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Montes Claros/MG - 2012 Geografia de Minas Antônia Márcia Duarte Queiroz Luiz Andrei Gonçalves Pereira Marcos Esdras Leite 2012 Proibida a reprodução total ou parcial. Os infratores serão processados na forma da lei. EDITORA UNIMONTES Campus Universitário Professor Darcy Ribeiro s/n - Vila Mauricéia - Montes Claros (MG) Caixa Postal: 126 - CEP: 39.401-089 Correio eletrônico: editora@unimontes.br - Telefone: (38) 3229-8214 Catalogação: Biblioteca Central Professor Antônio Jorge - Unimontes Ficha Catalográfica: Copyright ©: Universidade Estadual de Montes Claros UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MONTES CLAROS - UNIMONTES REITOR João dos Reis Canela VICE-REITORA Maria Ivete Soares de Almeida DIRETOR DE DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÕES Huagner Cardoso da Silva CONSELHO EDITORIAL Maria Cleonice Souto de Freitas Rosivaldo Antônio Gonçalves Sílvio Fernando Guimarães de Carvalho Wanderlino Arruda REVISÃO DE LÍNGUA PORTUGUESA Ângela Heloiza Buxton Arlete Ribeiro Nepomuceno Aurinete Barbosa Tiago Carla Roselma Athayde Moraes Luci Kikuchi Veloso Maria Cristina Ruas de Abreu Maia Maria Lêda Clementino Marques Ubiratan da Silva Meireles REVISÃO TÉCNICA Admilson Eustáquio Prates Cláudia de Jesus Maia Josiane Santos Brant Karen Tôrres Corrêa Lafetá de Almeida Káthia Silva Gomes Marcos Henrique de Oliveira DESIGN EDITORIAL E CONTROLE DE PRODUÇÃO DE CONTEÚDO Adão Soares dos Santos Andréia Santos Dias Camilla Maria Silva Rodrigues Clésio Robert Almeida Caldeira Fernando Guilherme Veloso Queiroz Francielly Sousa e Silva Hugo Daniel Duarte Silva Magda Lima de Oliveira Marcos Aurélio de Almeida e Maia Sanzio Mendonça Henriques Tatiane Fernandes Pinheiro Tátylla Ap. Pimenta Faria Vinícius Antônio Alencar Batista Wendell Brito Mineiro Zilmar Santos Cardoso Chefe do Departamento de Ciências Biológicas Guilherme Victor Nippes Pereira Chefe do Departamento de Ciências Sociais Maria da Luz Alves Ferreira Chefe do Departamento de Geociências Guilherme Augusto Guimarães Oliveira Chefe do Departamento de História Donizette Lima do Nascimento Chefe do Departamento de Comunicação e Letras Ana Cristina Santos Peixoto Chefe do Departamento de Educação Andréa Lafetá de Melo Franco Coordenadora do Curso a Distância de Artes Visuais Maria Elvira Curty Romero Christoff Coordenador do Curso a Distância de Ciências Biológicas Afrânio Farias de Melo Junior Coordenadora do Curso a Distância de Ciências Sociais Cláudia Regina Santos de Almeida Coordenadora do Curso a Distância de Geografia Janete Aparecida Gomes Zuba Coordenadora do Curso a Distância de História Jonice dos Reis Procópio Coordenadora do Curso a Distância de Letras/Espanhol Orlanda Miranda Santos Coordenadora do Curso a Distância de Letras/Inglês Hejaine de Oliveira Fonseca Coordenadora do Curso a Distância de Letras/Português Ana Cristina Santos Peixoto Coordenadora do Curso a Distância de Pedagogia Maria Narduce da Silva Ministro da Educação Aloizio Mercadante Presidente Geral da CAPES Jorge Almeida Guimarães Diretor de Educação a Distância da CAPES João Carlos Teatini de Souza Clímaco Governador do Estado de Minas Gerais Antônio Augusto Junho Anastasia Vice-Governador do Estado de Minas Gerais Alberto Pinto Coelho Júnior Secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior Nárcio Rodrigues Reitor da Universidade Estadual de Montes Claros - Unimontes João dos Reis Canela Vice-Reitora da Unimontes Maria Ivete Soares de Almeida Pró-Reitora de Ensino Anete Marília Pereira Diretor do Centro de Educação a Distância Jânio Marques Dias Coordenadora da UAB/Unimontes Maria Ângela Lopes Dumont Macedo Coordenadora Adjunta da UAB/Unimontes Betânia Maria Araújo Passos Diretor do Centro de Ciências Humanas - CCH Antônio Wagner Veloso Rocha Diretora do Centro de Ciências Biológicas da Saúde - CCBS Maria das Mercês Borem Correa Machado Diretor do Centro de Ciências Sociais Aplicadas - CCSA Paulo Cesar Mendes Barbosa Chefe do Departamento de Artes Maristela Cardoso Freitas Autores Antônia Márcia Duarte Queiroz Graduada em Geografia pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) e Mestre em Desenvolvimento Social pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES). Experiência docente como professora na Graduação no Departamento de Geociências – UNIMONTES, Professora Formadora da Universidade Aberta do Brasil- UAB e Professora Orientadora do Ciclo Avançado (Pós-Graduação Lato-Sensu) do Programa de Formação Continuada - Mídias na Educação. Luiz Andrei Gonçalves Pereira Graduado em Geografia – UNIMONTES. Mestre em Desenvolvimento Social – UNIMONTES. Doutorando em Geografia – UFU. Professor Formador e Conteudista do Curso de Geografia – UAB/UNIMONTES. Marcos Esdras Leite Professor e pesquisador do Departamento de Geociências da Universidade Estadual de Montes Claros/UNIMONTES. Professor Formador e Conteudista do Curso de Geografia – UAB/UNIMONTES. Graduado em Geografia pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de Uberlândia/UFU. Doutor em Geografia pela Universidade Federal de Uberlândia/UFU. Coordenador do Laboratório de Geoprocessamento. Autor de artigos em periódicos, livro e capitulo de livro. Membro e revisor de periódicos científicos das áreas de sensoriamento remoto e sistema de informação geográfica. Sumário Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .9 UNIDADE 1 Minas Gerais no Brasil: formação histórica e geográfica de Minas Gerais. . . . . . . . . . . . . .11 1.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .11 1.2 Formação territorial do Brasil: algumas incursões . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .11 1.3 A formação geohistórica de Minas Gerais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .16 Referências. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .28 UNIDADE 2 Aspectos físicos e sociais de Minas Gerais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .31 2.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .31 2.2 Aspectos físicos de Minas Gerais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .31 2.3 O espaço econômico mineiro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36 2.4 Urbanização de Minas Gerais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .39 2.5 Dinâmica populacional de Minas Gerais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .43 Referências. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46 UNIDADE 3 A regionalização do espaço geográfico mineiro: os desequilíbrios econômicos, sociais e ambientais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .49 3.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .49 3.2 Contexto da regionalização do espaço geográfico mineiro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .49 3.3 A infraestrutura econômica por regiões no Estado de Minas Gerais. . . . . . . . . . . .52 3.4 A modernização econômica em Minas Gerais: as implicações socioambientais 64 Referências. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .69 Resumo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .71 Referências básica, complementares e suplementares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .73 Atividades de Aprendizagem - AA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .75 9 Geografia - Geografia de Minas Apresentação Caro(a) acadêmico(a), Seja bem-vindo(a) à disciplina Geografia de Minas. Esta é uma oportunidade para estudar- mos a complexidade territorial, econômica, política, social e ambiental de Minas Gerais, buscan- do compreender, mais e melhor, as diversidades do espaço geográfico mineiro, nos contextos estadual e nacional. Desse modo, a disciplina será trabalhada com uma carga horária de 105 ho- ras/aula, pautada nos seguintes objetivos: • Caracterizar a divisão regional do espaço geográfico do Estado de Minas Gerais; • Discutir a relação entre infraestrutura e a expansão das atividades socioeconômicas em Mi- nas Gerais; • Apontar os fatores que levaram à concentração e à desigualdade espacial das atividades so- cioeconômicas no Estado de Minas Gerais; • Compreender os impactos socioambientais gerados pela modernização econômica (industriali- zação, agricultura, pecuária e serviços) e pela urbanização implementada em Minas Gerais. O conteúdo da disciplina foi desenvolvido objetivando a compreensão dos conteúdos a se- rem trabalhados com o enfoque no Estado de Minas Gerais, tais como a formação sócio-histórica do território mineiro; o Estado de Minas Gerais no contexto brasileiro; o processo de estruturação e de diferenciação dos espaços físico, econômico e social; a regionalização do espaço geográfi- co mineiro; a concentração urbano-industrial; a modernização do espaço rural; as desigualdades socioeconômicas entre as regiões de Minas Gerais; e a modernização econômica e suas implica- ções ambientais. O caderno didático foi estruturado em três unidades: Na primeira unidade, procuramos apresentar um pouco sobre a história territorial de Minas Gerais, ou seja, buscamos entender a formação da sociedade mineira a partir da história de for- mação do seu território. Nesse sentido, concluímos que o Estado de Minas Gerais só pode ser compreendido se buscarmos conectá-lo com o Brasil e o mundo. Um ponto importante que buscamos esclarecer nessa unidade de estudo foi a ocupação e o povoamento do território mineiro. Outra (des)construção que fizemos, e acreditamos ser uma contribuição relevante para a geografia de Minas Gerais, diz respeito à inserção de autores que desconstroem a visão de sertão que temos hoje. Traçamos uma geografia de Minas Gerais antes mesmo da sua formação. Uma história encontrada dentro de outras histórias. Fizemos análises espaços-temporais que, apesar de divididas em períodos históricos, não têm a pretensão de se- guir uma exclusiva cronologia linear dos fatos. Dividimos a geografia histórica de Minas Gerais somente com a intenção de organizar as ideias. Na segunda unidade, tratamos da caracterização geográfica do Estado de Minas Gerais e, para melhor conhecê-lo, buscamos dividir essa abordagem tanto em aspectos naturais, como clima, vegetação, relevo e hidrografia, quanto em aspectos socioeconômicos, tratando da eco- nomia e aspectos sociais, como população. As informações utilizadas nesta unidade foram obti- das em órgãos oficiais, como, por exemplo, na Fundação João Pinheiro e no IBGE. Nesses órgãos, encontramos dados importantes que foram analisados e expostos em textos, figuras e tabelas. Dessa maneira, esta unidade permitirá a vocês conhecerem, em detalhes, a geografia do segun- do estado mais populoso e terceiro mais rico do Brasil. Na terceira unidade, abordamos o processo de regionalização do espaço geográfico no Es- tado de Minas Gerais, buscando compreender as desigualdades socioeconômicas entre as dife- rentes regiões desse estado e caracterizando os impactos socioambientais causados pela expan- são das atividades industriais, mineradoras, agrícolas, pecuaristas, agroindustriais e urbanas no território mineiro. Caro(a) acadêmico(a), Ao seguir nossas dicas e referências do final da unidade, você poderá aprofundar-se no es- tudo da formação histórica e geográfica de Minas Gerais. Os autores 11 Geografia - Geografia de Minas UNIDADE 1 Minas Gerais no Brasil: formação histórica e geográfica de Minas Gerais. 1.1 Introdução Iniciamos aqui as primeiras discussões sobre a geohistória de Minas Gerais. Sabemos da im- portância desse estado para o Brasil. Apresentamos sua origem e configuração espacial. A rele- vância de Minas Gerais é enaltecida por muitos autores, os quais revelam sua riqueza natural e sua diversificação social, econômica e cultural. Assim, nesta unidade refletimos sobre Minas Ge- rais e apresentamos, sem esgotar o assunto, seu processo histórico e geográfico de formação. Ao final da unidade, propomos uma atividade de aprendizagem para você fixar os conhecimen- tos adquiridos. Se ocorrerem dúvidas ao realizar a atividade, encaminhe-as ao seu/sua tutor/a, assim como a atividade realizada. 1.2 Formação territorial do Brasil: algumas incursões Você pode conhecer várias informações sobre Minas Gerais, sua origem, ocupação e as ca- racterísticas de seus habitantes. É importante esse conhecimento prévio para que possamos re- fletir sobre esse estado e sua importância para o Brasil. Aproveite para assimilar os conhecimen- tos que possui e acrescentar novas informações. O geógrafo Antonio Carlos Robert de Moraes (2001) afirma que se é possível fazer uma his- tória econômica, uma história cultural, uma história política, também, é possível fazer uma “his- tória territorial”, que é buscar compreender a formação de uma sociedade, abordada a partir da formação de seu território. Entretanto, antes de adentrarmos na temática sobre a formação do território mineiro, acreditamos ser essencial (re)visitarmos a geografia e a história do que hoje conhecemos como Brasil, pois, como Paiva (2009) nos ensina, só podemos entender atualmente o Estado de Minas Gerais se conectá-lo com o mundo. Esse é um trabalho que vem sendo desenvolvido por toda historiografia mais recente. Res- saltamos que essa tendência se reflete, também, nos trabalhos de geógrafos que discutem a geografia numa perspectiva histórica. Nesse sentido, estaremos mesclando os estudos já cris- talizados e conhecidos, embora não isentos de serem contestados por isso, com trabalhos mais recentes, cujos esforços têm sido desprendidos com o objetivo de revisá-los e reescrevê-los, rompendo com os mitos e equívocos históricos e historiográficos que se avolumam ao longo do tempo. Com uma noção semelhante à de Paiva (2009), Moraes (2001) explica que para entender a formação brasileira, é preciso conhecer não só o que ocorria naquele momento na Europa, mas, também, é preciso fazer um estudo comparativo da instalação colonizadora em toda América Latina. Além disso, para entendermos os sentidos da colonização, alguns esclarecimentos fazem- -se necessários. A idéia de colonização é, em si mesma, uma relação sociedade-espaço (MORA- ES, 2001), o que já nos permite pensar que a dimensão espacial assume um papel fundamental NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar 12 UAB/Unimontes - 8º Período nos países de formação colonial. Acrescentemos as próprias palavras do autor supracitado, pelas quais a perspectiva geográfica ganha relevo: Colonização é a relação entre uma sociedade que se expande e os lugares onde ocorre essa expansão. A colonização em si mesma é conquista territo- rial. Ninguém fala em colonizar seu próprio espaço. Na verdade, a colonização diz respeito a uma adição de território ao seu patrimônio territorial (MORAES, 2001, p. 105). Assim, para esse autor, a conquista territorial não implica uma oposição entre interno-exter- no na questão colonial,pois a colônia é a internalização do agente externo; estamos diante da materialização, nas colônias, dos processos sociais e econômicos que caracterizavam a Europa, desde o século XV, e que passaram a ser, internamente, reproduzidos no Brasil e nos outros paí- ses de colonização da América Latina. Os países europeus viviam um quadro de expansão dos seus domínios territoriais, procu- rando ampliar seu circuito comercial e sair na frente como potência. Nesse sentido, a conquista de colônias significava a consolidação desse domínio territorial, pela apropriação de terras, pela submissão das populações que viriam a defrontar e pela exploração dos recursos naturais pre- sentes nos territórios colonizados. A noção de “conquista” sintetiza tudo isso e, inclusive, traz a principal marca de todo processo colonial – a violência (MORAES, 2001). Pelo viés da história econômica, Caio Prado Júnior (1999) afirma que, no seu conjunto, o sen- tido da colonização dos trópicos, através da exploração dos recursos naturais do território colo- nial, tomou o aspecto de uma vasta empresa comercial, mais completa que a antiga feitoria, mas sempre com o mesmo caráter que ela. A colonização no Brasil não passou, inicialmente, da ex- pansão e exploração comercial. Mesmo assim, os tentáculos da conquista territorial europeia já haviam sido estendidos sobre o nosso território. Prado Júnior destaca que o caráter mais estável e permanente de constituição de uma sociedade própria e definida só se revelaria aos poucos, sendo a evolução brasileira marcada pela colonialidade. Enquanto colônia, em sua essência, o Brasil seria constituído para fornecer, em princípio, madeira (se considerarmos o rápido ciclo do pau-brasil), açúcar, tabaco e alguns outros gêneros; posteriormente, ouro e diamantes; depois, algodão e, em seguida, café, para o comércio europeu. Para entender os sentidos da colonização, vamos mergulhar em alguns pontos importantes os quais antecedem a ocupação e expansão do domínio europeu sobre a América. Houve, ao longo do século XIV, uma desorganização da produção, gerando fomes, pestes e guerras, pois a economia feudal vinha dando sinais de dissolução frente a uma nova economia mercantil. Com isso, agravaram-se as condições servis, associadas ao êxodo rural, o alargamento dos mercados, o fortalecimento da burguesia e o crescimento das cidades, levando a frequentes crises sociais, a exemplo das revoltas camponesas e insurreições urbanas. No século XV, paulatinamente, a expansão do comércio europeu retomou seu ritmo, embo- ra novos entraves surgissem: a escassez de moedas e a monopolização dos setores rentáveis do comércio de produtos orientais, principalmente, restringindo-se o domínio das especiarias aos centros italianos – Gênova e Veneza (FERLINI, 1994). Diante disso, o comércio europeu se via com uma tarefa urgente de conquista de apoios externos, de abertura de novas rotas para obtenção de especiarias, de aumento de fluxo monetário, de ampliação da oferta de produtos e de alarga- mento dos mercados consumidores. O Estado Nacional Absolutista, que se ergueu após a Idade Média e fez nascer a Idade Mo- derna, começou a se estruturar para a nova empreitada que marcaria a expansão comercial e ter- ritorial dos principais países europeus. Sob o domínio monárquico, ampliaram-se os recursos fi- nanceiros advindos da criação de organismos fiscais enquanto, por outro lado, o Estado Nacional tinha, na conquista de novos territórios e na aceleração do comércio, elementos que fortaleciam seu poder. O poder monárquico atuou eliminando os entraves ao desenvolvimento da economia de mercado dos países europeus, com a abolição das aduanas internas, o estabelecimento de tarifas protecionistas e a conquista de territórios ultramarinos (FERLINI, 1994). Destaca-se, também, entre os Estados Modernos, a criação de estímulos ao desenvolvimen- to mercantil, como a busca de metais amoedáveis para suprir a escassez, o incentivo à expor- tação e restrição às importações para promover o equilíbrio da balança comercial, as práticas monopolistas e protecionistas para os comerciantes nacionais e a conquista de colônias. O mer- cantilismo, oriundo da exploração das colônias, possibilitava a aquisição de produtos altamente rentáveis no comércio europeu metropolitano. Do processo de expansão territorial europeia da Época Moderna, Portugal foi o principal precursor, como sabemos. NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar 13 Geografia - Geografia de Minas Pensando o processo de colonização de forma mais ampla, isto é, para além da exploração comercial, Moraes (2001) afirma ser fundamental entender, primeiro, outros aspectos que esta- vam ocorrendo na Europa levando algumas de suas sociedades a se expandir. Nesse tocante, al- gumas características básicas são comuns a vários países europeus: a carência de minerais e de cereais; a existência de população e capitais disponíveis; a remuneração do capital mercantil. Tais características, juntas, vão impulsionar a expansão europeia. Se tratarmos de motivações gerais, que caracterizaram a Europa do fim do século XV, tam- bém, é importante destacarmos o contexto geopolítico específico que envolvia os principais pa- íses europeus. Podemos falar, então, de uma geopolítica metropolitana. As motivações próprias de Portugal, da Espanha, da Holanda e da Inglaterra, vão resultar em diferentes tipos de colo- nização, em função dos espaços onde ocorrem, por exemplo: a colonização espanhola é mais estatal, a holandesa é totalmente privada, a portuguesa é mista e a inglesa é diversificada. Para o quadro geopolítico da época, o colonizador europeu na América encontrou realidades muito diferenciadas, e quanto mais plástica a colonização, maior seu êxito, bem como mais rápida sua instalação (MORAES, 2001). De acordo com Moraes, dois vetores vão ser fundamentais na con- quista dos territórios coloniais na América, levando-se em consideração esse quadro geopolítico bastante diferenciado, a saber: 1) o quadro demográfico extremamente variado; 2) os recursos naturais. No que tange ao primeiro vetor, os colonizadores encontraram na América sociedades bem estruturadas, assim como um povoamento disperso. O europeu se defrontou no império asteca com uma densidade demográfica equivalente à das principais áreas ocupadas da Europa. O pon- to central do império asteca possuía uma densidade demográfica de aproximadamente 50 hab./ km². Só a capital asteca tinha cerca de 300.000 habitantes, diferente de Sevilha que era a princi- pal cidade espanhola na época e possuía apenas 100.000 habitantes. O colonizador encontrou aqui uma relação espaço-sociedade-economia já “armada”. Havia uma rede organizada de cida- des, estradas, estruturas produtivas e tributos. O feito da colonização seria, pois, colocar esse sis- tema já existente para funcionar para o colonizador. Nesse sentido, seria impossível pensar numa estratégia de colonização cujo uso da força seria o fator determinante. Por isso, as estratégias de conquistas entre as principais nações europeias foram diferenciadas, em função da relação espaço-sociedade encontrada, a qual, às vezes, era hostil. Esse quadro demográfico e territorial estruturado não era exclusivo do império asteca: A mesma coisa se deu com o império Inca, que tinha cerca de 35 hab./km², densidade alta para a época. Então, nesses lugares o colonizador se defrontou com riquezas entesouradas. No caso do império Inca, segundo o historiador Pierre Vilar, o saque do ouro acumulado foi o principal ato isolado da acumu- lação primitiva, tal a quantidade de riquezas que o colonizadorencontrou. E é óbvio que essa riqueza financiou a própria colonização. Nesses lugares onde o quadro demográfico é grande, na ótica do colonizador encontram-se riquezas, produtos, estruturas produtivas, e encontra-se gente para produzir, pois as po- pulações locais são vistas como recursos naturais, tanto é que a Igreja passou algumas décadas discutindo se o índio era gente ou era bicho (MORAES, 2001, p. 106). Embora se admita que haja muita polêmica quanto ao fator demográfico na América do Sul, especificamente nas terras brasileiras, Moraes (2001) afirma que a maioria dos estudiosos, os mais otimistas, por exemplo, acredita que todo o território brasileiro possuía, no máximo, uma densidade de 2 hab./km², mesmo considerando as etnias indígenas que viviam agrupadas, como a área do povo Guarani e o vale amazônico. Em outras vastas áreas, a densidade demográfica média era de 0,4 hab./km². Enfatizamos, então, que essa era uma situação bastante diferente daquela tratada anteriormente. Enquanto o colonizador espanhol encontrou novos territórios estruturados, os portugueses teriam que montar sua própria colonização. Inexistia estrutura produtiva pronta e não foi encontrada nenhuma riqueza de imediato. Talvez, isso seja um dos principais motivos para os portugueses demorarem a investir no Brasil, após a “descoberta”. So- bre essa temática do “descobrimento” e as primeiras décadas após, ver BOX 1. NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar 14 UAB/Unimontes - 8º Período BOX 1 Num primeiro momento, o Brasil não tinha atrativos. Diz um historiador português, Luís Felipe Barreto, que o Brasil foi descoberto para ser esquecido, e é verdade, em relação as três ou quatro primeiras décadas após a descoberta. Isso, aceitando-se que a descoberta tenha sido feita por Cabral. Hoje em dia, a maior parte dos historiadores credita a descoberta do Brasil a Duarte Pacheco Pereira, que foi, inclusive, o geógrafo, ou cosmógrafo, como se dizia na época, português na assinatura do Tratado de Tordesilhas, e, na verdade, Cabral veio fa- zer a posse oficial. Toda a estrutura da expedição de Cabral era, de fato, uma estrutura mili- tar para tomar posse, com vários navios tripulados por tropas; não era essa a estrutura típica de exploração. Inclusive, os portugueses fazem uma distinção entre descoberta e achamento para diferenciar as coisas. Enfim, deixando de lado essa polêmica, o Brasil foi descoberto e não havia nada que interessasse de imediato. Pau-brasil era quase que lastro de navio. Então, a função do Brasil, durante esse período inicial, cerca de 40 anos, foi de ser uma aguada na carreira da Índia. Quer dizer, na rota do Cabo, o Brasil era uma parada ideal para a provisão de água, alimento etc., e foi essa a função da colônia entre os anos de 1500 a 1540. Fonte: MORAES, A. C. R. Bases da formação territorial do Brasil. Geografares, Vitória, n. 2, p. 105-113. jun. 2001. O quadro demográfico do Brasil era totalmente inverso, portanto, não oferecia justificativa para o investimento de capitais. Assim, inicialmente, o descobrimento não representou, para Por- tugal, uma mudança na sua política de implantação de feitorias comerciais no Oriente, conforme pontua Ferlini (1994). Isso diz respeito ao segundo vetor da colonização – os recursos naturais. Conforme Moraes (2001), onde se encontram recursos naturais valiosos, como o ouro e a prata, principais produ- tos motivadores da expansão territorial das nações europeias, todas as dificuldades são ultrapas- sadas, pois os rendimentos do empreendimento justificam o investimento. No caso do Brasil, o desconhecimento da existência de recursos naturais valiosos não inspirou a ocupação das ter- ras. A ocupação dessas terras não teria sentido nem do ponto de vista populacional nem dos re- cursos naturais. Havia uma população nativa muito dividida, em mais de 1.400 tribos indígenas, cada uma sendo uma unidade política pequena e diferente, além disso, nômade. O grau de inter- venção sobre o espaço era baixo e existia um mosaico de ecossistemas que não constituía uma unidade natural. Somente a colonização portuguesa dava unidade a esse espaço, embora tenha se processado sem a ocupação. Como não havia, ainda, nenhum estimulo à efetiva ocupação da Terra de Santa Cruz, confor- me era conhecido o Brasil, a exploração do pau-brasil era arrendada (FERLINI, 1994). Mais tarde, com as capitanias hereditárias, o sistema de ocupação e exploração do território brasileiro se- guiu o mesmo caráter. Por isso, a colonização portuguesa na América é considerada mista. O Bra- sil permaneceu durante as quatro primeiras décadas servindo apenas como rota de parada para o abastecimento de água e alimentos para os portugueses que seguiam a rota do Cabo. O desinteresse de Portugal nas terras brasileiras aproximou outras nações europeias interes- sadas em firmar domínio no nosso território, principalmente franceses, os quais realizavam es- cambo com os índios, oferecendo-lhes bugigangas (espelhos, colares, machados, facas, entre ou- tras) em troca de pau-brasil. Moraes (2001) afirma que a presença francesa no litoral brasileiro foi muito grande, semelhante à presença portuguesa, o que demonstra ser o domínio de Portugal muito tênue até o ano de 1540. Por outro lado, a Espanha havia descoberto prata em abundância em seus territórios colonizados. A cobiça dessas nações por metais preciosos só aumentava. As nações marginalizadas pelo Tratado de Tordesilhas consideravam que os portugueses só teriam direito às terras americanas se de fato ocupassem o território. Insatisfeita com os lucros obtidos no mercado de especiarias, a Coroa Portuguesa só conseguiria convencer a burguesia a investir na nova colônia americana se houvesse um produto altamente lucrativo para compensar os cus- tos do transporte marítimo, desde que não fosse a simples extração de recursos naturais. A partir de então, a estratégia portuguesa, na colônia, foi investir na produção do açúcar, que já era arti- culada e comercializada, desde o século XV, nas ilhas do Atlântico (Madeira, Açores, Cabo Verde e São Tomé) (FERLINI, 1994). Moraes (2001) destaca que, antes, porém, de se investir na produção de açúcar na colônia, o real motivo que incentivou o investimento da ocupação portuguesa foi a descoberta das minas de Potosi, no Peru. O autor afirma que, nessa época, ninguém sabia, ao certo, a que distância estavam os Andes da costa brasileira. Havia um desentendimento enorme entre os cartógrafos portugueses e os espanhóis. Os portugueses alargavam, e os espanhóis estreitavam, a América do Sul. Diante disso, “a coroa portuguesa avaliava que aquelas terras podiam ter uma riqueza GLOSSÁRIO: Tratado de Tordesi- lhas: assinado em 7 de Junho de 1494, foi um tratado celebrado entre o Reino de Portugal e o recém-formado Reino da Espanha para dividir as terras “descobertas e por descobrir”, fora da Europa, por ambas as coroas. Fonte: GOMES, Cristiana. Tratado de Tordesilhas. 2007. Disponível em: <http:// www.infoescola.com/ historia/tratado-de- -tordesilhas> acesso em 15 jul. 2011. NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar 15 como a que os espanhóis acabavam de encontrar. Então, manter o domínio era importante, por- que podia haver riqueza lá” (MORAES, 2001, p. 108). A estratégia portuguesa de investimento foi a terceirização, ou melhor, a privatização da co- lonização.O próprio sistema de capitanias hereditárias representa a tentativa de Portugal passar para particulares o custo de sua instalação no Brasil, o que envolveria capitais vultosos. Concluímos, portanto, que essa idéia de o colonizador ter chegado aqui para se apropriar de alguma coisa que estava disponível não procede. Houve investimento de capitais, sendo que as capitanias que deram certo foram aquelas com maior disponibilidade de capital para investir no empreendimento colonial. Uma curiosidade é que dos doze donatários das capitanias heredi- tárias brasileiras, seis nunca vieram ao Brasil tomar posse, porque, aparentemente, não havia ne- nhuma riqueza e, ao contrário, deveriam aplicar capitais para fazer a colônia produzir (MORAES, 2001). Sabemos que, nas primeiras explorações, para os portugueses, o essencial da terra brasileira foi o litoral. A ocupação efetiva do Brasil aconteceu a partir da necessidade de garantir a posse das terras descobertas, assim, Portugal por meio do Tratado de Tordesilhas, dispersou seu po- voamento pela costa brasileira. Devemos analisar esse povoamento com certa cautela, porque não era objetivo da coroa portuguesa ocupar as terras brasileiras com população, mas incentivar a produção especializada de açúcar para abastecer o mercado europeu. Assim, Portugal estaria encontrando saídas para a crise que se abatera sobre a produção dessa especiaria nas ilhas atlân- ticas da Madeira e dos Açores, em função do esgotamento dos solos, e, também, evitaria a cobi- ça das outras nações sobre seu território colonial. Inicialmente, a divisão do território em capitanias garantiu a posse das terras brasileiras ao longo do litoral. Encontrando um território habitado por indígenas, os portugueses procuraram ocupá-lo e inseri-lo no circuito comercial, como fornecedor de produtos demandados no merca- do europeu. A primeira iniciativa portuguesa foi a exploração florestal, conforme já reportamos, limitando-se a estabelecer feitorias no litoral e a estimular a população nativa à coleta, utilizan- do o escambo. Em seguida, procuraram os portugueses apropriar-se da terra, criando núcleos permanentes de ocupação- vilas de Olinda, Ilhéus, Porto Seguro e Cidade do Salvador-, escra- vizando os indígenas para submetê-los ao trabalho regular e contínuo, distribuindo terras em regime de sesmarias às pessoas que dispunham de recursos e passando a desenvolver o tráfico de escravos da costa da África, a fim de suprirem a nova colônia da força de trabalho necessária. O sistema introduzido pela colonização consagrou a grande exploração agrícola. A penetração para o sertão, iniciada no século XVI, visava produzir os animais de trabalho e a alimentação para a população que se adensava na área canavieira (ANDRADE, 1993, p. 31). A pecuária bovina, também, assumiu importante destaque nesse contexto, uma vez que, partindo do litoral, foi empurrada para o interior à medida que as plantações de cana se expan- diam, promovendo a ocupação do sertão. Mais tarde, a criação de gado se expandiu para o sul da colônia, seguindo o curso do rio São Francisco até chegar à região hoje compreendida como Minas Gerais e, ao norte, alcançando os chapadões do Piauí, multiplicando-se fazendas de gado às margens do rio Parnaíba. “Ao lado de uma sociedade feita de açúcar e escravos, desenvolveu- -se, no sertão, uma ‘civilização do couro’, feita de gado e homens livres, em confronto com a na- tureza, tocando seu gado através de pastagens naturais” (FERLINI, 1994, p. 26). Durante os dois primeiros séculos da colonização, o Nordeste, onde se plantou cana, esteve sob o domínio português. Nesse período, ocorreu a formação de vilas e cidades, a colonização do interior, a defesa do território e a repartição de terras, enfim, tudo que envolvia a vida colonial delineou-se a partir do complexo de produção do açúcar. Não nos aprofundaremos na discussão sobre a produção açucareira, no Nordeste colonial, pois as incursões apontadas servem, apenas, para contextualizar, em linhas gerais, como se deu a interiorização dos vastos sertões, dos quais as minas fizeram parte. Após a descoberta de ouro no sertão, todo o interior foi colonizado e Minas Gerais se apre- sentou para o Brasil. O dinheiro do ouro e diamante financiou o surto industrial europeu e fez surgir o tipo de brasileiro chamado “mineiro”, conforme nos identificamos hoje. Essa identidade, porém, como a própria identidade brasileira, é uma identidade carregada de diversidade. GLOSSÁRIO: Sesmaria: Na colônia, a questão referente às sesmarias foi regida, no princípio, pelas Ordenações Manueli- nas (1521). No livro 4, artigo 67, as partes que tratam da distribuição de terras em sesmarias aludiam às cartas de doação pelas quais D. João III concedeu as terras colocadas sob sua governança aos capitães donatários que contavam como propriedade pessoal apenas uma parcela; comprometiam-se a distribuir o restante, sob a forma de sesma- ria, a quaisquer pessoa, de qualquer condição, contanto que fossem cristãos. Fonte: NOSOE, Nelson. Sesmarias e Apossa- mento de Terras no Brasil Colônia. Revista Economia, São Paulo, v. 7, n. 3, p. 587-605, 2006. Disponível em: <http://www.anpec. org.br/revista/vol7/ vol7n3p587_605.pdf> acesso em 15 jul. 2011. DICA: Para descontrair e conhecer mais sobre o sertão, do ponto de vista da literatura, leia o livro Grande Ser- tão: Veredas, de João Guimarães Rosa (1956). Para saber mais sobre o livro, acesse: <http:// educarparacrescer. abril.com.br/leitura/ grande-sertao-vere- das-400516.shtml>. NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar 16 UAB/Unimontes - 8º Período 1.3 A formação geohistórica de Minas Gerais 1.3.1 Considerações iniciais Ao longo do tempo, observamos que os diversos estudos sobre Minas Gerais, numa perspec- tiva histórica, concentram-se no século XVIII. Os pesquisadores mais recentes têm produzido inte- ressantes trabalhos, também, sobre o século XIX. Então, temos aí momentos que registram a his- tória “áurea” de Minas Gerais, tanto no que diz respeito à riqueza gerada pela exploração do ouro e das pedras preciosas quanto à riqueza das produções intelectuais. Devemos lembrar, também, que estamos chamando a atenção para a formação de um território cuja importância não é restri- ta apenas a si mesmo ou ao Brasil, mas ao mundo, sobretudo aos países europeus. Eduardo Paiva (2009) lembra-nos de um ponto central, apesar de básico, para entendermos Minas Gerais. Segundo o autor, o que entendemos e chamamos de Minas Gerais, hoje, não existia, no século XVIII, nem o estado demarcado física e geograficamente, nem, tampouco, seu povo, o mineiro, como é conhecido atualmente. Portanto, naquele período, Minas Gerais era um território e uma sociedade em formação, que pertencia a uma extensão territorial mais ampla, podendo ser a América Portuguesa, o Brasil, ou, simplesmente, a América. Não somente Minas Gerais, aliás, todo o Brasil e a América estavam em formação no século XVIII. Inclusive, vale lembrar que o Bra- sil só completou sua formação territorial, como o concebemos hoje, no século XX. Paiva (2009) destaca, também, que as terras mineiras no século XVII eram chamadas de “ser- tões”. Conforme o autor, a palavra “sertão” é muito antiga, usada, provavelmente, desde o sécu- lo XIV, e era bastante utilizada pelos portugueses e espanhóis se referindo a algumas regiões da África. O termo “sertão” não tinha o mesmo significado de hoje; sertão era terra de ninguém, terra incógnita, terra inculta, na perspectiva do povo ibérico (Espanha) dos séculos XIV, XV e XVI. O sertão, no Brasil, além de terra de ninguém e sem cultura, ganhou outros adjetivos, todos pejo- rativos, lembrando mais suas carências naturais esociais: clima quente, seco, falta de água, solos pobres em nutrientes, pobreza, miséria etc. Por outro lado, o sertão saiu das páginas do abandono para as páginas da literatura (Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, José de Alencar) e dos cordéis, tornando-se sinônimo de cultura, exaltado na música, na dança, nas festas, nas artes, no imagi- nário popular e na identidade; valorizado e redescoberto pelas suas riquezas naturais que tanto enganam aqueles que não o conhecem, mas que encantam e alimentam aqueles que dele e nele vivem. Todavia, voltando ao contexto mineiro do século XVII, o sertão que ora se apresentava e foi imortalizado pela história como região inculta, despovoada, carente de ser desbravada e ocupada, não parece sê-lo bem assim. Essa ideia de que os bandeirantes paulistas foram pioneiros em aden- trar o interior da colônia- os sertões-, que prenderam índios, conquistaram, ocuparam, fundaram vilas e povoados, tem sido bastante questionada pelos estudiosos recentes. Segundo Paiva (2009), todo o vale do São Francisco e todo o vale do Rio das Velhas, até o cen- tro de Minas Gerais, eram povoados em ambas as margens por fazendeiros, desde o final do sécu- lo XVII. Só com essa afirmação já se muda toda uma perspectiva histórica de ocupação da região das Minas. Por isso, o autor questiona o porquê de sempre se considerar que as Minas de ouro foram “descobertas” por bandeirantes que saíram de São Paulo. Para ele, essa ideia foi incrustada pela produção historiográfica paulista que, durante muitas décadas, dominou o cenário da histo- riografia e “construiu” o Brasil a partir da “perspectiva bandeirante”. Nesse sentido, Paiva afirma que o ouro e outros minerais, incluindo-se aí o ferro, já eram conhecidos muito antes disso. "Essas bandeiras tanto vieram de São Paulo quanto da Bahia, e os fazendeiros que descem o vale do São Francisco ocupam toda a região e tornam-se produtores agrícolas, têm gado e se estabelecem em fazendas, cujas terras são, muitas vezes, extensas” (PAIVA, 2009, p. 30). O diferencial é que quan- do as jazidas tornam-se conhecidas, a notícia se espalha rapidamente e muitas pessoas vêm de diversas regiões da América Portuguesa para se enriquecerem; algumas apenas passam por aqui e outras se fixam. NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar 17 Geografia - Geografia de Minas Realizadas essas primeiras observações, prosseguiremos nosso estudo sobre a formação geohistórica de Minas Gerais. Primeiro, vamos mostrar como era a experiência portuguesa com a mineração e como se desenvolveu tal atividade. Em seguida, apresentaremos alguns aspectos da evolução da cartografia do século XVIII e a composição dos espaços regionais mineiros, discu- tindo, brevemente, alguns dos aspectos da atividade mineradora e sua relação com a agricultura, a pecuária e os principais agentes do comércio setecentista. Além disso, será possível perceber, nesta análise, como a rede urbana vai se formando durante o período colonial até a mudança da capital mineira para Belo Horizonte. Por fim, são apresentadas as principais mudanças políticas, econômicas e sociais a partir do século XIX. Isto é, a mineração de ouro e diamantes dá lugar a uma Minas Gerais industrial que se forma com a mudança da capital mineira, mas sem abando- nar sua essência. Agora são introduzidos outros minérios. 1.3.2 Os primórdios da mineração em Minas Gerais Repetidamente, temos notado a mesma inferência de que a descoberta das minas de ouro no Brasil colônia remonta ao final do século XVII. Sabemos, ainda, que esse fato histórico ocorreu tardiamente, visto que a busca por metais e pedras preciosos foi um dos principais objetivos per- seguidos pelo colonizador nas Américas. Adriana Romeiro (2009) afirma que a experiência histórica que se sucedeu com a mineração foi completamente original, pois, segundo a autora, para Portugal, a mineração constituía um universo desconhecido, uma vez que a fraca experiência com a exploração do ouro de lavagem nas regiões de Iguape, Paranaguá, Cananéia e nas proximidades do Parnaíba e do Voturuna, não foi suficiente para fazer frente aos novos desafios encontrados nas minas do sertão. A interpretação de Paiva (2009) sobre a mineração portuguesa diverge da anterior, porque, para ele, os portugueses e outros europeus já trouxeram experiências, oriundas dos gregos antigos, para exploração das minas. Saber como se extrai o ouro; o que é preciso para ter uma atividade minera- dora; como se deve plantar e sobre como se abastece uma sociedade mineradora; a organização da população mineradora, a normatização e a ordenação, são, todas, experiências presentes entre os po- vos gregos antigos. Paiva vai, ainda, mais longe quando discorre sobre a experiência com mineração trazida pelos africanos, temática que pouco tem circulado na historiografia: Hoje, sabemos que boa parte dos escravos africanos que entraram nas Minas, já no início do século XVIII, e que foram muitos, eram escravos que tinham ex- periência histórica com mineração e não de mina profunda, mas de ouro em pó, que é o que vai se encontrar em grande quantidade aqui. Hoje nós temos elementos também para afirmar ou, pelo menos, para desconfiar fortemente, que, entre esses escravos que vêm para cá com um know-how, digamos, de mi- neração de pó de ouro, em grande quantidade eram mulheres, que tinham a mesma experiência de mineração do pó de ouro em várias regiões africanas. E mais, não apenas de tirar o pó do ouro, mas de fundir o ouro. E, além disso, nessas mesmas regiões ou em outras que mais tarde vão se tornar regiões mais importantes no fornecimento da mão-de-obra escrava na África, para a região das minas, em Minas Gerais, a experiência em extração, fundição, exploração do ouro é antiqüíssima, e na região mais ao sul do continente africano, onde hoje é Moçambique, a experiência em extração, exploração e transformação da pedra-sabão é igualmente muito antiga. Isso muda completamente a nossa forma de pensar como essas populações, primeiro, entraram no Novo Mundo, e, depois que entraram, como se mesclaram, se organizaram e se distinguiram (PAIVA, 2009, p. 31). A partir da experiência portuguesa com a mineração, citada anteriormente, Romeiro (2009) menciona que existia uma legislação, remontando ao ano de 1603, sobre a qual, ao longo de todo século XVII, houve acréscimos, correções e alterações, pois havia se tornado incoerente, incapaz de dar conta da nova realidade das minas de Cataguases, como se chamava a região dos sertões onde se descobriu o ouro em Minas Gerais. Com isso, entre os fins do século XVII e início do XVIII, foram formuladas e ensaiadas diversas propostas para a nova região mineradora, constituindo as linhas- -mestras da administração local. Entre as inúmeras propostas políticas para a época, várias ideias diferentes sobre as formas de povoamento, as estratégias de controle dos fluxos migratórios, as áre- as de jurisdição do novo território e o papel destinado aos descobridores na nova administração se chocavam. Muitos autores relatam que o fator de expansão para o interior do território se deu pelo Bandeirismo “preador de índios (FIG. 1) e prospector de metais e pedras preciosas, que abriu cami- NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar 18 UAB/Unimontes - 8º Período nho, explorou a terra e repeliu as vanguardas da colonização espanhola concorrente, mais tarde, a exploração das Minas, a partir do século XVII, que fixou núcleos definitivos no coração do con- tinente” (PRADO JÚNIOR, 1999, p. 37). A partir do século XVII, iniciaram-se os interesses para ocu- pação efetiva do território mineiro. De acordo com Prado Júnior (1999), a dis- persão pelo interior, intensa e rápida, ocorreu na metade do século XVIII. Essa construção revela núcleos dispersos no território. Dentre os povoadores,estavam colonos europeus, escravos trazidos da África e pessoas oriundas dos estabelecimentos agrícolas do litoral. Não podemos nos esquecer de mencionar, ainda, as populações indígenas. Vale ressaltar que, para Aziz Nacib Ab’Saber (2003), muito embora as vistas da coroa portu- guesa estivessem voltadas para as possíveis riquezas minerais, o verdadeiro sucesso econômico do grande país tropical, por muito tempo, esteve ligado à utilização do solo, conforme mencio- namos no primeiro item dessa unidade de estudo. A vida agrária com base na economia de plantações tropicais, completada pelo pastoreio extensivo, através de pobres pastagens dos sertões semi-áridos inte- riores, é que iria facilitar a penetração do povoamento e a conquista efetiva da terra. As aptidões agrárias das zonas de climas quentes e úmidos, dotadas de manchas de solos ricos, aliadas a facilidades naturais oferecidas pela região se- mi-árida à expansão do gado, é que realmente importaram para a colonização portuguesa, em domínios sul-americanos, já que muito tardiamente vieram a ser descobertos o ouro e o diamante (AB’SABER, 2003, p. 202). O autor supracitado afirma que a descoberta do ouro nos planaltos do centro-sul de Minas ofuscou-lhes a vida econômica singela, provocando uma precoce decadência para os agrupa- mentos humanos segregados que os povoavam. No século XVIII, as pastagens naturais constitu- ídas pelos cerrados do Norte de Minas foram aproveitadas para a criação de gado, reproduzindo ali um pouco do esquema que presidiu a expansão do gado pelas caatingas situadas mais ao norte e garantindo a subsistência alimentar dos que se atiravam à aventura aurífera e diamantífe- ra no território das Minas Gerais. De acordo com Polastri (1987), a capitania de Minas Gerais surgiu quase duzentos anos após a descoberta do Brasil. O território do atual Estado de Minas Gerais, com a exceção de uma pe- quena parte do Triângulo Mineiro, que estava fora dos limites portugueses determinados pelo Tratado de Tordesilhas, fez parte, inicialmente, das capitanias de Porto Seguro, Ilhéus, Espírito Santo, Paraíba do Sul e São Vicente. Minas Gerais é uma decorrência da saída dos paulistas para atingir o interior, na segunda metade do século XVII, e das entradas dos baianos ao norte, no mesmo período, e, somente em meados do século XVIII, passou a ser considerada uma capitania. No início do século XIX, Minas Gerais tornou-se, administrativamente, uma Província. A autora supracitada destaca que, apesar do pioneirismo paulista, a primeira entrada em território das terras mineiras partiu da Bahia, descendo pelo rio Jequitinhonha e atingindo o São Francisco, em 1553, e foi chefiada pelo espanhol Francisco Bruza Espinosa. As mudanças políticas portuguesas que ocorreram por meio da União Ibérica permitiram uma maior penetração pelo interior, tornando as fronteiras mais flexíveis. Ressalta-se que esse período foi marcado pela crise econômica de Portugal e sua necessi- dade de possuir terras ricas para equilibrar seu orçamento, pois precisava encontrar uma riqueza que substituísse o açúcar brasileiro que estava em crise, devido á produção nas Antilhas e o ápice do mercantilismo. Assim, Portugal ofereceu incentivos, como prêmios e honrarias, a quem des- cobrisse minerais preciosos. Esse incentivo estimulou várias expedições que derrubaram Tordesi- lhas e alargaram as fronteiras. A bandeira de Fernão Dias Paes percorreu os sertões mineiros du- rante sete anos (1674-1681). Essa expedição foi importante para a formação geográfica de Minas, pelo estabelecimento da estrada que ligou as minas aos currais de gado do São Francisco, na Bahia, pelo devassamento do sertão do rio das Velhas e pela abertura do caminho entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro. O ouro mineiro (FIG. 2) foi descoberto na última década do século XVII, pela expedição de Antônio Rodrigues Arzão, em 1693 (POLASTRI, 1987, p. 31). PARA SABER MAIS: veja a fala do Professor Doutor COSTA, João Batista de Almeida na Assembléia Legislativa de Minas Gerais, onde o autor explica que a criação da capitania das Minas Gerais representa a integração entre as regiões das minas e dos campos gerais e a articulação das duas regiões propiciou a consolidação da sociedade mineira. O professor acrescenta, ainda, que Minas Gerais é o coração simbólico do Brasil, pois congrega a síntese da diversidade brasilei- ra. Para conhecer mais sobre o marco inicial da colonização de Minas Gerais, os chamados currais do São Francisco, e a apro- vação da Proposta de Emenda à Constitui- ção 21/11 que cria o Dia das Gerais, visite o site: www.diariooficial-br. com.br- do dia 28 de junho de 2011. ▲ Figura 1: Preagem de índios no sertão. Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/t6i4X > acesso em 20 jul. 2011. NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar 19 Geografia - Geografia de Minas Polastri (1987) constatou que, a partir da descoberta dos metais e das pedras preciosas no território mineiro, além dos índios que já habitavam o território, houve, rapidamente, o povoa- mento e a fixação de novos habitantes paulistas, baianos, portugueses, brancos, negros, padres, leigos e algumas mulheres. No início do século XVIII, formaram-se os núcleos iniciais: o primei- ro, no rio das Mortes, sendo São João Del Rei o centro; o segundo, Ouro Preto (antiga Vila Rica) e Mariana; por último, a região do rio das Velhas, a partir de Sabará e Caeté. A posse da região mineradora foi assegurada por ato real em 1694, para os paulistas. A disputa pela região entre a população originária da decadência da região açucareira, portugueses, outros brasileiros, e os paulistas foi responsável pela primeira guerra civil brasileira – a Guerra dos “Emboabas”. Em 1709, foi criada a capitania de São Paulo e, em 1711, esta foi elevada à categoria de cidade. Ainda nesse começo do século XVIII, formaram-se as vilas de Mariana, Vila Rica e Sabará. Vila Rica tornou-se a capital da província de Minas Gerais e, depois, a capital do estado até o ano de 1897. Somente em 1823, a capital Vila Rica passa a se chamar Ouro Preto, após a Independência do Brasil (1822). 1.3.3 A cartografia e o espaço mineiro no século XVIII Sabemos da efervescência e da intensa mobilidade populacional proveniente de outras ca- pitanias em direção às minas, logo após o seu descobrimento, consoante foi mostrado no item anterior. Entretanto, segundo Moraes (2007), ao mesmo tempo em que era necessário ampliar o conhecimento desses sertões, as informações sobre sua geografia deviam ser mantidas em sigi- lo. Tal preocupação da coroa portuguesa era tão grande que o famoso livro de Antonil – Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas –, escrito na primeira década do século XVIII e impres- so em 1711, foi confiscado logo após sua impressão. Entre outros aspectos, o livro em questão trazia descrições detalhadas dos caminhos para as minas. A preocupação da coroa dizia respeito à ambição dos invasores europeus e ao perigo maior do despovoamento do Reino para o Brasil (PIRES, 1979; MORAES, 2007). Moraes (2007), ao estudar a cartografia histórica do período colonial, constata que Portugal, entre os séculos XVI e XVII, estava mais interessado em produzir cartas náuticas, buscando maior precisão nos caminhos do mar e maior conhecimento das costas do Brasil, da África e do Orien- te. Era um saber produzido a partir da ciência da época e dos conhecimentos empíricos. Essas informações eram atualizadas à medida que os navegadores traziam novas informações de suas viagens marítimas. Por isso, Portugal adquiriu posição de destaque nesse período de seus desco- brimentos. Mas, ainda no século XVII, essa supremacia passou para as mãos da Inglaterra, Françae Holanda. A partir do trabalho de Moraes (2007) vamos reproduzir alguns mapas que consideramos importantes para o entendimento da formação territorial brasileira e, especificamente, de Minas Gerais. PARA SABER MAIS: A União Ibérica ou domínio português (1580-1640) foi a fase histórica na qual Por- tugal foi incorporado à Espanha nos reinados de Filipe (II, III e IV) da Espanha. Fonte: POLASTRI, Maria Helena Tavares. Geografia e História de Minas Gerais. Belo Horizonte: Vigília, 1987. p. 29. GLOSSÁRIO: Mercantilismo: conjunto de práticas e ideias aplicadas sobre o sistema econômico do Estado Moderno. Consistiu numa política de intervenção econô- mica surgida durante a formação dos Estados Modernos, a exemplo da balança comercial favorável e do prote- cionismo alfandegário. Fonte: Disponível em: <http://http://www. infoescola.com/econo- mia/mercantilismo>, acesso em 22 nov. 2011. ◄ Figura 2: Exploração de metais preciosos nas Minas do final do século XVII. Fonte: Disponível em: <http://ofeliafonse- ca.pbworks.com/w/ page/5839332/Ciclo-do- -ouro> acesso em 20 jul. 2011. DICA: Para entender melhor sobre a Guerra dos Em- boabas, visite o site: <http://www.siaapm. cultura.mg.gov.br/ acervo/rapm_pdf/en- saio01_2009.pdf>. NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar 20 UAB/Unimontes - 8º Período Nesse primeiro mapa (FIG. 3), Moraes (2007) chama nossa atenção para a observação dos as- sentamentos humanos, os principais caminhos e a hidrografia. Segundo a autora, o mapa possui uma datação aproximada de 1699-1702. Podemos observar, nesse e nos demais mapas mostra- dos, que há um extremo cuidado para não expor e referir-se às minas de ouro e diamantes. Tam- bém notamos, ao longo do curso do rio São Francisco, um número bem significativo de fazendas que se formaram no sentido norte-sul, desde a foz até atingir o rio das Velhas. Mesmo com pro- blemas de escalas e deformações, o mapa revela, também, a formação de uma rede urbana na região das minas, Vila Rica, e na Bahia, próxima à área do Recôncavo e de Salvador. Além disso, a valorização dos rios e afluentes é outro ponto que merece destaque. O território destacado pela autora como Minas Gerais estava em formação, uma vez que suas fronteiras ainda não se encontravam geograficamente delimitadas, embora os caminhos de acesso às minas fossem muito controlados. A ocupação e povoamento ao longo do São Fran- cisco derrubam o mito do pioneirismo paulista no desbravamento e ocupação do sertão. Isso, todavia, não quer dizer que as bandeiras paulistas não tiveram importância e participação na co- lonização do interior. Moraes (2007, p. 10) ratifica essa tese quando afirma: A produção e a circulação do ouro estimularam o desenvolvimento de ativida- des agropecuárias necessárias ao abastecimento das áreas mineradoras, favo- recendo a articulação não só entre regiões da Capitania de Minas Gerais, como também com outras capitanias. Da Bahia, os criadores trouxeram o gado para as Minas, subindo o rio São Francisco – região de pastos, depósitos salinos e barreiros de sal –, que ficou conhecido como “rio dos currais”. Os paulistas, por outro lado, trouxeram seus rebanhos descendo o rio das Velhas. Muitos estudiosos, desse período áureo da história mineira, enfatizam a existência de escas- sez de alimentos, em função do aumento do contingente populacional que migrou para a re- gião das minas. Para essa vertente, Minas era apenas uma capitania voltada inteiramente para a mineração de ouro e diamantes. A agricultura estaria, no máximo, em segundo plano. A própria citação da autora acima já demonstra ser essa uma afirmação equivocada, e os estudos mais re- centes, também, mostram o contrário. Por exemplo, Guimarães e Reis (1986) afirmam que a ati- vidade mineradora só se manteve porque estava sustentada pela atividade agrícola e pecuária. Segundo Silva (1999), existia uma dinâmica economia regional, significativa na produção de ali- mentos que faziam parte da dieta alimentar dos mineiros, produzidos por criadores de gado e pequenos agricultores que viviam nas proximidades das vilas e arraiais. Devemos ressaltar, também, a existência de diversos mercadores que percorriam os cami- nhos das minas até os principais mercados. Entretanto, como tais comerciantes das minas sete- PARA SABER MAIS: Veja a forma contun- dente do texto da ordem régia de 20 de março de 1711, sobre o livro de Antonil: “Nesta côrte saiu proximamente um livro impresso nella com o nome de suppos- to e com o titulo de Cultura e Opulencia do Brasil, no qual, entre outras cousas, que se referem pertencentes aas fabricas e provi- mentos dos engenhos, cultura dos canaviaes e beneficio dos tabacos, se expõem tambem muito distinctamente todos os caminhos que ha para as minas do ouro descobertas, e se apontam outras que ou estam para descubrir ou beneficiar. E com estas particolaridades e outras muytas de egual importância, que manifestam no livro, convém muyto que não se façam publicas, nem possam chegar aa noticia das nações estrangeiras pelos gra- ves prejuizos que disso podem resultar aa conservação daquelle Estado (...)” Fonte: OILAM, José. Historiografia mineira. 2. ed. Belo Horizon- te: Imprensa oficial, 1987 apud MORAES, Fernanda Bordes de. A rede urbana das Minas Gerais coloniais: uma reconstrução a partir da cartografia histórica. Urbanismo de Origem Portuguesa, Rio de Janeiro, v. 7, abr. 2007. Disponível em: <http:// revistas.ceurban.com/ numero7/artigos/ fernandamoraes.htm> acesso em 07 set. 2011. Figura 3: Mapa da maior parte da costa e sertão do Brasil. Fonte: COSTA, 2004. Adaptação de MO- RAES, 2007, p. 7. ► NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar 21 Geografia - Geografia de Minas centistas estivessem sujeitos ao ataque de negros escravos refugiados em quilombos distantes, existiam atravessadores que compravam seus produtos e os revendiam nos centros urbanos das vilas e arraiais. Poderosos locais, também, impediam a remessa de gado para as minas, e os pró- prios moradores dos arredores das estradas e caminhos intervinham para dificultar a passagem dos condutores de alimentos. Esses acontecimentos revelam a fragilidade da ordem social e polí- tica que marcou a ação das autoridades durante o século XVIII. Apesar desses empecilhos, houve um grande aquecimento da produção local de alimentos no interior da capitania, desde o início da mineração, fruto de uma política de intervenção para evitar um descontrole geral do mercado interno de abastecimento (SILVA, 1999). Para Chaves (1998), cujo trabalho sobre a diversidade de sujeitos que atuavam no mercado colonial das minas setecentistas é significante, os agentes comerciais dividiam-se em duas for- mas: o comércio volante e o comércio fixo. A primeira constituía-se de comerciantes que trans- portavam e vendiam suas mercadorias pelos caminhos das minas, nas vilas e nos arraiais e não possuíam localização fixa ou feiras para a comercialização. Esses comerciantes abasteciam-se nos mercados do Rio de Janeiro e São Paulo e, ainda, adquiriam produtos dos produtores rurais e dos artesãos de Minas Gerais. Os comerciantes volantes enumerados pela autora são: tropeiros (FIG. 4), comboieiros, boiadeiros, atravessadores, mascates e as negras de tabuleiro. A segunda for- ma, por sua vez, era representada por comerciantes que compravam e revendiam mercadorias em seus estabelecimentos fixos. Esse grupo, composto por vendeiros, lojistas e comissários, era abastecido, também,por tropeiros, produtores rurais e pelos artesãos mineiros. GLOSSÁRIO: Comboieiros: eram aqueles que transpor- tavam os grupos de escravos, que seguiam escoltados e presos uns aos outros por corren- tes. Eram diferentes dos boiadeiros, que conduziam as boiadas de gado até seu desti- no, negociando-as com as fazendas, e costu- mavam transportar, além disso, ola, cavalos e potros, na mesma viagem. Negras de tabuleiro: eram vendedoras am- bulantes, semelhantes aos mascates, porém, vendiam gêneros co- mestíveis, geralmente em pontos próximos às lavras e faisqueiras. Por isso, eram, cons- tantemente, acusadas de contrabando e responsabilizadas pelo desvio de ouro e diamante. Não eram bem vistas pelas autori- dades da capitania, e também caiam sobre elas a culpa pelo desvio de jornais, por incen- tivo à embriaguez e à violência, por prostitui- ção e ligação com os quilombos. Fonte: CHAVES, Cláudia Maria das Graças. Comerciantes das Minas setecentistas: a diversidade de atuação no mercado colonial. Caderno de Filosofia e Ciências Humanas, Belo Horizonte, v. 6, n. 10, p. 135-143, abr. 1998. ◄ Figura 4: Os tropeiros. Fonte: Disponível em: <http://www.minasdehis- toria.blog.br> acesso em 20 jul. 2011. Embora o caminho de São Paulo para as Minas tenha se destacado historicamente com as conhecidas bandeiras, do ponto de vista comercial, o mesmo foi menos expressivo. De acordo com Guimarães e Reis (1987), a ocupação do caminho do Rio de Janeiro foi muito mais rápida que a ocupação do caminho de São Paulo, devido à diferença de volume comercial e de passa- geiros que foi maior entre as Minas e o Rio de Janeiro. É do próprio Rio de Janeiro para as Minas que partiam os grupos de escravos que seriam muito utilizados na capitania, tanto na mineração quanto na agricultura e pecuária. NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar 22 UAB/Unimontes - 8º Período Retomando as discussões sobre mapas, trazemos, na figura 5, quatro mapas regionais, pro- duzidos por padres matemáticos entre 1734-1735. Esses mapas abrangem parte da comarca do Rio das Mortes até o rio Araçuaí, na comarca do Serro Frio. Os mapas foram projetados sobre a base cartográfica atual do estado de Minas Gerais. Moraes (2007) acredita que os padres jesuítas recorreram a outras informações para a elaboração dos mapas, seja através de consulta à carto- grafia da época, seja por meio de relatos de índios, sertanistas e colonizadores. Por isso, a autora presume haver muitos equívocos registrados nos mapas. Com referência ao destaque para o meridiano 0º (Rio de Janeiro), Moraes (2007) afirma exis- tir especulações que dizem ser esta uma estratégia para garantir o sigilo sobre o espaço ocupado pelos portugueses em relação ao Tratado de Tordesilhas. Assim, adotar esse meridiano – e não o de Paris ou das Ilhas Canárias, como era de costume – seria uma maneira de confundir os estran- geiros, principalmente os espanhóis. A chegada dos padres ocorreu após o anúncio oficial (1729) da descoberta de diamantes no Serro Frio (a comarca do Serro Frio correspondia, nesse período, às regiões que abrangiam desde o vale do Rio Doce, passando pelas regiões do vales do Jequitinhonha e do Mucuri, até grande parte do Norte de Minas Gerais – ver mapa da figura 06) embora sua exploração já se registrasse desde o início do século. Com isso, haveria a necessidade de regulamentação e taxação da ativi- dade mineradora dos diamantes. Para a autora supracitada, A facilidade de extravio e contrabando dos diamantes exigia um rígido contro- le do espaço geográfico onde se situavam as lavras, bem como da população nele assentada; o que se deu, por meio da demarcação das terras diamantinas, instaurada por Martinho de Mendonça de Pina e de Proença por meio do ban- do de 18 de agosto de 1734 (MORAES, 2007, p. 16). Por fim, vamos analisar os mapas sobrepostos da figura 6. Esses mapas, de José Joaquim da Rocha, revelam um verdadeiro retrato da capitania mineira nas últimas décadas do século XVIII (1778). Apesar de o tamanho da escala, as distorções, os equívocos, as imprecisões e as omissões dificultarem uma visão mais acurada, principalmente dos assentamentos humanos, esse mapa já demonstra o grau de conhecimento do território mineiro nessa época. Podemos observar o Figura 5: Mapas: Mapa da região entre os rios Araçuaí, Jequitinhonha e das Velhas - Distrito dos Diamantes do Serro Frio, 17º 45` - 19º 15` S; Mapa da região do Alto Rio Doce (Ribeirão do Carmo), Rio das Velhas e Rio Paraopeba, região das minas de ouro, 19º 00` - 20º 30`S; Mapa da região entre os rios Jequitinhonha e Araçuaí - Região de Minas Novas, 16º 30’ - 18º Sul; Mapa abrangendo a região entre o Alto Rio Doce (Ribeirão do Carmo), o Rio das Velhas, o Rio Paraopeba e o Rio São Francisco - Região da Zona da Mata, 20º 00` - 21º 30 .̀ Fonte: SOARES; CAPASSI, 2002. Adaptação de MO- RAES, 2007, p. 15. ► NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar 23 Geografia - Geografia de Minas delineamento das fronteiras, a ocupação do território e a formação da rede urbana, sendo esta especialmente concentrada nas comarcas de Vila Rica e do Rio das Mortes. As demais co- marcas apresentavam um povoamento mais disperso, excetuando-se as fazendas, que já existiam aí desde o século anterior (XVII), ao longo do rio São Francisco e seus principais afluentes. Moraes (2007) afirma que a cartografia produzida por José Joaquim da Rocha é fru- to de duas escalas de percepção do território: uma oriunda de seus conhecimentos técnicos, os quais lhe permitiram determinar latitudes e longitudes; a outra, diz respeito à trajetória percorrida por ele pelos sertões. Nesta última, destacam-se as longas distâncias, a ausên- cia de elementos notáveis da geografia e, até mesmo, as informações secundárias colhidas, que, provavelmente, são as principais causas de imprecisão, quer seja na localização dos as- sentamentos humanos, quer seja na representação dos cursos dos rios ou linhas de serras. Ape- sar disso, a autora destaca que nos mapas de Rocha foram registrados e classificados 542 assen- tamentos humanos, sendo uma cidade (Mariana), 8 vilas, 57 paróquias, 133 arraiais, 275 fazendas, 52 registros e 9 aldeias de gentios (índios). Com essa geografia descritiva do território mineiro, podemos destacar, conforme analisa Moraes (2007), a presença de uma urbanização da região centro-sul da capitania, concentrada principalmente nas áreas de influência dos núcleos de mineração. Vila Rica (sede da capitania) e Mariana (sede do bispado) eram os núcleos polarizadores da província e constituíam os princi- pais pontos de confluência dos quatro grandes caminhos que estruturavam o território mineiro no século XVIII: o Caminho de São Paulo, os Caminhos Novo e Velho do Rio de Janeiro, o Cami- nho para o Distrito Diamantino, e o Caminho para a Bahia, também chamado de Caminho do São Francisco. Essa rede de caminhos mais antigos também se articulava com outros caminhos que contri- buíram para a expansão da capitania, os quais, inclusive, comunicavam-se com outros territórios da América Portuguesa. Com tantos caminhos, era quase impossível impedir o desvio do ouro e dos diamantes. Desde os primeiros motins do século XVIII, o poder metropolitano já sabia que os sertões eram espaços onde a ordem político-administrativa ainda não havia se instalado, ou era muito precária. Para concretização das idéias e facilidade de apreensão desses conhecimentos, cujo resul- tado nos impõe a necessidade de reflexão e de indagações sobre o processo de formação de Minas Gerais, vale considerar aspesquisas de Prado Júnior (1999) que nos dão uma direção para pensar o espaço geográfico da regionalização no século XVIII. A distribuição do povoamento em Minas Gerais está localizada numa faixa que se estende de sul a norte, da bacia do rio Grande às proximidades das nascentes do Jequitinhonha, mais ou me- nos entre os pontos em que se formaram a vila de Lavras e o Arraial do Tejuco (Diamantina). Ela corresponde à serra do Espinhaço e, geologicamente, a uma formação peculiar de terreno, as sé- ries de Minas e de Itacolomi, onde se verificaram os principais afloramentos de ouro no país. Este Figura 6: Mapas da Capitania de Minas Gerais com a divisão de suas Comarcas: Mapa da Comarca de Sabará, Mapa da Comarca de Vila Rica, Mapa da Comarca do Rio das Mortes e Mapa da Comarca do Serro Frio. Fonte: ROCHA, 1995. Adapta- ção de MORAES, 2007, p. 24. ► NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar NIEMAYER Destacar 24 UAB/Unimontes - 8º Período fato explica, suficientemente, a concentração aí do povoamento, multiplicando-se as aglomera- ções, às vezes bem próximas umas das outras, e cujas principais são: as vilas de São João e São José Del-Rei (Tiradentes); Vila Rica (Ouro Preto); e as cidades de Mariana, Caeté, Sabará, Vila do Príncipe (Serro) e Arraial do Tejuco (Diamantina), onde, como, se sabe, exploraram-se os diaman- tes. Em torno desse núcleo central, que consti- tuiu, propriamente, as “minas gerais”, nome que mais tarde se estende a toda a capitania, foram surgindo outros secundários: Minas Novas, a nordeste, ocupadas desde 1726; Minas do Rio Verde, com Campanha por centro principal, que são de 1720; Minas do Itajubá, onde se forma- ria a cidade desse nome, exploradas a partir de cerca de 1723; Minas do Paracatu, a oeste, que são as últimas descobertas, em 1744 (PRADO JÚ- NIOR, 1999). A figura 7 traz um esboço para interpre- tarmos como estava configurada a regiona- lização do território mineiro no século XVIII. Essa regionalização organiza-se de acordo com o estabelecimento dos núcleos de povoamento e ocupação do território no período em questão. Conforme a análise de Caio Prado Júnior e do mapa da regionalização do século XVIII, projetado sobre as atuais fronteiras do estado, observamos que há uma ligação entre a regiáo central das minas e os campos do sul, mostrando a concentração e multiplicação do povoamento que se estabelece desde os núcleos de Tiradentes e São João Del-Rei, ao sul, passando pela nucleação de Sabará, Ouro Preto e Mariana, até chegar a Diamantina e Serro, ao norte da capitania. Há uma vasta área no centro da capitania, conhecida como região “curraleira”, constituída pelas fazen- das de gado que se estabelecem ao longo do Rio São Francisco, resultantes da interiorização do gado rumo ao sertão, logo após a ocupação da região canavieira do nordeste da colônia. Nas porções leste e oeste do território da capitania encontram-se os sertões, compostos por vastas áreas que, além da disseminação do gado, tornaram-se os segundos pólos de mineração, princi- palmente nas minas do nordeste e noroeste. Em 1776, Minas representava 20% da população brasileira, com mais de trezentos mil habi- tantes, excluindo-se os índios (POLASTRI, 1987). Não é nossa intenção aqui estabelecer percentu- ais da população em Minas no século XVIII (veja Unidade II), mas sim demonstrar o grande mo- vimento populacional que se convergiu para Minas, em virtude da descoberta e exploração dos metais e das pedras preciosas. 1.3.4 Do século XIX para o XX: mudanças políticas, econômicas e sociais: As transformações que ocorreram nas minas no seu primeiro século, XVIII, foram responsá- veis por uma acirrada política fiscal portuguesa, pelo descontentamento das elites minerais e o empobrecimento da capitania, aliados a idéias iluministas, motivos que provocaram a Conjura- ção Mineira de 1789. Você deve estar se perguntando: qual o significado da Conjuração Mineira nesse contexto? A resposta a essa indagação diz respeito à tentativa da capitania de indepen- dência dos domínios portugueses e, assim, diminuir o empobrecimento dos seus habitantes. Em virtude da revolta contra os altos impostos que a capitania era obrigada a enviar para Portugal, o século XVIII, principalmente de 1789 a 1792, ficou marcado por prisões, mortes e pelo fracasso da tentativa de independência. Contudo, aquele momento representou o aparecimento, para a geohistória de Minas, do inconfidente Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes), como um dos seus principais líderes pela independência. No século XIX, a partir de 1808, com a transferência da corte portuguesa para o Brasil, com a abertura dos portos à Inglaterra, a imigração e a industrialização, a criação de escolas, do Banco do Brasil e da Imprensa Oficial, houve melhorias nas capitanias brasileiras. Assim, o Brasil foi ele- ▲ Figura 7: Regionalização para o século XVIII Fonte: Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ rbh/v27n53/a06v5327.pdf> acesso em 14 jul. 2011. 25 Geografia - Geografia de Minas vado à categoria de Reino Unido a Portugal, e as capitanias foram transformadas em províncias. No período entre a chegada da corte portuguesa ao Brasil e a proclamação da independência (1808-1821), houve grandes transformações em Minas, que resultaram em iniciativas de progres- so, como a instalação de fábricas, a formação da Escola de Minas em Ouro Preto (1875) e a expan- são do território com a anexação do triângulo à província. Sobre a formação de escolas especializadas em Minas Gerais, Queiroz (2009) analisa o Re- latório 2007 da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no qual constata que a primeira instituição de nível superior data do século XIX – a Escola de Farmácia de Ouro Preto, criada em 1839. Segundo a autora, em 1875, é criada a Escola de Minas e, em 1892, já no período republica- no, a antiga capital do estado ganha, também, a Faculdade de Direito. Em 1898, com a mudança da capital, a Faculdade de Direito é transferida para Belo Horizonte. No século XX, em 1907, criou- -se a Escola Livre de Odontologia e, quatro anos mais tarde, a Faculdade de Medicina e a Escola de Engenharia. Em 1911, surge o curso de Farmácia, anexo à Escola Livre de Odontologia. Queiroz (2009) acrescenta, ainda, que a Escola de Minas em Ouro Preto, estabelecida em 1875, foi erigida segundo a imagem da escola francesa, sem levar em conta as características regionais, e esteve, por décadas, estreitamente ligada ao museu e à Academia de Ciências de Paris. Para essas insti- tuições, enviava coleções geológicas, e delas recebia professores, livros e técnicas pedagógicas. Para Queiroz (2009), a criação de uma universidade no estado já fazia parte do projeto polí- tico dos Inconfidentes. A ideia, porém, só veio a concretizar-se em 1927, com a fundação da Uni- versidade de Minas Gerais (UMG), instituição privada, subsidiada pelo Estado, surgida a partir da união das quatro escolas de nível superior então existentes em Belo Horizonte: Direito, Medicina, Engenharia e Odontologia. A UMG permaneceu na esfera estadual até 1949, quando foi federa- lizada. Ainda na década de 1940, foi incorporada ao patrimônio territorial da universidade, uma extensa área, na região da Pampulha, para a construção da Cidade Universitária. Os primeiros prédios erguidos, onde é hoje o campus Pampulha, foram o do Instituto de Mecânica (atual Co- légio Técnico) e o da Reitoria. O campus só começou a ser, efetivamente, ocupado pela comuni- dade universitária nos anos de 1960, com o início da construção dos prédios que hoje abrigam a maioria das unidades acadêmicas. O nome atual - Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) - só foi adotado em 1965. A UFMG se torna a primeira instituição de ensino superior que se ex- pande e federaliza, em Minas Gerais. Retomando a discussão sobre a mineração, com a extinção da fase aluvional (na superfície) e a falta de tecnologias para exploraçãodo ouro subterrâneo, houve um esvaziamento do centro da província em demanda de outros polos geradores de riqueza: a “Mata” e o “Sul”. Pela loca- lização geográfica, a Mata tornou-se cafeicultora, estabelecida em grandes latifúndios. Para es- coamento do café, surgiram as estradas de ferro, ligando a zona cafeicultora ao porto do Rio de Janeiro, e a construção de rodovias. No Sul, o café divide, com a pecuária, o domínio econômico. Na última década do século XIX, os imigrantes começaram a procurar Minas, incentivados por uma política interna que buscava a substituição da mão-de-obra escrava a qual, há pouco tempo (1888), havia sido proibida pela Lei Áurea, colocando fim à escravidão. O contingente italiano foi o maior, seguido pelo espanhol e o português, trazendo novas técnicas e conhecimentos diversi- ficados para as lavouras de café (POLASTRI, 1987, p. 45). As tradicionais fazendas de café em Mi- nas Gerais se expandiram entre a Zona da Mata, o Sul e o Sudoeste do estado. A cafei- cultura, nessas regiões, foi caracterizada pela vinda dos imigrantes de origem européia que, primeiro, constituíram a mão-de-obra inicial e, depois, tornaram-se colonos e donos de suas próprias terras. Lembramos que muitos desses colonos vieram para o Brasil porque estavam excluídos dos meios de produção em seus países, sobretudo da terra. Eram os deserda- dos da terra em função da modernização pela qual passava a Europa. Na figura 8, mostra- mos uma das fazendas de café do município de São Sebastião do Paraíso, região Sudoeste de Minas Gerais. A maioria dessas fazendas da região, hoje, pertence aos descendentes de italianos que vieram para o Brasil, no fim do século XIX. Figura 8: Cafeicultura em São Sebastião do Paraíso – região Sudoeste de Minas Gerais. Fonte: QUEIROZ, A. M. D., acervo pessoal, setembro de 2009. ▼ 26 UAB/Unimontes - 8º Período De acordo com Giovanini e Matos (2004), o princípio da expansão cafeeira na Mata se deu por volta de 1809,quando havia uma significativa ocupação indígena na região, advinda de des- cendentes dos Goitacás do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, e apesar de essa região ser con- siderada uma rota de contrabando do ouro para se escapar aos impostos coloniais, com vários decretos promulgados que proibiam a ocupação da região. A Zona da Mata, naquele período, era coberta pela Mata Atlântica, uma vegetação densa e, praticamente, proibitiva à ocupação, quando comparada às terras da região Central de Minas Gerais. Além disso, seu relevo, que até hoje constitui problema para a construção e manutenção de estradas, era, na época, um obstá- culo quase intransponível. Por essa razão, no sul da Zona da Mata, houve o surgimento de po- voados que seguiram uma rota cuja explicação envolve uma combinação de fatores. O declínio da mineração, somado à prosperidade da cultura cafeeira, motivou a saída de muitas famílias proeminentes do centro do estado para o Rio de Janeiro. Na época, o acesso a essas terras era facilitado, uma vez que a coroa as cedia com a esperança de recuperar parte das perdas causadas pelo declínio da região mineradora. Os mineiros, em terras fluminenses, acabaram se tornando protagonistas chaves da expansão da fronteira agrícola, que evoluía, gradualmente, para o norte, galgando as bordas do Vale do Paraíba até a sua porção mineira, na Zona da Mata. “A expansão da cafeicultura na Zona da Mata entre 1850-1885 certamente contribuiu expressivamente para esse incremento demográfico, a ponto de tornar viável a aquisição de grande volume de mão de obra escrava de outras regiões mineiras, prerrogativa não disponível a São Paulo e Rio de Janei- ro” (GIOVANINI; MATOS, 2004, p. 3). No fim do século XIX, embora o predomínio econômico seja da Mata e do Sul, o poder po- lítico continua nas mãos da decadente região mineradora. A Mata e o Sul recusam-se a aceitar a marginalização no processo político, já que detém o poderio econômico com a produção cafeei- ra. Os mineiros já pensavam em transferir a capital desde a inconfidência, entendendo a histórica Ouro Preto como acanhada e distante de grande parte do território. A cidade era de difícil aces- so, sem grandes possibilidades de crescer e se tornar uma grande metrópole, como exigia o mais populoso estado da república (POLASTRI, 1987, p. 128). Era forte a idéia de que o estado mineiro estava estagnado: dificuldade de transporte, dificuldade de articulação entre regiões e a depen- dência de outros estados para escoar sua mercadoria. Algumas decisões políticas foram toma- das. Dentre elas, uma das mais importantes, e considerada a de maior alcance, foi a transferência da capital mineira de Ouro Preto para Belo Horizonte (1893 - governo de Afonso Penna). A escolha para a construção da nova capital obedeceu a um arranjo político que fez com que ela fosse construída não numa região economicamente dinâmica, mas numa região onde as tradições e o progresso poderiam conviver em harmonia. O papel de centro de integração políti- ca e econômica fez com que Minas Gerais entrasse, de fato, para a trilha do progresso. De acordo com Polastri (1987), localizada no sitio de Curral Del-Rei, a “Cidade de Minas” foi, em 1893, a nova capital e a primeira cidade projetada do Brasil. No século XX, em 1901, foi legal- mente denominada “Belo Horizonte”. Para consolidar, em definitivo, a nova capital, houve facili- dades para a abertura de indústrias com incentivo municipal e menor taxação de impostos. Em 1912, já existiam várias indústrias funcionando e, a partir da década de 1920, a liderança de Belo horizonte no estado era incontestável. Mas o papel esperado para Belo Horizonte só foi alcançado quando a capital se tornou o centro do comércio regional, quando os rumos da economia nacional já eram outros. A partir do desenvolvimento de uma zona metalúrgica mineira, Belo Horizonte integrou-se ao mercado na- cional, pois também o país necessitava dos bens intermediários produzidos pela capital mineira, que tinha diversas siderúrgicas em seu entorno. Foi positivo o impacto dessa reunião no cenário nacional, o que possibilitou Minas Gerais a alcançar a presidência da república pela primeira vez. Diante dessa problemática, Dulci (1999) afirma que o planejamento para o desenvolvimento mineiro que se iniciou nas primeiras décadas do regime republicano (1930), contou com a ação do estado como organizador dessa iniciativa e da elite mineira, responsável por definir os rumos tomados à época. Tal projeto baseou-se em dois momentos distintos: o primeiro, em que havia uma tentativa de incentivo à agropecuária com vistas a um desenvolvimento de uma determina- da indústria; e o segundo, uma tentativa de expansão da indústria de produtos intermediários. Sobre a província de Minas no século XIX, Silva (1997) afirma que a mesma foi ricamente aquinhoada pela providência Divina com tudo quanto há de melhor e mais útil, tanto no reino mineral e vegetal como no reino animal. Exportadora de ouro, pedras preciosas, sola do sertão, couros de boi e alimentos como café, açúcar, toucinho, queijos, rapaduras e carne. Importadora de lã, algodão e objetos diversos que os estrangeiros comercializavam com o Brasil. A indústria fabricava diversos artefatos de ouro e de prata, as finanças da província eram relativamente es- PARA SABER MAIS: Caro acadêmico, desde o início da república, reacendeu em Minas Gerais o debate sobre a mudança da capital, desejo presente na Conjuração Mineira e retomado na segun- da metade do século XIX. Apesar das vozes contrárias, em 1891 foi “declarada a mudança da capital do Estado para um local que, oferecendo as precisas condições higiênicas” se prestasse “à cons- trução de uma grande cidade” (LIMA, 2011, p. 3). A transferência da capital de Ouro Preto para Belo Horizonte é um momento de mudanças, muito importante para o entendimento político, social e econômico do território mineiro. Assim, é muito impor- tante que você veja o artigo completo:LIMA, Kleverson Teodoro de. Reconstrução Identitá- ria de Ouro Preto após a Mudança da Capital. Visite o site e aprofun- de seu conhecimento: <http://www.ichs.ufop. br/memorial/trab2/ h561.pdf.>. Vamos à leitura! 27 Geografia - Geografia de Minas táveis, havia um elevado número de escravos e as estradas de ferro D. Pedro II, Leopoldina e São João Del-Rei permitiam a circulação pública. A instrução era obrigatória e possuía o ensino pri- mário e secundário. Aulas “normais”, onde se habilitam os candidatos ao professorado público e um “liceu mineiro”, destinado a preparar os candidatos a faculdades superiores do Império, con- forme já mostramos anteriormente. Uma escola de farmácia, física e mineralogia. Vocês podem observar que, até esse período, o estado mineiro possuía o maior número po- pulacional, consequentemente, detinha o maior colégio eleitoral do país. Isso já demonstrava o poderio e a importância do estado no cenário político e seu destaque só foi superado por São Paulo, já no século XX, fato justificado pela importância econômica que o mesmo viria a assumir, sobretudo, em função da industrialização. Contudo, ainda hoje, vemos uma relevante disputa política de Minas Gerais na política nacional, constantemente elegendo e indicando seus repre- sentantes em todas as esferas do governo. No século XX, durante a República Velha (1889-1930), Minas atuou, decisivamente, por meio de disputa com São Paulo pela liderança política do país. Minas representava uma força política, oriunda da sua grande população e do número de sua bancada na Câmara Federal. Assim, na- quele período, Minas elegeu três presidentes da república e cinco vices-presidentes. Após a pri- meira constituição mineira, em 15 de julho de 1891, e a instituição do federalismo, que permitiu grande autonomia dos estados, Minas permaneceu cliente do poder central, pois dependia dos seus favores e verbas, contudo, permitiu a formação da “Política dos Governadores”. A partir da Política dos Governadores, surgiu a Política do Café com Leite, quando foi firma- do um acordo entre os governadores de Minas Gerais e São Paulo para a alternância de paulistas e mineiros na presidência da república. Durante a República Velha, Minas representou o pensa- mento conservador e foi fator de estabilidade. Durante a Ditadura Militar, Minas ocupa seu espa- ço, dentro da federação, mantendo estreitas ligações com os governos militares. Isso conduziu a facilidades para implantação de várias empresas de grande porte no estado. A abertura política e as eleições diretas para governadores, em 1982, ou seja, a “Nova República”, representou a as- censão de Minas pela eleição para a Presidência da República, em 1984, do mineiro e ex-gover- nador de Minas Gerais Tancredo de Almeida Neves (POLASTRI, 1987, p. 58). Quanto mais diversos os interesses em cena, maior a necessidade de negociação e arbitragem, impondo a institucionalização de uma esfera pública como arena da regulação e da promoção do interesse geral. Daí resulta, por sua vez, a cen- tralidade da burocracia, que neste modelo adquire especial relevo em virtude da própria posição estratégica que nele ocupa o Estado (com relação aos fins e à sua consecução), bem como as relações - alianças e conflitos - que esses quadros mantêm com as forças sociais, sobretudo as suas elites (DULCI, 1999, p. 27). Nossa intenção em resgatar esses momentos políticos em Minas Gerais tornou-se necessá- ria, pois mostra que, desde seus primórdios, como capitania, depois como província e, posterior- mente, estado, Minas sempre esteve ligada, intimamente, às lideranças gerais do território. Essa articulação permitiu alianças políticas e alavancou as transformações geohistóricas e o desenvol- vimento de Minas no cenário nacional. Destacamos aqui três momentos, os quais consideramos importantes: um primeiro momento, por meio da mineração, no qual alterou sua configuração territorial e alargou suas fronteiras; o segundo, através da política “café com leite”, que alternou e definiu lideranças políticas mineiras no Brasil; e, um terceiro momento, que transformou Minas Gerais num estado industrial e competitivo com outros estados. De acordo com Dulci (1999), a descoberta de minério em Minas aguçou o interesse de em- presas de outros países que queriam explorar os minerais. A estratégia era a de não escoar o mi- nério para fora do país, mas, sim, utilizá-lo para promover a industrialização regional. A política econômica mineira propunha identificar-se com o centro dinâmico da economia nacional e a ele se integrar, mas a falta de estimulo à produção mineira por parte do governo resultou na migra- ção maciça de trabalhadores para outros estados. As alternativas da política de suporte à indus- trialização mineira foram: a criação do parque industrial (denominado Cidade Industrial, em Con- tagem) e o sistema de distrito industrial (núcleo de investimentos industriais para atrair indústria, incentivo fiscal, energia, rede ferroviária, empréstimo do Banco do Brasil). Esses são fatores deter- minantes à meta da industrialização, voltados pelo governo, nos anos 1940, para a indústria que surgia como sinônimo de progresso. Essa fase se afirma na necessidade de planejamento para a ação econômica. Utilizando-se de comparação com outras regiões do Brasil, Dulci (1999) explora a dificulda- de que emerge quando a economia nacional transita para a fase industrial, baseada na idéia de centro e periferia e na concentração dos investimentos. Ascendem ao desenvolvimento desigual GLOSSÁRIO: Política dos Gover- nadores: consistiu na não interferência do governo federal na política interna dos estados, em troca do apoio incondicional de governadores e depu- tados ao plano federal. Fonte: POLASTRI, Maria Helena Tavares. Geografia e História de Minas Gerais. Belo Horizonte: Vigília, 1987. p. 50. 28 UAB/Unimontes - 8º Período as regiões do país em estágio diferenciado, seguindo a expansão capitalista e industrial e a lógi- ca mercadológica, em modelos dicotômicos de articulação política. A consonância com estrutu- ras regionais de poder e fatores políticos, pôde sobrepor ao mercado sob visão de modernização regional, de modo diferenciado, mediante os sistemas socioeconômicos onde estão inseridos. Esses argumentos demonstram formas de estruturação produtiva amparadas pelo estado, for- madoras de desigualdades, e iniciativas modernizantes de ação para desenvolvimento regional. Referências AB’SABER, Aziz Nacib. et al. A época colonial: administração, economia, sociedade. Introdução geral de Sérgio Buarque de Holanda. 10 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. 576 p. ANDRADE, Manuel Correia. O nordeste e a questão regional. 2 ed. São Paulo: Editora Ática, 1993. CHAVES, Cláudia Maria das Graças. Comerciantes das Minas setecentistas: a diversidade de atua- ção no mercado colonial. Caderno de Filosofia e Ciências Humanas, Belo Horizonte, v. 6, n. 10, p. 135-143, abr. 1998. COSTA, Antônio Gilberto (Org.). Cartografia da conquista do território das Minas. 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Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002. 31 Geografia - Geografia de Minas UNIDADE 2 Aspectos físicos e sociais de Minas Gerais 2.1 Introdução O estado de Minas Gerais tem papel de destaque entre as unidades da federação brasileira. Essa importância se deve a uma série de características que o estado reúne, como por exemplo, a economia, que ocupa o terceiro lugar, ficando atrás apenas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Além disso, Minas Gerais é o segundo estado mais populoso, com a quinta maior área territorial do Brasil. As características naturais, como relevo ondulado, são marcantes na paisagem mineira, bem como a diversidade fitogeográfica e a riqueza hídrica. Para conhecermos a geografia de Minas Gerais é imprescindível analisarmos as característi- cas físicas e socioeconômicas, assim como, na unidade anterior, foi relevante verificar os aspectos históricos do estado. Nesse sentido, pensamos expor, nesta segunda unidade, os principais com- ponentes da paisagem natural de Minas Gerais. Começamos pela descrição da vegetação natu- ral, da hidrografia, do relevo e do clima. Em seguida, abordamos as características econômicas, com enfoque na produção de riquezas por regiões do estado. Na sequência, analisamos a rede urbana mineira, que se apresenta de forma desigual no território mineiro. Por fim, mostramos a dinâmica da população mineira. Para isso, destacamos os componentes demográficos, como a estrutura etária e a migração. Para facilitar seu entendimento acerca dos assuntos abordados, usamos mapas temáticos. Assim, além de se apropriar do conhecimento cartográfico adquirido anteriormente, você pode- rá ter a noção espacial dos dados expostos no mapa. Isso é muito importante numa disciplina que reúne a análise critica e a descrição do espaço mineiro. Além dos mapas, utilizamos, tam- bém, gráficos e tabelas com o mesmo intuito de elucidar melhor as análises realizadas. Como nesta unidade recorremos a dados estatísticos, tivemos a preocupação de buscar fon- tes confiáveis, como institutos e fundações estatais. Destacamos a contribuição das informações da Fundação João Pinheiro (FJP), órgão ligado ao governo de Minas Gerais, e responsável por pesquisas que interessam ao estado. Diante dessas considerações, consideramos que você terá à disposição informações confiá- veis e atualizadas para compreender a diversidade e riqueza da geografia do território mineiro. 2.2 Aspectos físicos de Minas Gerais O Estado de Minas Gerais apresenta o quinto maior território entre as unidades da federa- ção brasileira, com uma área 586.523 km², o que corresponde a 6,9% do território nacional. A dis- tância dos seus extremos em linha reta é de 986 km no sentido norte/sul e de 1.248, no leste/oes- te, conforme dados do Instituto de geociências aplicadas do governo de Minas Gerais. A figura 09 mostra a localização desse estado, entre as coordenadas 14º13’58” e 22º54’00” de latitude sul e 39º51’32” e 51º02’35” de longitude oeste, que se encontra, oficialmente, na região sudeste do Brasil. No entanto, o seu território está na transição do sudeste com o nordeste, ao norte, e com o centro-oeste, a oeste. Diante dessa localização, Minas Gerais apresenta características físicas e econômicas diversificadas. PARA SABER MAIS: Para obter mais dados sobre Minas Gerais, consulte o site da Fun- dação João Pinheiro. http://www.fjp.gov.br Marcos Esdras Leite 32 UAB/Unimontes - 8º Período A vegetação natural é um exemplo claro da diversidade de Minas Gerais. Em seu terri- tório, são identificados quatro grandes do- mínios fitogeográficos, sendo eles: Cerrado, Campo Rupestre, Floresta Atlântica e Caatin- ga, como exposto na figura 10. O Cerrado predomina no território mi- neiro, ocupando cerca de 50% do estado. Ao analisarmos a figura 10, percebemos que a ocorrência do Cerrado se destaca da parte central em direção ao oeste de Minas Gerais. A vegetação do Cerrado se caracteriza por apresentar subsistemas que apresentam dife- renças na configuração da vegetação. Os sub- sistemas do Cerrado mineiro são: o Cerrado stricto sensu, que apresenta predominância de vegetação de porte arbustivo com presença de gramíneas; o subsistema Cerradão, que se destaca pela ocorrência de árvores, tendo as- pecto de floresta; o subsistema de campo de Cerrado, que possui vegetação de pequeno porte, com troncos tortuosos e galho retorci- do; as gramíneas, com pequena presença de arbustos. O bioma Cerrado possui grande diver- sidade de fauna, com ocorrência de animais endêmicos, como tamanduá, lobo-guará e veado- -campeiro. O Cerrado mineiro se destaca, ainda, pelo importante armazenamento de água no seu subsolo, fazendo com que seja denominado de “caixa da água do Brasil”. É no Cerrado minei- ro que nasce, por exemplo, o rio São Francisco. O Cerrado mineiro passa por graves problemas ambientais, decorrentes da supressão da ve- getação natural para a exploração econômica. Nesse sentido, a agropecuária é o principal res- ponsável pelo desmatamento do cerrado. O segundo maior bioma presente no território mineiro é a Mata Atlântica, com cerca de 189 km², o que corresponde a, aproximadamente, 32% de Minas Gerais. Conforme a figura 10, a Mata Atlântica está concentrada na parte leste do estado. A vegetaçãode floresta desse bioma se destaca pela sua alta densidade de ár- vores, uma consequ- ência direta do clima úmido. A Caatinga, como mostra a figura 10, tem como área de ocorrência o extre- mo norte do estado, onde predomina o clima semiárido, com baixo índice pluvio- métrico. Esse bioma se destaca pela ve- getação xerófila, na qual encontramos, frequentemente, es- pécies como a barri- ◄ Figura 09: Localização do Estado de Minas Gerais. Fonte: Disponível em: <http://www. iga.br> acesso em 26 jun. 2011. PARA SABER MAIS: A vegetação deno- minada de xerófila é adaptada à aridez, por isso, é presente nas regiões com escassez de chuvas. Além disso, esse tipo de vegetação é resistente, pois possui um sistema radicular (ou seja, sistema de raízes) profundo para chegar ao lençol freá- tico e absorver água. A presença de espinhos é comum para evitar a evapotranspiração. Figura 10: Vegetação do Estado de Minas Gerais. Fonte: Disponível em: <http://www.iga.br> aces- so em 26 jun. 2011. ► 33 Geografia - Geografia de Minas guda e o mandacaru. O baixo dinamismo eco- nômico da região de ocorrência da Caatinga faz com que os principais motivos para o seu desmatamento sejam o carvoejamento e a pe- cuária extensiva. O outro ecossistema que se destaca no norte de Minas Gerais é a Mata Seca ou Flores- ta Estacional Decidual, principalmente no vale do rio São Francisco. Esse ecossistema se des- taca pela presença de árvores que, no período seco, perdem as folhas. Esse tipo de vegetação é comum em áreas de afloramento calcário. Na figura 10, a vegetação denominada de Campo de Altitude ou Rupestre aparece, prin- cipalmente, nas Serras do Espinhaço, da Man- tiqueira e da Canastra. Por estarem localizadas no topo dessas serras, leva o nome de Campo de Altitude. Essa vegetação se caracteriza pelo predomínio de espécies herbáceas, isto é, gra- míneas, com rara ocorrência de porte arbóreo. Outro aspecto físico importante para ana- lisarmos o território de Minas Gerais são as bacias hidrográficas. As bacias hidrográficas podem ser definidas como uma rede de dre- nagens, interligada pelos divisores topográfi- cos, onde cada uma delas drena água, material sólido e dissolvido para uma saída comum ou ponto terminal, podendo ser outro rio de hie- rarquia igual ou superior, lago, reservatório ou oceano (GUERRA; CUNHA, 2000). É necessário entendermos que divisores de água, também denominado divisores topo- gráficos ou interflúvios, são topos de serra ou morros, constituídos de ondulações e, geral- mente, possuem uma forma convexa que se- param as águas pluviais. No Estado de Minas Gerais, o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM) trabalha com a divisão do estado em nove grandes ba- cias hidrográficas, sendo elas, como mostra a figura 11, a do São Francisco, do rio Doce, do rio Grande, do Jequitinhonha, do Mucuri, do São Mateus, do Paraíba do Sul, do Paranaíba e do rio Pardo. Dessas bacias, a maior é a do São Fran- cisco que nasce na região centro-oeste de Mi- nas, no município de São Roque de Minas, na área da Serra da Canastra. O escoamento do rio ocorre de sul para norte até a divisa entre a Bahia e Pernambuco, quando altera para o sentido oeste/leste até desaguar no oceano Atlântico, entre os estados de Sergipe e Alago- as. O aproveitamento econômico do São Fran- cisco no território mineiro é muito grande. As águas do rio deram origem à represa de Três Marias, que gera energia elétrica para abaste- cer o norte de Minas. Além do uso hidrelétrico, as águas do “Velho Chico” são usadas em pro- jetos de irrigação no semiárido mineiro, como por exemplo, o projeto Jaíba. PARA SABER MAIS: O projeto de irrigação Jaíba iniciou a fase de planejamento na década de 1950, no entanto, somente entrou em operação nos anos de 1980. Esse projeto de irrigação se destaca como um dos maiores do Brasil. Para saber mais sobre o projeto Jaíba, veja o site: http://www.projetojaiba.com.br ▲ Figura 11: Bacias Hidrográficas do Estado de Minas Gerais. Fonte: Disponível em: <http://www.iga.br> acesso em 26 jun. 2011. ▲ Figura 12: Mapa Hipsométrico da região Sudeste do Brasil. Fonte: Disponível em http://dicasgratisnanet.blogspot.com. Acesso em 28 jun. 2011. 34 UAB/Unimontes - 8º Período A bacia do Paranaíba também se destaca em Minas Gerais, pois essa área faz parte da bacia brasileira do Rio Paraná. Essa bacia cobre boa parte do Triângulo Mineiro, pois nasce no município de Parnaíba, na Serra da Mata da Corda, e depois de percorrer aproximadamen- te mil quilômetros, deságua no rio Grande, formando, assim, o rio Paraná. Na bacia do rio Grande está a maior usina hidrelétrica do es- tado, a usina de Furnas, responsável por abas- tecer, por exemplo, a região metropolitana de Belo Horizonte. Esse potencial hidrelétrico de Minas Ge- rais está associado ao relevo, formado, predo- minantemente, de planalto, permitindo que a força da água possa ser usada para gerar ener- gia. Por estar, em maior parte, em relevo de planalto, o Estado de Minas Gerais tem a maior altitude média do Brasil, com cotas altimétricas variando de 900 e 1500 metros. O relevo de Minas Gerais é característico, por isso, as “mon- tanhas de Minas” são tão famosas. A figura 12, que traz o mapa hipsométri- co de Minas Gerais, nos mostra que as maiores altitudes do estado são encontradas nas Serras da Mantiqueira, no sul; do Espinhaço, na parte central, da Canastra, no oeste, e do Caparaó, no leste, onde está localizado o ponto mais elevado do estado, o pico da Bandeira, com 2890 metros de altitude. Essas serras são for- mações geológicas datadas do pré-cambriano, sendo, dessa forma, formações antigas, com mais de 540 milhões de anos. São nessas serras que estão as nascentes dos principais rios mineiros, por isso, preservar esse tipo de paisagem natural é conservar o recurso natural mais importante, a água. Ain- da, como mostra a figura 12, as menores alti- tudes situam-se nos vales dos rios, como o São Francisco, no norte do estado. A Serra do Espinhaço é uma cordilheira que segue da região central de Minas Gerais até a Chapada Diamantina, no sertão do Esta- do da Bahia. Nessa área do Espinhaço, há ocor- rência de grandes jazidas minerais. Na classificação do relevo brasileiro em unidades morfoestruturais, exposto na figura 13, o professor da Universidade de São Paulo, Jurandyr Ross, em 1996, identifica três grandes unidades do relevo: depressão, planícies e pla- nalto. No entanto, no Estado de Minas Gerais não há ocorrência de planícies, sendo que há maior presença de planalto, como a parte clas- sificada por Jurandyr Ross como planaltos e ser- ras do Atlântico Leste/Sudeste, além de uma pe- quena faixa do Triângulo Mineiro que faz parte dos planaltos e serras de Goiás/Minas. Entre es- ses dois planaltos localizados em Minas Gerais, está a depressão Sertaneja e do São Francisco que segue o vale do rio São Francisco. ▲ Figura 13: Relevo brasileiro em unidades morfoestruturais. Fonte: Disponível em: <http://resumos.webnode.com.br>. acesso em 28 jun. 2011. ▲ Figura 14: Mapa do clima da região Sudeste do Brasil. Fonte: Disponível em <http://dicasgratisnanet.blogspot.com>. acesso em 28 jun. 2011. ▲ Figura 15: Climas do Brasil. Fonte: Disponível em <http://webcarta.net> acesso em 01 jul. 2011. 35 Geografia - Geografia de Minas Essa configuraçao do relevo mineiro com al- titudes elevadas tem influência direta no clima do estado, pois, conforme mostra a figura 14, predo- mina em Minas Gerais o clima Tropical de Altitu- de. Esse tipo climático ocorre nas áreas de serra, com altitudes superior a 800 metros. O clima tro- pical de altitude apresenta baixa amplitude térmi- ca, com variação da temperatura de 7 a 9º C, com índices pluviométricos anuais acima de 1.000 mm. Nas regiões de clima de altitude, destaca-se o ve- rão úmido com chuvas intensas, provocadas pela ação da massa de ar tropical atlântica (mTa) e o inverno seco e muito frio,devido a penetração da massa polar atlântica (mPa) no território mineiro, como mostra a figura 14. Nas regiões de menor altitude do estado mi- neiro, predomina o clima tropical, que tem duas estações bem definidas, sendo elas: verão quen- te e úmido, com temperatura média anual acima dos 20 graus, e o inverno seco e frio. Essas carac- terísticas são provocadas, principalmente, pela atuação das mesmas massas de ar que influen- ciam o clima tropical de altitude, como podemos ver na figura 15. Há certa generalização na classificação do clima tropical em Minas Gerais. Apesar da figura 14 trazer o extremo norte do estado com clima tropical, órgãos estatais de pesquisa e desenvolvi- mento, como o Ministério da Integração Nacional, identificam o norte de Minas Gerais como área de clima semiárido, conforme delimitação oficial re- presentada na figura 16. O clima semiárido possui alta amplitude térmica, com elevada temperatura no verão e frio no inverno. Nesse tipo climático, a característica marcante é a escassez de chuva, fazendo com que o clima semiárido seja associado ao sertão nordestino, onde o período de seca é longo, com aproxi- madamente 8 meses de duração. Os municípios do extremo norte de Minas Gerais que sofrem com a escassez de chuva, recebem ajuda governamental para conviverem melhor com a seca. Temos que entender que a seca é um processo natural, isto é, não é provocada pelo ho- mem. Dessa forma, temos que aprender a conviver com a seca e criar alternativas para tornar o período seco menos sofrido para a população. Nesse sentido, a conservação dos recursos hídri- cos e a otimização da água da chuva são alternativas importantes. As ações estatais são extremamente importantes para reduzir os impactos socioeconômicos da seca, por isso, os governos federal e estadual têm adotado políticas especificas de desenvol- vimento para as regiões do norte e nordeste de Minas Gerais. Nessa perspectiva, o governo do estado criou uma secretaria de desenvolvimento dessas regiões, denominada de Secretaria de Desenvolvimento do Norte de Minas e dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (SEDIVAM). Na es- fera federal, estão as ações mais visíveis, pois é onde se trata da implantação de infraestrutura e promoção do crescimento econômico. A semelhança socioeconômica e climática da região do semiárido mineiro com o sertão nordestino fez com que essa parte do estado fosse inserida na área de atuação da Superinten- dência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE). Esse órgão foi pensado e criado para subsi- diar ações desenvolvimentistas no nordeste brasileiro, com políticas de atração de industriais e projetos agropecuários. Esse contexto natural que apresentamos, expõe um pouco da diversidade do Estado de Mi- nas Gerais e essas características físicas serão importantes para definir as características econô- micas desse estado. Na geografia, temos uma preocupação de não sermos deterministas, isto é, de não explicarmos um fato apenas pelos aspectos físicos, mas é inegável que os fatores naturais são importantes para entendermos um fato socioeconômico. É nesse sentido que afirmamos que essas variáveis naturais, presentes no espaço mineiro, são alguns dos fatores para explicar como Minas Gerais é tão diversificada economicamente. ▲ Figura 16: Limite da região semi-árida brasileira. Fonte: Disponível em: <http://www.integracao. gov.br/desenvolvimen- toregional/publicacoes/ delimitacao.asp>. acesso em 02 jul. 2011. 36 UAB/Unimontes - 8º Período 2.3 O espaço econômico mineiro A diversidade de Minas Gerais traz desi- gualdades regionais que percebemos clara- mente quando analisamos a distribuição re- gional do Produto Interno Bruto (PIB). A região mais rica do estado é a Central, onde encon- tramos a maior parte das indústrias, principal- mente siderúrgicas e montadoras. Os dados do Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais (INDI) revelam que o PIB dessa região representa 45% de toda a riqueza pro- duzida no estado. Em contrapartida, as regiões do Norte de Minas e Vales do Jequitinhonha e Mucuri, juntas, somam, aproximadamente, 5% do PIB, como podemos ver na figura 17. Depois da região Central, o Sul de Minas, com 13% do PIB, e o Triângulo, representando 11,8%, são as regiões mais ricas do estado. Essa desigualdade está associada às ativi- dades econômicas praticadas nessas regiões, além do grau de tecnologia aplicada no pro- cesso produtivo de cada atividade. Na figura 17, podemos ver que cada região do estado se especializou em algumas atividades, apesar de certas regiões se destacarem em setores que empregam maior tecnologia e, portanto, têm um produto com maior valor agregado e, com isso, maior ganho na comercialização do produto. Na figura 18, constatamos que a agropecuária é uma atividade recorrente nas regiões do estado, sendo esse o setor mais importante das regiões mais pobres, como o Norte de Minas e os Vales do Jequitinhonha e do Mucuri. Nessas regiões, a maior parte das propriedades conta com pouca tecnologia e baixa mecanização. No caso específico da pecuária, a forma extensiva é a mais comum. Poucos são os municípios dessas regiões que detém um parque industrial ex- pressivo. Montes Claros é o município mais industrializado dessa parte do estado. Seu parque industrial possui certa diversidade de indústria, sendo os setores têxtil, alimentício e químico-far- macêutico os principais destaques. Conforme mostra a figura 18, a região Noroeste chama a atenção pela alta produção de grãos, com uso de máquinas e técnicas mo- dernas de produção, como correção de solo e agricultura de precisão. No Triângulo, há gran- de diversidade econômica, sendo a indústria sucroalcooleira a que mais se expande nessa região, haja vista a valorização do etanol e do açúcar, principalmente no mercado externo. Além disso, a presença de agroindústria nessa parte do estado é muito comum, o que a torna uma das mais importantes no segmento de fri- gorífico. O Sul de Minas é considerado a maior bacia leiteira do Brasil, mas o setor de eletroe- letrônicos se tornou um dos mais importantes do país. Na Zona da Mata, a indústria automo- bilística, com uma montadora da Mercedes- -Benz, em Juiz de Fora, além da siderurgia são as principais atividades industriais. Na agrope- cuária, a produção de café e a agroindústria de sucos são os destaques. A região do Vale do Rio Doce concentra várias indústrias, principal- mente ligadas à extração mineral e à siderur- gia, relacionadas à riqueza mineral desse local. ▲ Figura 17: Distribuição regional do PIB mineiro. Fonte: Disponível em: <http://www.indi.mg.gov. br> acesso em 02 jul. 2011. ▲ Figura 18: Atividades econômicas existentes nas regiões mineiras. Fonte: Disponível em: <http:// www.indi.mg.gov.br> acesso em 07 jul. 2011. 37 Geografia - Geografia de Minas Apesar de toda essa diversidade econômica que apresentamos sucintamente sobre as regi- ões mineiras, nenhuma dessas mencionadas se equipara à região Central, onde o grande desen- volvimento econômico pode ser explicado pela multiplicidade de setores produtivos presentes nesse espaço. Por essa área ser rica em minérios, como ferro e manganês, desenvolveu-se uma rede de indústrias de extração e transformação do minério, sendo esse segmento o responsá- vel pela concentração da maior parte do PIB dessa região. Além dos setores ligados à atividade mineral, a presença da maior montadora da FIAT das Américas fez com que outras indústrias de produção de peças e acessórios automobilísticos se estabelecem nessa parte do Estado de Minas Gerais. Analisando, de maneira geral, a economia mineira pelo crescimento do PIB, Matos e Garcia (2006) escreveram que as mesorregiões que reúnem espaços de dinamismo econômico significa- tivo, no que tange ao setor agropecuário, são o Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba e o Sul/Sudoes- te de Minas. Quanto ao setor industrial, os referidos autores sublinharam a região Metropolitana de Belo Horizonte, ado Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba e a do Sul/Sudoeste de Minas. No setor de serviços, os autores afirmaram que: por força de seus vínculos com os processos de urbanização e com os efeitos multiplicadores gerados pela indústria e agropecuária, novamente se desta- cam as três regiões mais prósperas do Estado, a Metropolitana, o Triângulo Mi- neiro/Alto Paranaíba e o Sul/Sudoeste de Minas (MATOS; GARCIA, 2006, p.6). Notamos que as atividades econômicas que prevalecem em Minas Gerais, ainda são, em grande parte, atividades com pequena aplicação de tecnologia de ponta. Isso traz prejuízos para o estado, pois vende produtos com menor valor que os produtos importados. Ao analisarmos a tabela 1, com os principais produtos exportados por Minas Gerais, entendemos que a base da economia mineira é a atividade mineral e a agropecuária, sobretudo o café. A partir dessa cons- tatação, podemos afirmar que é fundamental um maior investimento em tecnologia e inovação, pois, assim, a economia mineira entrará em setores carentes no Brasil e passará a exportar produ- tos de alto valor comercial. TABELA 01 Minas Gerais: principais produtos exportados - 2007 / 2010 (US$ mil) PRODUTOS 2007 2008 2009 2010 Café 2.580.351 2.981.420 2.899.734 4.101.464 Produtos alimentícios, bebidas e fumo 651.724 710.930 1.021.200 1.407.488 Minérios e produtos minerais 4.909.490 7.324.761 6.781.710 13.849.316 Químicos 452.718 684.974 564.669 778.232 Papel e celulose 558.119 612.362 397.420 714.859 Têxteis, calçados, couro e confecções 264.144 385.639 150.772 134.732 Cerâmicas, pedras e metais preciosos 822.146 932.439 1.038.973 1.432.303 Equipamentos mecânicos e material elétrico 774.143 889.524 649.814 859.329 Metalúrgico 4.840.729 6.654.389 3.423.219 4.891.405 Veículos e material de transporte 1.394.183 1.878.207 1.355.034 1.538.537 Outros 1.107.405 1389.796 1.235.132 1.516.808 Total 18.355.152 24.444.440 19.517.677 31.224.473 Fonte: Disponível em: <http://www.indi.mg.gov.br> acesso 07 jul 2011. Na busca pelo desenvolvimento tecnológico e sua apropriação pelo setor industrial, com vistas ao maior desenvolvimento da indústria de ponta, alguns locais do estado estão se tornan- do tecnopolos. Esses polos tecnológicos se caracterizam pela presença de universidades, centros de pesquisas que criam novas tecnologias usadas no desenvolvimento industrial. Em Minas Ge- rais, o INDI (2010) identifica algumas cidades que são referências em determinados setores, como mostra a figura 19. 38 UAB/Unimontes - 8º Período Com auxilio da figura 19, notamos que a produção de conhecimento e tecnologia está con- centrada na parte centro-sul do estado. Mais uma vez, a região Central, a mesma que há pouco citamos como a mais rica, posiciona-se como a de maior produção tecnológica. Na região norte, não há nenhuma área de referência tecnológica. Por isso, reiteramos que ações descentralizadas para promover a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico nas regiões menos desenvolvidas, economicamente, do estado são imprescindíveis para diminuir as desigualdades regionais do es- paço mineiro. Nos polos identificados na figura 19, são destacadas as instituições de ensino e pesquisa presentes na região. Por isso, enfatizamos que a primeira ação para transformar uma cidade em centro de referência tecnológica é a implantação de universidades, com centros de pesquisas adequados e pesquisadores qualificados. A partir disso, a tecnologia gerada e a oferta de profis- sionais capacitados atrairá indústrias, gerando, assim, empregos e renda para a população. Um exemplo real de tecnopolo mineiro é a cidade de Santa Rita do Sapucaí, no extremo Sul de Minas, que se destaca como o principal centro tecnológico de telecomunicações do Bra- sil. Isso só foi possível com a instalação do Instituto Nacional de Telecomunicações (INATEL), que desenvolveu tecnologia e formou profissionais especializados nesse setor. Logo, várias indústrias de ponta se estabeleceram nessa cidade. Além da tecnologia, outros fatores são importantes na promoção do desenvolvimento eco- nômico. Entre esses, podemos mencionar a infraestrutura de transporte, que é preponderante no sistema logístico. A logística é o processo geral, que vai do início da produção, com a compra de equipamento, matéria prima e produtos semi-acabados, até a fase final, com o consumo por parte do cliente e serviço de pós venda. Dessa forma, na logística, o deslocamento de materiais, de serviços, de capital e de informação é fundamental, e, consequentemente, a infraestrutura de transporte vai ser decisiva para atrair investimentos para uma determinada região. A localização geográfica do Estado de Minas Gerais facilita o sistema logístico, uma vez que, situado no sudeste, região mais rica do país, está próximo a outras regiões com grande mercado, como nordeste e centro-oeste. Além disso, a ligação do sul e sudeste com o nordeste é realizada, principalmente, cortando o espaço mineiro, como pode ser observado se voltarmos à figura 9, no começo desta unidade. Assim como no Brasil, em Minas Gerais, predomina o transporte rodoviário, sendo que esse estado possui a maior malha rodoviária do país, correspondendo a 18% do total. De acordo com dados do INDI (2010), há, em Minas Gerais, 27.657 km de rodovias pavimentadas e 249.115 km não pavimentados. Isso mostra que é necessário muito investimento no transporte rodoviário, principalmente no norte, onde a malha rodoviária se encontra menos densa que no sul e oeste do estado, como mostra a figura 20. Abordaremos, em maior detalhe, o sistema de transporte, na unidade III. GLOSSÁRIO: Tecnopolo: Termo utilizado para designar, de modo genérico, os arranjos organiza- cionais de inovação, que pressupõem duas características prin- cipais: concentração espacial de instituições de ensino-pesquisa associadas a empresas de base tecnológica e a existência de parcerias entre essas instituições com outros órgãos da iniciativa pública e privada, visando reunir condições favoráveis à formação de um ambiente inovador. Os parques científicos e tecnológicos, tecnopo- les, cidades científicas e incubadoras de em- presas, são exemplos de tecnopolos. BAPTISTA, R. F. Redes de inovação no con- texto dos tecnopolos: a experiência de São Carlos, Brasil. Scripta Nova. Barcelona, n. 69, 2000. Disponível em: <http://www.ub.edu/ geocrit/sn-69-32.htm> acesso em 05 jul. 2011. Figura 19: Polos tecnológicos e de inovação em Minas Gerais. Fonte: Disponível em: < http://www.indi.mg.gov. br>. acesso em 07 jul. 2011. ► 39 Geografia - Geografia de Minas Como síntese das análises que realiza- mos até aqui, podemos afirmar que o territó- rio de Minas Gerais é marcado por contrastes regionais evidentes. Essa desigualdade está diretamente associada aos processos históri- cos de ocupação, como mostrado na unidade I, mas, também, temos que considerar os fa- tores naturais que oferecem riquezas que fo- ram exploradas ao longo dos anos e geraram especificidades econômicas para cada região de Minas Gerais. Além disso, a infraestrutura disponível de forma assimétrica fez com que o capital produtivo se instalasse com maior intensidade em certos espaços, como nas regi- ões Central, Sul e Triângulo. Em contrapartida, o Norte, o Vale do Jequitinhonha e o Noroes- te ficaram à margem desse desenvolvimento econômico. Vale observarmos que mesmo essas re- giões mais carentes apresentam municípios polos que se destacam na concentração de riqueza, tornando-se, com isso “ilhas econô- micas” nas suas áreas de influência. Na figura 21, notamos que, no Norte de Minas, apenas o município de Montes Claros aparece com o PIB superior a 1 bilhão. A figura 21 mostra, ainda, que mesmo nas regiões mais ricas do estado, há municípios com PIB semelhante aos das regiões mais pobres. No entanto, a menor quantidade de municípios com PIB abaixo de 25 milhões está no Triângulo, o que mostra a pujança da agro- pecuária nessa parte do estado.Esses municípios com maior PIB são polos regionais e suas sedes, isto é, as cidades, são os pontos principais da rede urbana mineira. Inclusive, as transformações econômicas, mudando a base da economia de atividades primárias para as secundárias e terciárias, típicas da área urbana, provocaram um intenso processo de urbaniza- ção no Estado de Minas Gerais. 2.4 Urbanização de Minas Gerais Assim como os aspectos físicos e econô- micos mostraram a diversidade e a desigual- dade de Minas Gerais, a unidade I, com a in- cursão histórica, apontou que, no processo de formação das cidades mineiras, algumas se ori- ginaram da mineração e, com isso, concentra- ram pessoas nas cidades, enquanto, em outras, as atividades agrícolas predominaram, e a po- pulação, em sua maioria, estava na zona rural. Esse resgate é necessário para comprovar que alguns municípios surgiram numa perspectiva urbana, enquanto a maioria se desenvolveu a partir da migração do campo para a cidade. Para discutirmos a urbanização em Mi- nas Gerais, temos que retomar o conceito de urbanização, visto na disciplina de Geografia Urbana. A urbanização é o processo de con- ▲ Figura 20: Infraestrutura de transporte de Minas Gerais. Fonte: Disponível em: <http://www.indi.mg.gov.br> acesso em 08 jul. 2011. ▲ Figura 21: PIB dos municípios de Minas Gerais. Fonte: Disponível em: <http://www.cileite.com. br/content/minas-gerais-produto-interno-bruto- -munic%C3%ADpios> acesso em 08 jul. 2011. 40 UAB/Unimontes - 8º Período centração de pessoas, advindas do campo, nas cidades. Nesse sentido, Sposito (2000) afirma que o processo de urbanização está relacionado com a migração da população para as cidades em busca de melhores condições de vida e emprego. Diante dessa afirmação, podemos dizer que a urbanização é motivada por fatores atrativos da cidade, bem como por fatores repulsivos do campo. Em Minas Gerais, esses dois tipos de indução da urbanização ocorreram, sendo que para afirmar qual o principal, temos que analisar cada município individualmente, o que é muito com- plexo, haja vista a quantidade de municípios, 853. No entanto, avaliando as características eco- nômicas das regiões de Minas Gerais, podemos concluir que, em algumas áreas, a urbanização foi motivada por fatores econômicos presentes nas cidades. Esse é o caso da região central, área mais urbanizada do estado e a que concentra maior população empregada no setor terciário e secundário. Ao contrário, a grande região norte do estado apresenta um PIB com elevada con- tribuição do setor primário, o que demonstra a relevância da zona rural na geração de riqueza e emprego. Quando a maior parte da população economicamente ativa (PEA) de uma área está nos se- tores terciário (prestação de serviço e comércio) e secundário (atividade industrial), significa que a economia é majoritariamente urbana e, consequentemente, abriga a maior parte da população na zona urbana. O gráfico 1 traz os dados do crescimento da população urbana no Estado de Minas Gerais desde a década de 1970, quando a quantidade de pessoas no campo e na cidade era muito próxima. Mas, entre 1970 e 1980, houve uma inversão na localização espacial da população, a qual migrou da zona rural para a área urbana. Nesse período, a população urbana subiu de, aproximadamente, 52% para perto de 70%. A partir de então, a popu- lação urbana continuou crescendo, mesmo que num ritmo menos acelerado que no recorte tem- poral mencionado. Quase que na mesma propor- ção do crescimento urbano, ocorreu a redução da população da área rural. Apesar do elevado cres- cimento urbano da população no estado, o índice de urbanização de 85% é praticamente o mesmo do Brasil, que chegou, em 2010, a uma taxa de ur- banização de 84.4%. A Tabela 02 mostra que, em Minas Gerais, a PEA está concentrada no setor de serviços, com 50,6% da população ocupada, enquanto as atividades agrícolas empregam 19,8% da população mineira. Em seguida, está a população empregada na indústria, representando 15,6%. Esses da- dos, associados ao percentual de 85% de urbanização, demonstram o quanto a cidade concentra o capital no estado. TABELA 02 População ocupada por setor da economia - 2009 Atividade Minas Gerais Brasil Indústria (%) 15,6 14,7 Agrícola (%) 19,8 17,0 Serviços (%) 50,6 53,0 Outras atividades (%) 14,0 15,3 Fonte: Disponível em: <http://www.indi.mg.gov.br> acesso em 08 jul. 2011. O elevado índice de urbanização de Minas Gerais é uma média da taxa de população urba- na das regiões mineiras, por isso, é importante analisarmos o estado numa visão holística, isto é, considerado o todo a partir de cada região. Nessa perspectiva, a figura 22 traz o mapa de Minas em regiões, no qual há as cidades, representadas pelos pontos, e as rodovias, demonstradas pe- las linhas. A partir dessa representação, podemos usar a teoria de Milton Santos (1996) sobre os fixos e os fluxos. Para Santos (1996), a rede é o conjunto integrado de fixos e fluxos, sendo que os ▲ Gráfico 01: Participação da População Urbana e Rural de Minas Gerais: 1970, 1980, 1991, 2000 e 2010. Fonte: IBGE/ Elaboração: Fundação João Pinheiro, 2011. Fonte: Disponível em: <http://www.fjp.gov. br/. acesso em 08 jul. 2011. 41 Geografia - Geografia de Minas primeiros é a estrutura; no caso aqui estudado é o espaço. O fluxo é a dinâmica, podendo ser material, como as estradas, ou imaterial, como a comunicação. A rede urbana deve ser analisada pela in- tegração dos seus fixos e fluxos, assim, quanto mais densa a rede de transporte e de cidades, mais densa será a rede urbana. Por isso, nos países ricos, a rede urbana é caracterizada por ser densa e integrada. Entretanto, nas regiões mais pobres, como na África Subsaariana, é pouco densa e desarticulada. Diante dessas considerações, quando analisamos a figura 22, entendemos que Mi- nas Gerais possui uma rede urbana desigual, em que a parte sul do estado apresenta uma rede de transporte densa que contempla a maior parte das cidades, que estão mais pró- ximas umas das outras. Em contrapartida, na parte norte do estado, a situação se inverte e a rede urbana aparece menos densa e pouco integrada pelo sistema de transporte. A hierarquização da rede urbana é um aspecto importante para compreendermos a integração das cidades mineiras. Voltando ao conteúdo apresentado na geografia urbana, temos que compreender que a hierarquia urbana aponta para uma ordem de importância das cidades, sobretudo na variável econômica. Corrêa (1989, p.19) conclui que a hierarquia urbana “expressa um padrão hierárquico sistêmico e acumulativo de funções centrais”. Logo, a cidade que está no nível mais elevado possui uma ampla região de influência, incluindo nessa área de domínio cidades que polarizam outras com menos funções. A partir dessa concepção, a rede urbana de Minas Gerais é bem hierarquizada, sendo a capi- tal estadual a principal cidade. Belo Horizonte é classificada como uma metrópole nacional, devi- do a sua área de influência. Essa abrangência se deve ao fato de concentrar diversas funções eco- nômicas, sendo que a maior parte do capital produzido no estado converte-se para essa cidade. Analisando a figura 23, vemos que a influ- ência de Belo Horizonte chega a quase todas as regiões do território mineiro. Dessa forma, exerce “domínio” sobre os polos regionais, como Montes Claros, no norte, e Juiz de Fora, na parte sudeste. No caso de Juiz de Fora, tam- bém se destaca a polarização exercida pela ci- dade do Rio de Janeiro. Outro caso semelhante é o de Uberlândia que, mesmo estando locali- zada no território mineiro, sofre mais influência da capital paulista. Uberlândia, Juiz de Fora e Montes Claros têm papel notório, também, devido ao espaço que polarizam e a diversidade de funções que possuem, destacando-se como capitais regio- nais, de acordo com o IBGE. Subordinados a essas capitais regionais, estão centros sub-re- gionais, como as cidades de Janaúba, no norte do estado,e Patos de Minas, no alto Paranaíba. Na rede urbana de Minas Gerais, predo- minam as cidades pequenas, com população inferior a 10 mil habitantes, como demonstra a tabela 02. Os municípios com esse porte de- mográfico representaram, em 2000, 60% da rede urbana. Entretanto, os dados da tabela ▲ Figura 22: Rede urbana de Minas Gerais. Fonte: Elaborado pelos autores. ▲ Figura 23: Rede urbana de Minas Gerais. Fonte: Disponível em: <http://www.skyscrapercity.com> acesso em 08 jul. 2011. 42 UAB/Unimontes - 8º Período revelam também que o maior aumento percentual, entre 1970 e 2000, foi nos municípios com população nas faixas de 50-100 e de 100-500 mil habitantes. E são exatamente essas áreas que se destacam na rede urbana, não apenas mineira, como na brasileira. Esses municípios se tornaram, ao longo dos anos, polos regionais e se caracterizam por apresentar uma diversidade de serviços e crescimento econômico. TABELA 03 Distribuição dos municípios, segundo tamanho da população - Minas Gerais - 1970/1980/1991/2000 ESPECIFICAÇÃO 1970 1980 1991 2000(1) abso- luto % abso- luto % abso- luto % abso- luto % Número de Municípios Mais de 500 mil hab. 1 0,1 1 0,1 1 0,1 3 0,4 De 100 a 500 mil hab. 8 1,1 11 1,5 16 2,2 20 2,3 De 50 a 100 mil hab. 16 2,2 31 4,3 41 5,7 37 4,3 De 20 a 50 mil hab. 112 15,5 97 13,4 100 13,8 106 12,4 De 10 a 20 mil hab. 173 24,0 166 23,0 174 24,1 173 20,3 Menos de 10 mil hab. 412 57,1 416 57,6 391 54,1 514 60,3 Total 722 100,0 722 100,0 723 100,0 853 100,0 (1) Estimativa. Fonte: Dados básicos: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Censo Demográfico, 1970, 1980, 1991, 2000. Com essas características, os pesquisado- res da área de urbanização denominaram es- ses espaços como cidades médias. No entan- to, a discussão sobre cidades médias é muito complexa. Para Costa (2002), isso é causado pela heterogeneidade das realidades e pela temporalidade dos fenômenos socioeconô- micos. Esses fatores dificultam a conceituação de cidade média e, sobretudo, provocam a falta de consonância nas propostas de defini- ções. No caso do critério demográfico, é usa- da a quantidade da população para se definir cidades médias. No Brasil, quando se utiliza o critério demográfico, simplesmente, usa-se denominar cidade de porte médio; o IBGE e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplica- da - IPEA, consideram cidade de porte médio quando a população está entre 100 e 500 mil habitantes. É importante reiterarmos que o critério demográfico, somente, não define cidade média, haja vista que essa variável precisa ser associada a outras para classificar uma cidade como mé- dia. Dessa forma, é importante considerar outros pontos, como o critério funcional, ou seja, o papel desempenhado pela cidade na rede urbana regional. Esse critério é relevante ao se con- siderar uma cidade como média. Assim, a cidade média é, na verdade, o centro de convergência de capital e pessoas de sua região geográfica, ou seja, o polo regional, no qual vários serviços especializados se concentram (SPÓSITO, 2001). Analisando a distribuição das cidades por faixa de população acima de 50 mil habitantes, através da figura 24, notamos que as áreas mais desenvolvidas do estado têm a maior quantida- de de cidades nesse patamar demográfico. Na parte norte do estado, apenas a cidade de Montes Claros tem população acima de 100 mil habitantes. E as únicas duas cidades com mais de 500 mil habitantes, representadas na figura 24, estão na região metropolitana; é o caso da capital e de Contagem. Vale destacarmos que há uma divergência entre os dados da tabela 3 e da figura 24, por se tratar de estimativa, no caso da tabela. ▲ Figura 24: Rede urbana de Minas Gerais. Fonte: IBGE, 2000. Elabo- rado pela Fundação João Pinheiro, 2003. 43 Geografia - Geografia de Minas Com isso, as cidades que estão no topo da hierarquia urbana do estado são, naturalmente, os polos de atração populacional, pois reúnem atrativos importantes, sendo que os fatores eco- nômicos são os mais decisivos. Esse magnetismo demográfico dos centros econômicos do esta- do traz problemas socioambientais para essas cidades. Por isso, o crescimento econômico tem que ser acompanhado de algumas políticas públicas para preparar a cidade para receber o fluxo migratório. A migração interfere na composição demográfica do município, e a dinâmica da po- pulação é um fator importante para se pensar o desenvolvimento local. 2.5 Dinâmica populacional de Minas Gerais O Estado de Minas Gerais é o segundo mais populoso do Brasil, ficando atrás apenas de São Paulo. A população, entre os últimos dois censos demográficos (2000 e 2010), teve um aumento de 9,5% passando de 17.891.494 para 19.597.330. A densidade demográfica, ou população relati- va, é de 33,4 habitantes por km², portanto, acima da densidade do Brasil que é de 22,3 hab./km². O crescimento demográfico é fruto do comportamento de três indicadores populacionais, sendo eles: fecundidade, mortalidade e migração. É devido às variações nos dois primeiros com- ponentes que houve crescimento da população mineira. A taxa de fecundidade no estado, em 1970, era de aproximadamente seis filhos por mulher. Em 2010, esse número foi reduzido para, aproximadamente, 1,7 filho. Ao compararmos esse dado com outros estados brasileiros, vemos que está próximo da realidade dos estados do Sul e do Sudeste e inferior ao Norte e Nordeste. A taxa de mortalidade infantil, entre 1970 e 2010, sofreu uma redução importante, mas ainda apre- senta as mais altas taxas de mortalidade infantil entre os estados do Sudeste e Sul do país. De 1970 até 2010, os dados mostram que a esperança de vida ao nascer experimentou um processo contínuo de elevação, em Minas Gerais. Na média, os mineiros vivem mais que os brasi- leiros, pois enquanto a expectativa de vida no Brasil é de 72,7 anos, em Minas, a população vive 74,9 anos. Com isso, a expectativa de vida em Minas Gerais só é inferior à do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, superando a expectativa do Estado de São Paulo. A redução da natalidade e aumento da expectativa de vida produzem alterações na pirâmi- de etária do estado. A redução da base é consequência da queda na natalidade e a expansão do topo é reflexo da elevação da esperança de vida. A figura 25 traz a comparação entre as pirâmides etárias de 1970 e de 2000, onde podemos perceber que a natalidade foi o componente que mais sofreu alteração, haja vista que a base reduziu bastante. Outro des- taque é o crescimento da população na fase adulta (entre 20 a 60 anos). Esse é um fato im- portante, pois é chamado pelos especialistas como janela de crescimento, haja vista que a população economicamente ativa (PEA) são os adultos. Os jovens e idosos são, na maioria, população economicamente inativa, sendo que nessa fase o estado tem altos gastos com essa população, principalmente nas áreas de educação e saúde. Outro fato que esses dados nos levam a pensar é a atenção a população idosa, que passa a representar cada vez mais uma par- cela importante do estado. Por isso, políticas e ações de atenção e aproveitamento do po- tencial produtivo dessa população devem ser discutidas. ▲ Figura 25: Pirâmide etária de Minas Gerais, 2010. Fonte: IBGE. Elaborado pela Fundação João Pinheiro, 2003. 44 UAB/Unimontes - 8º Período Essas mudanças na dinâmica demográfica estão relacionadas, também, ao processo de ur- banização mostrado anteriormente, quando apontamos que a maior parte da população minei- ra reside em zonas urbanas. Consequentemente, as condições de vida são melhores, pois os ser- viços de saúde e de saneamento na cidade são melhores que no campo. Assim, o formato da pirâmide etária de Minas Gerais de 2010, exposta na figura 26, asseme- lha-se ao de áreas em desenvolvimento. Isso porque, os indicadores demográficos, também, são índices socioeconômicos. Seguindo a lógica, nos territórios mais ricos há menos mortalidade e as pessoas vivem mais. A estrutura demográficado estado é composta, majoritariamente, por mulheres, que repre- sentam 51% da população, como podemos observar na figura 26. A predominância de mulheres é um fato normal, haja vista que as mulheres apresentam maior expectativa de vida que os homens. Como as mulheres vivem mais e o número de nascimentos é semelhante ao de crianças do sexo masculino, há, numa condição natural, mais mulheres que homem. No entanto, esse fato se altera quando há uma variável externa, como maior número de migrações masculinas do que femininas. O último componente da dinâmica populacional, a migra- ção, em Minas Gerais, sofreu alterações significativas, de acor- do com os últimos censos demográficos do IBGE. Matos, Lobo e Stefani (2005) explicam que o Estado de Minas Gerais foi, por mais de 100 anos, um território de emigração de população, isto é, com maior saída que entrada de pessoas. Os autores mencionados afirmam que esse fato se deve, principalmente, pela concorrência com centros mais dinâmicos economica- mente, como São Paulo e Rio de Janeiro, além das novas fron- teiras agrícolas do Centro-Oeste e Norte do Brasil. A perda de população do estado mineiro se manteve in- tensa até as décadas de 1960 e 1970 quando o déficit no saldo migratório chegou a quase 10% de sua população. Mas, entre os censos de 1980 e 1991, essa perda se rarefez, e a taxa de mi- gração caiu, apesar de continuar negativa, chegando a -5%, com saldo negativo de, aproximadamente, 800 mil pessoas (FJP, 2003). A década de 1980 foi denominada, pelos economistas, de a “década perdida”, devido à crise econômica vivida no Brasil. Com isso, a indústria sofreu queda na produção, e a economia dos grandes centros, como São Paulo, diminuiu sua atração. Conse- quentemente, a quantidade de mineiros que se deslocaram para essa metrópole foi reduzida. Dessa forma, mesmo sem Minas Gerais aumentar a quantidade de imigrantes, a emigração dimi- nuiu e influenciou a queda da taxa de migração. A inversão do quadro migratório do estado ocorre entre os censos de 1991, 2000 e 2010. Os dados de 1991 revelam que o saldo migratório ainda era negativo. No entanto, entre 1995 e 2000, a situação muda e a taxa passa a ser positiva, uma tendência que se manteve nos anos seguintes. De acordo com a tabela 3, podemos notar que o saldo migratório negativo foi-se re- duzindo com o tempo, até chegar numa situação de superávit, isto é, o ganho de população foi maior que a perda. Diante dessa situação, podemos afirmar que há uma tendência desse saldo positivo se manter e mesmo aumentar, haja vista que o crescimento econômico de Minas Gerais, nos últimos anos deste novo milênio, tem sido maior que a média brasileira. Com isso, há uma atração da população para o território mineiro, além de menor interesse dos mineiros em saírem para outros estados. TABELA 04 Minas Gerais, número de imigrantes e emigrantes. 1965-2000 1965/70 1975/80 1986/91 1995/00 Imigrantes 100.372 336.177 371.891 447.783 Emigrantes 617.210 573.209 479.397 408.658 Saldo Migratório - 516.838 - 237.032 - 107.506 39.125 Fonte: AUGUSTO; BRITO, 2006. P.6 ▲ Figura 26: Pirâmide etária de Minas Gerais, 2010. Fonte: IBGE. Elaborado pela Fundação João Pinheiro, 2011. 45 Geografia - Geografia de Minas Analisando os dados da migração em Minas Gerais, Matos, Lobo e Stefani (2005) afirmam que o Estado de São Paulo, ainda, é o principal ponto de deslocamento dos emi- grantes mineiros. A figura 27 traz o mapa de Minas com os principais destinos das pessoas que deixam o estado, revelando que a maior parte dos municípios mineiros fornece pesso- as para São Paulo. Notamos que a localização é um fator importante para definir o destino dos emigrantes. Como exemplo, podemos notar que no noroeste de Minas, as pessoas se des- locam, predominantemente, para Brasília, en- quanto no Triângulo, há um fluxo considerável de pessoas para o Estado de Goiás, da mesma maneira que na Zona da Mata, o ponto princi- pal de atração é o Rio de Janeiro. Ainda segundo Matos, Lobo e Stefani (2005), os imigrantes que chegam em Minas Gerais, na verdade, estão retornando para seu local de origem, por isso, trata-se de imigração de retorno daquelas pessoas que deixaram o estado em outras décadas. Outro fator que contribuiu para reduzir a perda de população mineira para outros estados, foi o crescimen- to da atração da região metropolitana de Belo Horizonte. Analisando a migração em Minas Gerais por regiões, podemos constatar que há dife- renças significativas no saldo migratório. Al- gumas regiões do estado, como o centro, o extremo oeste e o sul são áreas de imigração, ou seja, mais pessoas chegam do que deixam essas regiões. Ao contrário dessas regiões, o Norte de Minas, o Noroeste e o Nordeste per- dem mais pessoas do que recebem, conforme mostra a figura 28. A migração no estado está diretamente relacionada à economia dos municípios e das regiões, pois quanto mais desenvolvido é o município, mais pessoas se deslocam em sua direção, e uma situação inversa ocorre nas áreas menos desenvolvidas. Além do fator econômico, não podemos ignorar o aspecto climático na migração das regiões de clima semi-árido do estado, notadamente no Vale do Jequitinhonha e no Norte de Minas. Nes- sas áreas, a migração é tão emblemática que sugiram denominações para as consequências dessa saída da população, como o caso das “vi- úvas da seca”. As viúvas da seca são mulheres que ficam sem os maridos, no período de es- tiagem, devido à migração masculina para as grandes metrópoles e regiões agrícolas, em busca de trabalho. No verão, com as chuvas, esses maridos retornam para sua terra natal. Apesar de influenciar na saída da popula- ção, a seca é um aspecto natural e, portanto, não cabe ao homem alterar essa característica ▲ Figura 27: Principais destinos dos emigrantes de Minas Gerais, 2000. Fonte: IBGE. Elaborado por Fundação João Pinheiro, 2003. ▲ Figura 28: Regiões de Minas Gerais com ganho e perda de população, 2000. Fonte: AUGUSTO; BRITO, 2006. P.8. ▲ Figura 29: População de Minas Gerais por regiões/ 2010. Fonte: IGA, 2010. 46 UAB/Unimontes - 8º Período da região. Mas, o que faz o homem migrar são as privações econômicas intensificadas pela seca. Isso o poder público pode melhorar e, assim, fixar o homem em sua região. Como resultado de todos esses componentes analisados, o Estado de Minas Gerais apresen- ta uma distribuição desigual da população no seu território, como podemos observar na figura 29. Naturalmente, a região mais populosa do estado é a parte central, onde está localizada a re- gião metropolitana de Belo Horizonte, que, como comentamos anteriormente, tem o maio PIB do estado e recebe a maior quantidade de imigrantes. Ao longo dessa segunda unidade, fizemos uma caracterização do Estado de Minas Gerais e apresentamos algumas análises sobre a geografia do espaço mineiro. Apesar da apresentação ter ocorrido de maneira separada, temos que nos ater à relação entre todos esses componentes analisados. No item sobre o espaço físico de Minas Gerais, mostramos a vegetação, mas temos que compreender que a diversidade no tipo de vegetação natural do estado é consequência da va- riação climática desse espaço. Nas áreas mais úmidas, temos as formações florestais, como no caso da Mata Atlântica, que tem média acima de 2000 mm de chuva por ano. No caso do Cerra- do, o índice pluviométrico tem média inferior a 1800 mm/ano, por isso, é uma formação de sa- vana. Nas áreas mais secas do estado, temos a Caatinga. Assim como o clima, o relevo, também, influencia a vegetação. Notadamente em Minas, surge a vegetação Rupestre ou Campos de Alti- tudes, localizados nas áreas mais altas das serras mineiras. Esses fatores naturais não se relacionam apenas entre si, mas são fatores importantes para entendermos as características da economia mineira. O caso característico dessa situação é sua riqueza mineral, presente, inclusive, no próprio nome do estado e consequência dasua geologia. A presença das siderúrgicas está relacionada ao minério de ferro, principalmente na região Cen- tral e no Vale do Rio Doce. O crescimento econômico induzido pela riqueza natural faz com que a região crie infraes- trutura para atrair mais investimento. Logo, há deslocamento de pessoas para essa região, provo- cando o crescimento das cidades e a formação de novas áreas urbanas, o que afeta, diretamente, a urbanização e a rede urbana. Essa breve análise que acabamos de expor teve como objetivo mostrar que os temas apre- sentados estão relacionados e, logo, configuram o espaço de Minas Gerais da maneira que co- nhecemos. Referências AUGUSTO, H.; BRITO, F. Migrações em Minas Gerais: tendências recentes a partir da análise de suas microrregiões. In: SEMINARIO CEDEPLAR/UFMG, 2006, Diamantina. Anais... Disponível em <http://www.cedeplar.ufmg.br/seminarios/ economia-mineira/diamantina-2006.php> acesso em 16 jul. 2011. BAPTISTA, R. F. Redes de inovação no contexto dos tecnopolos: a experiência de São Carlos, Brasil. Scripta Nova, Barcelona, n. 69, 2000. 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Belo Horizonte: C/arte, 2005. p. 177-190. 49 Geografia - Geografia de Minas UNIDADE 3 A regionalização do espaço geográfico mineiro: os desequilíbrios econômicos, sociais e ambientais 3.1 Introdução Nesta unidade, temos o desafio de trabalhar o processo de regionalização do espaço ge- ográfico mineiro, enfocando o contexto de seu surgimento e o papel das instituições públicas Federais e Estaduais, das quais destacamos o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE e a Fundação João Pinheiro – FJP, responsáveis pela criação dos recortes espaciais regionais no vasto território mineiro, com o intuito de diagnosticar e criar estratégias para as ações de plane- jamento governamental em Minas Gerais. Na regionalização do Estado de Minas Gerais em mesorregiões, em microrregiões (IBGE) e em região de Planejamento (FJP), foi possível verificar, a partir da análise dos dados oficiais divul- gados pelas instituições governamentais, as desigualdades regionais, econômicas e sociais. Essas desigualdades foram mostradas em tabelas e figuras (mapas) representando os indicadores por regiões, tais como arrecadação tributária, investimentos anunciados, infraestrutura de transpor- tes, setor energético, setor de comunicações, exportações, saneamento básico, índice de desen- volvimento humano – IDH e coeficiente de GINI. Além disso, na terceira unidade, foram discutidos os problemas socioambientais causados pela modernização econômica, representada pelas atividades mineradoras, industriais, agrícolas, agroindustriais, pecuaristas, e, também, pela urbanização no espaço geográfico mineiro. Em Minas Gerais, são diversos os problemas socioambientais, dos quais se destacam o uso indiscriminado dos recursos naturais, a expansão das fronteiras agrícolas, o desmatamento, o desemprego, a violência urbana, o lixo urbano, as enchentes, a ocupação de áreas de risco e a poluição, sonora, das águas, do ar e dos solos, entre outros. Essas implicações socioambientais afetam, direta e indiretamente, a qualidade de vida das pessoas que residem nas áreas rurais e urbanas do território mineiro. Após a apresentação do conteúdo a ser discutido e trabalhado na terceira unidade, convida- mos você a conhecer o processo de regionalização, os indicadores socioeconômicos, as desigual- dades socioespaciais e a problemática socioambiental do Estado de Minas Gerais. 3.2 Contexto da regionalização do espaço geográfico mineiro A grande extensão territorial do Estado de Minas é um dos fatores que o torna complexo do ponto vista econômico, social e ambiental. Para compreender as desigualdades socioeconômi- cas entre as regiões mineiras, foi preciso discutir o processo de regionalização do território mi- neiro, criado pelos órgãos públicos federais e estaduais de planejamento. A divisão regional do 50 UAB/Unimontes - 8º Período Estado de Minas Gerais foi feita por instituições públicas federais e estaduais, das quais se desta- cam o IBGE (Governo Federal) e a FJP (Governo Mineiro), responsáveis por fazer pesquisas, diag- nósticos e monitorar os indicadores socioeconômicos, visando orientar a implementação das políticas de planejamento no território mineiro. Dessa forma, vamos conhecer o contexto polí- tico brasileiro e mineiro, que levou à criação das instituições governamentais, que têm um papel relevante no planejamento e na gestão territorial do Estado de Minas Gerais. Dentre as várias ins- tituições públicas, vamos focar a discussão no IBGE e na FJP, pelo fato de serem referências na re- gionalização do espaço geográfico mineiro, incluindo, também, a realização de estudos diversos e o levantamento de indicadores socioeconômicos no Estado de Minas Gerais. No Brasil, na década pós 1930, o planejamento ganhou força no primeiro governo Vargas (1930-1945), com a intervenção direta do Estado nas políticas de planejamento do desenvolvi- mento econômico, visando desenvolver a infra-estrutura econômica (transporte, energia e co- municações), a modernização agrícola, a industrialização e a urbanização, promovendo, assim, a ocupação do território brasileiro. A centralização do poder político na esfera federal levou `a criação de planos e de instituições públicas governamentais, com o intuito de manter o contro- le do território brasileiro (MAGNAGO, 1995; BECKER; EGLER, 1998). Nesse contexto marcado pelo intervencionismoestatal, Magnago (1995), Diniz e Batella (2005), e Pereira (2007) destacam que, em 1938, foi criado, pelo governo federal, o IBGE, um órgão público deliberativo e executivo, su- bordinado diretamente `a presidência da república, cuja função é fazer o levantamento de dados estatísticos e geográficos, ordenando o quadro municipal, classificando a hierarquia das localida- des brasileiras e fazendo a institucionalização da divisão regional do território brasileiro. Cerca de três décadas após a criação do IBGE, o Governo de Minas Gerais criou, em 1969, a Fundação João Pinheiro, vinculada diretamente à secretaria estadual de planejamento, com as atribuições de realizar pesquisas aplicadas, consultorias e diagnósticos, apoiando e dando su- porte ao sistema de planejamento estadual. Sendo assim, a Fundação João Pinheiro abrange as funções de prestar serviços e fazer pesquisas interdisciplinares, coletando, produzindo, sistema- tizando, analisando, criticando e divulgando informações estatísticas dos indicadores socioeco- nômicos de Minas Gerais, buscando compreender e explicar a realidade desse estado, a fim de fornecer subsídios para a viabilização das intervenções estatais no território mineiro (DINIZ; BA- TELLA, 2005; PEREIRA, 2007). Você conheceu o contexto de criação das duas principais instituições de planejamento no Brasil e em Minas Gerais, o IBGE e a FJP, respectivamente. Agora chegou a vez de estudarmos o processo de regionalização do espaço geográfico mineiro pelo governo federal e pelo governo de Minas Gerais, para compreendermos as desigualdades econômicas, sociais e regionais no ter- ritório mineiro. 3.2.1 O IBGE e a regionalização do espaço geográfico mineiro O IBGE teve, e tem, um papel importante na regionalização do espaço geográfico brasileiro e, também, na realização de estudos acerca dos indicadores econômicos, sociais e urbanos. No contexto de regionalização do Brasil, em 1941, o IBGE foi responsável pela criação das zonas fisio- gráficas no Estado de Minas Gerais. Sendo assim, foram considerados os critérios de base natural, econômica e humana, que ficaram restritos aos limites político-administrativos territoriais esta- duais, posteriormente, porém, as regiões fisiográficas deram suporte para a criação das microrre- giões homogêneas (DINIZ; BATELLA, 2005). No processo de regionalização do espaço geográfico mineiro, Diniz e Batella (2005) desta- cam que, em 1969, o IBGE criou as regiões homogêneas, uma vez que foram consideradas, no seu critério de regionalização, as informações geoeconômicas. Dessa forma, o IBGE levou em consideração os espaços homogêneos, os espaços polarizados, os fluxos e as relações espaciais de produção e consumo. Na criação dos recortes espaciais que deram origem as 46 microrregi- ões, o IBGE considerou, também, os aspectos geográficos naturais, econômicos e sociais. Em 1972, foram criadas, pelo IBGE, as regiões funcionais urbanas, levando em consideração o contexto da descentralização econômica do eixo Rio – São Paulo, a implantação das políticas de desenvolvimento regional, a distribuição espacial da infraestrutura urbana, os fluxos da dis- tribuição de bens e serviços entre as cidades, a concentração espacial da população urbana e as relações econômicas entre as cidades, entre outros. As articulações desses elementos buscavam mostrar e/ou explicar a espacialização da hierarquização urbana no território brasileiro e minei- ro (DINIZ; BATELLA, 2005). Podemos observar que a hierarquização da rede urbana demonstra 51 Geografia - Geografia de Minas a distribuição desigual do capital no espaço geográfico, na medida em que esse capital se concentra em pontos estratégicos, mais dinâ- micos, economicamente, dos territórios, tendo como reflexo o desenvolvimento desigual e combinado na espacialização das atividades socioeconômicas e urbanas. Em 1990, o IBGE criou as 12 mesorregiões e as 66 microrregiões geográficas, servindo como suporte à implementação das políti- cas de planejamento municipal e estadual em Minas Gerais. Essas duas regionalizações respeitam os limites territoriais municipais e estaduais (DINIZ; BATELLA, 2005). Segundo Magnago (1995), na conceituação da mesorre- gião geográfica, o IBGE levava em considera- ção a individualização da área na unidade da federação (Estado), onde a organização espa- cial ocorre pelas dimensões sociais como ele- mentos determinantes, os elementos naturais como fatores condicionantes e as redes de co- municações e de lugares como elementos das articulações espaciais. A figura 30 mostra as 12 mesorregiões geográficas de Minas Gerais criadas pelo IBGE, que são: Campo das Vertentes, Central Mineira, Jequitinhonha, Metropolitana de Belo Horizonte – RMBH, Noroeste de Minas, Norte de Minas, Oeste de Minas, Sul e Sudoeste de Minas, Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, Vale do Mucuri, Vale do Rio Doce e Zona da Mata. No contexto da criação das mesorregiões, foram criadas, também, as microrregiões geográ- ficas, divisões das mesorregiões apresentando mais especificidades na organização do espaço geográfico (MAGNAGO, 1995; DINIZ e BATELLA, 2005). As especificidades das microrregiões são caracterizadas pela estrutura de produção agropecuária, industrial, extrativista e pela mineração, entre outras, considerando os aspectos homogêneos e as relações de interdependência das ati- vidades de produção, circulação e consumo no espaço geográfico brasileiro. Na figura 31, é pos- sível visualizar as 66 microrregiões geográficas, criadas pelo IBGE, no Estado de Minas Gerais. As mesorregiões e as microrregiões geográficas foram criadas, oficialmente, pelo IBGE, na década de 1990, sendo utilizadas, principalmente, por instituições públicas e privadas, pesqui- sadores e estudantes para realização de trabalhos técnicos e acadêmicos diversos. Em Minas Ge- rais, é possível verificar, nas figuras apresentadas anteriormente, que as microrregiões são por- ções territoriais integrantes das mesorregiões, sendo, por isso, interdependentes nos estudos geográficos. Outro aspecto importante das meso e microrregiões é o fornecimento de in- formações econômicas e sociais que ajudam a compreender as generalizações e as especifici- dades socioeconômicas no espaço geográfico de Minas Gerais e, também, o de suporte me- todológico para a FJP elaborar a regionaliza- ção do espaço geográfico mineiro a partir das microrregiões, bem como realizar as políticas de planejamento no Estado de Minas Gerais. 3.2.2 Fundação João Pinheiro e a regionalização do espaço geográfico mineiro No processo de regionalização do espaço geográfico mineiro, a Fundação João Pinheiro, em 1992, criou a divisão regional de Minas Ge- ▲ Figura 30: Minas Gerais: Mesorregiões geográficas, 1990. Fonte: PEREIRA, 2007, p. 59. ▲ Figura 31: Minas Gerais: Microrregiões geográficas (1990) Fonte: PEREIRA, 2007, p. 61. 52 UAB/Unimontes - 8º Período rais, constituindo-se as dez regiões de plane- jamento do estado, baseadas nos indicadores espaciais e socioeconômicos das microrregi- ões geográficas do IBGE. O objetivo dessa re- gionalização, criada pela FJP, é o planejamen- to das ações de gestão do território mineiro, buscando gerir, de forma eficaz e eficiente, a alocação de recursos entre as diferentes re- giões de Minas Gerais, para implementação de políticas públicas e de investimentos seto- riais. Além de conhecer a realidade estadual, destaca a influência da rede urbana mineira e os elementos homogêneos, respeitando os limites políticos territoriais das microrregiões geográficas criadas pelo IBGE, ou seja, as mi- crorregiões do IBGE constituem-se na base da regionalização criada pela FJP. Na figura 32, podemos observar as dez regiões de planeja- mento de Minas Gerais, instituídas pela Funda- ção João Pinheiro: Alto Paranaíba, Central, Centro-Oeste de Minas, Jequitinhonha/Mucuri, Mata, Noroeste de Minas, Norte de Minas, Rio Doce, Sul de Minas, Triângulo. Como podemos observar, a FJP e o IBGE são responsáveispela regionalização do espaço ge- ográfico, pela divulgação dos dados socioeconômicos das regiões homogêneas (mesorregiões e microrregiões) e das regiões polarizadas ou nodais no Estado de Minas Gerais. As ações dessas duas instituições, visando a promoção do desenvolvimento econômico e social, ajudam os go- vernos federal, estadual e municipal a programar as políticas de planejamento e de gestão de território no Estado de Minas Gerais. 3.3 A infraestrutura econômica por regiões no Estado de Minas Gerais A infraestrutura econômica é composta pelos meios de transporte, pela energia e pelos sis- temas de comunicações, que são imprescindíveis para o processo de desenvolvimento socioe- conômico. A infraestrutura viabiliza a expansão das atividades socioeconômicas pelo território mineiro, representadas, principalmente, pela agricultura, pela pecuária, pela mineração, pela in- dústria, pelo comércio e pela urbanização, entre outras. Do ponto de vista econômico, Minas Gerais é destaque na economia brasileira. Para o Ban- co de Desenvolvimento de Minas Gerais – BDMG (2002, a), a atração de investimentos privados pelo Estado de Minas Gerais está relacionada à sua localização geográfica; ao fato de ter recursos naturais abundantes e uma boa infraestrutura econômica (transportes, energia e comunicações) em pontos estratégicos do seu território; além de ser uma liderança política no cenário nacional e apresentar uma boa base econômica centrada nas atividades de siderurgia, de metalurgia, de frigoríficos, de mineração e de agricultura, entre outras. A concentração da infraestrutura e das atividades econômicas, em pontos estratégicos do espaço geográfico, leva-nos a discutir as questões do desenvolvimento regional desigual para entender o processo de concentração de capital e de desigualdades socioeconômicas regionais, em Minas Gerais. Por que isso ocorre? Para o francês François Perroux, especialista em Geogra- fia Econômica, o desenvolvimento tornou-se desigual por causa da concentração das atividades econômicas em pontos dinâmicos do espaço geográfico. Assim sendo, no processo de expan- são do capital, podemos ter um efeito benéfico, principalmente, quando são criados os polos de crescimento. Nos polos, a presença da indústria motriz (indústria principal) é responsável por impulsio- ▲ Figura 32: Minas Gerais: Regiões para fins de planejamento – FJP (1992) Fonte: PEREIRA, 2007, p. 62. ATIVIDADE: Pesquise em livros, teses, dissertações, periódicos e sites especializados, mais informações acerca do processo de regiona- lização do espaço ge- ográfico mineiro. Faça comparações: Quais as diferenças entre as me- sorregiões do IBGE e as regiões da FJP? Quais as semelhanças entre as microrregiões e as regiões de planejamen- to da FJP? 53 Geografia - Geografia de Minas nar o desenvolvimento regional, na medida em que essa indústria motriz leva a cidade - polo a manter relações fortes com seu entorno, incluindo a compra de matéria-prima e de serviços de outras empresas, além de, também, vender seus produtos nessa região. Mas, quando isso não ocorre, tem-se o efeito maléfico, chamado enclave econômico, onde a indústria que poderia ser motriz mantém relações fortes com o exterior, tanto comprando, de outras regiões, matérias-pri- mas e serviços, como, também, vendendo grande parte dos seus produtos para o exterior. As- sim, o enclave econômico, somente timidamente, impulsiona o desenvolvimento regional pelo fato de suas atividades manterem relações inter-regionais fortes, porém, fracas intrarregionais (PERROUX, 1967; 1977). Na distribuição espacial das atividades econômicas no Estado de Minas Gerais encontram- -se áreas econômicas extremamente modernas e dinâmicas como, também, diversas áreas com base econômica, praticamente, tradicional. Estudando, especificamente, o processo de desen- volvimento no Estado de Minas Gerais, Dulci (1999) destaca que o desequilíbrio regional surge quando a economia nacional passa para a chamada fase de industrialização, concentrando os investimentos em determinadas áreas em detrimento de outras. Isso acabou desenhando o mo- delo centro-periferia, ou de desenvolvimento dual, criando a concentração das atividades eco- nômicas nas áreas mais dinâmicas e provocando os desequilíbrios regionais, pautados, principal- mente, na divisão espacial do trabalho. Essa modernização econômica em determinados pontos do território acaba gerando problemas políticos, econômicos, sociais e ambientais. Nesse processo do desenvolvimento nacional desigual e concentrado surge o discurso po- lítico para implantação das políticas de desenvolvimento regional, propondo o rompimento, ou a minimização, dos problemas socioeconômicos das regiões deprimidas e promovendo seu de- senvolvimento socioeconômico, pela alocação de recursos para impulsionar a economia dessas áreas (FRIEDMAN, 1977; ROMO, 1977). No caso de Minas Gerais, para Dulci (1999), mesmo diante da implementação das políticas de desenvolvimento regional, existe o processo de desenvolvi- mento desigual no território mineiro, que é marcado pela concentração das atividades econômi- cas nos espaços regionais. Dessa forma, o dinamismo econômico se dá em poucos pontos estra- tégicos do território, com persistentes desigualdades econômicas, sociais e regionais em Minas Gerais, como exemplo, a notória desigualdade socioeconômica entre o Norte de Minas (Montes Claros) e a região Central do estado (região metropolitana de Belo Horizonte). Se compararmos dentro do Norte de Minas, Montes Claros e Josenópolis, as desigualdades socioeconômicas tam- bém são acentuadas. Para compreender a complexidade, a diversidade e a desigualdade regional em Minas Ge- rais, daremos ênfase à regionalização do espaço geográfico mineiro, criada pela Fundação João Pinheiro, pelos fatos dos seus recortes espaciais seguirem os limites territoriais das microrregiões geográficas e, também, dos indicadores socioeconômicos que embora coletados, diretamente, do IBGE, são trabalhados, estatisticamente, a partir das 10 regiões de planejamento da FJP. Desta forma, trabalharemos na sequência os indicadores de infraestrutura econômica, econômicos e sociais, por regiões de planejamento. 3.3.1 A infraestrutura de transportes em Minas Gerais: Regiões de planejamento Os meios de transporte são responsáveis pela circulação de passageiros, mercadorias e in- formações pelos diferentes espaços geográficos, fazendo parte do dinamismo econômico e do cotidiano das pessoas, configurando e reconfigurando a estrutura socioespacial da infraestrutura de transportes, constituída pelas redes contínuas e descontínuas dos sistemas de transporte, no ordenamento do território (KNOLES; HOYLE, 2001; RODRIGUE et al, 2004). A espacialização regio- nal das redes contínuas e descontínuas de transportes ajuda a explicar as desigualdades econô- micas e sociais no espaço geográfico. E, em Minas Gerais, não é diferente. Para o BDMG (2002, b), o setor de transportes apresenta diversas limitações na política de mobilidade entre as diferentes regiões mineiras, uma vez que os investimentos em infraestrutura foram concentrados nas áreas de maior dinamismo econômico, provocando as desigualdades na distribuição espacial das redes de transportes regionais. Buscando discutir as desigualdades re- gionais da infraestrutura de transporte, na seção seguinte, enfocaremos as principais modalida- des de transporte em atividade no território mineiro, por regiões de planejamento da Fundação João Pinheiro. ATIVIDADES: O Estado de Minas Ge- rais pode ser caracteri- zado pela desigualda- de econômica e social? Como ocorre essa de- sigualdade? Você acha que o Estado (governo federal e estadual) tem ações diferenciadas para regiões de Minas Gerais? Como isso ocorre? GLOSSÁRIO: Redes contínuas: linhas (vias) e nós (ter- minais) de ligação dos sistemas de transporte, com maior articulação espacial dos fluxos de pessoas, mercadorias e informações,na escala local, regional, nacional e internacional. Redes descontínuas: linhas (vias) e nós (ter- minais) de ligação dos sistemas de transporte com menor articulação espacial dos fluxos de pessoas, mercadorias e informações, na escala local, regional, nacional e internacional. Fonte: RODRIGUES et al, 2004. 54 UAB/Unimontes - 8º Período 3.3.1.1 Transporte rodoviário em Minas Gerais O transporte rodoviário é caracterizado pela circulação de cargas por bitrens, carretas e caminhões, entre outros, e, também, pela circulação de passageiros por ônibus, micro- -ônibus e veículos particulares, entre outros. Como no Brasil, Minas Gerais, também, priori- zou o transporte rodoviário como modalidade de transporte principal. O BDMG (2002, b) des- taca que os investimentos das políticas públi- cas setoriais de transporte priorizaram a mo- dalidade rodoviária, em detrimento das outras modalidades de transporte, criando obstácu- los para a implantação do transporte inter- modal e/ou multimodal, o que tem dificultado a conexão intra e inter-regional de Minas Gerais. Devido a sua grande extensão territorial, Minas Gerais encontra-se localizado em uma área interiorana limítrofe com os principais centros econômicos e urbanos do país, nos quais se des- tacam São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Assim, como abordamos na unidade anterior, o Estado de Minas Gerais possui a segunda maior malha rodoviária pavimentada do Brasil, considerando toda malha de rodovias, federais, estaduais e municipais, além da maior malha de rodovia fede- ral do país. O gráfico 2 mostra a distribuição da malha rodoviária pavimentada e não pavimenta- da no território mineiro, sob responsabilidade dos governos federal, estadual e municipais. As- sim, podemos observar um contraste entre a malha pavimentada e a não pavimentada, uma vez que maioria da malha rodoviária pavimentada está sob responsabilidade das instituições fede- rais e estaduais, enquanto a maioria das rodovias não pavimentadas está sob responsabilidade dos municípios, correspondendo a, aproximadamente, 99,5% das rodovias municipais. Observe você, que, no ano de 2008, a malha rodoviária pavimentada e não pavimentada no Estado de Minas Gerais era controlada pelos governos federal, estadual e municipais. A eficá- cia e eficiência da malha rodoviária são caracterizadas pela pavimentação e pelo bom estado de conservação das rodovias. Sobre a infraestrutura rodoviária pavimentada em Minas Gerais, existe um único trabalho no estado, desenvolvido pelo BDMG, em 2001, que mostra a distribuição es- pacial da malha de rodovias pavimentadas, por regiões de planejamento. Mesmo desatualizado, esse trabalho explicita as desigualdades espaciais na distribuição da rede rodoviária no território mineiro, por regiões. Por esse motivo, optamos por usá-lo. O Estado de Minas Gerais apresenta uma densidade de rodovias pavimentadas de, apro- ximadamente, 34,8 km/1.000 km2. Tendo como referência a densidade rodoviária estadual para analisar a densidade de rodovias pavimentadas por regiões de planejamento, verificamos que sete regiões (Central, Mata, Sul, Triângulo, Alto Paranaíba, Centro-Oeste e Rio Doce) apresentam uma densidade de rodovias pavimentadas superior, 37 km/1.000 km2, ou seja, acima da média estadual. Entretanto, a densidade de rodovias pavimentadas em três regiões (Noroeste, Jequiti- nhonha/Mucuri e Norte) é igual, ou inferior, a 20 km/1.000 km2, ou seja, bem abaixo da média es- tadual, sendo que, no estado, o melhor indicador fica com a Zona da Mata e o pior, com o Norte. Essas informações podem ser observadas na tabela 4. Tabela 5 Densidade da malha rodoviária pavimentada em Minas Gerais: Regiões de planejamento-2001 Região de planejamento Área territorial (1000 km2) Extensão (km) Densidade (km/1.000 km2) Central 80,53 3.745 46,5 Mata 35,85 2.195 61,2 Sul de Minas 52,90 3.061 57,9 Triângulo 54,08 2.131 39,4 Alto Paranaíba 37,03 1.649 44,5 GLOSSÁRIO: Transporte intermo- dal: é caracterizado pelo uso de duas ou mais modalidades de transporte para a movimentação de mercadoria, evolvendo a cobertura espacial de origem e destino do fluxo, no qual cada percurso realizado pelo modal de transporte tem um contrato da prestação de serviço. Transporte intermodal: é caracterizado pelo uso de duas ou mais modalidades de trans- portes para movimen- tação de mercadoria, evolvendo a cobertura espacial de origem e destino do fluxo, no qual o Operador de Transporte Multimodal – OTM é responsável por todo o percurso realizado pelos diferen- tes meios de trans- porte, com um único contrato de prestação de serviço. Fonte: RODRIGUES, 2003 ▲ Gráfico 2: Malha rodoviária pavimentada e não pavimentada em Minas Gerais, 2008. Fonte: Agência Nacional de Transportes Terrestres – ANTT, 2008. Organizado por PEREIRA, 2011. 55 Geografia - Geografia de Minas Centro-Oeste de Minas 31,74 1.732 54,6 Noroeste de Minas 62,89 1.258 20,0 Norte de Minas 128,73 1.914 14,9 Jequitinhonha/Mucuri 62,89 1.217 19,3 Rio Doce 41,73 1.545 37,0 Minas Gerais 588,38 20.447 34,8 Fonte: BDMG, 2002, b. Os indicadores apresentados na tabela 5 demonstram as desigualdades regionais na distri- buição espacial da infraestrutura de transporte rodoviário em Minas Gerais e os contrastes na es- pacialização da infraestrutura da malha rodoviária pavimentada entre as regiões de planejamen- to no território mineiro. 3.3.1.2 Transporte ferroviário em Minas Gerais No processo de expansão do sistema fer- roviário brasileiro, ainda no século XIX, Minas Gerais começou a receber a infraestrutura des- se meio de transporte em seu território, che- gando a ter, no século XX, a maior malha fer- roviária do Brasil. Entretanto, com o processo de expansão do sistema rodoviário, o território mineiro teve parte de sua malha ferroviária erradicada, diminuindo a quilometragem das ferrovias em operação. O gráfico 3 destaca a evolução histórica da malha ferroviária mineira, no período de 1884 a 2008. Entre 1884 e 1936, ocorreu um crescimento acentuado da malha ferroviária em Minas Gerais, saltando de 662 km para 8.038 km de ferrovias. Porém, entre 1936 e 1950, quando atingiu seu auge, houve pouco crescimento da malha ferroviária, indo de 8.038 km para somente 8.645 km, com um constante decréscimo desde então. Entre a década de 1950/1960 e 2000, esse decréscimo foi representativo, caindo de 8.561 km (1960) para 5.329 km em 2000. Entre 2000 e 2008, também, apresentou uma queda, embora leve, de 5.329 km para 5.311 km de ferrovias. É importante destacar que, em 2008, Minas Gerais continua sendo o estado da federação brasileira com a maior malha ferroviária do país, ultrapassando 5.000 quilômetros, distribuídos de forma desigual pelo extenso território mineiro. Dentro do Plano Nacional de Desestatização das ferrovias brasileiras, nos anos de 1990, a malha ferroviária mineira foi repassada para a iniciativa privada, sob regime de concessão, onde quatro operadoras ferroviárias (Ferrovia Centro-Atlântica – FCA, Ferrovia Bandeirantes – FERRO- BAN, Estrada de Ferro Vitória-Minas – EFVM e MRS Logística) exploram o serviço de transporte de mercadorias e uma delas, a EFVM, transporta, também, passageiros entre Belo Horizonte/MG e Vitória/ES. Considerando a densidade da infraestrutura ferroviária por regiões de planejamento no território mineiro, a tabela 6 mostra que Minas Gerais possui uma densidade ferroviária de 8,6 km/1.000 km2, sendo importante observar que cinco regiões (Central, Mata, Sul, Alto Paranaíba e Centro-Oeste) têm uma densidade ferroviária superior, ou seja, 13 km/1.000 km2, ultrapassando a média estadual. Entretanto, a densidade ferroviária de três regiões (Triângulo, Rio Doce e Norte) é igual, ou inferior, a 7,8 km/1.000 km2, média inferior à estadual, enquanto duas regiões (Noroes- te e Jequitinhonha/Mucuri) não possuem nenhum quilômetro de ferrovia. ▲ Gráfico 3: Evolução da malha ferroviária,em tráfego, emMinas Gerais, no período de 1884 – 2008. Fonte: IBGE, 1985. Organi- zado por PEREIRA, 2011. 56 UAB/Unimontes - 8º Período Tabela 6 Densidade da malha ferroviária mineira: Regiões de planejamento-2001 Região de planejamento Área territorial (1000 km2) Extensão (km) Densidade (km/1.000 km2) Capacidade de carga Central 80,53 1.501 18,6 7.652 Mata 35,85 484 13,5 205 Sul de Minas 52,90 706 13,4 331 Triângulo 54,08 340 6,3 893 Alto Paranaíba 37,03 520 14,1 289 Centro-Oeste de Minas 31,74 661 20,8 360 Noroeste de Minas 62,89 0 0 0 Norte de Minas 128,73 520 4,0 296 Jequitinhonha/Mucuri 62,89 0 0 0 Rio Doce 41,73 327 7,8 1.203 Minas Gerais 588,38 5.059 8,6 - Fonte: BDMG, 2002, b. página 66 As informações apresentadas na tabela 6 mostram as desigualdades regionais na distribui- ção espacial da infraestrutura ferroviária no Estado de Minas Gerais. Assim, é possível verificar os contrastes na distribuição espacial da infraestrutura de transporte ferroviário entre as dez regi- ões de planejamento de Minas Gerais. 3.3.1.3 Dutovias em Minas Gerais O transporte dutoviário é subdividido em minerodutos (transporte de produtos sólidos), gasodutos (produtos gasosos) e oleodutos (transporte de produtos líquidos). Segundo o BDMG (2002, b), Minas Gerais tem uma malha dutoviária de, aproximadamente, 1.800 quilômetros, dis- tribuída em 797 km de oleodutos, 516 km de minerodutos e 487 km de gasodutos. A empresa Samarco Mineração tem dois minerodutos em operação, ligando Mariana – MG a Anchieta – ES (porto do Umbu), responsável pelo escoamento de minério para exportação, existindo, também, um projeto de implantação do mineroduto ligando Conceição do Mato Dentro – MG ao futuro complexo portuário do Açu, no Estado do Rio de Janeiro. Os gasodutos abastecem com gás as médias e grandes cidades mineiras, principalmente, a região metropolitana de Belo Horizonte, enquanto os oleodutos são responsáveis pelo escoamento de combustíveis para usinas termoe- létricas, sendo que o principal oleoduto de Minas Gerais, liga Betim – MG ao Rio de Janeiro – RJ. 3.3.1.4 Aerovias em Minas Gerais Em Minas Gerais, o transporte aéreo é responsável pelos deslocamentos de passageiros e de cargas nos vôos regionais, nacional e internacionais. Embora o território mineiro tenha di- versas pistas de pousos asfaltadas, conforme foi mostrado na unidade II, elas não são utilizadas frequentemente, porque os vôos regulares (diariamente) ocorrem somente nas cidades mais di- nâmicas, economicamente, do estado. Os aeroportos mineiros com melhor infraestrutura e ad- ministrados pela Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária – INFRAERO são: o aeroporto Internacional de Confins, o aeroporto da Pampulha, o aeroporto Carlos Prates, todos localizados na região metropolitana de Belo Horizonte; os aeroportos de Uberlândia e Uberaba, localizados na região do Triângulo; e o aeroporto de Montes Claros, localizado no Norte de Minas. Isso mos- tra que no vasto território mineiro são pouquíssimas as cidades que dispõem de vôos regulares diários, de cargas e passageiros. 57 Geografia - Geografia de Minas O crescimento na circulação de passageiros e cargas pela modalidade aérea, associado aos baixos investimentos na infraestrutura, tem levado os aeroportos de Minas Gerais ao chamado “apagão aéreo”, como, por exemplo, ocorrido no aeroporto de Confins. Esses problemas trazem muitos transtornos para a sociedade e para a economia mineira. Os investimentos na infraestru- tura aeroportuária são muito importantes para modernização do transporte aéreo, em Minas Ge- rais, possibilitando, assim, a circulação de cargas e passageiros, de forma mais rápida, pelo terri- tório regional e nacional, como, também, nos embarques e desembarques internacionais. 3.3.2 Sistema energético de Minas Gerais No processo de modernização econômica, a energia é um elemento muito importante no dinamismo socioeconômico representado pela expansão das atividades industriais, urbanas, agrícolas e de serviços pelo território mineiro. A matriz energética do Estado de Minas Gerais está subdividida em energia hidrelétrica e energia termoelétrica, além das refinarias responsá- veis pela fabricação, pela comercialização e pela distribuição de combustíveis no mercado. O potencial de geração da energia hidrelétrica, no Estado de Minas Gerais, é caracterizado pelas bacias hidrográficas, apresentando o predomínio dos rios que drenam das áreas de planal- tos, elevando as potencialidades na geração de energia hidrelétrica. As principais usinas hidrelé- tricas localizadas em Minas Gerais são Três Marias, Irapé, Maribondo, Marmelos, Miranda, Maurí- cio, Emborcação, Furnas, Sacramento e Queimado, entre outras. O sistema hidrelétrico, constituído pela produção, transmissão, distribuição e comercia- lização de energia, é responsável por levá-la da usina até as residências, indústrias, comércio e fazendas localizadas próximas, ou mesmo distantes, das usinas hidrelétricas. No Estado de Minas Gerais, existem duas empresas que atuam no sistema de energia hidrelétrica, Furnas e a Compa- nhia Energética de Minas Gerais – CEMIG. FURNAS é uma empresa constituída por sociedade anônima, subsidiária das Centrais Elétri- cas Brasileiras S.A – ELETROBRÁS, criada pelo governo federal (Juscelino Kubitschek), em 1957, com a missão básica de ser uma usina hidrelétrica de grande porte, no Brasil, apresentando um diversificado parque gerador de energia, com 15 usinas hidrelétricas, apoiadas em 51 subesta- ções e um vasto sistema de transmissão, que além de abastecer regiões de Minas Gerais, abaste- ce, também, as regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Norte do Brasil (FURNAS, 2010). A Companhia Energética de Minas Gerais - Cemig, fundada em 1952, é uma empresa de ca- pital aberto controlada por diversos acionistas, incluindo o Estado de Minas (majoritário). A CE- MIG atua nas áreas de geração, transmissão, distribuição e comercialização de energia elétrica e, também, na distribuição de gás natural, por meio da GASMIG (CEMIG, 2011). A Empresa de Petróleo Brasileiro S/A – PETROBRÁS, criada em 1953, no governo Getúlio Var- gas, é constituída por diversos acionistas, porém, com ações majoritárias do Estado brasileiro. A PETROBRÁS atua no setor termoelétrico, no refino e na distribuição de combustíveis no mercado brasileiro e internacional, sendo sua distribuidora, BR, responsável pela distribuição dos deriva- dos de petróleo e do biodiesel consumidos por veículos automotores e por termoelétricas no Brasil, incluindo em Minas Gerais. Na atuação da PETROBRÁS, em Minas Gerais, destacam-se, ain- da, a geração de energia termoelétrica na usina Aureliano Chaves em Ibirité e na usina de Juiz de Fora, a refinaria de petróleo Gabriel Passos, localizada em Betim, e a usina de biodiesel em Mon- tes Claros. (PETROBRÁS, 2011). O setor privado, também, tem atuado no mercado de geração de energia, em Minas Gerais, por meio da produção de etanol (álcool) em usinas localizadas nas fazendas de grandes cana- viais, espalhadas pelas diferentes regiões mineiras, com destaque para o Triângulo Mineiro. Considerando o complexo sistema de geração e de distribuição de energia em Minas Ge- rais, tornou-se necessário uma análise do consumo de energia nas residências e nas áreas rurais, por municípios e regiões de planejamento no estado. A figura 33 aponta que, na área urbana, o maior consumo de energia está concentrado em municípios localizados nas regiões do Triângu- lo, Sul, Centro Oeste, Central, Zona da Mata e Rio Doce, enquanto que o menor consumo pode ser observado, principalmente, nos municípios localizados nas regiões Norte, Jequitinhonha/ Mucuri e Noroeste. 58 UAB/Unimontes - 8º Período Já na área rural, como mostra a figura 34, o consumo de energia está concentrado nos municípios localizados nas regiões Norte, No- roeste, Jequitinhonha/Mucuri, Central, Alto Paranaíba e Triângulo, onde temos áreas de fronteiras agrícolas, que usam energia, princi- palmente, nossistemas de irrigação de lavou- ras diversas. Caro aluno, é importante verificar que, na distribuição espacial do consumo de energia em residências e em áreas rurais, o consumo de energia foi maior nas áreas de maior dina- mismo econômico, representado pelas ativida- des urbanas (indústria, comercio e serviços) e agropecuárias. 3.3.3 Sistema de telecomunicações em Minas Gerais O sistema de comunicações é muito im- portante- para a circulação de informações por diferentes territórios, promovendo, assim, os fluxos e as articulações dos sistemas produti- vos, financeiros e das atividades econômicas e ampliando as relações econômicas e sociais no espaço geográfico. O desenvolvimento da informática e da telefonia propiciou a comuni- cação instantânea entre as diferentes regiões do mundo, tornando-se um equipamento de suma importância na movimentação do ca- pital, representado pelos meios de produção, pela comercialização e pela circulação de mer- cadorias, que são a base de sustentação das estruturas do capitalismo (SANTOS, 1999). Em Minas Gerais, os sistemas de comuni- cações são constituídos por emissoras de rá- dios e de televisão, por jornais impressos, por Internet e por serviços de telefonia fixa e mó- vel. Na sequência, daremos ênfase à oferta e ao consumo de serviço de telefonia, fixa e mó- vel, e de internet, por regiões de planejamen- to. Na oferta e no consumo de serviços de telefonia fixa, para grupos de 100 habitantes nas regiões de planejamento, a figura 35 mos- tra que a região Central, incluindo, somente, a região metropolitana de Belo Horizonte, apre- sentou o melhor indicador, com 25 a 35 pesso- as a cada 100 habitantes tendo acesso à tele- fonia fixa, enquanto nas regiões do Triângulo e Centro Oeste de Minas, esse número é de, so- mente, 22 a 25 pessoas. O grupo que apresen- ta os indicadores mais baixos, inferiores a 21 pessoas (grupo de 100 pessoas), é constituído pelas regiões do Alto Paranaíba, Sul, Mata, Rio Doce, Noroeste, Norte e Central, excluindo a ▲ Figura 33: Consumo residencial anual médio KWH/consumidor – municípios de Minas Gerais, 2001. Fonte: BDMG, 2002, p. 73, b. ▲ Figura 34: Consumo rural - MWH anual – municípios de Minas Gerais, 2001 Fonte: BDMG, 2002, p. 74, b. ▲ Figura 35: Minas Gerais – regiões de planejamento: telefonia fixa, junho de 2002; terminais fixos, por 100 habitantes. Fonte: BDMG, 2002, p. 226, C. 59 Geografia - Geografia de Minas região metropolitana de Belo Horizonte, sen- do possível destacar que o pior indicador é da região Jequitinhonha/ Mucuri, com apenas 14 pessoas em 100 tendo acesso à telefonia fixa. O acesso da população ao serviço de te- lefonia móvel, por regiões de planejamento, será mostrado em termos percentuais. A figu- ra 36 mostra que mais de 25% da população da região Central, incluindo somente a região metropolitana de Belo Horizonte, têm acesso à telefonia móvel, enquanto nas regiões Triân- gulo, Centro Oeste, Alto Paranaíba e Central, com exceção da região metropolitana de Belo Horizonte, 15 a 25% da população tem acesso à telefonia móvel. Nas regiões Sul, Rio Doce, Noroeste, Norte e Jequitinhonha/Mucuri, me- nos de 15% da população têm acesso ao servi- ço de telefonia móvel, e, novamente, o Jequi- tinhonha/Mucuri apresentou o pior indicador, que foi de 5%. O acesso ao serviço de internet nos do- micílios, por regiões de planejamento, será mostrado em termos percentuais. A figura 37 mostra que entre 6% e 10% dos domicílios da região Central, inclusa somente a região me- tropolitana de Belo Horizonte, e do Triangulo têm internet, apresentando o melhor indicador no quesito, enquanto, na região Sul de Minas, de 5,1% a 6% dos domicílios possuem internet. Nas regiões Centro Oeste, Central, exclusa a região metropolitana de Belo Horizonte, Alto Paranaíba, Rio Doce, Noroeste, Norte e Jequi- tinhonha/Mucuri, menos 5% dos domicílios têm acesso ao serviço de internet, sendo que a região do Jequitinhonha/Mucuri apresentou o pior indicador, apenas 2,7%. As transformações nos sistemas brasilei- ros e mineiros de comunicações tornaram-se, gradualmente, mais acessíveis para a popu- lação, sendo importante destacar que os ser- viços de comunicações (telefonia e internet) estão concentrados, principalmente, nos gran- des centros urbanos, industriais e comerciais. Mas é bom deixar claro que muitas pessoas, ainda, não têm, ou têm pouco, acesso aos modernos meios de comunicações, uma vez que a maioria delas mora em áreas do território que não são, ou são pouco, atendidas por telecomu- nicações ou internet, além daquelas que não têm recursos financeiros para custear as despesas com os serviços da telemática, por causa do elevado preço das tarifas. Enfatizamos que a oferta dos serviços de infraestrutura econômica, representados por transporte, energia e comunicações, propiciou o desenvolvimento das atividades industriais, agroindustriais, agrícolas, pecuaristas, comerciais, urbanas e de serviços, propiciando, assim, a produção e a reprodução de capital por meio dos meios de produção, circulação e consumo que se encontram concentrados nos pontos mais dinâmicos do espaço geográfico de Minas Gerais. 3.3.4: As regiões de Minas Gerais: Desigualdades econômicas Conforme a discussão na unidade II, sobre o dinamismo econômico, populacional, infraes- trutural e urbano em Minas Gerais, discutiremos, na sequência, os aspectos econômicos relacio- ▲ Figura 36: Minas Gerais – regiões de planejamento: percentual de telefonia móvel, 2002. Fonte: BDMG, 2002, p. 226, C. ▲ Figura 37: Minas Gerais – regiões de planejamento: percentual de internet, 2002. Fonte: BDMG, 2002, p. 227, C. 60 UAB/Unimontes - 8º Período nados à arrecadação de tributos, à previsão de investimentos e às exportações, por regiões de planejamento em Minas Gerais. O poder de arrecadação e a capacidade de investir são ferramentas muito importantes na implementação das políticas de planejamento e desenvolvimento da infraestrutura, do dinamis- mo econômico e da implantação de políticas públicas na área social. Na analise da tabela 7, é im- portante observar que a capacidade de arrecadação, por regiões de planejamento, em Minas Ge- rais, é muito discrepante, sendo que a arrecadação, incluindo a receita tributária do Imposto de Circulação sobre Mercadorias e Serviços – ICMS e de outras receitas diversas, está extremamente concentrada na região Central, com 66,2% da receita do estado, enquanto as outras nove regiões representam, individualmente, menos de 10% da arrecadação e, no caso específico das regiões Noroeste e Jequitinhonha/Mucuri, representa menos de 1% da arrecadação estadual. No quesi- to investimentos, anunciados por regiões de planejamento pelo governo de Minas, no período de 2003 a 2008, é notória a concentração, também, na região Central, recebendo quase 60% dos investimentos. Os outros, cerca de 40% dos investimentos, 10,1% são investidos no Triângulo e 11,5% na região do Rio Doce, restando menos de 20% para serem distribuídos entre as outras sete regiões do estado: Alto Paranaíba, Centro Oeste, Mata, Noroeste, Norte e Jequitinhonha/Mucuri, os quais, individualmente, recebem menos de 5% dos investimentos, sendo que, para a região do Jequitinhonha/Mucuri, é alocado, somente, 1% dos investimentos do Estado de Minas Gerais. TABELA 7 Minas Gerais: receita tributária e investimentos anunciados por regiões de planejamento Região Receita tributária ICMS/outras receitas – 2002/R$ mil % Investimentos (2003-2008)/ R$ mil % Central 6.640.752 66,2 76.137.340 59,7 Mata 459.961 4,6 5.679.704 4,4 Sul de Minas 809.317 8,1 4.847.986 3,8 Triângulo 983.593 9,8 12.933.956 10,1 Alto Paranaíba 138.243 1,4 3.948.460 3,1 Centro Oeste de Minas 245.751 2,4 2.370.512 1,9 Noroeste de Minas 46.192 0,5 2.841.489 2,2 Norte de Minas 165.560 1,6 2.922.944 2,3 Jequitinhonha/Mu- curi 48.710 0,5 1.263.989 1,0 Rio Doce 494.123 4,9 14.659.924 11,5 Minas Gerais 10.032.203 100 127.606.304100 Fonte: GARCIA; NOGUEIRA; PRADO, 2009; SCAVAZZA, 2003. Organizado por PEREIRA, 2011.- Os dados apresentados na tabela 7 mostram a concentração de mais da metade da arre- cadação e dos investimentos na região Central, o que aponta para a concentração de riquezas (PIB) e de população na região metropolitana de Belo Horizonte e, também, a maior presença do Estado nessas áreas mais desenvolvidas, do ponto de vista do dinamismo econômico e urbano. Contrariamente, verifica-se uma menor presença do Estado nas regiões Noroeste, Norte e Jequi- tinhonha/ Mucuri. Outro elemento importante na economia mineira são as exportações, sendo o minério de ferro, café, soja, automóveis e produtos siderúrgicos os principais produtos exportados, com cerca de 80% das exportações constituída por commodities, ou seja, Minas Gerais é um estado exportador de produtos primários. A produção exportada, por domicílio fiscal, encontra-se con- centrada na região Central, representando 55,6% das exportações mineiras, seguida, de longe, pela região Sul, que exporta 12,8% da produção mineira. As outras oito regiões, individualmente, representam menos de 10% das exportações do estado, como demonstra a figura 38. 61 Geografia - Geografia de Minas Você pode observar as dualidades econômicas entre as regiões do Estado de Minas Gerais: A região Central concentra as atividades econômicas industriais, comerciais/serviços e urbanas, rep- resentando, também, a concentração na arrecadação de tributos, nos investimentos anunciados e nas exportações e é seguida pelas regiões do Triângulo, Sul, Mata, Alto Paranaíba, Rio Doce e Centro Oeste, que apresentam um dinamismo econômico considerável, enquanto as regiões Noroeste, Norte e Jequitinhonha/Mucuri apresentam os piores indicadores econômicos. 3.3.5 Indicadores sociais de Minas Gerais: Regiões de Planejamento da Fundação João Pinheiro A realidade e as condições sociais no Estado de Minas Gerais podem ser compreendidas no contexto do intenso processo de modernização econômica e de urbanização nas áreas interio- ranas do território brasileiro. Para Campos et al (2003), os problemas sociais foram gerados pela incapacidade do Estado em oferecer políticas públicas de cunho social na área urbana e rural, uma vez que a pobreza rural e a concentração de terras levaram à migração da mão-de-obra camponesa para a cidade. Chegando à cidade, esses migrantes se depararam com a ausência de reformas urbanas, com a repressão sindical, com a precarização do trabalho e com o uso de tec- nologia na produção, que poupou mão-de-obra, causando o desemprego estrutural. A margi- nalização do migrante ocorreu, e ocorre, por causa do crescimento econômico predador, do bai- xo nível de renda, do analfabetismo, da baixa escolaridade e da baixa remuneração do trabalho, principalmente, o trabalho das mulheres e da população negra. Considerando os problemas sociais regionais, Campos et al (2003) destaca que nas regiões menos desenvolvidas, encontram-se as pessoas com baixa escolaridade, em situação de pobreza e miséria, desempregadas, com pouca qualificação e com precário acesso à infraestrutura econô- mica e social, enquanto nas regiões desenvolvidas, encontra-se a população pouco qualificada, oriunda das áreas rurais, desempregada, a precariedade nas habitações e a explosão da violência urbana; ressalta-se que existem pessoas qualificadas desempregadas, também. Em Minas Gerais, encontramos, também, problemas sociais diversos, causados pela moder- nização agrícola, pela industrialização e pela urbanização, que geraram o êxodo rural, o cresci- mento desordenado das cidades, o desemprego e a violência urbana, entre outros. O acesso à infraestutrura e aos serviços públicos de saneamento básico por regiões de planejamento é con- centrado e muito desigual no espaço geográfico mineiro. 3.3.5.1 – Serviços de saneamento básico em Minas Gerais O saneamento básico é um componente muito importante no processo de desenvolvimen- to e na garantia de qualidade de vida da população. Nas regiões de Minas Gerais, podem ser ◄ Figura 38: Exportações por regiões de planejamento em Minas Gerais, 2008. Fonte: Disponível em <www.exportamina. mg.gov.br> acesso em 03 set. 2011. GLOSSÁRIO: Commodity: (plural commodities) termo originário da língua inglesa, que significa mercadoria. Também é utilizado nas transa- ções comerciais de produtos de origem primária nas bolsas de mercadorias (Bolsa de Valores). Commodities: – refe- rência aos produtos de base em estado bruto (matérias-primas), ou com pequeno grau de industrialização, de qualidade quase uni- forme, produzidos em grandes quantidades e por diferentes produ- tores. Esses produtos in natura, cultivados ou de extração mineral, podem ser estocados por determinado perío- do, sem perda signifi- cativa de qualidade e possuem cotação e ne- gociabilidade globais, utilizando bolsas de valores/mercadorias. Fonte: Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior – MDIC, 2011. ATIVIDADES: No seu ponto de vista, o que pode ser feito pelo Estado para redu- ção das desigualdades econômicas regionais em Minas Gerais? GLOSSÁRIO: Desemprego estru- tural: caracterizado por mudanças estru- turais em setores da economia, que com o uso de tecnologia na estrutura de produção resultam na eliminação dos postos de trabalho, consequentemente, não há a criação de no- vos postos de trabalho para absorver esses desempregados. Fonte: SENE; MOREIRA, 1998 62 UAB/Unimontes - 8º Período observadas as desigualdades na distribuição espacial do atendimento de serviços de sane- amento básico, considerando o abastecimento de água, esgoto sanitário e limpeza urbana, com cobertura deficiente e, mesmo, carência total dos mesmos em domicílios. O serviço de distribuição de água por do- micílios é desigual entre as regiões de planeja- mento de Minas Gerais. Dessa forma, a região Central e a do Triângulo apresentam os melho- res indicadores, ultrapassando 90% da oferta do serviço de distribuição de água. As regiões do Alto Paranaíba e Centro Oeste são aten- didas, respectivamente, com 82% e 86% dos serviços de distribuição de água. Já as regiões Noroeste, Norte, Rio Doce, Mata e Sul têm uma cobertura de abastecimento de água en- tre 71% e 79%. O pior indicador no acesso ao serviço de abastecimento de água é da região Jequitinhonha, com apenas 65%, ou seja, 35% dos domicílios, nessa região, não têm acesso ao serviço de distribuição de água. Essas infor- mações podem ser observadas na figura 39. Considerando o nível de esgotamento sanitário, por regiões de planejamento em Minas Gerais, no ano de 2000, as disparidades regionais são apresentadas nos indicadores, uma vez que o Triângulo apresentou o melhor indicador, com 85% de cobertura, enquanto as regiões: Mata, Sul, Alto Paranaíba, Centro Oes- te e Central apresentaram entre 71% e 78% de cobertura por esgoto sanitário. A região Rio Doce apresentou como indicador 61% de co- bertura, e os piores indicadores ficaram com o Noroeste, Jequitinhonha/Mucuri e Norte, que apresentaram os percentuais de 44%, 39% e 24% na cobertura dos domicílios atendidos por esgoto sanitário. As informações referen- tes às instalações sanitárias podem ser obser- vadas na figura 40. No quesito limpeza pública, o indicador representado pela coleta de lixo diária nos domicílios mineiros, em 2000, verifica-se, tam- bém, a desigualdade regional na coleta de lixo nas residências. O melhor indicador ficou, no- vamente, com a região do Triângulo, que tem uma cobertura de 90% do lixo coletado, se- guido pelas regiões Central, Centro Oeste, Alto Paranaíba e Sul, apresentando indicadores su- periores a 81% e inferiores a 90%, um número expressivo nesse quesito. Enquanto as regiões da Mata, Noroeste e Rio doce apresentaram 77%, 70% e 66% do lixo coletado nas residên- cias, respectivamente, o Norte de Minas apre- sentou o segundo pior indicador, com 54% do lixo coletado, seguidopela região Jequitinho- nha/Mucuri com 48%, o pior indicador. A figu- ra 41 mostra essas informações. ▲ Figura 39: Abastecimento de água: porcentagem de domicílios atendidos por regiões de planejamento, 2000. Fonte: BDMG, 2002, p. 40, b. ▲ Figura 40: Esgoto/instalação sanitária – porcentagem de domicílios atendidos, por regiões de planejamento, 2000. Fonte: BDMG, 2002, p. 44, b. ▲ Figura 41: Lixo coletado - porcentagem de domicílios atendidos, por regiões de planejamento, 2000. Fonte: BDMG, 2002, p. 48, b. 63 Geografia - Geografia de Minas De forma geral, em 2000, você pode observar que o Triângulo apresentou os melhores in- dicadores no abastecimento de água, no serviço de esgoto e na coleta de lixo, sendo que mais de 85% das residências nessa região são atendidas pelos serviços citados. As regiões Central, Sul, Mata, Alto Paranaíba e Centro Oeste apresentaram, também, indicadores relevantes, enquanto os piores indicadores concentram-se nas regiões Rio Doce, Noroeste, Norte e Jequitinhonha/ Mucuri, com a situação mais crítica nas regiões Norte e Jequitinhonha/ Mucuri, onde aparecem os menores índices na oferta do serviço de água, de esgoto e de coleta de lixo. 3.3.5.2 – Indicie de Desenvolvimento Humano – e o Indicie de GINI em Minas Gerais O Índice de Desenvolvimento Humano – IDH é medido em uma escala de zero a um, usan- do-se três casas decimais após a vírgula. Quanto maior o valor, melhor é o desenvolvimento huma- no. No cálculo do IDH consideram-se os indicadores escolaridade, longevidade e renda. Para Veiga (2006), o IDH tornou-se um instrumento relevante na análise dos indicadores sociais, evitando-se, assim, o uso exclusivo dos indicadores econômicos na aferição do desenvolvimento socioeconômico. Em 2000, o IDH do Estado de Minas Gerais correspondia a 0,773. Quando analisamos o IDH por regiões de planejamento, a região do Triângulo apresenta o melhor índice, com 0,816. Outras quatro regiões, Central, Alto Paranaíba, Centro-Oeste e Sul, apresentam o IDH maior que o indicador estadual, correspondendo a 0,798, 0,793, 0,788 e 0,787, respectivamente, enquanto cinco regiões-- Mata, Noroeste, Rio Doce, Norte e Jequitinhonha/Mucuri-- apresentam o indicador do IDH abaixo do índice estadual, com 0,764, 0,760, 0,739, 0,697 e 0,665, respectivamente, sendo o da região Jequitinhonha/Mucuri, o pior IDH em Minas Gerais. A tabela 8 mostra o IDH de Minas Gerais, por regiões de planejamento. Tabela 8 Indicie de Desenvolvimento Humano–IDH por regiões de planejamento (2000) Região de planejamento Indicie de Desenvolvimento Humano – IDH Triângulo 0,816 Central 0,798 Alto Paranaíba 0,793 Centro-Oeste de Minas 0,788 Sul de Minas 0,787 Zona da Mata 0,764 Noroeste de Minas 0,760 Rio Doce 0,739 Norte de Minas 0,697 Jequitinhonha/Mucuri 0,665 Minas Gerais 0,773 Fonte: BRUMER, 2009. Além do IDH, temos o índice de GINI para indicar igualdade ou desigualdade na distribuição de renda. O índice GINI apresenta uma variação de zero a um, sendo zero o indicador de situação plena de igualdade e um o indicador de situação de máxima desigualdade. Na análise do índice GINI, usaremos a divisão do Estado de Minas Gerais em mesorregiões, porque essa é a única fon- te que aborda a distribuição de renda. Na análise da distribuição de renda por mesorregiões, o coeficiente de GINI mostra desi- gualdade na distribuição de renda no estado. Tendo como referência o índice de GINI 0,610 de Minas Gerais, as mesorregiões Rio Doce, Triângulo/Alto Paranaíba, Noroeste, Campos das Verten- tes, Oeste, Sul/Sudeste, Zona da Mata e Central Mineira apresentam melhores indicadores que o Estado de Minas Gerais na distribuição de renda, enquanto as mesorregiões Vale do Mucuri, 64 UAB/Unimontes - 8º Período Norte, Região Metropolitana de Belo Horizonte e Jequitinhonha apresentam um indicador igual ou pior que o de Minas Gerais. Essas informações podem ser vistas na tabela 9. Tabela 9 Renda domiciliar per capta média e índice de GINI em Minas Gerais e nas 12 mesorregiões mineiras, de acordo com o censo de 2000 Mesorregiões Renda percapita/média Índice de GINI Oeste de Minas 260,52 0,530 Sul/Sudeste de Minas 288,62 0,562 Triângulo/Alto Paranaíba 326,69 0,571 Central Mineira 227,23 0,756 Campos das Vertentes 238,39 0,578 Zona da Mata 253,44 0,592 Rio Doce 207,70 0,604 Noroeste de Minas 212,06 0,609 Jequitinhonha 112,09 0,610 RMBH 350,69 0,613 Norte de Minas 132,76 0,628 Vale do Mucuri 153,07 0,638 Minas Gerais 272,98 0,610 Fonte: SIMÃO, 2008. Os valores extremos da tabela 9 destacam a região Oeste com o melhor indicador de GINI, 0,530, enquanto a região Vale do Mucuri apresenta o pior indicador do índice de GINI, 0,638. O que chama atenção é o elevado índice de GINI apresentado pela RMBH, melhor, apenas, que o índice de GINI do Norte de Minas e do Vale do Mucuri. Isso mostra a desigualdade social em uma região com grande dinamismo econômico, mas com elevada concentração de renda. 3.4 A modernização econômica em Minas Gerais: as implicações socioambientais A exploração predatória dos recursos naturais, associada ao processo de modernização eco- nômica representado pela expansão das atividades agrícolas, da pecuária, da industrialização e dos centros urbanos, tem provocado grandes impactos sociais e ambientais nas áreas urbanas e rurais. O ambiente natural é composto por água, ar, terra e seres vivos, que mantém inter-ra- lações na troca de energia e matéria, mas a necessidade de sobrevivência, com alimentação e abrigo, além do luxo, levou o homem a alterar o equilíbrio e a funcionalidade da natureza para satisfazer as suas necessidades básicas. Ross (2000) destaca que os problemas ambientais estão associados ao crescimento do proces- so de industrialização nos países desenvolvidos, em desenvolvimento e subdesenvolvidos que vem interferindo, agredindo e alterando o equilíbrio do ambiente natural, atendendo, basicamente, aos interesses individuais da sociedade. Para caracterizar os impactos e/ou os problemas socioambien- tais em Minas Gerais, fizemos a opção de trabalhar com seis grupos: impactos ambientais das obras de infraestutura e das atividades pecuaristas, agrícolas, mineradoras, industriais e urbanas. ATIVIDADES: No seu ponto de vista, o que pode ser feito pelo Estado para a redução das desigual- dades sociais regionais em Minas Gerais? 65 Geografia - Geografia de Minas 3.4.1 Impactos socioambientais das obras de infraestrutura As construções de obras de infraestrutura dos setores rodoviário ferroviário, hidroviário, ae- roportuário e energético têm provocado sérios impactos socioambientais ao ambiente natural. Os impactos socioambientais são visíveis nas desapropriações mal remuneradas, na retirada da população do local atingido pelos grandes empreendimentos, no desmatamento, na extinção da flora e fauna, nas inundações de grandes áreas e nas diversas formas de poluição. Todos esses fatores têm trazido sérios transtornos à sociedade mineira. 3.4.2 Impactos socioambientais das atividades pecuaristas A pecuária é uma das atividades econômicas mais antigas do Brasil e de Minas Gerais. Para o BDMG (2002, b), o rebanho bovino está presente em todas as regiões de planejamento de Minas Ge- rais, no entanto, encontra-se mais concentrado nas regiões do Triângulo, Noroeste e Norte de Minas. A expansão da atividade pecuarista tem levado à ocupação de grandes áreas territoriais para criação de gado, e, em função disso, tem causado sérios problemas sociais relacionados à concentração de terra, que resultou na redução das pequenas propriedades, no êxodo rural e na geração de conflitos no campo. A expansão da pecuária, também, tem exigido novas áreas de pastagens cada vez maiores para criação de gado. Na criação de pastagens são comuns as quei- madas, o desmatamento, a aração de terras, o plantio das sementes e uso de defensivos (her- bicidas e inseticidas) no combate às pragas nas pastagens e no próprio rebanho. Além disso,a circulação dos animais pelas pastagens provoca a compactação dos solos, deixando-os estéreis pela erosão e perda de nutrientes (ROSS, 2000; LEPSCH, 2002). Para minimizar os impactos ambientais na atividade pecuarista, é importante cuidar bem das pastagens, reduzindo as queimadas e recuperando as áreas degradadas. 3.4.3 Impactos socioambientais das atividades agrícolas A necessidade de alimentos em Minas Gerais, Brasil e mundo tem levado à expansão da agricultura no território mineiro, criando as chamadas fronteiras agrícolas, com destaque para a produção de soja, concentrada nas regiões do Triângulo e Noroeste, a concentração da cana de açúcar na região do Triângulo, a produção de milho nas regiões do Triângulo, Noroeste e Alto Paranaíba, a produção de feijão no Noroeste e a produção de banana no Norte de Minas (BDMG, 2002, b). Assim como na pecuária, a expansão da agricultura passou a ocupar novas áreas em Minas Gerais. No processo de modernização da agricultura, as inovações técnicas levam ao novo uso da terra, o encurtamento do ciclo produção e a maximização da produção na agricultura (SANTOS e SILVEIRA, 2003). Em Minas Gerais, o sistema de agricultura irrigada é uma forma de visibilidade no processo de inovação tecnológica na agri- cultura, principalmente, nas regiões mineiras que apresentam longos períodos de estiagem ou de seca. A figura 42 exemplifica o uso de água no sistema de irrigação de atividades agrí- colas do Projeto Jaíba, localizado no Norte de Minas Gerais. A demanda de novas áreas para a ex- pansão das fronteiras agrícolas tem levado à concentração de terras, ao conflito agrário, ao êxodo rural, ao desmatamento, à compac- tação dos solos por maquinários agrícolas, à degradação/erosão dos solos e à poluição da água, ar e solo por resíduos oriundos de adu- bos químicos e agrotóxicos (SANTOS; SILVEI- RA, 2003; LEPSCH, 2002). Esses problemas são notórios, também, no espaço rural mineiro. Figura 42: Agricultura irrigada no Projeto Jaíba Fonte: Disponível em <http://www.agrocim. com.br/noticia> acesso em 05 ago. 2011. ▼ 66 UAB/Unimontes - 8º Período A sustentabilidade da agricultura mineira dependerá da redução dos conflitos no campo, e um caminho seria via reforma agrária; do controle de praga por meio de processos biológicos; do manejo agrícola; do estabelecimento de reservas ecológicas para preservação da flora e fau- na, e da recuperação de áreas degradadas. 3.4.4 Impactos socioambientais das atividades mineradoras A expansão das indústrias de base, onde se destaca a siderurgia, levou ao aumento da demanda por recursos minerais, como minério de ferro, manganês, bauxita, ouro e quartzo, entre outros. Nas palavras de Branco (1999) e Ross (2000), a exploração de recursos minerais para abastecer as grandes indústrias tem cau- sado diversos transtornos socioambientais. Os impactos ambientais que se destacam nas re- giões mineradoras são o desmatamento, a re- moção de solos, o elevado consumo de ener- gia, a abertura de estradas para escoamento da produção, a violência e a abertura de cra- teras/galerias para extração de minerais. Esses problemas ambientais são verificados nas re- giões mineradoras de Minas Gerais, principal- mente, na região do Quadrilátero Ferrífero, onde estão localizadas as grandes jazidas de ferro do Brasil, ocupando uma área de aproximadamente 7.000 km2. A figura 43 retrata a degradação ambiental em uma mina da Companhia Vale, localizada em Itabira, uma vez que após o desma- tamento, a remoção do solo e a extração do minério, é deixada uma grande cratera na área de exploração mineral. Em Minas Gerais, a exploração de jazidas de minério de ferro, manganês, bauxita e ouro, entre outras, é feita por empresas nacionais e estrangeiras. As empresas Aluminium Canadian Corporation – ALCAN e Vale (antiga Companhia Vale do Rio Doce - CVRD) exploram e exportam grande parte dos recursos minerais extraídos da região do Quadrilátero Ferrífero mineiro (SCAR- LATO, 2000), entretanto, quando essas empresas apresentam perdas de rentabilidade nas minas esgotadas, ou quase esgotadas, essas minas são abandonadas, deixando, nas regiões minerado- ras, os terrenos expostos e erodidos, os quais mostram a verdadeira degradação do meio am- biente. A exploração dos recursos minerais causa grandes intervenções negativas no meio natu- ral, pois, além de desmatar florestas, remover solos/rochas, extrair o minério e deixar as crateras, provoca, também, intensificação do processo erosivo, da contaminação/poluição dos corpos hí- dricos e do assoreamento dos leitos dos rios, ocasionando a extinção de alguns rios e agravando, ainda mais, a problemática socioambiental nas áreas mineradoras ou, até mesmo, nas áreas mais distantes das regiões mineradoras. 3.4.5 Impactos socioambientais das atividades industriais A industrialização pode ser caracterizada pela transformação da matéria-prima em produ- tos acabados e semi-acabados, por meio do uso de maquinarias e de mão-de-obra assalariada. A industrialização é um fenômeno urbano, uma vez que a modernização agrícola levou à priva- tização da terra, à concentração de terras e ao uso intenso de tecnologia agrícola, que refletiu no deslocamento das pessoas do campo para cidade, em busca de melhor qualidade de vida. Chegando à cidade, parte dessa população tornou-se mão-de-obra assalariada nas indústrias, mas outra parte não ingressou no mercado de trabalho, gerando os problemas socioambientais, principalmente, nas periferias das cidades (ROCHEFORT, 2008). Além disso, as indústrias geram uma grande quantidade de resíduos a partir do processamento de matérias-primas, resultando na poluição ambiental. A degradação ambiental pode ser caracteri- zada pelo lançamento de uma grande quantidade de resíduos sólidos, líquidos e gasosos no ar, nas ▲ Figura 43:Itabira–MG. Mina da Companhia Vale Fonte: Disponível em: <http://caiohostilio. com/?p=817> acesso em 15 ago. 2001. 67 Geografia - Geografia de Minas águas e nos solos do ambiente urbano, princi- palmente, partículas de monóxido de carbono, dióxido de carbono e dióxido de enxofre, entre outras. Esses poluentes lançados pelas indústrias no meio ambiente afetam, direta e indiretamen- te, a qualidade de vida da população urbana (ROSS, 2000). Esses problemas ambientais po- dem ser observados nos parques industriais de Minas Gerais, localizados em pontos estratégicos do território mineiro, e, para ilustrar a poluição do meio ambiente, provocada pela atividade in- dustrial, a figura 44 mostra a poluição ambiental causada por resíduos expelidos das chaminés dos fornos siderúrgicos, no parque industrial de Pirapora – MG. Outras atividades econômicas que dão su- porte à siderurgia são a extração de recursos minerais, já discutida nesta unidade e a planta- ção de eucaliptos, monocultura responsável por fornecer lenha para queima nas carvoeiras, que produzem o carvão vegetal usado nas siderúrgi- cas. A figura 45 mostra uma carvoeira em opera- ção no município de Buritizeiro – MG. A monocultura de eucalipto ocupa grandes extensões de terras, levam ao desmatamento da mata nativa e à extinção dos animais selvagens, e emprega pouca mão-de-obra, por causa do uso de tecnologia na linha de produção. A car- voeira está relacionada à expansão da monocul- tura do eucalipto e ao desmatamento das matas nativas para fazer lenha e, consequentemente, carvão vegetal. Além de degradar o meio am- biente, degrada, também, o ser humano, por causa da exploração do trabalho, utilizando, in- clusive, o trabalho escravo em muitas delas, da baixa remuneração e das péssimas condições de moradia e alimentação. Além da siderurgia, outras indústrias, como a de couro, papel e celulose, têxtil, petroquímica, etc., produzem resíduos sólidos, líquidos e gaso- sos, responsáveis pela poluição sonora, visual, do ar, do solo e das águas, gerando problemas diversos para a saúde e interferindo, negativamente, na qualidade de vidadas pessoas (ROSS, 2000). Em Minas Gerais, entre os principais danos ambientais causados pelas atividades industriais estão o desmatamento para instalação de indústrias, o lançamento de esgoto industrial nos cor- pos hídricos, a poluição do ar, sonora e visual, a contaminação dos solos e o elevado consumo de água, energia e recursos naturais. 3.4.6 Impactos socioambientais das atividades urbanas O processo de modernização da agricultura, associado à expansão da industrialização nos centros urbanos, provocou o êxodo rural, promovendo o deslocamento das pessoas do campo para as cidades, em busca de emprego e melhores condições de vida. Mas na realidade, grande parte dessas pessoas, sendo analfabetas ou semi-analfabetas, não conseguiu ingressar no mer- cado de trabalho e, portanto, não melhoraram as condições de vida, indo morar em favelas, nas periferias dos grandes centros urbanos, e trabalhar em subempregos. Isso propiciou um cresci- mento desordenado das cidades, gerando graves problemas sociais, pois o crescimento horizon- tal das cidades não foi acompanhado pelas melhorias na infraestrutura urbana, agravando, ainda mais, a problemática socioambiental (ROSS, 2000; ROCHEFORT, 2008). ▲ Figura 44: Parque industrial de Pirapora: siderurgia e poluição ambiental. Fonte: Disponível em: <http://julianamakiyama.blogspot.com/> acesso em 25 ago. 2011. ▲ Figura 45: Carvoeira em operação, no município de Buritizeiro – MG. Fonte: Disponível em: <http://www.upira.com.br/noticias.php?id=2016&cid=1> acesso em 28 ago. 2011. 68 UAB/Unimontes - 8º Período Em Minas Gerais, as cidades médias como Uberlândia, Juiz de Fora e Montes Claros, entre outras, e a região metropolitana de Belo Horizon- te apresentam, também, sérios problemas socio- ambientais. Os problemas socioambientais no território mineiro podem ser caracterizados pelo desmatamento de florestas para expansão terri- torial das cidades, pela deficiência na prestação de serviço de água tratada, pela precariedade na coleta de lixo, pelo baixo tratamento do esgoto doméstico que é lançado, diretamente, nos cor- pos hídricos e pelo baixo investimento na pavi- mentação de ruas, nas áreas periféricas da cidade. Dentre os diversos problemas socioam- bientais, podemos destacar a pouca oferta de áreas de lazer e de áreas verdes nas cidades, as deficiências nos núcleos de formação educa- cional e no atendimento médico, a poluição sonora, da água, ar e solo, o desemprego, a violência urbana, a miséria nas periferias das cidades, as péssimas condições sanitárias e a ocupação das áreas de risco, como margens de rios (esgotos) e morros pela população mais carente. A ocupação de área de riscos, como as encostas de morros, origina as favelas, levan- do, também, à ocupação de áreas de proteção ambiental, destruindo mananciais, flora e fau- na. Além disso, o desmoronamento de encos- tas gera diversos transtornos sociais, deixando pessoas desabrigadas, feridas e mortas. O crescimento da população urbana au- mentou também, a geração de resíduos (lixo doméstico, de empreendimentos comerciais, hospitais, borracharias e oficinas mecânicas), que são depositados nos aterros sanitários e jogados em lixões e nas vias públicas, trazendo sérios transtornos para sociedade, principal- mente, na época de chuva. A impermeabilização do solo, por asfalto, dificulta a infiltração e aumenta o escoamento superficial das águas da chuva. A presença de lixo, nas vias públicas, associada à deficiência na drenagem urbana, tem provocado inunda- ções nas áreas mais baixa do relevo. A figura 46 mostra a inundação de residências e casas comerciais na área central de Belo Horizonte, pelo Ribeirão Arruda, na época das chuvas, destruindo a infraestrutura urbana e trazendo diversos transtornos para população do entorno. Outro problema urbano grave nas cidades médias e grandes é o trânsito, uma vez que a facilidade de crédito para adquirir veículos, associada à precariedade do transporte público e a ausência, ou pouca opção, de circulação por transporte alternativo não motorizado, tem abarro- tado as ruas com veículos automotores particulares. De uma forma geral, a cidade é planejada para os carros, mas a expansão da infraestrutura ur- bana não acompanha o ritmo de crescimento da frota de veículos, gerando congestionamentos que causam problemas econômicos e sociais, além da poluição do meio ambiente e o aumenta do nú- mero de acidentes, que, na atualidade, é um grave problema urbano. A figura 47 mostra um grande congestionamento, com trânsito totalmente parado, na região metropolitana de Belo Horizonte. O desenvolvimento urbano precisa, efetivamente, de políticas públicas que levem à redu- ção das desigualdades sociais. Sendo assim, cito Ross (2000, p. 237) para fechar esta unidade: ▲ Figura 46: Enchente do Ribeirão Arruda, na região Central de Belo Horizonte – MG. Fonte: Disponível em: <http://geografiaeatualidades.blogspot.com/2009_01_01_archi- ve.html> acesso em 28 ago. 2011. ▲ Figura 47: Congestionamento na região metropolitana de Belo Horizonte – MG. Fonte: Disponível em: <http://noticias.r7.com/cidades/fotos/belo-horizonte-tem-o-tem- poral-mais-forte-em-98-anos-20101123-3.html> acesso em 27 ago. 2011. 69 Geografia - Geografia de Minas É necessário atender mais e melhor as populações que sobrevivem nas perife- rias urbanas e em favelas, através de programas de desenvolvimento econô- mico e social que contemplem suas necessidades básicas de saúde, educação, habitação, profissionalização e alimentação. Não se pode pensar em qualidade ambiental para a humanidade sem pensar na melhoria da qualidade de vida de todos os seres humanos da terra. O grande desafio que a sociedade mineira tem pela frente é, justamente, reivindicar, prin- cipalmente do poder público, investimentos nas obras de infraestrutura e implementação de políticas públicas sociais, com o intuito de minimizar e/ou resolver os problemas relacionados à desigualdade regional, econômica e social nas áreas urbanas e rurais, em prol de um desenvolvi- mento econômico e social sustentável. Referências AGÊNCIA NACIONAL DE TRANSPORTES TERRESTRES – ANTT. Anuário Estatístico dos Transpor- tes Terrestres – AETT. Brasília: ANTT, 2008. Disponível em <http://www.antt.gov.br> acesso em 20 nov. 2010. BANCO DE DESENVOLVIMENTO DE MINAS GERAIS – BDMG. Minas Gerais do século XXI: o pon- to de partida. Belo Horizonte: Rona Editora, 2002 a. ______. Minas Gerais do século XXI: reinterpretando o espaço mineiro. Belo Horizonte: Rona Editora, 2002 b. ______. Minas Gerais do século XXI: Infraestrutura: sustentando o desenvolvimento. Belo Hori- zonte: Rona Editora, 2002 c. 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DICAS: Pesquise em livros, revistas, jornais e sites especializados, os assuntos relacionados com os problemas socioambientais em Minas Gerais, mostran- do o que o governo e a sociedade estão fazendo para minimizar a problemática socio- ambiental. 70 UAB/Unimontes - 8º Período GARCIA, Marshall; NOQUEIRA, Aguinaldo H; PRADO, Gislaine A. do. Desenvolvimento econômi- co: a redução das desigualdades regionais. In: INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO DO NORTE E NORDESTE DE MINAS GERAIS - IDENE. Redução das desigualdades regionais: uma das faces do choque de gestão. Belo Horizonte: Rona, 2009. HOYLE, Brian; KNOWLES, Richard. Modern transport geography. 2 ed. Chichester-UK: John Wi- ley & Sons Ltd, 2001. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Transportes e comunicações. Rio de Janeiro: IBGE, 1985. LEPSCH, Igo F. Formação e Conservação dos Solos. São Paulo: Oficina de Textos, 2002. MAGNAGO, Angélica Alves. A divisão regional brasileira: uma revisão bibliográfica. 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Rio de Janeiro: Gara- mond, 2006. 71 Geografia - Geografia de Minas Resumo Unidade I Na unidade I, você aprendeu: • Aspectos gerais da formação territorial e geohistórica do Brasil Colonial; • Sobre a história antiga de Minas Gerais e o início de sua formação geográfica; • Um pouco mais sobre a cartografia e a regionalização geohistórica de Minas Gerais; • A riqueza e a importância da política, da economia e da sociedade mineira no contexto do Brasil Colonial, Imperial e Republicano. Resumo Unidade II Na unidade II, você aprendeu: • Minas Gerais possui a quinta maior área territorial do Brasil e é o segundo estado mais po- puloso. • Em Minas Gerais o relevo é constituído, principalmente, de planalto e depressão. Há grande ocorrência de serras, destacando a grande Serra do Espinhaço; • Predomina os climas: tropical de altitude e tropical. Apenas no extremo norte do estado há o clima semiárido, com prevalência da seca; • A economia mineira é bastante diversificada, no entanto, seu PIB está concentrado nas regi- ões Central, Triângulo e Sul. Resumo Unidade III Na unidade III, você aprendeu: • A regionalização de Minas Gerais feita pelo IBGE, as mesorregiões e microrregiões geográfi- cas; • A infraestrutura econômica em Minas Gerais por regiões de planejamento, a infraestrutura rodoviária, ferroviária, dutoviária e aeroviária; • O sistema energético de Estado de Minas Gerais, as empresas do setor de energia, Furnas e CEMIG, o consumo de energia residencial e rural nos municípios e nas regiões mineiras; • O Índice de Desenvolvimento Humano por regiões de planejamento e o índice de GINI por mesorregiões geográficas; • Modernização econômica, os problemas socioambientais e a desigualdade social em Minas Gerais. 73 Geografia - Geografia de Minas Referências Básicas AMORIM FILHO, O. B. et al. Os Eixos de Desenvolvimento em Minas Gerais e suas Tecnópoles. Projeto CEX, 170495. Belo Horizonte: PUC/Minas, 1999. CARNEIRO, M. de F. B. O regionalismo mineiro. Caderno Geográfico, v. 01, n. 03. Montes Claros: Departamento de Geociências – UNIMONTES, 1999. PEREIRA, A. M. Cidade média e região: o significado de Montes Claros no Norte de Minas Gerais. 2007. 351 f.. Tese (Doutoramento em Geografia e Gestão do Território) – Programa de Pós- Graduação em Geografia. – Universidade Federal de Uberlândia, 2007. Complementares MATOS; R. (org.) Espacialidades em Rede: população, urbanização e migração no Brasil con- temporâneo. Belo Horizonte: C/arte, 2005. DULCI, O. S. Política e Recuperação Econômica em Minas Gerais. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999. Suplementares Fundação João Pinheiro/FJP. Centro de Estatística e Informações. Perfil demográfico do Estado de Minas Gerais- 2002. Belo Horizonte, 2003. POLASTRI, M. H. T. Geografia e História de Minas Gerais. Belo Horizonte: Vigília, 1987. 75 Geografia - Geografia de Minas Atividades de Aprendizagem - AA Questão 01 - Os motivos da dispersão, intensa e rápida, pelo interior brasileiro, que ocorreu na metade do século XVIII, estão, intimamente, relacionados: a) À descoberta do ouro no sertão b) Aos propósitos de cada colonizador c) Para contribuir com a colonização espanhola concorrente. d) Para modernizar a agricultura Questão 02- Para AB’SABER (2003), a descoberta de ouro nos planaltos do centro-sul de Minas ofuscou-lhe a vida econômica singela, provocando uma precoce decadência para os agrupa- mentos humanos segregados que os povoavam. Todas as afirmações abaixo corroboram o argumento do autor, exceto: a) Houve, também, sucesso econômico, por muito tempo ligado à utilização do solo. b) Construção de núcleos dispersos no território c) Sucesso econômico de todos os exploradores das minas d) Aumento exagerado da população na região das minas Questão 03- Como podemos definir a regionalização do território mineiro no século XVIII ? Assi- nale a opção correta. a) De acordo com o estabelecimento dos núcleos de povoamento e ocupação do território b) De acordo com as necessidade de organização da região das minas c) De acordo com o estabelecimento das vias de acesso e ocupação do territóriod) De acordo com o estabelecimento das cidades e ocupação do território Questão 04 - Sobre a composição fitogeográfica, assinale a alternativa INCORRETA. a) O bioma da Mata Atlântica que existia em Minas Gerais foi extinto durante o processo de expansão da mineração. b) O cerrado predomina no estado de Minas Gerais, principalmente, na direção centro-oeste. c) A vegetação definida como campo rupestre prevalece nas áreas da Serra do Espinhaço. d) O bioma da Caatinga aparece no extremo norte do território mineiro, quase na divisa com o nordeste. 76 UAB/Unimontes - 8º Período Questão 05 - Marque a alternativa ERRADA sobre as características naturais de Minas Gerais. a) O maior potencial hidrelétrico instalado em Minas está na bacia hidrográfica do Jequitinhonha. b) O Cerrado predomina no território mineiro, ocupando cerca de 50% do estado. c) A maior bacia hidrográfica do estado é a do São Francisco que nasce na Serra da Canastra. d) O relevo mineiro se destaca por apresentar predominância de planícies. Questão 06 - Observe a pirâmide etária. Sobre as transformações na estrutura demográfica de Minas Gerais, entre 1970 e 2000, é CORRE- TO afirmar que a) A população mineira passou a viver mais, o que mostra a melhoria na condição de vida. b) A população de maneira geral diminuiu, pois está reduzindo o número de nascimentos. c) A pirâmide mostra que a taxa de migração sofreu pequena mudança ao longo desses anos. d) A quantidade de crianças e adolescentes aumentou com o tempo, uma vez que as pessoas ganham mais. Questão 07 - A economia de Minas Gerais vem apresentando, nos últimos anos, crescimento aci- ma da média. Assinale a alternativa CORRETA sobre a economia mineira. a) As regiões do norte e oeste de Minas Gerais são as que mais contribuem para o crescimento do PIB. b) A região central do estado tem uma economia voltada para a produção agropecuária. c) No Triângulo Mineiro, as atividades de mineração são responsáveis por mais de 30% do PIB estadual. d) A produção de alta tecnologia é o principal motivo do crescimento da economia mineira. 77 Geografia - Geografia de Minas Questão 08 – Considerando os dados apresentados na tabela abaixo, assinale a alternativa Correta. IDH por regiões de planejamento em Minas Gerais (2000) Região de planejamento Indicie de Desenvolvimento Humano - IDH Triângulo 0,816 Central 0,798 Alto Paranaíba 0,793 Centro-Oeste de Minas 0,788 Sul de Minas 0,787 Zona da Mata 0,764 Noroeste de Minas 0,760 Rio Doce 0,739 Norte de Minas 0,697 Jequitinhonha/Mucuri 0,665 Minas Gerais 0,773 Fonte: BRUMER, 2009. Observação: Em uma escala de zero a um, quanto maior o valor numérico, melhor é o IDH. a) ( ) O Estado de Minas Gerais apresentou um IDH melhor que as 10 regiões mineiras. b) ( ) O índice do IDH é melhor nas regiões Rio Doce, Norte de Minas, Jequitinhonha/Mucuri. c) ( ) A região do Triângulo Mineiro apresenta o pior IDH no Estado, enquanto a região Jequi- tinhonha/Mucuri tem o melhor IDH. d) ( ) As regiões Triângulo Mineiro, Central e Alto Paranaíba apresentam um IDH melhor que o Estado de Minas Gerais. Questão 09 – Analise a figura que representa o mapa das exportações mineiras abaixo. Assi- nale a alternativa incorreta. Mapa das exportações por regiões de planeja- mento em Minas Gerais – 2008. a) ( ) A região Central exporta sozinha mais da metade da produção mineira. b) ( ) Excluindo a região Central, as outras nove regiões de Minas Gerais juntas ex- portam menos da metade da produção mineira. c) ( ) Excluindo a região Central, as outras nove regiões de Minas Gerais juntas ex- portam mais da metade da produção mineira. d) ( ) As regiões Jequitinhonha/Mucuri, Noroeste de Minas e Norte de Minas juntas expor- tam 3,5% da produção mineira. 78 UAB/Unimontes - 8º Período Questão 10 – Marque Verdadeiro (V) ou Falso (F) nas alternativas a seguir. a) ( ) O desmatamento, o uso de agrotóxicos, a erosão dos solos são os principais problemas ambientais encontrados nas áreas rurais; b) ( ) A extração de recursos minerais no subsolo pelas atividades mineradoras não gera im- pactos ambientais; c) ( ) Os desmatamentos e as queimadas para formação de pastagem são problemas am- bientais causados pela atividade pecuarista; d) ( ) A ocupação das áreas de risco nas grandes cidades não gera um problema ambiental, pois gera somente problema social. Assinale a sequencia CORRETA: a) ( ) V; V; F; F b) ( ) V; F; V; F c) ( ) F; V; V; F d) ( ) V; F; V; V 79 Geografia - Geografia de Minas Apresentação UNIDADE 1 Minas Gerais no Brasil: formação histórica e geográfica de Minas Gerais. 1.1 Introdução 1.2 Formação territorial do Brasil: algumas incursões 1.3 A formação geohistórica de Minas Gerais Referências UNIDADE 2 Aspectos físicos e sociais de Minas Gerais 2.1 Introdução 2.2 Aspectos físicos de Minas Gerais 2.3 O espaço econômico mineiro 2.4 Urbanização de Minas Gerais 2.5 Dinâmica populacional de Minas Gerais Referências UNIDADE 3: A regionalização do espaço geográfico mineiro: os desequilíbrios econômicos, sociais e ambientais 3.1 Introdução 3.2 Contexto da regionalização do espaço geográfico mineiro 3.3 A infraestrutura econômica por regiões no Estado de Minas Gerais 3.4 A modernização econômica em Minas Gerais: as implicações socioambientais Referências Resumo Referências Atividades de Aprendizagem - AA