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TEORIA DO TESTEMUNHO TESE DE PSICOLOGIA

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o que aquela afirmou, de acordo com os padrões comuns 
de comportamento, as regras da Natureza ou da experiência humana” (Oliveira 
F., 2007, p. 61). 
 
―Implica portanto o relacionamento entre o facto afirmado e outros factos, regras ou 
afirmações, no sentido de se extrair um juízo de admissibilidade racional quanto ao 
que foi declarado‖ (Oliveira F., 2007, p. 62). 
 
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4.7.8. O Rigor 
 
―O rigor de um depoimento traduz-se na precisão e ausência de ambiguidades do que 
foi afirmado‖ (Oliveira F., 2007, p. 62). 
 
―(…) Quando o seu depoimento haja sido exacto e sem deixar espaço para equívocos, 
tanto maior será o seu poder afirmativo dos factos a que se reportou‖ (Oliveira F., 
2007, p. 63). 
 
4.7.9. A Fundamentação 
 
“A fundamentação de um testemunho traduz-se na sustentação do depoimento em 
razões válidas ou em outros meios de prova, maxime em suporte documental. 
Num depoimento fundamentado a testemunha não se limitou a afirmar as suas 
convicções, mas também as justificou e demonstrou. 
Um testemunho devidamente fundamentado terá um valor probatório 
significativamente maior, aportando uma consistência difícil de pôr em causa (…)” 
(Oliveira F., 2007, pp. 63-64). 
 
4.7.10. A Idoneidade e razão de ciência 
 
―A idoneidade de uma testemunha corresponde à credibilidade abstracta de que ela 
pode ou não beneficiar quanto ao que vier a afirmar, tendo em conta o relacionamento 
especial e a equidistância daquela quanto às partes processuais e aos interesses em 
jogo no processo (…)‖ (Oliveira F., 2007, pp. 64-65). 
 
“A razão de ciência de uma testemunha consiste na justificação do seu 
conhecimento em face dos factos submetidos ao processo, a qual poderá influir 
também na credibilidade abstracta de que ela pode ou não beneficiar quanto ao 
que vier a afirmar (…). Trata-se de saber porque é que a testemunha sabe (…)” 
(Oliveira F., 2007, p. 65). 
 
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5. O Acusado 
 
5.1. O Valor do Interrogatório 
 
“O principal actor de qualquer drama judiciário é o acusado. O crime cria um 
conflito entre o seu autor e a sociedade; mas, note-se bem, a família humana tem 
interesse em que o culpado seja punido, não em que se crie um responsável, 
para que, necessariamente, de um crime derive a aplicação de uma pena, e 
deseja, portanto, que se evite, com a condenação de um inocente, a perpetração 
de um crime ainda mais grave. 
Por outro lado, não convém exagerar, com falsos sentimentalismos, porque, se o 
acusado tem o direito de só se defender e não o dever de facilitar a investigação 
judiciária, o juiz tem o direito de utilizar largamente as provas de acusação e de 
defesa, que, voluntária ou involuntariamente, o acusado lhe forneça” (Altavilla E., 
1982, pp. 9-10). 
 
―Efectivamente, Florian escreve: ―Se o acusado confessa ter cometido o facto em 
estado de embriaguez ou de legítima defesa, o juiz poderá aproveitar o facto e rejeitar 
o complemento‖ (Altavilla E., 1982, p.13) Anexo 11. 
 
“(…) não se pode pretender (…) que o acusado haja percepcionado e recorde 
com maior precisão que os outros homens, antes se tem de admitir que a sua 
percepção deve ser, frequentemente, mais inexacta e incompleta e que as suas 
recordações estão mais sujeitas a um trabalho de deformação. 
É, porém, necessário distinguir entre o autor de um facto imprevisto e o de um 
facto pré-ordenado. 
Para o primeiro, a recordação daquilo que precedeu o crime é, muitas vezes, 
lacunar, para o segundo é precisa e minuciosa (…)” (Altavilla E., 1982, p. 14). 
 
“Não se deve cometer o erro frequente de estabelecer como lei geral que o 
culpado tenha sempre percepcionado bem, mercê do interesse que tinha no 
acontecimento, porque, quando o interesse degenera em paixão, a atenção 
torna-se incapaz de qualquer intensidade, e a percepção terá falhas graves. (…) 
Isto permite-nos compreender que as maiores inexactidões, na recordação do 
seu crime, se observem nos delinquentes por paixão, nos de ímpeto e também 
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naqueles crimes que, «embora não nascidos do ímpeto, consistam em violências 
contra as pessoas ou sejam acompanhados por estas». 
Quem já tiver estudado o interrogatório de um delinquente passional deve ter 
compreendido em que é que estes crimes recordam os de epilépticos, tão cega é 
a descarga motora, tão lacunar é a recordação acerca do que fizeram. 
Exagerada precisão das recordações. – Algumas vezes, porém, o acusado 
surpreende-nos pela exactidão e difusão das recordações, e é natural que assim 
seja, sempre que ele percepcione, animado, diremos com Rageot, por uma 
emoção-estado e, portanto, sem a perturbação de uma emoção-choque” 
(Altavilla E., 1982, pp. 14-15). 
 
“Aqui o fenómeno explica-se com exactidão, recordando a lei psicológica a que já 
nos referimos: a nossa atenção é potenciada pelo interesse que dedicamos a um 
determinado acontecimento. Isto significa que, para os crimes pré-ordenados, 
tudo o que se lhes segue é fixado na recordação do culpado com maior 
exactidão, mais minuciosamente do que na de uma simples testemunha, cuja 
atenção pode não ser despertada de maneira alguma por pormenores que, pelo 
contrário, são interessantíssimos para o acusado. 
Isto leva-nos a uma consequência: a excessiva precisão das recordações de um 
facto longínquo deve provocar uma certa desconfiança, a não ser que seja 
explicada pela conexão com um acontecimento importante, o qual actue como 
ponto de referência para associar e evocar uma recordação que, por si mesma, 
se teria perdido no esquecimento. 
Por isso, quando um acusado, para justificar a sua presença num lugar, para 
criar um álibi, para dar conta da maneira como passou um dia, abunda em 
pormenores minúsculos, normalmente não notados ou não recordados, devemos 
preocupar-nos por duas razões. 
Antes de mais nada, a sua narração pode ser toda mentirosa: é frequente o caso 
de acusados astutos que, para dar maior aparência de verdade a uma narração 
inventada de ponta a ponta, a recheiam de inúmeros pormenores, que sabem 
serem inverificáveis, e afirmam, por exemplo, ter estado todo o dia do crime em 
certa casa, contando como gastaram o tempo, sabendo fixar a sucessão dos 
mais pequenos actos e a hora exacta em que os praticaram” (Altavilla E., 1982, 
p.16). 
 
 
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5.2. O Comportamento 
 
 “Percepções fixadas com um fim defensivo. – A estranha precisão da 
recordação é devida a um fenómeno de atenção forçada: o culpado quis 
percepcionar minuciosamente, para utilizar as suas recordações com um escopo 
defensivo. 
Isto encontra-se em álibis artificiosamente preparados. 
É frequente o caso de acusados que, cometido o crime, se precipitam para um 
lugar distante, onde procuram fazer-se notar o mais possível. 
Em tais casos, o criminoso, para revestir o seu álibi, ostentará recordações 
minuciosas daquilo que viu, das pessoas com quem falou e descerá a tais 
pormenores, que logo revela um especial interesse em recordar” (Altavilla E., 
1982, p.18). 
 
“A evocação. – O acusado, geralmente, responde ao interrogatório num vivíssimo 
estado de emoção: culpado ou inocente, compreende que aquele é o momento 
processual que pode decidir de toda a sua vida. Inocente, apresenta-se perante o 
juiz com o espírito em desordem, não sabendo que malvadez o destino e os 
homens terão preparado contra ele; culpado, estará realmente agitado, não 
sabendo que provas já existirão no processo. 
O mais sereno de todos é o réu confesso, o qual poderá ter interesse em 
justificar ou atenuar o seu crime, mas já aceitou a parte substancial da acusação”