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TEORIA DO TESTEMUNHO TESE DE PSICOLOGIA

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psiquiátrico 
 
―Isto verifica-se quando o acusado dá conta de que está prestes a ser descoberta a 
simulação e que ele não está em condições de avaliar a importância das experiências 
a que é submetido, de maneira a poder responder de acordo com o que exigiria a 
doença simulada‖ (Altavilla E., 1982, p. 27). 
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5.2.4. Sinceridade do Interrogatório 
 
―A mentira não prova a culpa. Tendo presentes estas observações, perguntamos: 
existem critérios constantes que nos possam guiar para deduzir de um interrogatório a 
inocência ou a culpa?‖ (Altavilla E., 1982, p. 28). 
 
“O inocente encontra-se, muitas vezes, numa situação processual mais difícil que 
o culpado. 
O autor de um facto criminoso tem uma orientação defensiva, conhece o 
acontecimento que lhe é imputado, sabe a hora, o lugar, as modalidades, muitas 
vezes pensou na forma de se defender, antes de ter perpetrado o crime, e até 
adaptou ao seu sistema de defesa algumas circunstâncias da acção criminosa. 
O inocente debate-se no vácuo, muitas vezes sem conhecer precisamente em 
que consiste a acusação: é um homem surpreendido pelo imprevisto, vítima de 
uma denúncia malévola ou de coincidências fatais, de cruéis aparências de 
provas. 
O culpado, com frequência, é um lutador que espera pelo ataque; o inocente é 
um transeunte surpreendido por uma agressão imprevista e imprevisível. Um, 
pelo conhecimento que tem da acusação, pode manter uma atitude de 
segurança; o outro, pelo seu desconhecimento de tudo, pode perder a 
serenidade” (Altavilla E., 1982, p. 29). 
 
“Experimentai apresentar a um inocente e a um culpado um grave indício 
recolhido contra eles: foi encontrado assassinado um homem, numa rua 
excêntrica da cidade; há testemunhas que afirmam terem visto um e outro em 
ruas próximas, quase à mesma hora em que o crime foi praticado. O culpado, 
que já previra a possibilidade de alguém o ter visto, e que até talvez saiba que foi 
notado, não se comoverá e, ou admitirá o facto, dando dele uma explicação, ou, 
com voz desdenhosa e dolente, protestará contra a descarada mentira da 
testemunha. 
O inocente, que até então confiara na sua inocência, sente a gravidade da 
circunstância e é dominado por um louco terror, por uma necessidade 
desordenada e instintiva de defesa, levado pela qual ou negará o facto ou, 
embora aceitando-o, se mostrará tão perturbado que poderá impressionar mal o 
instrutor. Na sua alma trava-se, efectivamente, uma luta angustiosa: aceitar 
significa criar um indício; negar será criar, no caso de se descobrir a mentira, 
mais uma prova de culpabilidade, o que gera uma perturbação que não pode 
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deixar de influenciar o comportamento. E acrescente-se que a mentira do 
culpado tem, frequentemente, uma certa coordenação com outros dados 
processuais, tem uma lógica, porque está em relação com todo o seu plano 
defensivo. 
A mentira do inocente é, muitas vezes, um contra-senso, é o acto automático de 
quem afasta um perigo, sem notar que cria um outro perigo ainda mais grave. 
Especialmente se é pessoa de inteligência limitada, pode ser dominado por uma 
tão cega perturbação, que pode até parecer atacado por uma forma de 
negativismo” (Altavilla E., 1982, p. 30). 
 
“É claro que, sendo iguais os temperamentos e idêntico o conhecimento dos 
factos do processo, o inocente é mais seguro, mais sereno que o culpado, e 
certamente o inocente, que tem a certeza de ver triunfar a verdade, que dispõe 
de inteligência suficiente para avaliar com serenidade a sua posição processual, 
terá um comportamento seguro e resoluto e evitará dizer uma mentira, embora 
possa sempre cometer alguns erros de recordação” (Altavilla E., 1982, p. 32). 
 
5.2.5. Interrogatórios Lacunares 
 
“O acusado confessa o crime frequentemente, mas nega circunstâncias, algumas 
vezes importantes, revelando a finalidade utilitária, destinada a diminuir a 
gravidade do crime, mas às vezes de tão pequena importância, que a negativa 
nos deixa admirados. Por ex., compreende-se porque negue ter premeditado o 
crime, mas não se compreende porque negue ter visto uma testemunha, que 
pode até ser favorável à sua tese. 
Isto dá-se, especialmente, nos crimes passionais, nos quais a percepção é 
lacunar, devido, sobretudo, a circunstâncias marginais àquilo que, como vemos, 
é como que o foco em direcção ao qual se polariza a atenção forçada” (Altavilla 
E., 1982, p. 32). 
 
6. A Testemunha 
 
A palavra testemunha corresponde a um substantivo feminino, que se origina do latim 
testis, e possui, dentre outras, a seguinte conceituação: ―pessoa não impedida por lei, 
que é arrolada ou referida para depor imparcialmente sobre os fatos da causa, 
segundo sua percepção pelos sentidos‖ (Sidou, J.M. 1995, citado por Gunther L., 2009, 
p. 9). 
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Para Maria Helena Diniz, a testemunha é a pessoa distinta dos sujeitos processuais 
que, ―convocada na forma da lei, por ter conhecimento do fato ou ato controvertido 
entre as partes, depõe sobre este em juízo, para atestar sua existência‖ (Diniz M., 
2005, citada por Gunther L., 2009, p. 9). 
Para Plácido e Silva, o vocábulo tem origem do latim testimonium, que significaria 
testemunho, depoimento, designado, na linguagem jurídica, ―a pessoa que atesta a 
veracidade de um ato, ou quem presta esclarecimentos acerca de fatos que lhe são 
perguntados, afirmando-os, ou os negando‖ (Silva P., 1963, citado por Gunther L., 
2009, p. 9). 
 
6.1. Comportamento da testemunha 
 
 “A testemunha que fala com excessivo desembaraço, que começa a falar antes 
de ser interrogada, que se mostra excessivamente hostil a uma das partes, 
provoca desconfiança no juiz; assim o compreendem alguns astutos mentirosos, 
que chegam à presença do magistrado ostentando o propósito de não falar e, 
somente após vivas insistências, como pessoas a quem arrancam a verdade da 
boca, acabam por dizer as suas mentiras. Algumas vezes, deixam-se apanhar 
em banais falsidades. (…) Quando, perante as insistências e as ameaças de 
quem interroga, acabam por dizer coisas graves contra aquele que pareciam 
querer favorecer, parecem seguramente verdadeiros e ninguém suspeita da sua 
indigna artimanha. 
Outras vezes, mostram-se invadidos por um sentimento de piedade, 
preocupados com a sua amizade, de maneira a parecer que falam com desgosto, 
que se resignam com pena ao doloroso dever de dizer a verdade. E são 
descarados mentirosos!” (Altavilla E., 1982, pp. 318-319). 
 
―(…) é inquestionável que o ser humano se expressa com palavras e também com 
gestos e que através de ambos circula uma informação avaliável. No entanto, o 
problema radica na qualidade expressiva de uma outra linguagem e na aptidão 
necessária para uma leitura do que é transmitido por cada uma das hipóteses‖ (Ibañez, 
2011, p. 170). 
 
6.2. A Personalidade do Juiz 
 
“(…) Pode afirmar-se que a sentença é um facto visto através da personalidade 
de um juiz, personalidade que se reflecte (…) sobre todo o processo de formação 
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de um convencimento. É necessário, portanto, conhecê-la, entendida como 
síntese da capacidade perceptiva, do temperamento, do carácter, da inteligência, 
das experiências e conhecimentos do juiz. 
Stern distinguia diversos tipos de juízes: o decidido, o hesitante, o prudente, o 
superficial, e detinha-se especialmente sobre o subjectivo e o objectivo” (Altavilla 
E., 1982, p. 520). 
 
―O juízo não é um produto do momento, mas é o expoente final da nossa 
personalidade, e para ser sereno deve lutar «contra as nossas disposições orgânicas, 
inatas e adquiridas, radicadas