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TEORIA DO TESTEMUNHO TESE DE PSICOLOGIA

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do que se supõe o herói, pelo imenso desejo que tem de representar na vida, um 
papel importante” (Pessoa A., 1913, p. 20). 
 
4.4. Condicionantes do Testemunho 
 
4.4.1. A Influência do Sexo 
 
―As experiências feitas para a determinação da influência do sexo levam a admitir que 
os depoimentos das mulheres são incontestavelmente mais extensos que os dos 
homens colocados em idênticas condições‖ (Pessoa A., 1913, p. 23). 
 
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―(…) Na mulher as recordações são mais persistentes. As mulheres esquecem menos 
que os homens; mas tanto persistem as recordações exactas como as falsas‖ (Pessoa 
A., 1913, p. 23). 
 
4.4.2. O Feitio 
 
―O «feitio», o modo de ser psíquico individual dos depoentes pode exercer notável 
influência sobre as suas declarações‖ (Pessoa A., 1913, p. 24). 
 
―Binet e outros autores demonstraram que os indivíduos se podem classificar em 
categorias bem distintas, conforme a maneira como descrevem um objecto que viram 
ou uma cena a que assistiram. Seguindo este critério, Binet estabeleceu quatro tipos: o 
tipo descritivo, o tipo observador, o tipo emocional e o tipo erudito‖ (Pessoa A., 1913, p. 
25). 
 
―Seria evidentemente muito interessante a determinação do valor relativo dos 
depoimentos produzidos por indivíduos pertencentes a cada um destes quatro tipos‖ 
(Pessoa A., 1913, p. 25). 
 
“ (…) É sabido que nem todas as pessoas são observadoras, atentos e fiéis; 
certas particularidades que possam vir a ter mais tarde grande importância na 
instrução judiciária dum dado caso facilmente passarão despercebidos a uma 
testemunha desatenta. Há indivíduos pessimistas... acreditando mais facilmente 
na perversidade do que na bondade humana. (…) Há, pelo contrário, indivíduos 
optimistas, com tendência para ver tudo cor de rosa” (Pessoa A., 1913, p. 26). 
 
4.4.3. A Simpatia 
 
Em certos casos ―(…) a testemunha se pode apaixonar pelos resultados possíveis do 
processo em que tenha de depor‖ (Pessoa A., 1913, p. 26). 
 
―A simpatia por esta ou por aquela entidade, ou pelo contrário o ódio e a repugnância 
podem por fenómenos de auto-sugestão, dar a um depoimento, que se não pode 
considerar propositadamente falsificado, uma feição especial que mais ou menos se 
afaste da verdade‖ (Pessoa A., 1913, pp. 26-27) Anexo 10. 
 
 
 
 
 
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4.4.4. Factores de Ordem Patológica 
 
Tudo quanto até aqui se falou, susceptível de contaminar um depoimento subsume-se 
a um quadro de normalidade psíquica, de cognição, de pensamento e de acção. 
Porém, casos existem em que, por causas de ordem patológica, deparamo-nos com 
depoimentos que se afastam total ou parcialmente da verdade material, sem que nos 
estejamos a referir a depoimentos de pessoas reconhecidamente alienadas ou doentes 
mentais reconhecidas como tais, mas apenas nos reportando a todos cujos 
padecimentos de ordem mental e de ordem patológica escapem à observação dos 
magistrados ou de quem tem de colher tais testemunhos. 
 
4.4.4.1. A Paranóia 
 
Entre estes temos os que padecem de paranóia em que a ideia delirante de 
perseguição os afecta, procurando assim defender-se queixando-se às autoridades, 
denunciando este ou aquele, mercê dum falso testemunho (Pessoa A., 1913, p. 28). 
 
4.4.4.2. A Imbecilidade 
 
A imbecilidade pode dar lugar a falsos depoimentos, tanto mais que é compatível com 
uma certa cultura intelectual. Trata-se de indivíduos que facilmente poderão não dar a 
perceber, numa rápida convivência, a sua psicopatia. 
―A deficiência de atenção voluntária leva-os no entanto, sempre a fazer depoimentos 
inferiores‖ (Pessoa A., 1913, p. 30). 
 
4.4.4.3. A Histeria 
 
Na histeria se observa ―(…) com certa frequência um «prurido de invenção» que leva 
os doentes a compor, para atrair as atenções, para se tornarem interessantes, com 
grande luxo de detalhes, as histórias mais dramáticas, mais complexas e mais 
fantásticas, referidas sempre num tom profundamente convincente e muitas vezes 
acompanhadas da exibição de auto-mutilações demonstrativas de presumidos 
atentados‖ (Pessoa A., 1913, pp. 32-33). 
―A histeria é, na maioria dos casos, auto-heterodenunciadora e esta dupla denúncia 
refere-se habitualmente a factos de origem genital (violação, aborto, etc.)‖ (Pessoa A., 
1913, p. 33). 
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―A histérica, se denuncia, não é por perversão moral, é para chamar sobre si as 
atenções, para despertar nos outros sentimentos de admiração ou piedade‖ (Pessoa 
A., 1913, p. 33). 
 
4.4.4.4. A Epilepsia 
 
Com reserva, também, devem ser considerados os depoimentos dos epilépticos 
(Pessoa A., 1913, p. 34). 
―Se intelectualmente o epiléptico pode não deferir do homem normal, distancia-se 
sempre notavelmente deste pelo seu carácter, pela sua afectividade‖ (Pessoa A., 1913, 
p. 35). 
 
“A irritabilidade constitui o traço dominante do carácter habitual dos epilépticos. 
Estes doentes são geralmente desconfiados, questionadores, dispostos à cólera 
e aos actos violentos pelos mais ligeiros motivos e, às vezes, sem motivos 
apreciáveis. O que se deve notar... no carácter como no estado intelectual dos 
epilépticos é a extrema variabilidade do seu humor ou das suas disposições 
morais segundo o momento em que se observam” (Falret, citado por Pessoa A., 
1913, p. 35). 
 
“(…) Nestes doentes o ataque convulsivo pode ser substituído por equivalentes 
diversos físicos ou psíquicos de duração variável e que por vezes são a única 
manifestação da nevrose. A memória que os doentes guardam dos factos 
acontecidos durante estes períodos é muito variável, obra citada: “umas vezes há 
amnésia completa ou lacunar, outras amnésia parcial ou crepuscular, mais 
raramente, enfim, uma recordação que se vai lentamente apagando até à 
extinção, como no estado normal sucede relativamente a certos sonhos” (Matos, 
citado por Pessoa A., 1913, p. 35). 
 
4.4.4.5. A Intoxicação Alcoólica 
 
A intoxicação alcoólica pode contribuir para o valor dos depoimentos, de forma muito 
mais acentuada quando esta se encontra associada a diversas formas de 
degenerescência mental (Pessoa A., 1913, p. 36). 
 
Mesmo fora destas situações o alcoolismo pode levar, entre outras situações, à 
amnésia, entendida como perda parcial ou completa da memória, à incapacidade de 
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concentração, ao comprometimento de funções mentais, tais como a distância e a 
velocidade, ao relaxamento do controle cerebral e à desorganização do pensamento. 
 
4.4.5. A Percepção e a Memória 
 
―Os depoimentos não são bacteriologicamente puros, resultando de um conjunto de 
circunstâncias objectivas ou subjectivas capazes de influenciar, de modo consciente ou 
inconsciente, a retenção dos factos por parte das testemunhas e de provocar na 
pessoa do julgador a convicção acerca da sua veracidade ou da sua inverosimilhança‖ 
(Geraldes A., 2010, p. 208). 
 
“Um depoimento presume evidentemente a percepção dum determinado 
fenómeno de que se guardou na memória uma imagem mais ou menos fiel, 
susceptível de ser evocada oportunamente no momento de depor por forma a 
dar lugar a uma afirmação de objectividade, a uma objectivação afirmativa. 
O conhecimento do mecanismo psíquico tanto da percepção como da memória, 
sempre tão intimamente ligadas, mostra-nos claramente como uma e outra 
podem ser a origem de variadíssimos erros” (Pessoa A., 1913, p. 41). 
 
―A percepção consiste fundamentalmente na fusão da sensação actual, excitadora com 
imagens associadas provindas de sensações anteriores agora reproduzidas, que a 
revestem e amparam por forma a constituir com ela um conjunto unitário