge pela primeira vez contemplada na Constituição Federal de 1988. Na LDB, aparece como responsabilidade dos municípios e, atualmente, encontra-se integrada, na sua maior parte, aos sistemas municipais de ensino. Com o advento da lei federal nº 11.330/06, que cria o ensino fundamental de nove anos, combinado com § 3º do artigo 87 da LDB, o Distrito Federal, cada Estado, Município e, supletivamente, a União devem matricular todos os educandos a partir dos seis anos de idade no ensino fundamental. Desse modo, a educação infantil passa a receber as crianças na faixa etária de zero a cinco anos de idade. Mesmo antes da LDB, o Estatuto da Criança e do Adolescente, consoante com o texto da Constituição Federal, já estabelecia ser dever do Estado atender, em creche e pré-escolas, as crianças na faixa etária de zero a seis anos de idade. Há, ainda, na LDB (BRASIL, 2012b), outros artigos que tratam do atendimento de crianças na educação infantil: artigo 4º, X (incluído pela lei federal nº 11.700, de 2008); artigo 11, V; artigo 18, I, II; artigo; artigo 31 (trata dos procedimentos de 65 avaliação na educação infantil) 62 e 63, I (ambos tratam do lócus de formação docente para atuar na educação infantil. Também em documentos internacionais, o Brasil assumiu o compromisso de buscar ampliar o atendimento de crianças de zero a seis anos de idade, na educação infantil. Entre outros se destacam: Declaração Universal dos Direitos Humanos. Declaração Mundial de Educação para Todos. Marco de Ação de Dakar. Importante assinalar que o atendimento de crianças na faixa de zero a seis anos de idade não é responsabilidade exclusiva dos municípios, como possa parecer à primeira vista, uma vez que os artigos 211, § 1º e 212, § 2º da Constituição Federal (BRASIL, 2012a) e, ainda, o artigo 30 da LDB (BRASIL, 2012b) afirmam que os Estados e a União deverão agir de forma supletiva e colaborativa com os municípios. O Plano Nacional de Educação (PNE), que teve vigência até o ano de 2010, estabeleceu metas para a educação infantil. Ao todo foram estabelecidas vinte metas para as creches e mais dezesseis para o segmento da pré-escola. Todavia, apenas 35% do que foi estabelecido no PNE para a educação infantil foi alcançado (CARNEIRO, 2010, p. 223). No Projeto de Lei 8.061, que tramita no Congresso Nacional e cuida de um novo plano nacional de educação que já devia ter entrado em vigor em 2011, com vigência até o ano de 2020, também, há metas para a educação infantil. Nesse sentido, prevê universalizar, até o ano de 2016, o atendimento escolar da população de 4 e 5 anos, e ampliar, até 2020, a oferta de educação infantil de forma a atender a 50% da população de até 3 anos de idade. A meta em questão se desdobra em nove estratégias. Embora tenha havido crescimento significativo do atendimento na educação infantil, dados fornecidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE), de 2006, apontava que, apenas, 14,5% da população de zero a três anos estava sendo atendida em creches. Acrescente-se, ainda, que muitas creches funcionam precariamente (PILETTI; ROSSATO, 2010, p. 79-80). 66 De acordo com o Censo Escolar para o ano de 2010 (INEP), a matrícula na educação infantil contabilizava 6.762.631 atendimentos. Destes, a grande maioria estava sob a responsabilidade das municipalidades. No Estado de São Paulo, o governo estadual destinou, no período 2011-2014, o montante de 1 bilhão de reais para financiar construção e equipamento de creches a serem geridas pelos municípios. 13 COMENTÁRIOS GERAIS SOBRE AS DIRETRIZES CURRICULARES PARA A EDUCAÇÃO INFANTIL Fonte: www.sinpromacae-regiao.blogspot.com.br Em 18 de dezembro de 2009, o Diário Oficial da União publicou a Resolução CNE/CEB nº 05, de 17 de dezembro de 2009 (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2012c, art. 2º), que trata das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Ao todo são treze artigos que têm a finalidade de orientar as 67 políticas públicas no campo da educação infantil, bem como subsidiar a elaboração, planejamento, execução e avaliação de propostas pedagógicas e curriculares. O currículo, nos termos das diretrizes curriculares, é conceituado como um conjunto de práticas que tem como objetivo central (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2012c, art. 3º) [...] articular as experiências e saberes das crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural, artístico, ambiental, científico e tecnológico, de modo a promover o desenvolvimento integral da criança de 0 a 5 anos de idade. O artigo 5º (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2012c) estabelece alguns critérios para o atendimento, a saber: É dever do Estado garantir a oferta de Educação Infantil pública, gratuito e de qualidade, sem requisito de seleção (§ 1º). É obrigatória a matrícula na Educação Infantil de crianças que completam 4 ou 5 anos até o dia 31 de março do ano em que ocorrer a matrícula (§ 2º). As crianças que completam 6 anos após o dia 31 de março devem ser matriculadas na Educação Infantil (§ 3º). Para matrícula no ensino fundamental não pode ser exigida a frequência anterior na educação infantil (§ 4º). As vagas em creches e educação pré-escolar devem ser oferecidas em locais próximos das residências das crianças (§ 5º). A jornada diária em tempo parcial deverá ser de quatro horas, quando em tempo integral, não deve ultrapassar sete horas (§ 6º). A proposta pedagógica a ser elaborada pela escola deve respeitar os seguintes princí- pios (art. 6º): I. Éticos: da autonomia, da responsabilidade, da solidariedade e do respeito ao bem comum, ao meio ambiente e às diferentes culturas, identidade e singularidades. 68 II. Políticos: dos direitos de cidadania, do exercício da criticidade e do respeito à ordem democrática. III. Estéticos: da sensibilidade, da criatividade, da ludicidade e da liberdade de expressão nas diferentes manifestações artísticas e culturais. No § 2º do artigo 8º (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2012c), a proposta pedagógica deverá respeitar o princípio daautonomia dos povos indígenas, na escolha dos modos de educação de suas crianças de 0 a 5 anos de idade. O artigo 10º (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2012c) acentua que a avaliação do desenvolvimento das crianças deve ser realizada sem objetivo de seleção, promoção ou classificação. Por fim, o artigo 11º (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2012c) disciplina o processo de transição para o ensino fundamental, assinalando que a proposta pedagógica para a educação infantil deve garantir a continuidade no processo de aprendizagem e desenvolvimento das crianças, respeitando as especificidades etárias, sem antecipação de conteúdos que serão trabalhados no ensino fundamental. Concluindo esta rápida abordagem que fizemos da legislação, relacionada com a educação infantil, sugerimos aos estudantes que retomem para consulta o que foi tratado nas disciplinas D12, D13 e D14, quando a temática da educação infantil foi discorrida com maior detalhamento do que nos foi possível apresentar no espaço deste Caderno de Formação. Durante a leitura, é importante que você se atenha aos aspectos legais. 14 COMO ESTÁ ORGANIZADO O ENSINO FUNDAMENTAL Anteriormente, analisamos aspectos curriculares do ensino fundamental. Cabe, aqui, completar o estudo com outros elementos que integram a estrutura e organização do ensino fundamental, enquanto etapa da educação básica que dá continuidade à educação infantil e se completa com o ensino médio. Este, por sua 69 vez, concebido como uma etapa que aprofunda a formação dada na educação infantil e no ensino fundamental. Desde o texto inicial da LDB (1996), o ensino fundamental passou por alterações feitas por quatro outras leis: Lei nº 9.475, de 1997; Lei nº 11.274, de 2006; Lei nº 11.525, de 2007; Lei 12.472, de 2011. A primeira alteração (1997) modificou o artigo 33, que dispõe sobre a oferta de ensino religioso nas escolas públicas. Este tipo de ensino, com a mudança, passou a ser custeado pelos cofres públicos, como constava no texto promulgado em 20 de dezembro de 1996. Foi uma alteração defendida pela CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) e que acabou acolhida pelo legislador a partir de proposta do Poder Executivo. A inclusão de ensino religioso, mesmo que em caráter facultativo por parte do estudante, de certa forma enodoa o caráter laico do Estado brasileiro, pois não há que se confundir liberdade religiosa com a obrigatoriedade de oferta desse ensino por parte das escolas públicas de ensino fundamental. A segunda alteração se deu no ano de 2006 e veio no bojo da Lei nº 11.274, modificando o art. 32 e estabelecendo a obrigatoriedade do ensino fundamental ser ministrado em nove anos e não mais oito, como constava no texto original. Desse modo, esse ensino inicia-se aos seis anos de idade. Já a educação pré-escolar restringe-se a dois anos. Essa alteração foi e ainda é criticada pelos especialistas e educadores que defendem que a educação infantil se estenda até os seis anos de idade, respeitando, assim, o desenvolvimento psíquico da criança. Em grande parte, a mudança no texto do artigo 32 se deveu a pressões desencadeadas pelos prefeitos municipais, interessados em aumentar o número de alunos a serem incluídos no FUNDEF. O fato é que alguns estados da federação, valendo-se do que dispõe o artigo 8º, § 2º da LDB (liberdade para organizar o sistema de ensino), já vinham permitindo a matrícula no ensino fundamental aos seis anos. Carneiro (2010, p. 231) menciona os estados de Minas Gerais e Goiás, e também inúmeros municípios. No estado de São Paulo, havendo vaga e sem prejuízo dos matriculados aos sete anos, o Conselho Estadual de Educação autorizava a matrícula aos seis anos de idade no ensino fundamental. 70 A terceira mudança resultou de dispositivo (§ 5ª) incluído pela Lei nº 11.525, de 2007, que obriga a escola a reservar espaço no currículo escolar para o estudo dos conteúdos relacionados com os direitos das crianças e dos adolescentes, tendo como base o que consta do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069, de 1990). A quarta mudança veio com a Lei nº 12.472, de 2011, que criou um sexto parágrafo, incluindo como tema transversal, no currículo do ensino fundamental, o estudo sobre os símbolos nacionais. O artigo 32 (BRASIL, 2012b) trata, ainda, dos objetivos do ensino fundamental: O ensino fundamental tem por objetivo a formação básica do cidadão, mediante: I. O desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo; II. A compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade; III. O desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores; IV. O fortalecimento dos vínculos da família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social. Quanto ao modo de organização, a LDB faculta aos sistemas de ensino, desdobrar o ensino fundamental em ciclos, podendo as escolas que adotam o sistema seriado criar o regime de progressão continuada, entretanto, sem prejuízo da avaliação do processo de ensino e aprendizagem, de acordo com as normas estabelecidas em cada sistema de ensino (BRASIL, 2012b, art. 32, § 2º). A rede estadual do Estado de São Paulo vem adotando, desde o ano de 1997, o regime de progressão continuada dos estudos realizados no ensino fundamental (Indicação nº 08/1997), que tem recebido muitas críticas de professores, por entenderem que esse regime de estudos facilita a promoção, sem que haja aprendizado real por parte do estudante. Em realidade, a questão é mais complexa. O pensamento conservador que atua no campo educacional tem atribuído à progressão continuada a responsabilidade pelo que considera ser o baixo rendimento do aprendizado dos estudantes. 71 Paro (2003), em estudo que realizou sobre a questão da reprovação escolar, salientou o quanto está se constitui em um mecanismo que encobre as deficiências no funcionamento das escolas e do próprio sistema educacional como um todo. A reprovação acaba por responsabilizar apenas o aluno. Como assinala o autor (2003, p. 62): “A reprovação não se manifesta, pois, apenas nos números de retidos e ‘desistentes’ que a escola produz, mas também no modo de agir e pensar que perpassa as atividades escolares. Todavia, para que a progressão continuada não se transforme em promoção automática simplesmente, dois fatores, entre outros, precisam ser levados em consideração para que o regime de ciclos produza bons resultados e não signifique promoção sem aprendizado real (AZEVEDO, 2007): 1. Adoção de processos de avaliação contínua da aprendizagem, para que sejam detectadas, o mais cedo possível, as dificuldades que não foram vencidas ao longo de cada bimestre. Em outras palavras, o regime de progressão continuada, como organizado no Estado de São Paulo, em dois ciclos de longa duração, implica em uma nova forma de avaliação, com ênfase no aspecto formativo que a mesma deva ter. 2. Implantação de um programa de reforço e de recuperação contínua e paralela, para os estudantes que apresentem lacunas na aprendizagem dos conteúdos trabalhados a partir da proposta curricular e do projeto pedagógico de cada escola. Lacunas essas que impedem que o estudante prossiga os estudos com êxito. Fala-se muito na resistência dos professores em aceitar a organização do ensino em ciclos com progressão continuada. Pode-se afirmar que as maiores dificuldades decorrem, sobretudo, da falta de condições estruturais nas escolas para que essa organização produza os resultados almejados por todos. Os professores apontam como principais entraves: 1) falta de espaço para que ocorra a recuperação paralelano contraturno, pois tanto na região metropolitana da Grande São Paulo, quanto em algumas regiões do interior do Estado, há escolas com todas as salas ocupadas; 2) mobilidade do corpo docente, acrescida da falta de professores em alguns componentes curriculares, bem como um elevado grau de absenteísmo docente. Apesar das dificuldades apontadas, Vasconcelos (2008, p. 80) aponta efeitos positivos, mesmo no regime de progressão continuada em dois ciclos de longa duração, tais como: 1) queda vertiginosa dos índices de evasão e 2) desaparecimento 72 da figura do aluno multirepetente, “[...] que não logrando êxito após várias tentativas e consequentes reprovações acabavam por evadir-se da escola (muitas vezes com o apoio e decisão da própria família) ”. Em síntese, progressão continuada e ciclos foram estratégias de organização do ensino fundamental, utilizadas em diferentes momentos do ensino público do Estado de São Paulo, para o enfrentamento do fracasso escolar nas últimas três décadas. Trata-se de dois procedimentos de organização do ensino que se fundamentam em conceitos do campo da educação que não têm o mesmo significado semântico e nem o mesmo significado político, embora possam, quando utilizados em favor dos alunos, evitar graves rupturas no processo de escolaridade básica. Dito de forma mais enfática, trata-se de procedimentos baseados em duas lógicas diferenciadas que, por caminhos diversos, têm como meta a avaliação processual do ensino, utilizando as informações obtidas, para garantir que os alunos avancem na construção de seus conhecimentos, sem reprovações ou interrupções no meio do caminho. Reprovações e interrupções se constituem em rupturas no currículo do estudante que não garantem sua aprendizagem, mas, pelo contrário, causam danos desnecessários e muitas vezes irreparáveis. Ainda no que diz respeito à organização do ensino fundamental, importante destacar o contido no artigo 34 da LDB (BRASIL, 2012b, §§ 1º, 2º), que estabelece a jornada diária de, no mínimo, quatro horas de trabalho efetivo em sala de aula, com ampliação progressiva até chegar à jornada de tempo integral, claro que a critério de cada sistema de ensino. 15 COMO ESTÁ ORGANIZADO O ENSINO MÉDIO Seguindo o mesmo procedimento que adotamos em relação ao estudo do ensino fundamental, iremos nesta seção abordar o ensino médio do ponto de vista de sua organização, como está estabelecido nos artigos 35 e 36, considerando, ainda, as alterações advindas das leis 11.684 (BRASIL, 2012l) e 11.741 (BRASIL, 2012m), ambas promulgadas no ano de 2008. 73 A concepção de ensino médio adotada pela LDB difere frontalmente do disposto na Lei 4.024/61 (1ª LDB) e também do estabelecido pela Reforma do Ensino de 1º e 2º graus (Lei 5.692, de 11.8.1971). A primeira, como vimos, por ocasião do estudo da disciplina de História da Educação, mantinha o ensino médio de caráter propedêutico separado da educação profissional. Na prática, funcionava um ao lado do outro, embora equivalentes para efeito de prosseguimento de estudos. A segunda estabeleceu a profissionalização compulsória, tornando todo o ensino médio profissionalizante. Como não deu certo, em 1982, o Governo Federal alterou a legislação vigente e, na prática, restabeleceu o contido na Lei 4.024/61. A LDB atual estabelece uma nova relação entre ensino médio, enquanto educação geral e a preparação para os exercícios de profissões técnicas. A leitura do artigo 35 (BRASIL, 2012b) indica claramente que o ensino médio, com a duração mínima de três anos, representa a etapa final da educação básica, à medida que tem como finalidades: consolidar e aprofundar os conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando ao aluno prosseguir com seus estudos; fornecer preparação básica para o trabalho e o exercício da cidadania pelo educando; aprimorar o educando como pessoa humana e, nesse sentido, incluir em sua educação a formação ética, o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico, bem como a compreensão dos fundamentos científico- tecnológicos nos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática no ensino de cada disciplina (importante assinalar que o legislador trata o conteúdo curricular como disciplina). O artigo 36 (BRASIL, 2012b), com as alterações já mencionadas, estabelece as diretrizes a serem seguidas na estruturação do ensino médio. Essas diretrizes acentuam: a importância da educação tecnológica básica, bem como da compreensão do significado da ciência, das letras e das artes; as transformações sociais e culturais, vistas em uma perspectiva histórica; a língua portuguesa, como instrumento de comunicação, de acesso ao conhecimento e de exercício da cidadania. Há, também, destaque para o protagonismo dos estudantes, quando assinala que o ensino médio adotará metodologias de ensino e de avaliação que estimulem a iniciativa deles. 74 A Lei Federal nº 11.741, de 2008 (BRASIL, 2012m, art. 36-A), introduziu novos artigos: o 36-A, o 36-B, o 36-C e o 36-D. Todos tratam da Educação Profissional Técnica de Nível Médio – ensino médio – que deve fornecer formação geral ao educando, preparando-o para o exercício de profissões técnicas. Nesse sentido, a preparação para o trabalho e, facultativamente, as habilitações profissionais poderão ser desenvolvidas nos próprios estabelecimentos de ensino médio ou em cooperação com instituições especializadas em educação profissional. O artigo 36-B (BRASIL, 2012m) indica as formas em que poderão ser organizados os cursos que conduzirão à formação técnica de nível médio: I. Articulada com o ensino médio; II. Subsequente, em cursos destinados a quem tenha concluído o ensino médio. Ainda, de acordo com o Parágrafo único do artigo 36-B, a educação profissional técnica de nível médio deverá observar as diretrizes curriculares nacionais estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação, bem como as normas complementares dos respectivos sistemas de ensino e as exigências de cada estabelecimento de ensino, nos termos do projeto pedagógico da instituição de ensino. O artigo 36-C (BRASIL, 2012m) cuida de esclarecer as formas de articulação da educação profissional de nível médio. No caso, há duas modalidades de articulação: integrada e concomitante. A primeira é aquela que se realiza em um único estabelecimento de ensino, sendo uma única matrícula para cada aluno. Claro que pressupõe que o estudante concluiu o ensino fundamental. Neste caso, com uma única matrícula o estudante recebe dupla formação, a partir de um currículo integrado. A modalidade concomitante é oferecida a quem ingressa ou já está cursando o ensino médio e prevê três tipos de oferta: I. Na mesma escola, aproveitando as oportunidades de ensino disponíveis; II. Em escolas distintas, aproveitando as oportunidades educacionais existentes; 75 III. Em escolas distintas, mediante convênios de intercomplementaridade, mas com um projeto pedagógico unificado. O artigo 36-D (BRASIL, 2012m) assegura validade nacional para os diplomas de cursos de educação técnica de nível médio, desde que registrados e habilitados ao prosseguimento de estudos em nível superior. O parágrafo único do artigo 36-D permite a organização dos cursos em etapas com terminalidade definida e, neste caso, a etapa concluída com aproveitamento ensejará, por parte do estudante, a obtenção de certificado de qualificação profissional. O parecer recente do Conselho Nacional de Educação (CNE/CP nº 11), de 30 de junho de 2009 (BRASIL, 2012n), propõe mudanças no ensino médio, por meio do que chama de um currículo inovador. Surge, no parecer, a preocupação em superar o dualismo que sempre caracterizou essa modalidade de ensino, ou seja, o ensino propedêutico (educação geral x ensino profissionalizante). Nesse parecer apresenta- se argumentosa favor de um ensino médio com identidade unitária, com formas diversas de articulação entre trabalho, ciência, tecnologia e cultura. Sabiamente, o parecer remete para a escola a responsabilidade pela organização do currículo inovador, ao mesmo tempo em que a União e os Estados compartilham a responsabilidade pela sugestão de propostas inovadoras. Ainda de acordo com o parecer, o ensino médio passa a ter no mínimo 3 mil horas de estudos, dois quais 20% da carga horária total deverão ser destinadas às disciplinas eletivas, a serem livremente escolhidas pelos estudantes e a atividade docente deve ser em tempo integral na escola. A Emenda Constitucional nº 59, de 11 de novembro de 2009 (BRASIL, 2012e) (veja anexo), torna obrigatório o ensino médio à medida que o transformou em direito subjetivo, quando estabelece ser dever do Poder Público garantir educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade. Outra medida importante foi a criação do FUNDEB, que passou a incluir o ensino médio nos recursos destinados à educação básica. O Plano Nacional de Educação (ABREU; CORDIOLLI, 2011) em discussão no Congresso Nacional prevê para o Ensino Médio (meta 3): “Universalizar, até 2016, o atendimento escolar para toda a população de 15 a 17 anos e elevar até 2020, a taxa 76 líquida de matrícula no ensino médio para 85%, nesta faixa etária”. Para alcançar a meta são previstas doze estratégias. 16 EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS – EJA Fonte: www.educamaisbrasil.blog.br Concluindo o Capítulo II, a Seção V trata da Educação de Jovens e Adultos, ou seja, o que na legislação anterior era denominado de Ensino Supletivo, com as modalidades: cursos e exames. O tratamento dado pelo legislador àqueles que não concluíram, ou sequer tiveram oportunidades para iniciar os estudos, previstos na educação básica na idade certa, evoluiu significativamente desde a LDB de 1961. Esta previa apenas a realização de exames, os chamados exames de madureza. Na LDB atual, a matéria está normatizada em dois artigos: 37 e 38. Nos termos do artigo 37 (BRASIL, 2012b), a educação de jovens e adultos destina-se àqueles que não tiveram acesso ou não concluíram os estudos no ensino fundamental e médio na idade própria. As oportunidades serão oferecidas em cursos e exames, como, aliás, já era no tempo da lei 5.692/71. 77 Neste caso, é da competência dos sistemas de ensino garantir educação de forma gratuita a todos jovens e adultos que, na idade regular, não puderam concluir os estudos no ensino fundamental ou médio. O parágrafo 3º do artigo 37 (BRASIL, 2012b) recomenda que haja articulação entre a educação de jovens e adultos, preferencialmente, com a educação profissional. Este dispositivo foi incluído pela lei federal nº 11.741, de 2008. Cabe, também, ao Poder Público estimular o acesso e a permanência do trabalhador na escola, mediante ações integradas e complementares entre si (BRASIL, 2012b, art. 37, § 2º). O artigo 38 (BRASIL, 2012b) trata do currículo e da modalidade de oferta da educação para esse segmento da população. O currículo dos cursos e exames deverá ser organizado, de acordo com o conteúdo estabelecido para a base nacional comum do currículo. A responsabilidade pela oferta de cursos e exames é dos sistemas de ensino, podendo os mantenedores ser públicos ou privados. A idade mínima para realização na modalidade exame no ensino fundamental é fixada em 15 (quinze) anos; no ensino médio, a idade exigida é 18 (dezoito) anos (BRASIL, 2012b, art. 38, § 1º). Os exames também poderão reconhecer conhecimentos e habilidades adquiridos por meios informais (BRASIL, 2012b, art. 38, § 2º). 78 17 EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA Fonte: www.silabe.com.br Entre os vários aspectos inovadores da LDB atual sobressai o tratamento dado à educação profissional e tecnológica. Em quatro artigos o tema é tratado em profundidade e de forma atualizada, levando em consideração a realidade do país. Decorridos doze anos da promulgação, o capítulo III foi radicalmente alterado pela Lei Federal nº 11.741, de 2008 (BRASIL, 2012m), ficando o artigo 39 (BRASIL, 2012b) com a seguinte redação: “A educação profissional e tecnológica, no cumprimento dos objetivos da educação nacional, integra-se aos diferentes níveis e modalidades de educação e às dimensões do trabalho, da ciência e da tecnologia”. O parágrafo único foi revogado e foram introduzidos três novos parágrafos. O § 1ª trata da organização dos cursos em eixos tecnológicos, o que possibilita a construção de diferentes itinerários formativos, sempre de acordo com as normas do respectivo sistema e nível de ensino. O § 2º indica as modalidades de cursos, aliás, de três tipos: I – formação inicial e continuada ou qualificação profissional; II – de educação profissional técnica de nível médio; e III – de educação profissional tecnológica de graduação e pós-graduação. O § 3º estabelece que os cursos de 79 educação profissional tecnológica de graduação e pós-graduação deverão ser organizados nos termos do que estabelecem as diretrizes curriculares nacionais estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação. O artigo 40 indica que a educação profissional deverá ser organizada de forma articulada com o ensino regular ou por diferentes estratégias de educação continuada em instituições especializadas ou no próprio ambiente de trabalho. Este artigo foi regulamentado pelo Decreto Federal nº 5.154, de 23 de julho de 2004, que, por sua vez, revogou o Decreto Federal nº 2.208, de 17 de abril de 1997, editado no Governo Fernando Henrique Cardoso. Como assinala Piletti e Rossato (2010, p. 134): [...] o decreto 2.208/97 procurou regulamentar a LDB e provocou uma imensa separação radical entre ensino médio e educação profissional, acarretando um imenso retrocesso nessa relação. Coube ao decreto 5.154/04 e à lei nº 11.741/08 corrigir esse equívoco e consagrar a chamada modalidade integrada de articulação entre a formação do ensino médio e a formação técnica. Portanto, foi só a partir dessa lei que passamos a ter oficialmente um ensino profissional técnico de nível médio, cujo diploma habilita para o ingresso na educação superior. O artigo 41 possibilita que o conhecimento adquirido na educação profissional e tecnológica, inclusive no trabalho, possa ser avaliado e certificado para efeito de prosseguimento ou conclusão de estudos. Finalmente, o artigo 42 permite que as instituições de educação profissional e tecnológica possam oferecer cursos especiais abertos à comunidade, condicionados à matrícula e à capacidade em acompanhar os estudos e, necessariamente, ao nível de escolaridade. 80 18 EDUCAÇÃO INCLUSIVA Fonte: www.sustentahabilidade.com Em sentido estrito, a educação inclusiva é entendida como aquela que trata de crianças e jovens com necessidades especiais. Em sentido amplo, inclui a educação de todos aqueles que, por qualquer razão, estiveram excluídos do processo educacional formal. Considerando o sentido amplo, trata-se de construir um sistema educacional, no qual as escolas sejam capazes de acolher a todos, propiciando a vivência de práticas pedagógicas voltadas para o atendimento à diversidade humana. De acordo com a UNESCO (1994 apud PILETTI; ROSSATO, 2010, p. 141.), a educação inclusiva deve integrar ao ensino comum ou regular “[...] crianças deficientes e superdotadas, crianças de rua e que trabalham, crianças de origem remota ou de população nômade, crianças pertencentes a minorias linguísticas, étnicas ou culturais, e crianças de outros grupos desavantajados ou marginalizados”.De acordo com a LDB de 1996 e o Plano Nacional de Educação, em sentido amplo, podemos considerar as seguintes modalidades de educação inclusiva como sendo: de jovens e adultos (EJA); profissional; a distância; especial; indígena;quilombola; no campo; e nas prisões. 81 Como já tratamos anteriormente da educação profissional e da educação de jovens e adultos, vamos nos ater, na sequência, ao estudo das modalidades ainda não abordadas. 19 EDUCAÇÃO ESPECIAL A LDB de 1996 dedicou um capítulo inteiro para tratar da educação de crianças e jovens com necessidades especiais. Refiro-me ao Capítulo V que abrange do artigo 58 ao 60. A preocupação com o atendimento de crianças e jovens que necessitam de algum tipo de atenção especial vem crescendo desde os anos 1980. Na década de 1990, a discussão centra-se na questão da educação inclusiva. A educação democrática pressupõe igualdade de tratamento, apesar da diferença (somos todos iguais, todavia diferentes). Em certo sentido, todos nós apresentamos algum tipo de deficiência. De acordo com o Censo Escolar de 2006, para uma população de aproximadamente 170 milhões de pessoas, 24.600.256 era o número de pessoas, com algum tipo de deficiência. Para que se tenha ideia da precariedade do atendimento, no mesmo ano do censo, a matrícula era de apenas 700.624, das quais, 375.488 eram feitas em escolas especializadas, embora no mesmo período tenha havido um crescimento de 640% das matrículas em escolas comuns e 28% em escolas especializadas. No Estado de São Paulo, ainda de acordo com os dados do Censo Escolar (2006) para uma população de 37.035.456 habitantes, estima-se uma população com deficiência na faixa de 0 a 17 anos da ordem de 413.438, das quais, apenas, 131.975 estavam tendo algum tipo de atendimento especial, sendo 69.418 em Classes Especiais e 62.587 em Classes Comuns. Diferentes segmentos da sociedade brasileira vêm se posicionando firmemente contra qualquer tipo de discriminação em relação àqueles que precisam de atenção especial para que possam se desenvolver como seres humanos com dignidade, ou seja, não se aceita mais a exclusão, seja por qual motivo for. Até porque estudos e pesquisas têm demonstrado que, desde que haja o atendimento adequado, crianças 82 e adolescentes com necessidades especiais têm condições para aprendizagem (CARNEIRO, 2006, p.157). O legislador tem respondido de modo adequado às reivindicações da sociedade para ampliar o atendimento e, sempre que possível, na rede regular de ensino, como estabelece o artigo 208, III da Constituição Federal. Também a LDB atual e o Plano Nacional de Educação, este tornado lei no ano de 2001, estabelecem normas e metas para esse tipo de atendimento educacional. Como vimos na LDB, a matéria é tratada no Capítulo V (arts. 58 a 60) do Título V (Dos Níveis e das Modalidades de Educação e Ensino). De acordo com o artigo 58 (BRASIL, 2012b), a educação especial é uma modalidade de educação escolar “[...] oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos portadores de necessidades especiais”. Entendo que se trata de conceituação defeituosa, pois ninguém porta necessidades especiais, mas sim necessita que a escola lhe ofereça condições adequadas de aprendizagem para que possa superar algum tipo de limitação que apresente. O parágrafo 1º do artigo 58 estabelece (BRASIL, 2012b) que “[...] haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular, para atender às peculiaridades da clientela de educação especial”. Aqui também cabe reparo, ou seja, crianças e adolescentes não são clientes das escolas, mas sim, seres humanos que têm constitucionalmente assegurado o direito de serem atendidos com qualidade nas escolas, sejam públicas ou particulares. O parágrafo 2º (BRASIL, 2012b) preceitua que: “O atendimento educacional será feito em classes, escolas ou serviços especializados, sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível a sua integração nas classes comuns de ensino regular”. O parágrafo 3º assegura desde a educação infantil (zero a cinco anos) o atendimento de crianças com necessidades especiais. No artigo 59 (BRASIL, 2012b) estão estabelecidas as obrigações dos sistemas de ensino para com os educandos com necessidades especiais, nos seguintes termos: I. Currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específica para atender às necessidades especiais dos educandos; 83 II. Terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências e aceleração para concluir em menos tempo o programa escolar para os superdotados; III. Professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns; IV. Educação especial para o trabalho, visando à sua efetiva integração na vida em sociedade, inclusive a condições adequadas para os que não revelarem capacidade de inserção no trabalho competitivo, mediante articulação com os órgãos oficiais afins, bem como para aqueles que apresentam uma habilidade superior nas áreas artísticas, intelectual ou psicomotora; V. Cesso igualitário aos benefícios dos programas sociais suplementares disponíveis para o respectivo nível de ensino regular. Encerrando o capítulo que trata da educação especial, o artigo 60 estabelece os critérios para que instituições não públicas possam atuar no atendimento no campo da educação especial, ressalvando, entretanto, nos termos do parágrafo único, que o atendimento deverá ser preferencialmente na rede pública, independente do apoio às instituições particulares. 20 A EDUCAÇÃO ESPECIAL NO PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO (PNE) O PNE, que teve vigência de 2011 a 2010, continha 28 metas e objetivos para a Educação Especial. A maior parte delas não foi atingida, outras foram alcançadas parcialmente. O Projeto de Lei apresentado pelo Poder Executivo Federal para o decênio 2011- 2020 também cuida da Educação Especial. Para tanto, fixou a meta 4 (ABREU; CORDIOLLI, 2012): Universalizar para a população de 4 a 17 anos o atendimento 84 escolar aos estudantes com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação na rede regular de ensino. A meta se desdobra em seis estratégias: 1.Contabilizar, para fins de repasse do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação – FUNDEB, as matrículas dos estudantes da educação regular da rede pública que recebem atendimento educacional especializado complementar, sem prejuízo do cômputo dessas matrículas na educação básica regular. 2. Implantar salas de recursos multifuncionais e fomentar a formação continuada de professores para o atendimento educacional especializado complementar, nas escolas urbanas e rurais. 3. Ampliar a oferta do atendimento educacional especializado complementar aos estudantes matriculados na rede pública regular. 4. Manter e aprofundar programa nacional de acessibilidade nas escolas públicas para adequação arquitetônica, oferta de transporte acessível, disponibilização de material didático acessível e de recursos de tecnologia assistiva, e oferta da educação bilíngue em língua portuguesa e Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS. 5. Fomentar a educação inclusiva, promovendo a articulação entre o ensino regular e o atendimento educacional especializado complementar ofertado em salas de recursos multifuncionais da própria escola ou em instituições especializadas. 6. Fortalecer o acompanhamento e o monitoramento do acesso à escola por parte dos beneficiários do benefício de prestação continuada, de maneira a garantir a ampliação do atendimento aos estudantes com deficiência na rede pública regular de ensino. Apenas um comentário: A totalidade do que agora aparece como estratégias, no PNE 2001-2010, figuravam como objetivos e eram apresentadosde forma quantificada. No Projeto de Lei do PNE 2011-2020, as estratégias não são quantificadas, portanto, não passam de mera declaração de boas intenções, sem falar que já constavam do plano anterior e não foram, como já assinalado, atingidas. 85 Importante, ainda, assinalar que a estratégia nº 1 já é contemplada desde o ano de 2010, por força do decreto nº 6.571/08 (BRASIL, 2012o). A matéria de educação especial também está normatizada pelo Conselho Nacional de Educação (Resolução CNE/ CB nº 4/09). 21 EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA Fonte: www.graduarte.com.br Trata-se de uma modalidade de educação inclusiva que, pela primeira vez, a partir da LDB de 1996, passou a merecer consideração especial. É parte das lutas desenvolvidas pelas comunidades indígenas que reivindicavam o reconhecimento da diversidade sociocultural na educação escolar indígena. Para tanto, esta deveria se pautar pelos princípios do bilinguismo/ multilinguismo e da interculturalidade. O caminho foi aberto pela Constituição Federal de 1988, quando sepultou a visão integracionista que vinha desde os jesuítas. Ao romper com o paradigma integracionista e tutelar, a Constituição abriu caminho para que a legislação complementar permitisse que experiências educacionais alternativas substituíssem a antiga política integracionista. 86 Nesse sentido, uma das primeiras inovações foi a contemplada no decreto presidencial nº 26/91 (BRASIL, 2012p), retirando da alçada exclusiva da FUNAI a responsabilidade pela educação indígena e transferindo-a para o MEC, fato que propiciou o processo de estadualização e municipalização da educação indígena. Além da LDB de 1996, também o Plano Nacional de Educação, de 2001, traçou metas para a educação indígena. No âmbito do Conselho Nacional de Educação, o Parecer CNE/ CEB nº 14/99 estabeleceu as Diretrizes Nacionais da Educação Indígena, aprovadas pela Resolução CNE/CEB nº 3 de 1999. Ainda no âmbito legal, o decreto federal nº 6.861, de maio de 2009, definiu a organização da educação escolar indígena em territórios etno-educacionais. De acordo com levantamento feito pela Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena (CONEEI), havia no Brasil em 2007, 19.296 professores que atuavam em 2.700 escolas indígenas existentes. Desse total de professores, 90% eram indígenas e apenas 32 estabelecimentos eram privados. Havia aproximadamente 205 mil alunos matriculados, sendo quase metade na região Norte (BRASIL, 2008; BRASIL, 2009; CONFERÊNCIA NACIONAL DE EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA, 2009). 87 22 EDUCAÇÃO QUILOMBOLA Fonte: www.portal.mec.gov.br A legislação educacional pouco trata da educação de crianças e jovens residentes nos antigos quilombos, por isso não há menção na LDB, nem no Plano Nacional de Educação de 2001. Entretanto, consideramos importante alguns breves comentários. O projeto de lei que trata do Plano Nacional de Educação 2011-2020, no parágrafo 1º, do artigo 8º, estabelece (ABREU; CORDIOLLI, 2012, p. 21): Os entes federados deverão estabelecer em seus respectivos planos de educação metas que considerem as necessidades específicas das populações do campo e de áreas remanescentes de quilombos, garantindo equidade educacional. De acordo com dados da Fundação Cultural Palmares, órgão do Ministério da Cultura, o Brasil tem aproximadamente 1.209 comunidades quilombolas em 143 áreas tituladas. Essas comunidades estão em praticamente todos os estados, exceto: Acre, Roraima e Distrito Federal. As maiores concentrações localizam-se nos estados da Bahia, do Maranhão, de Minas Gerais e do Pará. A maior parte das escolas localiza-se longe das residências dos estudantes, são de infraestrutura precária, geralmente, construídas de palha ou de pau-a-pique. 88 Conforme o Censo Escolar de 2010, havia 210.845 alunos matriculados em 1.912 escolas localizadas em áreas remanescentes de quilombos. Desses alunos, 68% estavam concentrados no Nordeste. A maioria dos professores não tem formação adequada em termos pedagógicos e o número deles é insuficiente. Em muitos casos, há um único professor para classe multisseriada. Poucas comunidades possuem escolas com o ensino fundamental completo. 23 EDUCAÇÃO NO CAMPO Fonte: www.apogeuead.com.br A Constituição Federal de 1988, como vimos, ampliou os direitos sociais, incluindo os da população campesina. Segue-se legislação que cria políticas educacionais que têm como princípio ampliar os direitos educacionais na linha da educação para todos. A partir dessa concepção, a LDB, nos artigos 23, 26 e 28, estabelece novas modalidades de organização do trabalho escolar, com a finalidade de adequar a legislação às diferentes realidades em que a educação escolar está inserida. O artigo 28 (BRASIL, 2012b) trata, especificamente, da educação no meio rural, quando estabelece as seguintes normas: 89 Na oferta da educação básica para a população rural, os sistemas de ensino proverão as adaptações necessárias à sua adequação, às peculiaridades da vida rural e de cada região, especificamente: I. Conteúdos e metodologias apropriadas às reais necessidades e interesses dos alunos da zona rural; II. Organização escolar própria, incluindo a adequação do calendário escolar às fases do ciclo agrícola e às condições climáticas; III. Adequação à natureza do trabalho na zona rural. O artigo 28 indica, com clareza, a necessidade de se adotar, na educação no campo, a pedagogia da alternância, como assinala Pinho (2008). Em 2002, o Conselho Nacional de Educação, por meio da resolução CNE/CEB nº 1/2002, instituiu as Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo, “[...] reconhecendo a vida social e a forma de utilização do espaço do campo como uma diversidade fundamental para a sociedade brasileira e para a inserção cidadã do campesino.” (PILETTI; ROSSATO, 2010, p. 160). Em 2006, o Conselho Nacional de Educação baixa nova resolução, a de nº 1/06 (CONSELHO NACIONAL DE EDCUAÇÃO) que, entre outras providências, recomenda a adoção da educação no campo, da pedagogia da alternância, nos seguintes termos: A matéria é altamente relevante, pois a educação no campo é assunto estratégico para o desenvolvimento socioeconômico do meio rural e a pedagogia da alternância vem se mostrando como a melhor alternativa para a educação básica, neste contexto, para os anos finais do ensino fundamental, do ensino médio e da educação profissional técnica de nível médio, estabelecendo relação expressiva entre as três agências educativas – família, comunidade e escola. O Ministério da Educação, em 2006, propõe a construção de uma política educacional, a partir do diálogo com as demais esferas da gestão do Estado, bem como com os movimentos sociais que atuam no campo brasileiro, adotando como eixo dessa política a diversidade étnico-cultural como valor; o reconhecimento do direito à diferença; e a promoção da cidadania (BRASIL, 2006) 90 24 A POLÍTICA NACIONAL PARA A FORMAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇAO A LDB dedicou atenção especial ao processo de formação dos profissionais da educação, ao mesmo tempo em que introduziu importantes inovações. Assim é que disciplinou a matéria em Título Especial, o de número VI (Dos Profissionais da Educação). A temática está disciplinada em sete artigos, com modificações introduzidas no texto original, pelas leis federais nº 11.301, de 2006; nº 12.056, de 2009; e 2.014, também do ano de 2009. O artigo 61 (BRASIL, 2012b), totalmente modificado pela redação dada pela Lei nº 12.014, de 2009, estabelece que o profissional da educação é aquele que se encontra em efetivo exercício. Portanto, não basta ser licenciado ou portador de curso técnico, ou superior em área pedagógica. Faz ainda distinção entre o exercício da docência e o exercício das atividades de apoio escolar (administração,planejamento, supervisão, inspeção e orientação educacional, mestrado e doutorado). Nesses casos, o requisito é o de portador do diploma de pedagogia, com habilitação nos campos mencionados. Importante notar que a redação dada a esse artigo (inciso II) restabelece, em contradição com as diretrizes curriculares do curso de pedagogia, a figura das habilitações profissionais. O parágrafo único estabelece os fundamentos da formação dos profissionais docentes: I. Presença de sólida formação básica que propicie o conhecimento dos fundamentos científicos e sociais de suas competências de trabalho; Sobre o parágrafo único, em seu item I, pode-se afirmar que a redação é confusa e, por isso, não tem significado. O artigo 62 (BRASIL, 2012b) trata, especificamente, do nível de formação exigido para o exercício na educação básica, que deverá ser obtida em: [...] curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade Normal. 91 Em relação ao que estabelece o artigo 62, é preciso também considerar o disposto no § 4º do artigo 87 (BRASIL, 2012b) das disposições transitórias: “Até o fim da Década da Educação somente serão admitidos professores habilitados em nível superior ou formados por treinamento em serviço”. Em razão da péssima redação, este dispositivo tem se prestado à interpretação equivocada. De início, esclareça-se que não é até, mas sim após o final da década. Logo, a partir do ano de 2007, para o exercício da atividade docente, deverá ser exigida a formação em nível superior ou em treinamento em serviço. Esta, também, é uma expressão inadequada, já que treinamento não significa formação, mas sim, adestramento. O artigo em questão foi objeto de regulamentação, por meio de dois decretos, o de nº 3.276, de 6 de dezembro de 1999, que estabelecia a exclusividade da formação em Curso Normal Superior, retirando, portanto, do Curso de Pedagogia a possibilidade de formar docentes para o exercício na educação infantil e nos quatro primeiros anos/séries do ensino fundamental. Em consequência, a reação dos cursos de pedagogia, capitaneados pelas Faculdades de Educação, não se fez por esperar e, em 2000, a exclusividade foi transformada em “preferencialmente”. Na prática, com a mudança, a maior parte dos cursos normais superiores deixou de existir, passando a formação docente a ser feita quase que, exclusivamente, pelos cursos de pedagogia. Importante salientar, ainda, que seja no curso de pedagogia, seja no curso normal superior, o decreto em seu artigo 2º (BRASIL, 2012q) fixa os requisitos que os cursos deverão atender: I. Compatibilidade com a etapa da educação básica em que atuarão os graduados; II. Possibilidade de complementação de estudos, de modo a permitir aos graduados a atuação em outra etapa da educação básica; III. Formação básica comum, com concepção curricular integrada, de modo a assegurar as especificidades do trabalho do professor na formação para atuação multidisciplinar e em campos específicos do conhecimento; IV. Articulação entre os cursos de formação inicial e os diferentes programas e processos de formação continuada. 92 À redação original do artigo 62 foram acrescentados três parágrafos pela lei federal nº 12.056, de 2009 (BRASIL, 2012r). O § 1º prevê o regime de colaboração entre União, Estados e Municípios na oferta de cursos de formação inicial e continuada, bem como “a capacitação dos profissionais de magistério.” O § 2ª autoriza a utilização da educação a distância (EAD) na formação inicial e na capacitação dos profissionais da educação. O § 3º indica que os cursos de formação inicial darão preferência à formação presencial e, subsidiariamente, poderão fazer uso dos recursos da EAD. O artigo 63 (BRASIL, 2012b) trata dos institutos superiores de educação. Estes poderão manter cursos de formação inicial, inclusive o curso normal superior; programas de formação pedagógica aos possuidores de diplomas de educação superior que desejem também se habilitarem para o magistério na educação básica; e programas de educação continuada para os profissionais da educação dos diversos níveis da educação básica. O artigo 64 (BRASIL, 2012b) indica como deverá ser a formação dos profissionais da educação para as atividades de planejamento, administração, orientação educacional, inspeção e supervisão para a educação básica. Estabelece que esta deve ser feita em cursos de pedagogia com nível de pós-graduação. O artigo 67 (BRASIL, 2012b), com as mudanças advindas da lei federal nº 11.301, de 2006, estipula que [...] os sistemas de ensino promoverão a valorização dos profissionais da educação, assegurando-lhes, inclusive nos termos dos estatutos e dos planos de carreira do magistério público: I. Ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos; II. Aperfeiçoamento profissional continuado, inclusive com licenciamento periódico remunerado para esse fim; III. Piso salarial profissional; IV. Progressão funcional baseada na titulação ou habilitação, e na avaliação do desempenho; V. Período reservado a estudos, planejamento e avaliação, incluído na carga de trabalho; VI. Condições adequadas de trabalho. 93 O § 1º (BRASIL, 2012b) considera a experiência docente como pré-requisito para o exercício das atividades de magistério previstas no artigo 64 da LDB, “[...] nos termos das normas de cada sistema de ensino.” O § 2º (BRASIL, 2012b) considera como funções de magistério, para efeito de aposentadoria, as exercidas por professores e especialistas (art. 64) em educação, [...] quando exercidas em estabelecimentos de educação básica em seus diversos níveis e modalidades, incluídas, além do exercício da docência, as de direção de unidade escolar e as de coordenação e assessoramento pedagógico (incluído pela Lei nº 11.301, de 2006).5 25 DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS PARA EDUCAÇÃO BÁSICA Fonte: www.oficinaensinacao.blogspot.com As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) são normas obrigatórias para a Educação Básica que orientam o planejamento curricular das escolas e dos sistemas de ensino. Elas são discutidas, concebidas e fixadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). 5 Texto Extraído: https://acervodigital.unesp.br 94 Atualmente, existem diretrizes gerais para a Educação Básica. Cada etapa e modalidade da dela (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio) também apresentam diretrizes curriculares próprias. A mais recente é a do Ensino Médio. As diretrizes buscam promover a equidade de aprendizagem, garantindo que conteúdos básicos sejam ensinados para todos os alunos, sem deixar de levar em consideração os diversos contextos nos quais eles estão inseridos. O que são e qual é a função das diretrizes curriculares? As Diretrizes Curriculares Nacionais são um conjunto de definições doutrinárias sobre princípios, fundamentos e procedimentos na Educação Básica que orientam as escolas na organização, articulação, desenvolvimento e avaliação de suas propostas pedagógicas. As DCNs têm origem na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, que assinala ser incumbência da União "estabelecer, em colaboração com os estados, Distrito Federal e os municípios, competências e diretrizes para a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, que nortearão os currículos e os seus conteúdos mínimos, de modo a assegurar a formação básica comum". O processo de definição das diretrizes curriculares conta com a participação das mais diversas esferas da sociedade. Dentre elas, o Conselho Nacional dos Secretários Estaduais deEducação (Consed), a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd), além de docentes, dirigentes municipais e estaduais de ensino, pesquisadores e representantes de escolas privadas. As diretrizes curriculares preservam a autonomia dos professores? As diretrizes curriculares visam preservar a questão da autonomia da escola e da proposta pedagógica, incentivando as instituições a montar seu currículo, recortando, dentro das áreas de conhecimento, os conteúdos que lhe convêm para a formação daquelas competências explícitas nas DCN. Desse modo, as escolas devem trabalhar os conteúdos básicos nos contextos que lhe parecerem necessários, 95 considerando o perfil dos alunos que atendem, a região em que estão inseridas e outros aspectos locais relevantes. Quais são as diferenças entre as diretrizes curriculares e os parâmetros curriculares? Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) são diretrizes separadas por disciplinas elaboradas pelo governo federal e não obrigatórias por lei. Elas visam subsidiar e orientar a elaboração ou revisão curricular; a formação inicial e continuada dos professores; as discussões pedagógicas internas às escolas; a produção de livros e outros materiais didáticos e a avaliação do sistema de Educação. Os PCNs foram criados em 1997 e funcionaram como referenciais para a renovação e reelaboração da proposta curricular da escola até a definição das diretrizes curriculares. Já as Diretrizes Curriculares Nacionais são normas obrigatórias para a Educação Básica que têm como objetivo orientar o planejamento curricular das escolas e dos sistemas de ensino, norteando seus currículos e conteúdos mínimos. Assim, as diretrizes asseguram a formação básica, com base na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), definindo competências e diretrizes para a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. Quais são as diferenças entre as diretrizes curriculares e as expectativas de aprendizagem (direitos de aprendizagem)? As expectativas de aprendizagem definem o que se espera que todos os alunos aprendam ao concluírem uma série e um nível de ensino. Elas foram previstas pelo CNE nas diretrizes gerais da Educação Básica. Diferentemente das diretrizes, que são mais amplas e genéricas, as expectativas contemplam recomendações explícitas sobre os conhecimentos que precisam ser abordados em cada disciplina. Contudo, as expectativas de aprendizagem não configuram uma listagem de conteúdos, competências e habilidades, mas sim um conjunto de orientações que possam auxiliar o planejamento dos professores, como materiais adequados, tempo de trabalho e condições necessárias para colocá-lo em prática. No momento, as expectativas de aprendizagem (direitos de aprendizagem) estão em discussão no MEC.6 6 Texto Extraído: http://www.todospelaeducacao.org.br 96 26 BIBLIOGRAFIA BÁSICA DEMO, Pedro. Política social, educação e cidadania. São Paulo: Papirus. 1994. DEMO, Pedro. A nova LDB: ranços e avanços. 23 ed. Campinas: Papirus, 2015. GROSSI, Esther Pillar. LDB: lei de diretrizes e bases da educação lei 9.394/96. 3 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR BOMENY, Helena. Os intelectuais da educação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. BRASIL. Leis, Decretos, etc. Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei 8069/90. ______. LDB – Lei 9394/96. ______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretrizes curriculares nacionais para a educação infantil / Secretaria de Educação Básica. – Brasília : MEC, SEB, 2010. ______. Conselho Nacional de Educação. Resolução 4/2010. Define Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para Educação Básica; Brasilia: MEC/CEB, 2010. EDUCAÇÃO; Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e Legislação Complementar. Obra coletiva de autoria da editora Saraiva. São Paulo: Saraiva, 2013. Coleção Saraiva de legislação. HERKENHOFF, João Baptista. Abc da Cidadania. 3 ed. Vitória: PMV, SMCDH, 2007. SAVIANI, Dermeval. A nova lei da educação. São Paulo: Autores Associados. 2000. SHIROMA, Eneida Oto. Política Educacional. DP&A. Rio de Janeiro, 2000. FERREIRA, Eliza Bartolozzi. Política Educacional no Espírito Santo: A educação é um direito. Virtória: SEEB, 2004.