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<p>Eugenio Raúl Zaffaroni</p><p>A questão</p><p>criminal</p><p>Tradução</p><p>Sérgio Lamarão</p><p>Revisão da tradução</p><p>Antonio Almeida</p><p>Editora Revan</p><p>Copyright © 2013 by Editora Revan</p><p>Todos os direitos reservados no Brasil pela Editora Revan Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser</p><p>reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos ou via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da</p><p>Editora.</p><p>Revisão</p><p>Roberto Teixeira</p><p>Antonio Almeida</p><p>Capa</p><p>Sense Design & Comunicação</p><p>(Com ilustrações de Rep)</p><p>Impressão e acabamento</p><p>(Em papel off-set 75 g. após paginação eletrônica,</p><p>em tipos Garamond 11/13)</p><p>Divisão Gráfica da Editora Revan</p><p>Produção de ebook</p><p>S2 Books</p><p>CIP-BRASIL. Catalogação-na-fonte</p><p>Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ</p><p>Z22q</p><p>Zaffaroni, Eugenio Raúl, 1940-</p><p>A questão criminal / Eugenio Raúl Zaffaroni; tradução Sérgio Lamarão. – 1. ed. – Rio de Janeiro :</p><p>Revan, 2013.</p><p>il.; 320p.; 23 cm</p><p>Tradução de: La cuestión criminal</p><p>ISBN 978-85-7106-504-8</p><p>1. Criminologia. 2. Direito penal - Brasil. 3. Crimes e criminosos. I. Título.</p><p>13-04452 CDU: 343.2</p><p>22/08/2013 26/08/2013</p><p>Ilustração 1</p><p>A tradução dos textos inseridos nas ilustrações está na página "Tradução de textos das ilustrações".</p><p>1. A academia, os meios de comunicação e os</p><p>mortos[1]</p><p>Em qualquer lugar da superfície deste planeta fala-se da questão</p><p>criminal. É quase a única coisa de que se fala – em concorrência com o</p><p>futebol, que é arte complexa –, embora poucos pareçam se dar conta de</p><p>que machucamos muito o planeta e podemos lhe provocar um espirro que</p><p>nos projete violentamente a quem sabe onde (para não usar alguma</p><p>expressão pouco acadêmica). Fala-se, diz-se, com esse “se” impessoal do</p><p>palavrório. E o mais curioso é que quase todos acreditam ter a solução ou,</p><p>pelo menos, emitem opiniões.</p><p>Claro que se fala ao compasso de julgamentos assertivos em tom</p><p>sentenciador, emitidos pelos meios de comunicação de massa, estes às</p><p>vezes nas mãos de grandes corporações transnacionais, enredadas com</p><p>outras que disputam o poder aos Estados, bastante impotentes, do mundo</p><p>globalizado.</p><p>É indispensável escutar o que se fala para não se ficar falando</p><p>sozinho, como costuma acontecer no mundo acadêmico. E em nosso país,</p><p>e nos outros por onde às vezes me desloco, fala-se da questão criminal</p><p>como de um problema local. As soluções passam por condenar um ou</p><p>outro personagem ou instituição, mas sempre falando de um problema</p><p>local, nacional, estadual, às vezes quase municipal.</p><p>Poucos se dão conta de que se trata de uma questão mundial, na qual</p><p>se está jogando o âmago mais profundo da forma futura de convivência e</p><p>talvez, inclusive, do próprio destino da humanidade nos próximos anos,</p><p>que pode não estar isento de erros fatais e irreversíveis.</p><p>Se ficamos no plano da análise local, perdemos o mais profundo da</p><p>questão, porque olhamos as peças sem compreender as jogadas do</p><p>tabuleiro de um xadrez macabro, no qual se joga, em definitivo, o destino</p><p>de todos.</p><p>Quando nos limitamos a esses julgamentos, ficamos presos à Doña</p><p>Rosa http://es.wikipedia.org/wiki/Bernardo_Neustadt. É claro que se deve</p><p>resolver o problema da Doña Rosa, mas a armadilha do velho</p><p>comunicador dos festivos anos 1990 consistia em nos encerrar no</p><p>problema de Doña Rosa. Devo esclarecer que sempre me ofendi com</p><p>aquela menção a Doña Rosa, por me lembrar de minha avó materna, que</p><p>se chamava Rosa e vivia em um bairro – como eu sempre fiz – e pensava</p><p>muito mais e melhor do que o personagem de ficção com o qual o artífice</p><p>da comunicação dos anos irresponsáveis sintetizava sua argumentação</p><p>enganosa.</p><p>Quando se abriu a possibilidade de escrever esses suplementos,</p><p>confesso que me senti seriamente desafiado. Em todo o mundo</p><p>acadêmico, os dedicados ao tema observam e criticam o fenômeno da</p><p>centralização da questão criminal, e o fazem, inclusive, com diagnósticos</p><p>muito bons. Nenhum dos conceitos expostos nesses suplementos foi</p><p>concebido no plano científico por minha exclusiva criatividade, longe</p><p>disso.</p><p>Porém, se tudo fica no mundo acadêmico, parece que não temos</p><p>capacidade de comunicá-lo ou, melhor dizendo, parece que a</p><p>comunicação é contaminante, que a pureza científica deve ser mantida à</p><p>margem da comunicação, que perdemos nível acadêmico quando</p><p>pretendemos explicar algo a isso que hoje chamam o público, sem que</p><p>nos apercebamos de que o público somos nós quando nos dói o fígado,</p><p>ou quando saímos para comprar pães.</p><p>É claro que o pensamento acadêmico, universitário, é importante, mas</p><p>creio que chegou a hora de comunicá-lo. As borlas doutorais, as togas e</p><p>os punhos (esclareço que se assim se denomina as extremidades ornadas</p><p>das mangas das togas dos catedráticos) de pouco servem quando se fala</p><p>do que todos sabem, segundo o que lhes dizem as grandes corporações</p><p>midiáticas do mundo, incluindo muitos políticos – oportunistas alguns,</p><p>propulsores conscientes de um novo totalitarismo outros, amedrontados e</p><p>tremendo diante das corporações midiáticas os demais.</p><p>Não estamos diante de fenômenos apenas locais, nacionais, estaduais</p><p>nem municipais, mas sim diante de problemas que podemos resolver</p><p>apenas em parte nesses níveis, e que integram uma trama mundial. Insisto.</p><p>Se não compreendemos essa trama, moveremos sempre mal as peças,</p><p>perderemos partida após partida. Devemos fazer o maior esforço para</p><p>impedir que isso aconteça, porque, no fundo, estamos diante de uma</p><p>encruzilhada civilizatória, uma opção de sobrevivência, de tolerância, de</p><p>coexistência humana.</p><p>Vivemos um momento de poder planetário que é a globalização, que</p><p>sucede ao colonialismo e ao neocolonialismo. Cada momento, nesse</p><p>contínuo do curso do poder planetário, foi marcado por uma revolução: a</p><p>mercantil do século XIV, a industrial do século XVIII e, agora, a</p><p>tecnológica do século XX, que se projeta para o século atual. Esta última</p><p>revolução, a tecnológica, é fundamentalmente comunicacional. Se não</p><p>compreendermos isso e nos deixarmos ficar em nossos guetos</p><p>acadêmicos, o serviço que prestarmos será muito pobre.</p><p>Há um mundo que as pessoas comuns não conhecem, que se</p><p>desenvolve nas universidades, nos institutos de pesquisa, nas associações</p><p>internacionais regionais e mundiais, nos foros e nas pós-graduações, com</p><p>uma literatura imensa, que alcança proporções siderais, de dimensão</p><p>tamanha que ninguém pode dominar individualmente. É o mundo dos</p><p>criminólogos e dos penalistas. As corporações os ignoram e quando lhes</p><p>cedem algum espaço, os técnicos se expressam em seu próprio dialeto,</p><p>incompreensível para o resto dos humanos.</p><p>O desafío consiste em abrir esses conhecimentos, não para</p><p>pontificarmos a partir da ciência com a solução, nem para sermos os</p><p>iluminados que, corrigindo o velho Platão, pretendemos nos colocar como</p><p>um criminólogo-rei, mas sim para mostrarmos o que se pensa e o que se</p><p>sabe até agora. E também para fazer a autocrítica do que dizemos, porque,</p><p>certamente, tampouco temos uma história e uma genealogia feitas</p><p>somente de prestígio, dado que, muitas vezes, nossos colegas legitimaram</p><p>o ilegitimável até limites inacreditáveis.</p><p>Imaginemos o que aconteceria caso se procedesse com o mesmo</p><p>critério em outros âmbitos, como por exemplo, no da medicina. Se, numa</p><p>mesa de bar, alguém defendesse a teoria dos humores, é provável que os</p><p>demais o olhassem com ironia. Porém, como a liberdade é livre, é claro</p><p>que qualquer um pode continuar defendendo a teoria dos humores na</p><p>mesa de bar; ninguém discute esse direito à expressão.</p><p>No entanto, seria grave se a teoria dos humores fosse divulgada como</p><p>discurso único pelos meios de comunicação, se se desprestigiasse ou</p><p>menosprezasse a quem dissesse algo diferente, se os pesquisadores</p><p>mulatos, raças colonizadas ou</p><p>degeneradas, defeituosos, incapazes, doentes, degenerados etc. Como</p><p>não podiam eliminar todas as mulheres, contentam-se em queimar</p><p>somente as desobedientes.</p><p>A inferioridade pode estender-se: as filhas das bruxas tinham</p><p>predisposição à bruxaria. E isso pode acontecer por causações</p><p>genéticas, pois os diabos sabiam de quem retirar o sêmen e onde</p><p>colocá-lo para produzir esse efeito; seria o contrário da eugenia e se</p><p>chamaria disgenesia, ainda que, como para os diabos era bom, trata-</p><p>ser-ia de uma eugenia diabólica. Mas não nos atrapalhemos mais.</p><p>Também podia haver transmissão por caracteres adquiridos a partir da</p><p>bruxaria da mãe.</p><p>Os filhos do bruxo-chefe não eram filhos de diabos, porque estes são</p><p>anjos e não têm sêmen, só adotam a forma humana, mas na realidade</p><p>são de ar concentrado, como uma espécie de bonecos infláveis de sex-</p><p>shop, se bem que conhecem a engenharia genética. Aqui os</p><p>inquisidores, com séculos de antecipação, combinam Darwin com</p><p>Lamarck, a exemplo de emergências posteriores: há que matá-los se</p><p>são geneticamente inferiores, como faziam os nazistas; há que criá-los</p><p>com uma família sadia se a inferioridade provém da educação, como</p><p>Franco ou os ditadores na Argentina fizeram.</p><p>As vítimas não devem ser colocadas em situação de vulnerabilidade,</p><p>porque os vícios favorecem a ação de Satã. Aqueles que têm amantes</p><p>antes de se casar provocam-nas a que, sentindo-se despeitadas, façam</p><p>sortilégios para matar suas esposas. É necessário viver na ordem para</p><p>cuidar do inimigo; toda desordem pode ser aproveitada por ele.</p><p>Aquele que exerce o poder punitivo quer moralizar, na verdade para</p><p>facilitar-lhe a tarefa.</p><p>É uma regra inveterada que o poder punitivo descontrolado quer um</p><p>mundo regular e cinza, monótono, que possa controlar sem</p><p>problemas: tudo aquilo que sai do costumeiro é suspeito. A alegria</p><p>conspira contra o controle e baixa o nível de paranoia, porque a festa</p><p>faz pensar em outra coisa, as pessoas se distraem. Os inquisidores</p><p>advertem contra o perigo das festas populares: são sempre os dark da</p><p>época.</p><p>Os inquisidores negam os danos colaterais, afirmando que não há</p><p>14.</p><p>15.</p><p>16.</p><p>17.</p><p>18.</p><p>terceiros inocentes, e sim que o castigo é sempre merecido, ainda que</p><p>se baseiem num dogma: por alguma coisa será. Em muitos massacres</p><p>se afirma que não há inocentes, que todos são culpados, embora não</p><p>tenham feito nada.</p><p>Os inquisidores são infalíveis e, mais do que isso, são puros: São</p><p>Macário, porque era puro, era o único que via uma mulher quando os</p><p>demais, por efeito de bruxaria, viam uma égua, até que Macário a</p><p>desencantou e os demais puderam ver a mulher. A pureza garante a</p><p>perfeita percepção dos fatos. É o que passa com os grandes</p><p>empresários dos massacres: são os únicos puros que veem com</p><p>clareza; por isso devem ser seguidos sem discussão.</p><p>Os inquisidores não admitem erros, quem é condenado é culpado e a</p><p>condenação é prova suficiente; nunca houve um erro e todas as</p><p>mulheres queimadas eram bruxas. É óbvio que as cinzas não apelam.</p><p>A única razão que davam para negar algum erro era que Deus não</p><p>podia permitir isso, porque, como sabemos, estava sequestrado por</p><p>eles. Os sucessivos empresários de emergências massacradoras não</p><p>puderam dizer o mesmo, porque Deus já havia escapado deles. Por</p><p>isso, apelaram à tese de que é inevitável, em toda guerra, que alguns</p><p>inocentes sejam sacrificados.</p><p>Os inquisidores se eximem de toda ética frente ao infrator: podem</p><p>prometer de tudo e depois não cumpri-lo. A inferioridade da bruxa</p><p>lhes autoriza a fazer isso. O mesmo acontece em qualquer emergência,</p><p>os empresários massacradores não têm códigos, porque não vale a</p><p>pena frente aos terroristas, subversivos, criminosos, degenerados,</p><p>estrangeiros inimigos, doentes etc.</p><p>Os inquisidores são imunes ao mal que combatem: Satã não pode</p><p>enganá-los, porque Deus não o permitiria. Posteriormente, será sua</p><p>ciência ou conhecimento especial que os tornará imunes. O cobrador</p><p>de impostos não colaborará com a evasão fiscal, o funcionário que</p><p>combate o tráfico não ajudará a traficar etc. Todo poder punitivo</p><p>garante que seus agentes são imunes ao mal e, quanto mais fora do</p><p>controle, maior é a garantia de imunidade e menor a possibilidade de</p><p>eles serem desmascarados.</p><p>O mal tende a prolongar-se. As parteiras eliminavam as crianças não</p><p>batizadas para que não se completasse o número de eleitos e o juízo</p><p>final fosse adiado. Assim, elas sobreviveriam mais tempo. O mal</p><p>19.</p><p>20.</p><p>sempre se prolonga e o raciocínio, por isso, faz com que seja exigida</p><p>sua erradicação total e absoluta: o massacre deve ser radical e</p><p>definitivo.</p><p>A crença no poder das bruxas era um preconceito da época. O</p><p>Malleus o reforça ao extremo, com a garantia do saber acadêmico de</p><p>seu tempo. Não foi à toa que Krämer fez algo não totalmente claro</p><p>para obter o apoio da Universidade de Colônia. Todas as emergências</p><p>posteriores exploraram e aprofundaram os preconceitos; é o que se</p><p>chama de uma política völkisch ou popularista (não populista, que é</p><p>outra coisa muito diferente).</p><p>O Malleus garante a reprodução da clientela: a mulher não era</p><p>torturada para que confessasse, mas para que revelasse os nomes de</p><p>seus cúmplices e a mera menção de um nome sob tortura autorizava</p><p>que a pessoa nomeada também fosse torturada. Toda emergência</p><p>cuida para que a clientela não termine, porque se se esgota seu poder</p><p>punitivo perde sentido, como havia acontecido ao Papa depois dos</p><p>massacres dos cátaros e outros hereges.</p><p>Esta é, em sua maior síntese, a estrutura fundacional do poder</p><p>punitivo ilimitado, trabalhada durante duzentos anos e sintetizada</p><p>tardiamente pelo Malleus em 1494, mas que até hoje se manteve em todas</p><p>as fabricações de emergências que foram feitas nos seis séculos</p><p>posteriores. O Malleus é uma obra tardia, porque no século seguinte ao</p><p>seu aparecimento consolidaram-se as monarquias e, com algumas delas, as</p><p>igrejas nacionais. A inquisição papal teve de fazer de tudo para evitar que</p><p>os adeptos dessas igrejas nacionais não se sublevassem na parte que ficava</p><p>sob seu controle, razão pela qual deixou as mulheres um pouco de lado e</p><p>se ocupou de queimar reformados. Os reformados, por sua vez, também</p><p>praticavam a combustão com grande entusiasmo, como Calvino, que</p><p>encarregou Servet da tarefa, porque parece que não lhe agradava que o</p><p>sangue circulasse. É óbvio que o sangue continuou circulando, mas não o</p><p>de Servet.</p><p>O poder dos inquisidores e de seus rapazes era cobiçado por outros e,</p><p>entre estes, pelos médicos, que aspiravam ficar com pelo menos parte</p><p>deste poder. Teremos, mais adiante, oportunidade de verificar que os</p><p>médicos sempre tiveram vontade de deter o poder punitivo e chegaram a</p><p>dominar seu discurso legitimador com horríveis consequências</p><p>massacradoras. Porém, o primeiro avanço do poder médico sobre o</p><p>campo punitivo foi tentado em 1563 por um médico protestante dos</p><p>Países Baixos, Johann Weyer (ou Weier ou Wier), que publicou, em</p><p>Basileia, um livro denominado As artimanhas do demônio, que</p><p>rapidamente correu toda s Europa, armando considerável reboliço.</p><p>Wier não negava a inferioridade da mulher nem a existência das</p><p>bruxas e muito menos sua periculosidade, pois continuava atuando dentro</p><p>da mesma visão agostiniana do mundo, configurada pelas cidades</p><p>espelhadas de Deus e Satã. O que ele introduziu foi a novidade de que as</p><p>bruxas eram melancólicas e que, por isso, Satã se aproveitava delas,</p><p>explorando sua doença. Não é demais recordar desde já que a melancolia</p><p>era o que, com Charcot, logo seria chamado de histeria.</p><p>Ao mesmo tempo, como bom protestante, Wier aproveitava para</p><p>dizer</p><p>que os verdadeiros bruxos eram os padres exorcistas, que praticavam sua</p><p>magia diante de fetiches, que eram os santos católicos. Cabe esclarecer</p><p>que havia um agrupamento de exorcistas que protestava toda vez que um</p><p>padre que não pertencia ao agrupamento se lançava a exorcizar alguém.</p><p>Mas voltando a Wier, devemos advertir que ele havia viajado a lugares</p><p>distantes e estudado várias plantas alucinógenas, razão pela qual também</p><p>afirmava que muitas dessas mulheres sofriam os efeitos de intoxicações</p><p>pela atropina, pelo ópio e pelo hashish (a maconha e a cocaína não</p><p>haviam chegado).</p><p>A novidade introduzida por Wier é muito interessante, porque dá</p><p>lugar àquilo que subsiste ainda hoje, as chamadas medidas de segurança.</p><p>O poder punitivo pode libertar-se de limites argumentando de várias</p><p>maneiras, e não há exagero nessa afirmação, pois o engenho perverso que</p><p>caracteriza seus discursos legitimadores é inusitadamente fértil. Um deles</p><p>consiste em ocultar ou dissimular seu próprio carácter punitivo, o que</p><p>continua fazendo mediante o expeditivo recurso de deixar de chamar</p><p>penas às penas. Foi isso o que Wier introduziu.</p><p>Com efeito, vimos que havia uma contradição entre, por um lado, a</p><p>pena limitada pela reprovação de culpabilidade fundada na escolha do</p><p>infrator, na qual lhe é cobrada sua culpa, própria dos juristas (glosadores</p><p>e pós-glosadores), e, por outro, a periculosidade afirmada pelos</p><p>demonólogos, pois os primeiros não podiam justificar as penas máximas</p><p>às mulheres, porque eram menos inteligentes e, por conseguinte, deviam</p><p>ser menos culpadas.</p><p>A solução transacional encontrada foi aumentar ao máximo a</p><p>gravidade do delito das bruxas e torná-lo superior até mesmo ao pecado</p><p>original, com o qual, por qualquer das duas vias, se habilitava a</p><p>combustão, recurso que quatrocentos anos depois os penalistas do</p><p>nazismo voltariam a usar.</p><p>Wier propôs uma variante consistente na qual as bruxas eram retiradas</p><p>do campo dos juristas e dos inquisidores e deixadas nas mãos dos</p><p>médicos, de modo que estes pudessem colocá-las nos manicômios, que</p><p>eram, em sua época, asilos infectos piores que as prisões, onde não</p><p>sobreviveriam por muito tempo. Desse modo, não se penalizava</p><p>formalmente as mulheres, mas as privava materialmente de liberdade até</p><p>sua morte ou pouco menos, se bem que suponhamos que as mulheres de</p><p>classe alta poderiam ser atendidas a domicílio.</p><p>É interessante observar que até hoje no direito penal se discute se a</p><p>pena é determinada pela culpabilidade ou pela periculosidade, conquanto</p><p>se dissimule a terminologia tratando de combinar remendos contraditórios.</p><p>Nessas combinações do não acumulável, o mais frequente na legislação</p><p>comparada é que se prevê fixar a pena segundo a culpabilidade, mas os</p><p>perigosos ou inimigos são deixados à mercê das medidas administrativas</p><p>de segurança. Desse modo, verificamos que não estamos falando de</p><p>história no sentido mais usual do termo, e sim do presente, ou seja,</p><p>confirmamos, uma vez mais, que a Idade Média não terminou.</p><p>De qualquer maneira, essa primeira tentativa de manipular o poder</p><p>punitivo por parte dos médicos não se fez graças à Igreja, nem tampouco</p><p>aos reis e príncipes. O jesuíta Martín do Río – belga como Wier, mas filho</p><p>de pai espanhol – afirmou que Wier não só era um herege, porque negava</p><p>que as bruxas voassem, mas também um mago. Por conseguinte, se Wier</p><p>houvesse caído nas mãos católicas teria sido permitido que eles</p><p>celebrassem um assado a mais.</p><p>Todavia, como a queima de mulheres já não se praticava tanto por</p><p>iniciativa da Igreja, e sim pela dos juízes dos reis, a proposta de Wier</p><p>alarmou os teóricos que estavam lançando as bases do conceito de</p><p>soberania, porque ele queria arrebatar um poder que estava passando</p><p>rapidamente para seus soberanos. Wier não só se havia imiscuído com o</p><p>poder do Papa, como também com o dos soberanos: tudo bem que o</p><p>disputassem entre eles, mas não que alguém pretendesse retirá-lo de</p><p>ambos e deixar de queimar as mulheres para enfiá-las em asilos.</p><p>Os dois teóricos mais fortes do conceito emergente de soberania, hoje</p><p>tão descaracterizado, foram, no século XVI, o inglês Thomas Hobbes e o</p><p>francês Jean Bodin (ou Bodino). Este último publicou um livro em</p><p>resposta a Wier em 1580: De la démonomanie des sorciers. De l’inquisition</p><p>des sorciers. Bodin se dava conta de que a manipulação médica não se</p><p>limitava às bruxas, mas que ameaçava ir muito mais longe e, portanto,</p><p>discorria que, com o mesmo critério, todos os criminosos deveriam ser</p><p>psiquiatrizados.</p><p>Porém, não foi somente Bodin quem percebeu a gravidade da ameaça</p><p>médica ao poder dos soberanos. O próprio filho de Maria Stuart, o rei</p><p>Jaime I da Inglaterra e VI da Escócia – perseguidor um tanto desanimado</p><p>de católicos e puritanos, nos momentos de ócio que a atenção de seus</p><p>favoritos lhe permitia, uma vez que a rainha lhe dispensava muito pouca –</p><p>escreveu uma Demonologia em resposta a Wier.</p><p>Isso dá conta de que desde a primeira tentativa séria da corporação</p><p>médica, todos os donos do discurso do poder punitivo fizeram soar o</p><p>alarma, o que parece mais que justificado à luz dos fatos dos três séculos</p><p>posteriores.</p><p>Ilustração 7</p><p>5. Sempre houve rebeldes e transgressores</p><p>Vimos que os inquisidores eclesiásticos no século XVI já não se</p><p>ocupavam muito das bruxas. Isso se deveu ao fato de o Papa ter nomeado</p><p>um cardeal embaixador na Espanha e este viu como a inquisição</p><p>funcionava ali, como um instrumento muito eficaz de verticalização a</p><p>serviço do rei, dedicado a converter em cinzas todos os dissidentes</p><p>perigosos para a Coroa (os chamados hereges), em particular os que</p><p>tentavam introduzir a desordem com ideias das Igrejas reformadas</p><p>nacionais de outros países.</p><p>Pois bem. Este cardeal voltou a Roma e quando o Papa morreu, foi</p><p>eleito para substituí-lo. Nem lento nem preguiçoso, copiou a organização</p><p>da inquisição espanhola para combater os reformados e suas heresias, ou</p><p>seja, todos os que não lhe respondiam, revitalizando a decadente</p><p>inquisição romana e transferindo sua condução aos jesuítas.</p><p>Aqui vemos uma mudança de corporação hegemônica, em que o</p><p>primado do discurso sobre a questão criminal passou dos dominicanos aos</p><p>jesuítas. Isso ocorreu no tempo em que o discurso se centrava nos</p><p>luteranos e em outros hereges e deixava de lado as bruxas, cuja</p><p>combustão passou a ser decidida pelos juízes dos reis e príncipes, que</p><p>continuaram praticando-a com singular paixão incendiária, em especial na</p><p>Europa central, valendo-se sempre dos ensinamentos do famoso Malleus.</p><p>Contudo, nem todos estavam tão loucos nesse tempo, pois houve</p><p>autores que escreveram contra essa prática, em particular alguns jesuítas.</p><p>O grande rebelde foi Friedrich Spee, que publicou, em 1631, um livro</p><p>exclusivamente destinado a destruir o Malleus e aos doutrinários que</p><p>legitimavam a combustão de mulheres acusadas de bruxaria. Como era</p><p>natural, por elementar prudência, ele publicou o livro anonimamente e</p><p>sem a licença dos superiores de sua ordem, o que constituía uma falta</p><p>gravíssima.</p><p>Em todas as épocas, o transgressor é um enigma. Como surge? Por</p><p>que alguém desafia o poder ou os valores dominantes, mesmo às custas</p><p>de graves riscos? Há quem afirme que se trata de casos em que aquilo que</p><p>foi ensinado desde pequeno contrasta muito fortemente com o que se</p><p>verifica em seguida, na vida adulta, porém o certo é que isso acontece</p><p>mais ou menos com todos nós e para resolver os psicanalistas costumam</p><p>comparecer.</p><p>De toda forma e sem descartar essa possibilidade, o certo é que por</p><p>sorte sempre há</p><p>transgressores e, no caso de Spee, não podemos verificar</p><p>se quando era pequeno, ao invés de contos de fadas, lhe liam relatos de</p><p>bruxas, e tampouco podemos fazer uma reportagem com ele e lhe</p><p>perguntar a esse respeito.</p><p>A julgar pelo que os biógrafos de Spee relatam, parece que o</p><p>encarregaram de tomar a confissão de todas as bruxas de sua comarca</p><p>antes de queimá-las, e o pobre ficou tão traumatizado que seu cabelo foi</p><p>ficando branco, e não justamente porque as neves do tempo branquearam</p><p>suas cãs, já que era muito jovem.</p><p>O livro desse rebelde grisalho se chamou Cautio criminalis, ou seja,</p><p>cautela ou prudência criminal. O próprio título da obra era incômodo</p><p>porque encerrava uma ironia: a Constitutio criminalis era a ordenança</p><p>criminal vigente e brutal de Carlos V, isto é, o texto legal, de inusitada</p><p>crueldade, que regeu o direito penal comum alemão desde 1532 até final</p><p>do século XVIII e em função do qual os juízes do imperador do Sacro</p><p>Império Romano-Germânico queimavam mulheres (depois que o SIRG foi</p><p>dissolvido, essa tarefa coube aos dois príncipes que se consideravam</p><p>herdeiros do império desmembrado).</p><p>É curioso, mas Spee não era nem um jurista nem um criminólogo, e</p><p>sim um poeta e, segundo os especialistas, o melhor poeta alemão de seu</p><p>tempo, além de destacado teólogo.</p><p>Pois bem. Esse rebelde encanecido, cansado das brutalidades e</p><p>iniquidades das quais era testemunha (ao que talvez conviesse acrescentar</p><p>que as tinturas de seu tempo não eram boas), decidiu jogar tudo em seu</p><p>livro e se valer disso à vontade, sem poupar nenhum detalhe nem</p><p>adjetivo.</p><p>Spee não andou em círculos e não se enredou em discussões sobre o</p><p>poder de Satã ou das bruxas. Ele começa afirmando que não discute sua</p><p>existência, mas que nunca conheceu nenhuma e que não havia bruxa</p><p>alguma entre as mulheres de quem recolheu confissão antes de serem</p><p>queimadas. Pelo contrário: afirma que com o procedimento inquisitorial</p><p>qualquer um podia ser condenado por bruxaria.</p><p>O encanecido não era nenhum bobo – um bom poeta nunca pode sê-</p><p>lo – e, por conseguinte, tomou o caminho correto em qualquer crítica ao</p><p>poder punitivo, evitando cair na armadilha usual que desvia a questão</p><p>para a gravidade do mal que este pretende combater e contra o que livra</p><p>sua guerra.</p><p>Se o poder punitivo não serve para o que pretende, não é questão de</p><p>entrar na discussão acerca da maldade do que diz combater, e sim,</p><p>simplesmente, mostrar que não o faz. Nas discussões sobre as atuais</p><p>andanças de Satã (ou o inimigo), não tem sentido discutir se a cocaína é</p><p>daninha, porque não há dúvida de que é; o importante é mostrar que a</p><p>pretensa guerra à cocaína provocou 40.000 mortos no México nos últimos</p><p>quatro anos, boa parte deles decapitados e castrados (a cocaína teria</p><p>demorado quase um século para provocar a mesma quantidade por efeito</p><p>de overdose). Tampouco tem sentido discutir a perversidade do terrorismo,</p><p>e sim fazer notar que a suposta guerra já causou muito mais mortos</p><p>inocentes que o próprio terrorismo. Spee soube disso em 1631, embora</p><p>muitos comunicadores sociais não tenham se dado conta até o presente.</p><p>Talvez tenha sido mais fácil para Spee porque não via televisão.</p><p>Ilustração 8</p><p>Nosso encanecido jesuíta se perguntava como era possível que</p><p>acontecessem essas aberrações, o que era que permitia que continuasse</p><p>semelhante barbárie. Em primeiro lugar o atribui à ignorância da</p><p>população, isto é, à desinformação, ou seja, à criminologia midiática de</p><p>seu tempo, carregada de preconceitos que se reforçavam desde as praças</p><p>e os púlpitos, ou seja, ao que hoje chamamos técnica völkisch</p><p>(popularista, que alguns traduzem equivocadamente por populista, que</p><p>obviamente não é a mesma coisa).</p><p>Além do mais, ele destacava a responsabilidade da Igreja, entendendo</p><p>por tal os teóricos, isto é, os dominicanos e seus seguidores, que repetiam</p><p>as palavras-de-ordem discursivas da criminologia acadêmica de seu tempo,</p><p>legitimadora desses assassinatos.</p><p>Prosseguia atribuindo culpa aos príncipes, que, desse modo podiam</p><p>imputar todos os males a Satã e a seus seguidores, sobretudo porque não</p><p>controlavam seus subordinados, a quem deixavam livres. Isso, hoje, é o</p><p>que chamamos de autonomização policial, ou seja, permitir que a</p><p>corporação policial atue fora de todo controle político, para o qual se lhe</p><p>atribuem âmbitos de arrecadação autônoma, também destacados por Spee.</p><p>Com efeito, os inquisidores oficiais dos príncipes cobravam por bruxa</p><p>executada, ou seja, trabalhavam por tarefa. Por isso, esforçavam-se por</p><p>obter o nome de outra candidata, a fim de que a clientela nunca se</p><p>esgotasse e, além do mais, atribuíam a Satã o suicídio de algumas dessas</p><p>infelizes, porque nesse caso não cobravam. Os príncipes não pagavam por</p><p>bruxas suicidas, porque não lhes serviam como espetáculo popular.</p><p>Porém, como se isso fosse pouco, Spee conta também que se dedicavam a</p><p>percorrer os domicílios solicitando contribuições para seu santo labor de</p><p>purificação, ou seja, que trata-seva de uma venda de proteção mafiosa.</p><p>Como vemos, há poucas coisas novas sob o sol. Por último, nosso</p><p>encanecido poeta destacava algo que é até hoje moeda corrente na</p><p>linguagem jurídica: os eufemismos. Quando nas atas se fazia constar que</p><p>as mulheres confessavam voluntariamente, era porque o haviam feito uma</p><p>vez penduradas e desconjuntadas, uma vez que só se considerava</p><p>confissão sob tormento quando os ferros eram aplicados.</p><p>O livro de Spee é um pouco tedioso e bastante desordenado, pois está</p><p>escrito com base no método das questões, ou seja, perguntas e respostas.</p><p>São 52 questões e nas últimas ele não poupa qualificativos: considera que</p><p>a queima de mulheres pode ser comparada com o que Nero fazia aos</p><p>cristãos, o que implica que os juízes dos príncipes eram criminosos.</p><p>Ninguém se havia animado a semelhante adjetivação e teria de se passar</p><p>mais de um século e meio até que dissesse o mesmo Jean-Paul Marat, o</p><p>revolucionário francês execrado por toda a historiografía fascista posterior.</p><p>O que cabe destacar como mais significativo desse texto é que, assim</p><p>como o Malleus fixou a estrutura do discurso inquisitorial, a Cautio o fez</p><p>com o discurso crítico. Com efeito, qualquer discurso crítico do poder</p><p>inquisitorial e do poder punitivo em geral, desde 1631 até hoje destaca o</p><p>seguinte: 1) o descumprimento de seus fins manifestos pelo poder</p><p>punitivo; 2) a função dos meios de comunicação; 3) a dos teóricos</p><p>convencionais legitimadores; 4) sua conveniência para com o poder</p><p>político ou econômico; 5) a autonomização policial; e 6) a corrupção ou a</p><p>arrecadação autônoma.</p><p>Esses elementos estruturais estão presentes no discurso deslegitimador</p><p>ou crítico de todo poder punitivo, desde a crítica liberal ao poder punitivo</p><p>do Antigo Regime até as teorias da criminologia crítica das últimas décadas</p><p>do século passado.</p><p>Nesse sentido, Spee fixou outro programa de computação que em</p><p>cada época em que floresce a crítica volta a ser prenchido com os dados</p><p>correspondentes ao tempo de cada autor. Pode-se dizer que até hoje</p><p>construímos discursos seguindo alternativamente as estruturas fundacionais</p><p>do Malleus ou da Cautio.</p><p>O livrinho de Spee incomodava muito os príncipes, os dominicanos,</p><p>os policiais e os juízes, mas também os próprios jesuítas, que embora não</p><p>queimassem mulheres, aplicavam o mesmo procedimento contra os</p><p>luteranos, e por isso ter semelhante infrator em suas fileiras lhes criava um</p><p>problema com os príncipes.</p><p>Se bem que o livro tenha sido publicado sem nome de autor, aos</p><p>poucos se soube que Spee era o responsável e não faltou quem</p><p>imediatamente propusesse que ele fosse assado em fogo lento, ideia que</p><p>não prosperou, talvez porque isso lhe tivesse dado mais fama. De</p><p>qualquer maneira, era contaminador para a ordem, motivo pelo qual</p><p>quiseram obrigá-lo a renunciar a ela, a que o poeta se negou</p><p>veementemente. No final, resolveram suportá-lo e acalmá-lo na medida do</p><p>possível, dando-lhe uma cátedra de teologia.</p><p>Alguns citam seu nome como Friedrich von Spee, o que não é certo,</p><p>porque não era nobre; seu nome era somente Friedrich Spee e o von</p><p>Langenfeld não faz mais que indicar seu lugar de origem.</p><p>Quatro anos depois da publicação da Cautio criminalis, em 1635,</p><p>morreria contagiado enquanto prestava assistência a soldados vítimas da</p><p>peste. Imaginamos que sua morte tenha sido um alívio para seus</p><p>superiores, pois não se preocuparam muito com seus restos, que ficaram</p><p>perdidos até que, em 1980, conseguiu-se identificar seu corpo.</p><p>Pese a todo o empenho colocado por Spee e aos riscos que ele</p><p>correu, seu livro passou sem pena nem glória e os juízes continuaram</p><p>levando adiante sua alegre queima de mulheres, conforme as instruções</p><p>do Malleus, que continuava sendo o livro de cabeceira dos corruptos da</p><p>época.</p><p>Setenta anos depois do aparecimento da Cautio, o filósofo Christian</p><p>Thomasius releu sua obra. Thomasius era um simpático senhor, que</p><p>aparece nos retratos com seu rosto rosado arredondado, sem que</p><p>saibamos se era grisalho, pois cobria sua cabeça com uma peruca loura,</p><p>de longos cachos. Ao que parece, esse recurso protegia um respeitável</p><p>conteúdo craniano, porque Thomasius não duvidou em retomar os</p><p>argumentos de Spee. Em 1701, ele defendeu publicamente sua tese</p><p>Dissertatio de crimine magiae, na qual desbaratava os disparates do</p><p>Malleus. Esta tese foi traduzida para o alemão três anos mais tarde e</p><p>alcançou grande repercussão, o que era explicável. Afinal, com Thomasius</p><p>anunciou-se o Iluminismo e, como se isso fosse pouco, lançou as bases</p><p>para uma adequada distinção entre moral e direito (pecado e delito),</p><p>embora até hoje pululem muitos que se negam a compreendê-la e que,</p><p>sem dúvida, se bem que nossa civilização mostre, a cada dia, mais</p><p>defeitos, é uma de suas melhores conquistas.</p><p>Esse emperucado filósofo obscureceu o Malleus até desaparecer e</p><p>ficar reduzido a uma curiosidade histórica.</p><p>Na verdade, devo dizer que tudo o que estou contando era muito</p><p>pouco conhecido pelos penalistas e criminólogos posteriores, até o</p><p>momento em que o Malleus foi publicado em versão em espanhol há</p><p>menos de quarenta anos por historiadores, em uma edição que está</p><p>completamente esgotada (há menos de uma década veio à luz uma outra</p><p>edição). A Cautio criminalis nunca foi traduzida para o espanhol e até</p><p>onde sei, tampouco o foi a tese de Thomasius. Tudo isso foi recoberto por</p><p>um manto de silêncio, como se não fizesse parte da história do direito</p><p>penal e da criminologia. Insisto em que se trata de ascendentes que esses</p><p>saberes tentaram ocultar, como a árvore genealógica de algumas famílias</p><p>ilustres que se empenham em esconder a origem de suas fortunas.</p><p>6. As corporações e suas lutas</p><p>Nos anos transcorridos entre a Cautio e a Dissertatio – ou seja, entre</p><p>1631 e 1701– estava a se aprofundr outro fenômeno, o surgimento do</p><p>sujeito público, que se acentuaria no curso do século XVIII.</p><p>No Estado absoluto o senhor exercia poder de vida e morte, que, na</p><p>realidade, era só poder de morte, pois não podia dar a vida. Para matar ou</p><p>deixar viver, como diz Foucault, não se necessitava de muita</p><p>especialização, porque, no geral, matar é uma operação bastante simples</p><p>para o poder estatal, que, para isso, não tem necessidade de mais nada do</p><p>que uma agência ou corpo de assassinos mais ou menos dissimulados e</p><p>elevados a funcionários.</p><p>O problema se complicou quando o poder estatal começou a se</p><p>preocupar em regular a vida pública, quer dizer, não de cada indivíduo</p><p>em particular, mas sim do sujeito público. A função do Estado complicou-</p><p>se e o príncipe precisou se cercar de secretários ou ministros</p><p>especializados que passaram a encarregar-se da economia, das finanças,</p><p>da educação, da salubridade públicas, isto é, desse sujeito público.</p><p>Como é natural, ao redor de cada ministro se foi formando uma</p><p>burocracia especializada, que construiu um saber ou ciência que se</p><p>alimentava a partir das universidades.</p><p>Desse modo, formaram-se as corporações de sábios especialistas, cada</p><p>uma com um saber próprio, expresso em um dialeto compreensível</p><p>apenas para os iniciados, ou seja, para os que pertencem à respectiva</p><p>corporação e, por conseguinte, inacessível ao vulgo de estranhos a esta,</p><p>geralmente chamados leigos (também poderiam ser chamados de</p><p>bárbaros, porque assim eram chamados os que não compreendiam ou</p><p>falavam mal a língua local).</p><p>Trata-se de corporações que monopolizam o discurso e se fecham aos</p><p>estranhos mediante seu dialeto particular. Não deve chamar a atenção que</p><p>os criminalizados façam o mesmo sob a forma do jargão delinquencial,</p><p>que foi matéria de estudo de sisudos criminólogos do século passado, que</p><p>não se deram conta de que eles se expressavam em seu próprio jargão e</p><p>que também eram bárbaros a respeito do dialeto dos presos.</p><p>Desde os séculos XVII e XVIII e até o presente, as corporações</p><p>monopolizam seu discurso e disputam entre elas para ampliar sua</p><p>competência, sem contar que há, também, uma luta interna de escolas na</p><p>busca de conseguir impor a hegemonia do próprio subdiscurso. Em</p><p>síntese, há lutas intercorporativas e também intracorporativas.</p><p>Não é de estranhar, portanto, que o discurso penal e criminológico</p><p>tenha sido matéria de disputas entre as corporações, como não podia ser</p><p>deixar de ser, dado que é sempre um discurso acerca do próprio poder.</p><p>Isso não é nenhuma novidade, posto que desde muito antes de essa luta</p><p>entre corporações tomar corpo vimos como o primado passou dos</p><p>dominicanos aos jesuítas, e os médicos, com Wier, também quiseram</p><p>meter sua colher, que em séculos posteriores se tornará um enorme</p><p>colherão.</p><p>Vimos que o poder punitivo gera as estruturas colonizadoras, mas</p><p>também fossiliza as sociedades que adquirem essa estrutura, razão pela</p><p>qual elas não são muito aptas como cenário para a luta de corporações e</p><p>menos ainda se se trata do discurso do próprio poder punitivo.</p><p>Sempre há discursos sobre esse poder, mas apenas um se torna</p><p>hegemônico ou dominante, porque resulta funcional a algum setor social,</p><p>que o adota e o estimula. Isso tem lugar quando há uma dinâmica social</p><p>mais ou menos acelerada, ou seja, quando surge um conflito interno na</p><p>sociedade e um setor de certa importância quer deslegitimar o discurso do</p><p>poder do setor a que tende a se deslocar ou frente ao qual quer abrir-se</p><p>um espaço. Por isso, as sociedades colonialistas espanhola e portuguesa</p><p>não eram o melhor campo para a luta das corporações e,</p><p>consequentemente, o cenário desta luta transferiu-se para a Grã-Bretanha</p><p>primeiro e para a França e a Alemanha depois, onde estava surgindo uma</p><p>classe de industriais, comerciantes e banqueiros.</p><p>Essa classe em ascensão necessitava controlar e impor limites ao poder</p><p>da nobreza e do clero, que até então eram as classes dominantes. É claro,</p><p>o poder mais temível das camadas hegemônicas era o punitivo, que</p><p>ameaçava os novos empresários que assediavam seu Estado absoluto e</p><p>que eram considerados dissidentes perigosos. Veremos que não foi apenas</p><p>o livrinho de Spee que se publicou anonimamente por razões de</p><p>prudência elementar e sentido de conservação.</p><p>Como não existe poder sem discurso – ou, pelo menos, este não dura</p><p>muito sem o texto –, resultava funcional às novas classes em ascensão</p><p>assumir</p><p>outro discurso acerca do poder punitivo e, por conseguinte,</p><p>deviam procurá-lo em outras corporações, diferentes daquelas que o</p><p>haviam monopolizado até aquele momento.</p><p>Por essa razão, na segunda parte do século XVIII foi tomando corpo o</p><p>saber das corporações dos filósofos e pensadores no campo político geral</p><p>e, portanto, o dos juristas que seguiam seus alinhamentos limitadores do</p><p>poder punitivo. Assim nasceu o Iluminismo, o século das luzes ou da</p><p>razão e, em seu amparo, o chamado direito penal liberal.</p><p>O novo discurso passou a ser obra das corporações dos filósofos e</p><p>juristas que se defrontavam com os legitimadores do Antigo Regime e</p><p>frente ao qual houve várias reações diferentes.</p><p>Em princípio, houve príncipes que se davam conta de que algo estava</p><p>mudando e que, antes de que a prateleira caísse, preferiram acolher o</p><p>novo discurso, pelo menos em boa parte (na que incomodava menos e</p><p>lhes permitia continuar gozando da maioria de seus privilégios). Foi essa</p><p>atitude que deu lugar ao chamado despotismo ilustrado, que pretendia</p><p>fazer todas as mudanças a partir do poder, desde cima, com o lema tudo</p><p>para o povo, tudo pelo povo, mas sem o povo.</p><p>Houve outros príncipes menos sagazes, que preferiram seguir em</p><p>frente, e contra os quais se ergueram os revolucionários, radicalizando o</p><p>discurso crítico do sistema penal em maior ou menor medida, de liberais a</p><p>socialistas.</p><p>7. O utilitarismo disciplinador</p><p>Em geral, o Iluminismo penal se nutriu de duas variantes opostas,</p><p>embora muitas vezes coincidentes em seus resultados práticos: o</p><p>empirismo e o idealismo. Com a permissão dos mais finos historiadores da</p><p>filosofia, que nós obtivemos sem consultá-los, pode-se dizer que houve,</p><p>no Iluminismo, uma convergência de vias de conhecimento ou acesso à</p><p>verdade: uns a buscavam mediante a verificação na realidade material e</p><p>outros através da dedução de uma ideia dominante.</p><p>Sem nos aprofundarmos muito, poderíamos afirmar que se achavam</p><p>em germe os elementos que em seguida teriam de se separar entre</p><p>aqueles que só aceitavam o que resultava da observação, medição e</p><p>experimentação, e aqueles que partiam de uma primeira ideia</p><p>iluminadora, que lhes servia de guarda-roupa no qual acomodar as</p><p>roupagens do mundo, às vezes sob pressão.</p><p>No campo criminológico, essa dupla corrente deu lugar a duas ordens</p><p>teóricas: o utilitarismo disciplinador e o contratualismo (ou talvez, os</p><p>contratualismos, em todas as suas variantes).</p><p>Os utilitaristas tinham como base que era necessário governar</p><p>proporcionando a maior felicidade ao maior número de pessoas. A cabeça</p><p>mais visível dessa corrente foi o inglês Jeremy Bentham, personagem de</p><p>vida longa, cujo esqueleto vestido se encontra em uma vitrine no colégio</p><p>que ajudou a fundar, embora se diga que a cabeça foi mumificada e em</p><p>seu lugar se colocou uma de cera. Parece que acontece alguma coisa com</p><p>as cabeças daqueles que elaboram teorias criminológicas, pois se comenta</p><p>que a de Lombroso está conservada em formol em um museu em Turim.</p><p>Por sorte, faz tempo que se perdeu o costume de se dispor das cabeças</p><p>dos criminólogos post-mortem, embora isso seja sempre preferível a que</p><p>outros o façam ante-mortem por eles. Mas voltemos ao nosso ponto.</p><p>Bentham concebia a sociedade como uma grande escola, na qual</p><p>devia impor-se a ordem, ou seja, a chave era a disciplina e, para tal, o</p><p>governo devia repartir prêmios e castigos: como é óbvio, os prêmios</p><p>proporcionavam felicidade e os castigos dor e, como também parece</p><p>óbvio, o ser humano saudável e equilibrado devia preferir os primeiros,</p><p>com sua felicidade, e não os castigos, com sua dor. Por isso, ele deveria</p><p>abster-se de cometer delitos. Todavia, delitos eram cometidos, o que</p><p>indicava que o infrator não estava bem, ou seja, que não era</p><p>suficientemente ordenado, dado que escolhia a dor. Era como a criança</p><p>desobediente, que obriga a professora a chamar os pais e lhes informar</p><p>que algo está acontecendo com ela. Hoje o psicólogo intervém, e se ele é</p><p>bom pode chegar a descobrir que o menino é mais inteligente que os pais</p><p>e a professora; há cinquenta anos ele corria o risco de o deixarem bobo</p><p>com uns eletrochoques, e, há duzentos, Bentham queria colocar o adulto a</p><p>quem acontecia alguma coisa em um invento arquitetônico que chamou</p><p>de panóptico, que era um aparato para discipliná-lo. Vamos, porém, por</p><p>partes.</p><p>É evidente que Bentham se deparava com o problema da impunidade</p><p>da grande maioria dos delitos e bancava o distraído a respeito da</p><p>seletividade do poder punitivo, razão pela qual tratava de resolver a</p><p>questão postulando que as penas deviam ser mais graves quanto maior</p><p>fosse a impunidade, o que não parece muito razoável, porque ninguém</p><p>tem a culpa da torpeza ou Da referência do Estado ao repartir o poder</p><p>punitivo. Para disciplinar os desobedientes descontrolados, Bentham se</p><p>irritava com os mais bobos, que eram os enganados pelo poder.</p><p>Mas prossigamos. Para Bentham, o delito coloca em evidência um</p><p>desequilíbrio, produto da desordem pessoal do infrator, que deve ser</p><p>corrigido. Para isso, projetou a referida prisão chamada panóptico, com</p><p>estrutura radial, para que o preso saiba que será observado a partir do</p><p>centro e por olhos mágicos a qualquer momento. Desse modo, ele seria</p><p>introduzido na ordem e, ao final, acabaria se tornando seu próprio</p><p>vigilante, isto é, comeria o guardião (é mais delicado dizer que o</p><p>introjetaria).</p><p>Essa ideia era tomada de alguns médicos que asseguravam ser a</p><p>doença mental também produto da desordem e por isso os manicômios</p><p>deviam ocupar-se do disciplinamento dos doentes, colocando-os para</p><p>trabalhar, na convicção de que a ordem física redundaria na ordem</p><p>mental. Dessa perspectiva, não importa que o trabalho dos presos ou dos</p><p>loucos seja ou não rentável ou útil, porque é um valor disciplinador em si</p><p>mesmo, como podia ser o famoso quebrar pedras.</p><p>O disciplinamento devia ser levado a cabo na medida do talião, ou</p><p>seja, de uma dor equivalente à provocada pelo delito. A obssessão pela</p><p>retribuição exata levou Mr. Jeremy a projetar uma máquina de açoitar,</p><p>para que a intensidade da dor fosse uniforme e não ficassse entegue ao</p><p>arbítrio do carrasco. Ainda que a guilhotina não tenha sido inventada por</p><p>ele (foi criada na França), o certo é que ela foi imaginada respondendo ao</p><p>mesmo critério.</p><p>As leis penais são feitas hoje em dia pelos assessores dos legisladores,</p><p>de acordo com a agenda definida pelos meios de comunicação de massa,</p><p>mas no começo do século XIX as projetavam os penalistas e, quando estes</p><p>tomaram a ideia de Bentham, acabaram elaborando códigos penais com</p><p>penas fixas e longas listas de agravantes e atenuantes, prevendo</p><p>percentuais para cada um. Assim foi redigido, por exemplo, o primeiro</p><p>código penal do Brasil, em 1831, e seus comentadores anotavam os</p><p>difíceis cálculos matemáticos para cada caso, porque não se conheciam as</p><p>calculadoras e nem todos os juízes haviam obtido boas notas no</p><p>secundário.</p><p>Bentham presenteava seu modelo a todo o mundo, tendo, inclusive,</p><p>mantido correspondência com Bernardino Rivadavia. Houve panópticos</p><p>em muitas cidades da América Latina, às vezes completos e outras semi-</p><p>radiais, em geral porque o orçamento não era suficiente para fazê-los</p><p>completos. Alguns subsistem, convertidos em museus ou mercados (como</p><p>em Recife e em Ushuaia), ou funcionando como prisão – o de Quito,</p><p>construído no século XIX pelo ditador Gabriel García Moreno e por cujas</p><p>celas passaram quase todos os políticos equatorianos do século seguinte,</p><p>sem contar com o fato de as turbas, instigadas pelos conservadores, terem</p><p>arrancado o líder</p><p>liberal Eloy Alfaro desse presídio e o linchado, em 28 de</p><p>janeiro de 1912.</p><p>Cabe esclarecer que os panópticos nunca funcionaram como Bentham</p><p>havia imaginado, pois logo os presos descobriram sua lógica e a</p><p>superlotação fez com que a visão fosse interrompida com os múltiplos</p><p>obstáculos.</p><p>O disciplinarismo dos utilitaristas deu muito o que falar nos anos</p><p>setenta do século passado, quando Foucault o considerou diretamente um</p><p>modelo social e, na Itália, Dario Melossi e Massimo Pavarini publicaram</p><p>um livro intitulado Cárcere e fábrica, em que destacam uma matriz</p><p>comum com o disciplinamento para a produção fabril nas origens do</p><p>industrialismo. Um professor argentino, Enrique Marí, contribuiu para</p><p>enriquecer essas reflexões entre nós.</p><p>Os utilitaristas não admitiam que existisse nenhum direito natural</p><p>anterior à sociedade e sobre o qual esta não pudesse avançar. Os direitos</p><p>deviam ser respeitados unicamente porque sua lesão havia provocado</p><p>mais dor que felicidade.</p><p>Era claro que o utilitarismo de Bentham encerrava uma concepção</p><p>criminológica, pois fincava a etiologia do delito na desordem da pessoa e,</p><p>por conseguinte, surgia daí uma política destinada a combatê-lo mediante</p><p>o disciplinamento, que importava a pena talional no curioso aparato</p><p>inventado.</p><p>Se bem que Bentham tenha se desenvolvido na Grã-Bretanha e</p><p>rechaçado a ideia do contrato social e do direito natural anterior à</p><p>sociedade, foi condecorado pelos revolucionários franceses, pois</p><p>representava um avanço frente ao brutal exercício do poder punitivo de</p><p>seu tempo.</p><p>8. Os contratualismos</p><p>Vimos que nas obras tradicionais se costuma afirmar que a</p><p>criminologia nasceu na segunda metade do século XIX, ou seja, quando</p><p>obteve reconhecimento acadêmico como saber independente. O mais</p><p>curioso, porém, é que essas obras não só se calam sobre tudo o que</p><p>relatamos até agora a respeito dos séculos anteriores, como também, não</p><p>podendo ignorar o pensamento do século XVIII e da primeira parte do</p><p>século XIX, preferem afirmar que este não era criminológico.</p><p>É muito curiosa essa posição, porque faz parecer que a criminologia</p><p>assim entendida não só se comporta como uma família que oculta seus</p><p>antepassados pouco apresentáveis, bem como nega todo parentesco com</p><p>os que não pode ocultar, porque a vizinhança os conheceu bem e as</p><p>comadres do povoado se lembram deles. Realmente, trata-se de uma</p><p>ciência à qual é necessário recordar que seu berço foi um cortiço</p><p>iluminado a querosene.</p><p>Se bem que os autores dos discursos acerca da questão criminal,</p><p>provenientes das corporações de filósofos de primeiríssima linha ou de</p><p>juristas que seguiram seus pensamentos, se tenham dedicado a criticar o</p><p>poder punitivo de seu tempo e a propor reformas legislativas, não se pode</p><p>ignorar que eles se apoiavam numa criminologia, pois partiam de certa</p><p>concepção do delito e do delinquente e, portanto, atribuíam a origem do</p><p>delito a determinadas razões e propugnavam penas dirigidas a eliminá-lo</p><p>ou a reduzi-lo. Para isso, necessitavam partir de uma certa ideia do ser</p><p>humano e da sociedade.</p><p>Por outro lado, como propunham reformas ao sistema penal, eram</p><p>fortemente críticos do poder punitivo de seu tempo. Tudo isso, sem</p><p>dúvida, é criminologia, pois difícilmente se pode negar que a crítica ao</p><p>poder punitivo, à forma em que é exercido, a suas modalidades etc. o</p><p>seja.</p><p>Essa negação da dimensão criminológica dos filósofos e juristas do</p><p>Iluminismo do penalismo liberal obedece a uma fábula inventada em fins</p><p>do século XIX por Enrico Ferri, que foi o mentor do positivismo italiano,</p><p>de grande fama em seu tempo e de quem falaremos com mais detalhe.</p><p>Como bom positivista, Ferri considerava-se o porta-voz dos donos da</p><p>ciência, afirmando que antes dele e seus partidários não tinha havido</p><p>senão escuridão, metafísica e charlatanismo. Chegou a afirmar que tudo o</p><p>que antes se havia dito acerca da questão criminal era espiritismo, mas,</p><p>com muitíssima habilidade e pretendendo tributar-lhe uma homenagem,</p><p>chamou a todo o saber precedente de escola clássica, para erigir-se, ele</p><p>mesmo, no líder da nova escola, da scuola positiva.</p><p>A invenção de uma escola clássica, que abarcava tudo o que fora</p><p>pensado desde o século XVIII até as torpezas do positivismo racista das</p><p>últimas décadas do século XIX, foi a melhor fábula de Ferri, tão bem</p><p>sucedida que ainda é repetida nos manuais dos nossos dias. Não posso</p><p>deixar de recordar que assim me explicava, na Faculdade de Direito da</p><p>Universidade de Buenos Aires, um professor que usava polainas e chapéu</p><p>de palha a Maurice Chevalier, se declarava positivista e se referia ao</p><p>presidente da República como esse gringuinho. Outro professor, não tão</p><p>pitoresco, continuou falando a mesma coisa até o final da ditadura. Por via</p><p>das dúvidas, esclareço que foi no século passado, mas não no XIX, porque</p><p>tudo passa muito rápido e repito que não sou nenhum fenômeno</p><p>biológico.</p><p>O certo é que resulta inadmissível que os utilitaristas e todas as</p><p>variantes do contratualismo, os kantianos, os hegelianos, os krausistas, os</p><p>déspotas ilustrados de calças brancas e peruca e os descamisados</p><p>revolucionários, todos juntos, formassem uma escola, além do mais</p><p>fundada por um marquês milanês gordinho, do final do século XVIII, e</p><p>que tenha durado mais de cem anos, estendida por países que se</p><p>matavam alegremente entre si.</p><p>Foi sem dúvida a melhor brincadeira de Ferri, na qual caíram inclusive</p><p>seus oponentes. Se Ferri está em algum lugar, com sua oratória envolvente</p><p>e seus cabelos revoltos, continuará gozando com segurança do êxito de</p><p>sua ocorrência. Se nos afastarmos dessa armadilha tramada pelo velho</p><p>positivista e prescindirmos da imaginária escola clássica, o que</p><p>encontramos é um conjunto de discursos mais ou menos funcionais à</p><p>classe em ascensão dos industriais, comerciantes e banqueiros, para seu</p><p>enfrentamento com o poder hegemônico das nobrezas nos países da</p><p>Europa central e do norte.</p><p>Não podemos passar em revista aqui todos esses discursos, que por</p><p>certo são interessantíssimos, tanto para o direito penal quanto para a</p><p>criminologia. Limitando-nos a esta, podemos afirmar que, em conjunto,</p><p>eles representaram uma forte corrente crítica ao exercício arbitrário do</p><p>poder punitivo, baseada na experiência das arbitrariedades e crueldades</p><p>de seu tempo, dominado pelas nobrezas.</p><p>Todos eles, valendo-se dos elementos filosóficos de sua época,</p><p>repensaram profundamente o concernente à questão criminal. O</p><p>utilitarismo mais puro ficou na Grã-Bretanha, enquanto que no continente</p><p>os pensadores deduziram suas visões e propuseram suas reformas</p><p>preferencialmente a partir da outra vertente do Iluminismo, quer dizer, do</p><p>contratualismo.</p><p>Obviamente que nenhum destes pensadores acreditava seriamente que</p><p>uns tantos seres humanos, adornados com folhinhas de parreira nas partes</p><p>pudendas, houvessem se reunido num escritório para firmar um contrato e</p><p>fundar a sociedade, como hoje poderiam fazer uns bons comerciantes</p><p>mais protegidos. Eles eram muito inteligentes para acreditar em algo</p><p>semelhante. O contrato era, para eles, uma metáfora, uma figura da</p><p>imaginação para representar graficamente a essência ou a natureza da</p><p>sociedade e do Estado. Essa corrente foi a que predominou na Europa</p><p>continental para enfrentar os ideólogos do Antigo Regime, que se valiam,</p><p>por sua vez, de outra metáfora, pois para eles a sociedade era um</p><p>organismo natural, com uma repartição de funções que não podia ser</p><p>alterada nem decidir</p><p>seu destino pela escolha da maioria de suas células.</p><p>Todo o organicismo social, inclusive os que renascem no presente, é</p><p>essencialmente antidemocrático: as células que mandam são as do</p><p>cérebro, e as das unhas devem conformar-se com sua função de não</p><p>incomodar; qualquer pretensão ao contrário não é, para qualquer</p><p>organicismo social, mais do que caos contra a lei natural.</p><p>Para o racionalismo contratualista, a sociedade não era em nada</p><p>natural, mas sim produto de um artifício, de uma criação humana, ou</p><p>seja, de um contrato que, como tal, podia ser modificado e até mesmo</p><p>rescindido, como acontece com qualquer contrato quando a vontade</p><p>soberana das partes o decide.</p><p>Nesse marco, podemos afirmar que o pensamento crítico acerca da</p><p>questão criminal alcançou um de seus momentos de mais elevado</p><p>conteúdo pensante com os discursos dos contratualistas do Iluminismo. O</p><p>marquês gordinho, que, segundo a fábula do velho Ferri encabeçava essa</p><p>escola era Cesare Beccaria, um funcionário milanês que publicou, em</p><p>1764, um famoso livrinho (Dos delitos e das penas), o qual desencadeou</p><p>uma série de trabalhos análogos em toda a Europa, propondo profundas</p><p>reformas quanto às garantias e aos limites ao poder punitivo.</p><p>Além de ser o avô do inesquecível autor de I promessi sposi –</p><p>Alessandro Manzoni –, Beccaria era um homem tranquilo e acomodado,</p><p>que nunca mais voltou a escrever nada sobre a questão criminal e que</p><p>dedicou o resto de sua vida a questões como a unificação dos pesos e</p><p>medidas.</p><p>Seus pressupostos antropológicos não são de todo claros, porque</p><p>também era tributário de Hume, o que, em alguma medida, o aparentava</p><p>com as raízes do utilitarismo, mas o certo é que foi oportuníssimo, algo</p><p>assim como a bofetada intelectual mais contundente ao poder punitivo da</p><p>nobreza. Através da tradução francesa do abade Morellet, ele foi divulgado</p><p>por toda a Europa pelo velho Voltaire, que havia declarado guerra ao</p><p>poder punitivo francês, assumindo a defesa postmortem de Calas, um</p><p>protestante executado, falsamente acusado da morte de seu filho,</p><p>supostamente para que este não se convertesse ao catolicismo. Algo muito</p><p>parecido havia olcorrido um século antes em Praga com um judeu, mas</p><p>este não teve a sorte de encontrar o seu Voltaire.</p><p>Em função das ideias iluministas, começaram a ser sancionados</p><p>códigos, isto é, foram abolidas as recopilações caóticas de leis e tratou-se</p><p>de concentrar toda a matéria em uma única lei, redigida de forma</p><p>sistemática e clara, conforme um plano ou programa racional. Essa</p><p>tendência legislativa era uma derivação do enciclopedismo, que havia</p><p>levado à redação da Enciclopedia na França pré-revolucionária, ou seja, a</p><p>tentar concentrar sistematicamente, em um único livro, todo o saber da</p><p>época.</p><p>Desse modo, procurava-se dar clareza e que todos soubessem, com</p><p>base na lei prévia, o que era e o que não era proibido, substraindo-o da</p><p>arbitrariedade dos juízes. Os revolucionários franceses quiseram levar isso</p><p>até o extremo de substituir as orações nas escolas pelo código penal, para</p><p>que todos o soubessem de cor. Menos mal que ninguém teve a ideia de</p><p>fazer o mesmo com os 4.000 artigos do nosso Código Civil.</p><p>Quanto ao processo, os julgamentos se tornaram públicos. Foucault</p><p>destaca a mudança: no Antigo Regime, os julgamentos eram secretos e as</p><p>execuções públicas; desde fins do século XVIII os julgamentos passaram a</p><p>ser públicos e as execuções secretas. O espetáculo era o julgamento e não</p><p>a execução, levada a cabo privadamente e à qual podiam assistir somente</p><p>alguns convidados especiais. É claro que com o julgamento público a</p><p>tortura foi abolida.</p><p>Não deixa de ser importante a redução da pena de morte e a</p><p>supressão das penas corporais. Até esse momento, falava-se das penas</p><p>naturais, ou seja, que, além dos açoites, havia uma sobrevivência da pena</p><p>no órgão que se havia sido usado no fato: a língua do perjuro e do</p><p>blasfemo, a mão do ladrão e na violação e na sodomia vocês deduzirão</p><p>qual. A partir do século da razão, a coluna vertebral das penas passou a</p><p>ser a privação da liberdade.</p><p>Indo contra o que usualmente se crê, a prisão é um invento europeu</p><p>bastante recente e difundido pelo neocolonialismo, pois antes do século</p><p>XVIII era usada pelos devedores morosos e como prisão preventiva, isto é,</p><p>à espera do julgamento. A privação de liberdade como pena central é um</p><p>produto do Iluminismo, seja pela via do utilitarismo (para impor a ordem</p><p>interna mediante a introjeção do vigilante) ou do contratualismo (como</p><p>indenização ou reparação pela violação do contrato social).</p><p>Este último é interessante e não em vão o gordinho Beccaria dedicou</p><p>parte de sua vida à unificação de pesos e medidas. Na Revolução</p><p>Industrial, era fundamental a atividade mercantil e para ela era necessário</p><p>resolver as diferenças que o caos de pesos e medidas diferentes provocava</p><p>em cada país. A unificação facilitava o comércio. A unificação das penas</p><p>também facilitava sua medida, superava o caos prévio das penas naturais</p><p>e permitia medi-las todas em tempo.</p><p>Como se entende que um homicídio valha de oito a 25 anos e um</p><p>furto de um mês a três anos? O que é isso? Dois juízes procedendo como</p><p>comerciantes que vendem pena por metro (ou por anos) no mostrador da</p><p>justiça? Por estranho que pareça, não é mais do que um efeito do</p><p>contratualismo que perdura até o presente.</p><p>Quem viola um contrato (não cumpre o que está acordado nele) deve</p><p>indenizar. Se me comprometo a vender algo e não entrego a coisa em seu</p><p>momento, devo indenizar o comprador pelo dano que lhe ocasionei. Se</p><p>não pago voluntariamente reparando esse dano, me embargam e</p><p>sequestram bens e os executam, fazendo-se, desse modo, a cobrança. Pois</p><p>bem, se não cumpro com o contrato social e cometo um delito, devo</p><p>indenizar. Como? Com o que? Ora, com o que posso oferecer no mercado,</p><p>ou seja, com minha capacidade de trabalho.</p><p>Daí que a pena me prive de oferecer meu trabalho no mercado</p><p>durante mais ou menos tempo, segundo a magnitude de minha infração</p><p>ao contrato (delito) e o consequente dano. Até mesmo a pena de morte</p><p>entra nesta lógica tão particular, pois opera como uma confiscação geral</p><p>de bens; daí que também tenha desaparecido a pena de morte agravada</p><p>com a tortura.</p><p>Pode parecer insólito, mas essa é a origem da ideia da unificação das</p><p>penas em tempo de privação de liberdade, que em seguida se cobrirá com</p><p>outras racionalizações até nos parecer, a pouco mais de dois séculos de</p><p>distância, como normal e quase óbvia. Rapidamente nos acostumamos às</p><p>coisas mais rebuscadas e quando nos perguntam por que, a resposta é</p><p>sempre foi assim, embora não tenha sido sempre nem muito menos assim.</p><p>Na prática, tampouco, funcionou desse modo, mas sim que os</p><p>europeus viram, desde muito cedo, que seu problema não era com os</p><p>“ameaçadores”, e que a prisão não atingia a todos, por mais miseráveis</p><p>que fossem e por mais alta que tenha sido a taxa de mortalidade nelas</p><p>registrada. Como eram países neocolonialistas, o primeiro que fizeram foi</p><p>tirar de cima os incômodos e enviá-los para suas colônias. Essas penas de</p><p>relegação ou transporte foram aplicadas particularmente pela Grã-Bretanha</p><p>e pela França. Os ingleses mandavam seus indesejáveis para a Austrália,</p><p>onde os prisioneiros eram destinados aos colonos, em um regime muito</p><p>parecido com as encomiendas da nossa colonização, embora com melhor</p><p>destino, porque, ao que parece, muitos sobreviveram e seus descendentes</p><p>povoaram o continente.</p><p>9. Os contratualismos tornam-se problemáticos</p><p>Na realidade, os contratualistas se ocupavam em imaginar e programar</p><p>o Estado e a questão criminal tornava-se central para eles, porque o que</p><p>planificavam conforme suas</p><p>concepções era o próprio poder. Essa íntima e</p><p>inseparável relação do poder com a criminologia foi o que se perdeu de</p><p>vista na última metade do século XIX, quando se quis fazer da</p><p>criminologia uma questão científica e asséptica, estranha ao poder e</p><p>separada da ideia mesma de Estado. Essa tendência não foi abandonada</p><p>até a atualidade e hoje retoma grande força em toda a construção da</p><p>realidade midiática.</p><p>Como era de se esperar, houve vários contratualismos, porque a</p><p>metáfora do contrato permitiu construir diferentes imagens do Estado,</p><p>fundadas também em ideias díspares do ser humano (antropologias</p><p>filosóficas, diríamos hoje).</p><p>Desde os albores modernos dessa metáfora notou-se essa disparidade,</p><p>que começou na Grã-Bretanha no final do século XVII, prenunciando o</p><p>processo de industrialização e a acumulação primitiva de capital. Ali se</p><p>enfrentaram o contratualismo de Hobbes e o de Locke. Para Hobbes, em</p><p>seu famoso Leviatã, a origem da sociedade se encontrava em um contrato,</p><p>mas celebrado entre sujeitos dos quais tinham caído as folhas de parreira,</p><p>porque tinham as mãos ocupadas com garrotes para se matarem com</p><p>singular prazer entre eles. Em certo momento, eles teriam se dado conta</p><p>de que não era bom negócio o que estavam fazendo, baixaram os</p><p>machetes e se puseram de acordo em dar todo o poder a um deles, para</p><p>que terminasse a guerra de todos contra todos.</p><p>Como, na realidade, isso era pouco verificável, este filósofo (cujos</p><p>retratos o mostram um pouco mefistofélico, embora à medida que ia</p><p>ficando mais velho, ia ganhando a cara de um bom velhinho), não sabia</p><p>onde encontrar um exemplo de grupo humano em semelhante condição,</p><p>mas afirmou que ainda existiam na América. Os hobbesianos atuais</p><p>possívelmente o situam em algum planeta de estranha galáxia, a muitos</p><p>anos-luz de nós, cujos hipotéticos habitantes podem se ofender no futuro,</p><p>tanto como nós, hoje em dia.</p><p>É óbvio que o conceito do ser humano de Hobbes não era muito</p><p>edificante, pois o concebia como um ente movido pela ambição de poder</p><p>e prazer. O depositário do poder em seu contrato não tomava parte deste,</p><p>razão pela qual os que lhe haviam dado o poder não poderiam reclamar-</p><p>lhe nada, porque, do contrário, reintroduziriam o caos, ou seja, a guerra</p><p>de todos contra todos. Por outra parte, como antes do contrato o que</p><p>existia era o caos, não havia direitos anteriores ao contrato e todos</p><p>derivavam deste, de modo que, caso se negasse a autoridade do</p><p>depositário, todos os direitos desapareciam.</p><p>Desse modo, Hobbes não aceitava direito algum de resistência à</p><p>opressão, embora não explicasse o que aconteceria quando o depositário</p><p>do poder, que continuava sendo humano, se movesse, exercendo-o</p><p>conforme a tendência natural à ambição de poder e glória e</p><p>desconhecesse qualquer limite legal imposto pelo contrato. Sua resposta</p><p>era que qualquer opressão é preferível ao caos, o que escutamos toda vez</p><p>que se quer converter a política em filme de terror.</p><p>Para manter essa curiosa paz, Hobbes exigia que as penas fossem</p><p>estritamente legais e se aplicassem mecanicamente, salvo aos inimigos,</p><p>que eram os dissidentes que se queixavam e os colonizados que estavam</p><p>em estado selvagem.</p><p>Para Locke (a julgar por seus retratos, no meu bairro o chamariam de</p><p>John, o fracote), o contrato era diferente, pois antes de sua celebração</p><p>houve um estado de natureza em que os humanos tinham direitos, mas</p><p>estes não estavam assegurados, e por isso decidiram celebrar o contrato</p><p>como garantia. Para isso entregaram o poder a alguém, mas o deixaram</p><p>submetido ao contrato. Devem obedecer a este, embora não gostem de</p><p>fazê-lo, mas quando ele viola o contrato e nega esses direitos anteriores,</p><p>reintroduzindo o estado de incerteza prévio, aí surge o direito de</p><p>resistência ao opressor.</p><p>Com toda certeza, o conceito de ser humano do fracote John não era</p><p>tão negativo como o de Hobbes e, além do mais, a ideia que manipulava</p><p>do estado de natureza era mais digna de crédito.</p><p>Como se pode ver, Locke é uma das mais destacadas expressões do</p><p>liberalismo político e, no fundo, o inspirador das declarações de direitos</p><p>das últimas décadas do século XVIII.</p><p>Nesses anos finais do século XVIII o debate inglês de quase cem anos</p><p>antes se reproduziu com fineza na Alemanha, ao aprofundar-se a</p><p>investigação acerca da razão e seus limites. Era natural que um século que</p><p>fora caracterizado como da razão se perguntasse finalmente quais eram</p><p>sua natureza e seus limites. As tentativas mais elaboradas de responder a</p><p>isso foram levadas a cabo por Inmanuel Kant, com suas duas investigações</p><p>ou críticas, sobre a razão pura e a razão prática.</p><p>Dizem que Kant levava uma vida extremamente metódica, a ponto de</p><p>as comadres de sua Monterrey (não era mexicano, mas é isso que</p><p>Königsberg significa, embora ninguém o traduza) sabiam que deviam</p><p>deixar de fazer fofoca começar a preparar a comida porque Herr Professor</p><p>havia passado. O certo é que o pobre era uma máquina de pensar e</p><p>escrever. Estava mais próximo de Hobbes do que de Locke, embora meus</p><p>colegas penalistas o destaquem como o pai do liberalismo penal. Não</p><p>obstante, admitia que, se a resistência se transmutava em revolução e</p><p>estabelecia outro governo, a discussão estava encerrada e era preciso</p><p>apoiar o novo.</p><p>Para conservar o contrato e não voltar ao estado de guerra de todos</p><p>contra todos (estado de natureza), Kant defendia a necessidade da pena</p><p>talional, com a qual vinha, por uma via curiosa, coincidir com a medida da</p><p>pena dos utilitaristas.</p><p>Houve, nesse tempo, um jovem brilhante que, partindo da filosofia</p><p>kantiana, afastou-se de seu autor e com seus próprios fundamentos</p><p>aproximou-se mais de Locke. Era Anselm von Feuerbach, o pai do muito</p><p>mais conhecido Ludwig Feuerbach. Não obstante, o velho foi muito fora de</p><p>série. Aos 23 anos escreveu algumas obras maravilhosas, superando a Kant</p><p>no jurídico, porque, por sorte, teve que se dedicar à questão criminal</p><p>quando o pai lhe cortou as provisões porque tivera um filho fora do</p><p>casamento. Devido a esse feliz acidente biológico, tivemos um penalista</p><p>genial, que defendeu o direito de resistência à opressão e a ideia de</p><p>direitos anteriores ao contrato, aprofundando a separação da moral e o</p><p>direito iniciada por Thomasius e seguida por Kant, segundo alguns com</p><p>maior êxito do que este último.</p><p>Entre as coisas que Feuerbach fez em sua vida – que foram muitas e</p><p>nem todas santas –, destaca-se seu código para a Baviera, de 1813. Ele é</p><p>importante para nós porque Carlos Tejedor, quando foi encarregado de</p><p>redigir o primeiro projeto de código penal argentino, tomou como modelo</p><p>este código e não o de Napoleão, que era o mais empregado. Desse</p><p>modo, Feuerbach é o avô do pobre código que hoje foi completamente</p><p>demolido ao compasso dos tiros de canhão obedientes aos meios de</p><p>comunicação de massa. Nos tempos de Feuerbach não havia televisão,</p><p>mas igualmente não pôde suprimir o delito da sodomia (como Napoleão o</p><p>havia feito). Ele degradou-o a contravenção menor e o justificou de modo</p><p>muito curioso: disse que, se todos a praticássemos, a humanidade</p><p>acabaria. É claro que ele não acreditava nisso, mas também nessa época</p><p>havia meios de comunicação e agenda midiática.</p><p>É algo mais do que pitoresco recordar que nos últimos anos de vida,</p><p>Feuerbach se interessou por um adolescente, ao qual protegeu, que</p><p>apareceu perambulando perdido, que crescera encerrado numa torre e</p><p>cuja origem nunca se conheceu. Ele foi batizado de Kaspar Hauser e sua</p><p>história deu lugar a uma novela e a vários filmes. Era inevitável que</p><p>alguém que acreditasse em um estado de natureza anterior ao contrato</p><p>se</p><p>interessasse por esse personagem. Chamou de crime contra a</p><p>humanidade o que fora feito com ele e, embora nunca se tenha provado</p><p>que fosse o herdeiro da coroa, o certo é que pouco depois da morte de</p><p>Feuerbach o pobre Kaspar foi atravessado por uma espada numa esquina.</p><p>As más línguas dizem que o próprio Feuerbach morreu envenenado</p><p>por causa de seu protegido, mas tudo indica que isso não passa de uma</p><p>lenda, sendo o mais provável que sua morte tenha sido causada por</p><p>hipertensão, pois era gordinho, parece que não se privava de nada e, além</p><p>do mais, tinha um caráter bastante corrompido.</p><p>10. Contratualismo socialista?</p><p>Se é verdade que a linha que deriva de Hobbes foi mais funcional</p><p>para a atitude política do despotismo ilustrado e a de Locke para a do</p><p>liberalismo político das nascentes classes industriais urbanas, as coisas não</p><p>terminaram ali. O contratualismo servia para tudo, de modo que não</p><p>faltou uma versão socialista.</p><p>Todos nós conhecemos o revolucionário francês Jean-Paul Marat, que</p><p>editava o periódico O amigo do povo, figura difamada por todas as</p><p>correntes da historiografía fascista desse país, que preferem santificar</p><p>Charlotte Corday, que foi a mulher que o apunhalou ao surpreendê-lo na</p><p>banheira; pode-se dizer que morreu por não preferir o chuveiro. Muitos</p><p>anos depois, Lombroso estudou o crânio de Corday e disse que tinha a</p><p>fossa occipital média, ou seja, que era uma criminosa nata. Porém,</p><p>deixando de lado banheiras e crânios, o certo é que Marat escreveu</p><p>também um Plano de legislação criminal antes da Revolução, quando</p><p>estava precisando de dinheiro em seu exílio suíço.</p><p>Com essa obra, apresentou-se a um concurso cujo prêmio, diz-se, era</p><p>financiado por Frederico da Prússia (der Grosse, como o chamavam,</p><p>embora não porque fosse gordo). Marat era médico e veterinário, fazia</p><p>experimentos com a eletricidade e muitas outras coisas, mas não era</p><p>jurista. Seu plano parte do pressuposto de que o talião é a pena mais</p><p>justa, mas afirma que foi estabelecida no contrato social quando o poder</p><p>foi repartido equitativamente entre todos, mas que logo uns foram se</p><p>apropriando das partes de outros e, no final, uns poucos ficaram com as</p><p>da maioria.</p><p>Nessas condições, o talião deixava de ser uma pena justa para Marat,</p><p>pois só o era em uma sociedade justa, que havia desaparecido. Por</p><p>conseguinte, da mesma forma que Spee um século e meio antes, afirmava</p><p>que o juiz que impunha uma pena de morte nesta sociedade era um</p><p>assassino. É óbvio que não deram o prêmio a Marat, mas sim a dois</p><p>desconhecidos alemães, a quem a história esqueceu (ou, melhor, nunca</p><p>registrou), mas que ficaram com o dinheiro e a Marat só lhe restou a fama</p><p>posterior do seu Plano, reeditado várias vezes em francês e em espanhol</p><p>em 1890 (com tradutor anônimo) e em Buenos Aires há uns dez anos.</p><p>Marat não pôde cobrar os direitos de autor dessas reedições, posto que</p><p>havia morrido na banheira muitos anos antes. Nem sempre, com certeza, a</p><p>fama coincide com o sucesso econômico.</p><p>Por volta de 1890, houve um juiz francês, de convicções republicanas,</p><p>em uma pequena comarca (Chateau-Terry), que sem citar Marat aplicava</p><p>sua lógica, para grande escândalo de seus colegas provenientes do</p><p>império de Napoleão III (Napoleão, o pequeno ou o doente de gota), que,</p><p>carregados de barretes e togas liam apenas o código e ignoravam a</p><p>Constituição. Era o bom juiz Magnaud ou Presidente Magnaud, cujas</p><p>sentenças ficaram famosas em toda Europa e mereceram comentários,</p><p>entre outros, de Tolstoi.</p><p>Quando nosso Código Penal de 1921 foi discutido no Senado, havia</p><p>um senador socialista, Del Valle Iberlucea, que interveio na discussão e</p><p>conseguiu que na fórmula sintética (hoje desbaratada pelas emendas</p><p>Blumberg e outros disparates) se incluísse como critério a maior ou menor</p><p>dificuldade para ganhar o sustento próprio necessário ou o dos seus. Na</p><p>nota correspondente do Senado, o juiz Magnaud é expressamente citado.</p><p>Antes as leis penais eram feitas com mais cuidado e mais neurônios e até</p><p>os conservadores aceitavam conceitos socialistas.</p><p>Voltando ao contratualismo e a Marat, o certo é que este era muito</p><p>funcional à classe dos industriais em ascensão, mas suas possibilidades</p><p>eram excessivamente amplas. Por debaixo dessa classe estava a mão de</p><p>obra industrial que se ia concentrando nas cidades, onde ainda não havia</p><p>capacidade para incorporá-las ao sistema de produção, tanto em razão de</p><p>sua falta de treinamento como pela insuficiência da acumulação de capital</p><p>produtivo. Isso fazia com que em um espaço geográfico reduzido se</p><p>acumulassem a riqueza incipiente e a maior miséria, com os conflitos que</p><p>se pode imaginar.</p><p>O contratualismo tornava-se um pouco disfuncional à categoria que o</p><p>havia impulsionado como discurso hegemônico e a própria possibilidade</p><p>de que fosse usado para legitimar programas socialistas mostrava seus</p><p>riscos. O disciplinamento dos utilitaristas não parecia suficiente e o</p><p>contratualismo mostrava seus assomos arriscados.</p><p>Vamos nos aproximando de uma mudança mais profunda do discurso</p><p>criminológico, no qual o contratualismo – depois de um máximo esforço</p><p>de legitimação hegemônica da classe industrial, ou de deslegitimação da</p><p>participação do subproletariado urbano – terá de dar lugar a uma brusca</p><p>queda do conteúdo pensante da criminologia e do direito penal, que</p><p>coincidirá, justamente, com a consagração da primeira como saber</p><p>academicamente autônomo. Mas isso já é outra história, muito menos</p><p>luminosa e mais trágica.</p><p>Ilustração 9</p><p>11. Nem todos são “gente como a gente”</p><p>O contratualismo era um marco (hoje se chamaria um “paradigma”) no</p><p>qual tinham lugar todas as possíveis variáveis políticas, desde o</p><p>despotismo ilustrado até o socialismo, ou seja, desde o meticuloso Kant,</p><p>com sua pontualidade, até o revoltado Marat acalmando suas urticárias na</p><p>banheira.</p><p>Por conseguinte, também podia converter-se em algo perigoso para a</p><p>própria classe que o impulsionava, que defendia a igualdade, mas que</p><p>começava, também, a distinguir entre os mais e os menos iguais, à medida</p><p>que não apenas ia considerando a si mesma como a melhor e mais</p><p>brilhante da Europa, senão de todo o planeta.</p><p>Os pensadores da questão criminal não podiam ser insensíveis aos</p><p>temores do setor social ao qual deviam sua posição discursiva dominante</p><p>e, em consequência, começaram a adequar seu discurso à exigência de</p><p>não correr o risco de deslegitimar o poder punitivo necessário para manter</p><p>os indisciplinados subordinados, no interior, e fora, os colonizados e</p><p>neocolonizados.</p><p>Nessa tarefa acadêmica podem ser delimitados dois momentos: 1) o</p><p>hegelianismo penal e criminológico; e 2) o positivismo racista.</p><p>O primeiro foi um esforço máximo, altamente sofisticado, do</p><p>pensamento idealista, enquanto o segundo rompeu com tudo e se</p><p>desprendeu de toda racionalidade.</p><p>Qualquer filósofo diria que aproximar o hegelianismo do positivismo</p><p>racista é uma aberração, e não duvido de que desde sua perspectiva estará</p><p>certo, porque aproxima um discurso finíssimo, que soa como uma</p><p>sinfonia, de outro, que evoca antes a gritaria de uma serenata de bêbados</p><p>destemperados na madrugada.</p><p>Não tenho dúvida alguma a esse respeito, mas não se trata de uma</p><p>analogia quanto ao nível de elaboração pensante dos discursos, que não</p><p>admite comparação, mas sim no que torna similar a utilização política de</p><p>ambos os pensamentos por parte dos penalistas e criminólogos.</p><p>Esclareço que nem sequer tenho a pretensão de compreender Hegel.</p><p>Além do mais, estou seguro de não ser o único que não o entende</p><p>completamente, a julgar pelos quilômetros de estantes de livros</p><p>escritos</p><p>acerca de seu pensamento. Todos nós sabemos que ele é um filósofo</p><p>bastante difícil, que terminou de escrever um de seus livros mais</p><p>complicados (Fenomenologia do Espírito) enquanto bombardeavam a</p><p>cidade, porque seu editor o pressionava. Como, diferentemente de</p><p>Beethoven, não era surdo, é possível que sua prosa tenha sofrido alguns</p><p>sobressaltos. O que eu efetivamente entendo são algumas coisas que</p><p>Hegel escreveu com clareza e, em especial, o que os juristas e</p><p>criminólogos lhe atribuíram. A esse respeito, tampouco afirmo que estes</p><p>tenham interpretado bem seu mentor, o que aqui pouco interessa, dado</p><p>que nos interessa sobretudo a forma como o projetaram sobre (ou o</p><p>lançaram contra) a questão criminal.</p><p>Os ideólogos da questão criminal que o invocaram partiam da</p><p>afirmação hegeliana de que o “espírito” avança dialeticamente. Embora</p><p>seja óbvio, cabe esclarecer que o “espírito” (“Geist”), não era nenhum</p><p>fantasma, e sim o espírito da humanidade como potência intelectual. Em</p><p>quase todas as histórias da filosofia Hegel é qualificado como um</p><p>“racionalista”, mas devemos advertir que, para ele, a razão era algo</p><p>dinâmico, uma espécie de motor, e não um simples modo ou via de</p><p>conhecimento.</p><p>O avanço se dava na história dialeticamente, ou seja, “triadicamente”,</p><p>por tese, antítese e síntese. As duas anteriores desapareciam e se</p><p>conservavam nessa última, pois estavam “aufgehoben”, particípio passado</p><p>de um verbo um tanto misterioso.</p><p>Havia, pois, um momento de “espírito subjetivo” (tese) em que o ser</p><p>humano alcançava a autoconsciência e, com ela, a liberdade, contraposto</p><p>a outro, do “espírito objetivo” (antítese), em que duas liberdades se</p><p>relacionavam e, finalmente, ambos se sintetizavam no “espírito absoluto”.</p><p>A nós, bastam os dois primeiros, porque o direito pertencia, nesse</p><p>esquema, ao momento “objetivo”, posto que era nesse plano que os seres</p><p>livres se relacionavam.</p><p>Deixando de lado o complicado que isso parece, o certo é que sua</p><p>consequência prática é que não tem autoconsciência quem não é livre e</p><p>não pode passar ao momento objetivo, ou seja, sua conduta não é</p><p>“jurídica”. Mais ainda: os hegelianos afirmavam que a conduta “não livre”</p><p>não era conduta para o direito. Por conseguinte, os criminólogos e</p><p>penalistas concluíam facilmente que os seres humanos se dividem em</p><p>“não livres” e “livres” e o direito era patrimônio destes últimos. Pois bem:</p><p>quando um “não livre” lesava outro não cometia um delito, mas sim</p><p>operava sem nenhuma relevância jurídica, porque não realizava</p><p>propriamente uma conduta. Pelo contrário, apenas os “livres” podiam</p><p>cometer delitos, pois eram eles que realizavam condutas.</p><p>O efeito prático era que os “livres” eram retribuídos com penas</p><p>proporcionais à liberdade com que haviam decidido o fato, ou seja, com</p><p>limites; quanto aos “não livres” que causavam danos, eles só podiam ser</p><p>submetidos a “medidas” de segurança, que não eram penas e, portanto,</p><p>não admitiam a medida máxima de sua culpabilidade ou liberdade, mas</p><p>sim unicamente a do perigo que implicavam para os livres.</p><p>Levando às últimas consequências, nossos colegas hegelianos</p><p>pretendiam tratar os “não livres” de forma mais ou menos análoga a um</p><p>animal fugido do zoológico, que devia ser contido. Se bem que não o</p><p>expressassem desse modo, para nos entendermos é melhor dizer o que</p><p>acho que eles pensavam.</p><p>Quem eram os “não livres” para os penalistas hegelianos? Antes de</p><p>tudo os loucos, mas também os delinquentes reincidentes,</p><p>multirreincidentes, profissionais e habituais, porque com seu</p><p>comportamento demonstravam que não pertenciam à “comunidade</p><p>jurídica”, ou seja, não compartilhavam dos valores dos setores</p><p>hegemônicos. Os “não livres”, definitivamente, eram os que não podiam</p><p>ser considerados “gente como a gente”, mas somente como tipos</p><p>perigosos.</p><p>É evidente que tampouco os selvagens colonizados eram livres. Hegel</p><p>era absolutamente etnocêntrico, o que fica demonstrado pelo que</p><p>escreveu em suas Lições sobre filosofia da história universal.</p><p>Por um momento, peço perdão e rompo meu costume de não</p><p>transcrever nem aborrecer com citações. Tomo o livro (tradução de José</p><p>Gaos, edição de 1980) e leio que nós seríamos o produto de índios</p><p>inferiores em tudo e sem história (página 169), de negros em estado de</p><p>natureza e sem moral (177), de árabes, mestiços e aculturados islâmicos</p><p>fanáticos, decadentes e sensuais sem limites (596), de judeus cuja religião</p><p>lhes impede de alcançar a autêntica liberdade (354), de alguns asiáticos</p><p>que apenas estão um pouco mais avançados que os negros (215) e de</p><p>latinos que nunca alcançaram o estágio do mundo germânico, esse</p><p>“estágio do espírito que se sabe livre, querendo o verdadeiro, eterno e</p><p>universal em si e por si” (657).</p><p>Era natural que Hegel considerasse que os latino-americanos não</p><p>tinham história e sim “futuro”, pois para ele nossa história começava com</p><p>a colonização, que nos havia colocado no mundo; o passado dos povos</p><p>colonizados não era nada, por ser alheio ao avanço do “espírito”.</p><p>Quando alguém é muito jovem costuma idealizar os grandes mestres</p><p>mais do que o normal. Vem à minha mente uma história que tem a ver</p><p>com o que estamos falando. Certa manhã, na Praça das Três Culturas do</p><p>México, em Tlatelolco, alguns anos antes dos dramáticos assassinatos de</p><p>1968, escutei um afamado jurista afirmar que ele era “europeu e</p><p>europeizante”, e que não compreendia as culturas pré-hispânicas “porque</p><p>não entravam em Hegel”. Obviamente que minha admiração pelo</p><p>renomado homem de leis diminuiu notavelmente, visto que, embora</p><p>minha ignorância juvenil fosse considerável – não porque agora seja muito</p><p>menor –, me ocorreu perguntar a mim mesmo se Hegel estaria equivocado</p><p>ou se as culturas pré-hispânicas teriam mesmo existido. Voltemos, porém,</p><p>ao nosso ponto.</p><p>Por certo, Hegel não havia obtido boas notas em geografia, porque</p><p>colocava as nascentes do Rio da Prata na cordilheira dos Andes. Também</p><p>afirmava que nossa independência obedecia a um erro dos ibéricos, que</p><p>se haviam misturado com os índios, ao contrário dos ingleses, muito mais</p><p>astutos porque, na Índia evitaram misturar-se e desse modo não</p><p>produziram uma raça mestiça com amor à terra. Cabe deduzir que, para</p><p>Hegel, nossa independência era obra da incontinência sexual de</p><p>espanhóis e portugueses. Gandhi o teria desconcertado, pois como a Índia</p><p>não tinha nenhuma raça mestiça com os ingleses, não deveria ter tido</p><p>amor à terra nem se tornado independente. Tampouco aqui sei quem</p><p>estava equivocado, se Hegel ou Gandhi. Prossigamos.</p><p>A ideia que Hegel tinha da América Latina provinha claramente de</p><p>Buffon, que escreveu muitos tomos de história natural enquanto cuidava</p><p>dos jardins reais. Para este conde jardineiro éramos um continente em</p><p>formação, como provavam os vulcões e os sismos (supomos que agora</p><p>diria que a Islândia está em formação). Como corriam ao contrário (quer</p><p>dizer, do norte para sul, ao invés de fazê-lo corretamente, de leste para</p><p>oeste, como na Europa), as montanhas interrompiam os ventos e tudo se</p><p>umedecia, apodrecendo-se; por isso, havia muitos animais pequenos e</p><p>nenhum grande e tudo o que se trazia se debilitava, inclusive os humanos.</p><p>Para Buffon, na América toda a evolução estava retardada.</p><p>O etnocentrismo de Hegel legitimava o colonialismo e abria o</p><p>caminho das “grandes narrativas” com centro na Europa. Combinado com</p><p>o que os criminólogos que o invocavam diziam para o controle dos</p><p>europeus clandestinos, resultava um esquema muito adequado para os</p><p>interesses da classe que ia alcançando</p><p>médicos e biólogos ficassem isolados com seus discursos em seus</p><p>institutos, se a autoridade sanitária e os políticos que fazem as leis</p><p>acreditassem na opinião do bar e não na que os médicos poderiam dizer,</p><p>ou, pior ainda, se os próprios médicos fizessem calar a quem negasse a</p><p>teoria dos humores porque isso lhes gera um perigo político. É óbvio que</p><p>o índice de mortalidade subiria de forma alarmante.</p><p>Pois bem, o mesmo acontece com a questão criminal: aumentam os</p><p>mortos no mundo. Afirmam-se opiniões mais ou menos estranhas,</p><p>equivalentes à teoria dos humores na medicina; os políticos e as próprias</p><p>autoridades difundem ou aceitam essas incoerências e, lamentavelmente,</p><p>também aumentam os índices de mortalidade.</p><p>Eu não estava em 1811 quando se suprimiram as togas no judiciário –</p><p>nem sequer na reforma universitária de 1918, pois não sou nenhum</p><p>fenômeno da biologia –, mas sei que não usamos togas nos tribunais nem</p><p>nos recintos universitários nacionais desde muito antes que me pusessem</p><p>a primeira fralda. Contudo, as togas continuam nos pesando e isso não é</p><p>admissível na hora da comunicação. Se o campo de batalha é</p><p>comunicacional, devemos travar a luta também nesse terreno. Este é o</p><p>grande desafio. Por isso, devemos arregaçar as mangas e sair ao campo</p><p>em que nos desafiam.</p><p>O cidadão comum deve saber que há um mundo acadêmico que fala</p><p>disso, da questão criminal, que, embora não tenha nenhum monopólio da</p><p>verdade, pensou e discutiu umas tantas coisas, que se equivocou</p><p>muitíssimas vezes e muito feio, mas também aprendeu com esses erros.</p><p>Os médicos também se equivocaram muitíssimas vezes, desde os</p><p>tempos em que, para curar as feridas, passavam unguentos sobre a arma</p><p>que havia causado o dano, até os tempos mais próximos, em que, para</p><p>curar os doentes mentais, lhes enfiavam agulhas na cabeça, mas nem por</p><p>isso nos colocamos nas mãos dos curandeiros quando nosso apêndice fica</p><p>inflamado.</p><p>Ilustração 2</p><p>É bem verdade que há diferenças entre a medicina e a ciência penal e</p><p>criminológica, que consistem em que esta última trata sempre do poder, o</p><p>que não é alheio à medicina, mas pelo menos nesta a relação não é tão</p><p>linear. Também é certo que inclusive o conceito de ciência depende do</p><p>poder que decide quem tem esse status. Por isso, quando se fala de</p><p>ciência penal ou de ciência criminológica, pode-se colocar em dúvida o</p><p>status de ciência, mas também se diz que a medicina não é uma ciência, e</p><p>sim uma arte.</p><p>Como o mundo acadêmico também se equivoca, tampouco é seguro</p><p>que o que nele se fala seja a realidade. A questão da realidade, neste</p><p>como em tantos outros âmbitos, é algo muito problemático, em particular</p><p>quando vivemos numa era midiática, em que tudo se constrói.</p><p>Não vou me meter numa questão que se discute desde os albores da</p><p>filosofia, porém o certo é que, na nossa época, o problema da realidade</p><p>chegou a um ponto tal que não faltou quem afirmasse que tudo é</p><p>construído, que não há onde se agarrar.</p><p>Mas Baudrillard escrevia na França, não sei se tomava algum aperitivo</p><p>adocicado em uma calçada de Paris, e fazia isso antes de Sarkozy e</p><p>quando ninguém pensava na filha de Le Pen à frente das pesquisas. Nós</p><p>estamos aqui, no fundo do mapa ou na parte de cima, depende de onde</p><p>se olhe (o norte acima é uma mera convenção; os neozelandeses, certa</p><p>feita, fizeram um mapa com o sul acima), porém, por sorte, longe de</p><p>latitudes hoje mais perigosas, ainda que com todos os inconvenientes do</p><p>subdesenvolvimento.</p><p>Nós nos achamos, por um lado, com a publicidade midiática das</p><p>corporações mundiais e seu discurso único de repressão indiscriminada</p><p>para com os setores mais pobres ou excluídos; por outro, com o discurso</p><p>dos acadêmicos, isolados em seus guetos e falando em dialeto.</p><p>Se, junto com o aperitivo, engolimos as batatinhas fritas e os</p><p>amendoins e pensamos que não há nada que possa nos dar um gostinho</p><p>de realidade, estamos perdidos. Eu não pretendo ser localista e afirmar</p><p>que, quando digo nós, me refiro, agora, somente aos latino-americanos,</p><p>mas sim que em poucos anos se fez mais que evidente que se não há um</p><p>mínimo gostinho de realidade nessas questões, também os franceses</p><p>estariam perdidos com Sarkozy e a jovem Le Pen, para não falar dos</p><p>estadunidenses e seu Tea Party (quando era pequeno, me lembro que</p><p>“party” era algo muito mais divertido).</p><p>Perón dizia que a única verdade era a realidade, mas as batatinhas</p><p>fritas e os amendoins de Baudrillard nos dizem pouco menos que a</p><p>realidade não existe. Será que isso se aplica à questão criminal? Não, pelo</p><p>menos aqui – e não me meto nas outras coisas que dizem respeito aos</p><p>filósofos – isso não se aplica. Se eu tivesse perguntado qual é a realidade</p><p>da questão criminal à minha avó Rosa – que, insisto, raciocinava muito</p><p>melhor do que o comunicador que inventou o personagem –, ela me teria</p><p>respondido, com toda sabedoria, que a única realidade nisso tudo são os</p><p>mortos.</p><p>E é isso mesmo, sem dúvida: a única verdade é a realidade, e a única</p><p>realidade na questão criminal são os mortos. Não qualquer morto, é claro,</p><p>porque, de acordo com o que a estatística demonstra, há quase um morto</p><p>por pessoa. Como, todavia, alguns ainda não estão mortos, há uma</p><p>pequena diferença, o que levou o imortal poeta português Fernando</p><p>Pessoa a afirmar que o homem é um cadáver adiado. Evidentemente que</p><p>não recomendo sua leitura em casos de bipolaridade (me parece que</p><p>antes se chamava de alterações ciclotímicas, maníaco-depressivos</p><p>melancólicos, agora é mais complicado, mas tampouco me meto em</p><p>questões diagnósticas).</p><p>Concretamente, o certo é que todos os vivos – isto é, os que vivem –</p><p>somos adiados, mas há alguns aos quais não se adia o suficiente, porque</p><p>são mortos. Estes ficam mudos, porque costuma se afirmar,</p><p>peremptoriamente, que os mortos não falam, o que é verdade em sentido</p><p>físico, mas, sem dúvida, os cadáveres dizem muitas coisas que esta sonora</p><p>afirmação oculta. Vejamos: às vezes chegam a nos dizer até quem matou</p><p>(pelas pistas que o autor deixa no cadáver), mas o cadáver nos diz sempre</p><p>que está morto. Esta é a mais óbvia palavra dos mortos: dizer-nos que</p><p>estão mortos. Por isso, quando se afirma que não há pretexto algum para</p><p>a realidade na questão criminal, o que na verdade fazemos é emudecer os</p><p>mortos, ignorar que nos dizem que estão mortos.</p><p>Na minha complicada vida, quando muito jovem, inspecionava</p><p>hospitais municipais e conheci algumas pessoas que falavam com os</p><p>mortos nos necrotérios (com certeza elas tinham alguns neurônios fora de</p><p>lugar). Embora não duvide de minha saúde mental, não me dedico a isso</p><p>agora, mas a algo bem diferente: trata-se de perguntar que cadáveres</p><p>antecipados há nos necrotérios, nas fossas comuns, no mar ou quem sabe</p><p>onde.</p><p>Por isso, o que vou explicar a vocês tem três etapas fundamentais: o</p><p>que nos foi sendo dito ao longo da história e o que nos diz hoje em dia a</p><p>academia (as palavras dos acadêmicos), o que nos dizem os meios de</p><p>comunicação (as palavras dos meios de comunicação) e o que nos dizem</p><p>os mortos (a palavra dos mortos). Depois veremos se podemos chegar a</p><p>alguma conclusão que, da minha parte, adianto: o conjunto nos</p><p>recomenda antes de tudo prudência, cautela no uso do poder repressivo,</p><p>muita cautela.</p><p>Este é o programa dessa exposição em sua síntese mais acabada: saber</p><p>o que nos dizem os acadêmicos, os meios de comunicação e os mortos.</p><p>Como posso arregaçar as mangas da toga, mas não ficar sem ela – porque</p><p>cada um tem sua deformação profissional dificilmente controlável, e nunca</p><p>totalmente anulável –, começarei pelas palavras da academia.</p><p>Para entrar no tema, porém, devo explicar algumas questões prévias</p><p>sem as quais não se comprende quase nada dos</p><p>a hegemonia: a pena com limites</p><p>ficava reservada aos dessa classe ou a quem ela julgava conveniente; os</p><p>“diferentes” (loucos, ameaçadores e “incômodos”) que não eram livres,</p><p>como não realizavam condutas humanas, eram submetidos a penas sem</p><p>limites, que eram rebatizadas como “medidas”. Quanto aos territórios</p><p>extraeuropeus povoados por selvagens, podiam ser ocupados porque</p><p>eram perigosos para o “espírito” e, ademais, colonizá-los era a maneira de</p><p>introduzi-los na história, de levar-lhes o “espírito”.</p><p>É claro que o “espírito hegeliano” avançava na história como</p><p>dominação colonial no planetário e, ao mesmo tempo, como dominação</p><p>de classe no plano interno. Mais que um espírito, parecia um monstro que</p><p>arrasava tudo em seu avanço massacrador e que, além disso, arremessava</p><p>para as margens de seu caminho de espoliação mundial os sobreviventes</p><p>– índios, negros, árabes, judeus, latinos, asiáticos etc. –, ou seja, todas as</p><p>culturas que não atingiam a clareza de Hegel, que se sentava, satisfeito, na</p><p>ponta da flecha da história, posição por certo muito incômoda.</p><p>Tudo isso, porém, continuava sendo “idealismo”, ou seja, para Hegel o</p><p>poder punitivo se explicava por uma via dedutiva, que não admitia</p><p>nenhuma verificação no plano da realidade. A exemplo do meticuloso</p><p>Kant, sua legitimação não se contaminava com nenhum dado do mundo</p><p>real.</p><p>O velho Kant havia visto isso claramente, pois sabia, com sobras, que</p><p>se fosse introduzida alguma informação do mundo em que todos vivemos,</p><p>as coisas seriam complicadas. Hegel alterou muitas coisas em relação a</p><p>Kant, entre as quais nada menos que seu conceito de “razão”, mas nisso</p><p>seguiu o mesmo caminho, só que por via da pura lógica: para Hegel, o</p><p>delito era a negação do direito; a pena era a negação do delito; como a</p><p>negação da negação é a afirmação, a pena era a afirmação do direito. E</p><p>ponto.</p><p>Tudo isso era muito elaborado, permanecia no plano do idealismo</p><p>filosófico e, em meados do século XIX, resultava excessivamente abstrato</p><p>frente ao que estava sucedendo em um mundo que mudava com</p><p>celeridade.</p><p>12. O salto do contrato à biologia</p><p>Na segunda metade do século XIX a classe em ascensão havia</p><p>chegado ao poder. Os nobres empobrecidos haviam casado seus</p><p>descendentes com os dos industriais, comerciantes e banqueiros; estes se</p><p>haviam refinado e os netos se enfeitavam com os títulos dos avós nobres,</p><p>enquanto os castelos e palácios eram restaurados e as recepções</p><p>suntuosas, com mulheres e homens encasacados, voltavam a acontecer.</p><p>Ao mesmo tempo, os indisciplinados tornavam-se mais incômodos. Os</p><p>acontecimentos europeus de 1848 e sobretudo de 1871 – a Comuna de</p><p>Paris – eram alarmantes para a nova classe hegemônica. O que esta classe</p><p>começava a necessitar não era de construções idealistas, mas de algo</p><p>muito mais concreto e de menor nível de elaboração, e também mais de</p><p>acordo com a cultura do momento.</p><p>Na ordem planetária, as relações do centro com a periferia exigiam a</p><p>eliminação do sistema escravocrata, porque a integração demandava maior</p><p>nível tecnológico na periferia e, além do mais, a Grã-Bretanha, que</p><p>dispunha de mão de obra gratuita na Índia, se erigiu em campeã do</p><p>antiescravismo e exercia a polícia dos mares.</p><p>A “ciência” era a nova “ideologia” dominante. As maravilhas da técnica</p><p>assombravam: a ferrovia, os navios a vapor, o telégrafo, alguns avanços</p><p>médicos, as vacinas, o canal de Suez etc. O ser humano se tornava todo-</p><p>poderoso, podia controlar por completo a natureza e chegar a vencer a</p><p>própria morte. Darwin havia provocado alguma decepção, mas também</p><p>havia demonstrado que o ser humano podia continuar evoluindo e que,</p><p>quando as leis da evolução fossem dominadas, o progresso não teria fim.</p><p>A intenção era que, com a biologia, se constatasse que os mais poderosos</p><p>eram os mais “bonitos” e que os colonizados eram inferiores, “feios”,</p><p>todos iguais e parecidos aos macacos: era óbvia sua evolução inferior.</p><p>A classe outrora em ascensão havia passado a deter, na Europa, a</p><p>posição dominante e a considerava “natural”, de modo que o artifício do</p><p>contrato não só lhe resultava inútil, como também perigoso. Sua</p><p>hegemonia “natural” só fora negada antes pelos obscurantistas e</p><p>metafísicos. Tanto os discursos legitimadores do poder nobiliário quanto o</p><p>famoso contrato passaram a ser superstições, pois necessitavam de um</p><p>novo discurso que lhes permitisse exercer o poder punitivo sem travas</p><p>para manter sob controle os “de baixo”, que não podiam ser incorporados</p><p>ao sistema produtivo por escassez relativa de capital e que, ademais,</p><p>tinham a ousadia de exigir direitos.</p><p>Como era de supor, o novo paradigma que convinha a essas classes</p><p>era o do organismo, ainda que não o antiquado – baseado na “mão de</p><p>Deus”– mas um novo, fundado na “natureza” e revelado pela “ciência”.</p><p>Porém, por mais “científica” que fosse a roupagem, como não é</p><p>demonstrável que a sociedade seja um organismo, o novo organicismo</p><p>não passava de um dogma arrebatado ao idealismo.</p><p>O instrumento com que os incômodos nas cidades eram controlados</p><p>era a polícia, instituição relativamente nova no continente europeu, ainda</p><p>que não tão nova fora, porque era a mesma força de ocupação territorial</p><p>usada para colonizar.</p><p>Isso soa estranho, porque não se leva em conta que, com toda certeza,</p><p>nunca houve guerras coloniais verdadeiras, e sim operações de ocupação</p><p>policial de território. Nem sequer no colonialismo do século XV houve tais</p><p>guerras: nem na ocupação de Tenochtitlán nem na do Incanato houve</p><p>guerra; tanto Cortês como Pizarro limitaram-se a algumas escaramuças</p><p>policiais de ocupação. Também não houve guerra com o neocolonialismo</p><p>do século XIX, pois a enorme superioridade técnica dos colonizadores</p><p>impedia de se falar propriamente de guerras. Havia, no máximo,</p><p>resistência da população que recorria a ataques isolados e quase</p><p>individuais, mas a ocupação do norte da África tanto pelos ingleses como</p><p>pelos franceses não consistiu, no geral, em guerras, nem sequer quando</p><p>enfrentaram hordas precariamente armadas. O aparecimento das armas de</p><p>repetição não deixou nenhuma dúvida a respeito.</p><p>Quando foi preciso conter os explorados que reclamavam direitos nas</p><p>cidades europeias, transferiu-se a experiência política de técnica policial</p><p>de ocupação territorial para as metrópoles. Na Grã-Bretanha resistiram</p><p>bastante, pois sabiam bem o que significava e o que consideravam bom</p><p>para os africanos não queriam para os ingleses, mas ao final tiveram que</p><p>admiti-lo e criar a Scotland Yard, em 1829.</p><p>Os poderes das polícias europeias aumentavam em paralelo com as</p><p>reclamações dos explorados urbanos, mas careciam de um discurso</p><p>legitimador. Em 1838, o Colégio de França, que reunia todas as academias,</p><p>lançou um concurso sobre “as classes perigosas nas grandes cidades”,</p><p>ganho por Fregier, um comissário, com um livro volumoso, mas</p><p>incoerente, que só continha lições de moral e algumas experiências</p><p>pessoais, mas que, de modo algum, servia para legitimar o crescente</p><p>poder policial. O pobre Fregier limitou-se a escrever o que os acadêmicos</p><p>queriam escutar.</p><p>Desde os tempos de Wier os médicos estavam ansiosos por manipular</p><p>a hegemonia do discurso da questão criminal, em particular os psiquiatras,</p><p>mas careciam de prestígio social, pois trabalhavam em lugares infectos e</p><p>em contato com seres indesejáveis e sujos.</p><p>A mudança da publicidade do julgamento, assinalada por Foucault,</p><p>determinou que os médicos despertassem interesse, pois começaram a ser</p><p>chamados para os grandes processos públicos como peritos, o que os</p><p>projetou para a fama midiática, e a “gente de bem” deixou de virar a cara</p><p>ao vê-los passar. Aos poucos, foram se apropriando do</p><p>discurso e</p><p>explicando todos os crimes investigados. Por certo tinham discurso de</p><p>sobra, embora com a justificada desconfiança dos juízes, que disputavam</p><p>com eles as cabeças dos guilhotinados.</p><p>Como a polícia tinha poder sem discurso e os médicos o discurso sem</p><p>poder, era inevitável uma aliança, que é o que se conhece como</p><p>“positivismo criminológico”, ou seja, o poder policial urbano legitimado</p><p>pelo discurso médico.</p><p>Porém, o discurso médico não se esgotava nos indivíduos</p><p>ameaçadores e incômodos, e sim era um mero capítulo dentro do grande</p><p>paradigma que começava a se instalar: o do reducionismo biologista</p><p>racista.</p><p>Se os criminosos eram controlados por uma força de ocupação trazida</p><p>das colônias, não podia demorar muito a afirmação de que eram parecidos</p><p>e sua criminalidade se explicava pelas mesmas razões que legitimavam o</p><p>neocolonialismo. Tanto uns quantos outros eram “seres inferiores” e a</p><p>razão pela qual se justificava o neocolonialismo era a mesma que</p><p>legitimava o poder punitivo.</p><p>A categorização racista dos seres humanos tem uma longuíssima</p><p>história, mas a da segunda parte do século XIX é muito interessante e</p><p>apresenta aspectos incríveis.</p><p>Houve duas principais versões do racismo, que podemos denominar</p><p>de “pessimista” e “otimista”. A pessimista é a que afirma que houve uma</p><p>raça superior, que, depois, se foi degradando por misturar-se com uma</p><p>espécie de símios que encontraram no caminho, que provocaram uma</p><p>decadência da espécie. Esse é o conto da raça “ariana” superior, que</p><p>entrou na Índia pelo norte, que falava uma língua única, nunca conhecida,</p><p>da qual derivam as línguas europeias e que alimenta todos os mitos</p><p>nacionais “arianos” (os francos na França, os germânicos na Alemanha, os</p><p>saxões na Inglaterra, os godos na Espanha etc.), salvo na Itália, que</p><p>sempre preferiu o mito romano imperial.</p><p>Na verdade, a única coisa certa é que as línguas europeias costumam</p><p>provir da Índia, na qual entraram uns louros pelo norte e que se</p><p>combinaram com o elemento druida moreno do sul. Todo o resto é</p><p>produto de uma obra escrita por um diplomata francês de duvidosa</p><p>nobreza, o conde Arthur de Gobineau. Ele foi um escritor pouco talentoso</p><p>que, não obstante, escreveu uma extensa novela sobre as raças que teve</p><p>êxito singular. Castigado por algumas irregularidades, foi embaixador no</p><p>Brasil, onde verificou, horrorizado, que toda sua população era mestiça</p><p>africana e vaticinou que isso determinaria sua esterilidade por hibridação.</p><p>Parece que não acertou a esse respeito.</p><p>Gobineau terminou seus dias escondido com a mulher de um colega,</p><p>porém sua novela foi continuada por um inglês, Houston Chamberlain, tão</p><p>germanófilo que adotou a cidadania alemã e se casou com a filha de</p><p>Wagner. A novela escrita por este personagem foi o livro de cabeceira do</p><p>kaiser Guilherme II. Por desgraça, tampouco ali terminou a saga desta</p><p>novelística, pois o nazista Alfred Rosenberg a continuou com O mito do</p><p>século XX, do qual há uma única tradução espanhola, publicada por uma</p><p>editora nazista na Argentina, nos tempos da última ditadura. Rosenberg foi</p><p>enforcado em Nurenberg, mas não por ter escrito esse livro, e sim por ter</p><p>sido o ministro responsável por organizar os massacres de milhões de</p><p>“seres inferiores” na Europa oriental.</p><p>No entanto, esse racismo pessimista não servia para o novo momento</p><p>de poder mundial, que necessitava deslegitimar a escravidão, mas justificar</p><p>o neocolonialismo, divulgar o liberalismo econômico, mas controlar</p><p>policialmente os excluídos no centro. O discurso que legitimasse</p><p>semelhante imbroglio não podia ter um grau muito alto de elaboração e</p><p>por isso esteve a cargo de alguém também bastante raso, que foi Herbert</p><p>Spencer, que não era médico, nem biólogo, nem filósofo e nem jurista, e</p><p>sim engenheiro ferroviário e que, ademais, dizia não ler outros autores</p><p>porque o confundiam. Desse modo, ele foi capaz de conceber os</p><p>disparates mais incríveis de toda a história do pensamento, afirmando que</p><p>levava Darwin do biológico ao social.</p><p>O pobre Darwin carrega até hoje o peso do chamado “darwinismo</p><p>social”, quando na realidade foi o bom Sr. Herbert que o concebeu.</p><p>Partindo de que na geologia e na biologia tudo avança com propulsão a</p><p>catástrofes, afirma que o mesmo acontece na sociedade, e que os seres</p><p>humanos que sobrevivem são os mais fortes e desse modo tudo vai</p><p>evoluindo, inclusive o ser humano na história. Esse catastrofismo deprime</p><p>os mais débeis, mas para Spencer isso é um detalhe inevitável e sem</p><p>maior importância.</p><p>Por isso, ele defendia a posição de que não se devia ajudar os pobres,</p><p>para não privá-los de seu direito a evoluir, que a filantropia era um erro,</p><p>da mesma forma que o ensino obrigatório ou gratuito porque, se não</p><p>custava nada, as pessoas não o valorizariam e terminariam lendo livros</p><p>socialistas. Desse modo justificava a renúncia a qualquer plano social por</p><p>parte dos governos europeus. O controle dos insubordinados por meio da</p><p>polícia parecia ser a principal função do Estado para nosso amigo</p><p>ferroviário.</p><p>É isso mesmo que hoje afirmam os “think tanks” da ultradireita</p><p>estadunidense, que na verdade são mais “tanks” que “think” (por</p><p>educação, é excusado dar muitos detalhes sobre o real conteúdo dos</p><p>“tanks”), ainda que, como corresponde à sua desonestidade, eles omitem</p><p>o nome do velho Herbert.</p><p>Quanto ao neocolonialismo, Spencer afirmava que os ocupados são</p><p>seres humanos inferiores, mas, diferentemente dos “pessimistas”, isso não</p><p>se deve a que eles tenham decaído, mas sim a que ainda não evoluíram.</p><p>Por isso não têm moral, não conhecem a propriedade, andam seminus e</p><p>são sexualmente muito “frequentes”. Daí que, como “a função faz o</p><p>órgão”, têm a cabeça menor e os genitais, maiores, porém, a piedosa obra</p><p>dos colonizadores os tornaria menos “frequentes” (possivelmente</p><p>mostrando-lhes um retrato da rainha Vitória) e, desse modo, sob tão terna</p><p>proteção, chegariam, em alguns séculos, a ter cabeça maior (e se supõe</p><p>que genitais menores). Escareço que nada disso é lenda, e sim que está</p><p>escrito nos livros do bom Sr. Herbert, de cuja transcrição textual lhes</p><p>poupo.</p><p>A conclusão prática era que os colonizados podiam ser dominados,</p><p>mas não escravizados. Cabe precisar que os europeus não foram muito</p><p>sutis em relação a essa diferença e que, em 1885, se reuniram no</p><p>Congresso de Berlim, convocado por Bismarck, e repartiram a África como</p><p>uma grande pizza. As consequências desse congresso são sentidas até o</p><p>presente, pois a arbitrária divisão política de África é, até hoje, fonte de</p><p>sangrentas guerras, alimentadas por negociatas armamentistas que mantêm</p><p>a região subsaariana imersa em catástrofes.</p><p>Porém, com o neocolonialismo também se lançaram à empresa</p><p>inclusive quem nunca o havia feito, com as mais funestas consequências</p><p>humanas. A memória dos italianos em Trípoli não é nada boa, mas foram</p><p>os alemães que levaram o prêmio com o aniquilamento maciço dos</p><p>hereros na Namíbia, embora, sem dúvida, o prêmio maior quem ganhou</p><p>mesmo foi o empreendimento privado de Leopoldo II, que matou cerca</p><p>de dois milhões de congoleses, forçados a extrair borracha sob ameaças</p><p>de morte e amputações, e reduziu a população em oito milhões.</p><p>Esse crime foi denunciado em seu tempo em uma famosa novela de</p><p>Joseph Conrad, Coração das trevas, e também divulgado por Mark Twain</p><p>nos Estados Unidos, o que obrigou Leopoldo II a entregar sua empresa ao</p><p>Estado belga, que não alterou em nada a atividade massacradora e</p><p>exploradora de seu monarca.</p><p>O rei Balduíno, no discurso de independência do Congo em 1960,</p><p>teve a desfaçatez de fazer o elogio da obra belga, o</p><p>que provocou a</p><p>resposta de Patrice Lumumba, que, nos primeiros dias do ano seguinte</p><p>seria assassinado por um pelotão sob o comando de um oficial belga.[3]</p><p>É bom lembrar que Leopoldo II ergueu um luxuoso museu perto de</p><p>Bruxelas com todos os troféus e amostras de sua obra (além de muitas</p><p>estátuas e retratos dele mesmo), rodeado de um formoso parque, e que</p><p>em uma de suas vitrinas se encontra uma carta enviada pelo administrador</p><p>do Congo Belga ao presidente Truman, felicitando-o pelo êxito de</p><p>Hiroshima e Nagasaki, pois o urânio das bombas procedia das minas do</p><p>Congo.</p><p>Quanto à América Latina, é sabido que o curioso ferroviário inglês</p><p>alimentou a ideologia assumida pelas elites intelectuais de todas nossas</p><p>repúblicas oligárquicas, desde o “porfirismo” mexicano até a “oligarquia</p><p>bovina” argentina e desde o “patriciado peruano” até a “República Velha”</p><p>brasileira. Nossas minorias dominantes se consideraram vanguardas</p><p>iluminadas da civilização, que exerciam um paternalismo piedoso sobre as</p><p>grandes maiorias excluídas do poder, necessário até que os povos</p><p>perdessem sua condição “bárbara” e estivessem em condições de decidir</p><p>seu destino, ou seja, supomos, até que a cabeça crescesse.</p><p>O spencerianismo foi o reducionismo biologista levado ao social que</p><p>serviu de marco ideológico comum ao neocolonialismo e ao saber médico</p><p>que legitimou o poder policial com o nome de positivismo criminológico,</p><p>que bem poderia se chamar de “apartheid criminológico”. Como os</p><p>médicos vincularam a inferioridade dos neocolonizados à dos agressivos e</p><p>incômodos? Essa é a história do “apartheid criminológico” em sentido</p><p>estrito, com todas suas deploráveis consequências.</p><p>13. Começa o “apartheid criminológico”</p><p>Na realidade, os positivistas chamaram de “criminalidade” ao conjunto</p><p>de presos, que era o único a que tinham acesso, porque os muitos mais</p><p>que cometiam delitos e ficavam impunes lhes eram desconhecidos, ou</p><p>seja, que seu “laboratório”, por assim dizer, se limitava ao estudo daqueles</p><p>que se encontravam enjaulados. Como se sabe, em todos os tempos, os</p><p>mais lerdos e com menos poder são colocados na jaula.</p><p>Para vincular “a criminalidade” (os presos) aos “selvagens</p><p>colonizados”, os positivistas elaboraram um discurso em cuja análise</p><p>entramos, advertindo que estamos abrindo as portas de uma história</p><p>macabra, que terminou muito mal em todos os sentidos. Se bem que os</p><p>disparates que foram ditos em seu curso causem risos, suas funestas e</p><p>letais consequências não têm nada de engraçado.</p><p>Essa história se suaviza na manualística criminológica, relatando-a</p><p>como um simples momento do passado “teórico”, centrado em um médico</p><p>de Turim, Cesare Lombroso, a quem se descreve como um “exagerado” e</p><p>nada mais. Se fosse apenas isso, não passaria de um relato quase curioso.</p><p>Para dizer a verdade, o pobre Lombroso era um investigador sério,</p><p>que, na verdade, teve muito pouco a ver com a origem e as</p><p>consequências desse capítulo trágico. De família judia e filho de um</p><p>rabino, Lombroso nunca imaginou as consequências da corrente em que</p><p>se movia, mas na realidade não inventou o reducionismo biologista e se</p><p>limitou a enquadrar suas observações no marco spenceriano, ou seja, no</p><p>paradigma de seu tempo.</p><p>O chamado “positivismo criminológico” (que, como já dissemos, não é</p><p>mais do que o resultado da aliança do discurso biologista médico com o</p><p>poder policial urbano europeu) foi sendo armado em todo o hemisfério</p><p>norte e estendeu-se ao sul do planeta, como parte de uma ideologia</p><p>racista generalizada na segunda metade do século XIX e que terminou,</p><p>catastroficamente, na II Guerra Mundial. Não tem um autor: tem muitos e</p><p>de todas as nacionalidades e, por certo, os criminólogos positivistas não</p><p>foram mais do que uma das múltiplas manifestações de todos os</p><p>pensamentos enquadrados nesse paradigma.</p><p>Dito de forma mais crua e extremamente sintética, podemos afirmar</p><p>que começou décadas antes de Lombroso, com os médicos que lançaram</p><p>as primeiras teorias que pretendiam expor uma etiologia orgânica do</p><p>delito – e, ao mesmo tempo, a inferioridade dos colonizados – e terminou</p><p>nos campos de extermínio nazistas.</p><p>Bénedict Augustin Morel expôs, em 1857, sua “teoria da degeneração”,</p><p>segundo a qual, em razão da mescla de raças humanas combinar fios</p><p>genéticos muito distantes, tinha por resultado seres inteligentes, mas</p><p>moralmente degenerados, desequilibrados, incômodos.</p><p>Hegel tinha alguma razão, pois esses “degenerados” eram nossos</p><p>gaúchos, mestiços e mulatos. Sem eles não teria havido exércitos</p><p>libertadores em nossa América, os colonizadores podiam ter aniquilado</p><p>todos nossos povos nativos e a América poderia ter sido totalmente</p><p>repovoada pela “raça superior” colonizadora. Talvez esse genocídio</p><p>completo tenha sido o sonho irrealizado de muitos racistas da época (e de</p><p>alguns atuais que não se animam a dizê-lo). Os mestiços sempre foram</p><p>mais incômodos para o poder do que os índios ou africanos puros, pois</p><p>eram muito mais difíceis de domesticar.</p><p>A “degeneração” de Morel foi um mito que continuou vigente</p><p>inclusive na escola psiquiátrica francesa da Argélia até a guerra de</p><p>libertação. Antes de Morel, o inglês James Pritchard havia exposto sua</p><p>teoria da “locura moral”, na linha que destacava a inferioridade dos</p><p>criminosos e dos colonizados, afirmando que Adão havia sido negro e que</p><p>seus descendentes foram se embranquecendo. Supomos que o pecado</p><p>original deveria ser imputado a uma raça inferior.</p><p>Contemporâneo de Hegel, o alemão Franz Joseph Gall considerava</p><p>que seu crânio era o “normal” e todos os outros, anormais. Por</p><p>conseguinte, acreditava diagnosticar a criminalidade e a genialidade</p><p>apalpando a cabeça, com sua famosa “frenologia”. Perseguiram-no por</p><p>“ímpío”, apesar de só apalpar a cabeça das pessoas.</p><p>Outros contemporâneos de Lombroso rechaçaram suas teorias, porém</p><p>sem deixar de afirmar despropósitos, como o francês Feré, que em 1888</p><p>afirmava ser a sociedade biologicamente justa, pois provocava uma</p><p>“sedimentação social dos degenerados”, os quais caíam “naturalmente” até</p><p>as classes mais subalternas, e que a falta de proteção aos não degenerados</p><p>representava uma omissão de defesa social, isto é, que a defesa social</p><p>devia ser contra os pobres.</p><p>O maior crítico da teoria lombrosiana nos congressos de antropologia</p><p>criminal de seu tempo foi o francês Alexandre Lacassagne, que atribuía o</p><p>delito a modificações cerebrais do occipital, do parietal ou do frontal: as</p><p>do occipital eram as responsáveis pelos crimes primitivos das classes</p><p>baixas, as do parietal, dos ocasionais e impulsivos das classes médias, e as</p><p>do frontal, dos delinquentes alienados das classes altas. Parece que os</p><p>pobres costumavam cair de costas e golpear a parte traseira da cabeça.</p><p>Como se pode ver, a chamada “escola francesa” tampouco economizava</p><p>disparates. A estes era acrescentado o trabalho de um médico colonialista</p><p>– o Dr. Corre –, que exemplificava as consequências da independência</p><p>dos “selvagens” com o caso do Haiti.</p><p>Como o racismo era um paradigma, pouco importava a ideologia</p><p>política dos protagonistas, porque todos se moviam dentro desse marco.</p><p>José Ingenieros – que era socialista e é considerado o fundador da</p><p>criminologia argentina – não compartilhava a teoria lombrosiana, mas</p><p>professava uma firme convicção racista, que colocou em evidência em um</p><p>horripilante artigo publicado em 1906, com o título “As raças inferiores”,</p><p>no qual fala de “farrapos de carne humana”, justifica a escravidão etc.</p><p>Realmente, parece escrito em pleno surto psicótico de racismo agudo.</p><p>Raimundo Nina Rodrigues, fundador</p><p>da criminologia brasileira, era</p><p>tributário da escola francesa e, na linha de Morel, combatia a mestiçagem</p><p>(“a miscigenação”) com base na tese da degeneração, considerava os</p><p>mulatos semi-imputáveis e dedicava seu livro ao mencionado Dr. Corre e</p><p>a Lacassagne.</p><p>Nina Rodrigues foi caricaturizado por Jorge Amado, com a licença</p><p>literária que o fez viver algumas décadas mais, no personagem de Nilo</p><p>Argolo de Araújo de sua famosa novela Tenda dos milagres, também</p><p>levada ao cinema.</p><p>Lombroso só se limitou a formular observações mais meticulosas e a</p><p>articulá-las ao marco do mesmo paradigma dominante. Se bem que a</p><p>síntese que formulou tenha garantido sua celebridade mundial, dando-lhe</p><p>maior difusão e êxito acadêmico (com as consequentes invejas), o certo é</p><p>que sua teoria do “criminoso nato” não inventou nem esgotou o</p><p>reducionismo nem o positivismo racista. Inclusive a própria expressão</p><p>“criminoso nato” lhe foi sugerida por seu seguidor Enrico Ferri, que a</p><p>plagiou de Cubí y Soler, que havia sido um discípulo espanhol de Gall,</p><p>obviamente sem citá-lo.</p><p>14. A síntese lombrosiana: um bicho diferente</p><p>A tendência a deduzir caracteres psicológicos a partir de dados físicos</p><p>ou orgânicos remonta a um velho tratado de “fisiognomia” atribuído</p><p>falsamente a Aristóteles e ganhou força no Renascimento.</p><p>A origem desse suposto saber encontra-se em um preconceito bastante</p><p>absurdo, que começa com a classificação e a hierarquização dos animais.</p><p>O ser humano atribuiu aos animais virtudes e defeitos humanos e, de</p><p>acordo com estes, classificou-os e hierarquizou-os: o cachorro fiel, o gato</p><p>diabólico, o burro imbecil, o veado asqueroso etc. Realmente, os animais</p><p>são como são e nunca se inteiraram dessas valorações; ao que parece, eles</p><p>se limitam a ter um conceito um tanto pobre dos humanos, mas isso é um</p><p>outro problema.</p><p>Foi assim que os humanos coroaram “rei” ao urso, que aparece em</p><p>numerosos brasões (inclusive no de Madri), até que foi destronado por</p><p>obra dos eclesiásticos que descobriram (quem sabe como) que ele tinha</p><p>uma conduta sexual indevida – não sei em que isso consiste, mas, por</p><p>prudência, nunca perguntei a nenhum urso (parece que eles não gostam</p><p>que se intrometam em sua vida particular, em especial depois de visitar o</p><p>Canadá, onde, por toda parte há cartazes “Take care with the bears”). O</p><p>certo é que o leão o substituiu, portador, presumo, de costumes sexuais</p><p>saudáveis, mas a quem, tampouco, me atrevi a indagar.</p><p>Uma vez estabelecidas essas classificações humanas dos animais,</p><p>houve quem pensasse que, devido à semelhança de alguns humanos com</p><p>certos animais, eles podiam ser caracterizados psicologicamente. O jogo</p><p>não podia ser mais infantil: primeiro classificaram os animais com traços</p><p>humanos e em seguida atribuíram aos humanos os traços que antes</p><p>haviam colocado nos animais. Isso mesmo se faz na esquina, onde os</p><p>rapazes, sem pretender fundar nenhuma ciência, classificam os que têm</p><p>pinta de cavalo, de burro, de raposa etc.</p><p>Não obstante a simplicidade, Gian Battista Della Porta, no século XVII,</p><p>e Johann Caspar Lavater, no século XVIII, escreveram formosos tratados</p><p>repletos de bonitas ilustrações, com as quais sustentaram esta nova</p><p>“ciência” da “fisiognomia”, provocando um longo debate do qual</p><p>participou ninguém mais do que Goethe.</p><p>No século seguinte, em 1876, Lombroso deu a luz à primeira edição</p><p>de L’uomo delinquente, na qual afirmava que se podia reconhecer o</p><p>“criminoso nato” como uma espécie particular do gênero humano (“specie</p><p>generis humani”) pelos caracteres físicos. A criminologia – que, nessa</p><p>época, se chamava “antropologia criminal” – ocupava-se, por conseguinte,</p><p>de um objeto biológico diferenciado, o que levou um extremista a</p><p>sustentar que era um ramo da zoologia.</p><p>Como explicar o “criminoso nato”? Por sua semelhança com o</p><p>selvagem colonizado, aduzindo que as raças selvagens eram menos</p><p>evoluídas do que a raça branca europeia. Em seu tempo, afirmava-se que</p><p>no seio materno se sintetiza toda a evolução, desde o ente unicelular até o</p><p>ser humano completo (dizia-se que “a ontogenia resume a filogenia”). O</p><p>“criminoso nato” era produto acidental de uma interrupção deste processo,</p><p>que fazia com que, em meio da raça superior europeia, nascesse um</p><p>sujeito diferente e semelhante ao colonizado. Era, pois, um branco que</p><p>nascia mal acabado, sem o último golpe de forno e, portanto, era um</p><p>colonizado. Os caracteres “atávicos” que o assemelhavam ao colonizado</p><p>lhe atribuíam traços “africanoides” ou “mongoloides” (parecidos aos</p><p>africanos ou aos índios). Da mesma maneira que os selvagens, não tinham</p><p>moral, pudor e, ademais, eram hipossensíveis à dor (para que a sentissem</p><p>era necessário bater neles com mais força), o que era verificável porque se</p><p>tatuavam. Imagino o terror de Lombroso em uma praia nos dias de hoje,</p><p>rodeado de criminosos natos.</p><p>É bastante claro que Lombroso estava imbuído de claros elementos</p><p>estetizantes. Em seu tempo, os colonizados eram feios e maus, porque</p><p>havíamos feito algumas diabruras, como fuzilar Maximiliano no México,</p><p>parar a frota no rio Paraná, expulsar os franceses do Haiti etc. Nossos</p><p>tipos humanos contrastavam com a branca beleza europeia, protegida do</p><p>sol por sombrinhas e usando corpete.</p><p>A fealdade e a maldade sempre vão associadas; nos raros casos em</p><p>que o belo é mau, trata-se, no geral, de uma beleza diabólica, do tipo de</p><p>Dorian Gray. Hoje sabemos que a polícia seleciona por estereótipos e que</p><p>estes se configuram através da comunicação com base em preconceitos,</p><p>nos quais os valores estéticos desempenham um papel fundamental,</p><p>seguindo a regra de associar o feio ao mau. Reproduz-se, em definitivo, o</p><p>mecanismo da “fisiognomia”: define-se o “feio”, associa-se ao “mau” e</p><p>acaba se selecionando o “mau” mediante o “feio”.</p><p>A ingenuidade dos positivistas levou-os a espantar-se com a “intuição”</p><p>dos artistas ao descrever ou pintar o crime, quando, na realidade, eles</p><p>haviam definido os estereótipos de acordo com os quais se selecionavam</p><p>os criminalizados por “feios”, ou seja, por se assemelharem aos</p><p>colonizados. São numerosos os tediosos livros positivistas sobre</p><p>“criminosos na arte”.</p><p>Em edições posteriores, a obra de Lombroso foi acompanhada por um</p><p>volume ou “Atlas”, com fotografias e desenhos de delinquentes, todos</p><p>presos ou mortos, é claro. Basta olhar para essa enorme coleção de caras</p><p>feias para convencer-se de que esses sujeitos não podiam andar por muito</p><p>tempo soltos por uma cidade europeia sem que a polícia os prendesse,</p><p>pois pareciam todos saídos dos desenhos de “malvados” dos folhetins de</p><p>costumes.</p><p>O erro de Lombroso consistiu em acreditar que essa feiura era a causa</p><p>do delito, quando, na realidade, era a causa da prisionização, pois se eles</p><p>fossem bonitos não estariam no “Atlas”, como Jack, o Estripador, em</p><p>relação ao qual cabe presumir que, como era bonito, não casava com o</p><p>estereótipo e nunca conseguiram colocá-lo na prisão.</p><p>Com toda certeza, Lombroso, que era um observador meticuloso, nos</p><p>legou a melhor descrição dos estereótipos criminosos de seu tempo.</p><p>Entretanto, ele não se ocupou apenas dos criminosos – ou seja, dos</p><p>mal acabados –, mas também dos que iam mais além do esperado, isto é,</p><p>dos “gênios”, a tal ponto que se empenhou em conhecer alguns, como</p><p>Tolstoi. Tanto ele como Max Nordeau escreveram livros sobre o “homem</p><p>de gênio”; Nordeau advertia, em dois grossos volumes, acerca do perigo</p><p>do “gênio louco ou degenerado”, em cuja categoria incluía Oscar Wilde,</p><p>batendo em cavalo morto.</p><p>Lombroso ocupou-se também dos dissidentes e escreveu sobre os</p><p>delinquentes políticos e sobre os anarquistas.</p><p>A verdade é que a criminologia lombrosiana</p><p>parecia um grande elogio</p><p>à mediocridade: não havia que se parecer com os colonizados, mas</p><p>tampouco se sobressair muito em inteligência e criatividade nem discordar</p><p>demasiadamente. Para completar o quadro, tampouco deixou a mulher em</p><p>paz. A exemplo dos inquisidores, considerava-a menos inteligente do que</p><p>o homem, apesar de afirmar que isso era compensado pela sua maior</p><p>sensibilidade. Atribuía sua menor representação no delito à existência de</p><p>um “equivalente” do delito na mulher, que era a prostituição. Tudo isso foi</p><p>desenvolvido em um livro escrito junto com seu genro – o historiador de</p><p>Roma, Guglielmo Ferrero –, intitulado A mulher delinquente, prostituta e</p><p>normal.</p><p>15. O rastro do positivismo biologista</p><p>Quanto a nós, latino-americanos, podemos assim deduzir as</p><p>consequências da criminologia positivista sintetizada por Lombroso: se a</p><p>prisão estava destinada aos brancos “atávicos” nos países colonialistas,</p><p>porque eles se pareciam com os selvagens, cabe pensar que os territórios</p><p>colonizados eram grandes prisões, ou seja, imensos campos de</p><p>concentração.</p><p>Esse pensamento tem sua lógica: o “Arbeit macht frei” (“o trabalho</p><p>liberta”) escrito sobre o portão de Auschwitz é uma consigna que poderia</p><p>provir de todo o colonialismo na forma de “trabalhem, que assim</p><p>aprendem e chegarão a ser livres como nós” (supomos que com a cabeça</p><p>maior, obviamente com prejuízo de outros atributos). Por outro lado, o</p><p>positivismo criminológico, com seu enfeite de ciência, chocava-se</p><p>frontalmente com o neotomismo fossilizado dos discursos confessionais e</p><p>assim obtinha patente de pensamento progressista, mas suas</p><p>consequências práticas eram mínimas. Um historiador uruguaio, José</p><p>Pedro Barrán, afirma que não havia problema no casamento entre uma</p><p>menina católica, que comungava diariamente, e um médico agnóstico ou</p><p>ateu, porque o que para ela era pecado, para ele era anti-higiênico. Por</p><p>isso, adequava-se perfeitamente aos interesses de nossas oligarquias</p><p>regionais, que não podiam deixar de lhe dispensar uma calorosa acolhida.</p><p>Na Argentina, foi Luis María Drago quem divulgou precocemente as teses</p><p>lombrosianas em uma conferência intitulada “Os homens de presa”, logo</p><p>publicada em versão italiana com prólogo do próprio Lombroso.</p><p>O positivismo foi tão impactante na Argentina que não só foi acolhido</p><p>pelas cátedras de todo o país, incluindo a de Córdoba, como também</p><p>Lombroso foi convidado a nos visitar. Por motivo de saúde, não veio</p><p>porém no centenário da independência do país, veio Enrico Ferri, que era</p><p>seu discípulo jurista. Por essa época, Ferri era um proeminente socialista</p><p>italiano e seus correligionários argentinos foram recebê-lo com</p><p>entusiasmo. Mal desembarcou, Ferri afirmou que não se justificava o</p><p>socialismo em um país não industrializado, provocando uma polêmica</p><p>com Juan B. Justo, enquanto desfrutava da companhia do que havia de</p><p>mais ilustre na nossa oligarquia e pronunciava suas conferências com</p><p>singular êxito.</p><p>Como penalista, Ferri afirmava que a pena devia ter a medida da</p><p>periculosidade que, logicamente, na falta de um “perigosímetro”, mediam</p><p>na base do “olhômetro”. O juiz se convertia em um policial a mais. A</p><p>dogmática jurídica era uma “abstrusidade germânica” e as garantias</p><p>processuais, um preconceito metafísico. O determinismo monista de Ferri</p><p>era radical: tudo estava mecanicamente determinado, não havia liberdade</p><p>alguma.</p><p>O delinquente era, para Ferri, um agente infeccioso do corpo social do</p><p>qual era preciso ser separado, com o que convertia os juízes em leucócitos</p><p>sociais. O filósofo Martin Buber ridiculiza isso, imaginando um diálogo em</p><p>que o processado alega perante o juiz que não tem a culpa porque está</p><p>predeterminado ao delito, ao que o juiz lhe responde que ele está</p><p>predeterminado a condená-lo.</p><p>Embora o próprio Ferri tenha pretendido compatibilizar isso com</p><p>Marx, nunca o conseguiu e, talvez cansado de tentá-lo, mais para o final</p><p>de sua vida terminou aceitando uma senadoria de Mussolini.</p><p>A prédica positivista em nosso país fez escola e José María Ramos</p><p>Mejía patologizou boa parte de nossos próceres em seu famoso livro A</p><p>neurose dos homens célebres, em que incluía o dr. Francia,[4] o que levou</p><p>Lombroso, que não reparava muito nesses detalhes, a considerar argentino</p><p>o famoso paraguaio. Cabe destacar que Lombroso incorreu em outros</p><p>erros a nosso respeito, como afirmar que os incêndios da Boca</p><p>ameaçavam estender-se a Montevidéu, ou recolher, das memórias de</p><p>Garibaldi, que nossos hábitos carnívoros eram a causa da frequência</p><p>homicida. Também disse que em Mendoza a população tomava banho</p><p>sem roupa no rio, o que motivou a retificação de Drago em defesa do</p><p>pudor das damas mendocinas.</p><p>A tese da degeneração teve ampla repercussão entre os argentinos.</p><p>Carlos Octavio Bunge publicou, em 1903, Nossa América, um livro que foi</p><p>muito útil por seu racismo, na linha de Morel. Muito mais tarde, em 1938,</p><p>Francisco De Veyga publicou um livro intitulado Degeneração e</p><p>degenerados. Miséria,vício e delito, em que parecia advertir que, se nada</p><p>fosse feito para conter a degeneração, os degenerados iriam nos superar.</p><p>A julgar pelo tom do livro, acredito que sete anos depois sua teoria teria</p><p>sido considerada verificada na Plaza de Mayo, como anos antes o haviam</p><p>manifestado aqueles que se escandalizaram porque o povo desamarrou os</p><p>cavalos do coche do presidente Yrigoyen para levá-lo até a casa de</p><p>governo. Um senador nacional publicou, nesses anos, um opúsculo com o</p><p>título de Chusmocracia [algo como a democracia do populacho]. Cabe</p><p>esclarecer que, anos antes, De Veyga estivera obcecado com a</p><p>homossexualidade masculina e escreveu consideráveis disparates a</p><p>respeito.</p><p>Os criminólogos positivistas dedicaram-se a percorrer prostíbulos e</p><p>outros antros da época e conceberam o conceito de “má vida”.</p><p>Escreveram-se livros sobre a “má vida” em Roma, em Madri, em Barcelona</p><p>e, como não podia faltar, também em Buenos Aires. Quem o publicou</p><p>aqui, em 1908, foi Eusebio Gómez, destacado professor de direito penal</p><p>da UBA, com prólogo de José Ingenieros, foi muito útil por conta de sua</p><p>redundância biologicista. Ali desfilavam prostitutas, espertalhões, ladrões,</p><p>religiosos, curandeiros, gays etc. A respeito dos últimos, Gómez, afirmava</p><p>que admirava a Idade Média.</p><p>Como resultado dessas andanças nada santas, os positivistas</p><p>propunham leis de “estado perigoso predelitual”, ou seja, que caso se</p><p>soubesse que quem andava na “má vida” teria de desembocar no delito, o</p><p>mais natural era detectá-lo antes e metê-lo na cadeia. Para que esperar que</p><p>cometessem algo? Para obviar algumas formalidades, lhe mudavam o</p><p>nome da pena e a chamavam de “medida”, de modo que ninguém poderia</p><p>objetar que lhe fossem impostas penas sem delito. Famosos professores</p><p>estrangeiros vieram em apoio a essa luminosa ideia que, por sorte, entrou</p><p>em choque com a decidida recusa de Yrigoyen, mas não de Alvear, que</p><p>encaminhou alguns projetos que, felizmente, não receberam sanção.</p><p>Se levarmos ao extremo a colocação, o mesmo delito não era mais</p><p>que um “sintoma” da periculosidade e, portanto, tampouco teria muito</p><p>sentido ter uma parte especial do código penal como catálogo fechado,</p><p>porque sempre poderiam aparecer novos “sintomas”, e inclusive alguém</p><p>poderia pensar-se em suprimir essa parte especial.</p><p>Embora ninguém tenha apoiado essa ideia na Argentina, não faltou</p><p>quem o propusesse do outro lado, o que demonstra que não há disparate</p><p>que não possa estar presente nesta matéria. Com efeito, Nikolai Krylenko</p><p>– destacado jurista soviético, revolucionário e magistrado – elaborou um</p><p>projeto de código penal sem parte especial</p><p>que não foi sancionado.</p><p>De qualquer maneira, o positivismo criminológico se defrontava com</p><p>um gravíssimo problema, que era a própria “naturalidade” do delito. Não</p><p>podia negar que se criminalizava por decisão política e que o proibido</p><p>mudava de tempos em tempos e de sociedade em sociedade. Um outro</p><p>jurista italiano, seguidor de Lombroso e Ferri, o barão Raffaele Garofalo,</p><p>inventor do “delito natural”, dedicou-se a superar esse obstáculo. A esse</p><p>respeito, ele publicou, em 1885, uma Criminologia, que merece ser lida</p><p>com atenção, porque é um manual que expõe, com incrível ingenuidade,</p><p>racionalizações às piores violações de direitos humanos imagináveis.</p><p>Entre outras coisas, ele afirma que o delinquente é o inimigo interno</p><p>na paz, como o soldado inimigo o é na guerra; prefere a pena de morte à</p><p>prisão perpétua, porque é mais piedosa e elimina o risco de fuga; afirma</p><p>que há povos degenerados que cumprem no plano internacional o mesmo</p><p>papel que os criminosos natos desempenham no nacional, e muitos outros</p><p>absurdos que são bem úteis. Seria uma leitura recomendável para a turma</p><p>do “Tea Party”, os europeus antiextra-comunitários e os argentinos</p><p>antibolivianos, entre outros tantos.</p><p>Como Garofalo construía seu “delito natural”? Misturando o ferroviário</p><p>Spencer nada menos do que com Platão (esclareço que houve misturas</p><p>piores). Afirmava que a civilização avançava em refinamento dos</p><p>sentimentos de piedade e justiça, alcançando seu mais alto grau, é claro,</p><p>na Europa, e que isso se expressava na proteção aos animais. Escrevia</p><p>isso, enquanto os capangas de Leopoldo II mutilavam negros porque não</p><p>lhes traziam borracha suficiente.</p><p>Pois bem. Para Garofalo, o “delito natural” seria a lesão do sentimento</p><p>médio de piedade ou de justiça imperante em cada tempo e sociedade.</p><p>Assim, ele construía um quadro de valores e subvalores lesionados no</p><p>qual colocava os diferentes delitos. O resultado era algo assim como um</p><p>Platão em estado bruto. Nem todos os positivistas aceitaram de bom grau</p><p>esse platonismo à Spencer. Pedro Dorado Montero, por exemplo, foi um</p><p>personagem singular, professor de Salamanca, positivista, mas, ao mesmo</p><p>tempo, um anarquista moderado, que meditava no isolamento de seu</p><p>refúgio castelhano. Rechaçou a tese de Garofalo, afirmando que não havia</p><p>nenhum “delito natural”, mas sim que o Estado definia arbitrariamente os</p><p>delitos. Porém, como havia homens determinados a realizar essas</p><p>condutas, o que o Estado devia fazer era “protegê-los” em instituições às</p><p>quais eles pudessem recorrer pedindo ajuda.</p><p>Evidentemente que ninguém seguiu Dorado e de nenhum modo</p><p>ocorreu a alguém materializar as curiosas instituições que ele propunha e</p><p>com as quais pensava mudar o direito penal por um “direito protetor dos</p><p>criminosos”.</p><p>É bastante óbvio que o positivismo criminológico desembocava em</p><p>um autoritarismo policial que correspondia a um elitismo biologicista. Não</p><p>apenas legitimava o neocolonialismo, mas também a repressão das classes</p><p>subordinadas no interior das metrópoles colonialistas. As elites dessas</p><p>sociedades temiam sua insubordinação e perseguiam os agitadores</p><p>“dissidentes”. O próprio Garofalo escreveu um livro intitulado A</p><p>superstição socialista. Mais temor ainda inspiravam as reuniões públicas: as</p><p>“multidões”.</p><p>A lembrança da Comuna de Paris era inapagável. Foi precisamente um</p><p>autor francês – Gustave Le Bon, autor da famosa Psicologia das multidões</p><p>– quem se destacou no tema e seus escritos também constituem, em geral,</p><p>um bom reservatório de disparates antidemocráticos. Para Le Bon, na</p><p>multidão se neutralizavam as funções superiores do cérebro e dominava a</p><p>“paleopsique”. Em outras palavras, e embora não o expressasse desse</p><p>modo, a multidão fazia surgir em cada um o “criminoso nato”, atávico,</p><p>regressivo, selvagem. Como era demasiadamente incrível afirmar que todo</p><p>povo insubordinado era composto de criminosos natos ou selvagens, Le</p><p>Bon encontrou a forma de explicar que quando atuavam na multidão se</p><p>convertiam a isso por efeito da própria massa humana.</p><p>Houve outros positivistas preocupados com as multidões e entre eles</p><p>destaca-se Scipio Sighele, que publicou um livro intitulado Os delitos da</p><p>multidão. O resultado prático foi que vários códigos penais incluíram</p><p>disposições acerca de delitos cometidos pelas multidões,</p><p>responsabilizando os líderes. O fato de que Le Bon, Sighele, o próprio</p><p>Lombroso e outros exemplificavam, invariavelmente com os líderes da</p><p>Comuna de Paris e que os códigos penais centrassem sua atenção punitiva</p><p>nos líderes de multidões, mostra claramente o medo das classes</p><p>hegemônicas em relação à “peble reunida”.</p><p>Como se pode ver, o positivismo restaurou claramente a estrutura do</p><p>discurso inquisitorial: a criminologia substituiu a demonologia e explicava</p><p>a “etiologia” do crime; o direito penal mostrava seus “sintomas” ou</p><p>“manifestações” da mesma forma que as antigas “bruxarias”; o direito</p><p>processual explicava a forma de persegui-lo sem muitas travas à atuação</p><p>policial (inclusive sem delito); a pena neutralizava a periculosidade (sem</p><p>menção da culpabilidade) e a criminalística permitia reconhecer as marcas</p><p>do mal (os caracteres do “criminoso nato”). Tudo isso voltava a ser um</p><p>discurso com estrutura compacta, alimentado com os disparates do novo</p><p>tempo histórico.</p><p>Ilustração 10</p><p>16. Os crimes da criminologia racista: campos</p><p>de extermínio e eugenia</p><p>Ninguém acredite que estejamos falando de uma história distante e</p><p>menos ainda de uma entretenimento que consista em recordar disparates.</p><p>Estamos falando do poder planetário e dos genocídios cometidos no seu</p><p>avanço e, por conseguinte, estamos adentrando no núcleo central dos</p><p>direitos humanos que desemboca nos nossos dias.</p><p>O domínio mundial sempre hierarquizou os seres humanos e</p><p>considerou inferiores os colonizados. Isso aconteceu do colonialismo do</p><p>século XV em diante e, depois, com o neocolonialismo, desde o século</p><p>XVIII. O que expusemos foi a ideologia racista dominante no</p><p>neocolonialismo, da qual fazia parte a criminologia positivista biologista,</p><p>porém o marco em que esta se inseria vinha de muito mais longe.</p><p>Nos tempos do velho colonialismo também houve racismo, embora</p><p>não com discurso científico. Mais ainda. Embora pareça incrível, houve</p><p>também um racismo pessimista, ao estilo de Gobineau, e outro otimista,</p><p>ao estilo de Spencer.</p><p>Durante a colônia, ninguém discutia que éramos inferiores, o ponto</p><p>central era se o Apóstolo Tomás havia chegado ou não à América, se ele</p><p>viera caminhando sobre as águas, ou pelas pedras e, se havia trazido a</p><p>mensagem e nossos nativos o haviam desprezado, éramos hereges e,</p><p>portanto, matéria dos tribunais eclesiásticos. Se ele não tivesse vindo,</p><p>éramos simplesmente infiéis e, portanto, submetidos ao príncipe cristão</p><p>cuja missão era nos doutrinar.</p><p>No primeiro caso, havíamos caído, no segundo não havíamos</p><p>chegado. Exatamente o mesmo do racismo posterior, só que com outro</p><p>discurso e refletindo uma luta entre o poder eclesiástico e o monárquico.</p><p>Bibliotecas inteiras foram escritas sobre isso e os dados mais incríveis</p><p>eram tomados como prova em torno da lenda de Tomás de América,</p><p>registrados por nossos antropólogos pioneiros: cruzes pré-hispânicas,</p><p>pisadas petrificadas etc.</p><p>O racismo do neocolonialismo, com seu reducionismo biologista, não</p><p>podia deixar de terminar muito mal. Enquanto foi usado para legitimar o</p><p>poder do domínio colonialista e controlar a as classes incômodas dos</p><p>países centrais, foi funcional; porém se estilhaçou, quando foi usado na</p><p>Alemanha para legitimar um poder punitivo sem limitações dentro da</p><p>própria Europa e por uma potência que se considerava estar na vanguarda</p><p>da civilização.</p><p>Era inevitável que acontecesse, e aconteceu.</p><p>O formidável instrumento de poder policial vertical que legitimava</p><p>esse racismo não era exercido em toda sua amplitude na Europa</p><p>controlada pelas classes dominantes tradicionais. Porém, quando a Europa</p><p>ficou arrasada depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e os aliados</p><p>não viram nada melhor do que cobrar dívidas que a Alemanha não podia</p><p>pagar, eles humilharam e desestabilizaram a frágil República de Weimar,</p><p>abrindo o espaço político para um chefe extrassistema; um grupo de</p><p>desaforados nacionalistas radicalizados tomou o ápice de um Estado desde</p><p>muito antes conformado por corporações fortemente verticalizadas, que</p><p>não fez mais do que passar a exercer o poder punitivo fora de toda a</p><p>prudência e legitimado por discurso idêntico.</p><p>Os novos condutores nazistas, que tomaram em suas mãos o poder</p><p>punitivo, usaram-no para homogeneizar a frente interna, inventando um</p><p>novo Satã (inimigo), e elevando ao máximo o verticalismo social, com o</p><p>objetivo de preparar a sociedade para a colonização de todo o planeta,</p><p>seguindo a lógica de que a verticalização sempre anuncia uma</p><p>colonização.</p><p>Por mais maluco ou irrealizável que tenha sido o projeto final, esse</p><p>objetivo rompeu com a relativa prudência das classes tradicionais e, como</p><p>o discurso positivista não se havia preocupado em fixar-lhe limites,</p><p>continuou servindo de legitimação a um poder punitivo sem freios.</p><p>O nacional-socialismo alemão não inventou ideologicamente quase</p><p>nada sobre a questão criminal, e sim usou o que outros haviam inventado;</p><p>tampouco teve um discurso criminológico original, pois, para encobrir</p><p>seus massacres, valeu-se do que dominava havia muito tempo.</p><p>Quando se parte do pressuposto de que o ser humano é um ente</p><p>puramente biológico que, quando mais bem construído, está destinado a</p><p>usar os outros humanos que saem defeituosos ou pertencem a séries com</p><p>menor sofisticação, não é nada difícil concluir que esses últimos podem</p><p>ser destruídos se criarem obstáculos aos mais perfeitos em sua tarefa de</p><p>construir outros melhores.</p><p>O aniquilamento de todas as raças inferiores e incômodas é um</p><p>corolário quase necessário desse ponto de partida. Também o é que não</p><p>vale a pena manter presos os fracassados internos que causam problemas</p><p>aos aparatos mais aperfeiçoados. A eliminação dos que custam muitíssimo</p><p>dinheiro nos manicômios e asilos não é menos coerente. Mais ainda.</p><p>Explicam-se essas consequências quando esses recursos são considerados</p><p>necessários para sustentar os perfeitos que oferecem sua vida nas</p><p>trincheiras após a conquista do planeta.</p><p>Consequentemente, fica claro que os campos de concentração, de</p><p>trabalho forçado e de extermínio tenham sido legitimados com</p><p>racionalizações provenientes do racismo positivista. Justamente quando,</p><p>ao final da Segunda Guerra, já ninguém podia mais ignorar o que os</p><p>povos longínquos ou os subalternos muito distantes de seus bairros</p><p>sofriam, porque acabava de acontecer na casa do vizinho ou mesmo na</p><p>sua própria, o paradigma mudou rapidamente.</p><p>Ilustração 11</p><p>A isso se deveu a Declaração Universal de 1948, que anunciou a</p><p>mudança de paradigma no plano mundial. A guerra e a Shoah[5] foram o</p><p>prolegômeno da Declaração, pois sem as atrocidades nazistas o discurso</p><p>racista teria continuado a se espalhar pelo planeta e jamais se teria</p><p>formulado semelhante declaração diante do concerto mundial. Seu próprio</p><p>texto parece elementar e ingênuo, se não o contextualizarmos como uma</p><p>mudança de paradigma que procurava enterrar o discurso do racismo até</p><p>então dominante.</p><p>Há uma história – que corresponde à criminologia do apartheid, mas</p><p>que poucas vezes se recorda – amplamente demonstrativa de que o</p><p>nazismo não inventou nada no plano ideológico, que foi imensamente</p><p>perverso, mas ao mesmo tempo infimamente criativo, só talvez um pouco</p><p>engenhoso.</p><p>Houve um capítulo anglo-saxão da criminologia positivista, que foi o</p><p>prolegômeno do uso nazista do reducionismo biologista aplicado ao</p><p>controle social repressivo. Ele quase foi apagado dos manuais correntes de</p><p>criminologia e embora soe como uma má lembrança, é preciso rememorá-</p><p>lo, em particular em nosso tempo que, como veremos mais adiante, não</p><p>está livre de perigosos surtos de biologismo criminal.</p><p>Por regra geral, quando se menciona a esterilização forçada de</p><p>delinquentes e de deficientes real ou supostamente hereditários, a</p><p>contaminação do sangue com raças inferiores, a proibição de matrimônios</p><p>interraciais ou mistos e outras aberrações semelhantes, o nazismo é</p><p>imediatamente evocado. É verdade que o nazismo se valeu de tudo isso</p><p>com singular empenho, mas não devemos esquecer que não o inventou,</p><p>mas sim o copiou do mundo anglo-saxão, colocado no papel na Grã-</p><p>Bretanha, mas levado à prática até extremos inadmissíveis nos Estados</p><p>Unidos muitos anos antes do que na Alemanha.</p><p>Estamos nos referindo a uma palavra que hoje causa medo e ninguém</p><p>usa, mas que esteve em voga em boa parte do século passado: a eugenia.</p><p>Os médicos estadunidenses haviam rechaçado a tese lombrosiana do</p><p>criminoso nato, porém, ao estudar sua população penal, encontraram o</p><p>que era óbvio que achariam: pessoas mais frágeis que a média e com</p><p>menor quociente intelectual.</p><p>Desde o começo do século XX, Alfredo Niceforo, na Itália, havia</p><p>verificado que supostas causas biológicas não eram mais do que defeitos</p><p>de alimentação na primeira idade. Uma geração mais bem alimentada é</p><p>mais forte e, além disso, mais bonita; a força física e a beleza nunca são</p><p>produto da miséria. Além do mais, não é raro que na população penal</p><p>algumas pessoas tenham um menor nível de inteligência; não que a isso</p><p>se deva condicionar o delito, mas sim que são mais ingênuos e, por</p><p>conseguinte, são presos por serem bobos.</p><p>Contudo, os iluminados médicos estadunidenses deduziram outra</p><p>coisa e não faltou um investigador, de duvidosa seriedade (Henry</p><p>Goddard), que aplicou uns testes questionáveis, e em 1913 chegou a</p><p>publicar um livro sobre uma suposta família Kallikak, de delinquentes por</p><p>gerações, com o que pretendia verificar a herança das taras</p><p>condicionadoras da criminalidade. Na verdade, duvida-se mesmo se essa</p><p>família existiu.</p><p>Com esses antecedentes, não era difícil chegar à conclusão de que não</p><p>havia criminosos natos, mas que a criminalidade era resultado de taras</p><p>físicas e mentais, em sua maioria hereditárias.</p><p>Uns trinta anos antes, Francis Galton – que foi um inglês pouco</p><p>equilibrado, primo de Darwin, e que supunha terem a genialidade deste e</p><p>a dele mesmo raiz num ascendente comum – abandonou seus estudos de</p><p>medicina e se dedicou às matemáticas. Aí começou a contar tudo o que se</p><p>podia contar no mundo, até afirmar que as sociedades criavam os gênios</p><p>em razão direta à reprodução de seus seres mais perfeitos ou superiores.</p><p>Entre seus disparates, Galton disse haver calculado o número exato de</p><p>gênios que os gregos haviam produzido, e inventou uma ciência para o</p><p>melhoramento da raça que batizou com o nome de eugenia.</p><p>Galton, porém, era um tipo prudente. Sua ciência era uma espécie de</p><p>religião que aconselhava ou desaconselhava casamentos, mas não</p><p>pretendia fazer nada à força, e sim convencer acerca das vantagens de se</p><p>seguirem seus conselhos. Por isso, considera-se sua eugenia como</p><p>positiva.</p><p>Quando os livros de Galton cruzaram o Atlântico encontraram um</p><p>terreno diferente. Por um lado, a pretensa constatação dos médicos acerca</p><p>das taras hereditárias causadoras do delito; por outro, uma sociedade</p><p>muito complexa, na qual os habitantes nativos se encontravam rodeados</p><p>de estranhos, com os quais não se misturavam.</p><p>Esses estranhos eram, em primeiro</p><p>lugar, os afro-americanos libertados</p><p>poucas décadas antes, aos quais não conseguiram mandar para a Libéria</p><p>nem fixar no México, mas que nem o próprio Lincoln considerava</p><p>estadunidenses. A eles se somavam os grupos de imigrantes europeus que</p><p>pretendiam obter avanços sociais e pregavam o socialismo e o</p><p>anarquismo; e, para culminar, pelo sul, os mexicanos.</p><p>O ambiente intelectual estava dominado por livros de escandaloso</p><p>racismo nórdico, quase idêntico à novela nazista de Rosenberg. Um</p><p>pretenso cientista, chamado Madison Grant, afirmava ser necessário evitar</p><p>a reprodução dos criminosos, doentes e loucos, e esperar que eles</p><p>morressem, e também a dos indivíduos de raças inferiores. Seu discípulo</p><p>Stoddard advertia sobre o perigo do avanço da gente de cor no mundo. A</p><p>popularidade desses racistas e seus vínculos políticos com alguns</p><p>presidentes decidiram a política migratória daqueles anos, que rechaçava a</p><p>vinda dos imigrantes de raças inferiores e privilegiava os nórdicos,</p><p>qualificados por Adolf Hitler como a única raça racional em Mein Kampf.</p><p>Cabe recordar que as obras desses bons rapazes foram usadas em</p><p>Nurenberg pelos defensores dos genocidas nazistas para tentar provar que</p><p>suas condutas respondiam a teorias científicas que não lhes eram próprias.</p><p>Ficava claro que o terreno estava preparado para deixar de lado os</p><p>escrúpulos do inglês Galton e passar de sua eugenia positiva a uma</p><p>negativa, imposta e radical. Para que esperar que as pessoas se</p><p>convencessem, se era possível fazê-lo antes? Além do mais, como</p><p>convencer os inferiores? De acordo com o projeto de Grant, a humanidade</p><p>poderia se livrar, em um século, de todos os inferiores.</p><p>A batuta desse movimento foi tomada por um veterinário, Charles</p><p>Davenport, que demonstrou ser um coletor de financiadores muito bom,</p><p>tendo rapidamente convencido a Fundação Carnegie, a viúva do magnata</p><p>Harrison e a Associação de Criadores (de animais, claro). Incorporou à sua</p><p>campanha pessoas famosas, como o Prêmio Nobel Alexis Carrel, sujeito</p><p>pouco equilibrado que pretendia que o governo estivesse a cargo da Corte</p><p>Suprema (toda semelhança com a Argentina de 1943 é mera coincidência)</p><p>e terminou a serviço do vergonhoso regime de Vichy.</p><p>Davenport teve como assistente um personagem chamado Harry</p><p>Laughlin; ambos foram piedosamente ignorados durante a guerra por seus</p><p>obscuros contatos com os médicos do nazismo e morreram antes do</p><p>término do conflito. Ao que parece, o intercâmbio de informações</p><p>científicas com os médicos malditos foi intenso e até se supõe que</p><p>proporcionaram apoio financeiro para os primeiros laboratórios de</p><p>eugenia alemães, inclusive o do mestre do tristemente famoso Josef</p><p>Mengele. Davenport disputou a presidência da Associação Americana de</p><p>Antropologia nada menos do que com Franz Boas, cuja mão se negava a</p><p>apertar porque era judeu.</p><p>O dano que causaram foi enorme, embora primeiro Galton e depois</p><p>seu discípulo Pearson tenham denunciado sua campanha como</p><p>anticientífica e negado qualquer vínculo com esses delirantes (o que</p><p>demonstra que eles eram apenas um pouco loucos).</p><p>Não se poderia afirmar hoje se o episódio de Davenport foi uma</p><p>grande fraude, uma manobra de arrivistas alucinados, místicos racistas ou</p><p>uma mistura de tudo isso.</p><p>O certo é terem conseguido que, em 1907, fosse sancionada em</p><p>Indiana a primeira lei de esterilização forçada, copiada na maior parte dos</p><p>estados do país nos anos seguintes. Em função dessas leis, foram</p><p>esterilizados milhares e milhares de oligofrênicos, epilépticos, surdos-</p><p>mudos, índios, cegos, delinquentes, doentes mentais etc.</p><p>A Suprema Corte validou a constitucionalidade dessas leis de</p><p>esterilização forçada graças ao voto do juiz Oliver Holmes Jr., que já não</p><p>era nenhum júnior e de quem se diz que foi um dos ministros mais</p><p>pensantes da história dessa Corte; é possível, mas cabe se perguntar se o</p><p>fazia bem.</p><p>Os juízes não se conformaram com as leis de esterilização, mas,</p><p>seguindo o velho Morel, proibiram os casamentos entre afro-americanos e</p><p>brancos em numerosas leis estaduais. Novamente, a brilhante Suprema</p><p>Corte legitimou essas leis com o argumento de que não eram</p><p>discriminatórias porque não proibiam o casamento, uma vez que o</p><p>autorizavam entre os afro-americanos, respondendo ao lema antes</p><p>assentado em sua jurisprudência de iguais mas separados, ou seja, o</p><p>apartheid. A inconstitucionalidade dessas leis foi declarada, sem muita</p><p>pressa, apenas em 1957. Creio que com isso fica suficientemente</p><p>fundamentada a razão dessas explicações, que mostram onde foi parar e</p><p>que horripilantes consequências teve o pretenso progressismo positivista,</p><p>que extraía sua matriz de pensamento avançado de sua capacidade de</p><p>assustar os padres dos povoados, mas que não era mais do que um</p><p>pensamento reacionário e potencialmente genocida.</p><p>17. A criminologia do canto da Faculdade de</p><p>Direito</p><p>Na Europa, os penalistas começaram a ficar nervosos. Isso porque</p><p>gostavam cada vez menos do estilo inquisitorial da criminologia, que lhes</p><p>dizia como deviam decidir, e resolveram recuperar seu território por</p><p>razões puramente acadêmicas, sem que isso implicasse necessariamente</p><p>consequências políticas. Não se queixavam do potencial genocida do</p><p>positivismo biologista, mas não suportavam estar subordinados aos</p><p>médicos.</p><p>Por conseguinte, foram isolando os criminólogos. Decidiram que o</p><p>delito era definido pelos penalistas e os criminólogos deviam ater-se a</p><p>explicar as causas das condutas que os penalistas previamente</p><p>identificavam como delitos. Quer dizer, não os expulsaram das Faculdades</p><p>de Direito, deixando-os com seus crânios e frascos de restos em formol,</p><p>mas em um canto.</p><p>Não vem ao caso explicar que argumentos usaram, embora já</p><p>tenhamos feito alguma referência ao mais elaborado: era o neokantismo,</p><p>que distinguia entre ciências naturais e culturais. Como o direito era uma</p><p>ciência cultural, não podia contaminar-se com a outra, natural.</p><p>Havia algumas dificuldades, como a de a criminalização, que era uma</p><p>decisão política, fixar os limites de uma ciência natural, mas os penalistas</p><p>resolveram rapidamente, afirmando que não existia nenhuma ciência</p><p>natural chamada criminologia, mas sim um conjunto de conhecimentos</p><p>auxiliares do direito penal que eram convocados quando este o</p><p>considerava conveniente e nada mais. A criminologia positivista biologista</p><p>passava a ser uma ordem de conhecimentos servis ao direito penal.</p><p>Com a Inquisição e o positivismo, a criminologia mandava no direito</p><p>penal; com o neokantismo, o direito penal subordinava a criminologia.</p><p>Porém, a criminologia que ficava no canto continuava sendo exatamente a</p><p>mesma do reducionismo biologista e tão racista como antes. Tratava-se de</p><p>uma questão de prioridade acadêmica, na qual tudo ficava igual quanto ao</p><p>conteúdo.</p><p>Prova disso é que se registrou um vergonhoso debate em 1941, em</p><p>plena guerra mundial, entre os professores de Munique e os de Milão,</p><p>para ver quem tinha o melhor discurso para legitimar as leis penais do</p><p>nazismo. O grupo de Milão defendia a prioridade do discurso ao estilo do</p><p>velho Ferri (que havia morrido uns anos antes) e por certo impôs-se ao de</p><p>Munique, que, à primeira vista soletrava algumas coisas incompreensíveis.</p><p>Evidentemente, nenhum dos dois grupos voltou ao tema depois da guerra</p><p>e continuaram escrevendo e publicando, e sendo citados entre nós, com a</p><p>maior naturalidade, mas isso é um outro assunto.</p><p>Os criminólogos do canto continuaram postulando a esterilização,</p><p>investigando os gêmeos univitelinos e propondo medidas de segregação</p><p>radicais, como Franz Exner, que, juntamente com</p><p>o penalista do</p><p>neokantismo mais citado entre nós (Edmund Mezger) elaborou um projeto</p><p>para mandar todos os de vida ruim (ele os chamava de estranhos à</p><p>comunidade) aos campos de concentração, em 1944. Exner havia estado</p><p>nos Estados Unidos na década anterior e voltou à Alemanha muito</p><p>contente com seus colegas racistas estadunidenses. Em seu livro, que foi</p><p>leitura recomendada em nossas cátedras durante anos, dizia-se que o</p><p>grande número de afro-americanos nas prisões era resultado do fato de a</p><p>sociedade estadunidense lhes exigir um esforço que suas condições</p><p>biológicas não tinham condições de suportar. Essa criminologia do canto</p><p>da Faculdade de Direito enriqueceu seu biologismo com as novidades</p><p>médicas, fundamentalmente com o descobrimento das glândulas de</p><p>secreção interna, ou seja, com a endocrinologia, o que motivou novos</p><p>entretenimentos, em particular na área da conduta sexual, onde quiseram</p><p>curar todas as desvios com injeções, ocasião em que explicavam o avanço</p><p>da civilização por uma suposta contenção da hiperfunção da hipófise.</p><p>O que mais impactou a criminologia do cano foram as classificações</p><p>segundo os biotipos, ou seja, voltou-se a correlacionar as características</p><p>físicas com as psicológicas, ao estilo dos fisiognomistas. Algum autor mais</p><p>moderno diz que era uma nova frenologia, só que Gall deduzia as</p><p>características psicológicas dos volumes no crânio e agora pretendiam</p><p>fazê-lo a partir dos glúteos, embora não necessitassem recorrer à</p><p>apalpação.</p><p>Houve várias classificações biotipológicas, porém a mais difundida foi</p><p>a alemã de Ernst Kretschmer, que em seu livro (sob o impressionante</p><p>título de Körperbau und Charakter) estabelecia cinco biotipos:</p><p>leptossômico, atlético, pícnico, displásico e misto. Em qualquer esquina de</p><p>Buenos Aires se conhecem com outros nomes: magro, sarado, gordo, urso</p><p>e yeti.</p><p>As profundas consequências criminológicas indicam que os magros</p><p>costumam ser ladrões; os atléticos, homicidas; e os gordos, farsantes; os</p><p>outros dois não se sabe bem. Creio que ninguém imagina um obeso</p><p>ousado, escorregando por uma janela estreita.</p><p>A endocrinologia, além disso, conferia nova base ao próprio racismo,</p><p>constatando que os nórdicos são magros e, portanto, pensadores,</p><p>enquanto que os alpinos são gordinhos ciclotímicos e, portanto, artistas.</p><p>Nesse período do pré-guerra houve uma variante no interior da tese</p><p>biologista que é necessário destacar por causa de suas consequências</p><p>diferentes. Por um lado, havia a posição genética, assumida pelo nazismo,</p><p>que, como não dava outra solução senão impedir a reprodução, deduzia a</p><p>necessidade de matar todos os inferiores, incluindo as crianças. Por outro,</p><p>estava a tese da transmissão dos caracteres adquiridos do velho Lamarck,</p><p>cuja consequência era que as crianças deviam ser colocadas sob os</p><p>cuidados das famílias saudáveis. Esta última foi a que predominou na</p><p>ditadura franquista, comandada por Antonio Vallejo Nágera, dono da</p><p>psiquiatria oficial espanhola e chefe dos campos de concentração</p><p>nacionais. Esta última variável foi a que se aplicou às crianças retiradas</p><p>das hostes republicanas e inspirou os criminosos contra a humanidade em</p><p>nosso país.</p><p>Não deixa de ser curioso que o lamarckismo tenha sido ideologia</p><p>oficial da biologia na URSS, com a escola de Lyssenko.</p><p>18. A agonia da criminologia do canto</p><p>Essa criminologia do canto entrou em crise depois da guerra. O</p><p>primeiro Congresso Mundial de Criminologia no pós-guerra foi celebrado</p><p>em Paris, em 1950, sob a presidência de Donnedieu de Vabres, juiz</p><p>francês em Nurenberg.</p><p>Nesse congresso, como num passe de mágica, o racismo desapareceu,</p><p>porque, salvo algum desavisado, que nunca falta, ninguém queria arcar</p><p>com suas letais consequências depois da guerra.</p><p>Embora desde muito antes ninguém sustentasse a tese lombrosiana do</p><p>criminoso nato, até o final da guerra a criminologia do canto conservava</p><p>pela biologia um interesse destacado, seja pelo tema debilidades, seja pelo</p><p>tema taras, pelo tema conformação etc. Porém, a partir do pós-guerra, ao</p><p>rechaçar o racismo e o reducionismo biologista, a criminologia, embora</p><p>continuasse sendo etiológica, deixava de considerar o delinquente uma</p><p>variável do ser humano e, por conseguinte, perdia seu objeto diferenciado</p><p>e natural, seu bicho diferente.</p><p>Esta criminologia etiológica do canto se foi esvanecendo e terminou</p><p>por derreter-se nas contradições de sua plurifatorialidade. Seu objeto</p><p>perdia progressivamente os contornos, anunciando seu ocaso inevitável,</p><p>porque ficava evidente que seus cultores careciam dos elementos para a</p><p>análise do exercício do poder punitivo e do dado óbvio da seletividade.</p><p>Não é justo, porém, considerar todos eles como racistas ou biologistas</p><p>furiosos e, menos ainda, que todos compartilhassem dos disparates a que</p><p>fizemos referência.</p><p>Assim como, no que concerne à Inquisição, advertimos que no século</p><p>XVI nem todos estavam tão loucos, cabe aqui dizer mais ou menos a</p><p>mesma coisa. Em todos os tempos houve algumas pessoas bastante</p><p>lúcidas, cujo discurso não foi hegemônico, muito menos no momento em</p><p>que surgiu e, ademais, lhes era muito difícil escapar ao paradigma</p><p>dominante, ainda que alguns enfrentassem a marginalização acadêmica.</p><p>Desde o final do século XIX, algumas vozes prudentes se fizeram</p><p>ouvir, como a da criminóloga feminista espanhola Concepción Arenal.</p><p>Contemporâneos de Lombroso, autores como Turatti e Vaccaro</p><p>rechaçavam o biologismo. Alfredo Niceforo, não obstante ser um</p><p>etiologista, deu-se conta perfeitamente de que os pretensos signos</p><p>biológicos eram os da miséria. O holandês Willen Bonger escreveu o</p><p>primeiro ensaio de criminologia marxista em princípios do século XX e</p><p>seguiu essa linha até que se suicidou, no dia em que os nazistas ocuparam</p><p>a Holanda.</p><p>Se bem que nossa tradição criminológica latino-americana tenha sido</p><p>tributária dessa criminologia do canto, entre nossos criminólogos de pós-</p><p>guerra houve pessoas que nada tiveram a ver com as ideias racistas, e</p><p>alguns foram mesmo seguidores distantes de Bonger.</p><p>É óbvio que nossos criminólogos de meados do século passado – ao</p><p>prescindir da análise do poder punitivo e das características do sistema</p><p>penal, mantendo-se no marco de uma etiologia criminal que se</p><p>alimentavam na plurifatorialidade – caíam em contradições no marco de</p><p>uma disciplina que se ia derretendo. Essas limitações, porém, não podem</p><p>ser confundidas com o aberto racismo do pré-guerra europeu.</p><p>Por isso, importa distinguir cuidadosamente, a partir do político, entre</p><p>os cultores de uma criminologia de pós-guerra que agonizava e os</p><p>reducionistas biológicos que os precederam, e não colocar todos no</p><p>mesmo saco.</p><p>O colombiano Luis Carlos Pérez dedicou todo um capítulo de sua obra</p><p>geral de criminologia dos anos 50 do século passado a uma forte crítica do</p><p>racismo. O brasileiro Roberto Lyra Filho foi um dos criminólogos mais</p><p>avançados na linha de Bonger. O mexicano Alfonso Quiroz Cuarón, um</p><p>patriarca da criminologia regional, interveio em questões tão conhecidas</p><p>como o estudo do assassino de Trotsky e dos restos do imperador</p><p>Cuauhtémoc; seus artigos jornalísticos eram marcadamente críticos do</p><p>sistema penal de seu país. Na Argentina, Oscar Blarduni (advogado e</p><p>médico) foi o artífice do Instituto de Investigação e Docência</p><p>Criminológica do Prata e um crítico do reducionismo biologista.</p><p>Todos esses nossos autores do pós-guerra cultivavam uma</p><p>criminologia que se encontrava em um corredor sem saída e tampouco</p><p>tinham o treinamento sociológico prévio para vislumbrar</p><p>metodologicamente outros horizontes. Contudo, vista</p><p>a sua marca política,</p><p>não podem ser considerados no mesmo nível dos reducionistas aos quais</p><p>me referi antes.</p><p>Coube a eles, como a todos, viver uma época com seus</p><p>condicionamentos limitadores de nossa visão científica, e sem dúvida,</p><p>foram produzidas contradições irredutíveis, entre suas atitudes políticas e o</p><p>agonizante marco etiológico. Porém, se essas contradições não tivessem</p><p>acontecido, teria sido impossível pasar a outra etapa superadora, como</p><p>sempre acontece. Suponho que hoje também incorremos em contradições.</p><p>A agonia da criminologia do canto da Faculdade de Direito estava</p><p>indicando que a hegemonia do discurso criminológico logo deixaria de</p><p>estar nas mãos de médicos e de advogados formados por estes, para</p><p>passar a outra corporação de especialistas que, em outras latitudes, já</p><p>vinha, há muito tempo, trabalhando a questão criminal. Começava a era</p><p>dos sociólogos, que nos Estados Unidos, algumas décadas antes, haviam</p><p>começado a discutir e investigar as coisas de uma perspectiva diferente.</p><p>Eles anunciaram a direção que haveria de conduzir às colocações atuais.</p><p>Ilustração 12</p><p>19. O parto sociológico</p><p>A velha criminologia etiológica de médicos e advogados se</p><p>enlanguescia nos cantos de nossas faculdades de direito, pese a boa fé de</p><p>muitos de seus expositores, que não conseguiam se aproximar do</p><p>fenômeno da perspectiva do grupo humano e menos ainda do poder. De</p><p>vez em quando lhe esparziam sua vasilha com um pouco de sal social,</p><p>com afirmações um tanto socialistas (quando se abre uma escola, se fecha</p><p>uma prisão, e outras semelhantes), mas ignoravam os criminosos que</p><p>nunca passariam por uma prisão e haviam frequentado as melhores</p><p>escolas. Para eles, a delinquência continuava sendo aquela que viam na</p><p>prisão ou na crônica policial, embora, de vez em quando, não</p><p>percebessem a contradição em que caíam.</p><p>Ainda que a questão criminal tenha sido sempre um tema central para</p><p>aqueles que exerceram ou disputaram o poder, ela não podia ser</p><p>explicada por uma criminologia de médicos e advogados. Por sorte,</p><p>porém, há saberes que se ocupam do comportamento humano e excedem</p><p>bastante o limitado campo desses especialistas, de modo que outros</p><p>avançavam por um caminho diferente, observando os fenômenos a partir</p><p>do plano social. Nunca faltaram aqueles que o fizeram desse ponto de</p><p>vista diverso, mas foi precisamente a partir da análise da questão criminal</p><p>que uma nova ciência foi ganhando forma e terminou obtendo patente</p><p>acadêmica: a sociologia.</p><p>Tudo começou entre 1830 e 1850, quando dois personagens – o belga</p><p>Adolph Quetelet e o francês André-Michel Guerry – chamaram a atenção</p><p>para as regularidades na frequência dos homicídios e dos suicídios.</p><p>Quetelet vivia de fazer cálculos atuariais para as companhías de</p><p>seguros, mas inventava toda espécie de coisas e, entre elas, foi o fundador</p><p>do observatório astronômico de Bruxelas, o que não deixa de ser original,</p><p>porque a capital belga tem o céu nublado na maior parte do ano.</p><p>Guerry era um advogado que se enamorou das estatísticas e</p><p>denominou essas regularidades de estatística moral, enquanto Quetelet</p><p>buscava um nome para sua ciência. Quando se quer obter hierarquia de</p><p>ciência para algum saber existe a tendência de aproximá-lo da física (isso</p><p>hoje se chama fisicalismo) e como Quetelet não era alheio a essa</p><p>tendência, não teve melhor ideia senão chamar a sua de física social.</p><p>Ele, porém, não era o único que queria fundar uma física social, pois,</p><p>na França, Augusto Comte andava no mesmo caminho e se aborreceu</p><p>muito com Quetelet, afirmando que ele tinha roubado o nome da sua</p><p>ciência, e por isso decidiu rebatizá-la de sociologia. Graças ao plágio, nós</p><p>escapamos de estar rodeados hoje de físicos sociais.</p><p>Na verdade, Comte foi surprendido pelo surgimento do belga, mas</p><p>suas ideias são produto de outra história. A empresa de Comte foi</p><p>precedida e impulsionada pelos reacionários (Louis de Bonald, Joseph de</p><p>Maistre, Edmund Burke), que consideravam a Revolução Francesa um</p><p>episódio criminoso e antinatural que ia contra a história e que, depois da</p><p>derrota do desobediente Napoleão e da Santa Aliança (aliança de cabeças</p><p>coroadas para manterem-se presas ao corpo), voltaram à carga,</p><p>reafirmando que a sociedade é um organismo e jamai ss pode admitir o</p><p>disparate do contrato. Se a sociedade é um organismo, supõe-se que deve</p><p>existir uma ciência que estude suas leis naturais.</p><p>Mas os reacionários eram nostálgicos da Idade Média e apelavam a</p><p>argumentos do direito divino, que já tinha passado de moda, em um</p><p>momento em que a ciência despontava como única garantia do saber.</p><p>Ademais, os críticos da ordem social, os chamados socialistas utópicos,</p><p>com os quais os reacionários se confrontavam, eram tão organicistas</p><p>quanto eles, ou mais. Nessas condições, era óbvio que haveria de ocorrer</p><p>a alguém a ideia de responder-lhes da mesma perspectiva conservadora e</p><p>organicista, mas conforme o sinal dos tempos, isto é, com uma ciência da</p><p>sociedade.</p><p>Foi isso que Comte fez. O grande mérito de Comte foi ter dado</p><p>impulso a uma ciência da sociedade livre do lastro religioso, mas, do</p><p>ponto de vista ideológico, ele teria podido tomar uns tragos com os</p><p>reacionários sem muitos problemas práticos.</p><p>Como ninguém pode comprovar que a sociedade seja um organismo,</p><p>a volumosa obra de Comte, publicada em meados do século XIX,</p><p>pressupunha um dogma gratuito. Embora pareça mentira, fundou-se uma</p><p>ciência sobre uma premissa anticientífica ou não verificável.</p><p>Conforme esse dogma, o organismo social tinha suas leis; por</p><p>conseguinte, devia ser governado por quem as conhecesse, ou seja, pelos</p><p>sociólogos. Por isso, iam além de Platão, postulando algo parecido a um</p><p>sociólogo-rei (um tecnocrata social). Isso era explicado pela lei dos três</p><p>estados pelos quais a humanidade teria passado: o teológico (primitivo), o</p><p>metafísico (os iluministas) e, finalmente, o científico (adivinhem com</p><p>quem: com Comte). Havia mais alguém com vontade de sentar-se na</p><p>ponta da flecha do tempo.</p><p>Ademais, por humanidade se entendia a raça branca (à qual Comte</p><p>pertencia), mas nem todas as pessoas dessa raça, e sim somente os</p><p>homens (Comte também era homem), porque as mulheres tinham que ser</p><p>mantidas em estado de perpétua infância, para sustentar a célula básica da</p><p>sociedade: a família.</p><p>Dada a importância das hierarquias para sustentar a ordem social, ele</p><p>olhava com simpatia a sociedade de castas da Índia. Como se isso fosse</p><p>pouco, ele nem sequer renunciava a um componente místico e inventou</p><p>uma nova religião, com toda sua liturgia, em que o Grande Ser era a</p><p>humanidade e integrava uma trindade com O Grande Meio (espaço do</p><p>mundo) e O Grande Fetiche (a terra).</p><p>Curiosamente, as ideias de Comte vingaram no Brasil e, após a queda</p><p>do Império, os militares fundadores da República as levaram tão a sério</p><p>que incorporaram à insígnia nacional o lema Ordem e progresso. Mas a</p><p>coisa não parou aí. Houve até mesmo um templo comtiano no Rio de</p><p>Janeiro, o que prova que não é nova a generosidade de nosso continente</p><p>na importação de disparates.</p><p>É mais do que sabido que Comte não gozava de saúde mental muito</p><p>boa e que, ao compasso de suas desilusões amorosas, tentara suicidar-se,</p><p>lançando-se ao Sena. É óbvio que se houvesse vivido perto do</p><p>Riachuelo[6] não teria inventado a sociologia. Como regra geral, as</p><p>histórias da sociologia assinalam como fundadores Comte e Spencer, de</p><p>quem já nos ocupamos e vimos que, do outro lado do canal da Mancha,</p><p>compartilhava a concepção organicista e também se acomodava na ponta</p><p>da flecha civilizatória.</p><p>20. Os verdadeiros pais fundadores</p><p>dialetos acadêmicos,</p><p>porque tampouco há um único dialeto na questão criminal. Não só há</p><p>vários dialetos acadêmicos, como também não costumam entender-se</p><p>entre si e, mais do que isso, não é raro que se detestem reciprocamente,</p><p>embora às vezes não o façam em voz alta. De toda forma, as imputações</p><p>recíprocas são os temas preferidos dos congressos e seminários, os</p><p>matizam e lhes dão sabor.</p><p>Mais ainda: quando alguém passa de um para outro grupo e consegue</p><p>dominar o outro dialeto, é considerado um traidor ou um perdido, que</p><p>deixou de ser cientista.</p><p>Às vezes a agressividade alcança níveis cômicos, mas que podem se</p><p>tornar dramáticos, como quando nos anos setenta do – por sorte – século</p><p>passado, segundo a posição do dolo na teoria do delito, que então</p><p>pretendia descobrir subversivos. Vocês sabem qual é a posição do dolo no</p><p>delito? Podem ficar tranquilos, viver os anos de Matusalém sem sabê-lo e</p><p>sem que sua existência se altere minimamente, mas o certo é que há</p><p>quatro décadas a coisa podia terminar muito mal.</p><p>Longe de constituir uma crítica negativa, esta é a pura descrição da</p><p>realidade do mundo acadêmico por dentro e, da minha parte, creio que é</p><p>um dado positivo, apesar de seus inconvenientes, porque demonstra o</p><p>quanto o debate é vivo, a paixão que se coloca, a intensidade das</p><p>discussões.</p><p>Tampouco se trata de uma característica contemporânea, nada disso:</p><p>foi sempre assim. A história, a tradição oral, os relatos divertidos dos mais</p><p>velhos e o que vivemos diretamente nos confirmam. Quem participa desse</p><p>mundo não se aborrece, posso lhes assegurar que permite conhecer</p><p>personalidades notáveis, gente com uma capacidade de trabalho e uma</p><p>sensibilidade e inteligência tais que, se se dedicassem a algo com maior</p><p>rating, teriam se sobressaído em qualquer âmbito.</p><p>Mas não se alarmem. Meu propósito é traduzir esses dialetos a uma</p><p>linguagem compreensível para os mortais. Espero ter êxito e que não me</p><p>aconteça o que acontece a alguns tradutores, que terminam escrevendo</p><p>espanhol com a estrutura da língua original.</p><p>Devo confessar que me sinto muito mais seguro por ter o cartunista</p><p>Rep a meu lado. Dentro de pouco lhes explicarei a função da arte na</p><p>criação de estereótipos, e creio que é necessário combater no mesmo</p><p>campo para desfazer essa construção. Por outra parte, estou seguro de que</p><p>os desenhos de Rep perdurarão muito mais do que aquilo que eu digo.</p><p>Quando há pouco li que Ferro havia falecido,[2] voltaram à minha</p><p>memória Langostino, Bólido, o fantasma Benito, Tara Service, o Livro de</p><p>Ouro de Patoruzú. Eles estão vivos em mim desde a infância, mas faz</p><p>tempo que os que escreviam sobre a questão criminal naqueles anos são</p><p>só história.</p><p>2. Quem sabe disso?</p><p>Voltando, porém, ao programa das três palavras (da academia, dos</p><p>meios de comunicação e dos mortos), se queremos começar pelas da</p><p>academia, a primeira coisa que devemos saber é a quem perguntar. Quem</p><p>se ocupa academicamente da questão criminal? O primeiro movimento</p><p>será olhar para a Faculdade de Direito. Ali estão e dali são os penalistas.</p><p>Sabem direito penal. Sem dúvida que é algo que tem a ver com a questão</p><p>criminal. Mas até que ponto?</p><p>A ideia de que o penalista é o mais autorizado para proporcionar os</p><p>conhecimentos científicos acerca da questão criminal é uma opinião</p><p>popular, mas não científica. Nem de longe basta saber direito penal para</p><p>poder opinar com fundamento científico acerca da questão criminal, ainda</p><p>que, se o conhece bem, pode fazer muito para resolver numerosos</p><p>aspectos fundamentais na prática, mas isso é outra coisa.</p><p>É necessário distinguir dois âmbitos do conhecimento que são muito</p><p>diferentes, embora costumem ser confundidos: o do penalista e o do</p><p>criminólogo, ou seja, o direito penal, por um lado, e a criminologia, por</p><p>outro.</p><p>Esclareço desde já que não se dão nada bem, mas não se podem</p><p>separar, e ainda que declarem estar divorciados, são como esses casais</p><p>que se excitam discutindo e terminam como todos nós sabemos. Nos</p><p>casais é patológico, claro, mas no que concerne ao direito penal e à</p><p>criminologia talvez seja um pouco menos.</p><p>O que fazem os penalistas? Antes de tudo são juristas, advogados. O</p><p>direito se divide em ramos: civil, comercial, trabalhista, administrativo,</p><p>constitucional etc., e cada dia se especializa mais e mais. Hoje não há</p><p>quem lide com todo o direito em profundidade, como não há médico</p><p>algum que domine todas as especialidades. O direito penal é um desses</p><p>ramos, que se ocupa de trabalhar a legislação penal, para projetar o que</p><p>chamamos de doutrina jurídico-penal, isto é, para projetar a forma em que</p><p>os tribunais devem resolver os casos de maneira ordenada, não</p><p>contraditória.</p><p>De maneira mais sintética, eu diria que a ciência do direito penal que</p><p>se ensina nas cátedras universitárias de todo o mundo se ocupa de</p><p>interpretar as leis penais de modo harmônico para facilitar a tarefa dos</p><p>juízes, promotores e defensores. Seu trabalho consiste basicamente na</p><p>interpretação de textos com um método bastante complexo, que se chama</p><p>dogmática jurídica, porque cada elemento em que a lei é decomposta</p><p>deve ser respeitado como um dogma, visto que, do contrário, não</p><p>interpretariam a lei, mas sim a criariam ou a modificariam.</p><p>A tarefa do penalista é fundamental para que os tribunais não</p><p>resolvam arbitrariamente o que lhes for conveniente, e sim conforme uma</p><p>ordem mais ou menos racional, ou seja, republicana e algo previsível. Não</p><p>vou discutir agora se a dogmática jurídica do penalista consegue ou não</p><p>esses objetivos. Tampouco vem ao caso nem interessam muito a vocês os</p><p>detalhes dessas construções.</p><p>A fonte principal da ciência jurídico-penal de hoje, isto é, da</p><p>dogmática jurídica aplicada à lei penal, é a doutrina dos penalistas</p><p>alemães. Os ingleses têm sua própria construção, que pouco influi na</p><p>nossa. Os franceses fizeram muito pouca dogmática jurídica, estão muito</p><p>próximos da velha interpretação literal da lei (o que se chamava exegese).</p><p>Os italianos estão bastante próximos aos alemães, ainda que com uma</p><p>tradição penal muito sólida e antiga. Os suíços e austríacos seguem</p><p>diretamente as escolas alemãs. Os espanhóis também o seguem, sem</p><p>dúvida alguma, quase mais do que nós. Há muitos anos que as escolas</p><p>alemãs são acompanhadas de perto em toda a América Latina. O</p><p>penalismo estadunidense é mais ou menos compreensível, na medida em</p><p>que segue o modelo inglês, mas quando se afasta deste é bastante</p><p>limitado.</p><p>Conforme os princípios da ciência jurídica alemã, os penalistas</p><p>constroem um conceito jurídico do delito que se chama teoria geral do</p><p>delito. As discussões sobre essa teoria são praticamente intermináveis, mas</p><p>se trata, em geral, de uma ordem prioritária conceitual para estabelecer</p><p>frente a uma conduta se ela é ou não delitiva com vistas a uma sentença.</p><p>Para isso, diz-se que o delito é uma conduta típica, antijurídica e</p><p>culpável. Ou seja, antes de tudo deve ser uma ação humana, isto é, dotada</p><p>de vontade. Em segundo lugar, deve estar proibida pela lei, ou seja, cada</p><p>tipo é a descrição que a lei faz de um delito: matar, apoderar-se de uma</p><p>coisa móvel alheia etc. Em terceiro lugar, não deve ser permitida, como</p><p>acontece no caso de legítima defesa ou de estado de necessidade. Por</p><p>último, deve ser culpável, ou seja, reprovável ao autor: não o é quando</p><p>este não sabia o que fazia, estava louco (inimputável) etc.</p><p>Essa é a estrutura básica sobre a qual se discute, respeitando certos</p><p>princípios constitucionais como, por exemplo, a legalidade, que impede</p><p>que a pena seja imposta por algo que não está</p><p>Essa pré-história da sociologia moderna mostra como esta e a</p><p>criminologia nasceram do entrevero entre o poder e a questão criminal,</p><p>mas enquanto a criminologia ficou atada a Spencer, a sociologia posterior</p><p>a Comte se desprendeu do conteúdo reacionário de suas ideias e adquiriu</p><p>voo próprio na Europa continental até a Primeira Guerra Mundial ou</p><p>Grande Guerra (1914-1918).</p><p>A rigor, a criminologia e a sociologia nasceram gêmeas, só que a</p><p>criminologia permaneceu presa do racismo e do reducionismo biologista</p><p>do spencerianismo, desintegrando-se paulatinamente a partir da crise</p><p>dessas lamentáveis bases ideológicas, enquanto na sociologia, as ideias de</p><p>Comte, talvez por reacionárias e insólitas, abriram um amplo espaço de</p><p>discussão e análise.</p><p>O certo é que, na segunda metade do século XIX e nas primeiras</p><p>décadas do XX, apareceram os sociólogos que deixaram de lado as</p><p>elucubrações de sobremesa e começaram a pensar mais a sério, colocando</p><p>uma quota de ordem e bom senso. Esses sociólogos mais analíticos</p><p>podem ser considerados, na realidade, os verdadeiros pais fundadores da</p><p>sociologia. Muito se escreveu sobre esses primeiros autores e, se bem que</p><p>seu pensamento seja um tema próprio da sociologia, é necessário assinalar</p><p>ao menos por que caminhos andaram, porque, do contrário, parecerá que</p><p>saiu uma criminologia diferente de algum chapéu de mágico, quando, na</p><p>realidade, vinha sendo preparada a partir da sociologia, mesmo sem que</p><p>os criminólogos do canto da Faculdade de Direito lhe prestassem muita</p><p>atenção.</p><p>Esses pais fundadores foram os principais sociólogos franceses, como</p><p>Emile Durkheim e Gabriel Tarde, e alemães, como Max Weber e Georg</p><p>Simmel. Sua importância não se deve tanto àquilo que afirmaram, mas sim</p><p>a como se projetaram para o futuro dessa ciência, pois Durkheim e Max</p><p>Weber foram os pioneiros do que se desenvolverá em seguida como</p><p>sociologia funcionalista e sistêmica, enquanto que Tarde e Simmel abriram</p><p>o caminho do que haveria de ser o interacionismo.</p><p>Traduzido para uma linguagem compreensível, isso significa</p><p>simplesmente que a sociologia europeia anterior a 1914 tendia a atender a</p><p>dois diferentes aspectos do social: um privilegiava a busca de um sistema</p><p>dentro do qual tudo cumpriria alguma função, e outro não pensava tão</p><p>grande e se detinha nas relações mais micro, tratando de estabelecer suas</p><p>regras. Partindo do macro, Durkheim pensava que o delito cumpria a</p><p>função social positiva de provocar uma recusa e, com isso, reforçar a</p><p>coesão da sociedade. Em outras palavras, para Durkheim não era positivo</p><p>que alguém esquartejasse a avó, mas sim a reação social de coesão que</p><p>esse crime provocava. Dessa forma, ele despatologizava o delito, o</p><p>considerava normal na sociedade.</p><p>Max Weber, na Alemanha, também pensava no macro e acentuava a</p><p>importância das ideias para avançar através dos sistemas de autoridade,</p><p>que passavam do ancestral ao carismático e deste ao legal-racional, que</p><p>seria o das grandes burocracias que regiam nos países centrais e que se</p><p>estenderiam a todo o mundo. Nesse sentido, ele afirmava que o</p><p>protestantismo havia facilitado o desenvolvimento do capitalismo.</p><p>Enquanto isso, Gabriel Tarde se detinha mais especificamente na</p><p>imitação como chave das condutas, impressionado pelo poder que a</p><p>imprensa adquiria, especialmente com o escândalo do caso Dreyfus, que</p><p>provocou um surto antissemita reacionário e monárquico que dividiu a</p><p>França talvez até o próprio governo de Vichy, na Segunda Guerra. Ele se</p><p>dava conta, ao contrário de Durkheim, de que havia uma enorme</p><p>quantidade de delitos impunes, e com isso adiantava a questão da</p><p>seletividade.</p><p>Simmel, por sua vez, colocou sua ênfase na observação de que a</p><p>essência do social é a interação das pessoas e que, a cada dia, as</p><p>capacidades individuais na sociedade industrial tinham menos valor, o que</p><p>também parecia contradizer algumas ideias de Durkheim.</p><p>É evidente que, na Alemanha, não se podia evitar Karl Marx, embora</p><p>ele não tenha sido sociólogo, mas as ideias de Weber respondem a um</p><p>debate com Marx (alguns historiadores afirmam que toda a sociologia</p><p>alemã da época fez isso).</p><p>Cabe esclarecer que Marx se referiu a temas penais e criminológicos</p><p>apenas muito tangencialmente. Há um artigo publicado na Gazeta</p><p>Renana, em 1842, no qual ele critica a penalização do furto de lenha, e</p><p>um parágrafo na Teoria da mais-valia, em que ironiza acerca da</p><p>necessidade dos delinquentes. Nesse último caso, ele parece um</p><p>funcionalista, mas coloca algo real: se os delinquentes não existissem,</p><p>teriam de ser inventados. Com efeito, ainda que Marx não o tenha dito, se</p><p>deixarmos voar a imaginação e pensarmos em uma fantasmagórica greve</p><p>geral de delinquentes, veremos que o sistema todo seria derrubado: os</p><p>seguros, os bancos, as polícias, as alfândegas, os escritórios que tratam dos</p><p>impostos etc. se tornariam inúteis. Seria, sem dúvida, uma verdadeira</p><p>catástrofe.</p><p>No pensamento de Marx e de Engels chama a atenção o total</p><p>desprezo pelo subproletariado (Lumpenproletariat), que é o nome</p><p>marxista da má vida positivista. Eles o consideravam uma classe perigosa,</p><p>inútil, incapaz de qualquer potencial dinamizador e sempre disposta a</p><p>aliar-se à burguesia. Essas afirmações pesaram mais tarde no marxismo</p><p>institucionalizado, dando lugar aos conceitos de parasita social e análogos</p><p>e permitindo legitimar a repressão perigosista da delinquência nesses</p><p>sistemas. Na realidade, a criminologia marxista não se apoia nas</p><p>escassíssimas referências de Marx ao tema, mas sim na aplicação que os</p><p>criminólogos marxistas fizeram das categorias de análise dele, como</p><p>veremos mais adiante.</p><p>Porém, todo esse riquíssimo debate sociológico das últimas décadas</p><p>do século XIX se esgotou na Europa com os pais fundadores que, por</p><p>coincidência, morreram perto do final da Primeira Guerra; por volta de</p><p>1920, a sociologia europeia tornou-se opaca.</p><p>Isso se explica porque a Grande Guerra arrasou a Europa. Em 1914,</p><p>as potências europeias haviam acreditado que esta seria uma guerra de</p><p>exércitos, como a franco-prussiana de 1870, e que duraria alguns meses.</p><p>No entanto, foi a primeira guerra total; jogou-se com o potencial</p><p>econômico dos beligerantes durante quatro anos sangrentos, em que os</p><p>jovens morriam espetados na barriga por baionetadas, de tétano no barro</p><p>ou envenenados ou cegos por gases tóxicos. A população civil foi</p><p>considerada inimiga e os centros industriais e econômicos tornaram-se</p><p>alvos bélicos.</p><p>Ao final da guerra, todos os contendores estavam esgotados e suas</p><p>economias, destruídas. A intervenção dos Estados Unidos inclinou a</p><p>balança, mas os impérios centrais caíram quando os outros não estavam</p><p>em situação nada boa. A Europa se suicidou com essa guerra que, por</p><p>certo, está bastante esquecida pelos historiadores. Para culminar,</p><p>imediatamente depois da guerra sobreveio uma terrível epidemia de gripe</p><p>que matou uns tantos milhões.</p><p>21. A criminologia sociológica dos Estados</p><p>Unidos</p><p>O grande beneficiário da Primeira Guerra Mundial foram os Estados</p><p>Unidos, que não a sofreram em seu território. O presidente Wilson</p><p>pensava em ratificar o tratado de paz de Versalhes, mas os republicanos</p><p>ganharam as eleições. Péssimos presidentes assumiram o governo, não</p><p>ratificaram o tratado de paz e a Europa ficou só e devastada, enviando</p><p>uma maciça corrente de emigrantes para a América do Norte. Os</p><p>vencedores insistiram no suicídio porque, para recuperar-se, tiveram a</p><p>brilhante ideia de impor à Alemanha uma reparação de guerra, cujo</p><p>pagamento era impossível, humilharam-na</p><p>e desestabilizaram a República</p><p>de Weimar, fomentando os extremismos e abrindo o caminho para um</p><p>capo austríaco, que assumiu a batuta da maior loucura criminosa do</p><p>século.</p><p>Os pensadores europeus tentavam explicar o desastre sob o viés</p><p>depressivo. Oswald Spengler, com A decadência do Ocidente, e Vilfredo</p><p>Pareto, com as elites, eram os dark da época. Além do mais, os</p><p>totalitarismos que iam se instalando desprezavam aqueles que pretendiam</p><p>explicar-lhes o que acontecia, porque os ditadores sempre sabem e</p><p>quando alguém lhes diz que estão enganados costumam matá-lo. A</p><p>sociologia nunca teve uma boa acolhida nas ditaduras: nossa segurança</p><p>nacional quis incorporar a carreira à Faculdade de Direito e reduzi-las a</p><p>uma escola de técnica de mercado.</p><p>Enquanto a Europa não conseguia explicar seu eclipse e dominavam</p><p>as respostas dos iluminados como Hitler, Mussolini, Dollfuss, Oliveira</p><p>Salazar, Pétain ou Franco, os Estados Unidos estavam na crista da onda:</p><p>choviam capitais, milhões de imigrantes europeus, suas cidades cresciam</p><p>de modo incontrolável, o melting pot era mais pot que melting, a</p><p>especulação financeira alcançava o nível de um verdadeiro orgasmo</p><p>econômico. Tudo isso criava problemas, mas era encarado com o</p><p>otimismo próprio de quem ganhou na loteria.</p><p>Eram os loucos anos 20, com seu fundo de charleston e fonógrafo. Os</p><p>estadunidenses que se consideravam autênticos descendentes do</p><p>Mayflower sentiam-se invadidos pelos imigrantes. Haviam proibido a</p><p>maconha para reafirmar seu puritanismo diante dos mexicanos, mas agora</p><p>lhes chegava a cultura da taverna pela mão dos católicos e luteranos.</p><p>Para reafirmar sua supremacia cultural puritana, empreenderam uma</p><p>cruzada contra o álcool, impulsionada por velhas loucas que irrompiam</p><p>nas tavernas aos berros e que conseguiram impor uma reforma</p><p>constitucional que proibia o álcool.</p><p>Toda proibição que reduz a oferta e deixa em pé uma demanda rígida</p><p>faz com que a porcaria proibida adquira uma mais-valia que a converte</p><p>em ouro e desencadeia a concorrência por sua produção e distribuição no</p><p>mercado ilícito. No caso do álcool, tanto sua produção relativamente</p><p>barata como sua distribuição se realizavam dentro do próprio território.</p><p>A contenção da oferta era necessária para manter o efeito alquímico</p><p>da proibição, mas desencadeou uma violência competitiva com altíssimo</p><p>grau de corrupção do aparato punitivo e político, provocando uma</p><p>simbiose letal de uma criminalidade astuta e violenta nunca vista antes.</p><p>Esse fenômeno dos anos 1920 foi instrutivo porque com a cocaína</p><p>apelou-se a uma distribuição internacional do trabalho: a produção e o</p><p>controle da oferta, com a violência dela decorrente, ficam fora do território</p><p>do principal demandante, provocando os massacres em curso no México</p><p>(40.000 mortos, decapitados e castrados, em quatro anos) e na América</p><p>Central, enquanto dentro do território do grande consumidor só se</p><p>distribui, o que é, ao mesmo tempo, a atividade menos violenta e mais</p><p>rentável do tráfico. Alguns suspeitam que ela proporcionou parte dos</p><p>recursos necessários para as salvações bancárias na recente crise.</p><p>Mas voltemos aos roaring twenties e à jazz age. Era óbvio que esses</p><p>problemas deviam chamar a atenção dos sociólogos estadunidenses. Como</p><p>é sabido, uma das grandes virtudes dos Estados Unidos é seu considerável</p><p>espaço de liberdade acadêmica, comprometido no pós-guerra apenas pela</p><p>campanha do senador McCarthy. No uso desse espaço, o pensamento</p><p>acadêmico se separou e denunciou a ideologia que dominava nos quadros</p><p>da administração.</p><p>Por efeito da autonomia acadêmica, uma coisa foi a administração e o</p><p>governo (e a Suprema Corte), que continuavam na linha do</p><p>spencerianismo racista admirado por Hitler em Mein Kampf, e outra a que</p><p>ocorria nas universidades, onde se respiravam outros ares: Franz Boas</p><p>renovava a antropologia e assentava as bases do culturalismo, que</p><p>deixava de lado os pretensos naturalismos biologistas e criava a escola em</p><p>que se destacariam Margaret Mead, Ruth Benedict e Clyde Kluckhohn. Este</p><p>último chegou a escrever que nossas crenças mais profundas e nossas</p><p>convicções mais caras podem ser, inclusive, a expressão de um</p><p>provincianismo inconsciente.</p><p>Foi nesse clima que a questão criminal começou a ser estudada</p><p>sociologicamente, a trabalhar com investigação de campo, a perguntar o</p><p>que condiciona o delito na sociedade. Desse modo, com a passagem do</p><p>primado da sociologia da Europa para os Estados Unidos teve início uma</p><p>nova etapa da criminologia.</p><p>Pode-se dizer que, daí em diante, começamos a falar a sério, embora</p><p>no princípio não completamente, porque a criminologia arrastará durante</p><p>décadas uma falha fundamental: continuará se perguntando pelo delito e</p><p>deixará de lado o funcionamento do poder punitivo. O aparato penal do</p><p>Estado não entrava no campo de investigação dessa criminologia. Embora</p><p>não o legitimasse ativamente, o fazia por omissão: se não pergunto por</p><p>algo é porque creio que funciona bem.</p><p>Se bem que seja inevitável que quem pergunte sobre a etiologia social</p><p>do delito em algum momento se depare com o próprio aparato punitivo</p><p>como reprodutor de boa parte do fenômeno, esse era um caminho que</p><p>ainda devia ser trilhado. Foi esta a função que a criminologia etiológico-</p><p>social cumpriu.</p><p>Além de sepultar a carga de racismo manifesto de seu antecessor,</p><p>encarou o problema pela via adequada e foi o passo necessário para</p><p>chegar ao que hoje parece quase evidente: não se pode explicar o delito</p><p>sem analisar o aparato de poder que decide o que define e o que reprime</p><p>como delito.</p><p>Devido a essa omissão, as colocações da primeira etapa da</p><p>criminologia sociológica, que se estendem até as décadas de sessenta e</p><p>setenta do século passado, são um tanto ingênuas e até simplistas, mas</p><p>criaram todo um arsenal conceitual sem o qual não teria sido possível a</p><p>etapa posterior.</p><p>Esses sociólogos estadunidenses continuavam perguntando, desde</p><p>1920 até final dos anos 1970, pela etiologia do crime, ou, dito mais</p><p>simplesmente, pelas causas do delito. Esclareço que não se deve entender</p><p>causas em sentido literal, porque a sociologia, a despeito de Quetelet, não</p><p>é a física, mas a expressão vale só por gráfica.</p><p>Nessa busca por causas, fatores, correlações ou como se queira</p><p>chamar, eles se dividiram, concentrando sua atenção em cinco diferentes</p><p>fontes: 1) na desorganização social; 2) na associação diferencial; 3) no</p><p>controle; 4) na tensão; e 5) no conflito. Desse modo, abriram-se cinco</p><p>grandes correntes nessa etapa da criminologia sociológica.</p><p>Tudo isso parece muito complicado, mas não o é em absoluto. Na</p><p>verdade, esta criminologia sociológica elaborou conceitos que circulam em</p><p>qualquer mesa de bar onde alguém pergunte pelas causas do delito e se</p><p>manifeste com certo senso comum, a partir da ingenuidade de</p><p>desconhecer o papel do próprio aparato repressivo.</p><p>Confesso que devo conter o riso quando escuto, em conversas de</p><p>depois do almoço, alguém lançar essas teorias para aqueles que nem</p><p>suspeitam que houve quem as embrulhassem para presente, com todo o</p><p>arsenal do vocabulário sociológico. Eu era pequeno quando escutava os</p><p>gorilas afirmarem que a invasão de cabecitas negras[7] à cidade havia</p><p>desorganizado tudo. Embora certamente com um senso político mais</p><p>democrático, esta é a essência da teoria ecológica da Escola de Chicago</p><p>dos anos 1920 e 1930.</p><p>Quem não ouviu alguém afirmar que o delito juvenil obedece à falha</p><p>da família, da escola etc., a conhecida falta de educação? Estas são as</p><p>teorias do controle. Outros há que na sobremesa afirmem que ela se cria</p><p>na favela,onde há</p><p>narcotraficantes e delinquentes. É isso que, no fundo,</p><p>se respira – um pouco mais sofisticadamente – na teoria da associação</p><p>diferencial.</p><p>Não falta aquele que denuncia que a TV mostra riquezas fáceis, êxitos</p><p>súbitos, ídolos surgidos da noite para o dia e sem maior esforço, adorados</p><p>por mulheres bonitas, oferece automóveis luzidios, quando estes objetos</p><p>não estão ao alcance da grande maioria das pessoas. É esta a essência das</p><p>teorias da tensão. Por último, haverá alguém que observe que reina um</p><p>individualismo em que cada um atira para seu lado, que todos são grupos</p><p>de interesses, que se chocam e que matam entre eles. Não é muito diferente</p><p>a base sobre a qual foram elaboradas as teorias do conflito.</p><p>Todavia, todas essas opiniões do senso comum, que a criminologia</p><p>sociológica sofisticou entre 1920 e 1970, não são incompatíveis. Os</p><p>convivas da mesa de depois do almoço ou do bar discutem, mas, na</p><p>realidade, se sabem escutar um ao outro, não terminarão em uma</p><p>discussão aberta, e até não faltará quem pretenda compatibilizar as</p><p>opiniões com um certo assentimento geral.</p><p>O que é que permite compatibilizar essas opiniões? Se pensarmos um</p><p>pouco, veremos que é o fundo comum de confiança em que a sociedade</p><p>é capaz de melhorar e superar esses fatores ou causas. É a opinião de que</p><p>temos que ir para frente, que Fulano, Beltrano ou Cicrano são uns</p><p>corruptos que têm de ser afastados, mas que, no final, podemos ter uma</p><p>sociedade melhor.</p><p>Se os taxistas de Buenos Aires são, em sua maioria, razoáveis – pelo</p><p>que lhes peço perdão pelo que se segue, pois não é nem de longe a</p><p>minha intenção fabricar um estereótipo –, o certo é que, com certa</p><p>frequência, nos vemos obrigados a suportar que alguns de seus</p><p>companheiros que escutam rádio nos atormentem com frases do tipo “a</p><p>única saída é a mão pesada, que se necessita de uma mão forte, que há</p><p>que se colocar ordem dando porrada, metendo bala, que na ditadura não</p><p>aconteciam essas coisas, que não se pode encher o país de bolivianos” e</p><p>outros conceitos politológicos semelhantes.</p><p>Bem. Suponhamos que o taxista, com esse discurso, se junte à</p><p>conversa de bar e coloque sua visão para o grupo. Os que vinham</p><p>discutindo até então, se bem com diferente grau de convicção, lhe</p><p>responderão: Você está louco! Depois acabam matando todos nós, não</p><p>aconteciam porque você não sabia, não, eu não quero voltar à ditadura</p><p>não, eles ficam com as mãos livres e atiram em qualquer um. Não, isso</p><p>tampouco é vida. E seguindo adiante na conversa, começarão a discutir a</p><p>corrupção policial.</p><p>Assombroso! Os companheiros de bar ou da mesa de depois do</p><p>almoço terão percorrido o caminho da criminologia sociológica do século</p><p>XX! A intuição os terá levado até aquilo que a sociologia demorou mais de</p><p>quarenta anos para descobrir!</p><p>Os da primeira discussão se movimentaram dentro do esquema de</p><p>que a sociedade pode avançar e, removendo obstáculos, pode superar as</p><p>causas do delito. No fundo, todos admitiriam que se pode melhorar</p><p>aqueles que sofrem esses fatores e trazê-los junto com o resto. Talvez sem</p><p>sabê-lo, estão postulando um conceito pouco claro, ou não técnico, do</p><p>modelo de Estado social.</p><p>O taxista fascista (insisto, não me queiram mal os taxistas, mas</p><p>reconheçam que têm alguns companheiros assim; não são os únicos,</p><p>todos nós os temos), chega e rompe o esquema. Por que? O que ele</p><p>propõe? Também intuitiva e confusamente, ele está propondo um modelo</p><p>de Estado diferente, no qual uma autoridade vertical não discuta e sim</p><p>faça que cada um permaneça em seu lugar e não incomode, mediante um</p><p>exercício ilimitado do poder repressivo. Isso não é mais nem menos que o</p><p>modelo do Estado policial.</p><p>O que aqueles que o rebatem terminam colocando em discussão? A</p><p>crítica ao aparato do poder repressivo. Fizeram todo o trajeto e, incitados</p><p>pelo taxista, chegaram por intuição à criminologia dos anos 1970.</p><p>A isso que eu queria chegar. Não duvidem, embora não tenhamos nos</p><p>dado conta, a discussão é política. Os sociólogos desse período</p><p>identificavam-se, preparavam ou andavam ao redor do populismo</p><p>estadunidense, do New Deal de Franklin Delano Roosevelt, de um modelo</p><p>de welfare State, de estado social. Estavam confrontados com o modelo de</p><p>Estado policial, com os afro-americanos iguais mas separados (como havia</p><p>dito a Suprema Corte), supremacia branca, Ku Klux Klan, patriarcalismo,</p><p>cadeira elétrica, e todo o pró-nazismo desses anos, Henry Ford, Charles</p><p>Lindbergh etc.</p><p>Passou o tempo e a criminologia seguiu o curso que iremos vendo,</p><p>mas convém advertir desde agora que o debate de fundo – com epicentro</p><p>nos Estados Unidos e mais evidente na atualidade – continua sendo entre</p><p>dois modelos de Estado: o social, ou inclusivo, e o policial, ou excludente.</p><p>This is the question.</p><p>Voltemos, porém, a esse período para ver mais de perto o que cada</p><p>uma das cinco correntes mencionadas pôs a descoberto e extrair os</p><p>elementos que nos permitem compreender o curso posterior.</p><p>Ilustração 13</p><p>21. Desorganização, associação diferencial e</p><p>controle</p><p>Como os maiores conflitos produzidos pela súbita explosão</p><p>econômica aconteciam nas cidades e nelas se tinha uma sensação geral de</p><p>desorganização, era natural que os pesquisadores sociais racionais</p><p>centrassem sua atenção na sociologia urbana. Foi isso o que fez o Instituto</p><p>de Sociologia da Universidade de Chicago, nas primeiras décadas do</p><p>século passado. A cidade era ideal, pois Chicago havia passado de quatro</p><p>mil para três milhões de habitantes em um século.</p><p>Nós, que vivemos em cidades grandes, já escutamos alguma vez essa</p><p>declaração de que quero ir morar tranquilo no campo. Algo parecido</p><p>acontece com a tônica que os de Chicago tomaram de Charles Cooley,</p><p>que era professor de Michigan.</p><p>Para atribuir os problemas, entre eles a criminalidade, a algo que se</p><p>desorganiza, deve-se pressupor que antes algo estava organizado. Pois</p><p>bem, para Cooley, o organizado era a vida provinciana. Assim, diz-se que</p><p>a marca registrada da escola era a nostalgia da sociedade de pequeno</p><p>contorno.</p><p>Todavia, Cooley trouxe alguns conceitos que até hoje vigoram, como</p><p>a distinção entre grupos primários e secundários. Os grupos primários</p><p>eram, para este autor, os de infância e formação, da família, dos velhos do</p><p>povoado etc., ao passo que os secundários eram as instituições. A</p><p>diferença entre eles centra-se no tratamento, que nos grupos primários é</p><p>personalizado e, nos secundários, despersonalizado.</p><p>Essa diferença fundamental é deixada de lado quando se pretende que</p><p>um grupo secundário substitui um primário (que o internato ou o asilo</p><p>substitua a família ou que o juiz de menores seja o pai). O pai e a mãe, se</p><p>não estão loucos, devem dar a cada filho um tratamento conforme suas</p><p>características, necessidades, virtudes e carências, enquanto que, no plano</p><p>institucional, o princípio elementar da igualdade impede, em boa medida,</p><p>essas distinções.</p><p>Outro conceito trazido por Cooley foi o de papéis mestres. Na</p><p>sociedade há certos papéis que condicionam todos os demais, como o do</p><p>médico, o do sacerdote etc. O pedreiro ou o carpinteiro são bastante livres</p><p>para farrear ou travestir-se se isso lhes aprouver, mas a mesma coisa não</p><p>acontece com o sacerdote ou o dirigente. Algo parecido acontece com os</p><p>papéis associados ao poder repressivo, como o policial, o juiz e também o</p><p>próprio criminalizado. A estigmatização que se segue à criminalização</p><p>obriga este último, em boa medida, a assumir seu papel desviado. Trata-se</p><p>de algo parecido a um grande teatro em que alguns personagens têm seu</p><p>papel muito marcado, enquanto outros podem afastar-se mais</p><p>criativamente do roteiro.</p><p>A figura mais destacada da primeira Escola</p><p>de Chicago foi William I.</p><p>Thomas, que revolucionou a metodologia sociológica numa investigação</p><p>sobre O camponês polonês na Europa e na América, levada a cabo</p><p>juntamente com o polonês Znaniecki, porque incorporou cartas,</p><p>autobiografias e outros materiais até então considerados cientificamente</p><p>heterodoxos. Thomas dirigiu a escola até 1920, quando foi expulso da</p><p>universidade porque o encontraram em um hotel com uma mulher casada.</p><p>Pelo visto, as autoridades acadêmicas consideravam que os sociólogos</p><p>estavam proibidos de manter relações sexuais extra-código. Para nós, a</p><p>contribuição mais importante desse sociólogo é o chamado teorema de</p><p>Thomas, segundo o qual se os homens definem as situações como reais,</p><p>suas consequências são reais. Isso tem uma imensa validade em todas as</p><p>ordens sociais: é conhecida a experiência de Orson Welles em Nova York,</p><p>em 1938, ao anunciar a presença de marcianos pelo rádio. O mesmo</p><p>acontece com a criminalidade: pouco importa sua frequência ou</p><p>gravidade, mas se se afirma que são altas se reclamará mais repressão, os</p><p>políticos concordarão com isso e a realidade repressiva será como se a</p><p>gravidade fosse real.</p><p>Depois da aventura sexual de Thomas, seus colegas se aborreceram</p><p>com a universidade e o elegeram presidente da Associação Americana de</p><p>Sociologia; Robert Park e Ernest Burgess continuaram na Escola de</p><p>Chicago. Park – que havia estudado com Simmel, na Alemanha – foi quem</p><p>aplicou à cidade os conceitos tomados da ecologia (simbiose, invasão,</p><p>domínio, sucessão) para explicar os conflitos e a coexistência de diferentes</p><p>grupos humanos em um território limitado, razão pela qual também se</p><p>conhece esse grupo como escola ecológica de Chicago.</p><p>Burgess dividiu a cidade em cinco zonas concêntricas: I (a central,</p><p>com atividade comercial intensa), II (o círculo seguinte tende a ser</p><p>invadido pelo anterior e por isso as moradias são precárias e ocupadas</p><p>pelos recém-chegados), III (a zona ocupada pelos operários que fogem da</p><p>anterior), IV (a residencial) e V (a dos subúrbios ou comutação).</p><p>Ele assinalava que a zona de desorganização permanente era a II,</p><p>devido à contínua invasão dos imigrantes que logo passavam à III. Não</p><p>encontrava diferenças étnicas, pois a transferência para a III não trazia</p><p>consigo a criminalidade.</p><p>No geral, a Escola de Chicago representou um notável progresso, em</p><p>particular por seu antirracismo e por inaugurar uma sociologia criminal</p><p>urbana muito mais razoável. É claro que teve limitações importantes, uma</p><p>vez que a criminalidade que observava era só a dos pobres e a zonificação</p><p>de Burgess é própria de uma sociedade muito dinâmica, em crescimento</p><p>permanente, mas não poderia explicar os fenômenos de zonas precárias</p><p>das grandes concentrações urbanas da atualidade.</p><p>Por outro lado, a maior criminalização dos jovens de sua zona II não</p><p>leva em conta que esta se achava sob maior controle policial (os recém-</p><p>chegados são sempre suspeitos) e a precariedade habitacional expõe mais</p><p>a criminalização (os jovens de classe média não têm necessidade de fumar</p><p>maconha fora de casa).</p><p>Ilustração 14</p><p>Erwin Sutherland, professor da Universidade de Indiana, opôs-se à</p><p>tese chicaguiana da desorganização, afirmando que não era isso e sim que</p><p>se tratava de uma organização diferente. A ideia central de Sutherland era</p><p>que o delito é uma conduta aprendida e que se reproduz, como qualquer</p><p>ensinamento, por efeito de contatos com definições favoráveis e da</p><p>aprendizagem dos métodos.</p><p>Embora Sutherland não se refira aos crimes de Estado, o certo é que,</p><p>quando nos perguntamos como é possível que as pessoas treinadas</p><p>precisamente para evitá-las cometam atrocidades, nos damos conta de que</p><p>isso responde a um processo de aprendizagem em uma agência que, por</p><p>autonomizar-se do controle político, encerra uma grande quantidade de</p><p>definições favoráveis ao delito. É claro que isso aconteceu com a</p><p>introdução dos discursos importados do colonialismo francês, a partir dos</p><p>anos 50 do século passado, quando nossos círculos oficiais começaram a</p><p>receber definições favoráveis a condutas criminosas.</p><p>Sutherland introduziu essa tese na edição de sua Criminology, de</p><p>1939, e a modificou na de 1947, com seu princípio da associação</p><p>diferencial: uma pessoa se torna delinquente por efeito de um excesso de</p><p>definições favoráveis à violação da lei, que predominam sobre as</p><p>definições desfavoráveis a essa violação.</p><p>Com isso, ele pretendia explicar a criminalidade de forma mais ampla</p><p>do que a Escola de Chicago, porque os de Chicago explicavam apenas os</p><p>delitos dos pobres, ao passo que Sutherland deixou claro que a</p><p>criminalidade perpassa toda a escala social e que há tanto delitos de</p><p>pobres como de ricos e poderosos. Assim, a única cara visível dos</p><p>prisioneiros deixa de ser a dos delinquentes e, como era de se esperar,</p><p>pouco depois, em 1949, Sutherland publicou um estudo sobre o crime do</p><p>colarinho branco (White Collar Crime) que se tornou um clássico da</p><p>criminologia e cuja dinâmica não era antes compreendida.</p><p>Se bem que Sutherland não chegou a incorporar o poder punitivo à</p><p>criminologia, deu um passo fundamental e deixou a questão no limite,</p><p>pois o delito do colarinho branco (grandes delitos contra o patrimônio,</p><p>quebras fraudulentas etc.) deixava a descoberto a seletividade da punição.</p><p>Era demasiado claro que os poderosos raramente iam para a cadeia.</p><p>Como colocação geral, pode-se observar que o ser humano ficava</p><p>demasiado preso ao meio: a leitura de Sutherland – e ainda que o</p><p>matizasse bastante – não deixava de provocar a impressão de que o bairro</p><p>causava a delinquência dos pobres e o clube a dos ricos.</p><p>A associação diferencial levou, de imediato, outros sociólogos a</p><p>pensar que não eram o bairro e o club, mas sim que havia outros</p><p>agrupamentos que treinavam e, estudando as gangues ou os bandos,</p><p>Cloward e Ohlin afirmaram, nos anos seguintes, que se deviam à formação</p><p>de subculturas. Segundo eles, os que têm menos oportunidades sociais se</p><p>agrupam e se submetem a uma aprendizagem diferencial. Dito mais</p><p>claramente, as condições sociais desfavoráveis levariam à marginalização e</p><p>esta favoreceria os agrupamentos de semelhantes com definições</p><p>favoráveis ao delito, ou seja, uma variável cultural ou subcultura.</p><p>Esta teoria subcultural pressupõe a existência de uma cultura</p><p>dominante, o que não é simples em sociedades plurais e menos ainda</p><p>quando as condições sociais desfavoráveis são as da maioria, como em</p><p>muitíssimos países periféricos.</p><p>Em 1955, Albert K. Cohen expôs uma nova teoria da subcultura</p><p>criminal, afirmando que as crianças e jovens dos estratos desfavorecidos,</p><p>como não podiam ajustar sua conduta à cultura de classe média que lhes</p><p>era ensinada nas escolas, reagiam, rechaçando-a e invertendo os valores</p><p>da classe média. Cabe observar que esta tese negava toda criatividade</p><p>valorativa às classes mais desfavorecidas, pois se limitava a inverter os</p><p>valores da classe média.</p><p>Essas teorias subculturais receberam uma resposta crítica por parte de</p><p>dois sociólogos – Gresham Sykes e David Matza – que, em 1957,</p><p>publicaram um artigo na American Sociological Review, que marca um</p><p>momento muito importante na criminologia contemporânea: Técnicas de</p><p>neutralização: uma teoria da delinquência.</p><p>Se bem que Sykes e Matza, nos anos 1950, tinham em vista os jovens</p><p>rebeldes sem causa (com filme póstumo de James Dean e a direção de</p><p>Nicholas Ray e com música de fundo e movimento de quadris de Elvis</p><p>Presley), o certo é que sua tese voltou a primeiro plano quando</p><p>começamos a nos fixar nos crimes de massa</p><p>dos Estados, porque a teoria</p><p>das técnicas de neutralização parece ter sido feita pensando nos</p><p>genocidas. Voltaremos a esse ponto mais adiante, mas vocês podem</p><p>meditar sobre isso desde agora. Pelo momento, vejamos em que ele</p><p>consiste.</p><p>A tese central de Sykes e Matza é que os jovens delinquentes não</p><p>negam nem invertem os valores dominantes, e sim aprendem a</p><p>neutralizá-los. Seria a consequência de receber um excesso de definições</p><p>1.</p><p>2.</p><p>3.</p><p>4.</p><p>5.</p><p>que ampliam, de modo inadmissível, as causas de justificação e de se</p><p>livrar da culpa. Não se trata de que eles racionalizam atos perversos,</p><p>porque a racionalização é posterior ao fato, ocorre quando digo uma</p><p>mentira e depois tento me justificar. Não, as técnicas de neutralização são</p><p>anteriores ao ato, são algo que se aprende antes e permitem realizar o ato</p><p>na convicção de que se está justificado ou não se é culpado.</p><p>Sykes e Matza revelam os seguintes cinco tipos de técnicas de</p><p>neutralização:</p><p>Negação da própria responsabilidade (São as circunstâncias que me</p><p>fazem assim, eu não o escolhi, minha mãe é castradora, meu velho é</p><p>rígido,a sociedade me faz assim).</p><p>Negação do dano (Não me compadeço de ninguém, têm muita mais</p><p>grana, não é tão grave, havia ofendido a minha velha).</p><p>Negação da vítima (Foi ele que me agrediu, eu só me defendi, são uns</p><p>negros, uns maricas, uns favelados etc.).</p><p>Condenação dos condenadores (A polícia é corrupta, na escola me</p><p>tratam mal, meu velho é intolerante, os juízes são uns hipócritas).</p><p>Apelo a lealdades superiores (Não posso deixar os companheiro</p><p>sozinhos, não posso me afastar deles agora, não posso faltar aos</p><p>amigos, tenho que atender aos cumpinchas).</p><p>Vamos pensando se essas técnicas não são mais próprias dos</p><p>genocidas que dos rebeldes sem causa. Porém, avançando nos anos 50 e</p><p>60 do século passado, é natural que, se se pensa que o delito é uma</p><p>conduta aprendida, cabe perguntar por que é mais facilmente aprendida</p><p>por uns do que por outros. Isso é o que tentaram responder as chamadas</p><p>teorias do controle, centradas na família e na escola.</p><p>Não há dúvida de que essas instituições e as primeiras vivências têm</p><p>muitíssima importância no curso posterior, mas isso pertence mais ao</p><p>campo da psicologia do que ao da sociologia, que antes teria de se ocupar</p><p>das condições sociais desfavoráveis a seu bom funcionamento. Por isso,</p><p>não nos ocuparemos em detalhe dessas teorias, que são muitas e, embora</p><p>isto não seja verdade a respeito de todas, o certo é que costumam deixar</p><p>um sabor conservador e nem sempre liberal.</p><p>Ao prescindir de outros fatores sociais, elas provocam uma sensação</p><p>estranha, pois parecem sugerir pistas técnicas para provocar conformismo,</p><p>consenso, homogeneização, o que nem sempre é saudável, porque, ao</p><p>não se ocupar da maior parte dos problemas sociais, dariam por certo que</p><p>a sociedade funciona muito bem e que a única coisa que há que se fazer é</p><p>domesticar prematuramente as pessoas.</p><p>Se o conformismo fosse o ideal e houvesse um modo infalível de</p><p>obtê-lo, a humanidade ficaria órfã de inovadores em todas as áreas e o</p><p>delito, com certeza, não desapareceria, pois o conformismo com o poder</p><p>que dirige a punição deixaria os crimes do poder impunes.</p><p>22. Sistêmicos e conflitivistas</p><p>Das cinco correntes em que se dividiu a criminologia sociológica</p><p>estadunidense antes de deter-se no próprio poder punitivo, conforme os</p><p>condicionamentos em que cada uma se detinha, sobrevoamos as três</p><p>primeiras (desorganização, organização diferente e controle) e nos restam</p><p>as duas últimas: tensão social e conflito.</p><p>Estas não apenas disputam entre elas a etiologia social do delito, como</p><p>também o próprio conceito da sociedade. Enquanto as teses sistêmicas</p><p>concebem a delinquência como resultado de tensões provocadas dentro de</p><p>um sistema, as conflitivistas a explicam como resultado do permanente</p><p>conflito entre grupos sociais. Aqui se localiza o enfrentamento entre as</p><p>duas diferentes ideias de sociedade: para uns, a sociedade é um sistema</p><p>que abarca todas suas partes, as relações entre estas e as relações do</p><p>conjunto com o meio externo, enquanto que para outros é um conjunto</p><p>de grupos em conflito que estabelecem, em determinadas ocasiões, as</p><p>regras de jogo para resolvê-los, que lhe atribuem uma aparente</p><p>estabilidade, mas nunca configuram um sistema.</p><p>Como não há forma de verificar que a sociedade seja um sistema ou</p><p>que se esgote nas regras comuns para decidir os conflitos entre grupos,</p><p>acreditamos que tanto a concepção sistêmica quanto a conflitivista são</p><p>algo assim como armários de cozinha nos quais se colocam os copos, os</p><p>pratos, as taças e os talheres (que, em sociologia, seriam os fatos</p><p>empiricamente observados) e como os utensílios da cozinha não podem</p><p>ficar espalhados pelo quarto de dormir e devem ser guardados em algum</p><p>lugar, o sociólogo deve escolher o tipo de armário que prefere.</p><p>A escolha não é aleatória, pois os sistêmicos têm problemas para</p><p>1.</p><p>2.</p><p>3.</p><p>4.</p><p>5.</p><p>explicar porque a sociedade muda, enquanto os conflitivistas os têm para</p><p>explicar porque há componentes que são mais estáveis, visto que nem</p><p>todos os utensílios cabem com comodidade em nenhum dos armários.</p><p>Dentro dos sistêmicos há os mais ou menos radicais e, por certo, os</p><p>mais extremistas se aproximam quase até se identificar com o velho</p><p>organicismo. Não obstante, não se pode deduzir daí que todos os</p><p>sistêmicos sejam reacionários e os conflitivistas progressistas, pois os</p><p>houve para todos os gostos.</p><p>O sociólogo sistêmico mais interessante para a criminologia foi Robert</p><p>K. Merton, que fez época na sociologia estadunidense a partir de sua obra</p><p>mais difundida (Social theory and social structure), publicada em 1949.</p><p>Merton explica o delito como resultado de uma desproporção entre as</p><p>metas sociais e os meios para alcançá-las. Se a meta social é a riqueza, os</p><p>meios para alcançá-la são poucos e, por conseguinte, gera-se uma tensão</p><p>porque nem todos podem chegar a ela. É como um concurso: à medida</p><p>que as provas vão se sucedendo, mais concorrentes vão sendo excluídos,</p><p>até que apenas uns poucos chegam ao final. Ele denomina essa</p><p>desproporção de anomia (palavra tomada de Durkheim, embora para este</p><p>significasse outra coisa).</p><p>Evidentemente, nem todos os que ficam fora de concurso delinquem,</p><p>e por isso Merton afirma a existência de cinco distintos tipos de adaptação</p><p>individual, segundo a aceitação ou o recusa das metas ou dos meios</p><p>institucionais:</p><p>As metas e os meios são aceitos (conformismo).</p><p>As metas são aceitas e os meios rechaçados (inovação).</p><p>As metas são rechaçadas e os meios são aceitos (ritualismo).</p><p>As metas e os meios são rechaçados (retraimento).</p><p>As metas e os meios são rechaçados, mas são propostos novas metas e</p><p>novos meios (rebelião).</p><p>De acordo com essa esquema, o conformista é o socialmente</p><p>adaptado, o ritualista identifica-se com o burocrata, o retraído é o vadio,</p><p>o mendigo, o alcoólatra etc., e o rebelde é o renovador social, que quer</p><p>mudar a estrutura. O inovador é a categoria mertoniana que abrange</p><p>vários personagens, como o inventor, mas ao qual também correspondem</p><p>os chamados delinquentes, ou seja, os que escolhem caminhos que não</p><p>são os institucionais para chegar à meta. Segundo Merton, isso explica</p><p>porque o delito não é produto da simples limitação de meios para</p><p>alcançar riqueza nem da exaltação isolada das metas pecuniárias, mas é</p><p>necessária a combinação de ambas para que se produza o desvio.</p><p>A tese de Merton merece críticas, como a de não conseguir explicar o</p><p>delito do colarinho branco, de não levar em conta, aparentemente, a</p><p>delinquência grupal e, sobretudo, pela dificuldade em definir as metas</p><p>comuns em sociedades</p><p>plurais. De qualquer maneira, porém, não se pode</p><p>ignorar que trouxe uma série de conceitos que até hoje iluminam a</p><p>criminologia.</p><p>Assim, partindo do teorema de Thomas, ele anunciou a ideia da</p><p>profecía que se autorrealiza (espalha-se o boato de que o banco está</p><p>quebrando e aí todos os correntistas retiram suas poupanças, e o banco</p><p>termina quabrando). Outra contribuição é a ideia de alquimia moral, que</p><p>faz que o que é positivo e virtuoso para o in-group resulte negativo e</p><p>vicioso no out-group (é bom que os jovens estudem para progredir, mas é</p><p>mau que os presos estudem, porque o fazem para delinquir melhor).</p><p>Uma contribuição interessantíssima de Merton, em especial quando</p><p>incorporada ao sistema penal, é a ideia de incapacidade adestrada e a de</p><p>psicose profissional, sintetizadas no adestramento burocrático – e</p><p>profissional em geral – que proporciona um modo de ver que é também</p><p>um modo de não ver. Em outras palavras, enfocar um objeto é algo que</p><p>pressupõe, ao mesmo tempo, o desenfoque de outro objeto: o gorila</p><p>invisível dos modernos psicólogos de Harvard.</p><p>Isso explicará, em seguida, algumas características kafkianas nos</p><p>segmentos do sistema penal. Mostra como a adesão às regras termina</p><p>convertendo um meio em um fim e deslocando as metas, com o quê o</p><p>resultado deixa de importar, sempre que as formas sejam observadas (se</p><p>não há certificado de disfunção, a presença do cadáver não tem</p><p>importância).</p><p>Há outros aportes não menos interessantes por sua utilidade na análise</p><p>do sistema penal, como o tratamento despersonalizado da clientela do</p><p>burocrata, que alcança limites insólitos no sistema penal, ou a ideia de</p><p>grupo de referência, que é adotado como modelo, como quando a polícia</p><p>adota o modelo militar e acaba que alguém assume o papel de Rambo, ou</p><p>quando a classe média adota como modelo a classe alta (é a ridiculização</p><p>de Arturo Jauretche, em El Medio Pelo en la Sociedad Argentina)[8].</p><p>Se bem que Merton tenha sido um sociólogo sistêmico, o foi em uma</p><p>medida muito prudente. O modelo de armário que escolheu para colocar</p><p>os utensílios da cozinha era um tanto modular, isto é, à medida que tinha</p><p>novas panelas, o ampliava para poder guardá-las. Porém, nem todos os</p><p>sistêmicos foram iguais, porque não faltam aqueles que, quando as</p><p>panelas não cabem, as tiram ou as amassam para enfiá-las à força.</p><p>Com efeito, há toda uma sociologia que defende uma ditadura do</p><p>sistema. Ela parte da descrição de um sistema (para esses sociólogos, essa</p><p>é a sociedade), e, a partir daí, deduz tudo o que é necessário para mantê-</p><p>lo em equilíbrio. Em geral, essa sociologia não se ocupa muito da</p><p>criminologia de forma expressa, podemos mesmo dizer que quase nada,</p><p>porque se limita a dar por certo que o poder repressivo faz parte do</p><p>sistema, sendo necessário para manter seu equilíbrio. Seus maiores</p><p>expoentes foram Talcott Parsons, nos Estados Unidos, e seu discípulo</p><p>alemão Niklas Luhmann. Não nos ocuparemos aqui dos detalhes dessas</p><p>correntes sociológicas, porque são muito complexos e não têm</p><p>consequências criminológicas expressas, mas têm consequências tácitas</p><p>que são importantes.</p><p>Essas posições sistêmicas extremas reconduzem ao organicismo,</p><p>porque definitivamente a única coisa importante para elas é o sistema e</p><p>seu equilíbrio. Porém, diferentemente do velho organicismo criminológico</p><p>positivista racista, já não lhes preocupa a etiologia do crime, mas sim</p><p>unicamente o que o sistema deve fazer para não se desequilibrar ou para</p><p>se reequilibrar.</p><p>Desse modo, poder-se-ia concluir que, se a criminologia midiática cria</p><p>uma realidade que gera tal pânico na sociedade a ponto desta reclamar</p><p>uma repressão enorme, esta terá de ser feita, porque é necessária para</p><p>normalizar a situação e reequilibrar o sistema. Não é por acaso que as</p><p>consequências práticas das versões mais radicais dessa teoria coincidem</p><p>com o postulado por James Q. Wilson, politólogo estadunidense de</p><p>extrema-direita, que afirma ser inútil se perguntar pelas causas do delito,</p><p>pois a única coisa eficaz que o Estado pode fazer não é neutralizar essas</p><p>causas, mas sim reprimir o delito. É claro que para aqueles que pretendem</p><p>reduzir o Estado a quase nada para deixar tudo nas mãos do mercado (ao</p><p>estilo Reagan-Bush), o único bem que esse cadáver insepulto do Estado</p><p>deve fazer é castigar os pobres.</p><p>A teorização sistêmica acaba em uma criminologia que não responde</p><p>ao paradigma etiológico legitimador nem ao da reação social, e sim ao da</p><p>pura repressão como necessidade do sistema, na medida em que seja</p><p>necessário para produzir consenso. Para Wilson, isso seria equivalente a</p><p>satisfazer às exigências da publicidade vingativa da demagogia midiática:</p><p>se a opinião pública pede para prender todos os negros, devemos investir</p><p>200 bilhões de dólares anuais para fazer isso.</p><p>Cabe esclarecer que podemos criticar Parsons e Luhmann, mas eles</p><p>são sociólogos, enquanto James Q. Wilson, que não é um sistêmico, não</p><p>passa de um reacionário com espaço midiático, e não creio que ele tenha</p><p>estudado ninguém muito a fundo.</p><p>Os conflitivistas são os que partem da ideia oposta de sociedade,</p><p>concebendo-a como resultado dos conflitos entre diferentes grupos que</p><p>em algumas ocasiões encontram algum equilíbrio precário, mas que nunca</p><p>constitui um sistema. Seus antecedentes remontam a Marx e a Simmel, mas</p><p>a primeira expressão moderna do conflitivismo criminológico foi a do</p><p>holandês Willen Bonger, que, no começo do século passado, rechaçava</p><p>todas as teses que subestimavam os fatores sociais do delito, enfrentando</p><p>o positivismo e em particular Garofalo.</p><p>Ele afirmava, de uma perspectiva marxista, que o sistema capitalista</p><p>gerava miséria por inocular egoísmo em todas as relações e por isso era o</p><p>único criador do delito, tanto nas classes despossuídas quanto na</p><p>burguesia. Negava, desse modo, o pretenso caráter socialista das teses de</p><p>Ferri. Rechaçou inteiramente o biologismo criminológico e combateu</p><p>frontalmente a esterilização e o racismo, o que constitui um mérito que</p><p>hoje ninguém lhe pode negar.</p><p>Afirmava que o delito resulta das condições de sobrevivência dos</p><p>trabalhadores obrigados a competir entre si, ressaltando algo sobre o qual</p><p>se costuma passar por cima, inclusive por criminólogos progressistas: a</p><p>pobreza não gera mecanicamente o delito de rua, mas sim, quando se</p><p>combina com o individualismo, o racismo, as necessidades artificiais e o</p><p>machismo.</p><p>Se bem que Bonger tenha sido considerado durante muitos anos o</p><p>expoente da criminologia marxista, o certo é que continuava fazendo</p><p>criminologia etiológica e não chegava a criticar o próprio poder</p><p>criminalizador, razão pela qual os criminólogos marxistas mais modernos</p><p>o consideram um marxista formal. Mais adiante, nos anos 1930, foi</p><p>Thorsten Sellin quem voltou ao posicionamento conflitivista, mas do ponto</p><p>de vista do pluralismo cultural que, como vimos, havia sido uma</p><p>determinante da proibição acoólica.</p><p>Nos anos 1950, George B. Vold defendeu a teoria do conflito grupal,</p><p>concebendo a sociedade como configurada por grupos de interesses que</p><p>competem entre si; na medida em que essa competição se acentua,</p><p>reforça-se a solidariedade do grupo, mas essas lutas também determinam a</p><p>dinâmica social. O processo de legislar, violar a lei e impô-la policialmente</p><p>responderia, no fundo, à dinâmica dos conflitos entre grupos, na qual</p><p>perdem aqueles que não têm poder suficiente para impor seus interesses.</p><p>Vold afirmava, dessa perspectiva, que boa parte do delito é produto</p><p>dos conflitos intergrupais. Nesses mesmos anos, essas teses receberam, da</p><p>sociologia geral, o impacto da obra de Ralf Dahrendorf sobre</p><p>o conflito de</p><p>classes na sociedade industrial.</p><p>As teorias do conflito não podiam deixar de ir se aproximando da</p><p>crítica ao poder punitivo, de modo que muitas delas fazem a ponte entre</p><p>esta criminologia etiológica e a que veremos na sequência. Por outro lado,</p><p>quando elas se mantêm dentro da criminologia etiológica, à medida que</p><p>encontram a etiologia em planos de análise social mais macro, é mais</p><p>difícil deduzir medidas concretas de política criminológica, pois estas</p><p>dependeriam de reformas estruturais muito profundas. Ainda que pareça</p><p>mentira, a regra parece ser que, quanto mais radical é uma crítica ao</p><p>poder social, menor é a possibilidade de modificá-lo de imediato e, por</p><p>conseguinte, de incomodá-lo. Daí que os que o exercem as consideram</p><p>mais inofensivas.</p><p>Veremos, a seguir, o momento em que se produz aquilo que se</p><p>tornava inevitável como resultado desse trajeto: a incorporação do aparato</p><p>de poder punitivo à análise criminológica.</p><p>Ilustração 15</p><p>23. A prateleira caiu!</p><p>Desde os anos 1930, a sociologia estadunidense vinha demolindo a</p><p>visão convencional da sociedade. Os surveys, como Middletown (Robert S.</p><p>Lynd e Helen Lynd) e Yankee City (William Lloyd Warner) mostraram a</p><p>estratificação social. Samuel Stouffer e Paul Lazarsfeld desnudaram a</p><p>manipulação da opinião e o efeito da radiotelefonia, que de brincadeira de</p><p>criança passou a decidir a eleição de Roosevelt. O Prêmio Nobel sueco</p><p>Gunnar Myrdal, com seu American dilemma, colocava em relevo os</p><p>efeitos dos preconceitos dos brancos sobre o comportamento dos negros.</p><p>As informações de Alfred C. Kinsey sobre as práticas sexuais despertaram</p><p>uma gritaria histérica sem precedentes.</p><p>Algumas contribuições da microssociologia seguiam pelo mesmo</p><p>caminho. William Foote White na sociedade da esquina, metido no meio</p><p>de um grupo de imigrantes italianos (método do observador participante)</p><p>colocou em evidência, em 1947, que o líder não era o mais hábil, mas sim</p><p>era o mais hábil porque era o líder, o que é importante para compreender</p><p>a resistência a qualquer mudança nas agências do sistema penal (e da</p><p>política em geral: não me mude as regras do jogo, porque com estas estou</p><p>ganhando e com as novas posso perder).</p><p>Na teoria sociológica geral, quem dava a tônica era Charles Wright</p><p>Mills, um sociólogo difícil de classificar, mas um bom demolidor de</p><p>preconceitos. Há três obras deste autor que são únicas. Em White collar</p><p>(1951), ele descreve e ironiza a formação da classe média, próxima à</p><p>classe operária, mas diferenciando-se desta em status e prestígio. Observa</p><p>que não é um grupo homogêneo, mas sim uma pirâmide superposta à</p><p>outra pirâmide. Suas ironias são válidas para boa parte das nossas classes</p><p>médias latino-americanas. Outro livro importante é, sem dúvida, The power</p><p>elite, no qual ele procura estabelecer quem tem o poder na sociedade</p><p>estadunidense e observa, visionariamente, que uma verticalização e uma</p><p>burocratização iam correspondendo a uma sociedade de massas e não de</p><p>públicos. Ele fazia notar que as associações voluntárias desapareciam e os</p><p>meios de comunicação de massa manipulavam a opinião pública. Em um</p><p>terceiro – A imaginação sociológica (1959) –, zombava da sociologia</p><p>sistêmica de Parsons, chamando-a de a grande teoria, e a acusava de</p><p>escamotear o problema do poder com uma linguagem obscura (dizia que</p><p>ainda era necessário traduzi-lo para o inglês).</p><p>Como vemos, é inquestionável que as coisas não surgem do nada, e</p><p>que as palavras da academia têm uma continuidade e nunca são obra de</p><p>alguém que as inventou, enquanto se enfeitava ou se maquiava.</p><p>Nesse clima, criado pela sociologia geral ao longo de mais de vinte</p><p>anos, a criminologia sociológica não podia continuar se perguntando pelas</p><p>causas do delito sem reparar no poder punitivo.</p><p>Até esse momento, ninguém havia analisado o exercício do poder</p><p>repressivo. O delito podia ser atribuído a muitos fatores, inclusive ao</p><p>próprio poder, mas ninguém se ocupava do sistema penal em particular.</p><p>Não obstante, não se podia continuar avançando sem o levar em</p><p>consideração e, ao fazê-lo, podemos dizer que a prateleira caiu.</p><p>A queda da prateleira é algo que, em termos científicos, foi batizado</p><p>há alguns anos por Kuhn, de um modo mais elegante: mudança de</p><p>paradigma. Significa que todas as taças caíram e se misturaram com outras</p><p>e, por conseguinte, devem ser recolocadas em uma nova ordem e com</p><p>umas tantas taças novas, em um novo armário. Isso é o que acontece na</p><p>ciência, quando se rompe o marco dentro do qual todos pensavam e se</p><p>passa a um outro diferente, como aconteceu com Copérnico, Einstein e</p><p>outros.</p><p>Foi assim que a discussão acerca da polícia, dos juízes etc., ou seja,</p><p>até onde haviam chegado nossos velhos amigos do bar, discutindo com</p><p>quem queria pulso firme e bala, foi assumida pela criminologia nos anos</p><p>60 do século passado. Dado que os frequentadores habituais do bar não</p><p>haviam patenteado a mudança de paradigma, eles perderam os direitos</p><p>autorais.</p><p>Desse modo, abriu-se uma nova etapa na criminologia acadêmica que,</p><p>por incorporar o poder punitivo, é chamada de criminologia da reação</p><p>social, embora também possa ser chamada de criminologia crítica.</p><p>Esclareço que as denominações são discutíveis e que preferimos não</p><p>perder tempo com isso.</p><p>Dentro dessa nova criminologia (da reação social ou crítica), podem</p><p>distinguir-se duas correntes, às quais se convencionou chamar de liberal e</p><p>radical, respectivamente. Vejamos a que essa diversificação responde.</p><p>Toda a criminologia da reação social, pelo mero fato de introduzir em</p><p>seu campo o sistema penal e o poder punitivo, não pode senão criticá-lo</p><p>(por isso também a chamamos crítica).</p><p>Pois bem. A crítica ao sistema penal é uma crítica ao poder e,</p><p>portanto, pode se situar no nível do sistema penal (ou seja, do aparato</p><p>repressivo) ou elevar-se até diferentes níveis do poder social. Posso</p><p>analisar e criticar o que a polícia, os juízes, os agentes penitenciários, os</p><p>meios de comunicação etc. fazem, ou ir mais além e analisar sua</p><p>funcionalidade em relação a todo o poder social, econômico, político etc.</p><p>e chegar a uma crítica do poder em geral.</p><p>Diz-se que há uma criminologia crítica que se situa no nível dos</p><p>cachorros pequenos (under dogs), que chega no máximo nos cachorros</p><p>médios (middle dogs), mas que não alcança os cachorros grandes (top</p><p>dogs). Pois bem. Denominou-se aquela que não chega aos de cima, por</p><p>certo que com um certo tom pejorativo, de criminologia liberal e a que os</p><p>alcança de criminologia radical.</p><p>Ilustração 16</p><p>Nos anos 1970, a discussão entre as duas correntes da criminologia</p><p>crítica era forte, mas nas últimas décadas, o giro brutalmente regressivo da</p><p>repressão penal, especialmente nos Estados Unidos, fez com que elas</p><p>cerrassem fileiras e o enfrentamento perdeu força. Os radicais, geralmente</p><p>baseados no marxismo não institucionalizado (como a Escola de</p><p>Frankfurt), afirmavam que os liberais eram reformistas, se deixavam ficar</p><p>no meio do caminho e que era preciso se chegar a uma transformação</p><p>mais profunda de toda a sociedade.</p><p>O certo é que a criminologia radical, ao elevar sua crítica a essas</p><p>alturas, não deixava espaço para uma política criminológica de menor</p><p>alcance e, em suas expressões mais extremas, levava à quase impotência,</p><p>porque havia que esperar a grande mudança, a revolução, para atirar</p><p>tudo pela janela (e, de quebra, a própria janela também).</p><p>Em tempos em que muitos acreditavam que a revolução estava ao</p><p>dobrar a esquina, podia se sustentar uma posição semelhante, mas quando</p><p>os fatos demonstraram que o que estava por vir era uma reconstrução</p><p>brutal</p><p>do Estado policial, essas posições tiveram de ceder à prudência. Por</p><p>outra parte, a chamada criminologia liberal tampouco era tão ineficaz</p><p>como pensavam alguns radicais e confesso minha própria experiência a</p><p>esse respeito.</p><p>Em 1979, um extraordinário pensador italiano que era catedrático na</p><p>Alemanha, Alessandro Baratta, cujo desaparecimento deixou um vazio</p><p>muito difícil de ser preenchido no pensamento criminológico, publicou</p><p>um artigo em que demonstrava que a sociologia anterior à crítica e a</p><p>sociologia liberal bastavam para demolir todos os discursos correntes com</p><p>que o direito penal legitimava o poder punitivo de forma racional.</p><p>Esse artigo me impressionou muito, porque achei que podia demolir</p><p>todo o direito penal com consequências imprevisíveis para as garantias</p><p>individuais, acerca das quais, por outro lado, acabava de escrever cinco</p><p>volumes inatacáveis. Tentei responder-lhe, naturalmente sem êxito, do que</p><p>me convenci pouco depois.</p><p>Com efeito, a criminologia liberal-reformista, de meio caminho e tudo</p><p>mais – bastava para deslegitimar o poder punitivo de forma irreversível.</p><p>Essa criminologia mostrou que o poder punitivo é altamente seletivo, que</p><p>não respeita a igualdade, que se fundamenta no preconceito de unidade</p><p>valorativa social, que não persegue atos e sim pessoas, que seleciona</p><p>conforme estereótipos etc.</p><p>Por certo que isso não é nada inofensivo para o poder, porque</p><p>embora a crítica não chegue a níveis mais altos, deslegitima um</p><p>instrumento necessário para seu exercício; não arremessa a janela, mas a</p><p>deixa bastante desmantelada.</p><p>A criminologia da reação social chegou à América Latina nos anos</p><p>1970 e foi difundida por duas distinguidas criminólogas venezuelanas: Lola</p><p>Aniyar de Castro, a partir da Universidade de Zulia, e Rosa del Olmo, da</p><p>Universidade Central de Caracas. Em nosso país, seus seguidores se viram</p><p>forçados a tomar o caminho do exílio durante a ditadura, entre os quais</p><p>Roberto Bergalli, que se fixou em Barcelona, e Luis Marcó do Pont e Juan</p><p>Pegoraro, no México. Durante os anos sangrentos essa criminologia só era</p><p>comentada em nosso meio em pequenos círculos, enquanto as cátedras</p><p>continuavam enlanguescendo no canto da Faculdade de Direito (na de</p><p>Buenos Aires, com o mais puro positivismo perigosista).</p><p>Na atualidade, passados os anos, vemos que a prateleira caiu para</p><p>sempre, que a criminologia atual não pode evitar a análise do sistema</p><p>penal e do poder punitivo em geral e, como dissemos, o confronto entre</p><p>as duas correntes criminológicas se atenuou muito, embora mais por causa</p><p>do pânico do que do amor. O modelo Reagan-Thatcher-Bush e seu</p><p>nefasto festival do mercado tiveram esse efeito paradoxal.</p><p>24. A criminologia crítica liberal e a psicologia</p><p>social</p><p>A chamada criminologia liberal foi anunciada desde os anos 1950, em</p><p>particular com um trabalho de Edwin Lemert que destacava ser o desvio</p><p>primário, por conta do qual se impõe uma pena, seguido em geral por um</p><p>desvio secundário, pior que o anterior, causado pela mesma intervenção</p><p>punitiva e que condiciona as chamadas carreiras criminosas.</p><p>Lemert escreveu textualmemente: O desvio secundário constitui</p><p>conduta desviada ou papéis sociais baseados nele que chegam a ser meios</p><p>de defesa, ataque ou adaptação aos problemas manifestos ou ocultos</p><p>criados pela reação da sociedade ao desvio primário. Com efeito, as</p><p>“causas” originais do desvio desaparecem e cedem lugar à importância</p><p>central das reações de desaprovação, degradação e isolamento de parte da</p><p>sociedade.</p><p>Essa criminologia liberal não estava isolada da sociologia geral; antes,</p><p>procedia diretamente dela e, em particular, de duas grandes influências</p><p>que ela havia recebido: por um lado, da psicologia social, com o</p><p>interacionismo simbólico; por outro, da filosofia, com a fenomenologia de</p><p>Husserl. Comecemos pór nos aproximar do primeiro.</p><p>O interacionismo simbólico baseava-se nas ideias de George Mead,</p><p>segundo as quais todos temos um mim que se vai formando pelas</p><p>exigências de papéis dos demais, e um eu que é o que nós trazemos.</p><p>O sociólogo mais importante dessa corrente foi Erving Goffman, que o</p><p>explicou como uma dramaturgia social.</p><p>Falemos um pouco mais claramente. Para Goffman, a sociedade</p><p>funciona como um teatro, no qual há atores, público e organizadores.</p><p>Suponhamos que, por acaso, me convidem para uma conferência; há um</p><p>público e os organizadores prepararam tudo. Eu espero do público que</p><p>ele se comporte como tal, que me escutem com certa atenção etc. O</p><p>público espera de mim que eu dê uma conferência mais ou menos</p><p>interessante, não muito tediosa. Tanto o público como eu esperamos dos</p><p>organizadores que tudo esteja em ordem, que não se corte a luz, que o</p><p>microfone funcione etc. Todas estas esperanças (ou expectativas</p><p>recíprocas) são o que chamamos de demandas de papel.</p><p>Pois bem: se todas as demandas de papel são satisfeitas, todos nós</p><p>ficamos contentes e felizes. Porém, se me ponho a ladrar, o público se</p><p>aborrece e reclama de mim; se no público há um grupo de bêbados, que</p><p>grita barbaridades, aí quem se aborrece sou eu. No primeiro caso, os</p><p>organizadores explicarão ao público que quando me convidaram não</p><p>imaginavam que eu estivesse louco; no segundo caso, eles me explicarão</p><p>que a presença dos bêbados tinha sido imprevisível.</p><p>Esses episódios, que geram agressividade quando não se responde às</p><p>demandas de papel, são chamados de disrupções e nos irritamos porque,</p><p>quando acontece uma disrupção, não sabemos como prosseguir, ficamos</p><p>sem roteiro.</p><p>Isso acontece em todos os atos da vida. Se nosso vizinho sai sempre</p><p>com um macacão e uma caixa de ferramentas e um dia lhe pedimos que</p><p>nos ajude a fazer o automóvel dar partida e ele nos diz que sente muito,</p><p>mas que não poderia ajudar porque na realidade é o catedrático de</p><p>biologia molecular da universidade, embora disfarcemos, ficaremos</p><p>desconcertados e em nosso foro íntimo, seremos agressivos, nos</p><p>perguntando por que esse aparato (ou algo pior) se veste dessa maneira e</p><p>sai com uma caixa de ferramentas.</p><p>Os papéis podem ser socialmente positivos ou negativos, mas isso não</p><p>importa quanto a seu funcionamento, pois operam da mesma maneira.</p><p>Geralmente, costumamos responder às demandas de papel, para que os</p><p>outros não se aborreçam e evitemos as disrupções. É isso que vai</p><p>configurando nosso eu, ou seja, em boa medida somos como os outros</p><p>nos demandam que sejamos.</p><p>Quando a quem se atribui um papel negativo (ladrão, por exemplo)</p><p>são formuladas as demandas de papel correspondentes ao atribuído</p><p>porque se espera que se comporte como tal, também nos aborrecemos</p><p>quando ele não as responde da forma adequada ao papel. A exemplo do</p><p>que acontece com o vizinho do macacão, nos perguntaremos porque esse</p><p>sujeito assume as características de um ladrão e nos confunde.</p><p>Com esse esquema, Goffman analisou as instituições totais, que são</p><p>aquelas em que a pessoa desenvolve toda sua atividade vital, desde o</p><p>momento em que se levanta até quando se deita, sejam elas manicômios,</p><p>prisões, internatos, asilos etc. Os círculos separados de trabalho, diversão</p><p>e descanso se unificam e regulamentam, não há esferas separadas da vida.</p><p>A pessoa se desculturaliza, a separação entre o pessoal e o interno é</p><p>contundente. O interno deve se acostumar a pedir por favor o que na vida</p><p>livre é óbvio, sofre o efeito de cerimônias de degradação, a pessoa fica</p><p>entregue a profanações verbais por parte do pessoal e, além do mais,</p><p>perde toda reserva, é invadida e controlada até mesmo nos atos mais</p><p>íntimos.</p><p>A pessoa sofre ataques ao eu, ou seja, perde autonomia, fica à mercê</p><p>do pessoal e de seus humores, inclusive</p><p>os hierarcas podem dar-se ao</p><p>luxo de ser mais bondosos que os subalternos, assumindo a função do rei</p><p>bom e gracioso dos contos infantis.</p><p>Imaginemos, por um momento, algo muito louco: que você vive em</p><p>um prédio de apartamentos que, um belo dia, é ocupado por invasores</p><p>que demolem todas as paredes divisórias, inclusive as dos banheiros, e o</p><p>obrigam a conviver com todos os outros ocupantes do edifício com os</p><p>quais mantinha relações nem sempre cordiais, sob o controle dos</p><p>invasores, que os vigiam constantemente e os igualam no que é possível,</p><p>porque necessitam manter a ordem. Esta é uma imagem alucinante, um</p><p>pesadelo. Pois bem, uma instituição total é mais ou menos isso, com</p><p>maior ou menor intensidade controladora.</p><p>É óbvio que no caso desse pesadelo você não aprenderia a socializar-</p><p>se, que seus hábitos de vida mudariam totalmente, que sofreria uma brutal</p><p>perda de autoestima e seu objetivo dominante seria ver como fazer para</p><p>sair daí, para ir-se o mais longe possível, fugir do sonho ruim. Todo o</p><p>discurso de ressocialização se dissipa com essa investigação, e embora</p><p>Goffman a tenha levado a cabo principalmente nos manicômios, ele é</p><p>transferível em grande medida à prisão.</p><p>Dentro da mesma corrente do interacionismo simbólico foi</p><p>determinante um livro de Howard Becker, de 1963, Outsiders, que</p><p>consolidou a teoria do etiquetamento (em inglês labeling approach).</p><p>Becker trabalhou sua pesquisa com músicos de jazz usuários de maconha</p><p>e o fez com tamanho empenho que se converteu em um virtuose do</p><p>piano. Descobriu que o desvio é provocado, que há uma empresa moral</p><p>que faz as regras, que não se estudam os fabricantes das regras</p><p>(empresários morais) e sim as pessoas às quais lhes é aplicada a etiqueta</p><p>que as deixa fora (outsiders). Essa rotulação coloca a pessoa em outro</p><p>status, que a impede de continuar sua vida normal: desde o não te juntes</p><p>até a desqualificação em qualquer atividade competitiva da vida corrente.</p><p>Foi condicionada a ele uma carreira, conforme a etiqueta que se lhe foi</p><p>colocada.</p><p>É óbvio que essa crítica representa um golpe muito forte ao poder</p><p>punitivo, ao colocar em evidência a repartição arbitrária das etiquetas e</p><p>lançar dúvidas não sobre os subordinados (os cachorros de baixo) e sim</p><p>sobre os altos responsáveis do poder que decidem a legislação penal e</p><p>orientam a seleção das pessoas a criminalizar. Nem lerdos nem</p><p>preguiçosos, os defensores da ordem lhe objetaram que, por se ocuparem</p><p>dos chamados delitos sem vítima (consumidores de maconha, hippies,</p><p>homossexuais), trata estes e os assassinos seriais de velhinhas do mesmo</p><p>modo, porque todos seriam puras etiquetas. Nada menos exato nem mais</p><p>falso do que essa objeção.</p><p>Embora sem etiqueta não há delito, não é certo que esta cria o delito,</p><p>nem Becker nem ninguém afirmou isso. Sem contratantes também não há</p><p>matrimônio, mas o matrimônio não cria os contratantes como namorados</p><p>anteriores ao ato; o testamento não cria o causador nem tampouco o mata,</p><p>embora sem autor morto de testamento não haja sucessão testamentária.</p><p>Há etiquetas que se colocam em material mais etiquetável que outro;</p><p>sem dúvida, no caso dos assassinos em série há muito material bem</p><p>etiquetável, assim como entre fumantes de maconha haja pouco e entre</p><p>homossexuais ,nada, mas o certo é que isso não interessa ao</p><p>etiquetamento, que o faz em uns poucos casos e de modo arbitrário, pois</p><p>nem sempre se etiqueta como homicidas os que matam: sem me deter nas</p><p>execuções sem processo, nos esquadrões da morte, nos assassinatos em</p><p>massa genocidas e em outros horríveis crimes impunes, o certo é que</p><p>tampouco se etiqueta como homicídio a guerra, as mortes por poluição</p><p>ambiental, as penas de morte por erro, o fechamento de hospitais, de</p><p>postos de saúde, a negligência no cuidado das estradas, nem os</p><p>fabricantes e vendedores de armas são etiquetados como cúmplices de</p><p>homicídios, embora cooperem necessariamente com eles, nem sequer</p><p>quando as vendem aos dois lados em guerra ou a narcotraficantes em luta.</p><p>Os recipientes podem conter muito, pouco ou nada de material</p><p>etiquetável, mas isso é indiferente para a distribuição arbitrária das</p><p>etiquetas, que as fixa em recipientes vazios ou cheios, mas deixa de fazê-</p><p>lo com outros muito mais cheios.</p><p>Esta é a questão que nunca deve nos confundir: o que Becker prova é</p><p>a arbitrariedade do etiquetamento e isso coloca em xeque todos os</p><p>argumentos com que o direito penal tenta conferir racionalidade ao poder</p><p>punitivo. Não foi à toa que o artigo de Baratta me causou tanta impressão</p><p>e alarme. A minha prateleira caiu, com certeza.</p><p>O panorama do interacionismo simbólico foi completado a partir da</p><p>Grã-Bretanha por Denis Chapman, com o livro Sociologia e o estereótipo do</p><p>criminoso (1968), no qual o autor esclarece como se seleciona para</p><p>criminalizar de acordo com estereótipos que são criados como síntese dos</p><p>piores preconceitos de uma sociedade e que não respondem somente a</p><p>questões de classe nem de capacidade econômica.</p><p>O conceito de estereótipo é hoje indispensável para explicar como</p><p>funciona a seleção criminalizadora policial ou judicial. No bairro,</p><p>costumam chamá-lo de pinta de ladrão e é uma espécie de uniforme do</p><p>outsider, mas por causa das demandas de papel não é algo apenas</p><p>externo; seu portador vai incorporando, vai se obrigando a engolir, a</p><p>tragar o personagem, assume-o à medida que responde às demandas dos</p><p>outros, seu mim vai sendo como os outros o veem, é como o estereótipo</p><p>respectivo e, por conseguinte, carrega um estigma que condiciona a</p><p>proibição de coalizão (no bairro é o não com más companhias).</p><p>25. A crítica liberal e a fenomenologia</p><p>Como é sabido, Husserl colocou o problema da intersubjetividade a</p><p>partir da filosofia, o que não podia deixar a sociologia indiferente. O</p><p>sociólogo austríaco Alfred Schutz colheu a ideia no ar, afirmando que a</p><p>intersubjetividade não é um problema e sim uma realidade e, com isso,</p><p>conferiu um novo enfoque à sociologia do conhecimento.</p><p>Quanto à questão criminal, interessa-nos em particular a contribuição</p><p>que procede de um pequeno livro publicado em 1966 por um austríaco</p><p>(Peter Berger) e um alemão (Thomas Luckmann), que se converteu num</p><p>clássico nas carreiras de comunicação: A construção social da realidade.</p><p>Embora esse trabalho não se ocupe da criminologia, veremos sua</p><p>enorme projeção quando nos ocuparmos da criminologia midiática, mas</p><p>digamos brevemente em que ele consiste. A investigação parte do suposto</p><p>de que há conhecimentos de senso comum sem os quais não poderíamos</p><p>agir em sociedade, pois a realidade com a qual lidamos é, definitivamente,</p><p>uma interpretação aceita por todos os significados subjetivos. Vale dizer,</p><p>vivemos em um mundo de interpretações compartilhadas, intersubjetivo.</p><p>Isso não significa que não existam os entes físicos; é óbvio que, se</p><p>não me detenho diante de um ônibus, ele me atropela; porém, se estendo</p><p>a mão de um lado da rua, ele se detém e abre sua porta dianteira. O</p><p>mundo é o conjunto de significados que compartilho com os outros e que</p><p>faz com que o motorista não me atropele nem os passageiros protestem</p><p>porque o ônibus parou para eu subir. O material do mundo é só sua base</p><p>física, mas o mundo mesmo resulta do conjunto de significados (os para o</p><p>que) que formam o senso comum do conhecimento objetivado.</p><p>Esse conhecimento comum da vida cotidiana se sedimenta com o</p><p>tempo e se tipifica tornando-se anônimo, isto é, se objetiva – o ser</p><p>humano se habitua.</p><p>Um ato que se repete com frequência cria um hábito que o reproduz</p><p>com economia de esforços, pois limita as opções e evita que, perante cada</p><p>situação, se tenha de colocar</p><p>tudo de novo, desde o princípio. Ao nos</p><p>levantarmos de manhã não nos perguntamos se Deus existe e daí</p><p>deduzimos significados em cadeia até chegar ao valor da ação de tomar</p><p>banho. Há recolocações que se fazem algumas vezes na vida, mas sempre</p><p>continuamos tomando café com leite com pãezinhos.</p><p>Esses hábitos sedimentados adquirem caráter estável, anônimo,</p><p>precedem a nossa vida e estão submetidos ao controle social. O mais</p><p>importante instrumento de legitimação é a linguagem, com uma lógica que</p><p>se dá por estabelecida. Desse modo, os conhecimentos de senso comum</p><p>(que são subjetividades compartilhadas) se objetivam e se tornam coisas,</p><p>produz-se a reificação (de res, coisa).</p><p>Se me afasto do mundo reificado, me sancionam. Ninguém faz a</p><p>prova, mas se você colocar o croissant na orelha, lustrar os sapatos com</p><p>café com leite e falar em russo ou em guarani com o garçom, se você</p><p>parar na frente do ônibus ou pedir ao motorista que lhe venda cigarros, o</p><p>levarão ao manicômio, o que também é uma sanção de internação em</p><p>uma instituição total.</p><p>Berger e Luckmann explicam que, desse modo, o outro na relação</p><p>interpessoal sempre é visto como um ser-como, isto é, exercendo um</p><p>papel. O motorista do ônibus nos vê como passageiros e nós a ele, como</p><p>motorista. Essas relações e papéis que conservamos e praticamos com</p><p>base em um sistema de significantes comum, é alterado quando estamos</p><p>em outro país e não sabemos como se compra o bilhete do ônibus, e</p><p>muito mais quando, por desconhecer o idioma e o alfabeto, nos tornamos</p><p>analfabetos.</p><p>A sociedade, escrevem Berger e Luckmann, é a soma total das</p><p>tipificações e dos modelos recorrentes de interação estabelecidos através</p><p>deles. Enquanto tal, a estrutura social é um elemento essencial da</p><p>realidade da vida cotidiana.</p><p>A conversação do encontro direto transcende do pensamento comum</p><p>e dá lugar ao pensamento abstrato, filosófico e científico. Nesse sentido, o</p><p>pensamento científico depende de um prévio conhecimento do senso</p><p>comum (que resiste a desaparecer). Os filósofos também molham os</p><p>pãezinhos no café e tomam banho pela manhã, se são asseados.</p><p>Para Berger e Luckmann, os seres humanos são produto e artífices do</p><p>mundo social. Tudo o que no institucional parece objetivo é meramente</p><p>objetivado, é o que se alcança através do processo de reificação.</p><p>É interessante assinalar que Berger e Luckmann observam que a</p><p>sociedade incomoda o intelectual. Isso se deve ao fato de que nela prima</p><p>o conhecimento objetivado como coisa (reificado) e o intelectual o</p><p>questiona, pois quando todos afirmam que a coisa está, ele sai do seu</p><p>canto e mostra que a tal coisa não existe. É o que diz que o rei está nu.</p><p>Embora cumpra um papel dinamizador e fundamental, pois propõe uma</p><p>visão alternativa, o intelectual assume uma posição marginal e tem</p><p>necessidade de um grupo que o defenda.</p><p>Como se explica esta opção pela marginalidade própria do intelectual?</p><p>Os autores acreditam que surge de uma disparidade entre a socialização</p><p>primária (que tem lugar na infância) e a secundária (do adulto). Trata-se</p><p>de uma insatisfação pessoal do agente adulto com sua socialização</p><p>primária. Ao que parece, quando criança, o intelectual não ficou muito</p><p>satisfeito com as respostas – e ordens – dos adultos ou depois se deu</p><p>conta de que eles eram bastante bobos.</p><p>Em determinadas ocasiões se produzem importantes transformações</p><p>nas pessoas, que chamam alternações e que provocam redefinições ou</p><p>processos de ressocialização semelhantes à socialização infantil. De</p><p>acordo com o que vimos, o etiquetamento desencadeia um processo de</p><p>ressocialização forçada. A pessoa é forçada a mudar, a autoperceber-se de</p><p>outro modo. Não é por acaso que uma prisão impacta como uma espécie</p><p>de internato para adultos infantilizados e o importante seria proporcionar</p><p>um tratamento que neutralize, até onde seja possível, esse processo de</p><p>ressocialização. Nessa terminologia, o tratamento penitenciário deveria</p><p>evitar a ressocialização.</p><p>É bastante clara a influência de Heidegger em Berger e Luckmann: o</p><p>ser humano, ao invés de se perceber como produtor do mundo, o faz</p><p>como produto deste. Os significados humanos já não são vistos como algo</p><p>que se produz pelo mundo, mas sim como produtos da natureza das</p><p>coisas. Assim foram vistos a escravidão, o colonialismo, a guerra e tantas</p><p>outras aberrações no curso da história. Cabe assinalar que não esgotamos,</p><p>com o exposto, o quadro da criminologia crítica que chamamos de liberal,</p><p>mas tampouco nos propomos a fazê-lo. Simplesmente, recolhemos os</p><p>elementos que nos serão úteis em seguida para esclarecer o fenômeno da</p><p>criminologia midiática e em especial para escutar as palavras dos mortos e</p><p>fundar nosso projeto de criminologia cautelar.</p><p>Ilustração 17</p><p>26. A vertente marxista da criminologia radical</p><p>Como era de se esperar, as críticas ao poder punitivo chamaram a</p><p>atenção daqueles que formulavam colocações críticas mais amplas da</p><p>sociedade, que começaram a vinculá-las com os resultados da criminologia</p><p>liberal.</p><p>Por nossa parte, chamamos criminologia radical aquela que provém</p><p>desse encontro com os marcos ideológicos que reclamam mudanças</p><p>sociais e civilizatórias profundas ou gerais, embora isso não seja pacífico,</p><p>pois está em discussão o que é e o que não é radical. Sem entrar nessa</p><p>discussão, a definimos desse modo, por puras razões de ordem expositiva.</p><p>Nesse entendimento, para nós, a criminologia radical (ou crítica</p><p>radical) responde a tantas versões quanto os marcos ideológicos que a</p><p>inspiram. Certamente, a mais profunda crítica social do século passado foi</p><p>o marxismo, que não podia deixar de impactá-la.</p><p>Do campo marxista, publicou-se, em 1939, um trabalho anterior a toda</p><p>a criminologia sociológica dos anos 1960, que foi a obra de Georg Rusche</p><p>e Otto Kirchheimer, intitulada Punição e estrutura social[9]. Pela primeira</p><p>vez, o marxismo aprofundou sua análise do poder punitivo,</p><p>diferentemente dos ensaios anteriores, como o do holandês Willen</p><p>Bonger, que procediam do marxismo, mas analisando as causas do delito.</p><p>Essa investigação realizou-se no Instituto de Investigação Social de</p><p>Frankfurt, fundado para renovar o marxismo diante da versão</p><p>institucionalizada da União Soviética. Embora fale-se em Escola de</p><p>Frankfurt, ela não foi propriamente uma escola, porque convocou</p><p>prestigiosos pensadores sob a única consigna da crítica social. Tomaram</p><p>parte dessa equipe figuras tão conhecidas e díspares como Max</p><p>Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse e Erich Fromm, entre</p><p>muitos outros.</p><p>A investigação da questão penal foi atribuída a Georg Rusche, que</p><p>permaneceu na Europa, enquanto o instituto, perseguido pelo nazismo,</p><p>era transferido para Nova York. Rusche enviava seus escritos para Nova</p><p>York, onde a investigação não era suficiente. Encomendaram a</p><p>Kirchheimer que a completasse, o que não mereceu a total aprovação de</p><p>Rusche. Por essa razão, a versão final tem duas partes diferentes.</p><p>De toda forma, a ideia central do livro é que existe uma relação entre</p><p>o mercado de trabalho e a pena, ou seja, com a pena uma quantidade de</p><p>pessoas deixa o mercado de trabalho, num momento em que há demanda</p><p>trabalho no próprio sistema. Essa situação reduz a oferta e impede que os</p><p>salários baixem muito; inversamente, aumenta a oferta quando há uma</p><p>demanda de mão de obra, evitando uma subida acentuada do salário.</p><p>Isso seria comprovado na história. Na Idade Média, a oferta era</p><p>enorme e o poder punitivo podia matar sem problemas; a força do</p><p>trabalho teria começado a ser cuidada quando, com o capitalismo,</p><p>aumentou a demanda de mão de obra.</p><p>Por outra parte, os autores</p><p>estritamente descrito em</p><p>uma lei anterior ao fato, ou a lesividade, que requer que em todo delito</p><p>haja um bem jurídico lesionado ou colocado em perigo.</p><p>Como se pode ver, o delito dos penalistas é uma abstração que se</p><p>constrói com um objetivo bem determinado, que é chegar a uma sentença</p><p>racional ou pelo menos razoável. Na realidade social, porém, esse delito</p><p>não existe, porque no plano do real existem violações, homicídios,</p><p>fraudes, roubos etc., mas nunca o delito. Em outros tempos, os penalistas</p><p>também projetavam os códigos e as leis penais, porque lhes era dada</p><p>muitíssima importância e se considerava, com razão, que eram um</p><p>apêndice da Constituição, porque impunham limites à liberdade.</p><p>Em nosso país, para não irmos mais longe, os códigos penais foram</p><p>projetados em 1866, por Carlos Tejedor, que foi governador da província</p><p>de Buenos Aires e não chegou a ser presidente da República em lugar de</p><p>Roca porque protagonizou a última guerra civil em 1880, e por Rodolfo</p><p>Moreno (filho) em 1917, que também foi governador da província e pré-</p><p>candidato a presidente nas eleições de 1944, tendo sido derrotado no</p><p>interior do Partido Conservador por Patrón Costas, o que precipitou o</p><p>golpe de 1943.</p><p>Nesse meio tempo houve vários projetos, e o mais importante foi o de</p><p>1891, obra dos fundadores de nossa Faculdade de Filosofia e Letras, que</p><p>eram os jovens brilhantes da época: Rivarola, Piñero e Matienzo. Os três</p><p>foram importantes personalidades públicas e um deles, Matienzo, foi</p><p>candidato à vice-presidência da República.</p><p>A trajetória jurídica, intelectual e política desses projetistas prova que</p><p>levavam muito a sério as leis penais, o que hoje mudou completamente,</p><p>pois agora quem as elabora são os assessores dos políticos, conforme a</p><p>agenda que lhes marcam os meios de comunicação de massa.</p><p>Por isso, hoje, tampouco os penalistas fazem as leis penais, ocupando-</p><p>se quase exclusivamente do que lhes conto, quer dizer, da sua</p><p>interpretação, na forma em que assinalei.</p><p>Logicamente, vocês se perguntarão o que é que esses senhores sabem</p><p>acerca da realidade do delito, do que se passa no mundo em que todos</p><p>nós vivemos, do que fazem os delinquentes, os policiais, os juízes, as</p><p>vítimas, os empresários midiáticos, os jornalistas etc. Simplesmente, o</p><p>mesmo que qualquer vizinho que lê os jornais e assiste televisão, porque</p><p>o penalista se ocupa da lei, não da realidade.</p><p>Isso, que pode chamar a atenção de quem não se tenha inteirado</p><p>antes deste mundo, é sabido e inclusive teorizado. Desde jovem, quando</p><p>se entra na Faculdade de Direito, explicam que ali se estudam relações de</p><p>normas, de dever ser e não de ser.</p><p>Há mesmo toda uma corrente que pretende um corte radical entre os</p><p>estudos do dever ser e do ser. São os neokantianos, que dividem os</p><p>conhecimentos entre ciências da natureza e da cultura. O direito seria uma</p><p>ciência da cultura e o que acontece no mundo em que vivemos todos os</p><p>dias seria matéria das ciências da natureza. Isso lhes parece um pouco</p><p>esquizofrênico? É um pouco, com certeza.</p><p>A divisão foi tão taxativa que permitiu que a grande maioria dos</p><p>penalistas dos tempos do nazismo viesse tranquilamente desde o Império</p><p>Alemão até o pós-guerra, passando por cima da República de Weimar, dos</p><p>crimes da ascensão do nazismo, dos massacres, do genocídio, da guerra,</p><p>sem inteirar-se dos milhões de cadáveres. Tudo isso pertencia às ciências</p><p>da natureza, que não lhes dizia respeito.</p><p>Para que vocês se tranquilizem, direi que hoje nem todo o direito</p><p>penal segue este caminho, embora não faltem nostálgicos que tentam se</p><p>entrincheirar nas normas. De qualquer maneira, isso é questão do direito</p><p>penal, ou seja, do que não nos ocuparemos aqui enquanto tal, mas sim</p><p>precisamente do que pertence ao mundo do ser, no qual vivemos todos</p><p>os dias.</p><p>Disso se ocupa precisamente a criminologia, para onde convergem</p><p>muitos dados que provêm de diferentes fontes – da sociologia, da</p><p>economia, da antropologia, das disciplinas psi, da história etc. –, que</p><p>tentam nos responder o que é e o que acontece com o poder punitivo,</p><p>com a violência produtora de cadáveres etc.</p><p>É bem verdade que esta palavra da academia também esteve</p><p>carregada de palavras obscenas (ou pelo menos são elas que temos</p><p>vontade de dizer às vezes), e aconteceu em diferentes etapas. Primeiro</p><p>perguntou-se pelas causas do delito, o que se chamou de criminologia</p><p>etiológica, e os demonólogos, os juristas e filósofos, os médicos, os</p><p>psicólogos e os sociólogos trataram de responder. Muito mais</p><p>recentemente deu-se conta de que o poder punitivo também era causa do</p><p>delito, e passou a ser analisado e questionado com diferente intensidade</p><p>crítica. São estas etapas que passaremos a percorrer depois de uma visão</p><p>geral sobre o poder punitivo e sua função real no marco do poder</p><p>planetário.</p><p>Ilustração 3</p><p>3. O poder punitivo e a verticalização social</p><p>O poder punitivo é como o bife à milanesa com batatas fritas, isto é,</p><p>ninguém se pergunta por que existe. Parece que sempre esteve ali. Mas</p><p>não é assim.</p><p>Alguém comparou o tempo de nosso pequeno planeta com uma</p><p>semana e advertiu que aparecemos no último minuto antes da meia-noite</p><p>do domingo. Não sei quando apareceu o bife à milanesa, mas nesses</p><p>segundos geológicos que levamos arranhando a superfície da Terra, só</p><p>carregamos com o poder punitivo por alguns décimos de segundo.</p><p>O humano é social, não sobrevive isolado, e em toda sociedade há</p><p>poder e coerção. Todo grupo humano conheceu sempre duas formas de</p><p>coerção, cuja legitimidade quase não se discute, embora se possa discutir</p><p>como se exerce.</p><p>Uma é a coerção que detém um processo lesivo em curso ou</p><p>iminente: quando uma parede está prestes a cair ou quando alguém corre</p><p>atrás de mim pela rua com uma faca na mão, há um poder social que</p><p>demole a parede embora o dono se oponha, ou que desarme aquele que</p><p>quer me enfiar a faca. Isso se chama hoje coerção direta, em outra época</p><p>poder de polícia, e no Estado está regulada pelo direito administrativo.</p><p>Outra é a coerção que se pratica para reparar ou restituir quando</p><p>alguém causou um dano. Esta é hoje própria do direito civil e de outros</p><p>ramos do direito.</p><p>Mas o poder punitivo é diferente, não existiu em todos os grupos</p><p>humanos, e surgiu muito mais tarde. Por que? O que o diferencia dessas</p><p>outras coerções?</p><p>As duas formas de coerção antes referidas resolvem os conflitos: uma,</p><p>porque evita o dano, outra, porque o repara. Porém, quando na coerção</p><p>reparadora alguém que manda diz que o lesado sou eu e afasta quem</p><p>realmente sofreu a lesão, é ali que surge o poder punitivo, ou seja,</p><p>quando o cacique, rei, senhor, autoridade ou quem quer que seja substitui</p><p>a vítima, a confisca.</p><p>Comprovamos isso em qualquer caso: se uma pessoa agride a outra e</p><p>quebra-lhe um osso, o Estado leva o agressor, o penaliza, alegando que o</p><p>faz para dissuadir terceiros de romper ossos ou para ensinar-lhe a não</p><p>fazê-lo de novo ou para o que quer que seja, e o que sofre com o osso</p><p>quebrado deve recorrer à Justiça civil, na qual pode não obter nada, caso</p><p>o agressor não possuir bens.</p><p>O poder punitivo reduziu a pessoa com o osso partido a um mero</p><p>dado, porque não toma parte na decisão punitiva do conflito. Mais ainda:</p><p>deve mostrar seu osso partido e se não o fizer o poder punitivo a ameaça</p><p>como testemunha remisso e pode levá-la pela força a mostrar o que o</p><p>agressor lhe fez. A característica do poder punitivo é, pois, o confisco da</p><p>vítima, ou seja, é um modelo que não resolve o conflito, porque uma das</p><p>partes (o lesado) está, por definição, excluído da decisão. O punitivo não</p><p>resolve o conflito, mas sim o suspende, como uma peça de roupa que se</p><p>retira da máquina de lavar</p><p>asseguravam que o mercado determina as</p><p>penas conforme a lei de menor exigibilidade, segundo a qual as condições</p><p>da vida carcerária, para ter efeito dissuasivo, devem ser inferiores às piores</p><p>da sociedade livre.</p><p>Esse livro caiu praticamente no esquecimento e, como às vezes</p><p>acontece, foi reavaliado trinta anos mais tarde, em plena vigência da</p><p>criminologia crítica, reeditado e traduzido em vários idiomas.</p><p>Em 1979, quando seus autores haviam morrido (Kirchheimer em 1965</p><p>e Rusche em data incerta), abriu-se um debate em torno de Punilção e</p><p>estrutura social e sua tese foi criticada na obra Carcere e fabbrica[10], de</p><p>Dario Melossi e Massimo Pavarini, os quais afirmaram que ela pecava por</p><p>um excessivo economicismo. Esses autores da Escola de Bolonha não</p><p>negam a importância do mercado de trabalho, mas não acreditam que</p><p>opere de forma tão mecânica, mas sim através do disciplinamento no</p><p>momento do surgimento do capitalismo e da acumulação primitiva do</p><p>capital. A similitude entre o cárcere e a fábrica nesta época (lembremos de</p><p>Bentham e de seu panóptico) respondia a um programa de</p><p>disciplinamento que visava a oferta de mão de obra qualificada.</p><p>García Méndez, no epílogo à sua tradução espanhola desta obra,</p><p>assinala que a função de disciplinamento não passou completamente</p><p>desapercebida a Rusche e Kirchheimer e que o que vigora de sua tese é o</p><p>ponto segundo o qual cada sistema de produção tende ao descobrimento</p><p>de castigos que correspondem a suas relações produtivas, indicando que a</p><p>categoria de mercado de trabalho parece demasiado estreita, ao mesmo</p><p>tempo que a de relações de produção mostra-se demasiadamente ampla.</p><p>Cabe esclarecer que a ideia do disciplinamento foi desenvolvida ao</p><p>máximo dentro da criminologia radical, mas fora das correntes marxistas,</p><p>por Michel Foucault em Vigiar e punir (1975), em que poder-se-ia</p><p>assinalar um caminho para o abolicionismo, ao qual voltaremos.</p><p>Para Foucault, o poder punitivo não é tanto o negativo da</p><p>prisionização, como o positivo, em que o modelo panóptico se estende a</p><p>toda a sociedade sob a forma de vigilância. Nisso ele tem toda a razão,</p><p>porque o mero poder de encerrar um número sempre muito reduzido, em</p><p>relação à população total, de pessoas dos estratos mais subordinados da</p><p>sociedade não importa o exercício de um poder politicamente muito</p><p>significativo: o importante é que, sob esse pretexto, todos nós que estamos</p><p>soltos somos vigiados.</p><p>A Escola de Bolonha fez um reparo a Foucault, porque, na colocação</p><p>deste, a disciplina aparece descolada. Ele não a relaciona à mudança</p><p>operada no sistema produtivo, ao qual os estudiosos de Bolonha atribuem</p><p>as reformas penais do Iluminismo.</p><p>À margem disso, nos anos 1970, houve manifestações do marxismo</p><p>criminológico nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha. Seus expositores</p><p>mais conhecidos nos Estados Unidos são Richard Quinney e William</p><p>Chambliss.</p><p>Ilustração 18</p><p>Quinney afirmou que os delinquentes são rebeldes inconscientes</p><p>contra o capitalismo e o poder punitivo é o instrumento de repressão a</p><p>serviço das classes hegemônicas. Se o criminoso age brutalmente contra a</p><p>vítima, isso é resultado da forma em que ele foi brutalizado. Com isso,</p><p>Quinney inaugura uma espécie de visão romântica dos delinquentes.</p><p>Por certo, esse autor estava muito próximo da nova esquerda (New</p><p>Left) dos protestos estudantis de Berkeley e ficou deprimido com seu</p><p>fracasso. As autoridades universitárias não viram com bons olhos seu</p><p>movimento e optaram por dissolver seu grupo. De qualquer maneira, foi</p><p>um fenômeno que chamou a atenção quando ocorreu e, exageros à parte,</p><p>semeou bastantes dúvidas acerca das racionalizações correntes.</p><p>Chambliss defendeu uma tese menos linear. Ainda que considere o</p><p>poder punitivo como um instrumento do capitalismo, este o usaria para</p><p>adiar até onde fosse possível o colapso final do sistema, que considera</p><p>inevitável. Em linhas gerais, e pese os matizes, esse marxismo</p><p>criminológico estadunidense defende uma racionalidade do delito, como</p><p>resposta às contradições do capitalismo. Quem nos assalta na rua ou nos</p><p>bate a carteira, estaria, sem sabê-lo, agindo racionalmente diante das</p><p>contradições do sistema.</p><p>Como entre as ideias da New Left encontrava-se a crença de que os</p><p>intelectuais podiam conscientizar os delinquentes e marginais a respeito</p><p>da racionalidade de sua função, alguma coisa disso está presente nessas</p><p>construções. Com isso, iam além de Marx, que, como vimos, desprezava</p><p>olimpicamente o Lumpenproletariat, enquanto a New Left acreditava em</p><p>seu potencial revolucionário. Apesar de sua ingenuidade e de que Marx</p><p>lhes houvesse dito coisas menos bonitas, não podemos negar a</p><p>generosidade de seu pensamento, levando em conta o contexto em que se</p><p>expressou.</p><p>A criminologia marxista britânica teve muito mais êxito e se expandiu</p><p>desde a publicação, em 1973, da Nova criminologia de Ian Taylor, Paul</p><p>Walton e Jock Young. Esta obra alcançou um êxito singular porque a</p><p>primeira parte é uma cuidada síntese da criminologia teórica desde o</p><p>Iluminismo, resgatando, a partir de Durkheim, os elementos críticos de</p><p>cada corrente, com conhecimento e aguda penetração sociológica.</p><p>Em seguida, analisam Marx e Engels e destacam que, como vimos,</p><p>Marx ocupou-se apenas tangencialmente da questão criminal, razão pela</p><p>qual concluem que a teoria criminológica marxista deve ser construída a</p><p>partir dos princípios e não das manifestações incidentais do próprio Marx.</p><p>Se o marxismo nos oferece algo útil para apreciar as formas em que o</p><p>conflito social é gerado e mantido – escrevem – e em que este ajuda a</p><p>determinar o tipo e a quantidade de atividade delitiva e desviada em geral,</p><p>é mais provável que o encontremos na teoria geral de Marx do que nas</p><p>afirmações mais concretas dadas como resposta a questionamentos</p><p>empíricos isolados.</p><p>Uma cabal teoria marxista do desvio – afirmam – teria por fim explicar</p><p>como determinados períodos históricos, caracterizados por conjuntos</p><p>especiais de relações sociais e meios de produção, produzem tentativas dos</p><p>econômica e políticamente poderosos em ordenar a sociedade de</p><p>determinada maneira. Ênfase maior iria para a pergunta que Howard</p><p>Becker formula (mas não examina), a saber, quem impõe a norma e para</p><p>o quê?</p><p>Eles consideram que nenhuma teoria do desvio conseguiu isso e que a</p><p>consequência seria vincular as teses da criminologia liberal às teorias da</p><p>estrutura social que estão implícitas no marxismo ortodoxo.</p><p>Esse pensamento também se afasta do desprezo de Marx pelo</p><p>Lumpen, atribuindo-lhe caráter dinamizador, o que permite entender que,</p><p>em geral, os criminólogos marxistas do Primeiro Mundo que escreviam em</p><p>plena sociedade de consumo haviam perdido a confiança na força</p><p>dinamizadora e revolucionária do proletariado (segundo eles, adormecida</p><p>pelo welfare State) e a depositavam na marginalização social.</p><p>A criminologia radical promoveu a criação, tanto na Europa quanto</p><p>na América, de grupos de estudos que aglutinaram os criminólogos dessa</p><p>tendência e, em alguns países, os críticos em geral. Houve um importante</p><p>grupo europeu, outro italiano, grupos británicos, um círculo de jovens</p><p>criminólogos alemães etc. Em 1981, por iniciativa da criminóloga</p><p>venezuelana Lola Aniyar de Castro, proclamou-se no México o Manifesto</p><p>do Grupo Latino-Americano de Criminologia Crítica, subscrito por ela</p><p>(professora da Universidade de Zulia), Julio Mayaudon (da Universidade</p><p>de Carabobo), Roberto Bergalli (exilado e professor em Barcelona) e</p><p>Emiro Sandoval Huertas (de Bogotá, assassinado no massacre da Corte</p><p>Suprema, em 6 de novembro de 1985).</p><p>27. Na direção do abolicionismo</p><p>e do</p><p>minimalismo</p><p>Era natural que a obra de Goffman causasse certa impressão na</p><p>psiquiatria, visto que se baseava na experiência manicomial das</p><p>instituições totais. Da crítica ao manicômio passou-se rapidamente à da</p><p>psiquiatria e daí à crítica radical de todo o sistema psiquiátrico, o que se</p><p>convencionou chamar de antipsiquiatria.</p><p>Todo o movimento antipsiquiátrico foi uma crítica radical ao controle</p><p>social repressivo exercido à margem do sistema penal formal. O poder</p><p>punitivo reveste-se de muitas formas e já vimos o efeito do acordo entre</p><p>médicos e policiais que acabou nos campos de concentração nazistas e</p><p>outros não tão notórios, mas nem por isso menos letais.</p><p>Se nos colocassem diante da possibilidade de carregar uma etiqueta</p><p>negativa, dando-nos a opção entre a de criminalizado ou de</p><p>psiquiatrizado, se bem o último evoque um sentimento de pretensa</p><p>piedade (e o primeiro oculta o de vingança), o certo é que o de</p><p>criminalizado seria preferível, porque pelo menos não nos poderia ser</p><p>negado o direito de defesa nem de denunciar os abusos cometidos</p><p>conosco. Já ao psiquiatrizado até esses direitos são negados, sob o</p><p>argumento puro e simples de que o pobre está louco, não sabe o que faz,</p><p>tem que ser tutelado, tem de ser protegido de si mesmo.</p><p>Não foi à toa que um conhecido psiquiatra húngaro radicado nos</p><p>Estados Unidos, Thomas Szasz, escreveu um interessantíssimo livro</p><p>comparando o sistema psiquiátrico à Inquisição e afirmando que a</p><p>medicina substituiu a teologia, o médico, o inquisidor e o paciente, a</p><p>bruxa. Tudo o que o paciente alegar contra sua condição de doente não</p><p>será mais do que prova de sua doença, a exemplo do que acontecia com</p><p>o herege: pobre não tem consciência da doença.</p><p>Na corrente antipsiquiátrica alistaram-se autores famosos nas décadas</p><p>de 1970 e 1980, como o italiano Franco Basaglia, o escocês Ronald Laing,</p><p>o inglês David Cooper, o mencionado Szasz e muitos outros, que</p><p>fundaram em 1975, em Bruxelas, uma Rede Internacional de Alternativa à</p><p>Psiquiatria.</p><p>A ideia de vários desses antipsiquiatras era que a doença mental é</p><p>uma resposta política, ou seja, o ser humano, diante das contradições do</p><p>poder, se encaminha em direção à loucura ou à revolução e, portanto, não</p><p>se deve matar o potencial subversivo da loucura, e sim politizá-lo para</p><p>converter o louco em um agente de mudança social.</p><p>A extrema radicalização dessas posições, da mesma forma que as</p><p>referidas ao próprio sistema penal formal, pode levar à impotência, visto</p><p>que é óbvio que há algo a fazer frente a um esquizofrênico que fica</p><p>imóvel como um móvel no extremo de seu autismo psicótico (hoje há</p><p>poucos, é certo) e outros tantos padecimentos em que não se pode deixar</p><p>de reconhecer que o paciente sofre.</p><p>Não bastará explicar que seu sofrimento é uma reação às contradições</p><p>do poder, porque o catatônico não vai se inteirar disso. Não obstante,</p><p>deixando de lado o extremismo que pode levar à imoblidade, o certo é</p><p>que esse movimento contribuiu amplamente para que os direitos dos</p><p>pacientes psiquiátricos fossem levados em consideração, abrindo um</p><p>campo de debate que de modo nenhum se fechou.</p><p>Se bem que os psicofármacos tenham eliminado as camisas de força e</p><p>as celas acolchoadas e quase não se usa o choque elétrico (que era o mais</p><p>parecido ao eletrochoque), o atual jaleco químico é distribuído com</p><p>incrível generosidade à população. A consequência desse abuso é que</p><p>tende a suprimir toda resistência e tolerância à dor, quando sabemos que</p><p>existem os inevitáveis e não é de modo algum saudável sua simples</p><p>supressão psicofarmacológica nem a generalização da anestesia diante dos</p><p>sofrimentos socialmente condicionados.</p><p>O resultado prático mais importante da antipsiquiatria foi a</p><p>desmanicomialização, ou seja, a redução da institucionalização ao</p><p>mínimo, para evitar a deterioração da pessoa.</p><p>Como nunca faltam os espertos ou perversos que tudo desvirtuam,</p><p>este generoso movimento de desmanicomialização acabou sendo usado</p><p>por políticos imorais para reduzir o gasto na atenção psiquiátrica e por</p><p>delinquentes corruptos para tentar fazer negociatas imobiliárias com os</p><p>edifícios e terrenos dos manicômios. Isso, porém, não pode ser imputado</p><p>à antipsiquiatria, e sim somente à necessidade de ficarmos atentos às</p><p>contradições do poder, que não são só aquelas que os antipsiquiatras</p><p>imaginaram.</p><p>Paralelamente à abolição do manicômio e à antipsiquiatria, e com</p><p>referência ao sistema penal formal, abriu-se caminho a um complexo</p><p>movimento de abolicionismo penal, que podemos denominar novo</p><p>abolicionismo, para distingui-lo do velho, que era o dos teóricos</p><p>anarquistas.</p><p>Embora tenha tido como antecedente o livro do professor de</p><p>criminologia de Genebra Paul Reiwald, intitulado A sociedade e seus</p><p>criminosos e publicado em 1948, sua obra não foi compreendida quando</p><p>foi lançada, talvez também devido à precoce morte do autor, razão pela</p><p>qual o novo abolicionismo viria a eclodir nas décadas de 1970 e 1980.</p><p>Nesses anos, recebeu um notório impulso com os trabalhos de Michel</p><p>Foucault, embora este não se proclamasse abolicionista, pois seu</p><p>pensamento resiste às classificações e ele mesmo procurou, durante toda</p><p>sua vida, evitar os encasulamentos.</p><p>Não tem muito sentido selecionar aspectos particulares da crítica de</p><p>Foucault, porque ela impactou de tal modo as ciências sociais e a</p><p>criminologia que ao longo dessas páginas estamos vendo sua clara marca</p><p>transversal. Os filósofos discutirão durante muito tempo as ideias de</p><p>Foucault, em especial sua concepção antropológica, mas nas ciências</p><p>sociais suas contribuições estão acima de qualquer avaliação e não estão</p><p>necessariamente soldadas com esta, que é o principal ponto de discussão</p><p>no campo da filosofia pura.</p><p>O novo abolicionismo surgiu quase inteiramente de movimentos e</p><p>organizações que se ocupavam dos direitos dos presos e pelas quais</p><p>criminólogos e outros acadêmicos se interessaram. Conforme essa</p><p>experiência, eles passaram a teorizar e a postular a abolição da prisão e</p><p>finalmente do sistema penal. Alguns desses movimentos, que surgiram na</p><p>Europa nos anos 60 do século passado, converteram-se em verdadeiras</p><p>organizações e foram imitados mais timidamente em outras latitudes.</p><p>Os primeiros foram os movimentos escandinavos: o KRUM sueco</p><p>(1965), o KRIM dinamarquês (1967) e o KROM norueguês (1968). Eles</p><p>foram seguidos em 1970 pelo RAP britânico (Radical Alternatives to</p><p>Prison), em 1971 pela Liga Holandesa COORNHERT, pelo grupo alemão</p><p>de Bielefeld, pelo Liberarsi do carcere italiano e pelo Group d’information</p><p>sur les prisions (GIP) francês. No Canadá, o impulso mais importante veio</p><p>do campo religioso, dos quakers. Cabe notar que depois da ditadura</p><p>argentina, organizou-se algo semelhante em Buenos Aires, através de uma</p><p>ONG, o SASID (Servicio de Assistência Social Integral ao Detenido), que</p><p>sobreviveu alguns anos. Não podemos aqui segui-los em detalhe, mas foi</p><p>um conjunto importante e demostrativo de uma tônica humanista muito</p><p>interessante. Se algum de vocês quiser se aprofundar em sua história e</p><p>ideologia, há em espanhol um livro de Iñaki Rivera Beiras (Abolir o</p><p>transformar?, Buenos Aires, 2010) que se ocupa do tema.</p><p>Participaram dessas organizações acadêmicos de prestígio, como</p><p>Michel Foucault, no GIP, Louk Hulsman e Herman Bianchi, na Liga</p><p>Holandesa, Ruth Morris, no movimento quaker canadense, e Thomas</p><p>Mathiesen e Nils Christie, no KROM norueguês. Eles foram os principais</p><p>promotores teóricos do novo abolicionismo penal, que se institucionalizou</p><p>internacionalmente no ICOPA (International Conference on Penal</p><p>Abolition), que promove congressos bianuais em diferentes países do</p><p>mundo.</p><p>O pensamento de Louk Hulsman foi sintetizado em um livro escrito</p><p>em colaboração com Jacqueline Bernat de Celis (Peines perdues, Le système</p><p>pénal em question, Paris, 1982), no qual evidencia a irracionalidade do</p><p>poder punitivo e, de certa forma, sua derivação teológica, o que o vincula</p><p>ao posicionamento de Szasz em psiquiatria. Cabe precisar que Hulsman</p><p>era professor emérito da Universidade de Rotterdam e o líder visível do</p><p>documento sobre descriminalização do Conselho de Europa de 1980. No</p><p>ano de seu falecimento – 2009 – havia sido indicado como candidato ao</p><p>Prêmio Nobel da Paz, por ter promovido as primeiras iniciativas de</p><p>política de drogas na Holanda.</p><p>Quanto a Nils Christie, sua obra mais conhecida em espanhol é Los</p><p>límites del dolor (1981), cuja tese central é que, até o presente, o poder</p><p>punitivo inflige intencionalmente dor, e por isso ele postula alternativas e</p><p>não meras limitações. O marco ideológico de Christie é mais da</p><p>antropologia cultural. Em sua bibliografía posterior, ele destaca os perigos</p><p>do modelo estadunidense das últimas décadas, daí o sugestivo subtítulo de</p><p>uma de suas obras: Rumo ao gulag estilo occidental. Talvez o primeiro</p><p>livro da nova onda abolicionista seja o do norueguês Thomas Mathiesen,</p><p>The Politics of Abolition (1974), no qual narra sua experiência no KRUM ao</p><p>longo de vários anos. Embora sua obra participe do campo ideológico do</p><p>marxismo não institucionalizado, não se submete a ele, forçando os fatos</p><p>verificados com sua experiência. Daí que tenha várias contribuições</p><p>interessantes, que abriram o caminho a posteriores elaborações.</p><p>Consideramos que a maior contribuição de Mathiesen é a</p><p>caracterização do poder punitivo como fagocitário em relação a todos os</p><p>movimentos que o enfrentam, aos quais procura comprometer e incluir</p><p>em seu discurso e ação. Daí advertir que estes devam manter uma estrita</p><p>posição de confrontação não contaminadora. Nesse sentido, constrói um</p><p>conceito que tem plena vigência: o de unfinished, o nunca finalizado.</p><p>Veremos mais adiante, quando fizermos referência à cautela, que esta</p><p>deve operar como um unfinished, ou seja, um caminho para a contenção</p><p>do poder punitivo nunca de todo acabado.</p><p>Entre todos os personagens humanamente incríveis do novo</p><p>abolicionismo destacou-se Ruth Morris, socióloga canadense, de</p><p>personalidade muito interessante, tanto enquanto teórica quanto como</p><p>ativista. Sua obra mais difundida foi Penal Abolition: The Practical Choice</p><p>(1995), na qual, entre outros pontos, afirma que a fé no poder punitivo é</p><p>uma religião. Acreditamos que essa ideia é muito interessante, tendo em</p><p>conta que hoje se atribui ao poder punitivo uma onipotência que não é</p><p>deste mundo, razão pela qual se converteu em um verdadeiro ídolo e seu</p><p>culto, em uma idolatria. Seria bom se aqueles que, a partir das distintas</p><p>religiões, o adoram, refletissem acerca da possibilidade de que esse culto</p><p>não lhes faça incorrer num gravíssimo erro dogmático. Morris foi membro</p><p>ativo da Religious Society of Friends (quakers) e embarcou todo seu grupo</p><p>no abolicionismo penal.</p><p>A pergunta inevitável quando se defende o abolicionismo é o que</p><p>colocar no lugar do sistema penal? Os novos abolicionistas propõem</p><p>soluções de acordo com todos os outros modelos de solução de conflitos</p><p>aos quais fizemos referência: reparador, terapêutico, conciliador etc. Por</p><p>minha parte, não creio que suas propostas sejam de política criminal, e</p><p>sim de política em geral, mas no sentido de uma profunda mudança</p><p>cultural e civilizatória. No fundo, a discussão poderia sintetizar-se na</p><p>questão da possibilidade de eliminação da vingança, o que nos leva a um</p><p>tema que, por sua complexidade, trataremos extensamente mais adiante, e</p><p>que não é nada simples de resolver.</p><p>O abolicionismo teve uma virtude, que compartilha com outras</p><p>correntes às quais nos referiremos mais adiante, mas que chega a seu</p><p>máximo extremo com esses autores e que consiste em desnaturalizar o</p><p>poder punitivo.</p><p>Na verdade, tal como Berger e Luckmann explicam, há muitas coisas</p><p>que nos são tornadas naturais porque subjetivamente coincidimos,</p><p>compartilhamos a mesma opinião em relação a coisas que nos parecem</p><p>que sempre existiram ou que deveriam ter existido. Desde o bife de</p><p>chorizo[11] até a pizza com fainá,[12] tudo nos parece natural e não nos</p><p>perguntamos porque motivo elas existem: está ali porque tinha que estar</p><p>ali e pronto. Com o poder punitivo acontece o mesmo: diz-se que ele</p><p>sempre existiu, embora, como vimos, isso não seja certo. Está porque tem</p><p>que estar. Isso determina que todo aquele que o critica deve explicar por</p><p>o que o faz, enquanto que o poder punitivo não precisa explicar nada</p><p>acerca de sua existência.</p><p>Imagino que o mesmo terá acontecido com a escravidão, com a</p><p>tortura, com a monarquia e com tantas outras coisas tão pouco naturais,</p><p>como a pena de morte, a prisão ou o próprio poder punitivo. Isso é o que</p><p>muda com a crítica abolicionista: é o poder punitivo que deve justificar sua</p><p>existência e não o inverso. E a verdade é que, quando fazemos isso,</p><p>quando tratamos de justificar a existência do poder punitivo, ainda que</p><p>não sejamos abolicionistas e tenhamos diferenças para com as soluções e</p><p>as vejamos como colocações não criminológicas e sim diretamente</p><p>civilizatórias, nos encontramos em meio a dificuldades, e o abolicionismo</p><p>é uma das principais fontes dessas dificuldades.</p><p>Há, por outros caminhos, propostas menos radicais e inclusive críticas</p><p>do abolicionismo, visto que não postulam a abolição do sistema penal, e</p><p>sim sua redução. Trata-se daquilo que se conhece como minimalismo</p><p>penal, cujos autores mais conhecidos, ainda que por diferentes vias, são o</p><p>inesquecível Alessandro Baratta, o querido Luigi Ferrajoli e a Escola de</p><p>Bolonha em geral, com Massimo Pavarini e outros tantos.</p><p>Com diferenças, esses autores destacam que o poder punitivo deveria</p><p>limitar-se a conflitos muito graves e que comprometem maciçamente bens</p><p>básicos (como a vida ou o meio ambiente) e resolver os conflitos de</p><p>menor magnitude por outros caminhos. É inquestionável que, embora</p><p>nossa cultura não admita a decisão não punitiva de alguns conflitos, isso</p><p>não acontece nem muito menos com todo o imenso campo abarcado pela</p><p>projeção da criminalização secundária.</p><p>Não obstante, cabe assinalar que essas propostas de direitos penais</p><p>mínimos exigem também uma profunda transformação do poder que hoje</p><p>caminha em sentido diametralmente oposto, ainda que, a exemplo do</p><p>abolicionismo, tenham a virtude de inverter a questão: uma vez mais é o</p><p>poder punitivo, como artifício humano, que deve justificar sua existência e</p><p>extensão.</p><p>Essas posições, que exigem profundas mudanças sociais e</p><p>civilizatórias, apresentam o inconveniente de que é muito difícil dar</p><p>respostas concretas a problemas urgentes, o que não é funcional em uma</p><p>região onde a violência do poder punitivo é muito alta ou, ao menos,</p><p>constitui uma ameaça constante.</p><p>Isso não significa, muito menos, que devamos subestimá-las, porque</p><p>oferecem contribuições que nos ajudam a refletir sobre nossa realidade.</p><p>Pessoalmente, entendo que a posição de Baratta e toda sua escola</p><p>minimalista, da mesma forma que o abolicionismo, tornam inevitável a</p><p>questão da legitimação do poder punitivo e a pergunta sobre a que se</p><p>devia a incapacidade do direito penal para atribuir uma função à pena.</p><p>Hulsman prova que o modelo punitivo não resolve os conflitos e,</p><p>consequentemente, nos impõe a tarefa de buscar, no campo das ciências</p><p>sociais, uma explicação para a sua permanência no tempo. O unfinished</p><p>de Mathiesen, por sua vez, é uma ideia que pode oferecer um fundamento</p><p>consistente para uma criminologia cautelar e para refundar o direito penal</p><p>liberal a partir de uma perspectiva mais sólida.</p><p>Ilustração 19</p><p>28. Da criminologia crítica passou-se à</p><p>debandada?</p><p>Alguns criminólogos reacionários afirmam que a crítica criminológica</p><p>fracassou e que ela não passou de um momento de euforia ou de uma</p><p>moda superada. É claro que, para isso, tomam em consideração as versões</p><p>mais radicais e ingênuas, às vezes fáceis de ridicularizar.</p><p>Em seu lugar, eles propõem uma criminologia administrativa que,</p><p>falando abertamente, pretende que a palavra da academia se limite a</p><p>discutir uma técnica eficaz de contenção dos pobres.</p><p>Não nos devemos enganar com os livros bem encadernados e os</p><p>cursinhos de fim de semana, próprios de uma criminologia sem história</p><p>nem passado e que, além do mais, pretende mostrar-se independente da</p><p>política.</p><p>O certo é que entre os criminólogos mais sérios o viés crítico não</p><p>desapareceu; pelo contrário, aprofundou-se, ganhou em realismo e</p><p>arquivou as ingenuidades. O que é o que foi chamado de realismo? De</p><p>onde provém o impulso para superar a crítica com mais crítica?</p><p>É muito simples: o que mudou é o quadro do poder planetário. Os</p><p>criminólogos críticos dos anos 1970 nos países centrais viam-se às voltas</p><p>com um poder punitivo próprio dos Estados do bem-estar e de suas</p><p>sociedades de consumo, com a sociologia sistêmica de Parsons e a</p><p>economia de Keynes.</p><p>Para nós, latino-americanos, isso parecia um tanto estranho, porque</p><p>nossos Estados-providência, incipientes e nunca completados, criados</p><p>pelos populismos que ampliaram nossas bases de cidadania real, haviam</p><p>sido desbaratados brutalmente ou estavam em vias de sê-lo.</p><p>A crítica criminológica central não correspondia aos nossos sistemas</p><p>penais, pois no nosso lado montava-se um poder punitivo que só buscava</p><p>conter os excluídos. Eram impostos a nós Estados policiais com ditaduras</p><p>ou com políticos corruptos pós-modernos. Não tinha sentido colocar em</p><p>crise, aqui, a ideia de ressocialização, porque nossas prisões tendiam a</p><p>ser, ou já eram, campos de concentração, nossas polícias eram forças de</p><p>ocupação territorial, substituídas com frequência por militares, o número</p><p>de presos à disposição do Poder Executivo competia com o de presos por</p><p>ordem judicial e, além do mais, 70 ou 80% destes últimos estavam presos</p><p>por via das dúvidas, porque eram processados e não condenados.</p><p>Desde os anos 1970 as coisas mudaram: o Estado policial avançou</p><p>sobre os países centrais. Friedman e Hayek foram os novos gurus do</p><p>festival de mercado; Reagan, Thatcher e Bush marcaram o caminho para o</p><p>Estado que tem por função única manter os pobres dentro dos limites;</p><p>Roosevelt era pouco menos que um comunista desprezível, Keynes era</p><p>um marxista irresponsável, toda gestão e intervenção estatal era ineficiente</p><p>e corrupta; o mercado era o único racional no mundo; o Estado devia</p><p>deixar a máxima liberdade para permitir a eliminação dos mais débeis.</p><p>Herbert Spencer estaria feliz com um mundo como esse e afirmaria</p><p>que esse mundo não seria mais do que a confirmação de suas teorias;</p><p>poderia pedir a Satanás uma revisão extraordinária de seu julgamento. Há</p><p>raças inferiores, que somos nós, os habitantes dos países periféricos, e os</p><p>imigrantes e excluídos dos países centrais. As raças superiores, que são os</p><p>incluídos dos países centrais e seus procónsules designados nos</p><p>periféricos, devem defender-se dos inferiores. O Estado deve limitar-se a</p><p>manter a supremacía das raças superiores e não privar os inferiores de seu</p><p>direito à luta que os torne fortes e que permita que, de vez em quando,</p><p>algum deles pule a cerca, participando do Big Brother ou abriando espaço</p><p>em alguma negociata.</p><p>O brutal salto do sistema penal dos Estados Unidos, a exclusão</p><p>definitiva do criminalizado e de sua família, a pena desproporcional pela</p><p>menor infração, de acordo com a tolerância zero do demagogo municipal</p><p>de Nova York (que cobrou uma quantia exorbitante aos ingênuos</p><p>empresários mexicanos para proferir-lhes uma conferência absurda), não</p><p>são mais que um terrorismo de Estado contra os pobres, um modelo</p><p>neonazista em marcha. O Estado policial é isso, seu pensamento nu e cru</p><p>diz para os negros ficarem em seu lugar, nós mandamos e cortamos a</p><p>cabeça do negro que incomodar. (A isso dever-se-ia acrescentar: Os índios</p><p>do sul devem produzir cocaína e matar-se para não nos mandar mais do</p><p>que o necessário para manter o preço alto; nós nos ocupamos de que só nos</p><p>chegue a cocaína que podemos distribuir a um preço alto e ficarmos com o</p><p>maior lucro e o benefício da reciclagem).</p><p>Vocês têm razão se, por acaso, a clareza dessas expressões lhes</p><p>chamar a atenção, dado que hoje eles não se manifestam dessa maneira,</p><p>pois não têm a sinceridade do velho Spencer, de Garofalo, dos positivistas</p><p>racistas. Os velhos racistas pelo menos eram sinceros; autênticos oligarcas,</p><p>falavam claro, sem subterfúgios, não posavam de democráticos nem de</p><p>generosos, eram abertamente elitistas e confessavam isso. Em que mundo</p><p>vivemos que nos permite encontrar algum motivo para termos saudade</p><p>dos velhos racistas?</p><p>Ilustração 20</p><p>Hoje as coisas são mais complicadas e é mais fácil confundir-se.</p><p>Agora, quando o Estado policial chegou como um bumerangue ao próprio</p><p>centro, tanto no centro como na periferia há classes médias</p><p>desclassificadas, desconcertadas, anômicas (no sentido original de</p><p>Durkheim), ameaçadas pelos de cima, que lhes cobram fidelidade, e pelos</p><p>de baixo, aqueles que consideram seus únicos e mortais inimigos. São</p><p>pasto fácil para internalizar a publicidade midiática de um eles inimigo,</p><p>composto de pobres, imigrantes e adolescentes de bairros precários.</p><p>Todavia, não se trata apenas da classe média empobrecida pela</p><p>demolição do Estado do bem-estar. Insistimos em que o mais astuto deste</p><p>spencerianismo dos dias de hoje é fazer com que os pobres se matem</p><p>entre si, que a vitimização avance entre os próprios excluídos, ao que se</p><p>acrescenta que a polícia também seleciona entre eles.</p><p>A técnica de controle dos excluídos responde à ideia de que os negros</p><p>se matem entre eles, assim não incomodam. Essa é a lógica não confessada</p><p>do racismo de nossos dias. E ela é eficaz, porque isso permite que</p><p>inclusive entre os próprios excluídos tenha êxito a publicidade televisiva</p><p>que os erige em um eles inimigos da sociedade.</p><p>Voltaremos a esse ponto com maiores detalhes, mas não posso deixar</p><p>de assinalar isso agora, porque do contrário parece que a criminologia</p><p>crítica desapareceu, quando na realidade aconteceu exatamente o</p><p>contrário: ela se tornou mais realista e profunda, eclodindo em várias</p><p>direções.</p><p>Os criminólogos se acham agora diante de uma realidade do poder</p><p>punitivo completamente diferente da dos anos 1970. Não poderiam</p><p>continuar criticando um poder punitivo que já não se exerce da mesma</p><p>forma. A brutal regressão dos direitos humanos por obra do avanço do</p><p>Estado policial – não mais na margem, e sim no próprio centro do poder</p><p>planetário – coloca a necessidade de ser mais realistas.</p><p>Os criminólogos centrais já não têm tempo para sentar-se à calçada de</p><p>um café elegante de Paris a fim de discutir a possível revolução que os</p><p>faça despertar em uma sociedade igualitária; hoje eles têm também as</p><p>urgências que nós tivemos, os ameaçam os mesmos perigos e seu poder</p><p>punitivo corre o risco de ir-se assemelhando a cada dia mais ao nosso,</p><p>embora em alguns países centrais ainda esteja longe.</p><p>Como era de se esperar, os criminólogos centrais se desconcertaram,</p><p>porque tudo passa muito rápido, não há sequer mudança geracional</p><p>marcada, muitas vezes são os mesmos que ontem defendiam posições</p><p>radicais os que hoje devem mudar de critério. A brutal virada repressiva</p><p>dos Estados policiais instalados ou em vias de instalação representou para</p><p>eles um forte murro de realismo que, como todo murro, levou alguns ao</p><p>nocaute, mas em outros provocou uma considerável descarga de</p><p>adrenalina crítica.</p><p>A nós isso cai bem, mas não, bem entendido, por nos alegrar com a</p><p>desgraça alheia. Ainda que não tenhamos na América Latina o mesmo</p><p>desenvolvimento teórico da criminologia central, sempre lidamos com o</p><p>poder punitivo nu e cru com o qual eles agora se defrontam e, por</p><p>conseguinte, os elementos críticos que nos chegam mostram-se muito mais</p><p>adequados aos fenômenos de poder que devemos controlar do que os</p><p>que a crítica ao poder punitivo do Estado do bem-estar nos fornecia.</p><p>Em décadas passadas, quando expúnhamos nossa realidade no centro,</p><p>não deixava de haver um certo tom de bom, são países em vias de</p><p>desenvolvimento. Hoje temos problemas comuns e, além do mais, a</p><p>famosa globalização facilita a comunicação.</p><p>Vale lembrar que, quando as brutalidades colonialistas aconteciam na</p><p>África ou na América do Sul, elas eram atribuídas, no centro, à</p><p>inferioridade dessas sociedades, mas, quando o mesmo poder</p><p>neocolonialista deu a volta e as brutalidades passaram à Europa, esse</p><p>discurso não pôde continuar vigindo e a comunidade internacional teve</p><p>necessidade de declarar solenemente uma obviedade: todo ser humano é</p><p>pessoa. O discurso atual não é o mesmo, claro, mas corre o risco de sê-lo.</p><p>A necessidade de aprofundar a realidade do poder punitivo fez com</p><p>que os olhares se dirigissem para diferentes direções e se encontrassem</p><p>com outras que já haviam reparado nesses fenômenos do poder. Por isso,</p><p>quando lançamos um olhar sobre a crítica criminológica de nossos dias,</p><p>muito longe de acreditar que ela não existe, o que vemos é que debandou</p><p>em diferentes sentidos.</p><p>Se bem que isso seja, a princípio, desconcertante, é muito saudável,</p><p>porque o poder punitivo é um fenômeno muito complexo, que não pode</p><p>ser encarado com simplificações que satisfazem o acadêmico porque</p><p>ficam redondinhas e fecham, mas que não incomodam a realidade do</p><p>poder.</p><p>Tampouco se trata de uma dissolução, mas antes abrir a cabeça,</p><p>incorporando outras visões críticas. Por último, essa saraivada de olhares</p><p>críticos não é um caos, como a princípio parece, mas sim, quando olhado</p><p>bem, é perfeitamente lógico frente à necessidade de encarar a agressão</p><p>violenta de um poder punitivo desenfreado e brutal.</p><p>Quando, diante dessa necessidade, os criminólogos se perguntaram o</p><p>que se estava deixando de lado e por que não haviam se apercebido do</p><p>perigo antes, seus olhares se voltaram para quatro direções básicas e que,</p><p>no fundo, não são excludentes.</p><p>(a) Por um lado, ao tratar de explicar o poder punitivo e centrar a</p><p>atenção em seu exercício, subestimou-se o dano real que o delito</p><p>provoca. O delito tem vítimas e a distribuição da vitimização é tão seletiva</p><p>quanto a da criminalização. Não por acaso as classes subalternas são</p><p>vítimas da publicidade midiática vingativa, pois são as mais vitimizadas.</p><p>Por esse caminho do dano real, a crítica se fixa na vitimologia e na Grã-</p><p>Bretanha alguns dos próprios críticos marxistas de outrora propõem um</p><p>realismo de esquerda.</p><p>(b) Por outro lado, é claro que a criminologia midiática vingativa, ao</p><p>construir o eles inimigo mostrando o delito comum como o único perigo,</p><p>provoca o que se chama de pânico moral (conceito que se deve a Stanley</p><p>Cohen e Jock Young), medo ao delito e a nada mais, e, por conseguinte,</p><p>estão sendo ocultados outros perigos e danos em ação, muito mais graves</p><p>e em curso.</p><p>Inventa-se uma sociedade de risco, na qual o único risco é a agressão</p><p>do adolescente do bairro pobre, como se não houvesse outros danos</p><p>sociais em curso. É algo assim como a campanha para não usar</p><p>desodorante em aerosol porque, com isso, vamos evitar que a camada de</p><p>ozônio seja furada, enquanto se queimam, irresponsavelmente, bilhões de</p><p>toneladas de petróleo.</p><p>Isso levou os olhares para mais além da criminologia, isto é, a</p><p>procurar fazer um saber do dano social (é o paradigma do dano social</p><p>proposto por alguns criminólogos ingleses – o social harm approach), mas</p><p>também para as contribuições que a crítica social feminista vinha fazendo</p><p>e, por último, para algo que se ia colocando em relevo, e que a</p><p>criminologia havia deixado de lado de modo pouco menos que</p><p>inexplicável: o genocídio. O fenômeno dos massacres foi estudado à</p><p>margem da criminologia e não pode deixar de impactá-las.</p><p>(c) Como é óbvio, o renascimento violento do spencerianismo e seu</p><p>Estado policial não podia deixar de ser objeto de análise e crítica, de</p><p>forma direta, por parte dos criminólogos centrais que assistiam a esse</p><p>novo parto letal. Em consequência, surgiu toda uma corrente que se</p><p>ocupa de analisar e criticar a manifestação repressiva deste Estado policial</p><p>e que a batizou de neopunitivismo.</p><p>(d) Por último, todo o panorama mundial contemporâneo configura</p><p>uma paisagem de enorme agressividade, que provoca interrogações que se</p><p>situam além da sociologia e da ciência política e cujas respostas levam a</p><p>mergulhar em outras palavras da academia, como são as das disciplinas</p><p>psi, da antropologia e da etnologia. Como podemos ver, a debandada não</p><p>é anárquica, mas sim responde a atitudes que eram de se esperar, porque</p><p>são bastante razoáveis, dadas as novas circunstâncias do poder planetário.</p><p>Esse mero enunciado prova que nada é mais falso do que afirmar que</p><p>a crítica desapareceu, quando está claro que ela só se diversificou para se</p><p>aprofundar, o que é muito mais adequado à urgência para se chegar a</p><p>uma melhor abordagem do fenômeno de poder repressivo. Os</p><p>criminólogos se perguntam, pura e simplesmente:</p><p>Por que a criminologia midiática se instala entre os pobres? Porque há</p><p>um dano real do delito, do qual nos ocupamos pouco. Pois bem, vamos</p><p>estudar as vítimas.</p><p>O que a criminologia midiática se empenha em ocultar do público com</p><p>o pânico moral à agressão do adolescente de bairro precário? Pois bem,</p><p>vamos estudar os danos sociais que não são mostrados.</p><p>O que é este neopunitivismo brutal? É claro que se trata de uma</p><p>questão exclusivamente política; pois bem, é mister analisá-la e estudá-la.</p><p>A que se deve essa agressividade intraespecífica, que se coloca</p><p>manifestamente nesse momento do poder? Vamos perguntar a outros</p><p>sábios.</p><p>Como se pode ver, a academia não ficou louca nem renunciou à</p><p>crítica, e sim vai mais longe.</p><p>Passemos a lançar uma vista d’olhos sobre o panorama que cada uma</p><p>dessas quatro perspectivas oferece, ainda que brevemente, pois, na</p><p>realidade, essas contribuições da criminologia acadêmica atual nos</p><p>preparam para compreender o sentido da criminologia midiática e para</p><p>escutar melhor a palavra dos mortos, razão pela qual voltaremos, no curso</p><p>desses suplementos, a insistir muitas vezes nos aspectos de seu conteúdo</p><p>que nos permitem nos aproximar da realidade da questão criminal.</p><p>Não acreditem que seja uma descoberta integralmente pessoal o que</p><p>vou expor nos próximos suplementos e que, depois de ouvir atentamente</p><p>a palavra dos mortos, termina numa proposta de criminologia cautelar.</p><p>Ela é, em boa parte, o produto da aplicação dos instrumentos conceituais</p><p>que essa aparente saraivada das perguntas contemporâneas nos</p><p>proporciona.</p><p>Em alguma medida, o que exponho aqui resulta do uso sintético</p><p>desses elementos e de uma atenta observação da realidade cotidiana.</p><p>29. O dano real do delito: realismo de esquerda</p><p>e vitimologia</p><p>Em 1973, Jock Young era um dos autores da nova criminologia que</p><p>ensaiava uma recolocação radical a partir da perspectiva marxista. No</p><p>começo dos anos 1990 ele surprendeu, juntamente com John Lea, Richard</p><p>Kinsey e Roger Matthews, adotando um posicionamento que chamaram de</p><p>realismo de esquerda e cujo lema é levar o delito a sério, partindo da</p><p>constatação de que causa graves danos a vítimas das classes populares</p><p>urbanas, em especial às mulheres, que são as mais vulneráveis.</p><p>Embora essa volta seja atribuída políticamente a uma aproximação do</p><p>trabalhismo britânico, nós acreditamos que seja antes o resultado de uma</p><p>aproximação da realidade da vitimização.</p><p>As teorias macro têm o inconveniente óbvio de satisfazer explicações</p><p>acadêmicas enquadradas em marcos ideológicos prévios, mas não</p><p>oferecem nenhuma resposta para as vítimas concretas e seus parentes e</p><p>para as reclamações que estes e os vizinhos formulam aos políticos.</p><p>Creio que o contato mais elementar de um criminólogo acadêmico</p><p>com esta realidade não pode deixar de colocar em evidência a</p><p>necessidade urgente de fazer algo e de dar uma resposta, a não ser que</p><p>prefira que os impulsos de vingança, a criminologia midiática e os</p><p>políticos colocados de lado marchem cada vez mais na direção do modelo</p><p>do Estado policial e da repressivização neofascista dirigida em fim de</p><p>contas contra os excluídos.</p><p>É bastante claro que as colocações puras da criminologia crítica</p><p>radical, elaboradas a partir da academia sem contato com as vivências</p><p>cotidianas e sem investigação de campo, são úteis como marco de crítica,</p><p>mas que, ao recair nesse nível, aplainam o caminho para uma suposta</p><p>criminologia administrativa, que é a típica do Estado policial, contando</p><p>com a aprovação, quando não com o decidido apoio, dos próprios setores</p><p>contra os quais esse modelo de Estado políticamente se dirige.</p><p>Acredito piamente que essa verificação, do senso comum, foi</p><p>determinante para o chamado realismo de esquerda britânico que vem</p><p>propondo reformas ao sistema penal e assistencial de seu país, algumas</p><p>interessantes, ainda que nem todas transferíveis à realidade da nossa</p><p>latitude.</p><p>Entre as propostas concretas desses criminólogos, as mais</p><p>interessantes são as que se referem à polícia, colocando a alternativa entre</p><p>um modelo de polícia militar (que nós chamamos aqui de ocupação</p><p>territorial) e outro de polícia de consenso (que nós chamamos</p><p>comunitária).</p><p>Voltaremos a esse ponto quando nos ocuparmos dos segmentos do</p><p>sistema penal, com a advertência, que formulamos desde agora, de que</p><p>não se pode confundir uma polícia comunitária com uma ditadura ética,</p><p>com a intervenção de pessoas que não tenham nada a fazer senão</p><p>incomodar os jovens.</p><p>Ao centrar a atenção no dano real do delito não se pode deixar de</p><p>reparar na vitimologia, que não é uma ciência nem um saber autônomo,</p><p>mas uma linha de investigação que teve como antecedente a obra de Hans</p><p>von Hentig (que foi um criminólogo alemão antinazista e muito criativo) e</p><p>da qual considera-se fundador o criminólogo romeno radicado em Israel,</p><p>Benjamin Mendelsohn.</p><p>Inicialmente, a vitimologia se dedicava às vítimas de delitos comuns,</p><p>em especial a seu comportamento como determinante ou facilitador destes</p><p>delitos, mas hoje ampliou seu campo de observação até chegar quase a</p><p>abranger tudo o que levam em consideração aqueles que pretendem ir</p><p>mais além da criminologia e ocupar-se de todo o dano social. Um dos</p><p>mais destacados teóricos da vitimologia em nosso tempo foi o sempre</p><p>lembrado Antonio Beristain, que elaborou o conceito de macrovítimas, em</p><p>referência aos conflitos armados ou ao que se denomina “terrorismo”. Na</p><p>Argentina, esta perspectiva foi amplamente desenvolvida por Elías</p><p>Neuman, lamentavelmente falecido em 2012.</p><p>30. Os danos que a criminologia midiática</p><p>oculta</p><p>O feminismo é um forte movimento teórico e ativista com</p><p>desenvolvimento autônomo e em cujo seio se movem desde posições</p><p>radicais, inspiradas em marcos ideológicos preexistentes, até toda a gama</p><p>de possíveis matizes em torno do inegável fenômeno civilizatório da</p><p>subordinação da mulher.</p><p>No fundo do debate feminista, acreditamos encontrar o fundado temor</p><p>de que seu potencial transformador, que é enorme, possa ser neutralizado</p><p>por um pensamento falocêntrico ou, como dizem no bairro, machista,</p><p>suscetível de cooptá-lo.</p><p>Porém, indo além dos extremos a que esse temor pode conduzir, o</p><p>certo é que o feminismo comove as próprias bases do poder planetário,</p><p>tendo em conta, como vimos, que este se preparou hierarquizando as</p><p>sociedades colonizadoras mediante a regulação das relações sexuais para</p><p>erigir a seus primeiros sargentos na pirâmide do exército colonialista.</p><p>O temor das feministas não é outra coisa senão um capítulo</p><p>importantíssimo das armadilhas que todas as racionalizações do poder e</p><p>todas suas naturalizações nos estendem.</p><p>O feminismo trouxe dois conceitos – o de patriarcado e o de gênero –</p><p>que hoje são de uso corrente e sem os quais nos faltariam letras-chaves no</p><p>abecedário que usamos para descrever a hierarquização naturalizada que</p><p>o poder planetário nos vende.</p><p>Entende-se por patriarcado, para afirmar claramente, o domínio</p><p>machista e todas suas implicações. O gênero revela a principal armadilha</p><p>do patriarcado: a confusão de sexo com a o papel atribuído. O sexo é algo</p><p>anatômico, mas o gênero não tem nada a ver com a anatomia. A mulher</p><p>tecendo, cozinhando,esperando o marido, cosendo, não tem nada de</p><p>sexual, tratando-se, antes, de um conjunto de papéis culturalmente</p><p>atribuídos pelo poder patriarcal. Isso é o gênero.</p><p>Chamou sempre a atenção que o sistema penal se ocupasse quase</p><p>exclusivamente dos homens, mas isso não tem nada de estranho: no</p><p>exército da sociedade hierarquizada, os sargentos controlam a mulher e os</p><p>sargentos são controlados pelo poder punitivo, que só se ocupa das</p><p>mulheres quando elas se rebelam contra os sargentos. Este é o programa</p><p>original que provém da Idade Média e que, com matizes, se mantém em</p><p>vigor.</p><p>Por conseguinte, a criminologia guardou bastante silêncio acerca da</p><p>mulher, salvo alguns disparates positivistas, como o do equivalente de</p><p>Lombroso ou o estereótipo da mulher envenenadora.</p><p>Todavia, deixando de lado os disparates e também as discussões</p><p>estadunidenses tentando explicar o maior protagonismo da mulher, o</p><p>feminismo impôs correções à crítica criminológica ao destacar que se a</p><p>mulher tinha menor incidência na criminalização, o mesmo não sucedia</p><p>na vitimização. Isso tem lugar não apenas na delinquência de rua, mas</p><p>também nas vitimizações que são consequência direta da discriminação de</p><p>gênero, desde a violência familiar homicida até o tráfico de pessoas (antes</p><p>se chamava de brancas, curioso vício racista da escravidão).</p><p>Não houve uma crítica criminológica gay tão desenvolvida como a</p><p>feminista, embora já há muitos anos o britânico Gordon Taylor tenha</p><p>observado que em toda sociedade ocorre uma relação inversa entre o</p><p>patriarcalismo e a tolerância à homossexualidade.</p><p>De qualquer maneira, existem estudos importantes (como o de John</p><p>Boswell), muitas ridiculizações dos disparates positivistas (Jorge Salessi, na</p><p>Argentina), relatos da perseguição nazista (a rosa Winkel [13]), do processo</p><p>de Oscar Wilde (o de Gide, por exemplo), numerosas contribuições</p><p>literárias (Jean Genet à frente) e, é inegável, o peso da questão gay na</p><p>crítica de Michel Foucault.</p><p>Se bem que a vitimologia tenha colocado em relevo danos que não se</p><p>tinham levado suficientemente em conta, o feminismo chamou a atenção</p><p>sobre a metade da população esquecida pela criminologia, e se bem que</p><p>nossos</p><p>vizinhos tenham colocado os teóricos ingleses na terra, o</p><p>panorama das vítimas do poder mundial não estava de modo algum</p><p>completo. Stanley Cohen chamou a atenção para isso, o que chama de</p><p>sociologia da negação, que nos condiciona uma indiferença moral, em</p><p>seu livro, de 2001, Estados de negação.</p><p>Na obra, Cohen não se refere ao grosseiro negacionismo neonazista</p><p>da Shoá e similares, e sim, para exemplificá-lo claramente, àquilo que</p><p>protagonizamos enquanto olhamos, pela TV, o noticiário que nos mostra</p><p>massacres e continuamos molhando os pãezinhos no café com leite.</p><p>Seguindo este caminho, um grupo de ingleses (Paddy Hillyard,</p><p>Christina Pantazis, Steve Tomb e David Gordon) organizou um livro, em</p><p>2004, que propõe ir além da criminologia (assim se chama seu livro, com</p><p>o subtítulo Levando o dano a sério) e abranger todos os danos sociais do</p><p>poder: pobreza em massa, fome, violações em massa dos direitos</p><p>humanos, massacres estatais, mortes causadas por condições de trabalho,</p><p>por privilégio da heterossexualidade, por preferências nos nascimentos,</p><p>por guerra aos migrantes, por maus tratos infantis, por poluição, por</p><p>envenenamento de alimentos etc.</p><p>É indiscutível que o livro passa em revista dados aterradores, como</p><p>aquele que lembra que, embora em 11 de setembro de 2001 tenham</p><p>morrido 3.045 pessoas em Nova York, nesse mesmo dia também</p><p>morreram no mundo 24.000 pessoas de fome, 6.200 crianças de diarreia e</p><p>2.700 de sarampo.</p><p>É claro que nos acostumaram a considerar que o crime de Nova York</p><p>era evitável e as outras mortes eram inevitáveis, mas isso não é correto.</p><p>Segundo os cálculos da ONU, seriam necessários 13 bilhões de dólares</p><p>para resolver a fome e 40 bilhões para atender às necessidades básicas no</p><p>mundo (esta última cifra representa a metade do consumo de pizza nos</p><p>Estados Unidos). Embora o cálculo da ONU fosse otimista e as cifras</p><p>subissem ao dobro, o óbvio é que essas carências não são naturais nem</p><p>inevitáveis, com o argumento de que sempre houve miséria.</p><p>De qualquer maneira, se enfrentasse todos esses danos, a criminologia</p><p>se perderia em um enorme campo tudológico de conhecimentos</p><p>inabarcáveis. Todas essas mortes são resultado de violações aos direitos</p><p>humanos e estes, como campo de estudo jurídico, devem ser sustentados</p><p>por dados reais para os quais contribuem todos os conhecimentos</p><p>humanos, o que, por definição, não pode ter unidade. Trata-se de</p><p>conhecimentos que os estudiosos de direitos humanos devem requerer a</p><p>todas as ciências naturais e sociais, a todo o saber humano. Um saber que</p><p>pretenda abranger tudo isso se perderia ou resultaria diretamente</p><p>diletante.</p><p>Há, porém, um campo que indubitavelmente pertence à criminologia</p><p>e sobre o qual houve um singular silêncio, que é o do homicídio doloso,</p><p>intencional. A criminologia acadêmica deteve-se nos homicídios seriais</p><p>sensacionais e em todos os cometidos por iniciativa privada, mas nunca</p><p>nos públicos ou estatais, isto é, nos genocídios e massacres, nos crimes de</p><p>massa cometidos pela ação de agências estatais.</p><p>Estranha omissão, por certo! Se quisermos levar a sério os danos</p><p>sociais, não podemos ignorar esses crimes e, além do mais, tampouco</p><p>podemos negar que seu estudo corresponde à criminologia. A</p><p>criminologia dos últimos anos está chamando a atenção sobre isso,</p><p>embora ainda sem suficiente penetração e a contragosto por parte de boa</p><p>parte dos criminólogos acadêmicos. Isso, porém, é tão importante, que</p><p>merece um capítulo especial.</p><p>Ilustração 21</p><p>31. Os homicídios estatais ou crimes de massa</p><p>A criminologia acadêmica guardou um silêncio significativo acerca dos</p><p>assassinatos estatais em massa, interrompidos apenas por algum artigo</p><p>isolado, como o de Leo Alexander, em 1948, ou o livro de Sheldon</p><p>Glueck, de 1944, sobre crimes de guerra. Nos últimos anos, os trabalhos</p><p>são mais frequentes: Alex Alvarez (1999), William Laufer (1999), Georges</p><p>S. Yacoubian (2000), Andrew Woolford (2006) e em especial Wayne</p><p>Morrison, professor neozelandês radicado em Londres, que, em 2006,</p><p>publicou um livro intitulado Criminologia, civilização e a nova ordem</p><p>mundial. Por ser este último o mais extenso e analítico, o tomamos como</p><p>referência.</p><p>Morrison recorda que Hobbes separava o espaço civilizado do não</p><p>civilizado (de guerra de todos contra todos), cuja presença constituía uma</p><p>ameaça, e afirma que esta linha hobbesiana se quebrou quando o mundo</p><p>incivilizado irrompeu no coração do civilizado, em 11 de setembro de</p><p>2001, destruindo o símbolo desse mundo funcional e utilitarista da</p><p>globalização.</p><p>O World Trade Center era o templo máximo da tecnologia e da</p><p>segurança e sua queda converteu, de repente, o espaço civilizado em</p><p>espaço de Terceiro Mundo. Precipitadamente, os residentes do espaço</p><p>civilizado tomaram consciência do mundo externo, o que foi muito</p><p>impactante para os Estados Unidos, que haviam sido muito afortunados</p><p>em seu próprio território.</p><p>A partir do 11 de setembro, a administração Bush reforçou sua</p><p>discutível origem e escasso prestígio com um discurso que confundia</p><p>guerra com o crime para tornar porosa a fronteira entre o controle interno</p><p>e o externo, apagando os limites hobbesianos.</p><p>Bush agitou o nacionalismo, tomou da tolerância zero a ideia de</p><p>prevenção e a levou à guerra, e manipulou a tecnologia da comunicação</p><p>para declarar a guerra ao Iraque, baseado numa mentira. Moveu-se,</p><p>porém, de acordo com regras diferentes, pois as válidas para os outros</p><p>civilizados não foram as que aplicou aos incivilizados, ou seja, da luta na</p><p>selva, o que não passa de mais outra faceta da doutrina da segurança</p><p>nacional e da guerra suja.</p><p>Morrison afirma que o presente se caracteriza por uma volta da</p><p>emocionalidade, um novo popularismo, politização, um sentido de crise,</p><p>um sentido de normalidade das altas taxas de criminalidade, uma nova</p><p>relação do crime com os meios de comunicação de massa, uma perda de</p><p>confiança na eficiência do Estado de bem-estar.</p><p>Ele reconhece que a criminologia é o produto de um setor do planeta</p><p>cujos Estados foram construídos sobre a violência e o genocídio, e recorre</p><p>a Bauman: o triunfo de umas poucas etnias sobre outras levou à</p><p>destruição dos vencidos e a história foi escrita pelos vencedores,</p><p>mostrando sua civilização como um caminho de progresso para a</p><p>pacificação da vida cotidiana.</p><p>Por outra parte, destaca que as cifras de criminalidade registrada,</p><p>reportadas nos países onde houve genocídios, não incluem as centenas de</p><p>milhares e às vezes milhões de mortos por esse crime. Para a estatística</p><p>criminal só contam os homicídios normais. Com toda razão, Morrison</p><p>assinala que existe uma estatística criminal que registra sob a forma de</p><p>apartheid criminológico.</p><p>A criminologia só recolhe dados domésticos e condicionados pelo</p><p>poder dos Estados-nação, constituídos por meio da violência e que</p><p>dominam outros de igual modo. Consequentemente, a criminologia é um</p><p>discurso muito parcial, construído em torno de um mundo de fatos</p><p>políticamente delimitado.</p><p>Para começar, Morrison apresenta uma tabela impressionante de</p><p>crimes de massa, cometidos desde 1885 até 1994, reconhecidos e não</p><p>reconhecidos, da qual nos ocuparemos mais adiante. Perante esses</p><p>milhões de cadáveres que a criminologia não leva em conta em suas</p><p>estatísticas, ele formula as seguintes interrogações, que ficam em aberto:</p><p>Podemos globalizar a estatística criminal? Se parte do objeto da análise</p><p>estatística de Quetelet era medir a taxa normal de crime em uma</p><p>sociedade e assim determinar o risco, como</p><p>se pode criar uma imagem</p><p>estatística de uma sociedade mundial de risco? Voltaremos mais adiante a</p><p>essa possibilidade.</p><p>Ele passa em revista toda a criminologia neocolonialista e os crimes</p><p>legitimados (Congo, Namíbia, Benin etc.). Destaca que a criminologia não</p><p>deu atenção nem a Nurenberg nem a Tóquio, por considerá-los crimes de</p><p>guerra, violatórios das regras que as próprias potências colonialistas não</p><p>respeitavam em suas colônias. Mas se Hitler os houvesse cometido</p><p>somente dentro das fronteiras alemãs, os campos de concentração teriam</p><p>ficado impunes? Assegura que houve ambiguidade no julgamento, que a</p><p>vítima era a humanidade, mas que o fato de as vítimas concretas terem</p><p>sido judeus, ciganos e gays não deixou de pesar.</p><p>Morrison afirma que a criminologia considerou que os grandes crimes</p><p>do século passado são exceções das quais a criminologia – como ciência</p><p>de operações normais de controle, levadas a cabo pelo Estado – não</p><p>necessita se ocupar. No caso do Holocausto, a imagem dos campos de</p><p>concentração reafirma essa distância, assegurando que se trata de lugares</p><p>verdadeiramente excepcionais, que jamais voltarão a existir.</p><p>Ele nega terminantemente a explicação do caminho especial – o</p><p>Sonderweg – do nazismo e da patologização da Shoá, uma vez que as</p><p>pessoas que participaram ativamente nesses crimes eram normais e muitos</p><p>deles retomaram a vida cotidiana sem dificuldades.</p><p>Compara as execuções exemplificadoras – como a de Tupac Amaru,</p><p>esquartejado publicamente – que tinham por objetivo a reafirmação da</p><p>verticalidade do poder (Olhem o que vamos fazer a vocês se resistirem)</p><p>com a secreta fabricação de cadáveres nos campos de extermínio, como</p><p>dois objetivos completamente diferentes.</p><p>No momento em que escrevia, afirma que há um jogo de espelhos</p><p>entre Bush e Bin Laden, pois sem Bin Laden, Bush não teria obtido</p><p>poderes extraordinários nem teria podido ganhar as eleições.</p><p>Morrison observa que, quando se atribui ao terrorismo o status de ato</p><p>de guerra, ele fica excluído das garantias penais. Ao mesmo tempo, como</p><p>não são combatentes regulares, os terroristas ficam excluídos da</p><p>Convenção de Genebra, permanecendo à disposição das ordens do mais</p><p>poderoso, que é quem resolve na situação de exceção. Para ele, essa</p><p>característica é o equivalente atual da lei marcial nos regímes coloniais e</p><p>do Fuhrerprinzip no nazismo.</p><p>Ainda que não o afirme, é claro que esta é a tese central da definição</p><p>do político de Carl Schmitt e a constatação de que se tenta uma trágica</p><p>planetarização da chamada doutrina da segurança nacional dos anos</p><p>1970 sul-americanos. Esse caminho teórico é um dos que, desde a</p><p>periferia, devemos reelaborar e aprofundar, porque nos toca muito</p><p>diretamente; além do mais, é a partir daí que podemos detectar mais</p><p>facilmente o papel central e protagonista do poder punitivo.</p><p>32. O neopunitivismo</p><p>Nos Estados Unidos, as características do Estado mudaram totalmente</p><p>desde o estabelecimento do que se denomina New Punitiveness</p><p>(neopunitivismo).</p><p>Insisto nas características do novo rosto do sistema penal</p><p>estadunidense. Um em cada três homens negros entre 20 e 29 anos</p><p>encontra-se criminalizado, um estadunidense em cada cem está na prisão,</p><p>outros três estão submetidos à vigilância com probation [liberdade</p><p>condicional] ou parole [liberdade vigiada], os condenados por qualquer</p><p>delito são alvo de muitas inabilitações por toda a vida para votar, difunde-</p><p>se o three strikes and you’re out [14] (ou seja, uma pena de confinamento</p><p>perpétuo para aqueles que são simplesmente incômodos), a familia do</p><p>condenado é expulsa das convivências sociais, são cancelados todos os</p><p>benefícios sociais, os trabalhos forçados foram restabelecidos, e foram</p><p>executadas cerca de 1.300 penas de morte desde o final da moratória dos</p><p>1970 (incluindo doentes mentais e menores), os governadores fazem</p><p>campanhas para reeleição rodeados de retratos dos executados que não</p><p>tiveram a pena comutada, são feitas condenações sem que se vá a</p><p>julgamento, mediante extorsão as testemunhas são compradas</p><p>impunemente, são praticados os métodos mais imorais de investigação,</p><p>instiga-se a denúncia dentro da família, o pós-moderno recupera todas as</p><p>características do pré-moderno inquisitorial.</p><p>O nazismo penal renasceu nos Estados Unidos e é oferecido como</p><p>modelo mundial. Disso se ocupam muitos criminólogos, mas como não</p><p>posso mencionar todos eles, nos ocuparemos dos três mais conhecidos:</p><p>David Garland, Loïc Wacquant e Jonathan Simon.</p><p>Garland formou-se em Edimburgo, mas ensina em Nova York.</p><p>Publicou várias obras, mas a que mais nos interessa é A cultura do</p><p>controle[15], de 2001.</p><p>Ele afirma que na sociedade pós-moderna reina uma espécie de</p><p>esquizofrenia, que dá lugar, por um lado, a uma criminologia da vida</p><p>cotidiana, que apela a todos os recursos preventivos mecânicos,</p><p>eletrônicos etc., e, por outro, a uma criminologia do outro, que ressuscita,</p><p>definitivamente, as versões mais tenebrosas do velho positivismo.</p><p>A criminologia da vida cotidiana incorpora o delito como risco</p><p>normal e nos enche de engenhos humanos preventivos, ou seja, a</p><p>prevenção do delito não depende de valores morais, e sim de</p><p>impedimentos físicos que retiram a oportunidade. Nesse sentido, contrasta</p><p>com a tradição conservadora que entende que a prevenção depende dos</p><p>valores morais e do respeito à autoridade.</p><p>Por outro lado, aparece a criminologia do outro, baseada na vingança,</p><p>que se expressa como exclusão, defesa social, neutralização do sujeito</p><p>perigoso, ou seja, lança mão do discurso do velho positivismo, mas em</p><p>um sentido bem vingativo.</p><p>A contradição é clara: o delito não pode ser tão normal como a chuva</p><p>e, ao mesmo tempo, não pode ser dramatizado ao máximo, usando</p><p>vocabulário militar ou de guerra e apresentando o infrator como um</p><p>sujeito irredutivelmente mau, que deve ser aniquilado.</p><p>Wacquant é francês, professor da Universidade da Califórnia</p><p>(Berkeley) e pesquisador do Centro de Sociologia de Paris. Também</p><p>publicou várias obras a respeito nos últimos dez anos.</p><p>Para Wacquant, a tensão assinalada por Garland responde a um</p><p>sistema pós-fordista que precariza o trabalho, aprofunda as discriminações</p><p>e segregações de classe e raciais, relega os setores mais golpeados pela</p><p>política chamada de neoliberal aos bairros mais pobres, marginais e</p><p>distantes, e monta um aparato punitivo de contenção que configura aquilo</p><p>que ele denomina de Estado penal.</p><p>Afirma também que este Estado penal dá continuidade ao racismo do</p><p>apartheid, o qual, segundo ele, jamais desapareceu das práticas</p><p>burocráticas estadunidenses, razão pela qual o considera também um</p><p>Estado racial.</p><p>Na realidade, é revelador que em 1989, pela primeira vez na história</p><p>dos Estados Unidos, a população penitenciária negra se tenha tornado</p><p>majoritária nas prisões. Para Wacquant, isso provoca a política de expulsão</p><p>do mercado laboral, que torna economicamente desnecessária ou</p><p>subempregada e mal paga a uma parte da população, que suporta o</p><p>trabalho como uma obrigação cidadã, sendo funcional manter essa</p><p>posição subordinada à criminalização da pobreza, empreendida</p><p>claramente a partir dos anos oitenta do século passado.</p><p>Além do mais, a precarização do trabalho fez desaparecer a</p><p>solidariedade do gueto, que foi substituída por um supergueto sem</p><p>sentimento comunitário, o que provoca a vitimização dos pobres (os da</p><p>favela roubam na favela).</p><p>É claro que Wacquant sustenta uma interpretação estrutural do</p><p>fenômeno, diante da interpretação cultural de Garland. O certo é que</p><p>Wacquant</p><p>detém-se pouco nas mudanças políticas gerais e no próprio</p><p>sistema penal que foram preparando o terreno para a virada autoritária, ou</p><p>seja, não repara na transformação institucional que se produziu nas</p><p>últimas três décadas e que, sem dúvida, incidiu na virada repressiva do</p><p>poder punitivo estadunidense.</p><p>Jonathan Simon é professor em Berkeley. Em 2007, publicou</p><p>Governing through Crime[16], How the War on Crime Transformed</p><p>American Democracy, em que leva a cabo uma interessante investigação</p><p>que, no meu entender, não se opõe à tese culturalista de Garland nem à</p><p>estrutural de Wacquant, mas sim as complementa, analisando em</p><p>profundidade como se foi gestando a tremenda transformação institucional</p><p>e social que desembocou no autoritarismo penal atual. Ele atribui essa</p><p>explosão repressiva à lenta, mas incessante, deslegitimação do Estado de</p><p>bem-estar, fixando seu início na agressiva campanha do conservador Barry</p><p>Goldwater em 1964, baseada quase completamente na palavra de ordem</p><p>da lei e ordem. A ela se seguiram as guerras contra a droga de Nixon,</p><p>Reagan e Bush pai, para culminar com a guerra ao terrorismo de seu</p><p>inolvidável filho, depois do 11 de setembro de 2001.</p><p>Para Simon, tudo isso configura uma governance – ou seja, uma</p><p>técnica de governo – que se caracteriza como um governo referenciado</p><p>pelo crime, completamente oposto à tradição liberal.</p><p>A chave de sua interpretação está no fato de que quando se governa</p><p>tendo o crime como referência, o modelo punitivo – e vingativo – torna-se</p><p>uma técnica geral de governo, ou seja, estende-se a todas as formas</p><p>sociais: vai desde o Estado nacional até a escola, invade o âmbito privado</p><p>e as relações familiares, ameaça a democracia em todas as suas</p><p>instituições.</p><p>Simon adverte, acima de tudo, sobre a ameaça à democracia que a</p><p>vítima-herói pode representar: A democracia estadunidense está</p><p>ameaçada pelo surgimento da vítima do delito como modelo dominante do</p><p>cidadão, como representante da gente comum, cujas necessidades e</p><p>capacidades definem a missão do governo representativo.</p><p>Segundo Simon, o Safe Streets Act de 1968, de Lyndon Johnson,</p><p>marcou uma mudança fundamental, pois fez a passagem do modelo do</p><p>trabalhador manual como representante do cidadão comum no imaginário</p><p>coletivo para o da vítima, determinando o começo do governo mediante o</p><p>crime.</p><p>O processo se acelerou porque, desde Reagan até Bush, todos os</p><p>presidentes tinham sido antes governador de estado (exceto Bush pai, que</p><p>vinha da CIA, o que não alterava a tônica), e levaram para o governo</p><p>federal a modalidade vingativa da política provinciana, na qual os</p><p>promotores são eleitos por voto popular e adquiriram a prática de fabricar</p><p>vítimas-heróis como modo de dar o salto às governances, com base em</p><p>campanhas vingativas.</p><p>Essas campanhas estigmatizaram os juízes como inimigos, aliados ou</p><p>encobridores dos criminosos e responsáveis pela insegurança frente ao</p><p>crime, o que motivou as reformas legislativas que impuseram penas fixas</p><p>ou reduziram a possibilidade de avaliação judicial (são reações políticas</p><p>frente aos juízes garantistas).</p><p>Os políticos – que, ao legitimar o desmantelamento do Estado de</p><p>bem-estar, violam os direitos de toda a população – têm a oportunidade</p><p>de se firmar, mostrando sua despreocupação com a segurança mediante</p><p>leis mais autoritárias, atendendo ao clamor público do que as vítimas-</p><p>heróis são sua vanguarda (caso Blumberg), enquanto o modelo punitivo</p><p>vai se estendendo a todas as instituições e formas sociais, públicas e</p><p>privadas.</p><p>Trata-se, em essência, de uma maneira de governar mediante a</p><p>administração dos medos. O próprio Simon recorda que nos tempos de</p><p>Nixon o medo dominante era do câncer, o que foi evoluindo até chegar</p><p>ao medo do terrorismo.</p><p>A análise de Simon é muito mais pormenorizada que as de Garland e</p><p>Wacquant, embora não se oponha necessariamente a estes, pois tanto a</p><p>dimensão cultural quanto a estrutural podem encaixar-se em sua</p><p>interpretação como um complemento.</p><p>Não obstante, cremos que Simon não percebe a dimensão total da</p><p>virada autoritária, pois não enfoca a questão com uma visão histórica mais</p><p>ampla. Governar mediante o medo importa a fabricação de inimigos e a</p><p>consequente neutralização de qualquer obstáculo ao poder punitivo</p><p>ilimitado, supostamente usado para destruir o inimigo, ainda que todos</p><p>saibamos que é materialmente utilizado para aquilo que o poder quiser.</p><p>No fundo, o fenômeno é sempre uma enorme enganação para distrair a</p><p>atenção sobre outros riscos e obter o consenso para exercer um poder</p><p>policial sem controle.</p><p>Este poder punitivo sem controle foi sempre usado para verticalizar e</p><p>hierarquizar as sociedades, como manifestamos reiteradamente, ou seja,</p><p>para dotá-las de estrutura colonizadora. Por conseguinte, é natural que</p><p>esta técnica, ou governance, tenha penetrado como uma torrente em todas</p><p>as instituições sociais. A Inquisição precisou reforçar o patriarcado para</p><p>assegurar a base da sociedade exércitoforme que em seguida foi lançada</p><p>sobre a América e a África. Toda inquisição tende a hierarquizar e a</p><p>produzir homogeneidade e conformismo; o ideal político de todo</p><p>inquisidor é a colmeia de abelhas ou o formigueiro.</p><p>O que Simon faz é descrever muito bem o processo atual em detalhe</p><p>e em sua genealogia, mas o certo é que, quanto ao estrutural, não há</p><p>diferenças dessa natureza com outros momentos inquisitoriais. Trata-se do</p><p>prolegômeno ou de uma tentativa em marcha de impor um Leviatã</p><p>planetário? Ou antes, obedece à necessidade de reforçar um poder</p><p>debilitado ou declinante? Essa é a pergunta que não se formula, mas que</p><p>deve nos preocupar, no nosso canto.</p><p>De qualquer forma, Simon bate na tecla certa: a chave é governar</p><p>valendo-se da centralização do medo em um objeto. Nesse sentido, sua</p><p>contribuição, ao descrever como e por que isso é feito na atualidade nos</p><p>Estados Unidos, é fundamental para nós, porque a partir daí se globaliza</p><p>ou planetariza essa técnica de governo. Investigações análogas à de</p><p>Simon fazem falta em nossos países.</p><p>33. Outras palavras: as ciências psi</p><p>Quando a criminologia crítica proveniente do interacionismo e da</p><p>fenomenologia colocou em evidência as características estruturais do</p><p>poder punitivo, a criminologia etiológica do canto da Faculdade de Direito</p><p>acabou de se derreter e com isto a chamada clínica criminológica – ou</p><p>seja, o estudo da pessoa criminalizada pelos especialistas – perdeu</p><p>prestígio.</p><p>Essa desconfiança não era gratuita, dados os antecedentes do primeiro</p><p>encontro dessas disciplinas com a criminologia no marco da criminologia</p><p>racista, mas também porque sua etiologia e sua prática institucional não</p><p>levavam em conta o efeito deteriorador e estigmatizador da própria</p><p>criminalização.</p><p>Era um pouco difícil exigir do psi institucional que deixasse evidente o</p><p>papel determinante cumprido na etiologia pela intervenção da própria</p><p>instituição da qual ele faz parte. Supomos que um operador psi que</p><p>informasse que a polícia, os juízes e os penitenciários estavam</p><p>condicionando uma carreira criminal, pelo menos em nosso meio, o</p><p>teriam jogado na rua por via rápida.</p><p>Foi devido a isso e aos tristes antecedentes históricos que os</p><p>criminólogos críticos em geral reagiram alergicamente frente às propostas</p><p>de intervenções psi em seu campo e se inclinaram por cortar todos os</p><p>vínculos com esses saberes. Isso não passa de uma reação emocional,</p><p>nunca boa conselheira da ciência, produto de uma confusão de níveis. Em</p><p>princípio, os saberes psi de hoje não são os do positivismo. Entre</p><p>os</p><p>cultores dessas ciências há tantos sujeitos de alta periculosidade quanto</p><p>em todas as outras, mas por sorte não são dominantes.</p><p>É verdade que não faltam aqueles que pretendem reconstruir o</p><p>criminoso nato com base nas neurociências, voltando a extrair</p><p>consequências apressadas de novos conhecimentos médicos e biológicos,</p><p>como outrora aconteceu com o evolucionismo, com as localizações</p><p>cerebrais ou com a endocrinologia. Também é certo que alguns</p><p>pretendem resolver qualquer coisa repartindo alegremente o jaleco</p><p>químico com toda a população, ao mesmo tempo em que se escandalizam</p><p>porque alguém fuma maconha. Porém, em todos os saberes, assistimos a</p><p>saídas de tom que, sem prejuízo de sua periculosidade, são passageiros.</p><p>A antipsiquiatria deixou uma marca que foi além de seus exageros</p><p>pontuais, a psicanálise fez a sua parte, a antropologia de Franz Boas não</p><p>passou sem deixar de impactar o campo psi, a desnaturalização das</p><p>preferências sexuais minoritárias é um fato etc. Em síntese: está muito</p><p>claro que o psi não se nutre hoje de ideologias racistas nem totalitárias.</p><p>A psicanálise impactou no começo a criminologia etiológica do canto</p><p>com uma montanha de trabalhos, alguns dos quais só extraíam sua</p><p>profundidade do que seus autores haviam lido em Freud no metrô. Nos</p><p>anos 1930, fez furor O delinquente e seus juízes do ponto de vista</p><p>psicanalítico, de Franz Alexander (psicólogo) e Hugo Staub (jurista), do</p><p>qual quase todos os outros escritos foram tributários (alguns o plagiaram).</p><p>Não era, porém, tarefa dos psicólogos colocar em evidência as</p><p>características estruturais do poder punitivo, e sim dos sociólogos. Seria</p><p>injusto atribuir-lhes uma responsabilidade que não lhes dizia respeito. O</p><p>certo é que tampouco é verdade que tentaram reconstruir um criminoso</p><p>nato por via psicológica, pelo menos no que diz respeito a seus expoentes</p><p>mais destacados.</p><p>Não nego que, às vezes, se geram confusões provenientes de alguns</p><p>leitores apressados do próprio campo psi, como quando alguém – que</p><p>também viu as capas do código penal no metrô – confunde lei do pai de</p><p>Freud ou a ideia do nome do pai de Lacan com o código penal, sem dar-</p><p>se conta de que esses conceitos não se fixam por maioria parlamentar.</p><p>Felizmente, porém, nem Freud nem Lacan pensaram nisso (nem</p><p>Melanie Klein se olhava no espelho para ver se tinha dois seios muito</p><p>diferentes). Tampouco Lacan pensou que as prisões deviam encher-se de</p><p>loucos. Esta gente escreveu textos inteligentes, que não podem ser lidos</p><p>como se lê a revista Hola.[17]</p><p>Esse desencontro não é mais do que o resultado do desconhecimento</p><p>dos respectivos planos de análise e observação: o sociólogo observa a</p><p>partir do grupal e o psicólogo a partir do sujeito concreto. Por isso, os</p><p>conhecimentos do sociólogo são particularmente úteis para formular</p><p>políticas, mas nada nos diz sobre o que fazer com o sujeito concreto, do</p><p>qual a criminologia não pode ignorar que lhe diz respeito.</p><p>Quando nos deparamos com um fenômeno que é necessário</p><p>controlar, como pode ser o uso de um veneno do tipo do chamado</p><p>“paco”, o sociólogo pode nos informar acerca das medidas grupais (planos</p><p>de assistência para reduzir o tráfico de subsistência, programas de fomento</p><p>da escolaridade e de geração de projetos de vida positivos, modos de</p><p>instruir os operadores, medidas que eliminem ou reduzam a</p><p>estigmatização do usuário etc.). No entanto, nada nos pode dizer sobre o</p><p>que fazer com o sujeito concreto (com o pequeno usuário, a quem é</p><p>preciso tratar para evitar que morra ou se machuque de forma</p><p>irreversível). E isso é válido para qualquer outro problema.</p><p>A criminologia crítica bem entendida, em lugar de limitar o campo psi</p><p>em sua matéria, o amplia. O etiquetamento não é algo que opera de forma</p><p>mecânica nem afeta a todos por igual, pois o ser humano não é uma</p><p>marionete. Há pessoas que assumem a etiqueta do estereótipo e outras</p><p>que não o fazem. É óbvio, pois, que existe um grau de fragilidade que</p><p>condiciona uma vulnerabilidade ao etiquetamento. Esta é questão que faz</p><p>o sujeito concreto e nesse terreno são as disciplinas psi que devem nos</p><p>informar.</p><p>Se a intervenção do poder punitivo tem efeito deteriorador e</p><p>estigmatizante e se há pessoas que sofrem esses efeitos muito mais que</p><p>outras, é o campo psi que nos pode informar sobre a que corresponde a</p><p>maior vulnerabilidade em cada um e, o que é mais importante, como</p><p>abordá-la no sujeito concreto.</p><p>Nesse último sentido, não devemos omitir a inspiração que Viktor</p><p>Frankl pode proporcionar. Depois de sobreviver a um campo de</p><p>concentração, ele fez de toda essa experiência uma teorização (que</p><p>chamou de logoterapia) com base existencial, que sintetiza em um livro</p><p>intitulado Um psicólogo sobrevive ao campo de concentração.</p><p>Se é impossível ocultar que o delito e o poder punitivo produzem</p><p>vítimas – ou seja, exercem violências que afetam muitas pessoas – e que a</p><p>criminologia sociológica traga informação para políticas redutoras dos</p><p>danos, não é menos certo que, frente aos sujeitos concretos afetados, são</p><p>as disciplinas psi que podem indicar como atuar. Só o especialista psi</p><p>pode nos dizer como tratar quem sobrevive a um atentado criminoso ou</p><p>quem passa pela tortura.</p><p>Ademais, uma vez que incorpora a seu campo o exercício do poder</p><p>punitivo, a criminologia atual amplia o universo de condutas dos sujeitos</p><p>concretos. Já não se trata apenas de observar o criminalizado e a vítima, e</p><p>sim de incorporar os operadores do sistema penal.</p><p>Sem ânimo de psiquiatrizar nada, é sabido que tudo o que se</p><p>relaciona com o exercício do poder punitivo opera como mel para moscas</p><p>no que concerne a muitas pessoas com patologias sérias. Esse não é um</p><p>dado menor para a tomada de decisões na hora de selecionar pessoal ou</p><p>de averiguar a natureza de algumas condutas manifestas em outros</p><p>segmentos do sistema.</p><p>Ignorar, desde a criminologia, o campo psi é um erro preconceituoso</p><p>gravíssimo, que faz perder de vista o sujeito concreto, é tão negativo como</p><p>pretender transferir as observações sobre este do campo psi às políticas</p><p>sociais. São duas perspectivas que devem se encontrar, sem pretender</p><p>ignorar-se nem neutralizar-se, mas sim, simplesmente, reconhecendo que</p><p>trazem visões diferentes sobre a conduta humana, que é um objeto</p><p>configurador de extrema complexidade.</p><p>Sabemos que não faltam aqueles que, a partir da academia,</p><p>argumentam que isso é questão da criminologia aplicada, mas não da</p><p>teórica. Mais adiante, mostraremos como os conhecimentos psi são</p><p>indispensáveis para a criminologia teórica atual; se alguém pretende fazer</p><p>uma criminologia teórica pura, sem consequências práticas, sem a</p><p>aplicação, é melhor que fechemos a porta e o deixemos sozinho em seu</p><p>escritório.</p><p>Ilustração 22</p><p>34. Somos todos neuróticos?</p><p>Não é nossa intenção cair em uma teoria macro e subir num avião a</p><p>jato para que, por conta de querer abarcar um panorama mais amplo,</p><p>quando olharmos para baixo não consigamos ver nada. No entanto, não</p><p>podemos negar que devemos perguntar alguma coisa aos homens sábios</p><p>diante da inquestionável característica de nossa espécie, que é sua</p><p>tremenda agressividade intraespecífica (e extraespecífica também, é claro).</p><p>Sem dúvida, os danos sociais assinalados pelos ingleses que</p><p>pretendem ir mais além da criminologia existem e estão em curso,</p><p>milhões de pessoas morrem diante da indiferença dos demais e os</p><p>massacres vitimaram muitos milhões, sem contar os outros milhões de</p><p>mortos pelas guerras e, além do mais, nada disso pertence a um passado</p><p>remoto.</p><p>Não é fácil se perguntar pelas razões profundas e últimas</p><p>e se estende no varal até secar.</p><p>Detemos o agressor por um tempo e o soltamos quando o conflito</p><p>acaba. É certo que podemos matá-lo, mas nesse caso não faríamos outra</p><p>coisa senão deixar o conflito suspenso para sempre. Não repomos nada à</p><p>vítima, não lhe pagamos o tratamento, o tempo de trabalho perdido, nada.</p><p>Nem sequer lhe damos um diploma de vítima para que o pendure em um</p><p>canto da casa. Não ocorreria a ninguém obrigar o agressor a trabalhar para</p><p>reparar o lesado, ameaçando-o com uns açoites em público, como fazem</p><p>nossos povos nativos, porque isso seria prático, mas consideramos</p><p>incivilizado.</p><p>Ademais, frente a outros modelos de efetiva solução do conflito, o</p><p>modelo punitivo se comporta de modo excludente, porque não só não</p><p>resolve o conflito como também impede ou dificulta sua combinação com</p><p>outros modelos que o resolvem. É óbvio que, quando prendemos o</p><p>marido agressor, a mulher e os filhos devem se virar como possam para</p><p>viver, porque a besta fera não pode trabalhar e, por conseguinte, não</p><p>cobra.</p><p>Imaginemos que um menino quebre uma vidraça na escola com os</p><p>pés. A direção pode chamar o pai do pequeno energúmeno para que</p><p>pague a vidraça, pode mandá-lo ao psicopedagogo para ver o que está</p><p>acontecendo com a criança, também pode sentar-se e conversar com o</p><p>pequeno para averiguar se alguma coisa lhe faz mal e o irrita. São três</p><p>formas de modelos não punitivos: reparador, terapêutico e conciliatório.</p><p>Os três modelos podem ser aplicados porque não se excluem. Em</p><p>compensação, se o diretor decide que a quebra da vidraça afeta sua</p><p>autoridade e aplica o modelo punitivo expulsando o menino, nenhum dos</p><p>outros pode ser aplicado.</p><p>É claro que o diretor, ao expulsar o menino, reforça sua autoridade</p><p>vertical sobre a comunidade escolar. Isso quer dizer que o modelo</p><p>punitivo não é um modelo de solução de conflitos, mas sim de decisão</p><p>vertical de poder. É por isso, justamente, que ele aparece nas sociedades</p><p>quando estas se verticalizam hierarquicamente.</p><p>O modelo reparador é de solução horizontal e o punitivo de decisão</p><p>vertical. Este aparece quando as sociedades vão ganhando a forma de</p><p>exércitos com classes, castas, hierarquias etc. Por isso surgiu em muitos</p><p>lugares do planeta, sempre que uma sociedade começou a verticalizar-se</p><p>hierarquicamente. A arqueologia penal estuda isso em sociedades</p><p>distantes.</p><p>Houve uma sociedade que se verticalizou com muita força na Europa:</p><p>a romana. Quando Roma passou da república ao império seu poder</p><p>punitivo se fez muito mais forte e cruel. E o que pode fazer uma</p><p>sociedade quando se verticaliza até assumir a forma de exército? A</p><p>resposta é óbvia: conquistar outras. Roma conquistou quase toda Europa.</p><p>Como conseguiu fazer isso? Porque tinha uma estrutura colonizante, ou</p><p>seja, hierarquizada, em forma de exército. Essa estrutura, montada</p><p>mediante o poder punitivo, é a necessária para a empresa de conquista e</p><p>colonização.</p><p>No entanto, Roma caiu praticamente sem que ninguém a empurrasse;</p><p>seus imperadores eram generais que brincavam de golpe de Estado,</p><p>passavam o tempo intrigando ou neutralizando intrigas, e em seus</p><p>momentos de ócio se divertiam com amantes e escravos núbios. Os</p><p>costumes se relaxaram, dizem os moralistas.</p><p>Porém, Roma não caiu por causa das amantes ou dos escravos, mas</p><p>sim porque a estrutura vertical que proporciona o poder colonizador,</p><p>imperial, logo se solidificou até imobilizar a sociedade, as classes tornam-</p><p>se castas, o sistema perde flexibilidade para adaptar-se às novas</p><p>circunstâncias, torna-se vulnerável aos novos inimigos. Nesse momento,</p><p>decai e perde o poder. Chegaram os bárbaros com suas sociedades</p><p>horizontais, que ocuparam os territórios quase caminhando, e o poder</p><p>punitivo desapareceu quase por completo.</p><p>Os germânicos resolviam seus conflitos de outra maneira: quando um</p><p>alemão dava um golpe de garrote na cabeça do outro, corria para se</p><p>refugiar na igreja, onde não podia ser tocado (asilo eclesiástico). Com isso,</p><p>evitava o primeiro impulso vingativo, mas, imediatamente, os dois</p><p>germânicos velhos, chefes de clãs, reuniam-se e um fazia notar ao outro</p><p>que tinha um germânico avariado e que isso tinha de ser resolvido de</p><p>algum modo. Do contrário, o choque ia se dar entre os clãs, como na</p><p>guerra, porque assim o determinava a vingança de sangue (Blutrache,</p><p>diziam), o que não convinha a nenhum dos dois. E a coisa se ajustava</p><p>com uma reparação, entregavam-se animais, metais, coisas etc. (o que se</p><p>chamava Wertgeld).</p><p>Havia um único crime ao qual era aplicado o modelo punitivo: a</p><p>traição. O traidor era pendurado em uma árvore: proditores et transfugas</p><p>arboribus suspendunt, recorda o velho Tácito, ao relatar os costumes dos</p><p>germânicos. As outras ofensas eram acertadas entre as partes. No bairro,</p><p>acontece a mesma coisa com o alcaguete, embora com menos violência.</p><p>Ilustração 4</p><p>Mas por que há que se dar tanta importância a Roma, se estamos tão</p><p>longe, aqui estavam nossos nativos e nunca um romano colocou um pé na</p><p>América? Precisamente porque a história segue, o poder punitivo</p><p>desapareceu quase por completo (salvo uns tantos traidores pendurados</p><p>nas árvores), até que um dia ocorreu aos senhores que era um bom</p><p>negócio confiscar a vítima e que isso também servia para reforçar seu</p><p>poder, e voltaram ao mau costume, fazendo renascer o poder punitivo nos</p><p>séculos XII e XIII europeus. E aqui isso começa a nos interessar, porque</p><p>não desaparece já há quase mil anos, verticalizou as sociedades europeias,</p><p>deu-lhes estrutura corporativa, sob a forma de exército, e elas se lançaram</p><p>à colonização de todo o planeta.</p><p>O poder punitivo foi o instrumento de verticalização social que</p><p>permitiu à Europa nos colonizar. A Península Ibérica assumiu a liderança</p><p>porque adquiriu caráter vertical para conquistar os muçulmanos do sul,</p><p>ainda que até hoje digam que os reconquistaram, o que é duvidoso depois</p><p>de 700 anos de permanência deles ali e de uma civilização que era</p><p>brilhante. Quando terminaram de convertê-los ao cristianismo aos golpes,</p><p>os Reis (muito) Católicos fizeram o que faz todo exército:</p><p>homogeneizaram o discurso religioso e para isso obrigaram os judeus a</p><p>converterem-se como marranos ou a irem embora, e assim a frente</p><p>interna passou a rezar ao mesmo Deus, na versão dos reis.</p><p>Para dizer a verdade, a verticalização europeia havia começado um</p><p>pouco antes dos séculos XII e XIII, ou seja, por volta do ano 1000, quando</p><p>todas as leis locais que iam surgindo timidamente regularam as relações</p><p>familiares e sexuais de maneira detalhadíssima, mais do que a</p><p>propriedade. Isso se explica porque todo exército necessita de cabos e</p><p>sargentos, sob cujo comando caem as pequenas unidades de tropa. A</p><p>verticalização começou por baixo, como devia ser, porque é sabido que</p><p>uma revolução triunfa quando as tropas se sublevam; por conseguinte, a</p><p>primeira coisa que quem quer reforçar o poder vertical deve fazer é se</p><p>assegurar de que tem os comandos inferiores sob controle.</p><p>O cabo deste exército social foi o pater, sob cujo comando ficaram</p><p>todos os seres inferiores: mulheres, crianças, servos, escravos, animais</p><p>domésticos etc. (havia poucos velhos, porque as pessoas morriam muito</p><p>jovens). O patriarcado não é mais do que o poder dos cabos e sargentos</p><p>da sociedade corporativa, fruto do primeiro passo da disciplina vertical.</p><p>O próprio pater impunha os castigos aos seres inferiores, salvo casos</p><p>de insubordinação, como as mulheres desobedientes e os gays ou</p><p>traidores, que não assumiam devidamente seu papel de pater. Como</p><p>ninguém</p><p>desta</p><p>agressividade da espécie porque é frequente que, por detrás da busca</p><p>dessa resposta, se esconda um bom pretexto, e até uma justificativa, para</p><p>os poderes que operam massacrando ou violentando, em especial se a</p><p>resposta segue o caminho da inevitabilidade ou da naturalização dessas</p><p>calamidades. (No bar, seria a tese de um gordo que esteve preso por</p><p>cheques voadores e por vender uma passagem para Marte: Você vai ficar</p><p>louco, sempre foi assim, não há nada a fazer).</p><p>Entretanto, é inevitável começar a apresentar essas questões, porque a</p><p>tese naturalista é uma defesa insensata – para não dizer outra coisa – que,</p><p>traduzida na minha resposta ao gordo no bar, significa que é inevitável nos</p><p>tornarmos inúteis dentro de pouco tempo.</p><p>Por isso, para não cair na insensatez – pelo menos não completamente</p><p>–, e ainda que devamos tomar as devidas precauções, não há mal algum</p><p>em rastrear um pouco a questão das raízes últimas da agressão humana, e</p><p>isso não pode ser entendido, de modo algum como a legitimação de</p><p>qualquer massacre.</p><p>É possível que, a partir da crítica macro, nos seja objetado que, com</p><p>isso, passamos por cima do capitalismo, ou o minimizamos, mas me</p><p>parece que ali se confundem duas coisas bem diferentes e, talvez, por</p><p>temor de não ter resposta diante daquele que diz que não há nada a</p><p>fazer. Colocar um automóvel em marcha, girar a chave da partida, é uma</p><p>coisa, outra bem diferente é, em seguida, já na estrada, apertar o</p><p>acelerador e bater.</p><p>Admitindo que as formas desapiedadas da exploração capitalista e da</p><p>busca de acumulação indefinida de lucro sejam as que apertam o</p><p>acelerador, parece haver algo antes, posto que houve massacres antes do</p><p>capitalismo, antes mesmo das formas modernas de Estado, como o</p><p>genocídio dos cartagineses pelos romanos ou as campanhas de Gengis</p><p>Khan.</p><p>Além do mais, nisso mesmo de acelerar, cabe se perguntar ao que</p><p>responde o afã pela acumulação de poder ou de lucro, de forma</p><p>indefinida, quando a existência é finita (Para que você quer tanta grana,</p><p>se não há mortalha com bolso? se perguntaria o filósofo magricela na</p><p>esquina).</p><p>São perguntas que não podemos ignorar se olharmos para o que se</p><p>passou nos últimos séculos. Ninguém pretende legitimar com isso os</p><p>massacres neocolonialistas, a Shoá ou Hiroshima e Nagasaki, mas apenas</p><p>perguntar o que é que deu a partida antes deles.</p><p>A pergunta se impõe porque se vai fazendo urgente averiguar se é</p><p>possível desconectar a partida e parar o motor.</p><p>Talvez se objete que vamos demasiadamente longe, mas infelizmente</p><p>não nos resta outro recurso, porque se não paramos o motor corremos o</p><p>risco de acabar com as condições de vida humana no planeta. Que o</p><p>último jogue fora o lixo e apague a luz já não é uma questão colocada</p><p>apenas por um estraga-prazeres.</p><p>Isso não é brincadeira e não o consertamos deixando de usar o</p><p>desodorante em aerossol: no último século deterioramos essas condições</p><p>muito mais do que em todos os milênios anteriores em que caminhamos</p><p>sobre o planeta, e com essa projeção não falta muito para chegar ao</p><p>limite. Ademais, a destrutividade atual não é exercida com armadilhas e</p><p>flechas.</p><p>Por isso, ao colocar a questão criminal e nos darmos conta de que, se</p><p>ela está inserida em um mundo onde as mortes em massa e não em massa</p><p>importam pouco e onde os que exercem o poder nos iludem para que</p><p>nos cuidemos só dos ladrões enquanto eles vendem armas em grandes</p><p>quantidades, não podemos colocar de lado a questão da agressividade e</p><p>deixar de nos perguntar sobre sua possível raiz última na civilização.</p><p>No século passado muitos se perguntaram por isso, em particular na</p><p>psicologia e mais ainda a partir de Sigmund Freud, que foi um</p><p>personagem bastante incômodo para seus contemporâneos. Não é à toa</p><p>que ele é comparado a Copérnico e a Darwin. Como se não fosse</p><p>suficiente que um dissesse que não éramos tão centrais e o outro que</p><p>tínhamos o macaco como primo, veio Freud e disse que nem sequer</p><p>somos racionais.</p><p>Pois bem. Entre as perturbações causadas por Freud, uma das mais</p><p>interessantes é de ter-se remontado até a etnologia, ou seja, mais além –</p><p>antes – da história, para explicar a destrutividade humana. Desse modo,</p><p>foi ele quem localizou o terreno em que se devia buscar a resposta.</p><p>Ilustração 23</p><p>Além de sua teoria do pai terrível da horda, do parricídio originário e</p><p>das limitações que os irmãos se impuseram para consolidar o novo</p><p>sistema (tese para a qual seus próprios seguidores olham com</p><p>desconfiança), a consequência antropológica que sustentou em 1930, em</p><p>O mal estar na cultura, é muito penetrante.</p><p>Ele afirma ali que a cultura reprime as pulsões agressivas, gerando um</p><p>controle interno mediante o superego que não as elimina, mas as mantém</p><p>no inconsciente, onde lutam por aflorar, produzindo culpa, o que estimula</p><p>a procura pela punição como compensação.</p><p>Falando mais claramente. A vontade de destruir o outro não</p><p>desaparece ao se conter, mas sim é colocada para dentro, no superego,</p><p>carregando inconscientemente a consciência (o superego diz Por que</p><p>razão você foi querer isso?!) e se traduz numa busca inconsciente de</p><p>castigo (e a seguir acrescenta: Por ser um tipo que merece um castigo).</p><p>O delito seria, pois, uma das vias para satisfazer essa reclamação</p><p>inconsciente de punição, embora possa ser outro autocastigo que nada</p><p>tenha a ver com o sistema penal do Estado, como cortar o dedo</p><p>descascando batatas, morder a língua comendo um bife ou prender o</p><p>dedo numa porta.</p><p>Para Freud, a reação social punitiva não cumpriria a função de</p><p>eliminar nem prevenir a criminalidade, mas sim proporcionaria satisfação à</p><p>demanda de punição inconsciente do próprio infrator. Este não seria quem</p><p>introjetou equivocadamente as normas, e sim justamente quem</p><p>internalizou a autoridade de maneira tal que as pulsões reprimidas em seu</p><p>inconsciente o movem a buscar a punição mediante a infração.</p><p>Freud adverte que, quando uma pessoa se abstém de agredir a outra</p><p>só porque existe uma força exterior que o impede (quando a sério se diz</p><p>só não quebro a tua cara porque vou em cana), não há consciência</p><p>pesada; esta aparece quando a autoridade está internalizada, ou seja,</p><p>quando faz parte do eu.</p><p>Nos nossos dias, isso estaria indicando uma confiança muito escassa</p><p>da autoridade em sua capacidade de provocar a introjeção, evidenciada na</p><p>parafernália do aparato mecânico e eletrônico de impedimentos, ainda que</p><p>também poder-se-ia pensar que a autoridade projeta sua própria e escassa</p><p>introjeção de normas, isto é, sua pouca consciência pesada (na esquina</p><p>dizem que parece que tem a consciência morta).</p><p>Conforme essa tese, Freud criticava a pena de morte, pois segundo</p><p>uma pesquisa respondida por Theodor Reik, ao que parece por iniciativa</p><p>de Freud, longe de constituir um elemento dissuasório, a pena de morte</p><p>seria uma ocasião de expiação máxima, uma espécie de suicídio com</p><p>cumplicidade da justiça estatal.</p><p>Essa explicação é interessante no que diz respeito aos atentados</p><p>suicidas fundamentalistas do nosso tempo, que desconcertam aqueles que</p><p>pretendem preveni-los, mas não precisamos recorrer a exemplos tão</p><p>extremos, pois, na violência urbana, verifica-se que, diariamente, se</p><p>produzem muitos delitos suicidas e muitíssimos mais em que a imprevisão</p><p>do infrator é tão notória que parece confirmar a tese freudiana. São muitos</p><p>os delitos que dão a impressão de que são cometidos para ser</p><p>descobertos.</p><p>Se bem que por esta via se deslegitima a racionalidade do poder</p><p>punitivo, por outra explicaria sua resistência e permanência.</p><p>A ideia que Freud tinha do ser humano</p><p>podia permitir a insubordinação da tropa porque senão o barco</p><p>afundava, as lutas que se seguiram foram entre senhores, mas todos</p><p>reafirmaram a ordem sobre os inferiores.</p><p>O poder punitivo foi se estendendo, mas não havia leis suficientes e</p><p>as que havia eram caóticas. Dispunha-se menos ainda de um discurso</p><p>legitimador desse poder renascente. Nesse momento apareceram as</p><p>universidades no norte da Itália e com elas os juristas, que, como deviam</p><p>fazer o discurso mas não tinham leis razoáveis, não tiveram ideia melhor</p><p>do que trazer o Digesto de Justiniano e começar a comentá-lo.</p><p>Assim nasceu a ciência jurídico-penal, com supostos comentários ao</p><p>Digesto. E o que era o famoso Digesto? Nada menos que uma coleção de</p><p>antigas leis romanas, recolhidas por determinação do imperador</p><p>Justiniano, que nunca foi imperador em Roma e sim em Constantinopla,</p><p>quando o império do Ocidente – ou seja, Roma – já havia caído em poder</p><p>dos germânicos. As leis penais recolhidas no Digesto eram as piores e,</p><p>além disso, com alguns retoques deformantes do próprio Justiniano, que</p><p>desde a romanização do cristianismo (que costuma se chamar de</p><p>cristianização de Roma) se considerava chefe religioso e perseguia com</p><p>singular furor e alegria os não cristãos, entre eles os que continuavam</p><p>adorando os deuses romanos. Essa injeção legal dos primeiros juristas foi</p><p>denominada recepção do direito romano.</p><p>A ciência jurídico-penal nasceu, portanto, com a importação de</p><p>Constantinopla dos chamados libris terribilis do Digesto. Os primeiros</p><p>penalistas se chamaram glosadores porque fingiam que comentavam essas</p><p>leis; na verdade, sob o pretexto de comentá-las, diziam o que bem</p><p>entendiam, mas começaram a ensaiar alguma lógica interna em seu</p><p>discurso.</p><p>É bem verdade que aqueles que deviam legitimar essas leis atrozes</p><p>não podiam confessar que o poder punitivo serve para verticalizar e</p><p>colonizar, razão pela qual sempre se buscou encontrar alguma justificativa</p><p>para cada lei penal, baseada em uma necessidade fundada em fatos do</p><p>mundo real. Como se tratava de legitimações sobre argumentos fáticos, os</p><p>supostos comentários dos glosadores e pós-glosadores misturavam o</p><p>direito penal com a criminologia.</p><p>Assim começaram as palavras da academia nas universidades do norte</p><p>italiano mil anos atrás, mas o poder que em todos os tempos estas</p><p>legitimaram não foi outro senão o instrumento de verticalização social que</p><p>possibilitou a colonização. Esse poder não se estendeu porque Henrique,</p><p>o Navegador se lançou para a África ou porque Cristóvão Colombo, com a</p><p>história das jóias da rainha, tenha armado as caravelas, mas sim porque o</p><p>poder punitivo havia dado forma de exército a essas sociedades. Sem cair</p><p>em fantasias não verificáveis, o certo é que os nórdicos chegaram à</p><p>América antes de Colombo, mas como não dispunham de uma estrutura</p><p>colonizadora morreram de frio no norte, não se animando a seguir para o</p><p>sul.</p><p>E a história reiterou o processo romano: a Espanha não conseguiu</p><p>modificar sua estrutura vertical quando o industrialismo amanheceu no</p><p>século XVIII e terminou perdendo seu império e sua hegemonia, que</p><p>passou para as potências do centro e do norte da Europa. O poder</p><p>punitivo, contudo, não desapareceu, mas ficou limitado à sua função</p><p>interior, apontando para uma sociedade imóvel.</p><p>Como o punitivo é a chave do poder planetário, o que se diz a seu</p><p>respeito não é resultado de uma busca ingênua de conhecimentos, de</p><p>curiosidade científica desinteressada em âmbitos acadêmicos, mas sim que</p><p>se defronta com o cerne da expansão colonial. Por isso, tudo o que se diz</p><p>em criminologia é político, porque sempre será funcional ou disfuncional</p><p>ao poder, o que não muda, ainda que quem o afirma o ignore ou o</p><p>negue.</p><p>Por isso, não podemos evitar o passado, porque se o ignoramos não</p><p>saberemos onde fomos parar. O que interessa do passado não é se María</p><p>Antonieta se deixou seduzir pelo colar, se Catarina levou Miranda para a</p><p>cama, se a rainha Isabel tomava banho ou se Ludwig II fazia orgias com</p><p>seus guardas enquanto sonhava com palácios de Disneilândia, e sim saber</p><p>onde estamos parados em uma continuidade de poder, que em seu fluxo</p><p>nos trouxe a este lugar. E a questão criminal é central nessa corrente que</p><p>não para, como algo do presente, que é pura projeção do passado. Se não</p><p>comprendemos que a Idade Média não terminou, não podemos entrever</p><p>para onde vamos, ou pior, para onde podemos ir (o que me eximo de</p><p>dizer, até mesmo por motivos de boa educação).</p><p>Como a Idade Média não terminou, nada do passado está morto nem</p><p>enterrado, mas apenas oculto, e não por acaso. Não é um passado que</p><p>volta, mas sim que nunca se foi, porque ali está o poder punitivo, sua</p><p>função verticalizante, suas tendências expansivas, seus resultados letais.</p><p>Dessa perspectiva, o passado não evoca aborrecidas lições com datas</p><p>e próceres movidos pelo acaso ou pela genialidade, mas sim nos mostra</p><p>um zoológico de fósseis vivos e não em um museu paleontológico. Por</p><p>isso, se quiserem me seguir, devo começar pelo passado, para que um</p><p>tiranossauro não nos coma.</p><p>Estamos habituados a que o locutor elegante comunique a notícia</p><p>sangrenta com voz cavernosa, preludiando a exortação à reforma do</p><p>Código Penal e de imediato vai ao tribunal para anunciar produtos</p><p>íntimos. Mas também estamos acostumados a que isso gere um mar de</p><p>opiniões díspares e em todos os tons: há que matar a todos; deixar a</p><p>polícia atuar e baixar o sarrafo; aplicar o talião; ter boas prisões para</p><p>ressocializar; atender aos fatores sociais; não atendê-los porque nem todos</p><p>os pobres delinquem; nem só os pobres delinquem, um longuíssimo</p><p>etcétera.</p><p>Creio que muitas pessoas ficariam surpresas se lhes disséssemos que</p><p>os Estados absolutos matavam há centenas de anos, que desde a</p><p>Inquisição recorrem à violência, que o talião foi apoiado por Kant no</p><p>século XVIII, que a ressocialização – que vem do positivismo do século</p><p>XIX, dos fatores sociais – é coisa de muitos e em especial de Bonger há</p><p>um século, que a negação dos fatores sociais era de Garofalo no final dos</p><p>Oitocentos, que os delitos de colarinho branco foram teorizados por</p><p>Sutherland há sessenta anos etc. Nada disso morreu e se na criminologia</p><p>acadêmica não se sustentam determinadas teses é porque já não são</p><p>politicamente corretas, continuam sendo afirmadas com escassa</p><p>dissimulação na criminologia midiática.</p><p>Porém, o que quero dizer com que a Idade Média não terminou? Por</p><p>um lado, que somos hoje um produto daquele poder punitivo que</p><p>renasceu na Idade Média e permitiu aos colonizadores europeus ocupar a</p><p>América, a África e a Oceania, escravizar, dizimar e até extinguir os povos</p><p>nativos, transportar milhões de africanos, avançar sobre o mundo com</p><p>massacres e depredação colonialista e neocolonialista.</p><p>No entanto, por outro lado, quero dizer que os discursos legitimadores</p><p>do poder punitivo da Idade Média estão plenamente vigentes, até o ponto</p><p>de que a criminologia nasceu como saber autônomo no final do período</p><p>medieval e fixou uma estrutura que permanece quase inalterada e</p><p>reaparece cada vez que o poder punitivo quer se libertar de todo e</p><p>qualquer limite e desembocar em um massacre.</p><p>Quando o poder punitivo renasceu, o bispo de Roma – o Papa –</p><p>estava desejoso de conter a todos os que pretendiam se comunicar</p><p>diretamente com Deus, à margem de sua mediação ou da de seus</p><p>dependentes. Para reforçar esse monopólio telefônico, e também para</p><p>concentrar poder econômico, estabeleceu-se uma jurisdição, ou seja, um</p><p>corpo de juízes próprios encarregados de perseguir os revoltosos,</p><p>chamados hereges. Esse foi</p><p>o tribunal do Santo Ofício ou Inquisição</p><p>romana.</p><p>O reaparecimento do poder punitivo e o surgimento da Inquisição</p><p>mudaram tudo. Até esse momento, nos processos entre as partes, a</p><p>verdade se estabelecia pelos ordálios ou pelas provas de Deus. Os juízes</p><p>anteriores à volta do Digesto e aos inquisidores eram, na realidade, árbitros</p><p>desportivos, pois o ordálio mais frequente era o duelo. O que vencia era</p><p>quem tinha razão, porque se invocava a Deus e este baixava magicamente</p><p>convocado e se expressava no duelo, permitindo ganhar só àquele que</p><p>tinha razão. Os juízes não julgavam e sim cuidavam que não houvesse</p><p>fraude. Quem decidia era Deus. Pode-se imaginar que esses juízes tinham</p><p>uma absoluta tranquilidade de consciência.</p><p>Com as leis romanas imperiais injetadas pelos juristas, a verdade</p><p>passou a ser estabelecida por interrogação, por inquisitio. O imputado</p><p>devia ser interrogado, e se não queria responder a verdade lhe era</p><p>extraída pela violência, pela tortura. Para isso haviam sequestrado Deus e</p><p>o ordálio se havia tornado desnecessário, pois Deus já estava sempre do</p><p>lado de quem exercia a violência. O poder tinha atado Deus, porque</p><p>sempre fazia o bem.</p><p>Segundo Foucault, todo saber adotou o método do interrogatório</p><p>violento. Parece haver algo disso se comparamos a inquisição com a</p><p>vivissecção, mas voltemos ao nosso. A Inquisição romana exercia o poder</p><p>de julgar em toda Europa porque não havia Estados nacionais e os</p><p>senhores feudais não podiam impedi-lo, embora isso lhes incomodasse.</p><p>Na Espanha, onde a sociedade já tinha a forma de exército, o poder da</p><p>Inquisição não foi papal, e, diferentemente do resto de Europa,</p><p>encontrava-se a serviço do rei. Por isso, a Inquisição espanhola tem uma</p><p>história separada da romana.</p><p>Com esse instrumento, o Papa massacrou rapidamente uns tantos</p><p>hereges (os albigenses, os cátaros etc.). Também se juntou aos franceses</p><p>para fritar os templários e repartir suas riquezas, imputando-lhes que eram</p><p>gays e que tinham um ritual de iniciação de submissão sexual, meio</p><p>leather style. Logo, porém, a Inquisição ficou sem trabalho e sem inimigo,</p><p>porque havia matado todos eles. Para justificar seu brutal poder punitivo</p><p>necessitava de um inimigo que tivesse mais vigor, que fosse de melhor</p><p>qualidade. Assim, acabou apelando para um inimigo de muito bom estofo,</p><p>que durou vários séculos: Satã, que em hebraico significa justamente</p><p>inimigo.</p><p>Como era difícil explicar semelhante poder sanguinário no marco de</p><p>uma religião cujo Deus não era guerreiro, e sim uma vítima executada em</p><p>um instrumento de tortura próprio do poder punitivo do Império Romano</p><p>(equivalente à cadeira elétrica do século XX), era necessário inventar-lhe</p><p>um inimigo guerreiro, e assim Satã terminou sendo o comandante em</p><p>chefe de um exército composto por legiões de diabos.</p><p>Para isso lhe caiu muito bem a cosmovisão que Santo Agostinho havia</p><p>imaginado quase dez séculos antes. Ele – que havia vivido no norte de</p><p>África no século IV e depois de participar de quantas festas pôde, quando</p><p>lhe baixaram os hormônios, e como antes havia combinado suas andanças</p><p>com o maniqueísmo – imaginou que havia dois mundos enfrentados na</p><p>forma de espelho: um de Deus e outro de Satã, a cidade de Deus e a do</p><p>diabo.</p><p>As duas cidades tinham equipes rivais: a do diabo dedicava-se ao</p><p>esporte de tentar a de Deus, porque os partidários deste podiam salvar-se,</p><p>ao passo que eles, como anjos caídos, estavam irremediavelmente</p><p>condenados a ser destruídos no juízo final e, portanto, tentavam adiá-lo e</p><p>baixar o número de salváveis. Não ficava claro por que não os destruíram</p><p>antes e era necessário esperar o julgamento, mas isso não importa.</p><p>O certo é que nesse mundo maciço, mas perfeitamente dividido, não</p><p>havia possibilidade de neutralidade: ou se estava com Deus ou com Satã.</p><p>Tudo o que estava fora da cidade de Deus era domínio satânico, incluindo</p><p>os deuses pagãos (e depois seriam as religiões dos nossos povos nativos).</p><p>Cabe esclarecer que o pobre Santo Agostinho não matou ninguém. Ele</p><p>apenas armou esse discurso e, como havia morrido há quase mil anos</p><p>antes da Inquisição, se livrou da pena de ver o que se fazia com apoio</p><p>nele. Houve outros ideólogos que tiveram menos sorte e a vida lhes deu a</p><p>oportunidade de queixar-se e arrepender-se, vendo como usavam suas</p><p>ideias. Agostinho teve inclusive vislumbres muito inteligentes, como o de</p><p>enunciar a primeira política de redução de danos em matéria de aborto.</p><p>Todavia, quando o Papa se valeu do invento agostiniano para</p><p>perseguir tudo o que não se submetia a seu poder e consagrou a</p><p>Inquisição à luta contra Satã, como este não aparecia em lugar nenhum,</p><p>teve de se agarrar a ela com alguns humanos, e já não lhe restavam</p><p>hereges. Por conseguinte, empreendeu-a contra a metade da espécie</p><p>humana, contra as mulheres. Para isso foi inventada a teoria do pacto</p><p>satânico. Satã não podia atuar sozinho, necessitava da cumplicidade de</p><p>humanos (não me perguntem o porquê, porque não sei). Para isso havia</p><p>humanos que celebravam um pacto com o inimigo, com Satã. Era um</p><p>contrato de compra e venda proibido, mas que por sua natureza só podia</p><p>ser celebrado por humanos inferiores, que eram as mulheres. Por que? Por</p><p>razões genéticas, biológicas: tinham um defeito de fábrica por provir de</p><p>uma costela curva do peito do homem, o que contrastava com a retidão</p><p>deste (não sei tampouco onde o homem é reto, mas prossigamos). Por</p><p>isso, elas têm menos inteligência e, por conseguinte, menos fé. E</p><p>ratificavam essa afirmação, inventando que femina provém de fé e minus,</p><p>ou seja, menos fé (é mentira, pois femina vem do sânscrito, do verbo que</p><p>significa amamentar).</p><p>Foi assim que a Inquisição se dedicou a controlar as mulheres</p><p>desobedientes e levou à combustão milhares delas, como bruxas, em</p><p>quase toda Europa.</p><p>Na verdade, o poder de Satã e seus rapazes foi muito estudado e</p><p>teorizado pelos encarregados da Inquisição, que foram os dominicanos,</p><p>ordem fundada por São Domingos de Gusmão, mas também conhecidos</p><p>como cães do Senhor (canes do Dominus). Na condição de estudiosos da</p><p>etiologia, ou da origem do mal, eles foram os primeiros criminólogos. É</p><p>claro que não foram chamados de criminólogos e sim de demonólogos.</p><p>Quase nenhum criminólogo aceita essa origem, porque não é uma boa</p><p>certidão de nascimento; preferem considerar-se herdeiros do Iluminismo</p><p>ou mesmo do século XIX e esquecer o nome dos velhos demonólogos,</p><p>aos quais ninguém menciona. Mas o certo é que ninguém tem a culpa de</p><p>seus antepassados.</p><p>A demonologia, porém, não deixou de criar contradições porque os</p><p>juristas – glosadores e pós-glosadores – haviam tratado de sistematizar</p><p>suas especulações conforme uma certa lógica, que tomavam da ética</p><p>tradicional. Isso se deve a que, na medida em que se queira dotar de</p><p>alguma lógica interna o discurso legitimador do poder punitivo, surge um</p><p>mínimo de limites, porque a necessidade não é infinita. Justamente para</p><p>eliminar esses limites criando uma necessidade quase infinita e absoluta,</p><p>foi que se autonomizou a criminologia com o nome de demonologia.</p><p>Os juristas pretendiam que a pena fazia pagar a dívida do delito. Se o</p><p>crime resultava de uma escolha livre, havia que retribuir o mal com o mal.</p><p>A ideia de culpa dominava suas elucubrações. Lembro a vocês que culpa e</p><p>dívida são sinônimos. O velho Padre Nosso dizia perdoai as nossas dívidas</p><p>e não eram os “pagareis” que firmávamos, e sim nossas culpas. Em alemão</p><p>Schuld tem também esse duplo significado. Isso impunha um pequeno</p><p>limite à pena, exigia certa proporção com a censura da culpa.</p><p>E como a mulher era inferior, era menos inteligente que o homem,</p><p>devia</p><p>ser menos culpável e, por conseguinte, merecer pena menor. Os</p><p>juristas as consideravam como meninas, em permanente estado de</p><p>imaturidade. No entanto, os inquisidores não se atinham à culpa, e sim ao</p><p>grau de perigo que as bruxas e Satã representavam, que colocava em risco</p><p>a humanidade. Para os demonólogos havia uma emergência gravíssima e</p><p>nada devia obstaculizar a repressão preventiva. Aqui surgiu uma questão</p><p>que até hoje não foi solucionada: a pena se fixa pela culpa ou pela</p><p>periculosidade? Os penalistas continuam discutindo a incoerência com</p><p>paliativos, enquanto os juízes decidem o que lhes parece.</p><p>Como vemos, a Idade Média está presente. Em seu tempo, isso se</p><p>resolveu argumentando que o pacto satânico era um crime mais grave que</p><p>o pecado original, porque neste Adão e Eva haviam sido enganados, mas</p><p>o pacto com Satã se celebrava com vontade plena, com consciência do</p><p>mal e, ademais, era uma traição, para com, nada menos, a cidade de Deus,</p><p>com o qual havia que seguir a tradição germânica. Cabe fazer notar que os</p><p>germânicos eram mais ecológicos, porque não danificavam as árvores,</p><p>enquanto os inquisidores queimavam sua madeira. O certo, porém, é que</p><p>este modelo marcou a estrutura de todos os discursos posteriores</p><p>legitimadores de massacres. Por isso, será necessário deter-se na análise</p><p>dessa estrutura.</p><p>Ilustração 5</p><p>4. A estrutura inquisitorial</p><p>Os demonólogos elaboraram um discurso muito bem armado para</p><p>liberar seu poder punitivo de todo e qualquer limite, em função de uma</p><p>emergência desencadeada por Satã e seus seguidores, em combinação</p><p>com as moças terrenas. Por certo que se alguém sustentasse, hoje em dia,</p><p>esta tese seria inevitavelmente psiquiatrizado. Não podemos, porém, ficar</p><p>na anedota, porque, embora pareça mentira, a estrutura demonológica</p><p>mantém-se até o presente. Os discursos têm uma estrutura e um conteúdo.</p><p>Trata-se, digamos, de algo parecido a um programa de computação</p><p>alimentado com os livros de uma biblioteca. Podemos carregar o</p><p>programa com livros esotéricos e teremos uma biblioteca dessa natureza,</p><p>mas também podemos esvaziar seu conteúdo e recarregá-lo com outros</p><p>livros e teremos bibliotecas de medicina, física, química, história, ou o que</p><p>quer que seja. Pois bem: o que permanece do discurso inquisitorial ou</p><p>demonológico não é o conteúdo, e sim justamente o programa, a</p><p>estrutura.</p><p>Ao longo dos séculos o mesmo programa foi esvaziado e voltou a ser</p><p>alimentado com outras informações, com dados de novas emergências,</p><p>críveis segundo as pautas culturais de cada momento: deixou-se de se</p><p>acreditar em Satã e suas meninas, mas passou- se a acreditar em outras</p><p>coisas, que, hoje, tampouco são críveis, ainda que se continue</p><p>alimentando o programa com dados que hoje são críveis e amanhã serão</p><p>não tão críveis quanto Satã, suas legiões de diabos e suas mulheres.</p><p>Desde a Inquisição até hoje os discursos foram se sucedendo com</p><p>idêntica estrutura: alega-se uma emergência, como uma ameaça</p><p>extraordinária que coloca em risco a humanidade, quase toda a</p><p>humanidade, a nação, o mundo ocidental etc., e o medo da emergência é</p><p>usado para eliminar qualquer obstáculo ao poder punitivo que se</p><p>apresenta como a única solução para neutralizá-lo. Tudo o que se quer</p><p>opor ou objetar a esse poder é também um inimigo, um cúmplice ou um</p><p>idiota útil. Por conseguinte, vende-se como necessária não somente a</p><p>eliminação da ameaça, mas também a de todos os que objetam ou</p><p>obstaculizam o poder punitivo, em sua pretensa tarefa salvadora.</p><p>É evidente que o poder punitivo não se dedica a eliminar o perigo da</p><p>emergência, e sim a verticalizar mais ainda o poder social; a emergência é</p><p>apenas o elemento discursivo legitimador de sua falta de contenção.</p><p>Isso se verifica ao longo de cerca de 800 anos de sucessivas</p><p>emergências, algumas das quais implicavam certo perigo real, mas o poder</p><p>punitivo nunca eliminou nenhum desses perigos. Satã está um pouco</p><p>cabisbaixo, com seu tridente sem ponta e sua cauda quebrada; o</p><p>alcoolismo continua fazendo estragos; as drogas se expandem cada dia</p><p>mais; a sífilis foi resolvida com a penicilina; a tuberculose com a</p><p>estreptomicina; os hereges fizeram suas igrejas nacionais; a degeneração</p><p>da espécie e o perigo das raças inferiores passaram a ser uma grande</p><p>mentira; as bruxas continuam cozinhando seus cozidos esquisitos e no</p><p>máximo criam algum problema bromatológico. Os perigos foram</p><p>inventados ou mesmo quando eram reais desapareceram por outros meios</p><p>ou permanecem, e até se ampliam, mas, ao longo de 800 anos, o poder</p><p>punitivo jamais eliminou um risco real.</p><p>Diriam no meu bairro que o discurso inquisitorial sempre foi, e</p><p>continua sendo, um modo de colocar a corda no pescoço. Mais</p><p>academicamente, diríamos que é um imenso engano, uma tremenda</p><p>fraude e que o poder punitivo, ao projetar-se na opinião das pessoas</p><p>como o remédio para tudo, não é mais do que o delito máximo da</p><p>propaganda desleal da nossa civilização.</p><p>Trata-se do instrumento discursivo que proporciona a base para criar</p><p>um estado de paranoia coletiva que serve para aquele que opera o poder</p><p>punitivo o exerça sem nenhum limite e contra quem lhe incomoda.</p><p>Por desgraça, porém, quando aparece um discurso com estrutura</p><p>inquisitorial e ninguém detém sua instalação, a consequência última é um</p><p>massacre. Assim aconteceu com as mulheres queimadas, com as vítimas</p><p>das máfias e da corrupção produzidas pela proibição do álcool e das</p><p>drogas; com os inimigos do Ocidente cristão massacrados pela segurança</p><p>nacional ou pelo franquismo; com os doentes e incapacitados esterilizados</p><p>ou assassinados pela eugenia; com a eliminação nos campos de</p><p>concentração nazistas, e com muitos milhões de pessoas, mas já estou me</p><p>metendo com a palavra dos mortos, que é questão que deixo para mais</p><p>adiante.</p><p>Vejamos agora como os demonólogos instalaram essa estrutura</p><p>discursiva originária que permanece intocável até o presente. O certo é</p><p>que esses pioneiros foram muitos e escreveram uma quantidade de livros</p><p>muito sofisticados. A criminologia não registra os nomes de seus</p><p>fundadores, porque os nega, como esses antepassados piratas,</p><p>contrabandistas ou escravistas a quem todos ocultam e ninguém</p><p>reconhece.</p><p>Não vale a pena resgatar todos eles, porque de qualquer modo não</p><p>creio que nenhum instituto de criminologia de nossos dias queira ostentar</p><p>algum desses nomes. Para quem se interessa pelo tema, vale a pena dizer</p><p>que há uma antologia bem feita. Para nossos efeitos, é melhor centrarmos</p><p>na obra tardia, porém sintética, que consagra a autonomia da criminologia</p><p>em relação ao direito penal, expondo pela primeira vez, de forma</p><p>orgânica, uma completa teoria sobre a origem do crime, ou seja, uma</p><p>exposição da chamada etiologia criminal. Trata-se do Malleus</p><p>maleficarum ou Martelo das bruxas, de 1484.</p><p>Ilustração 6</p><p>A esse respeito – e entre parênteses – é bom recordar que a inquisição</p><p>romana teve seu esplendor nos tempos feudais, mas, quando os Estados</p><p>nacionais se organizaram como monarquias fortes, estas reclamaram para</p><p>si seus poderes punitivos e os foram retirando do Papa, de modo que a</p><p>tarefa de queimar mulheres passou a ser desempenhada por juízes estatais,</p><p>dependentes dos monarcas e príncipes, alguns dos quais não reduziram</p><p>seu entusiasmo pela combustão. Continuaram queimando mulheres até o</p><p>século XVIII, porém pelos Estados, em um momento em que o Papa não</p><p>se ocupava mais das mulheres mas sim dos luteranos e reformados. Desde</p><p>o século XV, ou seja, com a chamada Contra-Reforma, a inquisição</p><p>romana se dedicava a estes últimos e não conferia nenhuma</p><p>ênfase às</p><p>mulheres.</p><p>De qualquer maneira, os juízes estatais da Europa central continuaram</p><p>usando como manual o Martelo das bruxas, que se encontrava no guia</p><p>oficial dos queimadores de mulheres desde 5 de setembro de 1494,</p><p>quando o tenebroso Papa Inocêncio VIII o consagrou como tal, mediante</p><p>a bula Summis desiderantes affectibus.</p><p>O Martelo foi escrito por dois inquisidores muito particulares: o</p><p>alsaciano Heinrich Krämer e o suíço-alemão Jakob Sprenger. Este último</p><p>era um sujeito de vida monacal, que fazia aparições e tinha fama de beato.</p><p>1.</p><p>Já Krämer – também conhecido como Institoris (que, em latim, significa</p><p>quitandeiro, o mesmo que Krämer em alemão) – era mais problemático,</p><p>pois o bispo o suspendeu de suas funções porque, em seu afã incendiário,</p><p>estava deixando a diocese sem mulheres e, além disso, segundo as más</p><p>línguas, se havia envolvido com dinheiro de indulgências. Embora seja</p><p>discutível, também parece que falsificou a recomendação do pequeno</p><p>manual por parte da Universidade de Colônia, para atribuir-lhe maior base</p><p>acadêmica.</p><p>O certo é que esses dois personagens produziram essa obra singular,</p><p>que foi um best-seller durante duzentos anos, tempo no qual foi o livro</p><p>mais publicado depois da Bíblia. Como dado curioso, devo advertir que,</p><p>se alguém hoje quiser lê-lo em espanhol ou português, deve buscá-lo nas</p><p>seções de livros esotéricos das livrarias.</p><p>Sua leitura é, às vezes, entediante, mas não podemos deixar de pensar</p><p>que se trata de dois delirantes com fixações sexuais insólitas. A verdade é</p><p>que para ter uma ideia completa do universo cultural da Idade Média não</p><p>se pode prescindir, evidentemente, de Dante, mas tampouco do Malleus</p><p>maleficarum. Uma mesma época produziu um poeta sublime como</p><p>Alighieri e dois delirantes alucinados, como Sprenger e Krämer. Talvez</p><p>hoje aconteça a mesma coisa.</p><p>O delírio está muito bem sistematizado e é a primeira vez na história</p><p>que se construiu uma obra que integrou, em um único sistema harmônico,</p><p>a criminologia (origem do mal) com o direito penal (manifestações do</p><p>mal), com o processo penal (como se investiga o mal) e com a</p><p>criminalística (dados para descobrir na prática o mal). A elaboração é, por</p><p>conseguinte, bastante sofisticada. Como o conteúdo com o qual</p><p>preencheram a estrutura que lhes dava fundamento é para nós tão</p><p>disparatado, tem a vantagem de, em razão dessa tremenda distância</p><p>temporal e cultural, nos permitir ver com maior clareza os principais</p><p>núcleos estruturais que permanecem até a atualidade desde a própria</p><p>origem da criminologia. Por isso, repassá-los não é um mero divertimento,</p><p>mas sim uma constatação de sua permanência através dos séculos. Passo a</p><p>assinalar vinte destes núcleos, embora advirta que há mais, mas não quero</p><p>aborrecer vocês.</p><p>O crime que provoca a emergência é o mais grave de todos. Como</p><p>vimos, os inquisidores afirmavam que era mais grave que o pecado</p><p>2.</p><p>3.</p><p>4.</p><p>5.</p><p>original. Outros se sucederam no tempo: subversão, terrorismo, uso de</p><p>tóxicos etc. A gravidade do crime é exaltada ao máximo porque dela</p><p>depende o grau de perigo da emergência e do poder correspondente</p><p>do repressor.</p><p>A emergência só pode ser combatida mediante uma guerra, ou seja, a</p><p>linguagem não pode ser senão bélica. Os autores pretendem saber</p><p>como estavam organizadas as hostes de Satã – porque, supomos,</p><p>haviam conseguido infiltrar algum agente disfarçado no inferno. Bush</p><p>e Obama sempre disseram o mesmo, e sem dar margem a dúvidas o</p><p>primeiro usou o mesmo procedimento para descobrir as armas</p><p>químicas no Iraque, que Satã logo fez desaparecer.</p><p>Sua frequência é alarmante. Diziam que a Alemanha estava cheia de</p><p>bruxas, mais do que qualquer outro país. É o mesmo que nos dizem</p><p>pela televisão, todos os dias e todas as horas: em nosso país há mais</p><p>crimes que em qualquer outro (nosso país pode ser qualquer um em</p><p>que houver uma televisão).</p><p>O pior criminoso é quem duvida da emergência. Quando alguém pede</p><p>números e duvida da gravidade e da frequência corre sérios riscos,</p><p>porque se erige em inimigo, não da sociedade nem da humanidade,</p><p>mas sim daquele que exerce o poder punitivo. Embora hoje “pegue”</p><p>mal que ele seja queimado, como Sprenger e Krämer postulavam, não</p><p>duvido que muitos lamentem que os tempos tenham mudado.</p><p>Qualquer fonte de autoridade que diga o contrário deve ser</p><p>neutralizada. Nos tempos dos inquisidores havia um cânone – isto é,</p><p>uma lei muito antiga –, o Canon episcopi, que se referia a uma seita de</p><p>mulheres (as filhas de Diana) que existira muitos anos antes e que não</p><p>lhes atribuía nenhum poder maléfico e negava que pudessem voar. É</p><p>claro que um texto venerável dessa natureza é um obstáculo para o</p><p>discurso, como também o pode ser uma verificação científica ou</p><p>fundada com seriedade.</p><p>Quando se produz esse fenômeno há três soluções discursivas: a fonte</p><p>é falsa (por exemplo: o planeta não está aquecendo, os cientistas que</p><p>afirmam o contrário não sabem nada ou falseiam a realidade), mas é</p><p>verdadeira se se refere a outra coisa (as filhas de Diana não eram</p><p>como as bruxas alemãs; os ladrões de antes eram bons e</p><p>cavalheirescos, não como os de agora; os anarquistas não eram como</p><p>os subversivos etc.) ou a interpreta mal (o Canon não diz exatamente</p><p>6.</p><p>7.</p><p>8.</p><p>9.</p><p>isso, o que os técnicos dizem é outra coisa, há que fazer distinções</p><p>etc.).</p><p>Para Sprenger e Krämer, as bruxas voavam mesmo, e se não tivessem</p><p>voado e só provocavam uma ilusão, elas deveriam ser queimadas da</p><p>mesma maneira porque compactuavam com Satã e pronto.</p><p>A valoração dos fatos se inverte por completo. É o que muitos anos</p><p>depois Merton chamará de alquimia moral. Se a bruxa não confessava,</p><p>a despeito de ser brutalmente torturada, era porque Satã lhe dava</p><p>forças; se, desesperada, enforcava-se, era porque Satã a havia levado</p><p>para que não confesasse e se salvasse no mais além (porque, ainda</p><p>que confessasse, seria morta de qualquer forma). Se ela enlouquecia</p><p>com a tortura e ria, era porque Satã fazia pouco dos inquisidores. Nada</p><p>muda: se os presos estudam é para delinquir melhor, se se</p><p>arrependem são dissimulados, se matam uns aos outros é porque são</p><p>criminosos, se alguém pede uma trégua está simulando para contra-</p><p>atacar.</p><p>O delírio serve de pretexto para encobrir muitos delitos. Se um padre</p><p>estava observando o pênis de um penitente, era porque tentava</p><p>convencê-lo de que não o havia perdido por obra de um</p><p>encantamento; se outro aparece nu dentro de um celeiro, contará que</p><p>Satã o levou a um banquete e, como não quis jurar-lhe fidelidade, o</p><p>lançou ali; se um homem santo é encontrado debaixo da cama de uma</p><p>mulher, será porque Satã se apoderou de seu corpo para se esconder.</p><p>Quando um investigador é surpreendido num lugar suspeito, até hoje</p><p>costuma se dizer que ele estava se infiltrando; o terrorismo também é</p><p>útil para eliminar aos maridos incômodos das amantes etc.</p><p>As imagens dirigentes são imaculadas: isso os levava ao extremo de</p><p>sustentar que os anjos e Jesus não completavam o processo</p><p>alimentício, isto é, não defecavam, e sim dissolviam o alimento no</p><p>estômago. A pureza dos líderes em toda emergência é algo que se</p><p>cuida com singular esmero, em especial sua correção sexual. Para os</p><p>inquisidores, os diabos nem sequer tinham orgasmos (porque, no final,</p><p>também eram anjos), ou seja, eles copulavam com as bruxas só para</p><p>fazer o mal; eram uma espécie de sadomasoquistas inorgásmicos.</p><p>Os inimigos são inferiores. A misoginia do Malleus é extrema: a</p><p>mulher é biológica e geneticamente inferior, o que era comprovado</p><p>com alentadas citações em que misturavam indistintamente pagãos e</p><p>10.</p><p>11.</p><p>12.</p><p>13.</p><p>padres da Igreja. Quase todas as emergências são promovidas por</p><p>inferiores na história posterior: mestiços,</p>