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TEORIA DO TESTEMUNHO TESE DE PSICOLOGIA

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os 
crimes em investigação e quanto se noticia a tal respeito, não passa de uma cabala ou 
conspiração. 
 
É neste contexto, e a par do encarniçamento noticioso, constituído por autênticos 
conglomerados pretensamente informativos, que a máquina judicial vai ser chamada a 
investigar e decidir. Decidir à custa de provas. Provas que terão de gerar a convicção do 
julgador. Para isso, e quanto à prova testemunhal ou por declarações, estas terão de se 
mostrar credíveis. Para se avaliar de tal credibilidade muito se tem escrito e sustentado, 
sendo certo que é crescente a consciência de que o direito, assim como as demais 
ciências, não são, nem podem ser, áreas compartimentadas e estanques do saber, pelo 
que, no caso em desenvolvimento, a osmose entre o direito e a psicologia permitirá, sem 
margem para dúvidas, o alcançar de um dos maiores desideratos da realização da 
Justiça - a descoberta da verdade material -, na salvaguarda da máxima de que é mil 
vezes melhor absolver um culpado do que condenar um inocente. 
 
É nossa convicção profunda que, enquanto não for mais decisivo e determinante o 
contributo da psicologia para certas decisões judiciais, especialmente na área jurídico- 
MESTRADO EM MEDICINA LEGAL 
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A CREDIBILIDADE DO TESTEMUNHO – A VERDADE E A MENTIRA NOS TRIBUNAIS 
 
criminal, o risco de condenação de inocentes será necessariamente elevado ou, pelo 
menos, superior a uma fasquia cujo patamar se deseja o mais baixo possível. 
 
Risco esse necessariamente acrescido quando a convicção do decisor emerge, 
nuclearmente, das declarações prestadas pela vítima, não havendo outras pessoas com 
conhecimento directo dos factos e sem um contributo de registo no âmbito da prova 
pericial. Na verdade, a certeza e o rigor duma decisão penal devem obrigar a uma maior 
acuidade, sobretudo quando o recorte fáctico evidenciado perante o Tribunal tem como 
epicentro e a versão de uma só pessoa – a pretensa vítima. Nestas circunstâncias, 
devem impor-se cautelas acrescidas na valoração da prova, lançando-se mão de todas 
as formas possíveis em ordem ao apuramento dos factos e à credível diluição de todas 
as dúvidas suscitadas. 
 
Só assim poderemos almejar a um processo leal e justo, tanto para as vítimas como para 
os arguidos, simultaneamente credível para todos os demais destinatários da decisão, 
vulgo sociedade civil, que espera da máquina judicial um instrumento capaz de apurar a 
realidade histórica e sobre ela decidir de acordo com a lei, a justiça e a equidade. 
 
A evolução da ciência tem demonstrado inúmeros erros judiciários, emergentes do 
apuramento de erróneas realidades e consequente formulação de convicções. A este 
propósito, veja-se quantos condenados nos EUA, já no corredor da morte, alcançaram a 
liberdade após a introdução das técnicas de investigação com recurso ao DNA – ácido 
desoxirribonucleico, adiante designado de DNA, vendo assim revistas as decisões 
condenatórias, uma vez detectado o erro do seu julgamento, a que não foi estranha a 
errónea convicção na credibilidade de um certo universo de provas. 
 
“Nos crimes de abuso sexual, sendo de prova difícil, porque entre o abusador e a 
vítima não está mais ninguém, muitas vezes, a rainha das provas só pode ser a prova 
testemunhal, ou seja, a vítima. 
A prova testemunhal assente no depoimento da vítima abusada é legal e admissível. 
Na ausência de outros elementos probatórios, periciais e outros, os indícios da 
verificação do facto têm de ser fortes e reveladores de uma convicção indubitável de 
condenação porque o seu resguardo é apenas a credibilidade do depoimento da 
vítima violada. Só com a prova testemunhal a credibilidade e os indícios têm de ser 
fortes. Se forem suficientes podem ser insuficientes. 
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A CREDIBILIDADE DO TESTEMUNHO – A VERDADE E A MENTIRA NOS TRIBUNAIS 
 
Condenar alguém por este tipo de crime com base, apenas, na prova testemunhal, 
não constituiu qualquer erro judiciário” (Rangel, R., 2010) (Anexo 8). 
 
De igual modo, estamos em crer que no nosso sistema judicial, sobretudo quando se 
decide perante um reduzido e escasso número de provas, muitas das vezes sendo da 
própria vítima o único relato contendo o pretenso conhecimento pessoal e directo dos 
factos em apreciação, dever-se-ia, no respeito pelo rigor da decisão e da valia da 
motivação nela constante, convocar tudo quanto a psicologia conhece e nos permite 
conhecer, em ordem a habilitar o julgador a uma decisão, tanto quanto possível, fiel ao 
figurino fáctico para o qual o direito foi convocado e chamado a responder para dar 
satisfação à pretensão punitiva do Estado. Se assim não se proceder, sempre e em cada 
momento, atenta a realidade em apreço, mais cedo ou mais tarde se concluirá da 
falibilidade de muitas decisões, tal como aquando da introdução dos exames de DNA 
como meio de obtenção de prova. Porém, e até lá, certamente muitos condenados não 
serão inocentados, como deviam. E mesmo que o não devam ser, continuarão a clamar 
pela sua inocência, sem que a sociedade logre se rever nas decisões condenatórias em 
que a convicção dos comportamentos censuráveis foi obtida a partir de muito pouco, ou 
seja, da mera apreciação da prova feita com base em enunciadas regras da experiência 
e da livre convicção do julgador. 
 
São estas as preocupações que nos levaram a tratar a presente matéria. Esta 
circunscreve-se assim, no essencial, à análise do que é tido como prova, ao modo como 
esta é apreciada e valorada pelos tribunais, à credibilidade dos testemunhos e 
depoimentos, às circunstâncias que podem influir nesta e ao contributo possível da 
psicologia para o apuramento do facto jurídico histórico em investigação e apreciação. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO I 
REVISÃO DA LITERATURA 
 
 
 
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CAPÍTULO I – REVISÃO DA LITERATURA 
1. A Prova 
 
“A prova, mais do que uma demonstração racional, é um esforço de 
razoabilidade: o juiz lança-se à procura do «realmente acontecido» 
conhecendo, por um lado, os limites que o próprio objecto impõe à sua tentativa 
de o «agarrar» e, por outro, os limites que a ordem jurídica lhe marca - 
derivados da(s) finalidade(s)do processo” (Cristina Libano Monteiro, 
―Perigosidade de inimputáveis e «in dúbio pro reo»‖, Coimbra, 1997, p.13, 
citado na Sentença do 1º Juízo Criminal do Tribunal Judicial da Comarca de 
Santa Maria da Feira, in www.verbojurídico.com). 
 
―A prova é (…) fonte de conhecimento e, por conseguinte, do convencimento do 
julgador‖ (Neves R., 2011, p. 55). 
 
Segundo Jeremy Bentham, ―a prova é a evidência da justiça: excluir a prova é excluir a 
justiça‖ (citado por Taruffo M., 2009, p. 144). 
 
“Prova pode ainda significar o próprio juízo de mérito que incide sobre os 
respectivos suportes, o juízo probatório, ou seja, a consideração racional de um 
dado facto como assente pela valoração de determinado(s) meio(s) de prova. E é 
neste sentido que podemos falar em prova legal plena, em indícios de prova, em 
prova suficiente, entre outros” (Oliveira F., 2007, p. 69). 
 
―O valor probatório resulta no fundo de uma consideração racional, de um verdadeiro 
juízo de valor, que relaciona um dado suporte material com o facto ou ideia que se 
pretende demonstrar, e atribui um determinado grau de credibilidade à mesma relação‖ 
(Giulio Ubertis, 1995, citado por Oliveira F., 2007, p. 69). 
 
 ―(…) Prova é o meio ou instrumento relevante, para a descoberta da verdade dos 
factos, sendo também um ponto de partida para a convicção do julgador (…)‖ (Almeida 
D., 1977, p. 73). 
 
―A prova tem por função a demonstração da realidade dos factos‖ nos termos do 
disposto no artigo 341.º do Código Civil, adiante designado por C.C., dos factos 
juridicamente relevantes, que não dos factos notórios. 
―Demonstrar é revelar ou descobrir, por