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LIVRO DE direitoadministrativonogueira

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em seu próprio benefício (art. 2º), permite que também o façam em favor de suas autarquias, 
fundações públicas, entidades paraestatais e concessionários de serviços públicos, os quais, depois 
de decretada a expropriação pelo Poder Público, podem promovê-la em seu nome, desde que 
estejam para isso expressamente autorizados por lei ou contrato (art. 3º). 
Assim, às entidades estatais menores só cabe declarar a necessidade ou a 
utilidade pública ou o interesse social do bem a ser expropriado e promover, diretamente ou por seus 
delegados, a respectiva desapropriação, sem expedir qualquer norma de natureza substantiva ou 
adjetiva sobre o instituto, os casos de expropriação ou o processo expropriatório, porque isto é da 
alçada exclusiva da lei federal.
Os casos ensejadores de desapropriação acham-se taxativamente 
relacionados, por lei, em dois grupos: o primeiro com fundamento em necessidade ou utilidade 
pública; o segundo, em interesse social. Todos, porém, definidos pelas leis federais que os 
enumeram e sem possibilidade de ampliação por norma estadual ou municipal. Inicialmente, o 
Código Civil relacionou os casos de necessidade pública (art. 590, § 1º) e os de utilidade pública (art. 
590, § 2º), mas essa relação foi absorvida pelo elenco mais completo do art. 5º do Dec.-lei 3.365/41, 
sob a denominação única e genérica de utilidade pública, e leis especiais aditaram outras hipóteses 
específicas.
Os casos de utilidade pública enumerados no art. 5º do Dec.-lei 3.365/41 são 
os seguintes: a) segurança nacional; b) defesa do Estado; c) socorro público em caso de calamidade; 
d) salubridade pública; e) criação e melhoramento de centros de população, seu abastecimento 
regular de meios de subsistência; f) aproveitamento industrial das minas e das jazidas minerais, das 
águas e da energia hidráulica: g) assistência pública, obras de higiene e decoração, casas de saúde, 
clínicas, estações de clima e fontes medicinais; h) exploração ou conservação dos serviços públicos; 
i) abertura, conservação ou melhoramento de vias ou logradouros públicos; loteamento de terrenos, 
edificados ou não, para sua melhor utilização econômica, higiênica ou estética; construção ou 
ampliação de distritos industriais (redação dada pela Lei 6.602/78); j) funcionamento dos meios de 
transporte coletivo; k) preservação e conservação dos monumentos históricos e artísticos, isolados 
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ou integrados em conjuntos urbanos ou rurais, bem como as medidas necessárias a manter-lhes os 
aspectos mais valiosos ou característicos e, ainda, a proteção de paisagens e locais particularmente 
dotados pela natureza; 1) preservação e conservação adequada de arquivos, documentos e outros 
bens móveis de valor histórico ou artístico; m) construção de edifícios públicos, monumentos 
comemorativos e cemitérios; n) criação de estádios, aeródromos ou campos de pouso para 
aeronaves; o) reedição ou divulgação de obra ou invento de natureza científica, artística ou literária; 
p) os demais casos previstos por leis especiais.
Observamos que a exigência de decreto autorizativo do Presidente da 
República para desapropriação de gleba rural necessária à formação de distrito industrial só se 
apresenta quando a gleba exproprianda se situa em zona rural e o imóvel não esteja cumprindo sua 
função social, nos termos dos arts. 184 e 186 da CF de 1988. Nos demais casos, o Governador ou 
Prefeito é livre para decretar e promover a desapropriação com base na letra "i" do art. 5º do Dec.lei 
3.365/41, com a nova redação dada pela Lei 6.602/78 e parágrafos acrescentados ao mesmo artigo.
Os casos de interesse social estão enumerados pelo art. 2º da Lei 4.132/62, 
nesta ordem: I - aproveitamento de todo bem improdutivo ou explorado sem correspondência com as 
necessidades de habitação, trabalho e consumo dos centros de população a que deve ou possa 
suprir por seu destino econômico; II - a instalação ou a intensificação das culturas nas áreas em cuja 
exploração não se obedeça a plano de zoneamento agrícola; III - o estabelecimento e a manutenção 
de colônias ou cooperativas de povoamento e trabalho agrícola; IV - a manutenção de posseiros em 
terrenos urbanos onde, com a tolerância expressa ou tácita do proprietário, tenham construído sua 
habitação, formando núcleos residenciais de mais de dez famílias; V - a construção de casas 
populares; VI - as terras e águas suscetíveis de valorização extraordinária, pela conclusão de obras e 
serviços públicos, notadamente saneamento, portos, transporte, eletrificação, armazenamento de 
água e irrigação, no caso em que não sejam ditas áreas socialmente aproveitadas; VII - a proteção 
do solo e a preservação de cursos e mananciais de água e de reservas florestais; VIII - a utilização 
de áreas, locais ou bens que, por suas características, sejam apropriados ao desenvolvimento de 
atividades turísticas (este inciso foi acrescentado pelo art. 31 da Lei 6.513, de 20.12.77). A mesma lei 
autoriza a venda dos bens expropriados, ou sua locação, a quem estiver em condições de dar-lhes a 
destinação social prevista no ato expropriatório (art. 4º). Essa desapropriação compete a qualquer 
das entidades estatais em que o caso se apresente com as características do interesse social.
Outros casos de interesse social foram acrescentados pelo Estatuto da Terra 
(Lei 4.504/64), para fins da reforma agrária, visando a: a) condicionar o uso da terra à sua função 
social; b) promover a justa e adequada distribuição da propriedade; c) obrigar à exploração racional 
da terra; d) permitir a recuperação social e econômica de regiões; e) estimular pesquisas pioneiras, 
experimentação, demonstração e assistência técnica; f) efetuar obras de renovação, melhoria e 
valorização dos recursos naturais; g) incrementar a eletrificação e a industrialização no meio rural; h) 
facultar a criação de áreas de proteção à fauna, à flora ou a outros recursos naturais, a fim de 
preservá-los de atividades predatórias (art. 18). A desapropriação, nestes casos, só se aplica a 
imóveis rurais, nos termos e para os fins do art. 184 da CF, seguindo os trâmites do Dec.-lei 554, de 
25.4.69, sendo que o ato expropriatório deve ser expedido pelo Presidente da República ou por 
autoridade a quem forem delegados poderes especiais para praticá-lo.
A declaração expropriatória pode ser feita por lei ou decreto em que se 
identifique o bem, se indique seu destino e se aponte o dispositivo legal que a autorize. Como se 
trata, entretanto, de ato tipicamente administrativo, consistente na especificação do bem a ser 
transferido compulsoriamente para o domínio da Administração, é mais próprio do Executivo, que é o 
Poder administrador por excelência.
A atribuição de competência expropriatória ao Legislativo, concorrentemente 
com o Executivo, é uma anomalia de nossa legislação, porque o ato de desapropriar é 
caracteristicamente de administração. A lei que declara a utilidade pública de um bem não é 
normativa; é específica e de caráter individual. É lei de efeito concreto equiparável ao ato 
administrativo, razão pela qual pode ser atacada e invalidada pelo Judiciário desde sua promulgação 
e independentemente de qualquer atividade de execução, porque ela já traz em si as conseqüências 
administrativas do decreto expropriatório.
Qualquer entidade estatal pode expropriar bens particulares, a União pode 
desapropriar os dos Estados-membros e dos Municípios e o Estado-membro só pode expropriar os 
dos seus Municípios, não cabendo a estes a desapropriação de bens de outros Municípios ou de 
entidades políticas maiores. 
Os efeitos da declaração expropriatória não se confundem com os da 
desapropriação em si mesma. A declaração de necessidade ou utilidade pública ou de interesse 
social é apenas o ato-condição que precede a efetivação de transferência