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TEORIA DO TESTEMUNHO TESE DE PSICOLOGIA

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seja percepcionado da maneira mais exacta, 
é que a atenção se encontre em estado de grande calma e de serenidade. É 
óbvio que quem assiste ao desenrolar de qualquer facto num estado de perfeita 
calma, pode percepcionar e reter bem os pormenores desse facto e descrever, 
mesmo passado um certo tempo, os vários momentos do seu desenvolvimento, 
melhor que quem, pelo contrário, embora também espectador do mesmo facto, 
se encontrasse em estado de grave apreensão, de natureza orgânica, ou de 
excessiva excitação nervosa, devida a qualquer emoção molesta. 
Quem está dominado por um intenso estado emotivo, tem a atenção quase 
inteiramente concentrada sobre aquele determinado objecto que lhe ocupa o 
espírito. (…) 
Determinadas condições ambientais podem, por vezes, ser a causa destes erros 
perceptivos, causados por uma emoção. Assim, o silêncio de um lugar deserto, 
juntamente com a obscuridade nocturna, que invade e perturba a psique de um 
indivíduo nervoso, pode fazer-lhe distinguir, num pedaço de pano batido pelo 
vento, o aspecto de um fantasma. 
(…) a espera temerosa da verificação de um determinado fenómeno, pode fazê-
lo sentir, antes mesmo dele se produzir e até quando não venha a produzir-se de 
facto; ou pode fazê-lo percepcionar em grau exagerado ou, de qualquer modo, 
diferente do real. (…) Muitas aparições miraculosas, devidas não a milagre, mas 
ao mecanismo de uma viva emoção espectante, intensificada pelo contágio 
psíquico de um ajuntamento humano” (Battistelli L., 1977, pp. 72-74). 
 
“Outras fontes de erro, incautamente julgadas, com frequência, manifestações de 
falsidade, são a fraqueza do poder mnemónico e a imperfeita representação 
mental do tempo e do espaço. 
 
―A mentira involuntária, (…) pode também aparecer na testemunha, que chega ao 
Tribunal para depor, sem a mais pequena ideia de mentir ao Magistrado‖ (Battistelli L., 
1977, p. 83). 
 
“Noutros casos, as modalidades de génese do testemunho desinteressado, (…) 
têm a sua origem, muitas vezes, na errada ou defeituosa recordação dos factos a 
que a pessoa esteve presente. Ela, quer para não pôr em evidência a deficiência 
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do seu poder mnemónico, quer para preencher, com a indução lógica, as lacunas 
da recordação, ligando entre eles fragmentos de velhas reminiscências que, na 
contingência, tinham voltado a impressioná-la com certa vivacidade, consegue 
formar uma história que, depois, será, para a sua consciência, a recordação da 
coisa, não já parcialmente, mas integralmente percepcionada e quase vivida” 
(Battistelli L., 1977, pp. 84-85). 
 
“Entre as testemunhas – continua a observar o mesmo autor – há ainda as 
“pessimistas” e as “optimistas”; as primeiras, depondo acerca da mesma acção, 
põem em maior evidência e sublinham os pormenores que mais fortemente 
possam impressionar quem as escuta; as “optimistas” imprimem ao relato um 
certo ar de compaixão e de bondade, próprios de quem está disposto a ser 
indulgente para com as fraquezas humanas e as fatalidades das vicissitudes da 
vida. 
(…) Das “autoritárias” – como lhes chama Doná -, no geral representado por 
aqueles que vestem uma farda e que, só por isso, se consideram, não apenas 
insuspeitos, mas também infalíveis: carabineiros, polícias, guardas campestres, 
etc. (…) “rancorosos”, “passionais”, hipócritas, sectários, facciosos, “camorristas”, 
“mafiosos”, “politicantes”, “judeus”, “clericais”, “mações”. (…) 
A testemunha mais ou menos falsa que, embora sem qualquer vantagem 
material, diz mentiras unicamente para se dar importância e para se mostrar 
sempre pessoa muito bem informada, da mesma maneira que, quando está no 
meio de amigos, só pelo prazer de dizer coisas novas e impressionar quem 
escuta, mente por todas as maneiras” (Battistelli L., 1977, pp. 87-88). 
“Não há quem não veja que, pela específica gravidade das suas funções, o Juiz 
deve conhecer, mais do que qualquer outro, antecipadamente, aquelas 
armadilhas que o espírito humano prepara, inconscientemente, a si mesmo. Com 
muita oportunidade, Gross (…) recomenda ao Magistrado inquiridor que não 
ataque imediatamente, com perguntas demasiadamente insistentes e, por vezes, 
involuntariamente intimidativas, quando não está tranquilo a respeito da 
sinceridade da testemunha; porque, se isso pode ser vantajoso com certas 
pessoas descaradas e pretensiosas, pode ser prejudicial com aquelas 
testemunhas que fazem parte do grupo dos tímidos; ao passo que reverterá 
sempre em vantagem para a justiça sondar primeiro convenientemente a 
testemunha, para lhe fixar o tipo, o carácter, a mentalidade, e adoptar, 
consequentemente, o sistema mais adequado a cada uma; se convirá atacá-la 
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energicamente, ou proceder com tacto, com prudência, com cautela, respeitando 
a sua timidez ou a eventual vulnerabilidade sugestiva, que poderá levá-la a 
pensar, ou não, pela cabeça do Magistrado, com evidente ofensa daquela Deusa 
Verdade, sobre o olhar da qual continuamente se queimam incensos” (Battistelli 
L., 1977, pp. 89-90). 
 
“A criança é incapaz de compreender os factos humanos, mesmo os mais 
simples, que ocorrem à sua volta. Sempre imaginosa e fantasista, muitas vezes 
por estar dominada pelo medo, facilmente sugestionável, a criança fala e diz, na 
maior parte dos casos inconscientemente, coisas não verdadeiras; e muitas 
vezes insiste e teima, porque está convencida de que diz a verdade” (Battistelli 
L., 1977, p. 109). 
 
“Muitas vezes, a criança mente inconscientemente, influenciada por um sonho, 
que tendo deixado uma marca bastante profunda na sua memória, lhe faz 
considerar verdadeira a cena sonhada, como se nela houvesse participado 
pessoalmente. 
A criança mente muitas vezes com finalidades defensivas. (…) 
Há crianças astutas, maliciosas, quando não são já malvadas, para as quais a 
mentira representa o expoente de um poder degenerativo, que poderá um dia 
transformar-se na determinação para um facto criminoso” (Battistelli L., 1977, pp. 
110-111). 
 
―Por vezes, a denúncia feita por uma criança pode ser o resultado de uma auto-
sugestão‖ (Battistelli L., 1977, p. 116). 
 
“Assim como, para explicar a fácil tendência da criança para mentir (…) de igual 
modo é fácil compreender por que razão no velho, quando todo o vigor da 
inteligência vai desaparecendo, lenta mas progressivamente, e da velha e gasta 
forja do pensamento já não salta a menor faísca vivaz, o testemunho deixa de 
merecer confiança e pode, até, tornar-se perigoso. Não somente ele poderá dar 
lugar a erros, em consequência dos reduzidos poderes intelectivos de uma 
mentalidade decadente e do deficit de uma memória que se tornou infiel e 
lacunar, mas também devido à perda de prestígio de todas as suas faculdades 
superiores, que acompanham a decadência de todo aquele complexo de 
aptidões afectivas, de sensibilidade para certas comoções, que constitui aquilo a 
que é costume chamar-se o “carácter”. 
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Os directores dos asilos para velhos indigentes conhecem bem o problema. Não 
é raro os internados roubarem uns aos outros objectos pessoais ou géneros 
alimentícios e descaradamente acusarem qualquer companheiro ou até os 
próprios guardas” (Battistelli L., 1977, pp. 131-132). 
 
“O carácter moral sofre, por vezes, com o progresso da involução senil, 
profundas transformações. Há os que perdem todos os sentimentos altruístas, 
concentrando o seu pensamento no âmbito restrito de especiais e meticulosas 
cautelas, sobretudo com a saúde, e com algumas necessidades fisiológicas em 
especial. Perdem todos os bons hábitos; esquecem as antigas amizades e não 
procuram arranjar outras novas” (Battistelli L., 1977, p.