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TEORIA DO TESTEMUNHO TESE DE PSICOLOGIA

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linguagem, memória e sugestionabilidade podem afectar a sua competência de 
testemunhar. No sistema da justiça criminal dos Estados Unidos e de países da 
Europa, para avaliar a veracidade do testemunho de crianças, os peritos 
examinam as gravações das entrevistas realizadas para detectar se as 
declarações da criança podem ter sido distorcidas pelo entrevistador ou outro 
factor” (Pisa O., 2006, p. 101). 
“Assim, para decidir entre o direito constitucional à liberdade de um cidadão e o 
acolhimento de um grito de socorro de uma criança vítima de crimes contra a 
liberdade sexual, o juiz criminal, geralmente, está adstrito a confrontar a versão 
do réu e da vítima, sendo que essa é submetida a uma série de entrevistas antes 
de prestar suas declarações sob o crivo do contraditório. Parece existir uma 
tendência desses entrevistadores a confirmar a ocorrência do evento. O 
magistrado não tem acesso ao conteúdo dessas entrevistas, porque não são 
gravadas. Resta a ele montar um quebra-cabeça com algumas das informações 
registradas por esses profissionais ou a ele relatadas em audiência” (Pisa O., 
2006, p. 109). 
 
“No Processo Penal a prova pessoal é imprescindível, porque só em casos 
excepcionais os fatos delituosos são comprovados com outros elementos. 
Todavia, ainda que excluindo o falso testemunho deliberado e limitações 
sensoriais, especialmente visão e audição, há uma infinidade de hipóteses que 
podem interferir na precisão dos relatos das crianças, entre eles a fantasia, 
linguagem, memória e sugestionabilidade” (Pisa, 2006, p. 115). 
 
Contudo, há quem entenda que “a criança, fantasista por natureza e mais ou menos 
conforme o seu temperamento, a idade, o ambiente em que vive, a educação que 
recebeu, arquitecta a ideia, fantasia a cena e reprodu-la depois sempre do mesmo 
modo – facto que muito contribui para que se acredite na veracidade do crime que 
relata... a criança é facilmente sugestionável e a sugestão pode fazer-se de boa ou de 
má-fé, por chantagem ou vingança” (Lopes C., 1982, p. 76). 
 
Claro que, mais uma vez, entram aqui em jogo factores sociais que influenciam a 
credibilidade do testemunho. Veja-se o que aconteceu com o testemunho de mulheres 
vítimas de crimes sexuais, que hoje tem muito maior credibilidade do que há anos 
atrás, com o afastamento das teses do confronto com o seu anterior comportamento 
para aferir da existência de uma presunção de consentimento. 
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Tanto assim era que no artigo 392º Código Penal de 1852, aprovado por Decreto de 10 
de Dezembro de 1852 se escrevia: 
 
―Aquelle, que estuprar mulher virgem, ou viúva honesta, maior de doze annos, e menor 
de dezesete annos, terá pena de degredo temporário‖. 
E no respectivo artigo 394º dizia-se: 
―Aquelle, que tiver copula ilícita com uma mulher, posto que não seja menor, nem 
honesta, contra a sua vontade (...) será degradado por toda a vida pelo crime de 
violação‖. 
 
Por via de tais soluções legislativas, verifica-se que se impunha uma qualificação no 
regime punitivo quando se estava perante viúva reconhecida por honesta, que não 
uma qualquer viúva. O mesmo se passava relativamente à mulher tida ou não por 
honesta. Num e noutro caso o comportamento anterior da vítima era decisivo para a 
subsunção dos factos ao direito e certamente para aferir da existência de uma 
presunção de consentimento. Se o não dizia a lei expressamente, a realidade 
positivada deixa transparecer essa mesma ideia. 
 
“Não temos dúvida de que o factor mais importante na mudança de valor 
atribuído às declarações da vítima tem a ver, não tanto com qualquer alteração 
normativa ou de corrente jurisprudencial, mas sobretudo com a mudança 
operada na sociedade, na forma como encara os crimes sexuais e a própria 
sexualidade feminina” (Calheiros M., 2008, p. 83). 
“A compreensão da complexidade da tarefa de apreciação da prova e a 
consciência do seu papel fulcral na obtenção de uma decisão justa levou o 
Judicial Studies Board, em Inglaterra, a emanar um conjunto de regras sobre 
valoração da prova, nas quais o júri deve ser instruído pelo juiz, em sede de 
julgamento” (Dennis, 2002, citado por Calheiros M., 2008, p. 83). 
 
“Todavia, apesar desta iniciativa, não existe no mundo jurídico grande 
consciência da importância da necessidade de realizar uma reflexão séria a este 
propósito. Houve, de resto, uma tendência de refúgio numa confortável noção de 
“intime conviction”, que conduz a um indesejável subjectivismo, com total 
imprevisibilidade do resultado da valoração da prova” (Muñoz, 2003, citado por 
Calheiros M., 2008, p. 83). 
 
“Os factores explicativos para este estado de coisas são vários: vão desde o 
acreditar no uso do dito «senso comum» e da experiência, até à desconfiança 
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endémica relativamente ao reconhecimento da necessidade de recorrer a 
metodologias estranhas ao mundo legal” (Calheiros M., 2008, p. 83). 
 
―(…) Enfim, mesmo na ciência – tal como no processo judicial, diríamos – a única 
verdade que interessa é aquela que possa servir o Homem, e nunca aquela que possa 
instrumentalizá-lo‖ (Calheiros M., 2008, p. 84). 
 
4.1.1. A Valoração da Prova Testemunhal 
 
“A complexidade própria da tarefa de valoração da prova não é a única coisa que 
dificultará o alcance da verdade através dela. Alguns dos obstáculos que existem 
assentam sobre as próprias soluções normativas que regulam a produção da 
prova e o modo como deve realizar-se. Falamos do facto de as leis processuais 
escusarem certas pessoas de prestarem depoimento, pelos seus particulares 
laços com as partes ou o acusado; de se excluir o recurso a meios de prova 
obtidos ilicitamente (…)” (Calheiros M., 2008, p. 84). 
“(…) Também a fórmula estabelecida para a condução do interrogatório das 
testemunhas, quando se faz com a sua condução pelos advogados, pode frustrar 
o conhecimento mais completo dos factos, pois que se encorajam respostas 
curtas e definitivas, e se impede muitas vezes a prestação de informações 
adicionais que se afastem do quadro estabelecido para a inquirição” (Dennis, 
2002, citado por Calheiros M., 2008, p. 84). 
 
―(…) Existem razões muito válidas para a existência de todas estas normas no 
contexto do processo judicial, entre elas os múltiplos valores que, a par da verdade, 
cabe ao direito proteger. Afinal, a obtenção da verdade não pode ser realizada a 
qualquer custo‖ (Calheiros M., 2008, p. 84). 
 
Destarte o Tribunal deverá, no que concerne aos depoimentos prestados em juízo, 
formar a sua convicção com base na ponderação crítica e conjunta da prova, à luz de 
critérios de normalidade e experiência comum, colocando em inegável crise valorativa 
declarações confusas, prestadas em atitude defensiva, de modo incoerente e 
contraditório, com um discurso tenso, esquivo, evasivo e mecanizado, evidenciando 
assim falta de isenção e de credibilidade. Bem como perante respostas não muito 
descritivas, com respostas de ―sim‖ a perguntas longas e por vezes com respostas 
incorporadas. Neste sentido, o Acórdão proferido pelo Tribunal Criminal de Lisboa, 
Processo nº 1718/02.9JDLSB, 8ª Vara, em 03/09/2010 (Processo Casa Pia). 
 
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Valorando positivamente os depoimentos prestados de modo convincente e 
consentâneo com os elementos objectivos descritos nos autos, prestados com 
naturalidade, revelando uma postura aberta, franca e desprendida emocionalmente, 
não procurando efabular os factos, denotando um discurso simples e escorreito, 
consentâneo com o relatar de experiências vivenciadas denotando isenção e 
credibilidade. Denotando clareza expositiva e consistência no seu discurso, solidez e 
espontaneidade, para