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TEORIA DO TESTEMUNHO TESE DE PSICOLOGIA

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directo do facto ou, se, pelo contrário, de 
uma falsa de memória do mesmo. 
Destas, destaca-se, pelo maior número de respostas, o ―apurar a razão da ciência da 
testemunha (testemunho, factos e provas)‖, com onze dos Senhores Magistrados 
Judiciais a apresentar esta como uma forma de apurar o conhecimento pessoal e directo 
da realidade retractada. 
Em segundo lugar, como predominância de respostas dadas, apresentam-se quatro 
respostas, ―a forma como responde, a memória demonstrada da situação e os 
pormenores‖, o ―questionamento assertivo com confronto de outros elementos de prova‖ 
e as ―regras da experiência comum‖. 
A ―análise cruzada de todas as provas produzidas‖ e a ―adequação no plano dos factos 
entre o que é relatado e a consequência produzida‖ aparecem em terceiro, com três 
respostas e, apenas com uma resposta, as restantes formas constantes do quadro 
seguinte. 
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A CREDIBILIDADE DO TESTEMUNHO – A VERDADE E A MENTIRA NOS TRIBUNAIS 
Quadro 4 – Formas para apurar se um depoimento emerge de um conhecimento directo do 
facto ou, pelo contrário, de uma falsa memória do mesmo 
 
Forma Respostas 
Apurar a razão da ciência da testemunha (testemunho, 
factos e provas) 
11 
A forma como responde, a memória demonstrada da 
situação e os pormenores 
4 
Questionamento assertivo com confronto de outros 
elementos de prova 
4 
Regras da experiência comum 4 
Pela análise cruzada de todas as provas produzidas 3 
Adequação no plano dos factos entre o que é relatado e a 
consequência produzida 
3 
Favorecimento de uma das partes no depoimento 1 
Depoimento curto e muito preciso 1 
Confronto com as contradições manifestadas no 
depoimento e inverter a ordem das questões 
1 
Proceder a acareações 1 
Perícias, outros métodos 1 
Consistência de depoimento 1 
 
O entrevistado cinco afirma ―(…) que não existe uma forma segura de apurar tal 
circunstância.‖ O entrevistado onze refere ainda que ―(…) a lei (civil ou criminal) prevê 
que o Tribunal assente o juízo probatório que faz afinal sobre os factos em depoimentos 
directos, ou seja, em testemunhos de pessoas que assistiram aos factos – porque os viu, 
porque os ouviu, porque se envolveu com eles, nem que seja num lapso de tempo 
pequeno. A colocação da testemunha nos factos é um processo que depende, sobretudo, 
da resposta da própria testemunha a perguntas como – viu o que se passou?‖. 
Acrescenta que ―(…) a verdade dos factos é como aqueles passatempos antigos em que 
nos apareciam diversos números para irmos ligando entre si com um traço seguido e, no 
fim, percebíamos a figura que toda essa rede desenhava.‖ 
5.1.4. Análise da quarta questão 
 
A alteração, ao longo de um depoimento, de alguns aspectos da realidade relatada é 
indício da pouca credibilidade deste? 
 
Os vinte e cinco Senhores Magistrados Judiciais entrevistados, consideram, na sua 
maioria, 60%, que nem sempre a alteração, ao longo de um depoimento, de alguns 
aspectos da realidade relatada é indício da pouca credibilidade deste. Seis consideram 
que depende da alteração em causa, apenas dois consideram que ―tendencialmente sim‖ 
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A CREDIBILIDADE DO TESTEMUNHO – A VERDADE E A MENTIRA NOS TRIBUNAIS 
e dois também consideram que ―não‖, conforme os valores indicados no quadro e no 
gráfico a seguir apresentados. 
Quadro 5 - A alteração, ao longo de um depoimento, de alguns aspectos da realidade 
relatada é indício da pouca credibilidade deste? 
Designação Respostas 
Nem sempre 9 
Não necessariamente 6 
Depende da alteração 6 
Tendencialmente, sim 2 
Não 2 
 
Gráfico 1 – Distribuição de respostas na questão 4 
24%
24%
8% 8%
36%
Nem sempre Não necessariamente Depende da alteração
Tendencialmente sim Não
 
O entrevistado três refere que ―não necessariamente, dependendo se a alteração é de 
fundo ou meramente circunstancial e se a alteração é compreensível ou aceitável no 
contexto em que ocorre. É que muitas vezes, essa alteração prende-se com a precisão 
das perguntas que são feitas ou com o avivar de determinados factos ou pormenores; 
ocorre, várias vezes, que as testemunhas se equivoquem quanto a datas e no decurso de 
depoimento, quando confrontadas com algum facto ou circunstância, fazem correcções 
nesse particular, sem que tal afecte a credibilidade do depoimento. Já se estamos a falar 
de testemunhas que começam por dizer que estavam no local e viram os factos e mais à 
frente acabam por dizer que afinal só chegaram ao local depois dos factos terem 
ocorrido, naturalmente que tal afecta irremediavelmente a sua credibilidade.‖ 
O entrevistado seis salienta que ―(…) por vezes até funciona ao contrário, pois é 
revelador de que não tem um discurso estudado.‖ 
O entrevistado onze considera que ―(…) É indício, sim. Mas só indício mesmo, porque, 
muitas vezes, apenas confrontada a testemunha com as perguntas feitas e com as 
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respostas que dá ela vai revivendo as coisas e consegue lembrar-se ou ir-se lembrando 
de coisas conforme delas vai falando. No entanto, o exagero de achegas dadas em cada 
repetição muitas vezes denuncia uma tentativa de compor a realidade ou mentira do 
depoimento para melhor convencer, quando a testemunha percebe que as perguntas 
estão a ser feitas precisamente para confirmar pormenores.‖ 
 
O entrevistado vinte salienta que ―(…) poderá ser desde que tal alteração colida com 
aspectos nucleares dos factos em discussão e seja pressentidamente sintomática duma 
ausente razão de ciência credível (tendencialmente verdadeira)‖. O entrevistado vinte e 
quatro é da opinião que ―(…) um bom depoente – e são extremamente raros – não tem a 
noção de tudo o que pode revelar e pode errar em pormenores que possa corrigir.‖ Por 
último, o entrevistado vinte e cinco refere que ―(…) é natural (humano) no discurso sobre 
factos – geralmente ocorridos há muito tempo – que haja alguma tergiversação (…)‖ 
 
5.1.5. Análise da quinta questão 
 
Um depoimento que se tenha por genericamente pouco credível é adequado a permitir 
gerar uma convicção sobre a ocorrência de um ou outro facto nele relatado? 
As respostas dividem-se entre o ―sim‖, o ―não e o sim‖, o ―não‖ e o ―poderá ser‖, 
apresentando a maioria das respostas a primeira opção (onze), seguindo-se a terceira e 
quarta opções, cada com seis respostas. Por fim, com duas respostas a ambivalência 
(ver quadro seguinte). 
Quadro 6 - Um depoimento que se tenha por genericamente pouco credível é adequado a 
permitir gerar uma convicção sobre a ocorrência de um ou outro facto nele relatado? 
Designação Respostas 
Sim 11 
Sim e não 2 
Não 6 
Poderá ser 6 
 
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Gráfico 2 – Distribuição de respostas na questão 5 
 
 
 
 
 
Para o entrevistado nove ―(…) se o julgador der como pouco credível um determinado 
depoimento, não se deverá socorrer do mesmo para formar a sua convicção sobre 
qualquer facto, pois que, ao motivar a sua decisão, a mesma tem que ser sustentada em 
depoimentos que se tenham afigurado credíveis com a demais prova produzida.‖ 
O entrevistado onze refere que ―(…) os depoimentos devem ser todos explicados na 
fundamentação da decisão de facto numa sentença (…). Em rigor, não existem 
depoimentos que não fazem falta (…). Os depoimentos, mesmo os não credíveis, devem 
ser ponderados.‖ 
Por seu turno, o entrevistado vinte e três considera que ―(…) a não ser que haja outros 
elementos, que conjugados com o depoimento pouco credível, permitam concluir que o 
facto é verdadeiro. Mas o certo é que mesmo neste caso, o que na realidade acontece é 
que o que gera a convicção não é o depoimento pouco credível, mas aqueles outros 
elementos‖. 
5.1.6. Análise da sexta questão 
 
Para se reputar de pouco credível um depoimento