A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
277 pág.
TEORIA DO TESTEMUNHO TESE DE PSICOLOGIA

Pré-visualização | Página 49 de 50

na exposição, a isenção em relação às partes 
envolvidas, o esforço de recuperação de pormenores, a razão da ciência, a serenidade e 
a ausência de contradições. 
 
De igual modo, para o apuramento do conhecimento directo, por parte dos depoentes, 
dos factos relatados, que são fruto de falsas memórias, contribui, em maior escala o 
apurar da razão da ciência da testemunha (testemunho, factos e provas); o 
questionamento assertivo com confronto de outros elementos de prova; a forma como 
responde, a memória demonstrada da situação e os pormenores; e, as regras da 
experiência comum. 
 
Já quanto ao relevo da alteração, ao longo de um depoimento, de alguns dos aspectos 
da realidade relatada, maioritariamente é entendido que nem sempre e necessariamente 
o é. 
 
Quanto à possibilidade de colheita pontual de determinados aspectos em depoimento tido 
por genericamente pouco credíveis, maioritariamente os entrevistados manifestam-se 
positivamente. 
 
A terminar diga-se que, por expressa maioria, se entendeu que não é essencial a 
indagação das razões pelas quais se moveu um depoimento para o reputar de não 
credível. 
 
Todas estas conclusões surgem-nos e estão em perfeita sintonia com o estudo teórico 
realizado no âmbito da revisão da literatura. Porém, verificamos que, quase sempre o 
Direito se tem bastado a si mesmo, raramente convocando os conhecimentos que a 
Psicologia pode dar no sentido do apuramento da credibilidade do testemunho. 
 
“Verificamos que desde sempre os juízes tiveram que recorrer a especialistas para 
os assessorar na altura de decidir sobre a verdade ou falsidade dos testemunhos. 
Se há 3000 anos o papel do especialista forense correspondia ao da actualidade, 
hoje esta responsabilidade recai sobre os psicólogos. Por sua vez, esta 
MESTRADO EM MEDICINA LEGAL 
157 
A CREDIBILIDADE DO TESTEMUNHO – A VERDADE E A MENTIRA NOS TRIBUNAIS 
responsabilidade requer a tomada de consciência das nossas limitações na altura 
de decidir sobre a honestidade de uma testemunha. Estas limitações são 
numerosas quando o perito se baseia na observação das alterações (fisiológicas 
e/ou comportamentais) que apresenta a pessoa sobre a qual cai a suspeita: os 
erros falso-positivo e falso-negativo do detector de mentiras, os que se devem à 
idiossincrasia da testemunha, ao erro de Otelo, podem conduzir-nos a um 
diagnóstico injusto da credibilidade. A solução parece derivar não da análise da 
testemunha, mas sim do seu testemunho: aqui a possibilidade de erro diminui e, em 
todo o caso, como vimos anteriormente ao falar da Análise das declarações das 
crianças vítimas de abusos, o relatório apresentado pelo forense auxilia sempre o 
juiz na reconstrução dos factos. A este corresponde, em última instância, a decisão 
final sobre se deve aceitar ou recusar a declaração; os psicólogos só o podem 
ajudar para que a sua decisão seja a correcta” (Sobral et al, 1994, p. 151-152). 
 
Pode, assim, concluir-se que, mesmo as pessoas que acreditam estar a dizer a verdade, 
cometem erros de testemunho (Gonçalves A., 2011). 
 
A detecção da mentira é uma tarefa difícil por mais que queiramos acreditar na história de 
Pinóquio. Os detectores de mentiras cometem erros frequentemente. Podemos melhorar 
o nível de detecção da mentira se usarmos técnicas de entrevista específicas, 
aumentando a exigência cognitiva e refinando técnicas de recolha de informações. É 
necessário valorizar mais o testemunho das vítimas. 
 
A avaliação da veracidade do testemunho é um processo complexo, ponderado e 
assente em determinadas estratégias, técnicas e critérios do domínio estrito da 
Psicologia (McGuire, 1998, citado in Matos, 2005). 
 
Na avaliação da credibilidade do testemunho, especialmente em casos concretos (como 
seja o abuso sexual, a violência conjugal, entre outros), a livre apreciação do julgador é 
muitas das vezes insuficiente para a avaliação fundamentada da veracidade das 
alegações, tornando-se necessária a intervenção criteriosa da Psicologia Forense 
(Carmo, 2005). 
 
A avaliação da credibilidade do testemunho tem por base o conhecimento das 
características psicológicas e da personalidade de quem o preste, contribuindo assim 
MESTRADO EM MEDICINA LEGAL 
158 
A CREDIBILIDADE DO TESTEMUNHO – A VERDADE E A MENTIRA NOS TRIBUNAIS 
para a melhor apreciação do testemunho em si e dos factores que o podem influenciar 
(Carmo, 2005). 
 
Neste contexto existem processos para a Avaliação da Validade das Declarações, que 
não sendo métodos infalíveis, constituem um poderoso contributo na avaliação da 
credibilidade do testemunho, nomeadamente o Statement Validity Assessment – SVA, no 
pressuposto de que, na valoração testemunhal todos os pormenores são importantes, 
pois a minúcia da análise técnico-científica (conduzida por peritos qualificados do domínio 
da Psicologia) é fundamental, quer para a própria avaliação da credibilidade do 
testemunho, quer para o evitamento de uma situação indesejada de vitimização 
secundária – para as reais vítimas ou para os arguidos injustamente acusados (Mesquita, 
2005, Vrij, 2008). 
 
Deste modo, a avaliação da credibilidade do testemunho, representa um poderoso e 
decisivo instrumento para, em determinados contextos jurídico-legais, habilitar o julgador 
na descoberta da verdade material e, assim, alcançar uma melhor Justiça. 
 
―(…) Realizada a justiça, realiza-se o equilíbrio necessário à harmonia universal. A 
essência pura do fenómeno jurídico reside neste equilíbrio: equilíbrio das condições de 
existência, das prerrogativas e das inibições do homem. Nesta essência pura do 
fenómeno jurídico estará o fundamento do direito‖ (Hermenegildo B., 2005, citado no 
Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra de 14-07-2010, Processo n.º 
102/10.5TBSRE.C1). 
 
2. Limitações do estudo 
 
Qualquer patamar do conhecimento científico ou empírico é sempre antecedido de outros 
que lhe ficam aquém, bem como daqueles que serão alcançados num futuro mais ou 
menos distante, pelo que todo e qualquer estudo será sempre limitado pelos 
conhecimentos até então adquiridos ou ao dispor, pela possibilidade de os conjugar e 
integrar perante o objectivo proposto e por outras limitações relativas à colheita de 
amostragens pretendidas para a investigação. 
 
De qualquer modo, temos por certo o alcançar do objectivo proposto, circunscrito pela 
análise, em suma, do conteúdo do conceito de prova em sede judicial, do princípio regra 
informador da sua apreciação e valoração, do testemunho, da testemunha, da detecção 
MESTRADO EM MEDICINA LEGAL 
159 
A CREDIBILIDADE DO TESTEMUNHO – A VERDADE E A MENTIRA NOS TRIBUNAIS 
da mentira, da psicologia do testemunho, da sua avaliação, valoração e credibilidade, 
tudo como vector orientador da análise dos pressupostos da credibilidade da testemunha 
em Juízo e do decisivo contributo que a osmose entre o Direito e a Psicologia pode 
proporcionar para a descoberta da verdade material perante os diversos figurinos ou 
realidades históricas a apurar. 
 
Neste contexto, penitenciamo-nos por não ter logrado alcançar uma amostra de maior 
dimensão no universo da Magistratura Judicial, em ordem à recolha dos dados que nos 
propusemos para uma melhor compreensão e percepção do que, em concreto, motiva o 
julgador no sentido positivo ou negativo da credibilização do testemunho. Porém, a 
amostra apresentada, face ao universo em que nos movemos – a magistratura judicial 
portuguesa – já terá algum significado, tanto mais que espelha uma visão repartida pelas 
três instâncias hierárquicas, indo da Primeira Instância ao Supremo Tribunal de Justiça, 
passando pela Relação. 
 
Para o efeito foi decisiva a colaboração e o contributo abnegado de 25 Senhores 
Magistrados Judiciais, que prontamente acederam em dar a conhecer o seu pensamento, 
a sua perspectiva e saber relativamente às questões objecto de entrevista, pelo que 
cremos que tal amostra é o