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TEORIA DO TESTEMUNHO TESE DE PSICOLOGIA

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constituir um acto psíquico dinâmico, global e como tal irredutível. – Sabemos 
também que, os elementos percebidos são subjectivos e, como tal, pessoais” 
(Diges, 1997, citado por Reis, 2006, p. 65). 
 
“Alguns resultados obtidos em experiências realizadas mostraram que: a) para a 
percepção geral de uma situação, são mais capazes os homens que as 
mulheres, mas estas percebem com mais exactidão os detalhes; b) os 
acontecimentos iniciais e os finais são percebidos melhor que os intermédios; c) 
as impressões visuais podem ser melhor testemunhadas que as acústicas pelo 
que é preferível recorrer sempre a um reconhecimento de que à sua evocação, e 
d) os testemunhos referentes a dados quantitativos são, em geral, mais 
imprecisos que os qualitativos. Existe, uma tendência normal a sobrestimar os 
números inferiores a dez e as pausas de tempo menores que um minuto. Por 
outro lado, as pausas superiores a dez minutos e os números ou espaços 
grandes tendem a ser infraestimados. Também é curioso notar que, para os 
testemunhos referentes a factos acontecidos há mais de seis anos, existe uma 
tendência para encurtar o tempo do seu acontecimento” (Reis M., 2006, p. 65). 
“Dos estudos efectuados ao longo de mais de quatro décadas verificamos que 
existem vários factores que contribuem para a mnemónica do testemunho. A 
abordagem a ser efectuada incidirá, em especial, em dois – emoção e passagem 
do tempo – por serem o foco central desta investigação” (Reis M., 2006, p. 66). 
 
Várias pesquisas têm-se debruçado sobre a memória emocional, em geral, mas 
poucos se têm debruçado sobre a memória para acontecimentos emocionais 
específicos. Muito se tem dito sobre o facto de lembrarmos melhor acontecimentos 
com carga emocional do que de outros sem carga emocional (Reis M., 2006, p. 66). 
 
―A emoção, positiva ou negativa, pode potencializar ou inibir a recuperação da 
informação. Sabe-se que vítimas de grandes violências ou agressões costumam 
apresentar uma amnésia lacunar. Esquecem-se de tudo o que esteja relacionado ao 
evento‖ (Reis M., 2006, p. 70). 
 
“Estados emocionais intensos parecem inibir o processo de rememoração, doses 
limitadas de tensão emocional facilitam a fixação dos acontecimentos e sua posterior 
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recuperação. Dessa forma, picos de alegria ou de tristeza podem prejudicar a 
rememoração, daí os famosos “brancos”, as amnésias de curta duração que ocorrem 
normalmente quando a pessoa é obrigada a realizar algo sob forte tensão” (Reis M., 
2006, p. 70; ver Anexo 6). 
 
“Com o decorrer do tempo as memórias do passado tornam-se menos disponíveis e 
acessíveis. Porém, as memórias mais comuns e habituais parecem ser mais afectadas 
do que as memórias emocionalmente mais intensas. Estar vigilante e alerta tem efeitos 
favoráveis na maioria das tarefas cognitivas” (Reis M., 2006, p. 70). 
 
“Em conclusão, podemos dizer que as consequências da realização de múltiplas 
recuperações são várias. Por um lado, existem consequências positivas como a 
presença de uma maior quantidade de detalhes sensoriais e contextuais. Por outro, 
existem consequências negativas provocadas pela aparição de uma maior quantidade 
de distorções que não existem no relato espontâneo” (Reis M., 2006, p. 78). 
 
“Um testemunho é verdadeiro quando a verdade é transmitida através de 
lembranças verdadeiras dos factos. Já o falso testemunho, assume contornos 
mais complexos: pode tratar-se de uma mentira deliberada ou de uma falsa 
memória. As falsas memórias referem-se ao facto de lembrarmos eventos que, 
na realidade, não ocorreram, o que acontece porque determinadas informações 
armazenadas na memória, são posteriormente recordadas como se tivessem 
sido realmente vivenciadas” (Roediger & McDermontt, 2000, citado por Reis, M., 
2006, p. 79). 
“Porém, algumas falsas memórias são geradas espontaneamente, como 
resultado do processo normal de compreensão, ou seja, fruto de processos de 
distorções mnemónicas espontâneas ou auto sugeridas (Brainerd C.J.; Reyna V. 
F., 1995). Outro tipo de falsas memórias pode resultar de sugestão externa, 
acidental ou deliberada, de uma informação falsa (Reyna V. F., 1995), a qual não 
faz parte da experiência vivida da pessoa, mas que, de alguma forma, é 
compatível com a mesma como no procedimento de sugestão de falsa 
informação” (citados por Reis M., 2006, p. 79). 
 
“As chamadas «falsas memórias» estruturam-se a partir da compulsividade por 
mentir, mas vão além da mentira, e têm efeito mais devastador do que a própria 
mentira, seja para o indivíduo que emite falsos relatos, seja para eventuais 
vítimas (pessoas referidas nos tais falsos relatos) à sua volta. 
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As falsas memórias podem ser de duas formas: espontânea ou sugerida. A 
primeira se dá de maneira endógena como auto-sugestão, e a segunda, 
exógena como sugestão ou falsa informação acidental ou deliberada. As falsas 
memórias espontâneas são aquelas onde a distorção da memória se dá de 
maneira interna ou endógena ao sujeito, através de auto-sugestão. A auto-
sugestão acontece quando o indivíduo lembra tão somente do significado do 
fato ocorrido, ou seja, da memória de essência, devido à interferência na 
entrada de novas informações. 
…as falsas memórias sugeridas surgem a partir da implantação externa ou 
exógena ao sujeito através de deliberada ou acidental sugestão de falsa 
informação. O efeito da sugestibilidade da memória pode ser definido como uma 
aceitação e subsequente incorporação de informação posterior ao evento 
ocorrido na memória original do mesmo” (Silva, D., consultado em Agosto de 
2011). 
 
―Na avaliação de um testemunho, devem ser considerados três aspectos: a) o relato 
pode ser verdadeiro; b) o testemunho pode ser falso fruto de uma simulação 
propositada (estratégica) ou c) o testemunho pode ser falso baseado em memórias 
distorcidas através de processos cognitivos normais, seja de forma endógena ou 
exógena. 
É, sem dúvida, este terceiro aspecto que mais importa relevar em contexto judiciário 
até porque, a preocupação maior, deverá residir em não serem falsamente acusadas 
pessoas, como nos relatam vários casos de crimes onde, na ausência de evidências 
físicas, a prova mais forte reside no testemunho da própria vítima, como são exemplo, 
os casos de abusos sexuais. 
O comprovado fenómeno de lembrar algo que não aconteceu – as falsas memórias – 
tornou-se nas últimas décadas, um dos tópicos centrais de interesse em pesquisas 
sobre a memória, devido à sua implicação, entre outras, na área jurídica. (…) Os 
sujeitos são particularmente susceptíveis a modificarem suas memórias com a 
passagem do tempo; o stress tem efeitos sobre a percepção e tanto os adultos quanto 
as crianças modificam as suas lembranças através de sugestões feitas por pessoas 
influentes‖ (Reis M., 2006, p. 80). 
 
Stein e Pergher, nos resultados obtidos no estudo sobre a criação de falsas memórias 
em adultos, concluem que falsos relatos podem ser bastante frequentes em situações 
jurídicas ou clínicas que enfatizem a memória para a essência do que foi vivido, pelo 
que não é de admirar que pessoas sujeitas a terapia ou a investigação forense 
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produzam falsos relatos, que não sejam baseados em simulação (i.e., mentira), mas 
sim em memórias que substanciam o foco central do facto em questão (Stein; Pergher, 
2001, citados por Reis, M., 2006. p. 81). 
 
―Até porque, uma prática comum na área forense, submete o indivíduo a múltiplas 
entrevistas com o único propósito de se obter um relato mais fidedigno dos factos em 
questão, mas esta prática pode ser falaciosa. Aliás, em determinadas situações, como 
aquelas comprovadas