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<p>UFG | Universidade Federal de Goiás</p><p>FAV | Faculdade de Artes Visuais</p><p>PPGPC | Programa de Pós-Graduação Projeto e Cidade</p><p>CIDADE DE GOIÁS: O PATRIMÔNIO EM QUESTÃO</p><p>VINÍCIUS ANTONELLI DE SOUZA</p><p>Goiânia, 2020</p><p>Linha de Pesquisa | História e Teoria da Arquitetura e do Urbanismo</p><p>Orientadora | Profa. Dra. Adriana Mara Vaz de Oliveira</p><p>VINÍCIUS ANTONELLI DE SOUZA</p><p>CIDADE DE GOIÁS: O PATRIMÔNIO EM QUESTÃO</p><p>Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa</p><p>de Pós-Graduação Projeto e Cidade da Faculdade de</p><p>Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás,</p><p>como requisito para a obtenção do título de mestre</p><p>em Projeto e Cidade.</p><p>2020</p><p>Casario da Cidade de Goiás</p><p>Foto: SOUZA, 2018.</p><p>À Maria, José e João</p><p>AGRADECIMENTOS |</p><p>Enfim, agradecer.</p><p>Primeiramente,</p><p>a confiança depositada sobre mim por Adriana,</p><p>que com todo trato perspicaz, correcto e científico</p><p>me elevou, incentivou e acreditou.</p><p>Grato sou e serei por tê-la ao meu lado e por ter se tornado espelho.</p><p>O programa Projeto e Cidade e a UFG, aqui representado por Christine,</p><p>que desde o princípio viu nesta pesquisa um potencial a explorar.</p><p>A presença de Elane, completando este trio de mulheres.</p><p>Representa muito a mim!</p><p>Aos colegas da pós, que juntos, veem na ciência</p><p>um caminho plausível a se percorrer.</p><p>Que sigamos firmes.</p><p>À CAPES, por permitir concluir essa jornada.</p><p>Aos amigos do coração,</p><p>que foram refúgio para quando a mente pedia descanso.</p><p>Ao querido Higor, companheiro, paciente e ouvinte,</p><p>que tanto me acompanhou pelas ruas, vielas e becos de Goiás.</p><p>A mãe, o pai e o irmão, por toda luta que só nós sabemos.</p><p>Amo vocês!</p><p>Farricocos – Procissão do Fogaréu</p><p>Foto: SOUZA, 2019.</p><p>RESUMO |</p><p>O processo de patrimonialização do centro histórico da Cidade de Goiás inicia-se na esfera</p><p>nacional na segunda metade do século XX e sedimenta-se com o tombamento mundial em</p><p>2001. A configuração colonial do conjunto vilaboense, estigmatizada a priori, firmou-se</p><p>como imagem cultural da sociedade local e principal elemento a ser preservado, em meio</p><p>a toda sorte de políticas preservacionistas. As intervenções ocorridas ao longo do tempo</p><p>no perímetro tombado contribuíram com o enaltecimento imagético da cidade como</p><p>cenário setecentista. Diante dessa constatação, buscou-se compreender como a atuação</p><p>institucional, ou não, do patrimônio e seu percurso preservacionista contribuíram para</p><p>consolidar tais imagens da Cidade de Goiás. Parte-se das ações executadas a partir dos</p><p>anos 1970 até os dias atuais, perscrutando a solidificação da imagem da cidade</p><p>patrimonializada, por meio da cenarização do trecho urbano do centro histórico, com o</p><p>incentivo às cópias, mimetismos e retiradas das contradições à originalidade do conjunto.</p><p>Para tal, consideram-se os atos do Iphan, Prefeitura Municipal, Programa Monumenta e</p><p>Programa de Aceleração do Crescimento – Cidades Históricas. Essa pluralidade de ações</p><p>reflete um árduo levantamento no âmbito das referidas instituições e seus instrumentos</p><p>preservacionistas, resultando no reconhecimento de um processo que ainda não se</p><p>encerrou. Entre as últimas intervenções estão a Restauração do Mercado Municipal, do</p><p>Cine Teatro São Joaquim, do Casarão da Prefeitura Municipal, a Requalificação da Sede da</p><p>Diocese de Goiás – instalação do Arquivo Diocesano, que cumprem o papel de atualizar a</p><p>linguagem da preservação diante da vida contemporânea. Como repercussão da imagem</p><p>urbana patrimonializada diante da sociedade, averígua-se as circunstâncias decorrentes</p><p>da instauração das práticas turísticas no trecho histórico.</p><p>| Palavras-chave: Cidade de Goiás; patrimônio cultural; imagem da cidade; cenários</p><p>urbanos; patrimônio e sociedade.</p><p>ABSTRACT |</p><p>The process of patrimonialization of the historic center of the City of Goiás began at the</p><p>national level in the second half of the 20th century and was consolidated with the global</p><p>downturn in 2001. The colonial configuration of the Vilaboense group, a priori</p><p>stigmatized, has established itself as a cultural image of local society and the main element</p><p>to be preserved, amid all manner of preservationist policies. The interventions that took</p><p>place over time in the topple perimeter contributed to the imaginary aggrandizement of</p><p>the city as a 17th century scenario. From this observation, we sought to understand how</p><p>the institutional performance, or not, of heritage and its preservationist trajectory</p><p>contributed to consolidate such images of the City of Goiás. It is based on the actions</p><p>carried out from the 1970s to the present day, peering at the solidification of the image of</p><p>the he patrimonialized city, through the urbanization of the urban section of the historic</p><p>center, with the encouragement of copies, mimicry and removal of contradictions to the</p><p>originality set. To do this, the acts of Iphan, city Hall, Monumenta Program and Aceleração</p><p>do Crescimento – Cidades Históricas Program were considered. This plurality of actions</p><p>reflects an arduous survey within the scope of these institutions and their preservationist</p><p>instruments, resulting in the recognition of process that has not yet ended. Among the</p><p>latest interventions are Restoration of the Municipal Market, of the Cine Teather São</p><p>Joaquim, of the City Hall, the Requalification of Headquarters of the diocese of Goiás –</p><p>installation of the Diocese archive, that fulfill the role of updating the language of</p><p>preservation in the face of contemporary life. As a repercussion of the patrimonialized</p><p>urban image in front the society, the circumstances arising from the establishment of</p><p>tourist practices in the historical section are investigated.</p><p>Key-words: City of Goiás; cultural heritage; city image; urban scenarios; heritage and</p><p>society.</p><p>ABREVIATURAS E SIGLAS |</p><p>BID | Banco Interamericano do Desenvolvimento</p><p>CNRC | Centro Nacional de Referência Cultural</p><p>Conselho Internacional de Monumentos e Sítios</p><p>DPHAN | Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional</p><p>ETEC Goiás | Escritório Técnico do Iphan na Cidade de Goiás</p><p>FICA | Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental</p><p>FnPM | Fundação Nacional Pró-memória</p><p>FRIP | Financiamento de Imóveis Privados - Monumenta</p><p>IBPC | Instituto Brasileiro de Patrimônio Cultural</p><p>Ibram | Instituto Brasileiro de Museus</p><p>ICOMOS | International Council on Monuments as Sites</p><p>IPHAN | Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional</p><p>MEC | Ministério da Educação e Cultura</p><p>MinC | Ministério da Cultura</p><p>MONUMENTA | Programa de Preservação do Patrimônio Histórico Urbano - Monumenta</p><p>Mtur | Ministério do Turismo</p><p>Muban | Museu das Bandeiras</p><p>OEA | Organização dos Estados Americanos</p><p>Organização das Nações Unidades para Educação, Ciência e Cultura</p><p>OVAT | Organização Vilaboense de Artes e Tradições</p><p>PAC – CH | Programa de Aceleração do Crescimento – Cidades Históricas</p><p>PCH | Programa das Cidades Históricas</p><p>SEC | Secretaria de Cultura</p><p>SPHAN | Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional</p><p>UNESCO | United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization</p><p>LISTA DE FIGURAS |</p><p>Figura 1: Primeiro traçado da Cidade de Goiás. Fonte: TAMASO, 2007. Editado pelo autor. ........ 30</p><p>Figura 2: Quartel do XX (1), Casa de Câmara e Cadeia (2) e Chafariz da Boa Morte (3). Fotos:</p><p>frente a</p><p>salvaguarda desses bens. Dava-se início a fase em que o Patrimônio, até então Histórico e</p><p>Artístico, se tornaria Patrimônio Cultural. Para Choay (2001), o termo cultura, que foi</p><p>usado com mais vigor desde a década de 1960 foi então absorvido, resultando na sua</p><p>própria transformação em produto cultural.</p><p>Enquanto no século XIX e início do século XX o Patrimônio estava totalmente ligado</p><p>a construção de identidades, posteriormente o mesmo se transformou em uma fonte para</p><p>a construção social e cultural de uma sociedade. Historicamente por meio da atribuição</p><p>de valores a um determinado bem, podemos compreender como foram construídos os</p><p>patrimônios. Segundo Sant’Anna (2015), as recomendações, cartas e convenções</p><p>internacionais atestam, em suma, o deslocamento do interesse da obra de arte e do</p><p>monumento histórico para o patrimônio urbano, paisagístico e, em seguida, cultural</p><p>– dimensão esta que, eventualmente envolve todas as outras e se confunde com o universo</p><p>do patrimônio a ser preservado.</p><p>2 Elaborada no Equador, as Normas de Quito de 1967 é uma das cartas patrimoniais fruto do encontro</p><p>promovido pelo Departamento de Assuntos Culturais da Organização dos Estados Americanos - OEA. O</p><p>documento trata da conservação e utilização dos monumentos e lugares de interesse histórico e artístico,</p><p>recomendando que os projetos de valorização de bens estejam sob responsabilidade dos governos em seus</p><p>planos de desenvolvimento.</p><p>47</p><p>1.2.1 | O patrimônio institucionalizado brasileiro</p><p>Traçar um esboço cronológico das políticas preservacionistas nacionais não foge de</p><p>narrar o próprio percurso do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional -</p><p>Iphan. É por isso que neste item, as transformações dentro do órgão, mudanças estas</p><p>muito relacionadas à imagem e políticas de seus diretores, são peças chaves para</p><p>compreender como se procedeu o reconhecimento dos bens patrimoniais da Cidade de</p><p>Goiás. A trajetória do órgão é longa, com muitas nuances e enfrentamentos e, por isso, a</p><p>intenção não é chegar a seu estado da arte, mas de algum modo levantar suas principais</p><p>rupturas.</p><p>Os primeiros indícios das práticas preservacionistas no Brasil antecedem a</p><p>institucionalização do patrimônio com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e</p><p>Artístico Nacional – Sphan, no ano de 1937. De modo singelo e sem interesse de</p><p>preservação, especificamente algumas ações foram tomadas no início do século XX com o</p><p>intuito de resgatar antigas tradições que vinham desaparecendo frente às transformações</p><p>das cidades. Os antigos centros urbanos em diversas capitais brasileiras passavam por</p><p>uma obliteração gradativa em prol de sua modernização. O valor cultural das antigas</p><p>edificações que viria a ser objeto de políticas nacionais no futuro, ainda não era</p><p>reconhecido.</p><p>Inicialmente, o interesse pela arquitetura colonial brasileira teve como ponto de</p><p>partida os estudos do engenheiro português Ricardo Severo sobre tais exemplares. Sem</p><p>intenção preservacionista, Severo, radicado no Brasil desde 1910, demonstrou em</p><p>algumas das conferências sobre arte que ministrou pelo país ocorridas entre 1914 e 1917,</p><p>seu apreço pela adequação que a arquitetura lusa passou quando inserida no Brasil e seu</p><p>desconforto com a arquitetura eclética que vinha sendo propagada pelos centros urbanos</p><p>desde o fim do século anterior. Destacou a originalidade da arquitetura barroca mineira,</p><p>lançando, assim, as bases para o que se tornaria posteriormente o movimento Neocolonial</p><p>(PINHEIRO, 2017).</p><p>As ideias de Severo influenciaram diversos membros da elite cultural brasileira a</p><p>traçarem olhares sobre as obras do período colonial. Dentre eles está Mário de Andrade,</p><p>paulista que foi figura importante na implantação do Sphan e que escreveu artigos na</p><p>década de 1920 sobre a arquitetura e arte religiosa barroca, colocando-a em destaque</p><p>48</p><p>como típica representante da cultura brasileira. O aproveitamento do colonial para uma</p><p>nova arquitetura foi se propagando, atingindo adeptos e consequentemente criando</p><p>incentivadores. O Neocolonial consolidou-se como vertente arquitetônica e passou a fazer</p><p>parte entre as edificações das cidades brasileiras.</p><p>O estilo neocolonial representou a primeira reação, a partir da segunda década</p><p>do século, à incorporação acrítica dos estilos históricos europeus pelo ecletismo</p><p>no Brasil, a ao desconhecimento e mesmo desvalorização da tradição construtiva</p><p>vinda da colônia. Seus seguidores procuraram produzir uma arquitetura que,</p><p>inspirada nessas raízes, terminou por se converter em uma cópia cujo efeito era</p><p>evocar o passado (FONSECA, 2009, p.91)</p><p>A década de 1920 foi marcada por um entusiasmo nacionalista, principalmente com a</p><p>comemoração do Primeiro Centenário da Independência do Brasil. Mediante a isso e a</p><p>ascensão da arquitetura colonial por meio da propagação neocolonial, surgiu em 1923 o</p><p>primeiro projeto de lei voltado para a preservação do patrimônio arquitetônico brasileiro.</p><p>Apresentado pelo deputado pernambucano Luiz Cedro, foi-se criada a Inspetoria dos</p><p>Monumentos Históricos dos Estados Unidos do Brasil, com o intuito de classificar os</p><p>monumentos nacionais, sejam eles edifícios públicos ou privados (PINHEIRO, 2017, p.19).</p><p>Viagens incentivadas e patrocinadas pela elite cultural brasileira foram feitas em 1924</p><p>com a meta de catalogar os exemplares coloniais passíveis a serem reconhecidos como</p><p>monumentos nacionais. Diversos profissionais foram enviados, incluindo representantes</p><p>da arquitetura modernista como Lúcio Costa. As cidades mineiras do ciclo do ouro eram</p><p>os principais destinos, desencadeando em “um processo de redescoberta do Brasil”</p><p>(CALABRE, 2017, p.34-35). Foi em uma delas que Mário de Andrade, em visita a Belo</p><p>Horizonte, conheceu Carlos Drummond de Andrade e Gustavo Capanema, sendo este</p><p>último o nome frente à criação do Sphan. Esse encontro resultou no interesse pela</p><p>arquitetura colonial mineira dentro das afinidades de mineiros e paulistas da elite cultural</p><p>da época.</p><p>Ainda na década de 1920, com o aumento das mobilizações a favor do reconhecimento</p><p>do patrimônio nacional, novas ações jurídicas voltadas à preservação do patrimônio</p><p>proporcionaram a criação de Inspetorias estaduais de monumentos históricos em Minas</p><p>Gerais em 1926, Bahia em 1927 e Pernambuco em 1928 (CALABRE, 2017, p.35), sendo as</p><p>primeiras medidas bem-sucedidas. Em 1928, Ouro Preto torna-se alvo de interesses</p><p>49</p><p>preservacionistas com diversas propostas de conservação e reparos de seu centro</p><p>histórico por diferentes personalidades3.</p><p>Em 1933, a cidade de Ouro Preto (Figura 11) foi elevada ao título de Monumento</p><p>Nacional, sendo a primeira a ser condecorada com tal reconhecimento. Diante da</p><p>patrimonialização da cidade e a Revolução de 19304, a dinâmica dos processos de</p><p>preservação tomaria outro rumo com a Carta Magna de 1934 que apresentava um artigo5</p><p>sobre a proteção do patrimônio do Brasil. A nova Constituição amparava “à cultura como</p><p>dever do Estado, cabendo à União, aos estados e aos municípios proteger os objetos de</p><p>interesse histórico e o patrimônio artístico do país” (CHUVA, 2017, p.88), viabilizando,</p><p>assim, os interesses sobre.</p><p>Figura 12: Praça da Liberdade, Ouro Preto - MG. Foto: SOUZA, 2017. Acervo pessoal.</p><p>Neste mesmo ano, Gustavo Capanema assume o Ministério da Educação e Saúde</p><p>Pública traçando uma nova fase para as políticas culturais no país. Capanema convida</p><p>Mário de Andrade para elaborar um projeto com função de proteger a arte brasileira.</p><p>Depois de dois pedidos sem resultados, Mário de Andrade elabora em 1936 o anteprojeto</p><p>para o Sphan, que inicia sua atuação de modo provisório sob autorização pelo então</p><p>presidente Getúlio Vargas e atrelado a pasta de Capanema.</p><p>3 Em 1928, o poeta Manoel Bandeira visita Ouro Preto onde registra diversas crônicas sobre a arquitetura</p><p>mineira e as obras de Aleijadinho, propondo a criação de um órgão destinado</p><p>à sua preservação. No mesmo</p><p>ano, Gustavo Barroso, diretor do Museu Histórico Nacional – MHN, convenceu o então governador de Minas</p><p>Gerais, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada a fazer reparos emergenciais e pontuais na cidade. Esta foi uma</p><p>das poucas ações práticas, de cunho preservacionista, ocorridas no Brasil até então. Em 1929, o deputado</p><p>João Batista Luzardo, após visita a Ouro Preto, propôs à Câmara dos Deputados um conselho técnico para</p><p>preservação da cidade, mas sem grande efeito (PINHEIRO, 2017, p.21).</p><p>4 Ruptura da política café-com-leite com o golpe de Estado que pôs o fim da “República Velha”, dando início</p><p>a Era Vargas.</p><p>5 Artigo 148.</p><p>50</p><p>O anteprojeto foi considerado grandioso demais, quase que impossível de funcionar,</p><p>por aumentar o conceito de patrimônio incluindo diversos tipos de obras de arte:</p><p>arqueológica, ameríndia, popular, histórica, erudita nacional, erudita estrangeira,</p><p>aplicadas nacionais e as estrangeiras6. Diante de tamanha proporção e abrangendo</p><p>diversas faces da cultura brasileira, o projeto de Mário de Andrade confrontava com a</p><p>verdadeira intenção do governo em questão que era conceber uma identidade nacional</p><p>oficial que se inscreveria sob os cânones de uma tradição enlaçada ao passado,</p><p>especificamente o colonial.</p><p>Deste modo, o advogado e jornalista mineiro Rodrigo Melo Franco de Andrade,</p><p>indicado por Manoel Bandeira e Mário de Andrade, foi convidado a organizar o projeto do</p><p>Sphan. Iniciam-se assim as políticas preservacionistas do patrimônio brasileiro com a</p><p>institucionalização oficial do órgão em âmbito federal, no ano de 19377, com apenas parte</p><p>do anteprojeto de Mário de Andrade incorporado à lei em total acordo com a realidade</p><p>política da época (CALABRE, 2017).</p><p>Nesta época, iniciava-se no país um período político autoritário, que ficou conhecido</p><p>como Estado Novo, com Getúlio Vargas a frente da Presidência da República. Em</p><p>contrapartida, houve um processo de urbanização progressiva com o aumento da</p><p>produção industrial e pela firmação de alguns diretos trabalhistas, além da busca</p><p>incessante da identificação do Brasil.</p><p>Segundo Gonçalves (1996), este período foi marcado pela busca da cultura brasileira</p><p>autêntica por meio de ideias da elite cultural que se identificava com o modernismo</p><p>europeu. Assim, configurava-se uma ideologia nacionalista, concluindo na formação de</p><p>um novo brasileiro e os processos de reconhecimento do patrimônio nacional passariam</p><p>a alimentá-lo.</p><p>A criação do Sphan foi uma ação pioneira no mundo ocidental em relação a</p><p>preservação das cidades. Tendo a sua frente Rodrigo Melo Franco de Andrade que ficou</p><p>na direção até 1967, o órgão teve o auxílio de arquitetos modernistas como Lúcio Costa,</p><p>6 O órgão deveria gerir tudo que contornava a preservação destes bens, desde sua identificação à sua</p><p>conservação. Era proposta a criação de quatro museus correspondendo a cada um dos livros do tombo em</p><p>que seriam registradas as obras tombadas: Museu para artes arqueológicas, ameríndias e populares (Livro</p><p>do Tombo Arqueológico e Etnográfico), Museu para as artes históricas (Livro do Tombo Histórico), Galeria</p><p>Nacional de Belas Artes (Livro do Tombo das Belas Artes) e Museu de artes aplicadas e técnica industrial</p><p>(Livro do Tombo das Artes Aplicadas). Além da idealização da Revista do Sphan com a publicação periódica</p><p>dos livros, artigos e entre outros (CALABRE, 2017, p.35).</p><p>7 Em 13 de janeiro de 1937, pela Lei nº 378 e através do Decreto-lei nº 25, de 30 de novembro de 1937,</p><p>criou-se o Sphan.</p><p>51</p><p>que muito contribuíram para o espírito de modernização por meio da valorização cultural</p><p>do Brasil. O Sphan surgiu com a função de afirmar uma identidade nacional e de construir</p><p>uma ideia de arte e cultura brasileira por meio da educação e da representação da</p><p>“brasilidade como forma de ser, viver e construir” (SANT’ANNA, 2017, p.140). Assim, a</p><p>preservação do patrimônio tornou-se um meio de preservar a própria nação, sendo um</p><p>sistema de comando exclusivamente federal.8</p><p>O Sphan passou a atribuir significados ao patrimônio urbano, dedicando-se</p><p>inicialmente a preservação dos valores de arte e história do Brasil, afirmando uma</p><p>civilização construída sobre os pilares da tradição. A concepção de “patrimônio</p><p>histórico e artístico” incluído no próprio nome do órgão está diretamente agregada a</p><p>gestão de Andrade. Para tanto, sua imagem tornou-se marco e representação para o</p><p>patrimônio nacional por conta da sua efetiva atuação em busca da compreensão da</p><p>sociedade perante o patrimônio.</p><p>Por mais que o Decreto de 1937 defina o patrimônio como conjunto de bens móveis e</p><p>imóveis existentes no país vinculados a história nacional (CALABRE, 2017, p.39), sem</p><p>determinar vertentes arquitetônicas e/ou artísticas, o Sphan colocou inicialmente olhares</p><p>direcionados especificamente nos exemplares do período colonial. As cidades mineiras do</p><p>ciclo do ouro, tendo Ouro Preto como carro-chefe, tiveram sempre grande repercussão</p><p>dentro do órgão. Dessa forma, no seu primeiro ano de atuação o Sphan tombou seis dessas</p><p>cidades9.</p><p>Na prática dos tombamentos, porém, a prioridade foi dada aos remanescentes da</p><p>arte colonial brasileira, justificada pelos agentes institucionais como decorrência</p><p>do processo de urbanização, que já se acelerava, e do saque e comercialização</p><p>indevidos de bens móveis, que eram vendidos em antiquários brasileiros a</p><p>colecionadores, sobretudo estrangeiros (FONSECA, 2009, p.107).</p><p>Este período conhecido como “fase heroica”, que vai até meados dos anos 1960 com</p><p>a aposentadoria de Andrade, favoreceu em grande parte o estado de Minas Gerais quando</p><p>comparado com outros distritos. Para o diretor, o barroco mineiro merecia tratamento</p><p>privilegiado mediante a sua originalidade (AZEVEDO, 2017, p.47). Mas, em contrapartida,</p><p>8 O discurso e abordagem política de Andrade fundamentou-se em suas produções literárias sobre a história</p><p>da arte e arquitetura colonial brasileira, iniciadas anteriormente a atuação como diretor do Sphan. Uma das</p><p>suas primeiras ações frente ao Sphan foi a elaboração da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional</p><p>no mesmo ano da criação do órgão. O periódico foi concebido como um veículo de divulgação do</p><p>conhecimento dos valores da arte e da história. E em sua primeira edição, os valores históricos e artísticos</p><p>atribuídos aos bens a serem tombados foram afirmados.</p><p>9 Ouro Preto que já era reconhecida Monumento Histórico, Diamantina, São João Del Rei, Mariana,</p><p>Tiradentes e Serro, inscritas no Livro do Tombo das Belas Artes.</p><p>52</p><p>no decorrer do percurso, aumentou-se o leque de opções abrangendo diversas outras</p><p>localidades e estilos arquitetônicos, mesmo que de forma mais lenta.</p><p>Fonseca (2009) relata que depois do barroco o estilo que se sobressaiu fora o</p><p>neoclássico. No final da década de 1940, exemplares modernistas com projetos assinados</p><p>por grandes nomes da arquitetura moderna brasileira também foram tombados. A</p><p>arquitetura eclética sofreu mais dificuldade por ser o estilo mais criticado pelos</p><p>modernos, abrindo ressalvas, apenas, quando possuíam valor histórico considerável,</p><p>assim como a art nouveau.</p><p>O cumprimento das políticas preservacionistas não foi tarefa fácil de ser executada</p><p>pelo território nacional, principalmente nos centros que se encontravam em ascensão</p><p>econômica. Tanto em meios privados quanto no público havia batalhas jurídicas por conta</p><p>do cerceamento que o tombamento dispunha e que dificultava os processos de venda e</p><p>alteração das edificações, o que pode ser percebido atualmente. Mediante o confronto</p><p>entre preservar o progresso que as cidades passavam, segundo Azevedo (2017), os</p><p>inventários tornaram-se documentos importantes para sondar tais enfrentamentos</p><p>anteriormente ao tombo do bem propriamente dito. Além de facilitarem o conhecimento</p><p>histórico sobre as edificações, auxiliando no processo de escolha do que deveria/poderia</p><p>ou não ser tombado.</p><p>A seleção dos bens a serem</p><p>tombados estava a cargo quase que exclusivamente dos</p><p>funcionários e colaboradores do Sphan. Segundo Fonseca (2009), poucos foram os</p><p>pedidos provindos de agentes externos ao órgão, sendo que estes poderiam participar</p><p>apenas do pedido. Para serem tombadas, as edificações deveriam estar em estado de</p><p>conservação plausível, sem grandes descaracterizações, além de nutrirem de valor</p><p>simbólico. Exemplares religiosos, militares e civis foram os que tiverem maior</p><p>predominância entre os selecionados, principalmente os datados do século XVIII.</p><p>Nos grandes centros urbanos, os primeiros tombamentos restringiram-se à objetos</p><p>isolados de caráter monumental por conta do processo de modernização que os</p><p>assolavam, algo que se assemelha as diretrizes da Carta de Atenas, conforme visto</p><p>anteriormente. Até o final da década de 1950, conjuntos urbanos e arquitetônicos foram</p><p>tombados apenas em cidades com ligação ao meio político e cultural da época como é o</p><p>caso dos exemplares mineiros que foram o chamariz para os primeiros olhares</p><p>preservacionistas. O Sphan, que em 1946 passou a ser denominado como Diretoria -</p><p>53</p><p>Dphan, possuía sem auxílio das instâncias municipais e habitantes o aval para a escolha</p><p>dos sítios, o que dificultava ainda mais a efetividade das ações (SANT’ANNA, 2017, p.141).</p><p>Após a Segunda Guerra surgiram novas formas de utilizar e gerir o patrimônio nos</p><p>países europeus, vinculadas ao planejamento urbano e que chegou ao Brasil nos anos</p><p>1960. Nesta época, em 1964 especificamente, a Carta de Veneza foi redigida revisando o</p><p>conceito de patrimônio. O Brasil passava pelo seu maior processo de urbanização com a</p><p>construção de Brasília e a sua transformação em capital federal em 1960, além da</p><p>instauração da ditadura militar em 1964.</p><p>A partir de 1966 as políticas públicas passaram a incluir o turismo para dialogar com</p><p>as diretrizes internacionais, pois eram criados a Embratur – Empresa Brasileira de</p><p>Turismo e o Conselho Nacional de Turismo pelo governo federal que, gradativamente,</p><p>incorporou-se nas práticas da Dphan, implementadas mais tarde por meio do Programa</p><p>das Cidades Históricas – PCH. E neste contexto, com a saída de Andrade da Dphan, o</p><p>arquiteto modernista Renato Soeiro que desde 1946 era chefe da Divisão de Conservação</p><p>e Restauro do órgão, assumiu sua direção em 1967 onde ficou até 1977.</p><p>A gestão de Soeiro passou “despercebida” nos estudos de alguns autores como</p><p>Gonçalves (1996) e Fonseca (2009), por não apresentar grandes mudanças nos valores</p><p>atribuídos ao patrimônio diante do interesse político da época. Em contrapartida, para</p><p>Azevedo (2017), sua gestão foi na verdade silenciosa, mas de grandes feitos por conta do</p><p>plano estratégico feito em 1968, o qual seguiu à risca. Sua atuação na Dphan definiu-se</p><p>pelo processo de democratização do patrimônio nacional e reformulação administrativa</p><p>do órgão que enfrentava a crise que assolava o país.</p><p>O patrimônio passou a integrar as pautas dos governos estaduais e municipais com a</p><p>criação de uma rede de instituições espalhadas pelo país sob a direção da unidade federal,</p><p>resultando no período em que a Dphan mais recebeu investimentos do governo federal.</p><p>De 1967 a 1979 o número de conjuntos paisagísticos, urbanísticos e cidades históricas</p><p>tombados aumentou com o início de políticas direcionadas a estes sítios, algo que seria</p><p>clarificado mundialmente com a Carta de Amsterdã de 1975.</p><p>O diretor participou ativamente de diversos eventos direcionados a preservação do</p><p>patrimônio ocorridos mundo a fora e promoveu inúmeras visitas de representantes da</p><p>Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – Unesco e da</p><p>Organização dos Estados Americanos - OEA, ao Brasil. Buscou nessas instituições</p><p>54</p><p>internacionais o apoio para a idealização de planos diretores para as cidades tombadas,</p><p>ditas históricas. Ainda, fez parte da elaboração das Normas de Quito de 1967.</p><p>Na década de 1970, a Dphan tornou-se Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico</p><p>Nacional - Iphan10, aproveitando da reestruturação do MEC11 e de um pedido já enviado</p><p>ao Ministério em 1967, transformando o órgão em autarquia. Deste modo, ampliou as</p><p>ações que o Iphan agora executaria, conduzindo em um novo regimento interno do</p><p>órgão12 que se firmaria em 1976. Criaram-se novas divisões técnicas, novas unidades</p><p>distritais, além da reformulação do quadro de servidores (AZEVEDO, 2017, p.52) que, até</p><p>então, mantinha-se com os mesmos membros.</p><p>Além disso, Soeiro participou da elaboração das diretrizes da Convenção de 1972 da</p><p>Unesco, o que no futuro próximo influenciaria na transformação do conceito de</p><p>patrimônio no Brasil e elevaria algumas cidades brasileiras ao título de Patrimônio</p><p>Mundial da Humanidade. Em 1973, diante do reconhecimento que a Iphan precisava de</p><p>mudanças, foi criado o Programa das Cidades Históricas – PCH no país.</p><p>A partir de diretrizes preconizadas pela Unesco nas Normas de Quito (1967), o</p><p>programa promovia “a conservação do patrimônio e desenvolvimento econômico das</p><p>cidades-patrimônio através do turismo”. O PCH foi um importante agente modernizador</p><p>e transformador da prática e da organização do Iphan, abrangendo diversas cidades</p><p>brasileiras e alavancando os recursos financeiros do órgão. A criação de organismos</p><p>estaduais ampliando a ação do Iphan em todo território nacional foi um dos principais</p><p>resultados (SANT’ANNA, 2017, p.143).</p><p>No Brasil, o final da década de 1970 é marcado pela escassez da economia frente às</p><p>reivindicações contra o regime militar. O Iphan vinha sendo muito criticado pelas falhas</p><p>operacionais e conceituais devido ao trabalho hegemônico com os “monumentos</p><p>coloniais”. Dava-se início ao desejo de maior abrangência do patrimônio, incluindo</p><p>minorias, até então excluídas. A cultura popular, as representações culturais mais</p><p>recentes (século XIX) queriam sentir-se representadas. O órgão precisava de mudanças, o</p><p>patrimônio precisava de mudanças.</p><p>O patrimônio brasileiro passou por uma reviravolta em seus conceitos, iniciando</p><p>assim sua “fase moderna”. A demissão de Renato Soeiro em 1979, alavancou uma disputa</p><p>10 Decreto n° 66.967, de 27/07/1970.</p><p>11 MEC: Ministério da Educação e Cultura, criado em 1953.</p><p>12 Portaria MEC nº 230/1976.</p><p>55</p><p>política e regionalista pela direção do Iphan, que historicamente havia se concentrado nas</p><p>mãos de mineiros e cariocas. Assim, o designer pernambucano Aloísio Magalhães assumiu</p><p>o órgão federal, ficando no cargo até 1982 e colocando pela primeira vez o Nordeste no</p><p>comando do órgão (AZEVEDO, 2017, p.57).</p><p>Magalhães estava à frente desde 1975 do Centro Nacional de Referência Cultural -</p><p>CNRC, que junto com o PCH acreditava nas necessidades de mudanças nas questões de</p><p>preservação do Iphan. A diferença entre ambos os programas era que o primeiro surgiu</p><p>sem vínculo com uma estatal e colocou em questão a própria cultura, no contexto da</p><p>época, vinculada ao desenvolvimento. O objetivo era traçar um sistema referencial básico</p><p>para compreender a dinâmica cultural. O órgão era composto por profissionais de</p><p>diversas áreas como sociólogos, matemáticos, documentaristas, entre outros.</p><p>Quando assumiu o Iphan, Magalhães promoveu a reestruturação administrativa do</p><p>órgão com a junção do Iphan, PCH e CNRC dividindo-os em duas entidades que</p><p>trabalhariam em parceria. De um lado, a Secretaria de Patrimônio – Sphan, com os</p><p>arquitetos “pedra e cal”13, já inseridos no órgão, aplicando leis, tombando, fiscalizando e</p><p>embargando. E de outro, a Fundação Nacional Pró-Memória – FnPM, que definia a política</p><p>do Sphan, selecionando as referências culturais e financiando o sistema sob o cuidado de</p><p>antropólogos e filósofos, ampliando, assim, as linhas de profissão dentro das práticas de</p><p>preservação.</p><p>A mudança política dentro do órgão promovida por Magalhães premedita as</p><p>mudanças que surgiriam alguns anos adiante por conta da queda do regime militar. A</p><p>sociedade passou</p><p>a demandar de mudanças no quadro socioespacial, econômico e cultural</p><p>do Brasil, e foi nesse sentido que as novas políticas de preservação foram implantadas.</p><p>Incluiu-se as minorias e deu-se espaço para novos olhares profissionais que até então</p><p>eram excluídos da avidez patrimonial.</p><p>Magalhães reorganizou as políticas preservacionistas conduzidas pelo órgão,</p><p>incluindo a cultura popular e o patrimônio imaterial que se consolidaria em termos legais</p><p>no Brasil apenas nos anos 200014, após Recomendação da Unesco sobre a Salvaguarda da</p><p>Cultura Tradicional e Popular, de 1989. O patrimônio histórico e artístico de Andrade</p><p>tornou-se Patrimônio Cultural (ANASTASSAKIS, 2017, p.65) que virá a ser assim</p><p>13 Termo que se relaciona ao período em que o Iphan tombava apenas exemplares arquitetônicos coloniais.</p><p>14 Decreto 3.551, de 4 de agosto de 2000.</p><p>56</p><p>definido como categoria jurídica com a Constituição de 198815. Sendo assim, o patrimônio</p><p>brasileiro passa a considerar o popular como bem encontrado no presente e não no</p><p>passado.</p><p>Iniciou-se um período em que a população local se tornou parte das políticas</p><p>preservacionistas, visando o desenvolvimento a partir da diversidade cultural. Segundo</p><p>Gonçalves (1996), Magalhães percebeu a cultura brasileira como um arcabouço de</p><p>“distintas subculturas: africana, ameríndia e europeia” (p.54), sem definição de</p><p>importância. Deste modo, para o autor, o diretor acreditava que a cultura estaria instável</p><p>e em processo de formação. Sendo assim, a Sphan/FnPM alinhou-se dentro da abordagem</p><p>cultural direcionada pela Convenção da Unesco de 1972 dando início a nova fase do</p><p>patrimônio brasileiro, que seria mantida quase que em suma, até hoje.</p><p>A abordagem de Magalhães ao valorizar as raízes populares na construção da</p><p>identidade nacional em concomitância com a arte erudita, assemelha-se ao que foi</p><p>apresentado como patrimônio cultural no anteprojeto de Mário de Andrade. Ambas</p><p>partem da construção das concepções de patrimônio e identidade ligadas a dinâmica de</p><p>fazeres e saberes e não apenas à memória, ou seja, o presente e o futuro possuem a mesma</p><p>importância que o passado (GONÇALVES, 1996).</p><p>Com a criação da Secretaria da Cultura - SEC no MEC em 1981, com Magalhães</p><p>assumindo sua diretoria16, houve a democratização da política cultural no Brasil. A partir</p><p>daquele momento, as ações deveriam incluir as necessidades simbólicas e materiais dos</p><p>grupos excluídos pelas normativas do MEC, tornando-os parte do processo de construção</p><p>da produção cultural brasileira, incluindo o patrimônio. A participação social buscaria</p><p>assim a legitimação da política de preservação a partir dos anos 1980. Tal feito foi</p><p>absorvido pela Nova República, resultando transformação da SEC em Ministério da</p><p>Cultura em 1985. (FONSECA, 2009, p.158).</p><p>A trajetória de Aloísio Magalhães na Sphan/FnPM se encerrou em 1982 como sua</p><p>morte inesperada. Seu trabalho foi curto, mas muito considerável, pois foi a partir dele</p><p>que houve uma nítida ruptura na trajetória do patrimônio cultural brasileiro. Neste</p><p>período, a corrida das cidades Patrimônio da Humanidade iniciaram no Brasil com o</p><p>15 A Constituição da República Federativa do Brasil promulgada em 05 de outubro de 1988 é a sétima carta</p><p>magna nacional desde a Independência do Brasil.</p><p>16 A diretoria da Sphan, transformada em Subsecretaria com a criação da SEC, ficou sob os cuidados do</p><p>administrador carioca Irapoan Calvacanti de Lyra que ficou no cargo até 1984.</p><p>57</p><p>reconhecimento mundial de Ouro Preto em 1980 pela Unesco. Mas, em contrapartida,</p><p>problemas começaram a surgir dentro da Sphan/FnPM.</p><p>Com recursos diminuindo e a desestruturação de suas unidades estaduais que agora</p><p>estavam implantadas em todos os distritos estaduais, estas passaram a gerir suas</p><p>atividades em total desconexo uma com as outras. Os processos de tombamento eram</p><p>tratados e protegidos de modo distinto, incumbido à unidade isolada, sem qualquer</p><p>conexão com a federal (SANT’ANNA, 2017, p.144). A diretoria do órgão federal passaria</p><p>por gestões, quase que bienais, de inúmeros profissionais.</p><p>Dentro dessa dispersão das atividades preservacionistas pelo país, a noção de</p><p>referência cultural tanto frisada na gestão de Magalhães consagrou-se em temos jurídicos</p><p>com a Constituição de 1988. A diversidade cultural, seja ela em âmbito material e</p><p>imaterial, estavam agora abrangidas dentro dos termos de salvaguarda do patrimônio. O</p><p>conceito de “Patrimônio Cultural Brasileiro” foi institucionalizado, colocando a</p><p>sociedade como responsável junto ao Estado pela preservação dos bens culturais.</p><p>A partir dos anos 1980 a cidade passou a ser vista como cidade-documento, devendo</p><p>ser preservada para a produção de conhecimento sobre a história da ocupação do</p><p>território brasileiro. Deixando de serem patrimonializadas sob uma ótica estética e</p><p>excepcional, principalmente com a aplicabilidade de inventários que proliferaram nos</p><p>anos 1990, os sítios tornar-se-ão em “fonte de investigação”. Estes documentos atingiram</p><p>importância similar a própria preservação. Assim, o valor histórico foi enaltecido na</p><p>seleção dos conjuntos urbanos a serem tombados (CHUVA, 2017, p.96). Além disso, nesta</p><p>época houve o início da delimitação das áreas de entorno dos bens protegidos por meio</p><p>de processos específicos17, mediante a preocupação com o rigor técnico com os</p><p>tombamentos.</p><p>Com o fim do Ministério da Cultura em 1990, sob a paralisação do Estado e das</p><p>instituições culturais no governo Collor, a Sphan teve suas atividades afetadas. Em 1992,</p><p>diante o apoio da sociedade, criou-se o Instituto Brasileiro de Patrimônio Cultural – IBPC</p><p>voltando a ser Iphan em 1994. Mas a década de 1990 foi marcada pela diminuição dos</p><p>processos de tombamento, em paralelo com a inserção de diferentes religiões nas práticas</p><p>preservacionistas que, até então, estavam quase que predominantemente representada</p><p>pelos bens culturais de origem católica.</p><p>17 Via Portaria Iphan nº 11, de 1986.</p><p>58</p><p>Na mesma década, algumas discussões sobre a necessidade da elaboração de</p><p>instrumentos legais para a salvaguarda da cultura popular e do folclore foram surgindo</p><p>com mais vigor. As mesmas discussões sobre os limites do alcance do patrimônio já</p><p>vinham surgindo em nível internacional desde a Convenção da Unesco de 1972. Para</p><p>tanto, em 1989, a organização mundial profere a recomendação sobre o reconhecimento</p><p>das culturas tradicionais e folclóricas.</p><p>Mas foi apenas em 2000 quando o Iphan estava a se reestruturar que a política do</p><p>patrimônio imaterial no Brasil, por meio do Decreto nº 3.551/2000, cria o Programa</p><p>Nacional de Patrimônio Imaterial. O programa seguiria o mesmo molde do patrimônio</p><p>cultural quanto a inscrição dos bens imateriais em Livros de Tombo e da criação de</p><p>departamentos dentro do próprio Iphan para sua administração (FONSECA, 2017, p.160).</p><p>O Brasil compunha o pequeno grupo de países que vinham a dispor de políticas</p><p>culturais sob os bens imateriais. Sua experiência o colocou entre as nações que</p><p>elaboraram a Convenção para Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial em 2003 sob</p><p>o desígnio da Unesco. Desde então, presta assistência internacional por causa de seu</p><p>conhecimento no campo que vinha se desenvolvendo nacionalmente, aos poucos, desde o</p><p>final da década de 1970.</p><p>De 2003 em diante, o patrimônio cultural brasileiro diversificou-se abrangendo em</p><p>suas narrativas a cultura indígena, de imigrantes, regiões do Brasil pouco presentes no</p><p>programa como a Norte e o Estado do Paraná. Os temas Território e Políticas Culturais</p><p>foram incorporados no Iphan em 2006, adotando o patrimônio como ferramenta para a</p><p>construção de políticas nacionais sob o desígnio de políticas patrimoniais.</p><p>Fica evidente o aumento do número de inscrição de cidades brasileiras à lista de</p><p>Patrimônio Mundial, incluindo a Cidade de Goiás, desde então e a busca por mecanismos</p><p>que aliassem a preservação à pauta econômica. É</p><p>neste cenário que surgiram o Programa</p><p>Monumenta e o Programa de Aceleração do Crescimento - Cidades Históricas, que</p><p>buscaram tornar os conjuntos e sítios históricos sustentáveis financeiramente a partir da</p><p>implantação de projetos intervencionistas responsabilizados pelas três esferas públicas e</p><p>a iniciativa privada.</p><p>59</p><p>1.3 | Patrimônio vilaboense: de indeferido a mundial</p><p>A transferência da capital18 culminou no aumento da estagnação que pairava a</p><p>Cidade de Goiás desde a escassez aurífera. A partir dali, a antiga Vila Boa viu-se dentro de</p><p>um sentimento de perda da valorização social que carregava há anos, tanto em nível local</p><p>quanto nacional. Enquanto Goiânia acabava de ser construída com todo o frescor do</p><p>período em questão representando a modernização do interior brasileiro pós Revolução</p><p>de 30, a Cidade de Goiás encontrava-se em um contexto preso ao passado de suas</p><p>edificações e agora não mais sede administrativa do Estado.</p><p>Com a criação do Iphan19 e a propagação das primeiras ações executadas pelo órgão</p><p>federal principalmente nas cidades mineiras, não demorou muito para que o interesse em</p><p>reconhecer a Cidade de Goiás como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional permeasse</p><p>entre alguns vilaboenses. O tombamento da cidade viria a se tornar uma base para a</p><p>afirmação assertiva da mesma como berço da cultura goiana e, principalmente, a</p><p>consolidação do sentimento de pertencimento para os vilaboenses.</p><p>Em linhas gerais, o primeiro momento do órgão, a “fase heroica”, está locado</p><p>entremeio a um ideário nacionalista que visava a construção e afirmação da identidade</p><p>do Brasil e tinha na arquitetura colonial o seu principal chamariz. Os exemplares</p><p>escolhidos eram reconhecidos por seu caráter excepcional como verdadeiros</p><p>representantes do patrimônio nacional. Caráter este que deveria estar de total acordo</p><p>com as premissas do órgão que visavam o tombamento daquilo que fosse característico</p><p>do estilo barroco. Aos poucos criava-se uma representação ideal para a nação com o</p><p>tombamento de bens isolados em diferentes partes do Brasil, dando evidência</p><p>principalmente à arquitetura religiosa do século XVII e XVIII (OLIVEIRA, 2016), além da</p><p>militar e oficial. Nesta época, apenas seis cidades mineiras tiveram seus conjuntos</p><p>reconhecidos (Ouro Preto, Mariana, Diamantina, Tiradentes, Serro e São João Del Rei).</p><p>18 A transferência da capital para Goiânia não foi repentina, pelo contrário, foi resultado de anos de embates</p><p>entre dois grupos do poder: os mudancistas e os antimudancistas, isto é, os que apoiavam e os que não</p><p>apoiavam a mudança de foro. Para mais informações, ler TAMASO, Izabela. Em nome do patrimônio...op.cit.</p><p>p.89 a 118.</p><p>19 A partir daqui, considerarei apenas a nomenclatura Iphan para retratar o órgão no decorrer do texto</p><p>como forma de facilitar sua leitura e compreensão. A escolha pela mesma se dá por esta ser a atual forma</p><p>de retratá-lo. Compreendo que historicamente o Iphan passou por diversas mudanças (via item anterior),</p><p>mas suas rupturas conceituais internas são mais importantes para a elucidação do conteúdo aqui proposto</p><p>do que os nomes que recebeu. Por isso a padronização torna-se plausível.</p><p>60</p><p>As primeiras intenções de reconhecimento da Cidade de Goiás como Monumento</p><p>Histórico foram requeridas ainda na década de 1940, mais precisamente no ano de 1942.</p><p>O pedido partiu de um vilaboense que não trabalhava no órgão federal, Moisés Costa</p><p>Gomes, membro do Conselho Administrativo do Estado de Goiás, algo diferente do que</p><p>ocorria na época, conforme abordado anteriormente. Até aquele momento, o único</p><p>trabalho feito pelo Iphan em terras goianas foi o tombamento da Igreja Matriz de Nossa</p><p>Senhora do Rosário20 em Pirenópolis, no ano de 1941.</p><p>Segundo Oliveira (2016, p.72), o autor do pedido não demonstrou interesse em</p><p>reconhecer os bens isolados pela falta de rigor estético e artístico que para ele possuíam,</p><p>mas partiu do preceito de que a cidade merecia ser condecorada com tal título por nutrir</p><p>de um rico histórico. A intenção era “priorizar as tradições, a herança e os significados</p><p>enraizados pelos valores históricos” e assim como Ouro Preto, era um verossímil</p><p>exemplar do período aurífero brasileiro, além de ser fruto das ações das bandeiras</p><p>paulistanas.</p><p>Mediante a falta de valores artísticos e considerando que nesta época o Iphan</p><p>trabalhava assiduamente mais sob os aspectos materiais das edificações do que os</p><p>históricos, o requerimento foi indeferido. O conjunto da cidade era simples,</p><p>principalmente quando comparada com as cidades mineiras do ciclo do ouro.</p><p>Não apresentava nenhuma obra de caráter monumental, sem contar que muitas das</p><p>edificações apresentavam interferências ecléticas em suas fachadas o que para o Iphan</p><p>não era de interesse. Em retratação do Iphan, na pessoa de Rodrigo Melo Franco de</p><p>Andrade que até então era diretor do órgão, a Cidade de Goiás tinha seu aspecto</p><p>tradicional desfigurado, mas posteriormente uma nova análise poderia ser feita</p><p>(OLIVEIRA, 2016, p.73) sem precisar uma data especificamente.</p><p>A visita de um dos técnicos do Iphan só ocorrera seis anos depois, após um novo</p><p>pedido feito pelo então Governador do Estado de Goiás, Jeronymo Coimbra Bueno. Em</p><p>1948, o arquiteto Edgard Jacintho da Silva foi a Cidade de Goiás para fazer o levantamento</p><p>e gerar um parecer sobre a situação encontrada. Conforme abordado por Tamaso (2007),</p><p>constatou-se que a maior parte das edificações do centro antigo não haviam sofrido</p><p>descaracterizações (65%), as que sim (30%), poderiam ter sua originalidade recuperada</p><p>e pouquíssimas unidades eram totalmente estranhas ao conjunto (5%).</p><p>20 Inscrita no Livro do Tombo Histórico.</p><p>61</p><p>O estudo se ateve mais às questões arquitetônicas dos exemplares do século XVIII do</p><p>que às urbanas, focando nos monumentos públicos, igrejas e algumas residências. Tais</p><p>exemplares nutriam de valor monumental condizente para uma abordagem mais explícita</p><p>do Iphan sobre o reconhecimento da cidade como Monumento Nacional.</p><p>Para o arquiteto, as transformações arquitetônicas ocorridas eram comuns em cidades</p><p>antigas, o que no caso em específico foram fruto dos incentivos da Prefeitura Municipal</p><p>em quebrar a aparência do antigo ao oferecer menores impostos para os proprietários de</p><p>edificações reformadas sob a luz de linguagens não coloniais. Mas este fator não</p><p>desmereceria os valores artísticos encontrados, pois tais modificações não interferiram</p><p>na estrutura em si das edificações sendo, na verdade, de cunho mais estético (TAMASO,</p><p>2007).</p><p>Segundo a autora, outros dois pontos levados em consideração no parecer foram</p><p>importantes. Primeiramente, o reconhecimento das técnicas construtivas empregadas</p><p>que diferentemente das cidades mineiras eram mais simples. A arquitetura local denotava</p><p>uma falta de riqueza do período colonial em questão, o que resultou em um conjunto mais</p><p>rústico e singular perante os demais. Tais exemplares mereciam ser estudados com mais</p><p>rigor para ser traçado um estudo objetivo do que viria a ser a casa goiana. E segundo, o</p><p>levantamento preliminar de algumas edificações consideravelmente monumentais e que</p><p>seriam dignos de serem preservados, sendo elas: Chafariz da Boa Morte, antiga Casa de</p><p>Câmara e Cadeia, a qual merecia ser transformada em museu, as igrejas Nossa Senhora da</p><p>Abadia e Nossa Senhora da Boa Morte e o antigo Palácio dos Governadores.</p><p>Ao tomar conhecimento do parecer ainda em 1948, o arquiteto e técnico do Iphan</p><p>Alcides da Rocha Miranda solicita a inclusão no Livro do Tombo de todas as edificações</p><p>citadas acima, somadas as igrejas de Santa Bárbara e de São Francisco de Paula; o antigo</p><p>Quartel do XX; as imagens sacras, objetos e móveis da Igreja da Boa Morte; a imagem de</p><p>Nª. Sra. do Rosário em posse dos Dominicanos; algumas esculturas encontradas no Palácio</p><p>do Governadores, sendo que este deveria seria doado ao Iphan sob a intenção de</p><p>transformá-lo</p><p>em museu; e as áreas do Largo do Chafariz e da Rua João Pessoa (antiga rua</p><p>da Fundição).</p><p>Apenas dois anos mais tarde, em 1950, é que foram incluídos os seguintes no Livro do</p><p>Tombo de Belas Artes as igrejas da Boa Morte, da Abadia, São Francisco, do Carmo e</p><p>a imagem de Nª. Sra. do Rosário, e no Livro do Tombo Histórico o Quartel do XX. Já em</p><p>1951, no Livro do Tombo de Belas Artes foram inscritos a antiga Casa de Câmara e</p><p>62</p><p>Cadeia (doado ao Iphan, onde seria instalado o Museu das Bandeiras), o Conjunto</p><p>Arquitetônico e Urbanístico do Largo do Chafariz e da antiga rua da Fundição, o</p><p>Palácio dos Governadores, Armas de Portugal e dois bustos de pedra, sendo também</p><p>inclusos no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, com exceção do</p><p>primeiro (Mapa 2).</p><p>Os primeiros tombamentos não consentiram a cidade o reconhecimento de “cidade</p><p>monumento nacional” como já havia acontecido com Ouro Preto, pelo contrário,</p><p>reconheceu alguns de seus bens, mas isolados, sem estimar apreço pelo contexto urbano</p><p>da cidade em si, tendo tudo como parte de um único conjunto. Todos os bens datados do</p><p>século XVIII exemplificam de modo claro o padrão exercido pelo Iphan na escolha do que</p><p>deveria ou não ser tombado.</p><p>Dava-se importância para os exemplares coloniais, principalmente se forem de uso</p><p>religioso católico e/ou oficial, pois eram estas que permitiam traçar de fato uma</p><p>historicidade mais definida do Brasil. Lançava-se mão de outras vertentes arquitetônicas,</p><p>religiões, senzalas e bairros operários, mesmo que estes fossem datados no entremeio ao</p><p>colonialismo. Construía-se uma memória por meio de uma “forma específica de</p><p>dominação simbólica” (DELGADO, 2003, p.412).</p><p>63</p><p>Mapa 2: Tombamentos na Cidade de Goiás em 1950 e 1951. Sem escala. Base cartográfica disponibilizada pelo</p><p>Escritório Técnico do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019.</p><p>64</p><p>Ainda segundo Delgado (2003), estes tombamentos não proporcionaram</p><p>interferências rápidas na dinâmica urbana da Cidade de Goiás e muito menos promoveu</p><p>projetos de restauração nos bens de imediato. Para tanto que o próprio Quartel do XX,</p><p>após ser tombado, teve seu uso remodelado duas vezes, tornando-se hotel e</p><p>posteriormente um hospital. Sua restauração aconteceu apenas no fim da década de 1970,</p><p>fato que será discutido no próximo capítulo. A antiga Casa de Câmara e Cadeia que fora</p><p>destinada desde o princípio a tornar-se no atual Museu das Bandeiras e que</p><p>possivelmente seria aberto ao público com funcionamento regular desde 1954, só foi em</p><p>1966. Para a autora, não houve por parte do Iphan um acompanhamento para a</p><p>implantação de uma gestão efetiva, o que ocasionou em processo lento de alterações no</p><p>desenvolvimento da cidade como bem patrimonial.</p><p>Do mesmo modo, a aceitação dos próprios vilaboenses da nova realidade de uma</p><p>cidade inserida nos discursos e ações preservacionistas nacionais foi controversa.</p><p>Enquanto de um lado se aprovava e enaltecia o reconhecimento dos exemplares como</p><p>monumentos nacionais, o que poderia ser um modo de manter a cidade dentro de um</p><p>contexto hipoteticamente importante, do outro viam no tombamento a possibilidade de</p><p>retardar ainda mais seu progresso.</p><p>Na época dos primeiros tombamentos, muitos dos vilaboenses ainda se encontravam</p><p>calejados pela perda da outorga de capital. Ao reconhecer o tombamento como um meio</p><p>de congelar as edificações, este grupo acreditava que novas perdas poderiam ser</p><p>ocasionadas pelo mesmo motivo: uma cidade presa a seu passado. A modernização da</p><p>cidade era desejo da população e inclusive do meio oficial, pois existiam as facilitações</p><p>nos impostos prediais, conforme citado anteriormente. Se antes a cidade ficou entre</p><p>mudancistas e anti-mudancistas, agora os dois polos encontravam discordância em torno</p><p>dos processos preservacionistas.</p><p>Os antipreservacionistas, formados principalmente por moradores do centro antigo,</p><p>viram as normativas do Iphan de modo muito restrito. Segundo Oliveira (2016), o órgão</p><p>impunha ordens para que os proprietários das edificações privadas pertencentes aos</p><p>conjuntos tombados (Largo do Chafariz e rua da Fundição), que apresentavam fachadas</p><p>descaracterizadas, fizessem a retomada do sentido colonial original. Após tombados, os</p><p>proprietários e demais interessados em reformas deveriam comunicar e pedir aprovação</p><p>frente ao Iphan e caso estas reformas afetassem diretamente as características originais,</p><p>65</p><p>as mesmas eram proibidas, o que ocasionou ainda mais repulsa por parte dos vilaboenses</p><p>sobre a questão do tombamento local.</p><p>Dito isso, alguns fatos foram importantes para dar início a uma conformação positiva</p><p>sobre a institucionalização do patrimônio vilaboense, mesmo que de modo gradativo e</p><p>permeando possíveis enfrentamentos. O primeiro deles foi a concessão a Cidade de</p><p>Goiás de ser novamente a capital do Estado de Goiás por um dia, aos moldes do que</p><p>ocorre em Ouro Preto21. Após visita feita pelo então Governador de Goiás Mauro Borges</p><p>em 1961 a Cidade de Goiás e deparar-se com o estado de calamidade física do antigo</p><p>Palácio dos Governadores, ele assina o decreto nº48 transformando o Palácio em</p><p>Monumento Histórico e agora residência de inverno dos governadores goianos e sede do</p><p>governo. Desde então, no dia 25 de julho (aniversário da Cidade de Goiás) a capital é</p><p>transferida para o antigo centro administrativo como modo de homenagear e reconhecer</p><p>a Cidade de Goiás como marco da civilização goiana, o que foi muito bem recebido pelos</p><p>vilaboenses (TAMASO, 2007).</p><p>Além disso, a criação da Organização Vilaboense de Artes e Tradições (OVAT) em</p><p>1965, auxiliou no processo de aceitação dos citadinos e consequentemente na promoção</p><p>da cidade dentro de parâmetros turísticos que desde 1966 foram incorporados nas</p><p>políticas públicas nacionais. Composta pelos “herdeiros do movimento antimudancista”</p><p>(DELGADO, 2003, p.418), ou seja, a elite cultural vilaboense, a OVAT foi criada com o</p><p>intuito de pensar o futuro da cidade a partir do resgate de antigas tradições.</p><p>Ao vislumbrar que o “futuro de Goiás era o passado”, a OVAT empreende e</p><p>estimula várias ações culturais: o Gabinete Literário, fundado em 1864, foi</p><p>reaberto; os saraus foram revitalizados; as manifestações folclóricas e musicais</p><p>foram pesquisadas e registradas; o acervo de arte sacra foi reunido no Museu da</p><p>Cúria e, posteriormente, no atual Museu de Arte Sacra da Boa Morte;</p><p>modificações foram implementadas na celebração da Semana Santa, que passou</p><p>a contar com a Procissão do Fogaréu (DELGADO, 2003, p.419)</p><p>Sua atuação desde então, vem auxiliando na imagem cultural que a cidade carrega.</p><p>Segundo Delgado (2003, p.419), a retomada dessas tradições teve por objetivo construir</p><p>uma “identidade vilaboense” com a transmissão e preservação de valores ancestrais que</p><p>muitas das vezes estavam esquecidos. Assim como o Iphan, a OVAT tornou-se em um</p><p>grupo de muita influência na promoção da cultura local.</p><p>21 No dia 21 de abril, a capital mineira é simbolicamente transferida de Belo Horizonte para Ouro Preto,</p><p>como modo de celebrar a Inconfidência Mineira.</p><p>66</p><p>Nos primeiros anos a resposta as ações da OVAT foi tamanha que conforme aborda</p><p>Tamaso (2007), além de salvaguardar e resgatar estas tradições, a partir da década de</p><p>1970, a organização alimentou o mercado turístico local antes mesmo do turismo cultural</p><p>entrar nos discursos do Iphan. Na Semana Santa, após o resgate da Procissão do</p><p>Fogaréu22, o contingente de turistas aumentou de tal maneira que chocou a igreja que até</p><p>então estava acostumada com celebrações menores, de caráter mais local. Mas, em</p><p>contrapartida, o turismo insuflado mesmo que sazonalmente, auxiliou e muito no</p><p>processo de reconhecimento da cidade como Patrimônio Cultural da Humanidade no</p><p>século XXI (TAMASO, 2007, p.289).</p><p>Se até então o Iphan havia tombado apenas objetos isolados na cidade e não</p><p>demonstrou maiores interesses sobre</p><p>a mesma, os agentes políticos locais começaram a</p><p>direcionar olhares para a proteção do conjunto urbano e arquitetônico como um todo. As</p><p>primeiras tomadas de decisão foram tanto em âmbito municipal quanto estadual, sendo</p><p>as primeiras ações a inserção do patrimônio como categoria nas narrativas públicas sob</p><p>os princípios de lei. De acordo com Tamaso (2007), tais iniciativas continuaram não sendo</p><p>aprovadas por parte da comunidade local que ainda via na preservação uma abordagem</p><p>contrária ao desejo de progresso. A “cidade que tinha perdido a capital por problemas de</p><p>localização geográfica, de saneamento básico, de insalubridade etc, poderia ser também</p><p>vista como uma cidade museu; o que poderia remeter ao sentido de estagnada, atrasada</p><p>e velha” (TAMASO, 2007, p.150).</p><p>No mesmo momento de ascensão turística da década de 197023, o prefeito municipal</p><p>da época, Antonio Ubiratan de Alencastro Júnior, mesmo sem tratar sobre o turismo em</p><p>si, sanciona a lei nº16 que se fundamentava na intenção de fixar normas para aprovar</p><p>projetos de restauração, demolição e construção dentro do centro histórico da cidade,</p><p>pelo menos em teoria. Antes disso, quando o Governador Mauro Borges decretou a</p><p>transferência da capital em 1961, o mesmo demonstrou apreço pela preservação do</p><p>centro da Cidade de Goiás em âmbito estadual. Para tanto, publicou a Lei nº 3.635 que</p><p>buscava proteger os edifícios antigos frente às demolições e depredações, oficializando o</p><p>amparo econômico estadual para a proteção do patrimônio vilaboense (TAMASO, 2007).</p><p>22 A Procissão do Fogaréu é um evento que acontece na quarta-feira do feriado sacro da Semana Santa, o</p><p>qual será abordado no último capítulo.</p><p>23 Em 1973 foi criado o Programa das Cidades Históricas – PCH com o intuito de incentivar o turismo e a</p><p>atuação do Iphan e OVAT na Cidade de Goiás estava de total acordo.</p><p>67</p><p>Eram tombados pelo município, em 1975, alguns logradouros24 que passaram a</p><p>compor o “roteiro histórico” da Cidade e Goiás que foi indicado pelos próprios</p><p>arquitetos25 do Iphan que trabalhavam no atendimento a cidade especificamente. Mas as</p><p>iniciativas não funcionaram eficientemente mediante a dificuldade de dispor de</p><p>funcionários para trabalhar restritamente na fiscalização, além de não ter amparo jurídico</p><p>para a aplicação de penalidades (TAMASO, 2007, p.154-5).</p><p>Neste mesmo ano e após o reconhecimento municipal do roteiro histórico da cidade,</p><p>os mesmos integrantes do corpo técnico do Iphan que indicaram o perímetro enviaram</p><p>ao órgão federal cópia da lei municipal, solicitando o tombamento imediato da área em</p><p>questão somadas aos conjuntos da rua da Fundição e do Largo do Chafariz de Cauda. Nesta</p><p>época, o Iphan já havia sofrido os impactos da Carta de Veneza de 1964 e os aspectos de</p><p>monumentalidade tão defendidos pelo Iphan, que inclusive impediram a aprovação dos</p><p>primeiros pedidos de tombamento na Cidade de Goiás, tinham se modificado.</p><p>O imediatismo solicitado deveras a onda de modernização que ocorria na cidade há</p><p>alguns anos. As edificações estavam tendo suas esquadrias coloniais trocadas por “vitrôs”</p><p>e portas metálicas, alpendres e platibandas construídas nas fachadas seguindo os moldes</p><p>de Goiânia, sem contar no número de residências deixadas ao esquecimento sob o intuito</p><p>de ruir-se e, então, poderem ser demolidas e reconstruídas (TAMASO, 2007, p.156). Para</p><p>tanto, Renato Soeiro, diretor do Iphan, deu parecer positivo em 1976 ao pedido, mas</p><p>apenas em 1978 que foi homologada oficialmente o Conjunto Arquitetônico e</p><p>Urbanístico da Cidade de Goiás como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional com sua</p><p>inscrição nos Livros do Tombo: Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, Histórico e de</p><p>Belas Artes. Assim, a área tombada contemplou o pedido somada a outros logradouros</p><p>(Mapa 3).</p><p>O conjunto26 agora reconhecido contempla a área em torno dos monumentos</p><p>tombados na década de 1950, correspondente ao traçado do século XVIII, incluindo partes</p><p>24 Rua Bartolomeu Bueno, praça Desor. João Alves de Castro, Rua Eugenio Jardim, Rua d’Abadia, Rua Hugo</p><p>Ramos, Rua Hugo Argenta, Rua Couto Magalhães, Rua D. Cândido, Rua Moretti Foggia, Av. Sebastião Fleury</p><p>Curado, praça Castelo Branco, praça Zaqueu Alves de Castro, Rua Félix de Bulhões, Rua Dr. Luiz do Couto,</p><p>Rua Dr. Corumbá, Rua Luiz Guedes, antiga Monsenhor Azevedo e praça Dr. Brasil Ramos Caiado.</p><p>25 Alcides da Rocha Miranda e Belmira Finageiv. TAMASO, Izabela. Em nome do patrimônio...op.cit. p.154.</p><p>26 Rua Dom Cândido; trechos da Praça do Rosário; Rua Bartolomeu Bueno; Caminho que leva à Fonte</p><p>Carioca; Rua Guedes de Amorim até o Largo da Boa Vista; Rua Senador Eugênio Jardim; Rua da Abadia e</p><p>Trecho da Rua Treze de Maio; Rua Passo da Pátria, inclusive a Igreja de Santa Bárbara; Rua Couto Magalhães,</p><p>esquina com Rua Senador Eugênio Jardim; Rua Couto Magalhães, trecho que inclui a Igreja de N. Sra. do</p><p>Carmo e trecho entre a Rua Sebastião Fleury Caiado e Rua Dr. Corumbá; Rua Sebastião Fleury Caiado que</p><p>margeia o Rio Vermelho, desde a entrada da cidade até a 3ª ponte; Praça ao lado da Igreja de São Francisco</p><p>68</p><p>da malha urbana do século XIX. O aumento do perímetro fez com que ela atingisse um</p><p>posicionamento mais confortável para a implantação e/ou continuação das atividades</p><p>culturais em seu centro histórico e da intensificação do turismo. Desse modo, a área</p><p>tombada e todos seus elementos morfológicos são certificados como cenário das práticas</p><p>culturais mais emblemáticas da cidade e sua preservação tornou-se responsabilidade de</p><p>todos os proprietários do casario reconhecido, em parceria com os agentes institucionais.</p><p>de Paula; Praça Castelo Branco (conhecida atualmente como Praça da Matriz ou Praça do Coreto) e trecho</p><p>da rua Dr. Corumbá entre a Praça Castelo Branco até a esquina da Rua Couto Magalhães; Rua Moretti Foggia;</p><p>Rua Félix Bulhões até a casa nº 9.</p><p>69</p><p>Mapa 3: Tombamento na Cidade de Goiás de 1978. Sem escala. Base cartográfica disponibilizada pelo Escritório</p><p>Técnico do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019.</p><p>70</p><p>Um ano depois do reconhecimento, o Iphan passaria pela sua maior ruptura com a</p><p>entrada de Aloísio Magalhães como diretor. Dava-se início a “fase moderna”, onde abria-</p><p>se espaço para a preservação e valorização do Patrimônio Cultural no Brasil produzido no</p><p>presente e não privilegiando apenas bens datados do passado. Além das mudanças</p><p>simbólicas, o órgão passou por diversas modificações internas refletindo diretamente na</p><p>Cidade de Goiás.</p><p>A partir da década de 1970 o Iphan trabalhou diretamente a favor da melhoria</p><p>estrutural de alguns dos bens tombados. Na década de 1970 e 1980 houve a restauração</p><p>da Casa de Fundição, do Quartel do XX, do Museu de Arte Sacra (antiga Igreja da Boa</p><p>Morte) e do Museu das Bandeiras (antiga Casa de Câmara e Cadeia), sendo este último em</p><p>âmbito de conservação. Segundo Delgado (2003, p.437), o Museu das Bandeiras desde</p><p>1984, ficou sob os cuidados do próprio Iphan e por isso passou por um projeto de</p><p>remodelação de sua exposição. Nota-se que apenas as edificações monumentais e que</p><p>estavam a cargo do Estado tiveram projetos elaborados com intuito de melhorá-las.</p><p>No que concerne as políticas públicas de preservação, em 1981 houve a firmação de</p><p>um convênio entre Iphan, Governo Estadual e Municipal, criando o “Plano de</p><p>Desenvolvimento Econômico com Preservação do Patrimônio” e do Departamento de</p><p>Infraestrutura e Urbanismo na Cidade de Goiás, com direção assumida pelo arquiteto</p><p>Gustavo Neiva Coelho. Pela primeira vez, o planejamento urbano teria a preservação do</p><p>patrimônio local atrelado a seu desenvolvimento econômico. Em 1982, criou-se o</p><p>Conselho Municipal de Cultura, com participação do Iphan, da prefeitura e entidades da</p><p>área cultural (DELGADO, 2003, p.441-42).</p><p>Ainda conforme Delgado (2003), dentre as organizações culturais da cidade, a OVAT</p><p>está totalmente ligada ao trabalho do Iphan, onde o órgão federal</p><p>é tido como um</p><p>instrumento para a implantação das políticas promovidas pelos gestores da organização.</p><p>Dificilmente é possível retratar sobre um sem tecer sobre o auxílio do outro. Assim, muitas</p><p>das vezes, os cargos dentro do próprio Iphan regional e local foram ocupados por esta</p><p>elite cultural vilaboense e assim como o instituto, a OVAT também enfrenta a dificuldade</p><p>de aceitação da população frente a seus métodos de trabalho, principalmente no que diz</p><p>respeito de estar concentrada nas mãos de famílias tradicionais da cidade.</p><p>Outro reflexo da nova gestão do Iphan na Cidade de Goiás foi a criação de um Escritório</p><p>Técnico - ETEC do órgão na cidade em 1983, a 17ª Sub-Regional. Anteriormente, o Iphan</p><p>atuava na Cidade de Goiás utilizando um espaço no Museu das Bandeiras ou no Museu de</p><p>71</p><p>Arte Sacra, ficando a cargo da 14ª Coordenadoria Regional, localizada em Brasília. Até</p><p>1984, o Escritório funcionava no Quartel do XX, sendo transferida para uma casa colonial</p><p>(a Casa do Bispo) em 1987, às margens do Rio Vermelho, permanecendo lá até hoje.</p><p>Com a abertura do Escritório Técnico, iniciou uma fase em que buscavam melhorar a</p><p>percepção do morador para com o Iphan ao dar abertura para diálogos entre ambos.</p><p>Segundo Delgado (2003), os arquitetos Gustavo Neiva Coelho e Maria Cristina Portugal</p><p>Ferreira, primeiro e segunda diretora do escritório respectivamente, buscavam criar um</p><p>diálogo entre Iphan e moradores ao explicar a importância do tombamento e da</p><p>preservação para, então, chegar a um consenso mediante as tensas relações (p. 444-45).</p><p>No final dos anos 1980, o Iphan promoveu o projeto de educação patrimonial local</p><p>justamente para auxiliar no entendimento dos vilaboenses a respeito do patrimônio. Já no</p><p>início da próxima década ocorreu a restauração da Igreja de Santa Bárbara e da Casa Velha</p><p>da Ponte, ambas encabeçadas pelo Iphan.</p><p>Foi entremeio a estas restaurações que o Iphan retomou seus olhares voltados ao</p><p>conjunto arquitetônico e urbanístico institucionalizado em 1978. Por meio da Portaria</p><p>Regional nº 001 de 22 de abril de 1993, de autoria da 14ª Coordenação Regional do</p><p>Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural – IBPC, foram definidos critérios e</p><p>procedimentos para a melhor fiscalização e atuação na área tombada, que até então não</p><p>havia sido promovido. A portaria também definira o que viria a ser a área de entorno</p><p>(Mapa 4), que estaria inserida em um contexto de normativas a serem respeitadas:</p><p>[...] A área total sob proteção abrange a área e as diversas áreas de sua</p><p>vizinhança, designadas doravante de entorno, com características</p><p>complementares a área tombada, por sua proximidade, ou compatibilidade, ou</p><p>como componente da leitura espacial e ambiental, ou, ainda, como referência do</p><p>contexto cultural (IBPC, 1993).</p><p>Neste meio tempo, a Prefeitura Municipal cria seu Plano Diretor definido pela Lei</p><p>Municipal nº 206 de agosto de 1996, onde estabelece que o órgão municipal em parceria</p><p>com o escritório técnico do Iphan da Cidade de Goiás, tem por função controlar as</p><p>reformas de preexistências e projetos novos a serem inseridos. É a primeira vez que o</p><p>município demonstra interesse pela preservação do patrimônio local. Dentre as regras do</p><p>Plano de 1996 direcionadas para a preservação da área patrimonializada até então estão</p><p>“o respeito pelas características, elementos construtivos e estruturais, as composições de</p><p>fachadas e parâmetros de ocupação de 40% nestes locais, próprios do século XVIII e XIX”</p><p>72</p><p>(GOIÁS, 1996, p.9), além do que, em casos de lotes vazios as mesmas normas deverão ser</p><p>seguidas.</p><p>Além destas, o plano que está vigente deste então estabelece normativas sobre a</p><p>Política Urbana, o Perímetro, a Preservação do Patrimônio Histórico e Patrimônio Natural,</p><p>a Locação das Atividades, o Parcelamento do Solo, Normas para Edificações e Posturas no</p><p>Município de Goiás. Um ponto importante a ser levado em consideração é o fato de estar</p><p>sendo desenvolvido o novo Plano Diretor para a Cidade de Goiás com o auxílio do Iphan.</p><p>A atualização se faz necessária uma vez que o atual documento reconhece como</p><p>Patrimônio Histórico de interesse especial o conjunto arquitetônico e urbanístico oriundo</p><p>dos séculos XVIII e XIX tombado em 1978, não incluindo as novas áreas tombadas</p><p>posteriormente.</p><p>73</p><p>Mapa 4: Área tombada em 1978 e área de entorno definida em 1993. Sem escala. Base cartográfica disponibilizada</p><p>pelo Escritório Técnico do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019.</p><p>74</p><p>Entremeio a este contexto, novas perspectivas, se não a mais importante na cronologia</p><p>do tombamento da Cidade de Goiás, relacionadas as intenções de inscrever o conjunto</p><p>tombado nacionalmente da cidade na Lista do Patrimônio Cultural da Humanidade27</p><p>entram em debate. Desde 1977, com a ratificação dos preceitos levantado pela Convenção</p><p>de 1972, a Unesco seleciona bens dignos de serem reconhecidos com patrimônios</p><p>mundiais.</p><p>Para incluir um bem na desejada lista28, o mesmo deve apresentar ser de excepcional</p><p>valor universal do ponto de vista da história, arte e/ou ciência, correspondendo a critérios</p><p>de autenticidade29 e integridade. A partir disso, o país interessado prepara uma Lista</p><p>Indicativa e o Dossiê de preposição. O primeiro corresponde a uma relação de bens que o</p><p>próprio país acredita que sejam passíveis a serem reconhecidos pela Unesco, e o segundo</p><p>é um documento que reúne todas as informações necessárias sobre o bem indicado</p><p>justificando os motivos pelos quais o mesmo merece receber o título. Primeiramente, o</p><p>pedido é avaliado pelo Conselho Internacional de Monumentos e Sítios – ICOMOS30 e</p><p>posteriormente por uma comissão do Patrimônio Mundial31 que dará o veredito final.</p><p>As primeiras ideias para a candidatura da Cidade de Goiás surgiram na década de</p><p>1990. Segundo Tamaso (2007), foi na gestão do ex-prefeito de Goiás João Batista Valim,</p><p>que ficou no cargo de 1989 a 1992, que se viu a possibilidade de a cidade poder ser</p><p>consagrada com o título. A vontade foi intensificada em 1996 quando a historiadora</p><p>paulista e membro do ICOMOS Suzanna Sampaio fez uma visita à antiga capital goiana</p><p>para participar de um Congresso sobre Patrimônio. Com sua ida e após contato com as</p><p>tênues intenções de inscrever a cidade à Lista e somados ao interesse da pesquisadora em</p><p>auxiliar no processo, a candidatura de fato desencadeou.</p><p>27 A Lista do Patrimônio Cultural da Humanidade divide-se em: (1) monumentos; (2) conjuntos e (3) sítios.</p><p>28 Há três tipos de listas: Lista do Patrimônio Cultural, Lista do Patrimônio Natural e a Lista da Paisagem</p><p>Cultural, sendo esta última a mais recente (desde 1992) e que reconhece bens que une as duas primeiras.</p><p>No Brasil, o Rio de Janeiro é a única cidade a ser reconhecida como Patrimônio Mundial por sua Paisagem</p><p>Cultural, condecorada desde 2016.</p><p>29 A grosso modo, a autenticidade de um bem, definida pela Unesco, correspondia inicialmente ao fato de o</p><p>mesmo não ser fruto de uma cópia ou reconstrução. Mas com o passar do tempo, o termo teve seu sentido</p><p>modificado, pois não há como considera-lo algo único. Assim como o Patrimônio Cultural, a autenticidade é</p><p>um termo complexo que depende muito da relação espaço/tempo em que está inserido, isto é, depende do</p><p>contexto cultural em que se encontra.</p><p>30 ICOMOS é uma associação não-governamental ligada a Organização das Nações Unidas (ONU) através da</p><p>Unesco. É ela que propõe os bens a receberem o título de Patrimônio Cultural da Humanidade.</p><p>31 O Comitê é formado pelo ICOMOS, pelo ICCROM – Centro Internacional de Estudo para Preservação e</p><p>Restauração da Propriedade Cultural e pelo UICN – União Internacional para Conservação da Natureza.</p><p>75</p><p>A partir daquele momento se intensificou os interesses de políticos, agentes culturais</p><p>tanto do Iphan quanto das organizações vilaboenses e da própria população local. No final</p><p>de 1998, após seminários, encontros, pedidos e conversas, foi criado</p><p>o Movimento Pró-</p><p>Cidade de Goiás que tinha por função desenrolar todos as etapas necessárias para</p><p>submeter o pedido de reconhecimento da cidade. Com Brasilete Ramos Caiado e</p><p>Leonardo Rizzo a frente do Movimento, ambos vilaboenses, o Dossiê: Preposição a</p><p>inscrição da Cidade de Goiás a Lista do Patrimônio Mundial (IPHAN, 1999) (que será</p><p>interpretado no item seguinte) foi executado com o apoio financeiro e técnico dos</p><p>Governos Federal e Estadual, além do próprio Movimento. Em 1999 o documento foi</p><p>entregue ao Itamaraty e depois ao ICOMOS.</p><p>Foram incorporados ao Dossiê diferentes categorias simbólicas do patrimônio.</p><p>Com o auxílio da comunidade local que reside na área tombada, o documento não levanta</p><p>apenas o patrimônio material até então reconhecido nacionalmente. Para tanto, um</p><p>inventário com os bens de natureza imaterial catalogados pelo Iphan e a inclusão de áreas</p><p>naturais que margeiam a cidade, encontram-se no documento. O patrimônio imaterial e</p><p>natural representado pelas manifestações tradicionais e folclóricas e pelo Cerrado, até</p><p>então fora dos discursos preservacionistas na Cidade de Goiás, tornou-se complemento</p><p>de sua paisagem patrimonial, mostrando uma narrativa que buscou relacionar</p><p>socioculturalmente homem e habitat.</p><p>Com o Dossiê em mãos e seguindo o protocolo oficial, o ICOMOS enviou em janeiro de</p><p>2000 um membro de seu corpo técnico para visitar a cidade afim de tecer um parecer</p><p>sobre sua candidatura, a qual foi aprovada. Em março de 2001 o ICOMOS reconheceu</p><p>favoravelmente o seu reconhecimento como Patrimônio Mundial e em junho do mesmo</p><p>ano a Unesco referendou o parecer da associação não-governamental. E aos dias 13 de</p><p>dezembro de 2001, em reunião feita em Helsinque na Finlândia, a Unesco consagra o</p><p>Conjunto Arquitetônico e Urbanístico da Cidade de Goiás como Patrimônio Cultural</p><p>da Humanidade32.</p><p>32 Até aquele momento já eram reconhecidos como Patrimônio Mundial no Brasil: os conjuntos históricos</p><p>de Ouro Preto (1980), Olinda (1982), Salvador (1984), São Luís do Maranhão (1997) e Diamantina (1999);</p><p>Brasília (1987); as Missões Jesuíticas Guaranis no Brasil, Ruínas de São Miguel das Missões – RS (1983); o</p><p>Santuário Bom Jesus de Matozinhos, Congonhas – MG (1985); o Parque Nacional do Iguaçu – PR (1986); as</p><p>Reservas da Mata Atlântica – PR/SP (1991); o parque Nacional Serra da Capivara – PI (1991); a Costa do</p><p>Descobrimento: Reservas da Mata Atlântica BA/ES (1999); o Parque Nacional do Jaú – AM (2000), que foi</p><p>rerratificado em 2003 com a inclusão das reservas Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã e do</p><p>Parque Nacional Anavilhanas, todos no Amazonas; o Complexo de Áreas Protegidas do Pantanal – MS/MT</p><p>76</p><p>O parecer final afirmou as características singulares do traçado urbano e da</p><p>arquitetura da Cidade de Goiás como exímio exemplar da colonização da América do Sul,</p><p>principalmente pela adaptação das técnicas construtivas europeias à realidade local, seja</p><p>natural e/ou social. A simplicidade do conjunto e sua preservação quase que hegemônica,</p><p>questões que foram tão refutadas anteriormente, prospectou a cidade a um contexto de</p><p>reconhecimento da cultura mundial. O mesmo passado que a colocou em lugar de perda,</p><p>agora a colocava em posto de conquista.</p><p>Por mais que popularmente a cidade como um todo é considerada Patrimônio Mundial</p><p>e principalmente por pessoas que não moram na Cidade de Goiás, apenas seu conjunto</p><p>tombado em 1978 somado a algumas partes de seu entorno, foi reconhecida pela Unesco</p><p>em 2001. Digo ser um “des” conhecimento popular a respeito, pois ao conversar com</p><p>goianienses e comentar sobre minhas idas e vindas à antiga Vila Boa, muitos a afirmam</p><p>como “cidade patrimônio mundial”. Talvez, a própria desinformação se dá até mesmo pelo</p><p>título que o Dossiê recebeu, o qual pode ser interpretado como se toda a cidade estivesse</p><p>sendo inscrita. Mas o correto é que apenas parte de seu perímetro ficou sob os olhares da</p><p>Unesco.</p><p>Conforme citado acima, foi inscrito no Dossiê e consequentemente nos Livros Mundiais</p><p>do Tombo o conjunto tombado pelo Iphan da década de 1970. Parte do entorno definido</p><p>na década de 1990 ou como nomeado pelo próprio documento “zona tampão”33 (DOSSIÊ,</p><p>2010), também foram considerados como área a serem reconhecidas pela Unesco. Os</p><p>logradouros inseridos correspondem as típicas do século XIX, apresentando exemplares</p><p>da arquitetura eclética e art nouveau, o que demonstra a valorização da variedade</p><p>temporal presente no tecido urbano da cidade e os diferentes modos de inserção do</p><p>homem no espaço. Deste modo, parte do que antes era entorno para o Iphan, agora</p><p>também estaria sendo institucionalizado nas normativas preservacionistas. (Mapa 5).</p><p>(2000); as Ilhas Atlânticas de Fernando de Noronha e Atol das Rocas – PE/RN (2001); e as Reservas do</p><p>Cerrado: Parques Nacionais da Chapada dos Veadeiros e das Emas – GO (2001).</p><p>33 Do francês “zone tampon” (DOSSIÊ, 2010).</p><p>77</p><p>Mapa 5: Área reconhecida pela Unesco em 2001. Sem escala. Base cartográfica disponibilizada pelo Escritório Técnico</p><p>do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019.</p><p>78</p><p>Com as mudanças conceituais a respeito do patrimônio cultural que continuaram e</p><p>ainda continuam a permear o campo dos discursos preservacionistas mundiais, em 2004</p><p>o perímetro da Cidade de Goiás reconhecido pela Unesco foi novamente</p><p>rerratificado (Mapa 6), além do próprio entorno. Este último passou a incluir vazios</p><p>urbanos e bairros construídos na segunda metade do século XX que muito se diferem do</p><p>núcleo histórico (Mapa7). O processo para tal foi aberto no início dos anos 2000, após a</p><p>submissão do Dossiê, motivo de não inclusão das novas áreas no momento do</p><p>chancelamento mundial, mas apenas quatro anos depois quando foi finalizado e</p><p>aprovado.</p><p>O aumento da área tombada se deu mediante o favorecimento da valorização das áreas</p><p>urbanas como um bem cultural rico em valores coletivos e por conta de três inventários34</p><p>feitos no final da década de 1990 para o Dossiê. Com os levantamentos, averiguaram que</p><p>o até então entorno apresentavam características similares a arquitetura colonial e que</p><p>as reformas feitas não haviam descaracterizado a forma interna das edificações, o traçado</p><p>urbano e o padrão de implantação do casario. Por isso seria plausível os adicionar até</p><p>mesmo para manter um certo controle da ambiência do conjunto que poderia ser</p><p>comprometida com reformas mais bruscas.</p><p>A rerratificação favoreceu a inclusão de áreas características do Brasil República até</p><p>1930, além das chácaras urbanas35 datadas do século XVIII que se encontram um pouco</p><p>mais distantes do centro propriamente dito. As áreas verdes das chácaras, junto com os</p><p>morros e serras permitiram a criação de um cinturão que margeia grande parte do limite</p><p>do perímetro. Além disso, contribuiu para estabelecer uma zona de transição entre centro</p><p>histórico e os demais bairros da cidade.</p><p>Deste modo, a transformação no conceito de patrimônio permitiu que a área tombada</p><p>representasse um arcabouço mais completo do processo de desenvolvimento do centro</p><p>histórico da cidade. Resultou em um conjunto que comporta variadas vertentes</p><p>arquitetônicas, mesmo que na cidade a maioria das edificações permitam uma analogia</p><p>ao período colonial em sua forma física. Para Oliveira (2016, p.110), ao levantar o parecer</p><p>técnico do Iphan, o discurso de justificativa “acaba reforçando aspectos da memória</p><p>associados à arquitetura tradicional, ou seja, aquela legitimada pelo Iphan no final da</p><p>34 Inventário Nacional de Bens Imóveis – INBC; Inventário Nacional de Referências Culturais – INRC;</p><p>Inventário Nacional de Configuração dos Espaços Urbanos – INCEU.</p><p>35 Chácara D. Sinhá Camargo, Chácara do Bispo, Chácara D. Sinhá Cupertino, Chácara Totó Caiado, Chácara</p><p>Baumann e Chácara D. Lhulhu.</p><p>79</p><p>década de 1930 como representativa da nação brasileira”. Para a autora, ao Iphan</p><p>evidenciar a escolha das novas áreas acrescentadas,</p><p>a qualificação do território se deu,</p><p>também por meio das condições de estagnação que agora auxiliavam o fortalecimento dos</p><p>parâmetros de autenticidade do bem.</p><p>Mapa 6: Área tombada rerratificada em 2004. Sem escala. Base cartográfica disponibilizada pelo Escritório Técnico do</p><p>Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019.</p><p>80</p><p>Desde então, a área institucionalizada como patrimônio da Cidade de Goiás</p><p>corresponde a esta última definida em 2004. Mesmo que tenha se definido quase onze</p><p>anos após o surgimento da Portaria de 1993, o conjunto tombado e seu entorno ainda</p><p>estão respaldados por tal normativa. Com o reconhecimento mundial, a cidade é</p><p>impactada sob diferentes magnitudes.</p><p>Obras de restauração e o aumento do turismo foram algumas das consequências que</p><p>tornou sua proteção ainda mais complexa. Emparelhadas a sua preservação, algumas das</p><p>unidades do casario tiveram seu uso adaptado à nova realidade local, que demandava uma</p><p>melhor estrutura para atender aos visitantes interessados pela cidade-patrimônio. A</p><p>cidade recebeu um valor cultural excepcional, associado às riquezas estéticas, históricas</p><p>e naturais e singularidade do conjunto arquitetônico e urbanístico definiu-se como um</p><p>icônico exemplar da urbanização do Brasil colônia.</p><p>81</p><p>Mapa 7: Área de entorno rerratificada em 2004. Sem escala. Base cartográfica disponibilizada pelo Escritório Técnico</p><p>do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019.</p><p>82</p><p>1.3.1 | Dossiê de Goiás: o documento-monumento</p><p>O Dossiê: Proposition d’inscription de La Ville de Goiás sur La Liste du Patrimoine</p><p>Mondial (Figura 13) conhecido como Dossiê de Goiás e aqui referido apenas como Dossiê</p><p>ou documento, é fruto do trabalho em parceria da sociedade vilaboense com intermédio</p><p>da Prefeitura Municipal da Cidade de Goiás, do Governo do Estado de Goiás, do Movimento</p><p>Pró-Cidade de Goiás e da 14ª Superintendência Regional do Iphan. Proponho traçar um</p><p>olhar sobre o documento, pois o mesmo lançou em seu conteúdo além dos aspectos</p><p>históricos referentes ao surgimento, desenvolvimento e manutenção do patrimônio da</p><p>Cidade de Goiás, particularidades encontradas na década de 1990 no conjunto tombado.</p><p>Desse modo, o Dossiê servirá de apoio para a estruturação dos pontos a serem abordados</p><p>nos demais capítulos desta pesquisa.</p><p>Figura 13: Capa do Dossiê de Goiás. Fonte: DOSSIÊ, 2010.</p><p>O Dossiê de Goiás é tido aqui como “documento-monumento”, pois foi a partir dele que</p><p>cidade foi monumentalizada a Patrimônio Cultural da Humanidade e, assim, se tornou um</p><p>documento de importante valor para o patrimônio vilaboense. O produto analisado</p><p>encontra-se em formato eletrônico executável em CD-ROM e trata-se da quinta edição</p><p>viabilizada pelo Iphan desde 2010. É composto por um Formulário e seis Anexos com as</p><p>seguintes informações:</p><p>83</p><p>- Formulário Unesco: Identificação, descrição, grupos gestores e seus mecanismos</p><p>para a manutenção e as ameaças do bem, além da justificação de sua inscrição, seguindo</p><p>os parâmetros definidos pela Unesco para aprovação da inscrição;</p><p>- Anexo I: Cartografia antiga e atual, definição e características da Zona Tampão</p><p>(entorno), a Paisagem que envolve o bem com foco na Serra Dourada, além de</p><p>levantamento fotográfico do antes e depois da Villa;</p><p>- Anexo II: Histórico de Goiás e a ocupação do Brasil Central, História e Cultura do</p><p>bem, sua evolução urbana, as legislações que o envolvem como descrição do polígono da</p><p>área de vizinhança, os documentos referentes aos processos de tombamento já ocorridos</p><p>na cidade e as diretrizes preconizadas pelo Plano Diretor Municipal sobre. Além disso,</p><p>traz relatos históricos de viajantes que visitaram a cidade em diferentes momentos.</p><p>- Anexo III: Inventários dos bens móveis e imóveis já reconhecidos pelo Iphan na</p><p>Cidade de Goiás;</p><p>- Anexo IV: Inventário Nacional de Referências Culturais da Cidade de Goiás levantado</p><p>a partir de entrevistas feitas com moradores da área institucionalizada em 1978 e seu</p><p>entorno;</p><p>- Anexo V: Arquitetura Vernacular vilaboense encontrada na área tombada;</p><p>- Anexo VI: Maiores informações sobre a cidade e seu patrimônio.</p><p>A justificativa exposta no Formulário do Dossiê para a inscrição da cidade ao título</p><p>muito se assemelha aos motivos que fizeram o Iphan tombar a cidade como Patrimônio</p><p>Nacional. A sua formação como resultado das bandeiras coloniais, a distância da antiga</p><p>capital aos núcleos urbanos litorâneos que propiciaram uma arquitetura diferente das</p><p>cidades mineiras por conta da adaptação a realidade local, a simplicidade do conjunto</p><p>arquitetônico e urbanístico ocasionada pela falta de grandes investimentos, a preservação</p><p>das características originais por conta da estagnação que permeia a história da cidade em</p><p>diferentes momentos, e que possivelmente a coloca em diferença com outros conjuntos</p><p>brasileiros já reconhecidos pela Unesco até então.</p><p>Um ponto que pode ser levantado sobre a preservação do conjunto no tempo, diz</p><p>respeito ao Dossiê alegar que mesmo com pequenas mudanças, o conjunto continuava</p><p>autêntico e íntegro. As edificações remodeladas ou construídas posteriormente ao</p><p>período colonial, apenas confirmavam a continuidade temporal. O documento reconhece,</p><p>então, os exemplares neoclássicos, ecléticos e art-nouveau, e os usa para justificar que a</p><p>84</p><p>Cidade de Goiás não era uma cidade do Brasil colônia, mas, sim, uma cidade que evoluiu</p><p>mesmo que lentamente.</p><p>Junto a isso, o documento faz uma breve explanação reconhecendo que o único</p><p>exemplar que destoa do conjunto é a Igreja do Rosário, reconstruída na década de 1930 à</p><p>luz da arquitetura neogótica e possuindo uma grande escala, como já mencionado. Aqui</p><p>podemos perceber o quanto as narrativas envolvendo o patrimônio mudaram, pois antes</p><p>as interferências na arquitetura colonial foram refutadas pelo Iphan da década de 1940 e</p><p>1950 ao ponto de estarem expostas a possíveis projetos de restauração “resgatando” as</p><p>características originais. Ainda assim, percebe-se uma intencionalidade na escrita do</p><p>dossiê, diferente das ações existentes até então.</p><p>Mas em contrapartida, a aceitação do que diferente da arquitetura colonial em questão</p><p>possui uma visibilidade considerável na paisagem da cidade não permitiu que a igreja</p><p>fosse considerada, sem estranhamento, como parte do desenvolvimento histórico da</p><p>antiga vila. Em concordância com Tamaso (2007, p.175), não houve no Dossiê intenção</p><p>alguma de explicar os motivos da reconstrução da igreja, as manifestações religiosas que</p><p>ali aconteceram e muito menos a importância desta para o histórico de ocupação da área</p><p>norte do Rio Vermelho pela comunidade negra, pelo contrário, foi apenas comentado que</p><p>sua reconstrução se deu pelos “padres italianos de ordem dominicana”.</p><p>Além destes apontamentos, foi defendida no Formulário a importância da Cidade de</p><p>Goiás para o contexto da ocupação do Brasil por ter sido o primeiro núcleo construído</p><p>além do limite definido pelo Tratado de Tordesilhas. Tal aspecto foi de grande valia para</p><p>a conformação do território nacional e, assim, a cidade foi colocada aqui como elemento</p><p>crucial para a compreensão da história do país. Todos estes aspectos a classificou dentro</p><p>de dois (ii e v) dos seis critérios estabelecidos pela Unesco para a inserção do bem na Lista</p><p>do Patrimônio Cultural da Humanidade. De acordo com o site da Unesco os critérios são:</p><p>i. representar uma obra-prima do gênio criativo humano, ou</p><p>ii. ser a manifestação de um intercâmbio considerável de valores</p><p>humanos durante um determinado período ou em uma área</p><p>cultural específica, no desenvolvimento da arquitetura, das artes</p><p>monumentais, de planejamento urbano ou de paisagismo, ou</p><p>iii. aportar um testemunho único ou excepcional de uma tradição</p><p>cultural ou de uma civilização ainda viva ou que tenha desaparecido, ou</p><p>iv. ser um exemplo excepcional de um tipo de edifício ou de conjunto</p><p>arquitetônico</p><p>SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ............................................................................................................ 32</p><p>Figura 3: Casario da Cidade de Goiás. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ................................... 33</p><p>Figura 4: Tipologias edilícias encontradas na Cidade de Goiás. ...................................................... 34</p><p>Figura 5: Igreja São Francisco de Paula (1), Igreja da Boa Morte (2), Igreja Santa Bárbara (3),</p><p>Igreja N. Sra. do Carmo (4), Igreja N. Sra. da Abadia (5), Fonte da Carioca (6). Fotos: SOUZA,</p><p>2018. Acervo pessoal. .......................................................................................................................... 36</p><p>Figura 6: Evolução urbana da Cidade de Goiás, do século XVIII a início do século XX. Fonte:</p><p>DOSSIÊ, 2010. Organizado pelo autor. ............................................................................................... 37</p><p>Figura 7: Mercado Municipal (1). Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. Colégio Sant’Anna (2).</p><p>Início da década de 1970. Fonte: Autor desconhecido. Acervo digital do Iphan. ........................... 38</p><p>Figura 8: Quartel do XX (1). Fonte: Autor e ano indefinido. Acervo digital do Iphan. Palácio Conde</p><p>dos Arcos (2). Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. .......................................................................... 38</p><p>Figura 9: Antiga Igreja do Rosário com traços coloniais (1). Fonte: Autor e ano indefinido. Acervo</p><p>digital do Iphan. Nova Igreja do Rosário com traços neogóticos (2). Foto: SOUZA, 2018. Acervo</p><p>pessoal. ................................................................................................................................................. 39</p><p>Figura 10: Casas ecléticas “não intencionais”. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ...................... 39</p><p>Figura 11: Tipologias arquitetônicas. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. .................................. 41</p><p>Figura 12: Praça da Liberdade, Ouro Preto - MG. Foto: SOUZA, 2017. Acervo pessoal. ................. 49</p><p>Figura 13: Capa do Dossiê de Goiás. Fonte: DOSSIÊ, 2010. .............................................................. 82</p><p>Figura 14: Edificações com traços Art Déco. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ...................... 89</p><p>Figura 15: À esquerda: Quartel do XX antes do restauro. Fonte: Acervo digital do Iphan, ano e</p><p>autor indefinidos. À direita: Quartel do XX atualmente. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ... 104</p><p>Figura 16: À frente: Palácio Conde dos Arcos. Ao fundo: Igreja Matriz. Foto: SOUZA, 2018. Acervo</p><p>pessoal. ............................................................................................................................................... 106</p><p>Figura 17: Colégio Sant’Ana, antes da reforma. Início da década de 1970. Autor desconhecido.</p><p>Fonte: Acervo digital Iphan. .............................................................................................................. 107</p><p>Figura 18: Colégio Sant’Ana atualmente. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. .......................... 108</p><p>Figura 19: Fachadas falsas. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ................................................. 109</p><p>Figura 20: À esquerda: Agência Banco do Brasil da Cidade de Goiás antes da reforma. Fonte:</p><p>Acervo digital Iphan. À direita: Agência após a reforma. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. .. 112</p><p>Figura 21: Fachada posterior da agência. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ........................... 113</p><p>Figura 22: Colégio Estadual Alcides Jubé. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ........................... 114</p><p>Figura 23: Serras e morros à leste e oeste da Cidade de Goiás. Foto: SOUZA, 2018. Acervo</p><p>pessoal. ............................................................................................................................................... 117</p><p>Figura 24: À esquerda: casas alinhadas à calçada. À direita: Rio Vermelho. Fotos: SOUZA, 2018.</p><p>Acervo pessoal. .................................................................................................................................. 119</p><p>Figura 25: Elementos tradicionais do casario setecentista. Editado pelo autor. Foto: SOUZA,</p><p>2018. Acervo pessoal. ........................................................................................................................ 120</p><p>Figura 26: Esquadrias em madeira típicas das casas setecentistas vilaboenses. Fotos: SOUZA,</p><p>2018. Acervo pessoal. ........................................................................................................................ 124</p><p>Figura 27: Fachadas com ornamentações destacadas em branco. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo</p><p>pessoal. ............................................................................................................................................... 125</p><p>Figura 28: Troca de fiação elétrica em casa do centro histórico. Fonte: Acervo digital Iphan, Foto:</p><p>Maria Cristina Portugal Ferreira, 2000. ........................................................................................... 126</p><p>Figura 29: Lampiões inseridos em parte do centro histórico da Cidade de Goiás. Foto: SOUZA,</p><p>2018. Acervo pessoal. ........................................................................................................................ 127</p><p>Figura 30: Via em pedra e calçada em laje. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ......................... 129</p><p>Figura 31: Casa revestida com cerâmica. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ............................ 134</p><p>Figura 32: Casario com fachadas em tons vibrantes. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ......... 135</p><p>Figura 33: Tipos de colorimetria nas fachadas do casario vilaboense. Foto: SOUZA, 2018. Acervo</p><p>pessoal. ............................................................................................................................................... 137</p><p>Figura 34: Cores não previstas. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ........................................... 138</p><p>Figura 35: Exemplos de casas miméticas. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ......................... 141</p><p>Figura 36: À esquerda: Rua Quintino Bocaiúva, sem casario no lado esquerdo. Ano indefinido.</p><p>Fonte: Acervo Marco Antônio Veiga. As demais, Rua Quintino Bocaiúva com edificações</p><p>construída aos moldes coloniais. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ....................................... 142</p><p>Figura 37: Casas coloniais com chapiscos em suas fachadas. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>............................................................................................................................................................. 142</p><p>Figura 38: Edificações recentes semelhantes às coloniais. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>............................................................................................................................................................. 143</p><p>Figura 39: Enchente do Rio Vermelho em 2001. Fonte: OLIVEIRA, et al. 2019. .......................... 156</p><p>Figura 40: Largo do Chafariz. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ............................................ 159</p><p>Figura 41: Antigo anfiteatro do Largo do Chafariz. Fonte: Programa Monumenta in TAMASO,</p><p>2007. ................................................................................................................................................... 160</p><p>Figura 42: Largo da Cruz do Anhanguera. Ano e autor desconhecido. Fonte: Acervo digital Iphan.</p><p>............................................................................................................................................................. 162</p><p>Figura 43: Largo da Cruz do Anhanguera. À esquerda: antes da enchente. Ano indeterminado.</p><p>Fonte: Acervo digital Iphan. À direita: após reforma do Monumenta. Foto: SOUZA, 2018. Acervo</p><p>pessoal. ...............................................................................................................................................</p><p>ou tecnológico, ou de paisagem que ilustre uma ou várias</p><p>etapas significativas da história da humanidade, ou</p><p>v. constituir um exemplo excepcional de habitat ou</p><p>estabelecimento humano tradicional ou do uso da terra, que seja</p><p>representativo de uma cultura ou de culturas, especialmente as</p><p>85</p><p>que tenham se tornado vulneráveis por efeitos de mudanças</p><p>irreversíveis, ou</p><p>vi. estar associados diretamente ou tangivelmente a acontecimentos ou</p><p>tradições vivas, com ideias ou crenças, ou com obras artísticas ou</p><p>literárias de significado universal excepcional (o Comitê considera que</p><p>este critério não deve justificar a inscrição na Lista, salvo em</p><p>circunstâncias excepcionais e na aplicação conjunta com outros critérios</p><p>culturais ou naturais) (UNESCO, 2019. Grifos do autor).</p><p>Segundo Izabela Tamaso (2007, p.172), o fato da arquitetura local ter sido preservada</p><p>por mais de dois séculos não foi o suficiente para o ICOMOS reconhecer o caráter</p><p>excepcional da cidade em uma pré-avaliação feita do material. Deste modo, foi preciso que</p><p>os organizadores do Dossiê fizessem um novo anexo (Anexo VI) para então ser aprovada</p><p>a candidatura. O adendo contribuiu para definir o valor único da Cidade de Goiás quando</p><p>comparada com as cidades mineiras Ouro Preto e Diamantina, que eram muito parecidas</p><p>com a goiana.</p><p>No Anexo VI retoma-se a importância histórica da cidade em ter sido gerida pela coroa</p><p>portuguesa em uma área que não era da mesma, acrescentada ao valor da arquitetura</p><p>vernacular executada na antiga vila. O anexo reafirma a singularidade da arquitetura</p><p>oficial e religiosa, a espontaneidade do espraiamento do conjunto pelo vale que diferente</p><p>das cidades mineiras, respeitou a topografia e o meio ambiente no que concerne a escala</p><p>e as técnicas construtivas. Mas o ponto principal para garantir a excepcionalidade ao</p><p>conjunto foi o apontamento de que as características vernaculares da cidade</p><p>influenciaram os modos de ocupação em outros municípios do Planalto Central, como</p><p>Pirenópolis, Pilar, Natividade, Corumbá de Goiás, Traíras e Niquelândia. A Cidade de Goiás</p><p>foi definida como “núcleo de arquitetura vernacular”, caracterizada pela adaptação ao uso</p><p>do adobe e do pau-a-pique e não apenas da taipa tanto utilizada pelos paulistas.</p><p>Voltando as partes que compõem o Formulário, ao descrever a cidade o documento</p><p>narra a ocupação que proporcionou uma divisão social da população entre norte e sul e</p><p>cita rapidamente sobre sua localização em ambas as margens do Rio Vermelho, entre os</p><p>morros Dom Francisco e Chapéu do Padre a leste e Cantagalo e Santa Bárbara a noroeste.</p><p>Diz respeito sobre a importância da Serra Dourada para a paisagem da Cidade de Goiás e</p><p>que a mesma está sendo protegida. Aqui o documento já familiariza o leitor no contexto</p><p>da Paisagem Natural que comporta a cidade, que é abordado posteriormente no Anexo I.</p><p>É neste momento que o Dossiê especifica a área a ser reconhecida (ver Mapa 5),</p><p>correspondendo a tombada em 1978 somada a pequenas partes do entorno que</p><p>apresentam uma arquitetura eclética e art nouveau. Fala sobre o histórico da formação da</p><p>86</p><p>cidade que não entrarei no mérito, pois o tema já foi abordado no item 1.1 deste capítulo,</p><p>a não ser por alguns dados que merecem serem levados a conhecimento.</p><p>O Formulário apresenta que naquele momento de inscrição da cidade ao título, a área</p><p>até então tombada pelo Iphan (tombo de 1978) apresenta 485 imóveis onde “os edifícios</p><p>públicos e religiosos estão em bom estado de conservação”. Apenas “20,90%” das</p><p>unidades residenciais encontram-se no mesmo parâmetro, a considerável quantia de</p><p>“30,60%” são consideradas em mau estado e os outros “48,50%” estão normais. O Dossiê</p><p>não explica quais os critérios utilizados para considerar tais índices, mas alega que</p><p>algumas medidas deverão ser tomadas para reverter a situação. A grosso modo, podemos</p><p>notar que até aquele momento as políticas preservacionistas tiveram melhor resposta nas</p><p>edificações monumentais pertencentes ao poder público ou a diocese, demonstrando as</p><p>dificuldades enfrentadas para a aplicação das normativas no meio privado.</p><p>O Plano Diretor de 1996 da Cidade de Goiás é abordado como “importante</p><p>instrumento de refreamento do crescimento desordenado do tecido urbano para a</p><p>proteção do Rio Vermelho e entorno”, ou seja, área tombada. Há a preocupação em</p><p>garantir que a preservação do patrimônio vilaboense se dá sob os trabalhos em conjunto</p><p>das três esferas públicas e não de modo hierárquico. Na realidade, tal questão não</p><p>acontece de maneira eufônica, pois Iphan e prefeitura teceram em diversos momentos</p><p>uma relação discordante, principalmente com a inclusão do Programa Monumenta na</p><p>cidade e que será avaliado no último capítulo.</p><p>A atuação do poder público em sintonia com a própria comunidade como um todo é</p><p>um dos quesitos esperados pela Unesco. Porém, ao Dossiê discorrer sobre algumas das</p><p>ações feitas até ali como as obras de restauração, a proteção dos arquivos históricos da</p><p>cidade pelas entidades civis e religiosas, a abertura do Escritório Técnico do Iphan local e</p><p>a organização do Movimento Pró-Cidade de Goiás, percebe-se que a comunidade indicada</p><p>é representada apenas pela elite cultural vilaboense.</p><p>Indo além, são apresentadas as intenções futuras para a preservação do conjunto</p><p>como a troca da fiação elétrica por subterrânea no centro histórico e a despoluição do Rio</p><p>Vermelho que já estariam com estudos técnicos encaminhados e serão discutidas</p><p>posteriormente nesse trabalho. Nota-se que buscaram deixar claro que o reconhecimento</p><p>como Patrimônio Cultural da Humanidade é fruto do interesse de toda a cidade, abafando</p><p>os percalços históricos enfrentados entre os preservacionistas e anti-preservacionistas. É</p><p>como se o título estivesse apaziguado todo o ambiente de confronto que envolve as</p><p>87</p><p>políticas preservacionistas na Cidade de Goiás. Mas em compensação, as outras partes da</p><p>cidade são desconsideradas onde a futura cidade patrimônio mundial é vista apenas a luz</p><p>de seu centro antigo.</p><p>Além do poder público, outras organizações civis são apontadas como “defensoras da</p><p>identidade cultural vilaboense”, além da própria OVAT, sendo elas: Casa de Cora Coralina:</p><p>museu dedicado à preservação da memória da poetisa Cora Coralina, atuando em</p><p>exposições e eventos culturais; Grupo de Consciência Negra: Organiza e divulga</p><p>manifestações artísticas da cultura negra; Fundação Educacional da Cidade de Goiás:</p><p>Preserva e difunde o patrimônio documental histórico da Cidade de Goiás e região;</p><p>Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos: Promove atividades religiosas e culturais,</p><p>além de congregar cerca de 3.000 pessoas.</p><p>Ao tratar sobre as ameaças possíveis ao bem, o Dossiê alega que o índice de</p><p>probabilidade de ocorrer alguma catástrofe natural “não se aplica”. Mais uma vez o</p><p>documento omite a realidade, pois o percurso histórico vilaboense é marcado por</p><p>inúmeras cheias do Rio Vermelho. Tanto que alguns dias após a outorga da cidade pela</p><p>Unesco em 2001, ocorreu o transbordamento do rio, ocasionando imensuráveis percas</p><p>materiais no centro histórico, fazendo com que a Cidade de Goiás precisasse passar por</p><p>todo um processo de reconstrução e restruturação.</p><p>Dando continuação as partes que estruturam o documento, os seis Anexos foram</p><p>introduzidos de modo a complementar o Formulário, apresentando fotos, mapas e demais</p><p>informações que se fizeram necessárias. Para não ficar repetitivo, apontarei o conteúdo</p><p>que compõe cada anexo em sentido expositivo, mas continuarei na perspectiva de dar foco</p><p>àquilo que se mostra importante para o futuro desta pesquisa.</p><p>O Anexo I é dividido em três sessões: (1) Cartografia Antiga e Atual; (2) Paisagem da</p><p>Zona Tampão e (3) Fotos antigas e atuais da Cidade de Goiás. A primeira parte é iniciada</p><p>com o poema “Minha Cidade” de Cora Coralina, poetisa vilaboense que conforme Andréa</p><p>Delgado (2003, p.457), foi monumentalizada pelo</p><p>Dossiê “como símbolo da cidade,</p><p>entrelaçando o ofício da doceira que institui a comida-signo, com o ofício da literata que</p><p>inscreve determinado passado na materialidade urbana e elabora um mapa da memória</p><p>pessoal e coletiva”. No decorrer de todo o documento, a figura de Cora se faz presente por</p><p>88</p><p>meio de seus poemas e muitas das suas escritas são tomadas como complemento do</p><p>conteúdo exposto36.</p><p>Neste caso em específico, o texto de Cora é claramente uma introdução ao conteúdo</p><p>que seria abordado em todo o anexo. A poetisa aponta em versos as características e</p><p>transformações do espaço urbano da Cidade de Goiás e a paisagem natural nas</p><p>adjacências da cidade. Para tanto, a primeira sessão do anexo mostra os planos urbanos</p><p>(mapas, desenhos e fotos) da cidade do século XVIII ao XX em contexto de território local,</p><p>estadual e nacional. Entremeio a estas informações, o Anexo I expõe a área sugerida para</p><p>o chancelamento mundial e um exaustivo levantamento lote a lote de todo perímetro</p><p>tombado pelo Iphan em 1978.</p><p>No levantamento são apresentadas as características físicas e de uso dos imóveis até</p><p>aquele presente momento, considerando as seguintes categorias e sub-categorias que</p><p>também não tiveram os parâmetros explicados para a seleção das mesmas:</p><p>1) Estado de Conservação: bem conservado; regular; mal conservado e área vazia;</p><p>2) Estado de Preservação: exterior e interior preservado, exterior preservado,</p><p>alterado, edificação reconstruída e área vazia;</p><p>3) Tipologias Estilísticas: XVIII e XIX (colonial), elementos ecléticos, elementos</p><p>neoclássicos, alterado, edificação recente, praça ou área verde, neogótico, eclético</p><p>e área vazia;</p><p>4) Equipamentos urbanos (mesmo que uso): comércio, habitação, misto,</p><p>institucional, religioso, praças e áreas verdes e área vazia.</p><p>Um fato curioso é que ao analisar o mapa de “Tipologias Estilísticas” e confrontá-lo</p><p>com a realidade encontrada na cidade, percebemos duas questões interessantes.</p><p>Primeiramente que as unidades que apresentam ornamentos em suas fachadas que muito</p><p>se assemelham a vertente arquitetônica art déco (Figura 14) foram consideradas como</p><p>coloniais ou portadoras de elementos neoclássicos. Se por um lado os exemplares que</p><p>possuem elementos decorativos ecléticos ou neoclássicos são definidos como tal, por</p><p>outro, a realidade é mais uma vez omitida em prol do favorecimento da intenção maior</p><p>que não incluía o art déco como uma linguagem a ser reconhecida.</p><p>36 Para mais informações sobre a importância de Cora Coralina como figura emblemática da cultura goiana,</p><p>ver DELGADO, Andréa Ferreira. A invenção de Cora Coralina na batalha das memórias. Tese (Doutorado em</p><p>História) – Programa de Pós-Graduação em História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas,</p><p>Universidade Estadual de Campinas, Campinas/SP, 2003.</p><p>89</p><p>Figura 14: Edificações com traços Art Déco. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>A segunda sessão do Anexo I apresenta a Serra Dourada em imagens e mapas dando</p><p>atenção as particularidades do bioma do cerrado, principalmente as que envolvem os</p><p>frutos típicos, árvores e afluentes. O Dossiê coloca o patrimônio material da cidade em</p><p>total diálogo com a Paisagem Natural em que se encontra e aponta as áreas de interesse</p><p>deste entorno natural para preservação e, assim, a relação homem-natureza torna-se</p><p>objeto de políticas públicas.</p><p>E por fim, a terceira sessão exibe um acervo rico de fotografias mostrando o centro</p><p>histórico da Cidade de Goiás, dando destaque para a manutenção arquitetônica do</p><p>perímetro. Para isso, fazem um jogo de comparação apresentando uma foto do início do</p><p>século XX e outra ao final para comprovar que a cidade permaneceu praticamente</p><p>inalterada. Coloca o patrimônio arquitetônico e urbanístico agora em sintonia com as</p><p>tradições, tanto que há imagens de diversas manifestações festivas de caráter religioso e</p><p>oficial, dos saberes e fazeres tradicionais vilaboenses retratando artesãos e doceiras, da</p><p>arquitetura colonial, eclética, neoclássica e art nouveau. Dos monumentos e pontos mais</p><p>emblemáticos da paisagem urbana da cidade e não menos importante, fotografias das</p><p>obras do artista escultor Veiga Valle que se encontram em exposição no Museu da Boa</p><p>Morte.</p><p>O Anexo II é subdividido em seis sessões: (1) Goiás e a ocupação do Brasil Central; (2)</p><p>Goiás: história e cultura; (3) Evolução urbana da Cidade de Goiás; (4) Viajantes; (5)</p><p>Legislação e (6) Bibliografia. Os três primeiros tratam-se de um material apenas em texto</p><p>que narra a ocupação do Brasil Central, passando por toda a trajetória histórica da Cidade</p><p>de Goiás. Enquanto o Formulário resume tais fatos, aqui a imersão é mais densa. No item</p><p>dois é tecido toda uma narrativa a respeito dos aspectos culturais que envolvem a escrita</p><p>com a imagem de Cora Coralina em foco, a música local marcada entre erudita, popular e</p><p>90</p><p>folclórica, o teatro, as folias, quadrilhas e demais festividades, as manifestações religiosas,</p><p>os artesãos com a imponente figura de Veiga Valle e a influência negra e indígena para os</p><p>utensílios de cestaria trançada e a cerâmica de cunha rudimentar.</p><p>A quarta e quinta parte são transcritos de livros e das normativas que envolvem as</p><p>políticas preservacionistas locais respectivamente. O primeiro, especificamente com os</p><p>relatos de três viajantes que passaram pela antiga Vila Boa no século XIX: Auguste de</p><p>Saint-Hillaire em “Viagem a Província de Goiás”; Johann Emanuel Pohl em “Viagem ao</p><p>interior do Brasil” e Brigadeiro Raimundo José da Cunha Mattos em “Itinerário do Rio de</p><p>Janeiro ao Pará e Maranhão, pelas províncias de Goiás e Minas Gerais”. Ambos apontam</p><p>suas primeiras impressões e as surpresas ao se depararem com a simplicidade do</p><p>conjunto. Já o sexto item é a lista bibliográfica utilizada para a elaboração do Dossiê, que</p><p>permeia entre autores clássicos da literatura goiana como Paulo Bertran, Gustavo Neiva</p><p>Coelho, Nasr Fayad Chaul, Bernardo Elis, Luís Palacín, a própria Cora Coralina, os viajantes</p><p>citados acima, entre outros.</p><p>O Anexo III são os inventários dos Bens Imóveis e dos Móveis e Integrados da Cidade</p><p>de Goiás que segue bem o padrão de inventários37 do Iphan. Nada mais são do que fichas</p><p>expondo as características físicas de tais exemplares. Os imóveis referem-se a todos os</p><p>bens isolados tombados pelo Iphan, além de algumas unidades residenciais, comerciais e</p><p>institucionais, de direito privado ou não, sendo:</p><p>- Tombados pelo Iphan: Museu das Bandeiras; Praça do Chafariz; Museu da Boa Morte;</p><p>Catedral Sant’Anna; Igrejas da Abadia, do Carmo, de Paula e Santa Bárbara; Chafariz de</p><p>Cauda e da Carioca; Palácio Conde dos Arcos e Quartel do XX;</p><p>- Unidades outras: Sobrado Real Fazenda na Praça do Coreto (antigo largo de Santana);</p><p>Casa do Bispo (sede do Iphan); Casa Rios (comércio junto ao Mercado Municipal); Casa de</p><p>Cora Coralina (sede do Museu de mesmo nome); duas residências particulares no Largo</p><p>do Chafariz e uma no largo do coreto.</p><p>Nota-se que há o interesse de perpetuar no contexto do patrimônio determinados</p><p>exemplares privados ou então sob domínio público que até então não haviam sido</p><p>institucionalizados como bens patrimoniais isoladamente. Na cidade consta diversos</p><p>exímios exemplares arquitetônicos que poderiam estar na lista, como a antiga Casa de</p><p>37 Inventários são documentos em que constam todas as informações encontradas a respeito de um</p><p>determinado bem sendo o primeiro passo a ser feito para tombá-lo. Os pontos a serem abordados no</p><p>referido mudam mediante a natureza do bem a ser inventariado. O Iphan os divide em: territórios, lugares,</p><p>objetos, celebrações, formas de expressão e saberes.</p><p>91</p><p>Fundição que era sempre citada anteriormente, desta vez foi excluída. A própria sede do</p><p>Iphan que é de domínio do órgão, ao entrar na referida lista, querendo ou não coloca o</p><p>próprio como um dos representantes do patrimônio vilaboense, assim como os</p><p>proprietários dos demais.</p><p>Já a lista dos Móveis e Integrados são as obras de Veiga Valle (Imagens de Nossa</p><p>Senhora do Parto, de São Miguel Arcanjo, de São Joaquim, de São José de Bota com Menino,</p><p>de São João Batista e de Menino Deus), e alguns utensílios religiosos (Custódia, Coroa,</p><p>Turíbulo, Gomil e Bacia). Percebe-se que há no Dossiê uma construção narrativa em cima</p><p>da figura de Veiga Valle que até foi pouco citada nas políticas preservacionistas, diferente</p><p>do que aconteceu com Aleijadinho em Minas Gerais, que desde as primeiras intenções de</p><p>preservação foi usado como parte do arcabouço do patrimônio mineiro.</p><p>O Anexo IV define por um “trabalho de contato com a população da Cidade de Goiás”,</p><p>que teve por intenção “apreender a dinâmica cultural dessa região e ampliar o</p><p>conhecimento sobre o contexto sociocultural” do patrimônio local. O material divulgado</p><p>é fruto do Inventário Nacional de Referências Culturais feito pelo Iphan na época em</p><p>diversas cidades tombadas. Para tal, foram entrevistadas noventa pessoas, das quais</p><p>quatorze entrevistas foram publicadas no Dossiê, sendo todos moradores ou proprietários</p><p>de casas no centro histórico e mais uma vez, o patrimônio estando na perspectiva apenas</p><p>do morador do conjunto tombado.</p><p>Com as entrevistas, o Anexo apresenta um trabalho de contato com a sociedade</p><p>agregando a paisagem urbana vilaboense às falas locais para inventariar as referências</p><p>culturais que configuram “uma identidade e um sentimento simbólico da região para seus</p><p>habitantes”, além dos monumentos arquitetônicos. Abordando vivências cotidianas de</p><p>costumes, tradições, histórias e lendas, sentimentos e opiniões sobre a área tombada e o</p><p>ambiente natural que a conforma, as entrevistas seguiram um roteiro único.</p><p>Englobou temas como: monumento arquitetônico mais significante e tido como cartão</p><p>postal; festas e comemorações mais importantes; músicas, artes e ofícios artesanais e seus</p><p>autores; documentos e objetos antigos encontrados em suas casas; patrimônio natural</p><p>mais significativo; produções típicas envolvendo culinária, tecelagem, medicamentos,</p><p>construção e mobiliário. Já as respostas levantam muitos aspectos em concordância com</p><p>os pontos abordados no decorrer de todo o Dossiê e indicam ser um reflexo do que foi e é</p><p>utilizado atualmente para afirmar a imagem ideal do patrimônio da Cidade de Goiás.</p><p>92</p><p>Trazem o Festival de Cinema e Vídeo Ambiental - FICA e algumas festas religiosas tidas</p><p>como as mais significativas, como a Procissão do Fogaréu, Divino Espírito Santo, Semana</p><p>dos Passos e das Dores, Semana Santa e Festa do Rosário. Há uma culinária bem marcante</p><p>no contexto de produção de doces típicos (cristalizados dos mais variados sabores,</p><p>alfenim, pastelinho, limão com doce de leite, flor de coco) e como o empadão, biscoito de</p><p>polvilho frito, bolo de arroz, suco de cajazinho e cajuzinho do cerrado. Produção de</p><p>panelas e refratários em cerâmica, bordados, pinturas em porcelana, esculturas em pedra</p><p>sabão e madeira talhada, além de medicamentos dos mais variados tipos feitos com</p><p>produtos naturais do cerrado. Sem contar na afirmação da imagem da poetisa Cora</p><p>Coralina como elemento emblemático da cultura local.</p><p>As entrevistas, segundo o próprio Dossiê, resultam na compreensão do próprio ser</p><p>vilaboense que veem nas lembranças do passado o melhor meio de organizar “sua</p><p>singular trajetória cultural”. É como se todos os vilaboenses estivessem em sintonia,</p><p>preservando a memória afetiva do lugar, memória esta da qual fazem parte. Mas, torna-</p><p>se importante salientar que ao discorrermos sobre algumas ações implantadas na cidade</p><p>no capítulo três desta pesquisa, perceberemos que estas respostas a muito estão</p><p>interligadas aos objetos de projetos, intervenções, programas e demais ações implantadas</p><p>que visaram contribuir com a sustentabilidade do patrimônio local por meio das práticas</p><p>turísticas.</p><p>Conforme consta na apresentação do Anexo IV, os entrevistados que ali estão</p><p>representando o vilaboense no geral, independente se moram ou não no centro histórico,</p><p>se colocam como parte do próprio patrimônio da cidade sendo “os defensores desse</p><p>patrimônio cultural e como protagonistas vivos da sua história”. O que para Delgado</p><p>(2003, p.450) “silencia as tensões e conflitos constitutivos no processo de atuação do</p><p>Iphan e das instituições locais como a OVAT”.</p><p>O Anexo V discorreu a respeito da arquitetura vernacular na Cidade de Goiás que</p><p>descende da executada em São Paulo, mas foi apropriada seguindo um sentido único. De</p><p>forma suscinta, pois muitos dos apontamentos apresentados constam no item um deste</p><p>capítulo, o anexo em questão aproveita da iconografia para mostrar o quanto a</p><p>arquitetura vilaboense está relacionada com a realidade social da antiga vila, com o Rio</p><p>Vermelho, com a própria rua. Mostram as particularidades dos detalhes ainda</p><p>preservados como janelas, portas, pigmentos e suas cores, ferragens, telhados, pisos,</p><p>93</p><p>poços d’água, dos ornatos inseridos posteriormente. O Anexo VI já fora comentado sobre</p><p>seu conteúdo.</p><p>Ao analisar o Dossiê de Goiás é nítida a intenção de construir uma cidade ideal aos</p><p>olhares da Unesco, mesmo que de forma seletiva. O Dossiê não monumentaliza apenas o</p><p>conjunto arquitetônico e urbanístico da Cidade de Goiás, mas coloca em posição de</p><p>destaque as pessoas, os aspectos da natureza e as diversas manifestações culturais que</p><p>permeiam este conjunto, até então não reconhecidos como catalizadores da imagem</p><p>cultural. O patrimônio não é colocado apenas em sentido material, mas a sua</p><p>imaterialidade teve muito a contribuir para a construção do documento-monumento e</p><p>resultar no pedido deferido.</p><p>94</p><p>95</p><p>Coreto e Igreja Matriz</p><p>Foto: SOUZA, 2018.</p><p>96</p><p>Capítulo II</p><p>IMAGEM DA CIDADE E PATRIMÔNIO</p><p>97</p><p>2.1 | Cenarização patrimonial: busca pela imagem ideal</p><p>Na contemporaneidade as cidades se reajustam às novas necessidades de seus</p><p>cidadãos e as relações sociais destes para com o espaço em que habitam se reconfiguram.</p><p>É cada vez mais presente dentro da literatura trabalhos que elucidam em diferentes áreas</p><p>tais percepções, reciclando as pesquisas sobre a vida social nas cidades, que a cada dia</p><p>mais se encontram dentro de um ciclo contínuo de fragmentação e, consequentemente,</p><p>de construção de novas centralidades.</p><p>Frente às frações que compõem a cidade, aos poucos surgem dúvidas a respeito</p><p>das identidades urbanas e da criação de novas imagens das cidades. Segundo Scocuglia</p><p>(2010), a sociedade se apresenta cada vez mais disjunta e dissociada, o que torna a</p><p>compreensão da forma urbana em um objeto de difícil cristalização, dificultando a</p><p>produção de imagens únicas da cidade. Mas, em contrapartida, a autora acredita que esta</p><p>pluralidade se torna na base da vida urbana, o que possibilita a produção de variadas</p><p>identidades decorrentes de diferentes pontos de vista e são nestas diferenças que as</p><p>semelhanças podem surgir.</p><p>Tal processo é nítido nas grandes e pequenas cidades, o que indica uma</p><p>interpretação generalizada do tema, pois a grosso modo as diferenças ocasionadas pelo</p><p>98</p><p>fracionamento espacial nos colocam frente a possibilidade de compreensão do sentido de</p><p>urbanidade e de cidade por meio de suas próprias imagens. É neste contexto que a partir</p><p>da década de 1970, há de forma mais intensa e perceptiva o cuidado das cidades para com</p><p>sua imagem, fruto de sua “identidade”. Organizar e/ou reabilitar o espaço urbano, seja em</p><p>âmbito físico ou imaginário, tornou-se em um meio de produção e promoção das cidades.</p><p>Neste contexto, a cultura assumiu a preponderância da ação contemporânea nos</p><p>espaços urbanos no que diz respeito a produção e valorização das imagens e tornou-se</p><p>em uma indispensável faceta dos discursos capitalistas para movimentar</p><p>o mercado e</p><p>desenvolver a economia, sendo estes últimos um dos pontos chave atualmente. Para</p><p>tanto, Adorno e Horkheimer (1985) apontam em seus estudos na década de 1940 e que</p><p>se torna pertinente aos dias atuais o conceito de “indústria cultural”, vinculando a cultura</p><p>ao modo de produção capitalista. Dessa forma, a cultura estava sendo produzida e</p><p>reproduzida em série, inserida no mecanismo de consumo a ponto de refutar o que</p><p>deveria ser a sua essência propriamente dita, isto é, seu apelo artístico e estético. A crítica</p><p>dos autores emerge em uma ideia de que a cultura está sendo produzida mais em</p><p>quantidade do que em qualidade, tornando-se em meros objetos de entretenimento. A</p><p>experiência estética cede espaço para uma comercialização massificada e de modo</p><p>sedutor, a própria indústria faz com que a sociedade absorva este mercado.</p><p>Com o tempo a cultura tornou-se pauta significativa de governos com maior ou</p><p>menor intensidade e interesse, ou mesmo em fetiche social, frente a um mercado cada vez</p><p>mais exigente. A cultura passou a ter a capacidade de inflar a economia e garantir a</p><p>valorização de um determinado espaço em que está inserida ou é representada. Seu</p><p>consumo se apresenta inclusive como um “gesto cultural legitimador, na forma de bens</p><p>simbólicos”, quer dizer de imagens. Consumir cultura tornou-se em um “estilo de vida” e</p><p>seu ato está totalmente intrínseco na sociedade (ARANTES, 1996, p.233).</p><p>Para tal, há o interesse de mostrar, reforçar ou até forjar uma imagem singular</p><p>resultante da cultura de uma cidade. Noutras palavras, ao vender a cultura, a imagem da</p><p>própria cidade estaria sendo vendida e a partir daí é quase que um “vale-tudo pela</p><p>audiência”. Assim, a cidade configura-se também em um ambiente imagético permeado</p><p>por diferentes símbolos, passíveis a serem preservados e comercializados como</p><p>representação de uma identidade urbana. Para Arantes (1996, p.232), a partir do</p><p>momento em que as cidades foram confrontadas como um “repertório de símbolos”,</p><p>99</p><p>quase tudo tornou-se em exímio “patrimônio a ser preservado”, ou seja, objetos culturais</p><p>frutos da estetização do que é social.</p><p>Na medida em que as cidades constroem este acervo cultural, elas tornam-se em</p><p>palco para diferentes movimentos sociais e para o surgimento de novas estratégias que</p><p>visam a estruturação de um modelo de sociedade exemplar. É dentro desta conjuntura</p><p>que as paisagens urbanas são embelezadas e musealizadas com a disposição de variadas</p><p>atividades culturais, o que para Harvey (2014) possibilita na afirmação de uma auto-</p><p>imagem urbana de qualidade. Além disso, seria um reflexo da globalização neoliberal, isto</p><p>é, um efeito resultante do desenvolvimento das estruturas socioeconômicas pós-</p><p>industriais mundiais que também teriam domínio no próprio conceito de cultura na</p><p>contemporaneidade.</p><p>A cultura vem sendo utilizada como instrumento de revitalização urbana em prol</p><p>do estímulo de uma imagem idealizada e perfeita por meio da animação dita cultural, além</p><p>da sua utilização como instrumento de desenvolvimento econômico. A cidade</p><p>transformou-se em um ambiente espetacularizado e, com isso, passou a ser apropriada e</p><p>configurada em cenários, frutos de processos de revitalização que visam atrair o público</p><p>consumidor com a implantação de um marketing cultural urbano dentro das políticas</p><p>públicas. Assim, concomitantemente, a ascensão do turismo e de outros grupos da</p><p>sociedade, incluindo os de origem privada, é instaurada (JEUDY; JACQUES, 2006).</p><p>É contra a esta espetacularização cultural, que segundo Jacques (2003, p.36),</p><p>iniciou-se na década de 1960 os movimentos de contracultura, de culturas alternativas ou</p><p>marginais, de manifestações revolucionárias das minorias culturais, que resultaram na</p><p>formação dos situacionistas, por exemplo, com Guy Debord e seu livro-manifesto “A</p><p>sociedade do espetáculo” de 1967. Em suma, esses movimentos emulavam a</p><p>generalização, a passividade e alienação da sociedade frente ao modo de se fazer cultura</p><p>e participar da vida social. Para a autora, tais pensamentos continuam pertinentes</p><p>principalmente se pensarmos na patrimonialização como um ato do espetáculo, onde o</p><p>patrimônio urbano é transformado em cenários comerciais por meio de projetos de</p><p>revitalização.</p><p>Muitas vezes, tais intervenções se iniciam com a patrimonialização institucional de</p><p>partes das cidades, sejam de monumentos isolados ou conjuntos urbanos, principalmente</p><p>de seus centros antigos que são tidos como símbolos representativos dos primórdios das</p><p>cidades ou de um saber fazer, de práticas ligadas à tradição e à memória coletiva e que</p><p>100</p><p>apresentam valores de convivialidade, centralidade e historicidade. Visando sua inserção</p><p>assertiva dentro do arcabouço de cidades ditas culturais ou turísticas, estes locais, que,</p><p>por vezes encontravam-se esquecidos pelo poder público até então, passam por processos</p><p>que buscam atrair novos usos utilizando do seu potencial arquitetônico e urbanístico.</p><p>A partir deste momento, as parcelas reconhecidas a patrimônio se valorizam cada</p><p>vez mais por meio de sua ligação direta com a indústria do turismo como parte</p><p>fundamental para a auto conservação e manutenção dos bens. No Brasil, podemos ver a</p><p>caracterização destes projetos no Pelourinho em Salvador, além de outras grandes</p><p>cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Fortaleza e João Pessoa.</p><p>Mesmo que cada sociedade apresente suas particularidades, a promoção das</p><p>imagens que melhor as representem, o que inclui o patrimônio tombado, tem as tornado</p><p>cada vez mais similares umas às outras justamente por buscar “vender” a representação</p><p>de uma imagem ideal. Mas, em contrapartida, são estas singularidades que as fazem se</p><p>destacar dentro do competitivo mercado mundial, nem que seja a título de um primeiro</p><p>interesse. Só posteriormente, quando aprofundamos as reflexões a respeito destas</p><p>representações que percebemos que todas partem de um mesmo princípio, atrair</p><p>investimento e consumidores.</p><p>Assim, de um lado tem-se os particularismos que se tornam em diferenciais para a</p><p>publicidade necessária de uma cidade se destacar frente as demais, e do outro, tem-se um</p><p>modelo internacional homogeneizador a ser seguido, imposto pelos grandes</p><p>financiadores multinacionais dos projetos de revitalização. Deste modo, os centros</p><p>históricos que deveriam preservar sua memória histórica cultural tendo suas</p><p>singularidades locais bem aferidas, se tornam cada vez mais semelhantes entre si,</p><p>seguindo, na maioria do casos, um determinado padrão e com sua memória local abrindo</p><p>espaço para a criação de grandes cenários turísticos (JACQUES, 2003).</p><p>Em consequência, surgem a cada dia mais no Brasil e em diversos outros países,</p><p>cidades, ou partes delas, como museus a céu aberto, isto é, museus de si mesmas,</p><p>principalmente com a implantação das políticas preservacionistas, como é o caso da</p><p>Cidade de Goiás. As cidades se encontram em processo de restauração permanente, que</p><p>para Jeudy (2005), é o espelho das sociedades contemporâneas e que resulta na reflexão</p><p>da sua própria imagem ideal a ser então valorizada, deixando-a a mais visível e atrativa</p><p>possível.</p><p>101</p><p>Há alguns anos iniciou-se um processo de cenarização urbana cultural até mesmo</p><p>dentro das administrações mais conservadoras, principalmente com a fomentação das</p><p>operações de reconhecimento de bens culturais em patrimônios chancelados. Sendo</p><p>assim, os temas cenários e patrimonialização estão interligados, pois ambos tratam</p><p>também de políticas de imagens adotadas para atrair e expandir o turismo e uma</p><p>contribui ativamente sob a outra, mesmo com maior ou menor intensidade.</p><p>As narrativas contemporâneas do patrimônio cultural colocaram as áreas</p><p>preservadas em um patamar de destaque frente à cidade. São locais que alimentam a base</p><p>econômica com o aumento cada vez mais assíduo de agentes interessados em explorá-lo</p><p>como campos históricos e identitários</p><p>e principalmente de consumo. Estes centros</p><p>configuram-se como o cartão postal e sua preservação e “enobrecimento” estão a cada dia</p><p>mais valorizados e buscados por meio de políticas públicas. Segundo Leite (2001), o termo</p><p>enobrecimento é usado para apontar as transformações de uma localidade histórica</p><p>dentro de um contexto mercadológico por meio da apropriação cultural, o que resulta na</p><p>afirmação da simbologia do poder em que uma nova camada social busca se apropriar de</p><p>certos espaços urbanos.</p><p>Tais políticas utilizam da valorização estética, da requalificação dos monumentos,</p><p>do patrimônio como revalorização identitária, como investida de “refuncionalizar os</p><p>centros antigos dentro de um processo de revalorização” (SCOCUGLIA, 2010, p. 13), o que</p><p>garante o mapeamento das imagens significantes para um determinado quadro social e</p><p>as colocam em posição de destaque dentro dos investimentos do poder público e privado.</p><p>Dessa forma, os centros antigos patrimonializados tem suas paisagens urbanas alteradas,</p><p>apoiados na expectativa de atrair diversos fluxos ocasionados pela realidade</p><p>contemporânea caracterizada dentro de um contexto de renda assegurando, assim, sua</p><p>transformação em objeto de lazer e excepcionalmente de consumo.</p><p>E é dentro deste contexto que a simulação de cenários urbanos é tomada como uma</p><p>plataforma para (re)construir o patrimônio que é de interesse de seus usuários.</p><p>Retomam-se um passado remoto por meio de obras de restauro para “resgatar”</p><p>características que foram modificadas no decorrer do tempo como uma consequência</p><p>natural da modernização das cidades ou até mesmo, buscam produzi-las tendendo-se,</p><p>inclusive, à superficialidade, ao pastiche cultural, a “simulação e simulacros”</p><p>(BAUDRILLARD, 1991), conforme veremos adiante na Cidade de Goiás.</p><p>102</p><p>Segundo Fernandes (2006), a cenarização do espaço patrimonializado recria</p><p>inclusive personagens que possam garantir a vivência de um passado mais fidedigno a</p><p>realidade possível. Os valores culturais ao atrair cada vez mais visitantes e agentes</p><p>interessados em sua promoção, ocasiona a redução, por muitas vezes, da arquitetura da</p><p>cidade em imagens e simulacros, transformando o patrimônio em uma potente reserva a</p><p>ser explorada e a configura em uma paisagem urbana dita real, que pode ou não, ter</p><p>existido anteriormente. Além disso, há casos em que os cenários se apresentam</p><p>desvinculados do patrimônio institucional, onde ocorrem a transferência de</p><p>determinadas situações de um lugar para outro, ou seja, uma imitação de expressões</p><p>regionais noutro lugar onde a inspiração pode ou não permear o campo histórico, físico e</p><p>até mesmo fictício, como é o caso de Las Vegas.</p><p>A globalização do patrimônio como exímio objeto da cultura urbana é tamanha que</p><p>o mesmo se destaca como um dos principais mecanismos para a valorização de certas</p><p>cidades ou de apenas algumas parcelas da cidade em detrimento de outras. Sendo assim,</p><p>por traz da criação destes cenários culturais há em segunda instância e não menos</p><p>importante, a disputa entre o que deve ou não ser digno de significação. Ao mesmo modo</p><p>que uma cidade é promovida a patrimônio e então recebe todos os prazeres do</p><p>chancelamento, é importante ressaltar que a mesma passou por um processo seletivo</p><p>para a eleição da sua imagem significante. Isto é, há sempre o que pode e o que não pode</p><p>galgar este processo.</p><p>Se por um lado há a espetacularização de um determinado espaço urbano com as</p><p>requalificações de espaços ditos históricos e culturais, de outro há o que sobra de uma</p><p>cidade, que muitas das vezes não apresentam pontos de interesse para o mercado</p><p>cultural. É aqui que a problemática mundial da gentrification é introduzida, pois enquanto</p><p>o processo de cenarização do patrimônio valoriza e enaltece um determinado espaço</p><p>urbano, este mesmo exercício cria barreiras sociais principalmente quando averiguamos</p><p>as diferenças físicas do que estão dentro e fora dos territórios preservados e a não</p><p>apropriação efetiva destes locais por parte da população, que muitas das vezes são</p><p>desconsideradas como elementos participativos.</p><p>A cultura, e consequentemente o patrimônio, tornam-se assim em itens de</p><p>diferenciação, de concorrência e de exclusão ao focar as ações em transformar os centros</p><p>históricos em espaços preparados e padronizados para receber, especialmente o turista</p><p>internacional. Digo padronizado, pois as políticas patrimoniais utilizam de normas</p><p>103</p><p>universais que desconsideram as particularidades de cada local e que criam um macro</p><p>ambiente patrimonial para uma classe média. É nítido o quanto tais práticas se</p><p>configuram de modo até natural em todo este processo explanado até aqui. Enaltecer,</p><p>conservar, intervir e valorizar as imagens pertinentes dos cenários patrimoniais é quase</p><p>que um consenso universal nos discursos institucionais, políticos, acadêmicos. Nas</p><p>últimas décadas, a preservação se consolidou como parte da gestão urbana a tal modo que</p><p>é difícil imaginar a sua exclusão das pautas do Estado.</p><p>2.2 | Cenários para Cidade de Goiás</p><p>Por meio da recuperação e manutenção de características arquitetônicas do</p><p>passado presentes nas cidades, o patrimônio cultural enquanto instituição pública enseja</p><p>garantir a representação ideal de uma sociedade, manifestando seus valores culturais. No</p><p>Brasil, as ações preservacionistas iniciadas na década de 1930 pelo Iphan tiveram a</p><p>intenção de preservar bens para representar uma identidade nacional, contribuindo para</p><p>a construção de uma narrativa do país. De lá para cá, muito mudou, mas a intenção de</p><p>representação ainda existe mesmo que mesclada aos interesses econômicos.</p><p>Com base nessa afirmação, investigam-se alguns dos possíveis cenários urbanos</p><p>construídos na Cidade de Goiás como resultado das ações preservacionistas que</p><p>contribuíram ativamente na sua inscrição na Lista do Patrimônio Mundial. Pode ser que</p><p>para alguns, tais práticas não serão consideradas parte de um processo de cenarização</p><p>estabelecido com intuito de ser tal, mas a intenção aqui é elucidar tais ações e mostrar o</p><p>quanto elas se encaixam dentro da temática, principalmente no que diz respeito a busca</p><p>de fomentar sua importância cultural dentro de um contexto social ainda maior,</p><p>atendendo a lógica da conservação patrimonial do sistema mundial.</p><p>O primeiro caso a ser apresentado é o Quartel do XX, um dos poucos exemplares da</p><p>arquitetura oficial do período colonial no Estado de Goiás fundado no século XVIII.</p><p>Localizado no Largo do Chafariz, a edificação é fruto da adaptação de várias residências</p><p>que ali existiam, mas que com maestria resultou em um projeto com características</p><p>próprias das edificações militares do mesmo período. Seguindo orientações rígidas do</p><p>formalismo exigido pela estrutura militar, a arquitetura sóbria resultante apresenta</p><p>espaços bem especificados com predominância nas linhas retas e horizontais e tornou-se</p><p>104</p><p>em um exemplar monumental da cidade. Em seu histórico de ocupação, consta a utilização</p><p>como hospital e hotel e muito posteriormente passou a oferecer um uso cultural</p><p>propriamente dito.</p><p>Entre o final do século XIX e início do XX, a edificação foi reformada e teve sua fachada</p><p>modificada. Inseriu-se ornamentos neoclássicos como o coroamento da torre principal em</p><p>platibanda e nas esquadrias, vergas em arco pleno que remetiam a uma ideia de</p><p>aproximação com a corte do século XIX e a modernização do século XX.</p><p>Foi tombado pelo Iphan na década de 1950, momento em que se encontrava com</p><p>características neoclássicas em sua fachada, mas, mesmo estando inscrito nos livros do</p><p>tombo, foi reformado no final na década de 1970 reassumindo a aparência original e que</p><p>permanece até hoje. Retornaram os elementos típicos coloniais em seu projeto de</p><p>restauro (Figura 15), retirando os ornamentos neoclássicos inseridos posteriormente,</p><p>reintegrando à fachada o beiral, as esquadrias com guilhotina e os portais em</p><p>verga reta.</p><p>Deste modo, retornou-se ao que seria a edificação primeira, sob as orientações do próprio</p><p>Iphan, com o intuito de legitimar os valores estéticos atribuídos ao bem, em consonância</p><p>com o restante do perímetro urbano tombado.</p><p>Figura 15: À esquerda: Quartel do XX antes do restauro. Fonte: Acervo digital do Iphan, ano e autor indefinidos. À</p><p>direita: Quartel do XX atualmente. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>105</p><p>Nos documentos pesquisados e disponibilizados pelo Iphan em seu Acervo Digita38,</p><p>não foram encontradas as justificativas de tais modificações. Reconheceram-se os</p><p>direcionamentos do órgão para a execução da obra:</p><p>Especificações para os trabalhos de conservação e restauração a serem</p><p>realizados em proveito do Antigo Quartel do 20º Batalhão da Infantaria</p><p>[...]</p><p>Fachada principal:</p><p>- Demolição das platibandas do corpo térreo e do sobrado central.</p><p>- Construção de telhado de quatro águas sobre o corpo central</p><p>assobradado e confecção do beiral circundante, com 0,80m de balanço.</p><p>- Cachorros de secção de 0,07m x 0,10, espaçados de 0,50m de eixo a eixo.</p><p>- Guarda-pó de madeiras.</p><p>- Prolongamento das águas, dos corpos térreos, que ladeam o central, e</p><p>que dão para fachada principal e confecção do respectivo beiral do corpo</p><p>central.</p><p>- Todas as peças, sendo novas, em madeira de lei, deverão ser</p><p>previamente tratadas com pentaclorofenol em óleo Diezel a 5%.39</p><p>Um fato curioso é que o Palácio Conde dos Arcos (Figura 16), que assim como o Quartel</p><p>é resultado da adaptação de algumas residências e sucessivas reformas e recebeu na</p><p>fachada principal a inserção de platibanda e detalhes neoclássicos em fins do século XIX,</p><p>não passou pela mesma retomada das características coloniais. Não se sabe ao certo o</p><p>porquê foi resolvido manter no Palácio as ornamentações inseridas posteriormente,</p><p>sendo que ambos sofreram tais alterações no mesmo período e foram tombados como</p><p>objetos isolados pelo Iphan na década de 1950. Alguns questionamentos a respeito de tal</p><p>escolha: A intenção de manter tais ornamentos se deu por justamente o neoclássico</p><p>sugerir um vínculo entre a primeira morada política oficial goiana e a corte? Ou por estar</p><p>localizado em um ponto de destaque no contexto da cidade e ser um dos principais</p><p>espaços públicos, o Palácio faria jus em ser “diferente” das edificações adjacentes? O</p><p>Palácio localiza-se ao lado da Igreja Matriz que também apresenta alguns detalhes</p><p>neoclássicos, e por isso o mesmo não foi considerado estranho frente a realidade do seu</p><p>entorno imediato?</p><p>38 http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/</p><p>39 Especificações técnicas de 1976, assinado pela arquiteta Belmira Finageiv, diretora da 8ª diretoria do</p><p>Sphan. Documento disponível no Acervo digital do Iphan.</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/</p><p>106</p><p>Figura 16: À frente: Palácio Conde dos Arcos. Ao fundo: Igreja Matriz. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>O segundo projeto a ser apresentado é do Colégio Sant’Ana40 que fora fundado pelas</p><p>Irmãs Dominicanas de Nossa Senhora do Rosário em 1889. Sendo a segunda casa da</p><p>missão francesa dominicana no país, depois de Uberaba – MG, o colégio foi resultado de</p><p>um pedido feito pelo Bispo de Rodez na França ao bispo brasileiro Dom Cláudio Ponde de</p><p>Leão, compreendendo-se em um lugar destinado à educação das jovens vilaboenses,</p><p>tornando-se na principal escola feminina de Goiás no final do século XIX.</p><p>Inicialmente, o educandário funcionou na casa do bispo, atual Escritório Técnico do</p><p>Iphan da cidade e, posteriormente, com o aumento do número de alunas e a necessidade</p><p>de um local maior, a unidade foi transferida para três casas localizadas no Largo do</p><p>Chafariz e onde fora construído na década de 1950 o edifício atual e nosso objeto de</p><p>estudo. Originalmente misturando os parâmetros da arquitetura déco com a eclética</p><p>(Figura 17), a edificação passou por algumas reformas no decorrer do tempo, mas é na</p><p>década de 1970 que uma em específico foi executada resultando em um projeto bastante</p><p>intrigante.</p><p>40 O Colégio foi ativo até 2014. Hoje as instalações do edifício são utilizadas pela Universidade Federal de</p><p>Goiás – Campus Goiás.</p><p>107</p><p>Figura 17: Colégio Sant’Ana antes da reforma. Início da década de 1970. Autor desconhecido. Fonte: Acervo digital</p><p>Iphan.</p><p>Mediante acordo entre as administradoras da unidade, as Irmãs Dominicanas e com o</p><p>próprio Iphan, o educandário passou por diversas modificações em suas fachadas mesmo</p><p>estando inserido no pequeno conjunto arquitetônico e urbanístico do largo tombado em</p><p>1951. Em 1976, iniciaram-se as primeiras transformações no colégio com o nivelamento</p><p>de sua fachada e a construção de um muro na fachada principal, conforme pode ser visto</p><p>no parecer técnico do Iphan em parceria com a Superintendência das Obras do Plano de</p><p>Desenvolvimento do Estado de Goiás – Suplan, endereçado a diretora do Colégio na época,</p><p>a Revª. Irmã Maria Luiza Rezende, aqui transcrito apenas as partes que condizem a</p><p>intenção ora exposta:</p><p>Remeto a V. Sa. Revmª. uma cópia heliográfica do estudo que fiz para a</p><p>recuperação da fachada do Colégio Sant’Ana. Junto segue cópia das</p><p>especificações correspondentes à obra em questão. [...]</p><p>Especificações para os trabalhos de conservação em proveito do [...]</p><p>Colégio Sant’Ana [...]:</p><p>Externamente:</p><p>Telhado e cobertura:</p><p>Refazer o telhado com rebaixamento do “ponto” do mesmo e adaptação</p><p>do seu madeiramento para receber telha do tipo canal. [...]</p><p>Fachadas:</p><p>Fachada principal:</p><p>Nivelamento dos paramentos das fachadas principais e laterais,</p><p>permanecendo salientes apenas as pilastras que demarcam os cunhais da</p><p>capela que avança em relação ao conjunto.</p><p>Pinturas:</p><p>Dos paramentos em caiação branca, em tantas demãos quantas</p><p>necessárias.41</p><p>41 Especificações técnicas de 1976 assinadas pela arquiteta Belmira Finageiv, diretora da 8ª diretoria do</p><p>Sphan. Documento disponível no Acervo digital do Iphan.</p><p>108</p><p>Observa-se que no estudo de recuperação feito pelo Iphan/Suplan em paralelo com a</p><p>atual situação do colégio (Figura 18), a intenção foi a de eliminar os ornamentos da</p><p>edificação, para concebê-la como um “casarão colonial”, promovendo de algum modo o</p><p>ofuscamento de outras vertentes arquitetônicas frente ao conjunto de maioria colonial.</p><p>Além disso, a obra de “restauro” fora tida pelo Iphan em âmbito de recuperação, mesmo</p><p>não tendo sido encontrado documento técnico ou iconográfico que demonstre que a</p><p>edificação tenha sido algum dia um exemplar da arquitetura colonial.</p><p>Figura 18: Colégio Sant’Ana atualmente. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Em uma segunda reforma já nos anos 1980, as janelas das fachadas do Colégio que</p><p>antes eram de vidro conhecidas como vitrôs, foram trocadas por modelos de madeira</p><p>idênticas as já encontradas nas fachadas internas da edificação inseridas nos anos 197042.</p><p>Com essas ações, confirma-se o reforço da imagem colonial que vinha se afirmando na</p><p>cidade, eliminando de sua paisagem parte de sua história e memória. Desse modo, o</p><p>período colonial posicionava-se com preponderância dentro das práticas</p><p>preservacionistas na Cidade de Goiás.</p><p>Outro fato de cenarização atrelado ao Colégio e executada anos antes são as fachadas</p><p>falsas à frente da casa das Irmãs Dominicanas (Figura 19). Construídas em 1972, tratam-</p><p>se de muro com esquadrias fixas em madeira muito similares, se não for igual às do</p><p>período colonial, que tivera por intuito esconder a residência referida e é resultado de um</p><p>complexo processo travado entre o Iphan e as Irmãs. A abordagem de tal “muro” torna-se</p><p>interessante por justamente ser um reflexo de como o órgão atuava e/ou atua frente a</p><p>possíveis descaracterizações daquilo que é tombado.</p><p>42 Parecer técnico do Iphan assinado por Maria da Graça Soto Queiroz em 03 de janeiro de 1983.</p><p>109</p><p>Figura 19: Fachadas falsas. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Segundo documentos analisados, em 1963 representantes do</p><p>Iphan na Cidade de</p><p>Goiás comunicam a diretoria do órgão para tomar medidas cabíveis para embargar certa</p><p>demolição em curso sob a responsabilidade das Irmãs Dominicanas e com aval da</p><p>prefeitura da Cidade de Goiás de uma edificação pertencente à Congregação e inserida no</p><p>quadrante do Largo do Chafariz tombado como patrimônio. Na carta enviada por Eunice</p><p>Sócrates do Nascimento, representante do órgão na Cidade de Goiás, ao então diretor do</p><p>Iphan Rodrigo Melo Franco de Andrade, a mesma pontua que seria de grande risco não</p><p>tomar medidas puníveis para a ação, ao modo que poderia descredibilizar a imagem e o</p><p>respeito do próprio Iphan na cidade43.</p><p>Sob os desígnios de Andrade, O Iphan entra com pedido de urgência à Procuradoria da</p><p>República Regional para travar a ação e a mesma responde com cópia do telegrama</p><p>enviado anteriormente pela Promotoria de Justiça de Goiás à Procuradoria, justificando a</p><p>demolição sob o pretexto de que a edificação em questão colocava em risco a vida de</p><p>alunos e professores mediante ao estado precário que se encontrava. Mas, em</p><p>contrapartida, deixam em aberto novas negociações caso não supra as determinações do</p><p>órgão 44.</p><p>Em resposta, a diretoria do Iphan alega que a demolição havia sido concluída e um</p><p>muro fora construído e, assim, haveria a necessidade de avaliar pericialmente o valor do</p><p>dano causado. Ponderaram que em 1958 as irmãs haviam solicitado à Presidência o</p><p>cancelamento do tombamento da edificação que fora automaticamente indeferido pelo</p><p>então presidente Juscelino Kubitschek. Além do mais, relataram que o Educandário tinha</p><p>conhecimento que em casos de não conseguirem manter a conservação do bem tombado,</p><p>43 Disponível em:</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/3167?discover?rpp=10&etal=0&query=cole</p><p>gio+santana. Acesso em: 24 de maio de 2019.</p><p>44 Disponível em:</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/3167?discover?rpp=10&etal=0&query=cole</p><p>gio+santana. Acesso em: 24 de maio de 2019.</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/3167?discover?rpp=10&etal=0&query=colegio+santana</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/3167?discover?rpp=10&etal=0&query=colegio+santana</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/3167?discover?rpp=10&etal=0&query=colegio+santana</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/3167?discover?rpp=10&etal=0&query=colegio+santana</p><p>110</p><p>o mesmo deveria requerer ao órgão medidas plausíveis para tal e se não o fizessem</p><p>estariam sujeitas a arcar com multa correspondente ao dobro do valor referente ao dano</p><p>sofrido45.</p><p>Em outros documentos, a diretoria afirma que a Procuradoria estaria avaliando o</p><p>dano46, mas não foi encontrado documento que comprove ou não a multa estabelecida às</p><p>Irmãs pela demolição. Em 1964, o Iphan solicita a reconstrução da casa demolida47 e em</p><p>1965, Eunice S. do Nascimento comunica a diretoria do órgão que as Irmãs entraram com</p><p>novo pedido48 de demolição de mais três casas que ficavam entre o Educandário e a casa</p><p>demolida anteriormente, sob os mesmos motivos de estarem em ruínas, constituindo</p><p>perigo. Propunham construir um muro como fizeram anteriormente até conseguirem</p><p>fazer uma nova edificação que seguiria o estilo colonial das casas do entorno. A</p><p>representante do Iphan confirma o estado precário das edificações e apresenta que</p><p>estariam prestes a cair.</p><p>O Iphan nega o pedido, mas diferente do ocorrido anteriormente, envia técnicos para</p><p>avaliarem as edificações e então executam projeto de restauro nas mesmas tendo sido</p><p>finalizado em 1966. Segundo a pesquisa, não foram encontrados registros que</p><p>comprovam quando algumas dessas edificações restauradas tenham sido demolidas e</p><p>nem quando a atual residência das Irmãs foi construída. Atualmente, apenas uma</p><p>edificação original entre o Colégio e a residência sobrevive no local. O que se pode</p><p>constatar é que tais atuações ocorreram entre o ano de 1966 e 1972, pois é neste último</p><p>que consta um único documento a respeito do muro fake.</p><p>O documento analisado é composto por uma folha que deveria ser parte de um ofício</p><p>maior enviado pelo responsável técnico pelo projeto, pois não apresenta início e nem fim,</p><p>e muito menos remetente e destinatário, apenas o relato em primeira pessoa de como</p><p>estava sendo feito. Nele consta as seguintes informações sobre o projeto:</p><p>45 Disponível em:</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/3167?discover?rpp=10&etal=0&query=cole</p><p>gio+santana . Acesso em: 24 de maio de 2019.</p><p>46 Disponível em:</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/3167?discover?rpp=10&etal=0&query=cole</p><p>gio+santana . Acesso em: 24 de maio de 2019.</p><p>47 Disponível em:</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/3167?discover?rpp=10&etal=0&query=cole</p><p>gio+santana . Acesso em: 24 de maio de 2019.</p><p>48 Disponível em:</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/3167?discover?rpp=10&etal=0&query=cole</p><p>gio+santana . Acesso em: 24 de maio de 2019.</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/3167?discover?rpp=10&etal=0&query=colegio+santana</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/3167?discover?rpp=10&etal=0&query=colegio+santana</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/3167?discover?rpp=10&etal=0&query=colegio+santana</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/3167?discover?rpp=10&etal=0&query=colegio+santana</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/3167?discover?rpp=10&etal=0&query=colegio+santana</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/3167?discover?rpp=10&etal=0&query=colegio+santana</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/3167?discover?rpp=10&etal=0&query=colegio+santana</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/3167?discover?rpp=10&etal=0&query=colegio+santana</p><p>111</p><p>MURO DO CONVENTO DE SANT’ANNA: é a obra em execução no</p><p>momento (setembro/1972). Desenhei as fôlhas para o portão e as</p><p>esquadrias para as janelas. O portão: de calha, de dimensões de 3,00 x</p><p>3,00, altura esta para permitir passagem de ônibus escolar.</p><p>Posteriormente três amarrações encaixadas; dobradiças de leme e</p><p>fechadura tipo caixa. As janelas terão pela face interna treliça comum e</p><p>externamente 4 balaustres de secção quadrada dispostos em diagonal.</p><p>Por cima da vêrga do portão repete-se o tema externo das janelas, ou seja,</p><p>os mesmos balaustres entre vêrga e frechal do beiral. A treliça será</p><p>pintada em vermelho sangue-de-boi e os balaustres, quadros e portão de</p><p>calha na côr da madeira escurecida. Paredes pintadas de branco.</p><p>Para o coroamento do muro, um duplo beiral, em que o mesmo</p><p>cachorro servisse para ambos os lados. Cobertura de telha-canal. Detalhei</p><p>a solução.</p><p>O muro lateral que faz esquina com o da fachada para a Praça</p><p>apresenta-se sem amarração alguma (altura de 3,70 m): informou-me o</p><p>Sr. Pinheirinho que fará correr uma viga de concreto pelo alto e descer</p><p>forros em três pontos para penetrarem no chão. Estranhei que tal</p><p>amarração se fizesse depois de totalmente levantado o muro, que posa no</p><p>chão.</p><p>Nesta oportunidade conhecí as Rvdas. Irmãs Dominicanas, que mui</p><p>gentilmente me receberam. 49</p><p>Não há indícios dos motivos que levaram a elaboração do mesmo e muito menos sob</p><p>a determinação de quem. O que se pode constatar frente a este caso é o quanto era difícil</p><p>na época a população da cidade em compreender os valores tidos pelo Iphan a respeito</p><p>da preservação dos bens inseridos nas áreas patrimonializadas. Nota-se que a falta de</p><p>uma educação patrimonial do órgão para a sociedade contribuiu em embates que</p><p>poderiam ter sido solucionados desde que houvesse um diálogo mais próximo entre as</p><p>partes.</p><p>Outro ponto a ser levantado é que mediante aos modos de se levar tais casos, reviver</p><p>o passado no presente era uma constante para o Iphan, pelo menos na Cidade de Goiás. A</p><p>imagem que a arquitetura colonial evoca é tão importante</p><p>ser mantida viva, que</p><p>falseamentos tornam em uma palpável realidade para manter a harmonia do conjunto.</p><p>Isso não é um caso isolado, pelo contrário, ações similares são perpetuadas em outros</p><p>momentos na cidade e inúmeros outros objetos arquitetônicos e urbanísticos vão sendo</p><p>manipulados ao modo que abafe determinadas incongruências que o tecido urbano</p><p>vilaboense apresenta.</p><p>49 Disponível em:</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/22766?discover?rpp=10&etal=0&query=col</p><p>egio+santana. Acesso em: 24 de maio de 2019.</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/22766?discover?rpp=10&etal=0&query=colegio+santana</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/22766?discover?rpp=10&etal=0&query=colegio+santana</p><p>112</p><p>É neste mesmo sentido, de ir contra aquilo que é diferente e não o reconhecer como</p><p>parte do patrimônio, que o caso da agência do Banco do Brasil torna-se pertinente.</p><p>Localizado na Avenida Sebastião Fleury Curado, às margens do Rio Vermelho, a agência</p><p>apresentava originalmente características típicas da arquitetura moderna (Figura 20),</p><p>sendo um dos pouquíssimos exemplares presentes na cidade.</p><p>No ano de 1990, a instituição entrou com um pedido ao Iphan de modificação das</p><p>fachadas de sua agência inserida na área tombada. Com projeto original de autoria</p><p>desconhecida, o edifício foi remodelado externamente tendo suas características</p><p>modernas transformadas em coloniais. Diferente dos casos do Colégio Sant’Ana e do</p><p>Quartel do XX, encontra-se o parecer técnico50 do Iphan para a execução da obra.</p><p>No documento, o exemplar considerado “alienígena” para a realidade local teria suas</p><p>fachadas modificadas, onde se visava o “resgate” das esquadrias e acabamentos externos,</p><p>a inserção de telhado e beirais, a reorganização das aberturas sob a justificativa de entrar</p><p>em sintonia com o conjunto arquitetônico da cidade. Deste modo, seria “resgatado” os</p><p>valores da arquitetura colonial, além de melhorar o conforto térmico da edificação.</p><p>Figura 20: À esquerda: Agência Banco do Brasil da Cidade de Goiás antes da reforma. Fonte: Acervo digital Iphan. À</p><p>direita: Agência após a reforma. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>A reforma feita transformou a agência em um novo edifício, até então inexistente na</p><p>paisagem vilaboense. As portas do pavimento inferior que antes eram no modelo “cortina</p><p>de vidro”, agora encontram-se em madeira seccionadas nas mesmas distâncias umas das</p><p>outras. As do superior, seguem o mesmo ritmo e materialidade, mas em modelos ripados.</p><p>50 Parecer técnico de 1990, assinado pela arquiteta do Iphan de Goiás, Maria Cristina Portugal. Disponível em:</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/27940?discover?rpp=10&etal=0&query=banco+do+b</p><p>rasil. Acesso em: 17 de junho de 2018.</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/27940?discover?rpp=10&etal=0&query=banco+do+brasil</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/27940?discover?rpp=10&etal=0&query=banco+do+brasil</p><p>113</p><p>O telhad, que antes era em laje, agora é coroado por telhas capa-de-bica, além de</p><p>apresentar beiral. As janelas das fachadas frente às ruas foram vedadas com brises de</p><p>madeira e o avanço que a fachada possuía agora tornou-se em uma marquise que faz os</p><p>efeitos de varanda. É importante salientar que as novas portas e janelas apenas vedam as</p><p>grandes folhas de vidro, nas fachadas posteriores mantiveram-se as esquadrias originais</p><p>e o interior ainda se encontra com características originais da edificação. O foco da</p><p>intervenção foi trabalhar as fachadas que complementam o skyline da cidade diretamente,</p><p>não demandando de uma ação mais incisiva naquelas que poderiam ficar mais escondidas</p><p>(Figura 21).</p><p>Figura 21: Fachada posterior da agência. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>O interessante deste caso é a abordagem construída pelo parecer de justificar a</p><p>reforma para “resgatar” características coloniais, mesmo que a edificação nunca tenha</p><p>sido um exemplar da arquitetura colonial e como o Iphan não foi contra as mudanças</p><p>propostas, considerando que a mesma pertence ao conjunto tombado. Aqui é possível</p><p>entrar em diálogo com atuação do órgão na época, que mesmo após as mudanças</p><p>conceituais que o permeavam desde o fim da década de 1970 em que abria-se espaço para</p><p>outras vertentes arquitetônicas nos olhares preservacionistas em 1990 na Cidade de</p><p>Goiás, aquilo que era muito diferente do colonial ainda encontrava dificuldade em ter suas</p><p>características originais preservadas.</p><p>114</p><p>A agência por estar no coração do centro histórico da Cidade de Goiás foi facilmente</p><p>modificada e assim como os projetos anteriores, suas transformações passam</p><p>despercebidas ao olho do passante. Outro ponto a ser notado é que não muito longe do</p><p>local que se encontra a agência, há o Centro de Ensino em Período Integral Professor</p><p>Alcides Jubé (Figura 22) que apresenta também, em sua arquitetura, traços muito</p><p>próximos aos cânones modernos. O colégio ainda perdura originalmente na paisagem da</p><p>cidade, mesmo estando localizado dentro do perímetro tombado, só que nas adjacências</p><p>do centro mais antigo e é camuflada com um maciço muro, sendo de pouco conhecimento</p><p>dos visitantes da cidade.</p><p>Figura 22: Colégio Estadual Alcides Jubé. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Desse modo, ficam algumas dúvidas: Se o colégio fosse locado no interior do centro</p><p>histórico ele também seria modificado em um exemplar “colonial”? Se a agência estivesse</p><p>nas adjacências como o colégio, ela teria sido preservada originalmente? Indo mais além</p><p>e considerando que os exemplares modernistas tombados até então no Brasil</p><p>encontravam-se dentro de um seleto grupo de monumentos assinados por grandes</p><p>arquitetos, será que se a agência tivesse seu projeto atrelado a um arquiteto de peso, o</p><p>mesmo teria sido preservado como ocorreu em Ouro Preto com o Grande Hotel de Oscar</p><p>Niemeyer?</p><p>O que se sabe é que a apreciação dos valores estéticos coloniais nos períodos aqui</p><p>apresentados resultou na construção de arquiteturas que “simulam” uma realidade que</p><p>pode ou não ter existido algum dia, para justamente fazer desses edifícios partes de um</p><p>115</p><p>todo mais ideal. Tais obras dentro do contexto apresentado de imagem, patrimonialização</p><p>e cenarização, são considerados simulacros, conforme abordado por Baudrillard (1991).</p><p>Para o autor, o simulacro acontece quando somos colocados frente a impossibilidade de</p><p>distinguir o que é ou não inventado, fingido ou copiado da própria realidade. A imitação</p><p>executada resulta na substituição do que de fato é real, tornando-se como tal e</p><p>alimentando a afirmação da imagem ideal da cidade.</p><p>Os projetos executados e apresentados aqui colocam em pauta os discursos sobre</p><p>autenticidade que rondam o patrimônio mundial desde o final do século XIX,</p><p>especialmente no que diz respeito aos posicionamentos frente aos projetos de</p><p>restauração, se estes devem ou não intervir na originalidade e, se assim for, até onde</p><p>podem ir. O Iphan atuava pelo menos no início de suas atividades em sintonia ao</p><p>posicionamento de Viollet-le-Duc, priorizando o passado formal da arquitetura colonial.</p><p>Escolhiam o que deveria ser mantido, o que deveria ser eliminado e o que deveria ser</p><p>trago novamente, considerando a autenticidade do que era “original” que para o órgão</p><p>estava ligada às características coloniais.</p><p>Na Cidade de Goiás, o que começou a acontecer foi apenas um reflexo do que vinha</p><p>acontecendo em outras cidades brasileiras em que o apelo estético era e ainda é</p><p>considerado de muito valor dentro das narrativas preservacionistas nacionais. Além do</p><p>mais, estas intervenções, assim como as que analisaremos no decorrer desta pesquisa,</p><p>contradizem o apontamento do Dossiê em que a integridade do conjunto se mantém</p><p>mesmo com as modificações temporais, mas o que na verdade se deu não só pela</p><p>preservação além do tempo e sim por meio</p><p>de cenários construídos.</p><p>2.3 | Normativas preservacionistas locais e outros casos exemplares</p><p>No decorrer do processo de preservação e manutenção do conjunto arquitetônico e</p><p>urbanístico tombado da Cidade de Goiás, algumas normativas foram implementadas a fim</p><p>de contribuir com as ações dos agentes institucionais frente as demandas apresentadas</p><p>pelos próprios vilaboenses no que diz respeito à manutenção de seus bens. Desde os anos</p><p>1980, o Iphan juntamente com a Prefeitura Municipal busca regularizar sob parâmetros</p><p>jurídicos e administrativos, mecanismos para articular os desdobramentos das gestões</p><p>116</p><p>frente as reformas e demais alterações do casario pertencente ao conjunto chancelada.</p><p>Deste modo, torna-se pertinente para essa pesquisa traçar uma análise cronológica de tais</p><p>documentos, focando no que tange a área chancelada em si e posteriormente refletir sobre</p><p>alguns de seus resultados, averiguando como tais normativas, práticas e resultados estão</p><p>interligadas com o processo de valorização da imagem patrimonial da cidade.</p><p>Os primeiros indícios de uma política urbana local que demonstram interesses sobre</p><p>o patrimônio em questão são datados em 1983 a partir da aliança firmada entre o antigo</p><p>Instituto de Desenvolvimento Urbano e Regional do Estado de Goiás - INDUR, extinto em</p><p>1990, e a Prefeitura Municipal da Cidade de Goiás. Como fruto do convênio, criou-se o</p><p>Plano de Ação Urbana que auxiliou na elaboração das leis de Parcelamento e Zoneamento</p><p>do Solo Urbano e o Código de Edificações51 que permanece em vigor.</p><p>Em relação a preservação dos bens em si, as leis não traçam diretrizes pertinentes</p><p>indicando apenas o Decreto-Lei nº25/1937 como referência para tal alçada, mesmo que</p><p>esta seja algo amplo e não direcionado especificamente à Cidade de Goiás. A Lei de</p><p>Zoneamento, ao indicar os usos não se atentou a considerar o turismo como uma vertente</p><p>passível de ser utilizada como meio de explorar o centro histórico como já havia sendo</p><p>discutido em outras cidades históricas brasileiras, pelo contrário, a normativa apenas</p><p>define a existência de três Zonas de Preservação.</p><p>A primeira, nomeada Histórica, corresponde ao conjunto tombado em 1978 e que são</p><p>permitidos os usos habitacionais, comércios de pequeno porte, serviços técnicos</p><p>profissionais e especializados, indústria artesanal e doméstica e equipamentos</p><p>institucionais, com taxa máxima de ocupação em 40%. A segunda, definida como</p><p>“Paisagística”, condiz aos morros à Leste e à Norte da cidade (Figura 23), onde proíbem</p><p>seu desmatamento e a inserção de qualquer edificação. E por último, a Zona Especial</p><p>Histórica que acomoda a região do Bacalhau, ex-distrito de Davidópolis e que se encontra</p><p>a Capela Nossa Senhora da Guia e algumas edificações em seu entorno, ambos datados do</p><p>século XVIII.</p><p>51 Lei nº08 de 14 de setembro de 1983 que “Dispõe sobre o Parcelamento do solo urbano do Município de</p><p>Goiás e dá outras providências”. Lei nº06 de 14 de setembro de 1983 que “Dispõe sobre o Zoneamento de</p><p>uso do solo urbano do Município de Goiás e dá outras providências”. Lei nº07 de 14 de setembro de 1983</p><p>que estabelece o “Código de Edificações do Município de Goiás e dá outras providências”.</p><p>117</p><p>Figura 23: Serras e morros à leste e norte da Cidade de Goiás. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>O Código de Edificações começa a normatizar algumas definições em relação as</p><p>intervenções na área protegida pelo tombamento. Recomenda-se a manutenção do</p><p>sistema estrutural e dos elementos característicos das edificações existentes, definindo a</p><p>Prefeitura e o Iphan como seus agentes apreciadores. Já sobre as novas edificações, a</p><p>normativa estabelece que deveriam ter ocupação de 40%, serem térreas, alinhadas</p><p>frontalmente como o encontrado no restante da área e com seus recuos laterais fechados.</p><p>Mas como os documentos anteriores, não define metodologias e critérios mais específicos</p><p>para auxiliar a gestão de proteção patrimonial da cidade.</p><p>No mesmo ano da criação destas leis, o órgão edita uma cartilha nomeada “Carta à</p><p>Cidade de Goiás” redigida por Belmira Finageiv apresentando à população vilaboense</p><p>alguns esclarecimentos e orientações quanto a preservação dos bens pertencentes a zona</p><p>protegida. A Carta foi tida como um mecanismo de educar a sociedade sobre o patrimônio,</p><p>a convidando para participar ativamente na preservação do patrimônio da cidade,</p><p>incluindo a inserção do tema dentro das escolas com o intuito de transmitir os valores</p><p>atribuídos aos bens para os jovens.</p><p>Nota-se que neste momento, a normatização do patrimônio no que se relaciona à sua</p><p>preservação não era clara e muito menos restritiva, deixando diversas lacunas para</p><p>possíveis modificações feitas pela própria população em suas edificações e que poderiam</p><p>ir contra aos modos de atuação do Iphan. Em vista disso, apenas dez anos depois o Iphan</p><p>118</p><p>institucionaliza a Portaria Regional nº 01 de 22 de abril de 199352 que estabelece critérios</p><p>mais definidos para as análises das intervenções na área tombada e pela primeira vez</p><p>define o que seria a área de entorno ao conjunto chancelado que passaria, também, a estar</p><p>sob as normas preservacionistas.</p><p>Este documento torna-se importante na trajetória preservacionista local sendo o</p><p>principal indicador de controle do patrimônio em questão, utilizado atualmente. Por</p><p>conta da Portaria, as partes da cidade contempladas pela mesma passaram a se estruturar</p><p>de formas outras a um desenvolvimento que seria considerado natural, isto é, agora</p><p>começa-se a traçar restrições mais precisas quanto a liberdade de intervir em locais</p><p>tombados.</p><p>O controle por parte do Iphan fortaleceu-se ainda mais e grande parte das</p><p>modificações estruturais, tanto morfológica quanto arquitetonicamente, passariam a</p><p>estar sob sua responsabilidade e sob seus critérios. É por isso que analisar a Portaria</p><p>torna-se oportuno para esta pesquisa, principalmente ao considerar que os projetos a</p><p>serem apresentados a partir daqui tiveram o documento como principal referência, do</p><p>mesmo modo que nos possibilita a uma problematização possivelmente mais</p><p>interessante.</p><p>Primeiramente, a normativa define o que seria o patrimônio imóvel a estar sob</p><p>proteção federal como “o meio ambiente urbano, natural e construído, representativo da</p><p>soma dos períodos históricos da Cidade de Goiás, desde sua fundação como Arraial de</p><p>Sant’Anna, até a mudança da capital do estado de Goiás para Goiânia” (IBPC, 1993, p.1),</p><p>ou seja, o conjunto tombado em 1978. Nota-se que a norma insere o traçado urbano</p><p>surgido até meados da década de 1930, mas conforme visto anteriormente, o tombo da</p><p>década de 1970 abrangeu apenas parte do tecido urbano vilaboense, não incluindo área</p><p>surgidas antes da transferência do foro estadual.</p><p>A área de entorno é definida como aquelas que apresentam “características</p><p>complementares a área tombada, por sua proximidade, ou compatibilidade, ou como</p><p>componente da leitura espacial e ambiental, ou ainda, como referência do contexto</p><p>cultural”(IBPC, 1993, p.1), áreas estas que anos depois seriam também tombadas por</p><p>demonstrarem a evolução da cidade e de suas formas de apropriação. Pela primeira vez</p><p>52 Portaria Regional nº 001 de 22 de abril de 1993 que “Para efeito da proteção do Conjunto Arquitetônico</p><p>e Paisagístico de Goiás, tombado nos termos da decisão do Conselho Consultivo do Iphan, em 18 de</p><p>novembro de 1978, ficam aprovadas as definições, critérios e procedimentos constantes da presente</p><p>Instrução Regional” (IBPC, 1993, p.1).</p><p>119</p><p>na cidade percebe-se uma preocupação latente na preservação do conjunto tombado por</p><p>meio do controle das possíveis novas construções que poderiam surgir nos espaços</p><p>adjacentes ao conjunto.</p><p>Diferente dos outros documentos até então produzidos, a Portaria tornou-se pioneira</p><p>em apresentar direcionamentos sobre a preservação do conjunto até então tombado e de</p><p>seu entorno. Tal fato seria garantido</p><p>por meio da “proteção, conservação, manutenção e</p><p>revitalização das características culturais da cidade” (IBPC, 1993, p.1) que estariam</p><p>amparadas nos elementos constitutivos próprios do século XVIII e XIX como: a</p><p>implantação do terreno que incluía o calçamento e seus métodos de assentamento; o</p><p>arruamento; o correr de edifícios alinhados à rua; as próprias técnicas tradicionais de</p><p>construção aplicadas na cidade; a volumetria, as fachadas, os telhados e os quintais das</p><p>edificações; as margens do Rio Vermelho (Figura 24), que deveriam ter as alterações não</p><p>autorizadas eliminadas e as praças e demais espaços públicos que só poderiam ser</p><p>modificados caso fosse por intuito recompor as características originais a seu período de</p><p>construção.</p><p>Figura 24: À esquerda: casas alinhadas à calçada. À direita: Rio Vermelho. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Os planos das fachadas não poderiam projetar-se além dos limites das edificações em</p><p>que qualquer elemento a ser inserido, como balanços, beirais, toldos, marquises e afins</p><p>deveriam passar por aprovação frente ao Iphan. Ficava estritamente proibida a utilização</p><p>de letreiros luminosos e suas dimensões deveriam ser compatíveis com a volumetria</p><p>tanto da propriedade quando da vizinhança. Além disso, a demolição de qualquer</p><p>120</p><p>exemplar só estaria sujeita à aprovação caso fosse apresentado pelo proprietário e</p><p>aprovado pelo órgão projeto de edificação substitutiva.</p><p>No que interessa as novas edificações, independente se construídas na área tombada</p><p>ou no entorno, a normativa estabelece que as mesmas deveriam ser similares as</p><p>preexistências, utilizando de materiais, volumetria e cores aplicadas em suas fachadas</p><p>semelhantes as tombadas, de modo a não interferir visualmente os monumentos ou o</p><p>conjunto reconhecido. Indica-se o alinhamento das fachadas como o encontrado na</p><p>vizinhança, o uso de telhas canal ou capa-de-bica, sendo vedado a utilização de qualquer</p><p>outro tipo. As esquadrias, beirais e cunhais nas edificações já existentes deveriam ser</p><p>mantidas e caso fosse necessária a troca, a mesma poderia ser em outro material desde</p><p>que siga criteriosamente os desenhos e dimensões originais, mas em contraponto, não há</p><p>indicação de como deveriam ser tais elementos arquitetônicos nas novas edificações</p><p>(Figura 25).</p><p>Figura 25: Elementos tradicionais do casario setecentista. Editado pelo autor. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Mesmo definindo que as novas construções deveriam ser esteticamente muito</p><p>próximas da arquitetura tombada, a Portaria estabelece que tais projetos deveriam</p><p>resultar de forma clara em exemplares arquitetônicos contemporâneos. Tal aspecto</p><p>torna-se interessante, pois seria um posicionamento do órgão que possivelmente iria</p><p>contra ao caso da agência bancária analisada anteriormente que fora construída sob os</p><p>parâmetros contemporâneos a arquitetura colonial, mas que após a obra, tornou-se em</p><p>121</p><p>um exemplar muito semelhante a seu entorno imediato, senão igual, sem deixar em</p><p>evidência que se tratava de uma edificação recente. Mas, em contrapartida, tal projeto</p><p>executado também estaria enquadrado dentro das seguintes hipóteses intervencionistas</p><p>apresentadas pela Portaria:</p><p>I – Manutenção, que consiste em pequenos reparos, pinturas e</p><p>retalhamentos, para os quais não é necessária a apresentação de projeto</p><p>técnico. O proprietário ou responsável técnico pela obra deverá</p><p>apresentar um termo de compromisso, declarando quais intervenções</p><p>serão executadas.</p><p>II – Restauração, que consiste em intervenção que visa recuperar</p><p>características arruinadas ou mascaradas por elementos apostos na</p><p>edificação original.</p><p>III – Conservação, que consiste em intervenção que visa recuperar</p><p>condições de estabilidade, uso ou habitabilidade de uma edificação.</p><p>IV – Reforma, que consiste em quaisquer intervenções que alteram,</p><p>no todo ou em parte, os aspectos construídos de um imóvel,</p><p>independentemente dos critérios e da abrangência das intervenções.</p><p>(IBPC, 1993, p.3).</p><p>Nota-se que as modificações ocorridas no Quartel do XX, no Colégio Sant’Ana e na</p><p>agência bancária foram respaldadas pela normativa como projetos de restauração para o</p><p>primeiro caso e de reforma para os dois seguintes. “Independentemente dos critérios”</p><p>utilizados para tais modificações, mesmo tendo sido passíveis de falseamentos, as</p><p>escolhas não foram tidas como polêmicas. A partir daqui, transformar a originalidade de</p><p>uma edificação estaria normatizado e seria um ponto possível dentro do próprio Iphan.</p><p>Frente a isso e mediante aos exemplos apresentados, seria possível transformar uma</p><p>arquitetura preexistente em um exemplar diferente da linguagem colonial?</p><p>Para finalizar, a Portaria determina que todos os projetos para serem aprovados</p><p>deveriam ser apresentados à Prefeitura Municipal que encaminharia ao Iphan para emitir</p><p>parecer autorizando-o ou não. Não há diretrizes que estabelecem como tais projetos</p><p>deveriam ser apresentados, o nível de detalhamento a ser desenvolvido e, muito menos,</p><p>se o projeto deveria ou não estar sob responsabilidade de profissional competente à área</p><p>da construção como arquiteto, urbanista ou engenheiro. Enquanto a normativa determina</p><p>a materialidade a ser utilizada nas novas edificações, a arquitetura existente,</p><p>independente se tombada ou não, recebe atenção no que envolve a sua conservação, mas</p><p>não apresenta critérios para as intervenções que seriam possíveis em tais unidades.</p><p>122</p><p>Do mesmo modo, o Plano Diretor da Cidade de Goiás (1996)53 não especifica medidas</p><p>para a preservação dos bens. Define-se o interesse por parte da gestão pública pelas</p><p>edificações e conjuntos urbanos datados do século XVIII e XIX, o que naquele momento</p><p>ampliava os olhares sob áreas até então não tombadas. Incluíram as áreas que</p><p>correspondiam as chácaras urbanas e as encostas dos morros que circundam o conjunto</p><p>protegido, de modo que protegesse sua ambiência e visibilidade. Tais locais seriam</p><p>inclusos no processo de tombo alguns anos depois com a inclusão da cidade na lista do</p><p>patrimônio mundial.</p><p>Assim como a Portaria, o Plano especifica as áreas e características a serem</p><p>preservadas como “topografia e sua relação entre relevo e implantação do traçado urbano</p><p>com o conjunto de edificações”, os afluentes e suas margens em toda a extensão urbana, a</p><p>volumetria das edificações, incluindo a materialidade dos telhados, das fachadas, paredes,</p><p>pisos, técnicas construtivas, o traçado urbano em si e seus “logradouros como ruas,</p><p>travessas, becos, praças, pontes, jardins e demais espaços públicos livres” (GOIÁS, 1996,</p><p>p.9-10). Em relação as novas edificações, tais não poderiam intervir na visibilidade da</p><p>área protegida e todas as intervenções nos espaços públicos com a inserção de mobiliários</p><p>e vegetações, deveriam manter-se em harmonia com a realidade do entorno preexistente.</p><p>Outro ponto importante é que o Iphan é definido como o responsável pela aprovação</p><p>dos projetos que possivelmente poderiam descaracterizar a originalidade do conjunto,</p><p>tais como pinturas das fachadas e os projetos de publicidade visual. O órgão é oficialmente</p><p>responsabilizado dentro da conjuntura administrativa pública local frente os processos</p><p>de manutenção, preservação e conservação do conjunto tombado.</p><p>O Plano de 1996 continua em vigor na cidade, mesmo assim como a Portaria,</p><p>contemplando apenas parte do conjunto reconhecido atualmente, o que o torna</p><p>ultrapassado. A normativa não se atenta para as novas abordagens que cercam o</p><p>patrimônio como a dinamicidade das cidades, as novas demandas e critérios da</p><p>preservação que estão sempre em atualização pela própria Unesco, assim como os novos</p><p>valores que vêm sendo atribuídos aos bens da Cidade de Goiás, como seu interesse na</p><p>preservação do patrimônio imaterial. Há em curso a definição de um novo Plano para a</p><p>cidade, fato que inclusive fora solicitado pela própria Unesco após o reconhecimento da</p><p>53</p><p>163</p><p>Figura 44: Museu das Bandeiras. Fachada frontal e anexo. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>............................................................................................................................................................. 164</p><p>Figura 45: Coreto. SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ........................................................................... 166</p><p>Figura 46: Coreto. Palmeiras ao fundo, canteiros sem mureta e iluminação bucólica. SOUZA,</p><p>2018. Acervo pessoal. ........................................................................................................................ 167</p><p>Figura 47: Antigo espelho d'água do Coreto. Ano e autor indefinido. Fonte: Acervo digital Iphan.</p><p>............................................................................................................................................................. 169</p><p>Figura 48: Áreas contempladas pelo Projeto Beira-rio. Programa Monumenta. Fotos: SOUZA,</p><p>2018. Acervo pessoal. ........................................................................................................................ 173</p><p>Figura 49: Banco destruído. Fonte: Acervo digital Iphan. 2010 .................................................... 174</p><p>Figura 50: Enchente do Rio Vermelho em 2011. Fonte: Acervo digital Iphan. 2011. .................. 175</p><p>Figura 51: Cais destruído pela enchente de 2011. Fonte: Acervo digital Iphan. 2011. ................ 175</p><p>Figura 52: Janelas locadas acima do campo de visão da proprietária. Foto: Izabela Tamaso, 2002.</p><p>Fonte: TAMASO, 2007. ...................................................................................................................... 178</p><p>Figura 53: Ponte Bocaiúva. Foto: SOUZA, 2019. Acervo pessoal. .................................................. 192</p><p>Figura 54: Escola de Artes Veiga Valle. Foto: SOUZA, 2019. Acervo pessoal. ............................... 192</p><p>Figura 55: Anexo Escola de Artes Veiga Valle. Foto: SOUZA, 2019. Acervo pessoal. .................... 193</p><p>Figura 56: Pavilhão eclético Mercado Municipal. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ............... 194</p><p>Figura 57: Pavilhões construídos na década de 1970. Fonte: OLIVEIRA et al, 2019. ................... 195</p><p>Figura 58: Pavilhões mantidos. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal............................................. 196</p><p>Figura 59: Mercado Municipal reformado pelo PAC-Cidades Históricas. Fotos: SOUZA, 2018.</p><p>Acervo pessoal. .................................................................................................................................. 197</p><p>Figura 60: À esquerda: bloco eclético. À direita: blocos construídos pelo PAC-Cidades Históricas.</p><p>Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ............................................................................................... 197</p><p>Figura 61: Casario ao fundo da Cruz do Anhanguera, onde se encontra o Cineteatro São Joaquim.</p><p>Fonte: Acervo digital Iphan. .............................................................................................................. 198</p><p>Figura 62: Teatro São Joaquim com traços art déco. Ano e autor desconhecido. Fonte: Acervo</p><p>perfil "Cidade de Goiás", facebook. ................................................................................................... 199</p><p>Figura 63: Obra do PAC-Cidades Históricas para o Cine teatro São Joaquim. Fotos: Manuel Sá.</p><p>Fonte: Archdaily, 2017. ..................................................................................................................... 200</p><p>Figura 64: Cine teatro demolido. Fonte: Acervo digital Iphan. ...................................................... 201</p><p>Figura 65: Obra do PAC-Cidades Históricas para o Arquivo Diocesano. Fotos: Manuel Sá. Fonte:</p><p>Archdaily, 2016. ................................................................................................................................. 203</p><p>Figura 66: Obra do PAC-Cidades Históricas para a Prefeitura Municipal. Fotos: Manuel Sá. Fonte:</p><p>Archdaily, 2018. ................................................................................................................................. 204</p><p>Figura 67: Museu da Inconfidência, Ouro Preto. Foto: SOUZA, 2017. Acervo pessoal. ................ 212</p><p>Figura 68: Procissão do Fogaréu. Foto: SOUZA, 2019. Acervo pessoal. ........................................ 216</p><p>Figura 69: Encenações sacras no Largo do Coreto em dia de Procissão do Fogaréu. Fotos: SOUZA,</p><p>2019. Acervo pessoal. ........................................................................................................................ 219</p><p>Figura 70: no Largo da Cruz do Anhanguera, pessoas aguardam a Procissão do Fogaréu em meio</p><p>a música, dança e bebidas. Foto: SOUZA, 2019. Acervo pessoal. ................................................... 219</p><p>Figura 71: Museu da Boa Morte. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. .......................................... 221</p><p>Figura 72: Placas encontradas nas fachadas do casario vilaboense apresentando antigos</p><p>moradores. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ........................................................................... 222</p><p>Figura 73: Casa de Cora Coralina, atual museu. Foto: SOUZA, 2018, Acervo pessoal. ................. 223</p><p>Figura 74: doces da Cidade de Goiás – alfenim, “pastelim” e flor de coco. Foto: SOUZA, 2019.</p><p>Acervo pessoal. .................................................................................................................................. 224</p><p>Figura 75: comércio típico. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. .................................................. 226</p><p>Figura 76: Antigo Matadouro da Cidade de Goiás. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ............. 229</p><p>Figura 77: Praça de eventos. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. ................................................ 229</p><p>LISTA DE MAPAS |</p><p>Mapa 1: Cidade de Goiás, 2018. Sem escala. Base cartográfica disponibilizada pelo Escritório</p><p>Técnico do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019. .................................................... 43</p><p>Mapa 2: Tombamentos na Cidade de Goiás em 1950 e 1951. Sem escala. Base cartográfica</p><p>disponibilizada pelo Escritório Técnico do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019. 63</p><p>Mapa 3: Tombamento na Cidade de Goiás de 1978. Sem escala. Base cartográfica disponibilizada</p><p>pelo Escritório Técnico do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019. .......................... 69</p><p>Mapa 4: Área tombada em 1978 e área de entorno definida em 1993. Sem escala. Base</p><p>cartográfica disponibilizada pelo Escritório Técnico do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo</p><p>autor. 2019. .......................................................................................................................................... 73</p><p>Mapa 5: Área reconhecida pela Unesco em 2001. Sem escala. Base cartográfica disponibilizada</p><p>pelo Escritório Técnico do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019. .......................... 77</p><p>Mapa 6: Área tombada rerratificada em 2004. Sem escala. Base cartográfica disponibilizada pelo</p><p>Escritório Técnico do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019. .................................. 79</p><p>Mapa 7: Área de entorno rerratificada em 2004. Sem escala. Base cartográfica disponibilizada</p><p>pelo Escritório Técnico do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019. .......................... 81</p><p>Mapa 8: Área com fiação elétrica subterrânea. Base cartográfica disponibilizada pelo Escritório</p><p>Técnico do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019. .................................................. 128</p><p>Mapa 9: Monumentos recuperados e restaurados pelo Programa Monumenta. Base cartográfica</p><p>disponibilizada pelo Escritório Técnico do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019.</p><p>.............................................................................................................................................................</p><p>Lei nº206 de agosto de 1996 que “estabelece a política urbana, o perímetro, a preservação do patrimônio</p><p>histórico e patrimônio natural, a locação das atividades, o parcelamento do solo, normas para edificações e</p><p>posturas no município de Goiás”.</p><p>123</p><p>cidade como Patrimônio da Humanidade, em que se havia a necessidade de inserir a</p><p>rerratificação do perímetro preservado e estipular normativas condizentes com esta nova</p><p>realidade. Mas por motivos desconhecidos a este autor, o mesmo encontra-se caminhando</p><p>vagarosamente e sem data definida para ser lançado.</p><p>Por último, e não menos importante, nos cabe a perscrutar a “Nova carta à Cidade de</p><p>Goiás” publicada em 2007 pela Superintendência do Iphan no estado de Goiás. Assim</p><p>como a primeira carta aqui apontada, esta edição objetivou-se a esclarecer a comunidade</p><p>vilaboense sobre alguns parâmetros que envolvem o patrimônio local, mas desta vez</p><p>apresenta algumas informações possivelmente mais técnicas no que diz respeito a sua</p><p>conservação, tornando-se como um guia informativo para quando fossem necessárias</p><p>executar obras em suas propriedades.</p><p>Inicialmente, a Carta discorre de forma breve a relação do Iphan com o patrimônio em</p><p>si, as leis e decretos que auxiliam na sua proteção e traça alguns comentários sobre a</p><p>história e os processos de tombamento relacionados à Cidade de Goiás. Posteriormente, a</p><p>publicação expõe os aspectos e elementos arquitetônicos representativos de valor</p><p>especificando as tipologias encontradas e os procedimentos para sua manutenção. Temas</p><p>como fundações, estruturas e paredes, telhados, forros, revestimentos, pisos, esquadrias,</p><p>pinturas, os elementos decorativos nas fachadas, as instalações prediais (elétrica e</p><p>hidráulica) e os jardins são descritos pela Carta, assim como algumas questões</p><p>urbanísticas no que diz respeito ao calçamento, a iluminação pública e ao mobiliário. Por</p><p>fim, a Carta enumera as possíveis patologias de tais aspectos apresentados e as medidas</p><p>a serem tomadas quando tais acontecerem.</p><p>Assim como o apresentado pela Portaria e pelo Plano Diretor, as definições da Carta</p><p>enaltecem a importância das características arquitetônicas tradicionais para a paisagem</p><p>da cidade. Ao sugerir o que deve ou não ser feito, tanto nas reformas quanto na construção</p><p>de novas edificações na área tombada ou no entorno institucionalizado, a mesma dá</p><p>alicerce a produção de alguns possíveis cenários urbanos compatíveis a imagem</p><p>valorizada no contexto local. Dentro dos aspectos apresentados, alguns tornam-se</p><p>curiosos e pertinentes a uma melhor explanação, por estarem vinculados a</p><p>problematização que será feita posteriormente em alguns projetos e decisões tomadas na</p><p>cidade em relação ao patrimônio vilaboense.</p><p>Com uma escrita mais simplificada até mesmo para gerar maior ligação entre o Iphan</p><p>e a população e atingi-la de modo mais prático, a Carta traça ponderações mais técnicas</p><p>124</p><p>sobre os aspectos construtivos e a materialidade das edificações preexistentes e como tais</p><p>devem ser empregados nas novas construções. Sobre os telhados, sugere como deve ser</p><p>feita a avaliação dos problemas, sua manutenção e as decisões a serem tomadas quando</p><p>for necessário a troca de seus alguns elementos construtivos. Indica-se a limpeza e sempre</p><p>que for possível, a permanência das telhas originais desde que as mesmas se encontrem</p><p>em bom estado conservativo.</p><p>Quando necessária sua troca, deve-se escolher estritamente para a área tombada</p><p>modelos em barro do tipo canal para as edificações mais antigas e francesa caso a</p><p>edificação seja compatível com tal. A mesma indicação é definida para as novas</p><p>construções dentro do perímetro protegido, além de ter seu caimento para a rua. Para</p><p>aquelas a serem inseridas na área de entorno, pode-se usar modelos diferentes destas</p><p>desde que sejam de barro e na cor cerâmica estritamente, de modo a não prejudicar a</p><p>similitude do conjunto.</p><p>O mesmo ocorre para as novas esquadrias que devem ser em madeira (Figura 26) e</p><p>quando for preciso o uso de vidro ou sua troca, recomenda-se a malacacheta ou lâminas</p><p>de mica nas mesmas espessuras das antigas, não utilizando modelos em vidros</p><p>martelados, aramados, jateados, com películas, etc. Além de que os muros não podem ser</p><p>trocados por gradis ou similares.</p><p>Figura 26: Esquadrias em madeira típicas das casas setecentistas vilaboenses. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Em relação as pinturas, a Carta determina a escolha de uma paleta de cores condizente</p><p>à realidade original das edificações e o uso de tintas à base de cal para que as paredes</p><p>consigam respirar, ao passo que tintas acrílicas, esmaltadas e PVA não permitem tal feito</p><p>mediante a originalidade das técnicas construtivas empregadas. Para manter a</p><p>125</p><p>integridade e autenticidade do conjunto, recomenda-se fazer a prospecção das paredes e</p><p>esquadrias que é a raspagem para retirada das camadas de tintas até chegar-se à primeira</p><p>para, então, descobrir sua cor original e assim usá-la.</p><p>Considerando que a Cidade de Goiás possui edificações de diferentes linguagens</p><p>arquitetônicas, é proposto que as datadas do período colonial sejam diferentes das de</p><p>outras épocas. Para as primeiras indica-se paredes brancas com esquadrias em tons</p><p>escuros de verde, azul, vermelho ou marrom, a não ser que as janelas possuam guilhotinas</p><p>e, quando forem assim, devem ser pintadas de branco. Já o segundo grupo de edificações,</p><p>que condizem às neoclássicas, ecléticas, art nouveau e art déco, devem ter suas paredes</p><p>pintadas em tons claros de rosa, verde, azul ou amarelo ocre com suas esquadrias e as</p><p>ornamentações fachadistas em branco (Figura 27). Outras cores podem ser empregadas</p><p>desde que aprovadas pelo Iphan e que não fujam de tais parâmetros, além de que as novas</p><p>edificações devem ser pintadas de cores claras similares ou iguais as especificadas acima.</p><p>Figura 27: Fachadas com ornamentações destacadas em branco. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Sobre as questões urbanísticas e considerando que originalmente as calçadas eram</p><p>feitas de fachadas a fachadas em nível único e só posteriormente com a chegada dos</p><p>veículos automotores, criou-se o meio-fio e calçadas mais elevadas em relação a rua. A</p><p>Carta estabelece que todos os tipos deverão ser preservados de acordo com os locais que</p><p>se encontram, assim como o uso de pedras como revestimento. As novas edificações na</p><p>área protegida deverão ter suas fachadas frontais alinhadas a calçada como as</p><p>preexistentes.</p><p>126</p><p>2.3.1 | Luzes e pedras</p><p>Na década de 1990, para chegar ao referido título de Patrimônio Mundial pela Unesco,</p><p>a Cidade de Goiás precisava ter sua infraestrutura urbana melhorada. Para tal, foram</p><p>previstas pela própria Unesco a instalação de um sistema de coleta e transporte de esgoto</p><p>em toda a cidade até então inexistente, e a troca da fiação elétrica e de telefonia que se</p><p>encontrava aérea por subterrânea do conjunto tombado em 1978, eliminando as</p><p>interferências visuais provocadas pela fiação.</p><p>Fruto da parceria entre o Governo Estadual, a antiga CELG - Centrais Elétricas de</p><p>Goiás), Saneago - Empresa de Saneamento do Estado de Goiás e a antiga Telegoiás e sob</p><p>supervisão do Iphan, as obras iniciaram no ano de 2000. Estruturalmente foram abertas</p><p>três valas em cada rua, largo, beco e travessas, sendo duas para rede de telefonia e</p><p>eletricidade que trabalhariam simultaneamente e outra mais profunda para o</p><p>saneamento.</p><p>Segundo Tamaso (2007), que no momento de escrita de sua tese de doutorado</p><p>acompanhou tais obras, mediante um atraso dos trâmites legais entre Telegoiás e Iphan,</p><p>a empresa não executou sua parte juntamente com a CELG, sendo assim, as ruas da área</p><p>tombada foram abertas em três vezes distintas, isto é, o calçamento da área de projeto foi</p><p>retirado e refeito em três momentos. Todas as edificações tiveram suas fachadas rasgadas</p><p>para passagem da fiação elétrica (Figura 28) e foi instalada</p><p>na calçada à frente de cada</p><p>uma três caixas, sendo uma para cada empresa.</p><p>Figura 28: Troca de fiação elétrica em casa do centro histórico. Fonte: Acervo digital Iphan, Foto: Maria Cristina</p><p>Portugal Ferreira, 2000.</p><p>127</p><p>Ainda segundo a autora, os relógios de energia que primeiramente seriam inseridos</p><p>nas fachadas externas com o intuito de facilitar o acesso pela CELG caso o proprietário</p><p>não se encontrasse, foi barrada pelo Iphan. Deste modo, os mesmos permaneceram</p><p>dentro das edificações conforme sua localização original, pois assim não mutilariam as</p><p>fachadas. A preocupação com as fachadas foi latente tanto que os relógios de água que se</p><p>encontravam na parte inferior das paredes externas foram todos transferidos para a caixa</p><p>construída pela Saneago no nível do calçamento. A limpeza estética não fora apenas das</p><p>fiações cortando o céu da paisagem urbana e, sim, dos elementos que demonstravam o</p><p>passar do tempo dentro do contexto da cidade.</p><p>A troca da fiação elétrica inaugurada em 2001 durante a Procissão de Fogaréu foi o</p><p>foco do projeto e a escolha dos novos postes que substituiriam os postes de cimento, e</p><p>seus locais de inserção apresentam um aspecto interessante no contexto dessa alçada.</p><p>Após algumas reuniões entre as instituições competentes e os proprietários das</p><p>residências dentro da área de projeto, foi definido que os postes seriam na verdade</p><p>réplicas dos antigos lampiões encontrados na cidade (Figura 29) e as lâmpadas seriam de</p><p>sódio com tonalidade sépia, o que resultaria em um nostálgico centro histórico. Aqui</p><p>percebemos o quanto era importante vincular determinados pontos da morfologia urbana</p><p>vilaboense dita tradicional e histórica com a imagem ideal da cidade que a levaria ao</p><p>chancelamento como Patrimônio da Humanidade. Consequentemente, mais uma vez,</p><p>constata-se a valorização do período colonial frente às modificações urbanas ocorridas no</p><p>decorrer do tempo e a cenarização de um passado que não estava mais incorporado no</p><p>presente.</p><p>Figura 29: Lampiões inseridos em parte do centro histórico da Cidade de Goiás. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>128</p><p>No mesmo ano em que se inaugurava o projeto, a cidade recebia a outorga mundial,</p><p>mas em contrapartida, os novos lampiões também geraram algumas divergências entre a</p><p>população residente no conjunto tombado e o Iphan. Frente a uma limitação orçamentária</p><p>e a não capacidade de incluir os lampiões em todo a área tombada, foi necessário definir</p><p>quais locais receberiam tais modelos de iluminação.</p><p>A escolha partiu de um conceito de contemplar os espaços públicos e edificações mais</p><p>significantes à época para o contexto do centro histórico, ou seja, os grandes largos</p><p>(Chafariz, Coreto e do Rosário) e algumas de suas ruas vizinhas, estendendo a Igreja Nossa</p><p>Senhora da Abadia, o Mercado Municipal, a Prefeitura e a rua Bartolomeu Bueno (Mapa</p><p>8).</p><p>Mapa 8: Área com fiação elétrica subterrânea. Base cartográfica disponibilizada pelo Escritório Técnico do Iphan da</p><p>Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019.</p><p>129</p><p>Outro fato resultante da troca da fiação foi que todo o calçamento fora comprometido</p><p>sendo necessária quase que sua total reconstrução. Conforme mencionado, houve a</p><p>necessidade de abrir as ruas mais de uma vez para a instalação de toda infraestrutura, em</p><p>que as pedras e demais materialidades foram retiradas de seu lugar de origem. As vias</p><p>eram compostas por pedras, bloquetes, além de algumas pequenas partes que já se</p><p>encontravam asfaltadas e suas calçadas eram em pedras, lajes, que são pedras mais finas</p><p>e de maiores dimensões ou então cimentadas (Figura 30). Todos estes elementos faziam</p><p>parte do conjunto arquitetônico e urbanístico tombado em 1978 pelo Iphan e está</p><p>presente na memória afetiva de diversos vilaboenses como uma emblemática figura</p><p>histórica, como podemos notar em alguns contos e poemas de Cora Coralina. Além disso,</p><p>o calçamento como um todo é um dos objetos a serem preservados sob a luz das diretrizes</p><p>apresentadas anteriormente.</p><p>Figura 30: Via em pedra e calçada em laje. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Ao serem refeitas, algumas características originais foram perdidas, o que segundo</p><p>Tamaso (2007), causou estranhamento pela população. Alterou-se a curvatura das ruas</p><p>de 2% para 4,5%, deixando-as mais planas e facilitando o translado mais rápido de</p><p>automóveis, o que para a autora não fazia sentido, pois o próprio Iphan alegava que os</p><p>veículos automotores prejudicavam a preservação do calçamento. Recolocaram as pedras</p><p>de forma equivocada ao que era anteriormente no que diz respeito à sua paginação com</p><p>menor espaçamento entre elas, o que resultou na falta de unidades originais para alguns</p><p>trechos por justamente inexistirem na região fonte natural para nova extração. E, por fim,</p><p>130</p><p>houve consequentemente a substituição de tais modelos originais em parte do conjunto</p><p>por unidades marroadas que são aquelas produzidas em pedreiras. Tais modificações</p><p>colocam em pauta a fragilidade das próprias normativas atuantes na cidade na época, que</p><p>mesmo estabelecendo a preservação de tais elementos, não foram suficientes para</p><p>preservar a originalidade do calçamento.</p><p>Frente a este caso, não há como deixar passar o quão importante foi o projeto como</p><p>um todo para a trajetória patrimonial da cidade, tanto que o mesmo tirou o foco de toda a</p><p>estruturação de saneamento básico que o restante da cidade havia ganhado, população</p><p>essa que apoiou as modificações, pois também seriam beneficiadas. Aqui o embate não</p><p>era mais o que estava ou não sendo incluído nas normas preservacionistas, o que estava</p><p>dentro e fora do perímetro tombado e, sim, o que deveria ser mais valorizado dentro</p><p>daquilo que já o é.</p><p>Se historicamente há com frequência discussões que interpelam as diferenças entre</p><p>os espaços tombados e os que não são, na Cidade de Goiás a troca da fiação elétrica fez</p><p>com que o debate se voltasse para dentro do grupo privilegiado. Noutras palavras, as</p><p>fronteiras urbanas sejam elas sociais, históricas, culturais, visíveis ou invisíveis, são</p><p>passíveis de acontecer em todas partes de uma sociedade, inclusive entre as mais</p><p>abastadas. Além disso, percebe-se que a hierarquização dentro das escolhas tomadas deu-</p><p>se inclusive dentro do contexto do próprio objeto, pois o calçamento fora</p><p>descaracterizado em prol da troca da fiação, isto é, outro componente importante do</p><p>patrimônio físico da cidade foi sacrificado para despoluir a vista aérea e construir o</p><p>cenário ideal para o chancelamento maior.</p><p>2.3.2 | Fachadas em cores</p><p>Dentro do contexto do planejamento de ambientes patrimonializados qualificados no</p><p>que diz respeito à sua imagem, os aspectos estéticos tornam-se relevantes para a</p><p>valoração da sua qualidade visual e um dos mecanismos para a atração turística e para a</p><p>inflação de seu consumo. Considerando uma infinitude de categorias estéticas que</p><p>configuram o espaço urbano, a cor das fachadas das edificações caracteriza-se como uma</p><p>expressiva ferramenta de seu planejamento visual, estando interligada aos modos de</p><p>percepção do espaço, de seus atributos físicos e de seus significados simbólicos.</p><p>131</p><p>Desde tempos mais remotos, as cores das edificações construídas pelo homem eram</p><p>definidas pela materialidade natural dos elementos construtivos utilizados. A extração de</p><p>pigmentos vegetais e minerais e de madeiras nas próprias regiões, ocasionou em</p><p>edificações singulares quando comparadas umas às outras e tornou a relação entre a</p><p>realidade dos exemplares pioneiros com a paisagem em que se encontravam totalmente</p><p>direta. Deste modo, é perceptível que a imagem cromática de diversas cidades antigas é</p><p>resultado de inúmeras contribuições da realidade natural que as circundam.</p><p>Com o passar dos anos e o surgimento de novas linguagens arquitetônicas, as gamas</p><p>cromáticas também se desenvolviam com o surgimento de novos materiais, pigmentos,</p><p>técnicas, se adaptando ou não as preexistências. As cores das cidades iam se modificando</p><p>paulatinamente, assim como sua distribuição pelas fachadas, fato que se mantém até</p><p>tempos mais recentes. Tais mudanças alteravam os propósitos estéticos do uso da cor e</p><p>consequentemente mudavam as percepções das formas arquitetônicas em si.</p><p>Para exemplificar, conforme pontua Aguiar (2005), em Portugal no período barroco,</p><p>as edificações foram pintadas em tons pasteis acinzentados e azulados de matiz bem clara</p><p>de forma quase que monocromática para tornar menos impactante os grandes volumes</p><p>edilícios. Posteriormente, no período Neoclássico, o volume das edificações já fora</p><p>favorecido por meio do uso de diferentes cores, mas que não apresentassem contraste</p><p>significativo ao modo de proporcionar maior equilíbrio sem realçar as ornamentações. Já</p><p>no Romantismo, tais detalhes foram valorizados e acentuados a partir do uso de</p><p>contrastes mais bem definidos.</p><p>Frente a este contexto histórico, há uma crescente de estudos na academia que se</p><p>atentam à valorização visual dos centros históricos a partir do uso das questões</p><p>cromáticas que cercam suas edificações. Assim, a cada dia, são mais corriqueiras ações</p><p>que implementam uma política de planejamento cromático para tais locais. Segundo</p><p>Aguiar (2005), na Itália, por exemplo, nos anos de 1980 diversos “Planos de Cor” foram</p><p>elaborados de modo que adquiriram tamanha relevância se tornarando em um ponto</p><p>obrigatório frente a salvaguarda do patrimônio arquitetônico e urbanístico italiano.</p><p>Para o autor, a cor é parte da humanização espacial, possibilitando seu</p><p>reconhecimento e identificação. A cor tem tanto poder em caracterizar um espaço, que</p><p>muitas das vezes, uma cidade passa a ser reconhecida pela predominância de uma</p><p>determinada tonalidade em sua paisagem como acontece em Siena, na Itália, com suas</p><p>edificações em cor terra, por isso da cor Terra de Siena, Toulouse na França, conhecida</p><p>132</p><p>como cidade cor-de-rosa pela predominância dos tijolos rosados nas fachadas das</p><p>edificações mais antigas ou Santorini na Grécia, com suas icônicas construções brancas.</p><p>A manipulação da cor quando coerente com a realidade já encontrada nas</p><p>preexistências, torna-se em um instrumento que viabiliza a continuidade da imagem</p><p>urbana histórica, sem grandes dissonâncias, principalmente no que diz respeito as áreas</p><p>patrimonializadas. Assim, a cor em áreas históricas tornou-se em um elemento quase que</p><p>homogêneo dentro do contexto preservacionista na Itália, em diversos outros países e</p><p>praticamente em todos os sítios tombados no Brasil, o que inclui a Cidade de Goiás.</p><p>Seu uso passou a ser tido não como um objeto individual pertinente a cada edificação</p><p>e, sim, como um elemento chave para a harmonização e legibilidade da malha urbana em</p><p>questão. Ela contribui na construção e valorização dos cenários patrimoniais, tem o poder</p><p>de enaltecer determinadas edificações em relação a outras e suas características</p><p>arquitetônicas. Além disso, tem o poder de alterar a originalidade e provocar</p><p>interpretações múltiplas pela sociedade dos elementos formais e simbólicos que</p><p>permeiam estes conjuntos, independente se a definição das paletas utilizadas se distancie</p><p>demasiadamente ou não das cores primeiras (NAOUMOVA, 2009).</p><p>Naturalmente, tais centros por apresentarem uma diversidade de linguagens</p><p>arquitetônicas datadas de diferentes épocas, possuem em seu percurso histórico a</p><p>transformação contínua de suas cores, escolhidas mediante as tradições e modismos de</p><p>cada período, além de que os padrões variam muito entre um país e outro. É neste</p><p>contexto que a definição dos parâmetros cromáticos a serem utilizados na</p><p>contemporaneidade torna-se complexa, principalmente quando nos deparamos</p><p>atualmente com uma cartela de cores quase infinita. Enquanto existem casos de locais que</p><p>definem paletas que buscam resgatar uma originalidade mais próxima possível, outras já</p><p>fogem dos padrões autênticos dispondo do uso de tons mais atuais.</p><p>A definição das cores a serem utilizadas em núcleos históricos, se antigas ou</p><p>contemporâneas, é um dos impasses mais relevantes em se tratando da colorização de</p><p>desses locais. Ao considerar que o ambiente que circunda as edificações históricas</p><p>passaram por um processo de modificação que é um fato completamente natural frente a</p><p>modernização das cidades e resultou na quebra das ligações que existiam entre as</p><p>primeiras edificações e o meio urbano em que estava inserido originalmente, abriu-se</p><p>espaço para adaptá-las à novas pinturas. Sendo assim, manter as técnicas de pintura</p><p>tradicionais é viável do mesmo modo que fazer uso de novas cores frente a atualização da</p><p>133</p><p>mão de obra e dos produtos oferecidos pelo mercado, o que torna estas áreas tombadas</p><p>dentro de um contexto de ambiguidade (NAOUMOVA, 2009).</p><p>Se por um lado temos a variação de arquiteturas ditas históricas cujo uso da cor exige</p><p>manter um padrão equilibrado entre as diferentes linguagens arquitetônicas, ressaltando</p><p>quando preciso suas disparidades, de outro é compreensível que tais locais pertencem a</p><p>um ambiente que é espontaneamente mutável e vivo. Do mesmo modo que enquanto</p><p>alguns projetos de intervenções cromáticas recuperam as pinturas históricas negando as</p><p>modificações ocorridas, como é encontrado em Ouro Preto e em outras cidades mineiras</p><p>do ciclo do ouro com a predominância do branco nas paredes e cores mais fortes nas</p><p>esquadrias, outros já partem para uma abordagem mais livre de qualquer estereótipo</p><p>preexistente, como o encontrado no Pelourinho em Salvador, que dispõe de uma paleta</p><p>de cores em tons vibrantes que muito se diferem da originalidade do conjunto.</p><p>O uso de cores que fogem por completo da historicidade de um determinado local pode</p><p>acarretar críticas principalmente no que diz respeito a preservação da sua autenticidade.</p><p>E é nesta situação que o planejamento de cores é tido como um meio para barrar possíveis</p><p>descaracterizações sem justificativa e, então, elevar o quesito cor como um dos</p><p>parâmetros passíveis de serem controlados pelos agentes preservacionistas</p><p>(NAOUMOVA, 2009). Mas é importante salientar que no Brasil as duas abordagens são</p><p>implementadas pelo Iphan e demais órgãos competentes a depender do contexto da</p><p>cidade, sem que haja regras em específico para definir quando ou não utilizar a cor de</p><p>modo mais livre, e nem ao ponto de universalizar um mesmo modus operandi.</p><p>Em relação a Cidade de Goiás, as cores originais de suas edificações estão totalmente</p><p>ligadas ao momento em que foram construídas. As datadas no período colonial eram com</p><p>paredes caiadas em cor branca com pequenas variações de tonalidades mediante ao tipo</p><p>de cal utilizado e com as esquadrias em tons fortes e saturados de azul colonial, vermelho</p><p>intenso, amarelo ocre, verde-cromo e marrom avermelhado, contrastando com o branco</p><p>e seguindo os preceitos da arquitetura colonial portuguesa que viera para o Brasil, assim</p><p>como o encontrado em outras cidades de mesmo período.</p><p>A partir do século XIX, com o surgimento das novas tipologias arquitetônicas no tecido</p><p>da cidade, as paredes destes novos exemplares já receberam tons mais vibrantes como</p><p>azuis, verde-água, rosa e amarelo e as ornamentações inseridas nas fachadas eram</p><p>realçadas em tons bem mais claros quase que chegando ao branco, ocasionando o</p><p>destaque de tais elementos na fachada, o que também muito se assemelha a realidade de</p><p>134</p><p>outras localidades. As esquadrias seguiram tonalidades fortes sem contrastar com as</p><p>paredes, pois na maioria dos casos eram na mesma cor, mas em tons diferentes.</p><p>Já em meados do século XX com as arquiteturas de cunho mais moderno, as mesmas</p><p>eram tratadas em tons claros e discretos de cinza e bege, além do uso de revestimentos</p><p>cerâmicos nas fachadas (Figura 31). As esquadrias se destacam mais pela materialidade</p><p>das mesmas por serem metálicas e vidro e com proporções diferentes das demais</p><p>do que</p><p>pelas cores que eram similares as utilizadas nas paredes. Eram edificações mais opacas,</p><p>com coloração sem contraste, o que tornava as edificações até mais sólidas no contexto</p><p>da paisagem quando comparadas com as preexistências.</p><p>Figura 31: Casa revestida com cerâmica. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Outro ponto importante a ser levantado é que de acordo que as novas paletas</p><p>cromáticas surgiam na cidade, alguns proprietários pintavam suas propriedades com as</p><p>novas cores, fazendo com que a paisagem cromática evoluísse junto com a própria</p><p>arquitetura. Sendo assim, é possível perceber que em virtude ao processo de</p><p>desenvolvimento da Cidade de Goiás, as tonalidades das edificações foram modificando</p><p>para atender as demandas de cada época e uma policromia foi instaurada, tornando o</p><p>conjunto que era predominantemente branco, hipoteticamente mais colorido (Figura 32).</p><p>Enquanto no período colonial as edificações apresentavam semelhanças em sua</p><p>estrutura formal e nas cores, resultando em um conjunto muito similar e quase que</p><p>monocromático, posteriormente as cores foram utilizadas para destacar a edificação na</p><p>paisagem. Além de que, por as linguagens arquitetônicas a época demandarem de uma</p><p>135</p><p>liberdade artística mais aflorada, sendo mais passíveis a resultar em objetos únicos, o uso</p><p>da cor foi também mais livre.</p><p>Figura 32: Casario com fachadas em tons vibrantes. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Frente a isso, percebe-se que o elemento cor se define dentro de uma relação tempo e</p><p>espaço e quando inserida em um acervo arquitetônico, transcende a abstração de ser</p><p>apenas um elemento cromático por si só, sendo agora percebida junto com a forma, a</p><p>linguagem e estando completamente relacionada a ela. Historicamente, o centro histórico</p><p>patrimonializado da Cidade de Goiás apresenta uma variedade em seus padrões</p><p>cromáticos que retrata a evolução dos valores estéticos que surgiram no decorrer do</p><p>tempo. Deste modo, ao mesmo tempo que exista diferentes tipologias arquitetônicas,</p><p>também é perceptível as variadas “tipologias cromáticas” (NAOUMOVA, 2009).</p><p>Com o passar dos anos as edificações vilaboenses foram recebendo camadas de tintas</p><p>muito destoantes das originais. Com isso e com os tombamentos ocorridos na cidade, o</p><p>Iphan passou a controlar a área tombada e, então, manter sob seus desígnios as mudanças</p><p>nas unidades, incluindo a repinturas que estavam e que viriam a acontecer,</p><p>principalmente com a implantação da Portaria de 1993. Mas neste momento não havia</p><p>uma paleta pré-definida pelo órgão e a escolha estava sob a vontade do proprietário.</p><p>O que acontecia era o inquilino solicitar aprovação ao Iphan para fazer tais</p><p>modificações, mas sem especificar as cores que seriam usadas. Segundo Tamaso (2007),</p><p>era muito corriqueiro na década de 1990 os pedidos ao órgão para aprovar mudanças nas</p><p>fachadas das propriedades, principalmente no que diz respeito a suas cores, o que</p><p>continua a acontecer. Mas na época não havia a definição e restrição do uso das cores por</p><p>136</p><p>parte do Iphan, pois os moradores da área tombada sempre as pintavam nos mesmos tons</p><p>que eram já de uso. A troca das cores não era um paradigma a ser enfrentado.</p><p>Com o passar dos anos, a autora relata que com as intervenções executadas no</p><p>Pelourinho e no Bairro do Recife54 no início dos anos 2000, os pedidos de reforma se</p><p>intensificaram na Cidade de Goiás. Com a possibilidade de a cidade ser reconhecida</p><p>mundialmente, o que estava perto de acontecer, e por acreditarem que assim como</p><p>ocorrido nos casos baiano e pernambucano, as transformações auxiliariam o</p><p>chancelamento, as pinturas ganharam destaque maior nas demandas que vinham</p><p>surgindo. Para tanto, a secretaria de cultura municipal divulgou na época uma campanha</p><p>intitulada “Vamos colorir Goiás”, que para o Iphan colocava em risco a harmonia do</p><p>conjunto, pois começaram a surgir edificações repintadas seguindo os exemplos</p><p>nordestinos, em tons saturados e inadequados para a realidade que se mantinha</p><p>preservada no conjunto.</p><p>Neste momento, o órgão estava frente a dificuldade de relacionar o padrão cromático</p><p>da arquitetura original com o desejo dos próprios moradores em fazer parte do processo</p><p>de tombo mundial. Além de que as novas cores usadas definiam a sobreposição do século</p><p>XX sobre os passados, o que iria contra aos interesses do Iphan na Cidade de Goiás</p><p>especificamente. Assim, no final de 2001, por meio de nota impressa no jornal O Popular,</p><p>o órgão divulgava que por lei as cores deveriam ser aprovadas pela Superintendência</p><p>Estadual e deveriam seguir um guia de cores preestabelecido para evitar o uso de “tons</p><p>berrantes, a la Pelourinho” (TAMASO, 2007, p.422).</p><p>Para auxiliar os moradores, o Escritório Técnico do Iphan da cidade iniciou o chamado</p><p>“Estudo de Cor” que consiste na simulação digital por meio de softwares arquitetônicos da</p><p>proposta de cores para as fachadas, sobrepondo a foto original da edificação as cores</p><p>escolhidas pelo inquilino dentro da lista de cores possíveis. Tal técnica foi o meio</p><p>encontrado pelo órgão para dialogar com a população de modo mais prático e para</p><p>compreender se tais modificações podem ou não impactar a ambiência do conjunto. O</p><p>feito teve bom reconhecimento e vem sendo muito utilizado pelos vilaboenses.</p><p>Repintar os imóveis tornou-se em indicação do Iphan por transparecer o</p><p>reconhecimento das cores para a valorização a paisagem da cidade, ter a capacidade de</p><p>preservar a historicidade e as características estilísticas, e definir o zelo do patrimônio</p><p>54 Conferir Leite (2001).</p><p>137</p><p>por parte dos moradores. Para tanto, em 2007 o órgão divulga a “Nova Carta à Cidade de</p><p>Goiás” citada anteriormente, com intuito de fomentar a importância de se manter um</p><p>padrão cromático das edificações mediante a sua tipologia arquitetônica.</p><p>Ao percorrer o conjunto nota-se que o padrão é seguido em sua maioria. As edificações</p><p>tipicamente coloniais possuem suas paredes quase que restritivamente brancas e com</p><p>esquadrias em tons fortes, com bandeiras mais claras, o que remete muito a originalidade</p><p>da edificação de quando a cal era utilizada como matéria-prima para o acabamento das</p><p>alvenarias. Já os exemplares posteriores aos coloniais em sua maioria possuem as paredes</p><p>coloridas, os ornatos em tonalidade mais clara e as esquadrias em tons claros (Figura 33).</p><p>Figura 33: Tipos de colorimetria nas fachadas do casario vilaboense. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Ao percorrer o conjunto tombado, o que se pode perceber é que as cores utilizadas</p><p>atualmente diferenciam-se das originais por apresentarem um maior contingente de</p><p>nuances e intensidades. Mediante ao levantamento feito na área tombada em 2018,</p><p>grande parte das edificações seguem o padrão estabelecido para as unidades, mas outras</p><p>já apresentam desconformidades. O que deveria ser claro encontra-se escuro, o escuro</p><p>tornou-se claro, o pastel é vibrante, o vibrante é pastel (Figura 34).</p><p>138</p><p>Figura 34: Cores não previstas. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Tal fator comprova que mesmo com a definição de uma paleta de cores, parte da</p><p>população acaba não seguindo tais parâmetros, desrespeitando as tipologias cromáticas</p><p>listadas. O processo de descaracterização cromática do conjunto, mesmo que muito</p><p>pontualmente, culmina em uma aparência estética comprometida no que toca as</p><p>definições do Iphan para os bens protegidos, mas que quando percebido in loco, não afeta</p><p>drasticamente o visual da cidade por não terem tons muito estranhos à realidade</p><p>adjacente, pelo contrário, coloca a imagem da cidade ainda mais dentro de um contexto</p><p>cenográfico.</p><p>A cor auxilia diretamente na definição dos marcos urbanos da Cidade de Goiás em sua</p><p>paisagem, destacando seus monumentos e pode ser inclusive analisada como um</p><p>diferenciador social daquilo que está ou não bem conservado. É nítido em como os</p><p>exemplares que estão com</p><p>suas tintas bem acabadas e mais “frescas” atraem mais os</p><p>turistas que querem fotografar o conjunto. Manter a cor com aspecto novo é manter,</p><p>também, sua propriedade em destaque, interessante aos olhos de quem a visita e como</p><p>objeto passível a ser cenário de registros fotográficos.</p><p>A contribuição da cor como elemento de valorização espacial é tamanha que a área de</p><p>entorno ao perímetro tombado naturalmente mais jovem apresenta similaridades em</p><p>relação as cores utilizadas mesmo não se tendo diretrizes específicas paras as mesmas. O</p><p>máximo que poderia contemplá-las seria as normas direcionadas às casas do período</p><p>moderno, mas que não fazem tanto jus ao que é encontrado. Muitas unidades apresentam</p><p>fachadas brancas com esquadrias coloridas, alguns detalhes estéticos em tons que os</p><p>139</p><p>destaquem, semelhantes ao que se encontra nos exemplares mais antigos da área</p><p>protegida.</p><p>De modo a concluir, os aspectos cromáticos na arquitetura da Cidade de Goiás são</p><p>tidos como um aspecto formal positivo e negativo para as edificações, pois auxilia na</p><p>definição e ordem de um padrão estético esperado e demonstra claramente se as</p><p>especificações estão sendo seguidas. Ao se definir uma determinada cor, a forma histórica</p><p>da edificação pode se manter condizente o mais próximo possível de sua originalidade ou</p><p>então partir para um lado mais antagônico. A cor tem a capacidade de ser mais uma das</p><p>formadoras dos significados simbólicos que permeiam determina arquitetura, assim</p><p>como suas características formais.</p><p>É importante salientar que a definição de uma paleta de cores específica a ser utilizada,</p><p>muito contribui para o processo de cenarização instaurado na cidade, assim como o</p><p>ocorrido no Pelourinho. Com a permanência do padrão cromático, o conjunto se mantém</p><p>dentro da imagem ideal e permite que o usuário se depare com um ambiente de casas com</p><p>suas paredes, portas e janelas cenograficamente interessantes para o mercado turístico.</p><p>2.3.3 | Mimetismo arquitetônico</p><p>A partir das visitas feita ao conjunto institucionalizado vilaboense e com a reflexão</p><p>tecida sobre o Dossiê de Goiás, notou-se que uma das particularidades encontradas na</p><p>cidade é o número considerável de edificações datadas de tempos mais recentes e que</p><p>muito se assemelham estilisticamente aos cânones da arquitetura colonial. Como vimos</p><p>anteriormente, a Portaria de 1993 estabeleceu critérios a respeito de como deveriam se</p><p>comportar as novas arquiteturas na Cidade de Goiás, tanto na área tombada quando em</p><p>seu entorno. Ao assim ser feito, as novas edificações seguiriam determinadas</p><p>características da arquitetura tradicional, mas deveriam cristalizar visualmente de que se</p><p>trata de construções contemporâneas.</p><p>A Portaria tornou-se em um meio de romper com a possível descaracterização que o</p><p>conjunto tombado poderia passar e em um modo de barrar a criação de um entorno</p><p>estranho à realidade existente. Deste modo, ao definir restrições quanto as novas</p><p>arquiteturas, principalmente no que diz respeito à liberdade total de aplicar os princípios</p><p>140</p><p>arquitetônicos contemporâneos, os exemplares que surgiram na paisagem da cidade</p><p>aproximam-se por semelhança à arquitetura setecentista, o que ocasionou o</p><p>aparecimento de arquiteturas miméticas.</p><p>O termo mimetismo permeia o campo da ecologia desde o século XIX com os primeiros</p><p>ensaios relatados pelo naturalista inglês Henry Walter Bates (1825-1892). Ao estudar em</p><p>1863 as adaptações pelas quais passavam as borboletas, Bates notou que para se</p><p>defenderem, os insetos imitavam fisicamente outras espécies como corujas e cobras,</p><p>trocando a coloração de suas asas, de modo a confundir seus predadores (NASCIMENTO,</p><p>2009). Tais semelhanças podem também ser notadas nos padrões de textura, na forma do</p><p>corpo e comportamento. Além de proteção, o mímico pode assim por fazer para acasalar</p><p>e se alimentar. Dessa forma, mimetismo define-se pela imitação física que um</p><p>determinado organismo se coloca passando a ser tido como algo que originalmente não o</p><p>é.</p><p>Sobre imitação, Marcel Mauss (1974) aponta que o próprio corpo humano é passível</p><p>de ser. Ao analisar os usos do corpo na sociedade, o autor afirma que ao termos um corpo</p><p>específico, construído culturalmente de modo típico em determinado contexto social,</p><p>influenciado pelas questões culturais em que está inserido e apresentando, assim, uma</p><p>valorização de determinados atributos em detrimento de outros, como suas próprias</p><p>qualidades físicas, o mesmo passa a ser adquirido por outros membros dessa mesma</p><p>sociedade através do que Mauss define por “imitação prestigiosa”. Seja conscientemente</p><p>ou não, este tipo de imitação se dá pelo êxito que os imitados possuem dentro de um</p><p>contexto social, onde são literalmente prestigiados ao ter suas virtudes mais admiradas</p><p>reproduzidas.</p><p>Frente a estas teorias e trazendo-as para o caso aqui em questão, com os</p><p>direcionamentos da Portaria as novas edificações retratam um mimetismo arquitetônico,</p><p>pois foram originalmente criadas para vir a ser muito semelhantes a arquitetura colonial,</p><p>apresentando padrões equivalentes. Diferente das intervenções feitas no Quartel do XX,</p><p>no Educandário, na agência bancária e na iluminação urbana da cidade que modificaram</p><p>uma existência ou retomaram um passado que existiu, a arquitetura mimética é tida como</p><p>aquela que desde a sua concepção parte de um referencial do passado valorizado no</p><p>presente. Tais exemplares são frutos de uma imitação que prestigia a arquitetura que é</p><p>enaltecida culturalmente no contexto preservacionista local e resulta em um cenário que</p><p>engana o espectador e simultaneamente alimenta o processo de cenarização.</p><p>141</p><p>Mesmo com o intuito de não reproduzir em suma a antiga arquitetura, as normas da</p><p>Portaria de 1993 deram continuidade ao padrão estético das primeiras fases da cidade,</p><p>resultando em imitações quase que literais, que ao “simular” (BAUDRILLARD, 1991) a</p><p>arquitetura tradicional, estabelecem vínculo com determinada história e identidade a</p><p>favor da consolidação da imagem que é atrativa. A partir das definições do uso de</p><p>elementos tipológicos como cobertura, esquadrias, implantação no terreno, volumetria e</p><p>cores, ambos análogos ao colonial encontrado na Cidade de Goiás, criou-se uma</p><p>arquitetura fruto de um mimetismo e que convive harmoniosamente com seu meio de</p><p>inserção, não definindo-se na paisagem vilaboense como um objeto divergente (Figura</p><p>35).</p><p>Figura 35: Exemplos de casas miméticas. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Foi neste sentido que a arquitetura nova, seja das adjacências do conjunto ou do</p><p>próprio, popular ou não, de uso residencial, comercial e/ou institucional, se tornou em</p><p>unidades simplificadas e proporcionais aos padrões já existentes. Apresentam fachadas</p><p>frontais alinhadas a calçada, beirais avançando sobre as mesmas, telhados com telhas tipo</p><p>colonial, janelas e portas em verga reta com folhas e estrutura portante em madeira, com</p><p>ou sem bandeiras, vidros e locadas simetricamente uma das outras, além das próprias</p><p>ondulações das paredes características dos modelos em adobe ou taipa-de-pilão e nas</p><p>coberturas. Todos estes elementos quando juntos confundem qualquer observador, de</p><p>leigos a especialistas, como podemos notar na Rua Quintino Bocaiúva (Figura 36), em que</p><p>é praticamente imperceptível compreender que se trata de uma edificação</p><p>contemporânea a colonial de praxe.</p><p>142</p><p>Figura 36: À esquerda: Rua Quintino Bocaiúva, sem casario no lado esquerdo. Ano indefinido. Fonte: Acervo Marco</p><p>Antônio Veiga. As demais, Rua Quintino Bocaiúva com edificações construída aos moldes coloniais. Fotos: SOUZA,</p><p>2018. Acervo pessoal.</p><p>A preocupação com a descaracterização do conjunto vilaboense se voltou em grande</p><p>parte para as fachadas e o efeito que poderia ocasionar caso fossem completamente</p><p>deformadas a realidade local. As partes externas formam o “cenário” e a paisagem e, por</p><p>isso, a permissão do que aqui chamamos de mimetismo, indiretamente institucionalizou-</p><p>se junto com o próprio conjunto tombado. Para tanto, é nítido o quanto a estética</p><p>fachadista dita o caminho que o patrimônio vilaboense perpassa, tanto que casos como os</p><p>apresentados nos itens anteriores tornou-se em uma frequente e fora levada para as</p><p>arquiteturas menores.</p><p>As diferenças entre um exemplar do século XVIII e das “inspirações miméticas” são</p><p>quase mínimas, necessitando do visualizador se atentar a pequenos detalhes técnicos</p><p>como o sistema estrutural feito em alvenaria, a setorização dos ambientes e de alguns</p><p>materiais aplicados nas fachadas tais como pedras e chapiscos em cimento. Sobre a</p><p>setorização, apenas adentrando nas unidades para se perceber as diferenças, mas que</p><p>pode passar despercebida por algumas unidades mais antigas terem sofrido modificações</p><p>ao passar dos anos, assim como com a materialidade citada anteriormente a qual pode ser</p><p>encontrada em edificações setecentistas (Figura 37).</p><p>Figura 37: Casas coloniais com chapiscos em suas fachadas. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>143</p><p>Em contrapartida, há unidades que apresentam diversas características que se</p><p>assemelham ao período colonial e que são percebidas facilmente quanto a sua recente</p><p>inserção na malha urbana (Figura 38). São imóveis que dispõem de elementos que</p><p>convergem com o passado como o padrão cromático, a materialidade das esquadrias e</p><p>seus posicionamentos, a cobertura, a setorização, mas evidenciam a contemporaneidade</p><p>nas calhas metálicas, nos alpendres, nos tetos em gesso, na iluminação, nas alvenarias</p><p>mais retas, etc. Tais exemplos seguem em suma o que a normativa estabelece no que se</p><p>vincula a evitar os fingimentos e ao padrão a ser seguido, mas se estabelecem dentro de</p><p>uma linguagem pré-moldada pelas instituições preservacionistas locais.</p><p>Figura 38: Edificações recentes semelhantes às coloniais. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Com as normas incluídas à rotina de construção vilaboense, gradualmente a imagem</p><p>da Cidade de Goiás foi se caracterizando pela intenção estética do próprio Iphan como o</p><p>que acontece em Ouro Preto desde a década de 1970. Segundo Motta (1987), a cidade</p><p>mineira apresenta diversos casos de edificações fruto de imitações e que a partir de</p><p>diretrizes institucionais resultaram em cópias da arquitetura colonial. Na Cidade de Goiás,</p><p>como um modo de ajustar as novas edificações ao quadrante antigo, a normativa</p><p>possibilitou diminuir o contraste entre o passado e o presente, mas gerou cópias literais.</p><p>Com isso, percebe-se que as diretrizes preconizadas pela Portaria ocasionaram efeitos</p><p>similares ao que vinha sendo executado na cidade mineira.</p><p>Ainda tendo o caso ouro-pretano como exemplo, há uma relação na falsificação</p><p>exercida nas duas cidades a respeito do seu fazimento, pois em ambas barrou-se a</p><p>descaracterização física das fachadas, permitiu o mimetismo e ao se ter o arruamento</p><p>144</p><p>mantido, o espectador seja ele familiarizado ou não com a arquitetura tradicional, se</p><p>coloca em um lugar de confusão em compreender a verdadeira origem de determinada</p><p>edificação. Motta (1987) relata que uma das consequências deste processo fora o</p><p>surgimento de uma “arquitetura híbrida” que apresenta um rigor colonial nas fachadas</p><p>principais voltadas para rua, mas nas empenas para dentro do lote aparecem elementos</p><p>contemporâneos como esquadrias de ferro, varandas, etc, repercutindo em uma</p><p>arquitetura sem personalidade cultural, o que remete muito ao que aconteceu com a</p><p>agência bancária da Cidade de Goiás.</p><p>Por mais que historicamente a Cidade de Goiás galgou se renovar perante a estagnação</p><p>social e a se transformar de acordo ao que vinha acontecendo em outros centros urbanos,</p><p>com a patrimonialização seu centro histórico e adjacências fixou-se dentro de uma</p><p>narrativa conservadora que enaltece o passado e suas tradicionalidades. A</p><p>espontaneidade arquitetônica provocada pela modernização das linguagens estéticas que</p><p>vinha surgindo de acordo com a expansão do perímetro, afirmou-se dentro do apelo</p><p>estilístico que o patrimônio local fora definido e assim ficou estabelecido por muito</p><p>tempo, mesmo com o Iphan mudando nacionalmente algumas abordagens frente a</p><p>preservação patrimonial. Apenas no século XXI uma nova roupagem surge na cidade</p><p>pontualmente, onde permite-se trazer à baila desenhos contemporâneos sem que</p><p>desmereçam a qualidade histórica das preexistências, conforme veremos no capítulo</p><p>posterior com algumas das ações do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) –</p><p>Cidades Históricas na Cidade de Goiás.</p><p>145</p><p>Casa vilaboense</p><p>Foto: SOUZA, 2018.</p><p>146</p><p>Capítulo III</p><p>PATRIMÔNIO E SOCIEDADE:</p><p>INVESTIMENTO, PRESERVAÇÃO E TURISMO</p><p>147</p><p>3.1 | Programa Monumenta: conhecimento e investimento</p><p>O indício do que se tornaria o Programa de Preservação do Patrimônio Histórico</p><p>Urbano - Monumenta deu-se em 1995, com as primeiras investidas feitas do Banco</p><p>Interamericano do Desenvolvimento - BID junto ao Ministério da Cultura – MinC, após o</p><p>seu presidente, Enrique Iglesias, ter visitado a cidade de Olinda – PE. Tendo percebido o</p><p>estado de precariedade que a mesma apresentava, o banco propôs ao governo brasileiro</p><p>facultar um programa com enfoque na preservação dos conjuntos e sítios urbanos</p><p>históricos do Brasil, sob o intuito de promover uma experiência semelhante a feita em</p><p>Quito, só que em escala nacional. Em 1996, após pedido do MinC, o Iphan elaborou uma</p><p>Carta Consulta direcionada ao BID sobre a viabilização do programa que seria audacioso</p><p>por ter não apenas uma cidade como foco, mas sim vários centros históricos.</p><p>A proposta, que conforme abordado por Giannecchini (2019) era ampla e com poucos</p><p>detalhamentos, previa revitalizar áreas delimitadas em algumas cidades, colocando o</p><p>Iphan no centro do programa como seu principal agente intermediador. Mas após missões</p><p>feitas pelo BID ao Brasil para a estruturação do Monumenta, seus técnicos apontaram</p><p>fragilidades quanto as atividades preservacionistas nacionais e em relação a proposta</p><p>148</p><p>original, que acabou sendo reformulada e, assim, retirou do órgão brasileiro o domínio</p><p>sob o programa, gerando incômodos nas relações entre Iphan e BID (CARMO 2020;</p><p>DUARTE JÚNIOR, 2010; GIANNECCHINI, 2019). O Banco, além de cooperador de crédito,</p><p>traçaria os percursos pelos quais o Monumenta percorreria, tornando-se a primeiro</p><p>momento participante ativo e dominante. Em relação aos investimentos, o programa teria</p><p>70% dos recursos provindos do orçamento federal e do financiamento do BID e outros</p><p>30% da contrapartida local, sejam eles dos poderes estaduais, municipais ou da iniciativa</p><p>privada.</p><p>Após aprovação do projeto em 1996, os eixos norteadores do programa foram</p><p>estabelecidos com o apoio da Unesco sob a definição de estratégias para uma conservação</p><p>sustentável dos conjuntos e sítios até então tombados no Brasil, além da definição de sua</p><p>estrutura administrativa. Entre 1997 e 2000, estabelecem-se os termos de acordo55 e</p><p>iniciam-se no Brasil os trabalhos financiados pelo BID seguindo objetivos que visavam ser</p><p>concretizados a curto e longo prazo. O primeiro define-se por aumentar a utilização</p><p>econômica, cultural e social das áreas de projeto e o segundo se enquadra na preservação</p><p>das áreas prioritárias do programa, no aumento da conscientização por parte da</p><p>população acerca do patrimônio, no aperfeiçoamento da gestão e na implantação de</p><p>critérios para priorizar sua conservação.</p><p>O Monumenta aumentou a participação dos municípios e do setor privado na</p><p>preservação do patrimônio, “descentralizando” (GIANNECCHINI, PEIXOTO, 2019) as</p><p>responsabilidades que até então estavam sob os desígnios apenas do</p><p>governo federal,</p><p>para obter melhores resultados frente as intervenções muita das vezes danosas e</p><p>irregulares que vinham sendo promovidas. Duarte Júnior (2010) ao estudar</p><p>cronologicamente as premissas do Monumenta, aponta que técnicos do BID acreditavam</p><p>que o emperramento dos processos preservacionistas brasileiros, dar-se-iam pela</p><p>burocracia estipulada pelo Iphan e por conta de o instituto deter toda responsabilidade</p><p>55 Em 1997 fundou-se no MinC a Unidade Central de Gerenciamento – UCG que se responsabilizaria por</p><p>todas as medidas financeiras, administrativas, organizacionais e de planejamento sob coordenação do</p><p>Ministério, formada por uma equipe de especialistas multidisciplinar e desvinculada ao Iphan. Em 1998,</p><p>Unesco e MinC protocolaram um Acordo de Cooperação Técnica para a execução do programa e em 1999</p><p>foi definido o Grupo de Trabalho – GT/IPHAN que colaboraria com o Monumenta ao gerenciar</p><p>especificamente as ações do Iphan em relação ao Monumenta. Neste mesmo ano, a assinatura contratual</p><p>entre BID e Governo Federal para possibilitar os empréstimos previstos foi formalizada e apenas nos anos</p><p>2000 o Programa Monumenta foi efetivamente iniciado, ficando associado ao Plano Plurianual 2000-2003</p><p>da gestão de Fernando Henrique Cardoso -FHC e sendo previsto cinco anos para sua execução.</p><p>149</p><p>cabível para aprovação de tais ações que contribuía para a perda de parte do patrimônio</p><p>nacional pela demora frente a demanda. Assim, o mais garantido era dispor de diretrizes</p><p>que fortalecessem as municipalidades e estimulassem o setor privado para também</p><p>contribuir com a preservação dos conjuntos.</p><p>Quanto aos municípios, estes deveriam apresentar alguns quesitos obrigatórios,</p><p>sendo eles: possuir sítio ou conjunto incluído na lista de prioridade; comprovar</p><p>estabilidade financeira com participação do setor particular; e principalmente, organizar</p><p>um fundo de preservação mantido durante 20 anos em instituição financial, que deveria</p><p>ser alimentado pela valorização do Imposto Predial e Territorial Urbano – IPTU, pelo</p><p>aumento das atividades comerciais e de serviços provindas das intervenções do</p><p>programa, pelo reembolso ao setor privado, pelas contribuições de usufruto e pelas taxas</p><p>de concessão consequentes da restauração de áreas e imóveis públicos utilizados por</p><p>particulares, demonstrando sua capacidade de retorno. Após aprovada sua elegibilidade,</p><p>as municipalidades precisariam criar uma Unidade Executora de Projeto – UEP vinculada</p><p>a uma secretaria de governo e formada por equipe de profissionais responsáveis pela</p><p>coordenação, elaboração e/ou viabilização dos projetos a serem contemplados e seus</p><p>respectivos relatórios de desenvolvimento.</p><p>Mediante a estes pontos, o uso dos recursos do fundo estaria direcionado para a</p><p>conservação dos monumentos tombados em instância federal desde que inseridos nos</p><p>municípios pertencentes na Lista de Prioridades de Conservação do programa, que em</p><p>grande parte, encontravam-se dentro dos conjuntos já chancelados pelo Iphan. Quando</p><p>possível, os insumos poderiam ser destinados para os monumentos reconhecidos</p><p>estadual e municipalmente e, por último, caso o fundo apresente um montante superior</p><p>ao já aplicado, seria possível seu uso em áreas adjacentes ao perímetro escolhido.</p><p>A Lista de Prioridades de Conservação foi definida por um Grupo de trabalho – GT</p><p>contratado e formado em 2000, composto por especialistas independentes da área de</p><p>patrimônio, representantes da Unesco, MinC, Ministério da Educação, Iphan, Embratur,</p><p>além de órgãos estaduais e municipais de patrimônio. A equipe executou análises nas 92</p><p>cidades com bens protegidos no país, num total de 101 áreas urbanas com valor histórico-</p><p>cultural. A metodologia e atuação destinou-se a coletar informações bibliográficas e</p><p>documentais sobre os sítios, elaborando um banco de dados e definindo tipologias para</p><p>cada, onde aqueles que apresentassem determinada complexidade que ecoasse na</p><p>pluralidade do patrimônio seriam privilegiadas.</p><p>150</p><p>Estes estudos monográficos foram aplicados dividindo as áreas entre Sítios Históricos</p><p>Urbanos Nacionais – SHUNs, tombados federalmente e Conjuntos Urbanos de</p><p>Monumentos Nacionais – CUMNs que apresentassem no mínimo dois bens tombados</p><p>isoladamente em área urbana de interesse de preservação com elementos urbanísticos</p><p>catalisadores ou que os articulassem, mesmo não sendo chancelados. A equipe traçou</p><p>olhares para locais que até então não estavam incorporados nos Livros do Tombo a</p><p>exemplo dos CUMNs, que refletiam a diversidade cultural do Brasil, assim como os</p><p>exemplares coloniais, e junto com estes fortaleceriam o patrimônio nacional como objeto</p><p>digno de valorização.</p><p>Ao considerar que historicamente o Iphan em suas tomadas de decisão definiu o</p><p>patrimônio nacional baseado na política “pedra-e-cal” e que mesmo com suas mudanças</p><p>conceituais ao passar do tempo, representava-o em termos de excepcionalidade e</p><p>colocava a própria sociedade como um de seus segmentos, já o Programa Monumenta</p><p>premeditou ir além ao dispor de recursos para englobar representações culturais não em</p><p>mote centralizador. Segundo Duarte Júnior (2010), abandonava-se a ideia de patrimônio</p><p>atrelado as elites nacionais, incluía-se a não desvalorização dos acréscimos arquitetônicos</p><p>que as edificações sofriam historicamente e das manifestações arquitetônicas situadas</p><p>fora dos acervos institucionalizados. Mas ao tecermos uma reflexão crítica sobre algumas</p><p>das atuações do Monumenta, percebemos que tais ideais não condizem com a realidade</p><p>dos fatos. Conforme veremos adiante no caso da Cidade de Goiás, alguns dos resultados</p><p>ocorridos estão mais ligados a abordagem histórica do Iphan do que das intenções</p><p>conceituais do Monumenta.</p><p>No decorrer da caracterização das áreas analisadas, prospectava-se suas</p><p>potencialidades, problemas e principalmente o cenário futuro que poderiam oferecer, que</p><p>deveria ser ideal frente as premissas do programa. De todo território nacional, 22 estados</p><p>tiveram áreas urbanas estudadas, sendo eles: Amazonas, Alagoas, Bahia, Ceará, Distrito</p><p>Federal, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul,</p><p>Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande</p><p>do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Tocantins, excluindo os estados do Acre,</p><p>Amapá, Rondônia e Roraima56.</p><p>56 Para listagem das cidades analisadas ver Anexo I.</p><p>151</p><p>Após a listagem e colhimento das informações, o GT encabeçou a definição dos</p><p>trâmites necessários para a avaliação das áreas, onde definiu-se que o método “Análise</p><p>Hierárquica – AHP”57 seria utilizado para atribuir os seguintes critérios e proferir</p><p>pontuações:</p><p>[...] critérios de priorização: pluralidade (diversidade de aspectos</p><p>sociais, étnicos e religiosos da cultura brasileira), descentralização (no</p><p>sentido de regionalidade), homogeneidade e diversidade (internas aos</p><p>conjuntos urbanos, do ponto de vista cronológico e morfológico),</p><p>singularidade (ocorrência rara no conjunto e bens tombados), vazio</p><p>cronológico (lacuna de representatividade) e risco (de perda ou</p><p>degradação) (GIANNECCHINI, 2019, p.73, grifos nossos).</p><p>A lista que possuía 101 locais após a avaliação passou para 94, pois alguns CUMNs</p><p>tiveram seus bens que até então estavam isolados unidos por conta da proximidade58.</p><p>Além disso, a ordem de classificação final (Anexo II) resultou em uma constituição</p><p>equilibrada entre as regiões brasileiras, mesclando os estados entre as posições e</p><p>colocando nas primeiras, lugares que até então não detinham destaque nacional como Icó-</p><p>CE e Corumbá-MS.</p><p>Em 1997, o BID ao propor o programa sugeriu fazer um teste ao disponibilizar a</p><p>possibilidade de financiamento para execução de projetos intervencionistas em algumas</p><p>cidades pré-selecionadas, aos moldes de um laboratório prático. Sete cidades foram</p><p>indicadas por apresentarem relevância histórica e arquitetônica</p><p>dos bens, capacidade de</p><p>dar contrapartida financeira e atrair investidores da iniciativa privada, além de</p><p>apresentarem grande potencial turístico para a exploração de seus usos em vias</p><p>econômicas, culturais e sociais, sendo elas: Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Olinda</p><p>(PE), Recife (PE), Salvador(BA), São Luís (MA) e Ouro Preto(MG). Estas cidades tornar-</p><p>se-iam na vitrine do Monumenta conformando-se como sua “Amostra Representativa”,</p><p>que tomaremos como o grupo que forma a 1ª fase do programa, e o acompanhamento da</p><p>execução de seus projetos seriam desde o início para levantar os acertos e falhas para</p><p>possibilitar fazer as correções necessárias.</p><p>Entre os anos de 1997 e 1999 os planos estratégicos para as cidades vitrine foram</p><p>traçados, mas por conta da exclusão de São Luís do escopo por não ter seguido algumas</p><p>57 “Método criado na década de 1980 baseado no uso de um software para decisões mediante múltiplos</p><p>critérios” (GIANNECCHINI, 2010, p.73).</p><p>58 Praça XV, Praça Tiradentes, Candelária e Cinelândia no Rio de Janeiro; Conjunto de São Luís e Praça</p><p>Gonçalves Dias em São Luís; Pelourinho, Pilar e Cairú em Salvador; Pedro II e Sabará em Sabará e Mercado</p><p>Ver-o-Peso e Praça Frei Caetano Brandão em Belém.</p><p>152</p><p>das exigências e do atraso das capitais baiana e paulistana em finalizar seus projetos59, a</p><p>Amostra inicialmente ficou restrita apenas as outras quatro, tendo seus contratos</p><p>assinados ao final de 1999. Nos primeiros anos, dificuldades em relação a atrasos nas</p><p>obras, incompatibilidade dos projetos quanto as exigências do BID e fragilidade nas</p><p>administrações municipais junto ao Iphan fizeram o programa caminhar vagarosamente.</p><p>Só após as mudanças de algumas normativas como a contratação de consultores que</p><p>intermediaram as relações entre prefeituras e Iphan, as obras se desenvolveram,</p><p>alcançando bons resultados.</p><p>Em meio aos projetos da Amostra Representativa, novos 20 municípios que tiveram</p><p>pontuações altas na Lista de Prioridade foram indicados para o intento do Monumenta no</p><p>final dos anos 2000 compondo a 2ª fase, sendo eles: Alcântara (MA), Antônio Prado (RS),</p><p>Belém (PA), Brasília (DF), Cachoeira (BA), Carapicuíba (SP), Cidade de Goiás (GO),</p><p>Congonhas (MG), Corumbá (MS), Diamantina (MG), Icó (CE), João Pessoa (PB),</p><p>Lençóis (BA), Natividade (TO), Oeiras (PI), Pelotas (RS), Penedo (AL), Porto Alegre</p><p>(RS), São Francisco do Sul (SC)e Tiradentes (MG).</p><p>Destas, 560 não participaram do programa por apresentarem dificuldades para</p><p>elaborar os projetos, desinteresse por parte das gestões municipais e/ou instabilidade</p><p>financeira, sendo inviável construir parceiras eficazes entre municípios e setores</p><p>privados. Com isso, em 2002 outras 6 foram convidadas: Laranjeiras (SE), Mariana</p><p>(MG), Manaus (AM), São Cristóvão (SE), Serro (MG), Paraty (RJ) e Porto Seguro (BA) –</p><p>3ª fase, sendo que as duas últimas não acataram, totalizando um final de 20 municípios.</p><p>Fica claro que ao buscar a pluralidade, o programa abriu espaço para patrimônios não</p><p>populares que encontravam-se chancelados, resultando em um compilado de cidades de</p><p>todas as regiões do país. Do mesmo modo que a arquitetura barroca e modernista grifada</p><p>estavam presentes, sendo a primeira em grande número, a arquitetura eclética, indígena,</p><p>industrial e dos imigrantes, estigmatizadas pelo Iphan durante seus primeiros anos foram</p><p>incluídas.</p><p>De modo geral, em todas as 26 cidades o programa promoveu reestruturações em</p><p>alguns monumentos representativos para cada contexto e em suas áreas urbanas</p><p>59 Giannecchini (2019) menciona que Salvador demorou aderir-se ao programa por conta de uma das</p><p>premissas de sua proposta que previa a expulsão de moradores da área selecionada, que ao ocasionar</p><p>revoltas nas associações locais, fez com que o Ministério Público intervisse, implicando em sua revisão. Já</p><p>em São Paulo, a demora deu-se pelo desinteresse por parte da administração pública local que postergou o</p><p>processo de estruturação das propostas de intervenção.</p><p>60 Antônio Prado (RS), Brasília (DF), Carapicuíba (SP), João Pessoa (PB) e Tiradentes (MG).</p><p>153</p><p>adjacentes como modo de valorizar as imagens dos conjuntos e sítios selecionados. Os</p><p>edifícios históricos foram escolhidos mediante a seu estado de conservação e preservação</p><p>e os projetos urbanos tiverem suas propostas trabalhadas de modo a contribuir com a</p><p>valorização dos monumentos encontrados nas áreas, aproveitando dos aspectos</p><p>morfológicos urbanísticos para evidenciar as qualidades arquitetônicas.</p><p>No Plano Plurianual federal de 2002 a 2005, que colocava o Estado com maiores</p><p>responsabilidades em relação a preservação dos patrimônios nacionais, o Iphan é posto</p><p>no epicentro do programa assumindo a coordenadoria técnica. Este novo ciclo refletiu no</p><p>melhoramento dos índices de prospecção de contratos, principalmente por conta da fase</p><p>político-econômica em ascensão que o país se encontrava.</p><p>Em 2004, ano que findaria o programa, o BID o prorrogou por mais dois anos, e MinC</p><p>e a Caixa Econômica Federal – Caixa afirmaram contrato estabelecendo a segunda como</p><p>novo agente financeiro a dispor de financiamentos a juros baixos para atender o Projeto</p><p>de Financiamento de Imóveis Privados – Frip. Para inclusão ao projeto, os proprietários</p><p>interessados inscreviam suas propostas em editais públicos, detalhando o que seria feito</p><p>em relação a custos, cronograma e obra, sob o auxílio de profissionais de arquitetura,</p><p>engenharia ou dos próprios técnicos do Iphan.</p><p>Os contratos firmados contemplaram projetos de recuperação de fachadas e</p><p>coberturas, demolição de acréscimos que descaracterizavam a originalidades das</p><p>edificações, o que já demonstrava um posicionamento diferente das premissas do</p><p>programa, além de reestruturação das instalações elétricas e estruturais. Quanto as</p><p>propostas que intervinham nos interiores só foram aceitas caso a renda familiar fosse</p><p>inferior a três salários mínimos. Segundo o Relatório do BID (2010), foi um modo de</p><p>estimular que estas famílias permanecessem nos centros históricos e de possibilitar que</p><p>o Iphan contribuísse junto aos moradores para que seus imóveis não ruíssem por falta de</p><p>recursos.</p><p>A partir de 2005 o programa passou a dispor de recursos para a implementação de</p><p>ações voltadas a preservação sustentada, possibilitando a ampliação do contingente de</p><p>cidades atendidas ao aprovar que municípios até então não incluídos pudessem pleitear</p><p>o fomento (4ª fase). Através de parcerias com entidades da sociedade civil, o programa</p><p>soltou editais que visaram contribuir para geração de empregos ao promover atividades</p><p>econômicas de fundo privado, cursos de capacitação e educação patrimonial espalhados</p><p>por 46 cidades, além da organização de alguns Planos Diretores. Em 2006, o coordenador</p><p>154</p><p>geral do Monumenta assumiu a direção do Iphan e o programa foi prorrogado por mais</p><p>dois anos, findando em 2009 com os últimos financiamentos disponibilizados.</p><p>O Monumenta se consolidou como uma emblemática política pública que gerou</p><p>resultados importantes para o setor preservacionista nacional. Mas por considerar que a</p><p>efetividade dos projetos estava a cargo dos agentes públicos nacionais e internacionais,</p><p>das instituições privadas e da sociedade civil, cada caso tornou-se em um objeto de</p><p>particular observação. Assim, para se ter uma perspectiva mais eficaz sobre os</p><p>desdobramentos do Monumenta, é necessário analisar, junto a estruturação conceitual e</p><p>administrativa, cada contexto separadamente para a melhor compreensão do todo, assim</p><p>como faremos com a Cidade de Goiás.</p><p>3.1.1 | Cidade de Goiás também é Monumenta</p><p>A história do Programa Monumenta na Cidade de Goiás deu-se início nos anos 2000</p><p>com a inclusão da mesma na Lista de Prioridades correspondente ao escopo de</p><p>municípios que compunham a 2ª fase do programa (Tabela 1). Até então, a antiga capital</p><p>goiana possuía parte de seu conjunto arquitetônico e urbanístico tombado</p><p>em 1978 pelo</p><p>Iphan, o que a fez ser compreendida como SHUNs. Após o convite, a administração pública</p><p>municipal representada pela Prefeitura em parceria com o Escritório Técnico do Iphan na</p><p>cidade – ETEC Goiás iniciou o processo para envio da Carta Consulta ao Monumenta, que</p><p>fora aprovada em setembro de 2001, formalizando, assim, a inclusão do município no</p><p>grupo das 26 cidades prioritárias, sendo o único exemplar do Estado de Goiás.</p><p>1ª fase Cidades da “Amostra Representativa”</p><p>2ª fase Cidades contempladas nos anos 2000</p><p>3ª fase Cidades contempladas em 2002</p><p>4ª fase Cidades contempladas não pertencentes ao grupo das 26 prioritárias.</p><p>Tabela 1: Fases do Programa Monumenta – grupos de cidades contempladas. Organizado pelo autor. 2020</p><p>155</p><p>Dentre as 94 áreas avaliadas pelo GT Monumenta, o sítio vilaboense ficou na quarta</p><p>posição (Anexo II – nota: 0,893 de 1), que segundo o Caderno Técnico do Programa</p><p>Monumenta (BRASIL, 2005), justificou-se pela autenticidade de seu conjunto que</p><p>mantinha-se preservado, pela sua possibilidade de ser reconhecida como Patrimônio</p><p>Mundial a época que demandaria por obras de conservação em monumentos e espaços</p><p>públicos e a fortaleceria como lugar de referência e por sua facilidade de acesso para uma</p><p>possível apropriação cultural que poderia respaldar em seu desenvolvimento turístico. O</p><p>GT ponderou que haveria a necessidade da retirada da fiação elétrica que se encontrava</p><p>aérea, a melhor estruturação do saneamento básico, a recuperação do calçamento, ambas</p><p>que já vinham sendo executadas, além da restauração de alguns imóveis.</p><p>Em relação aos fatores de degradação e descaracterização do sítio, pontuava-se que a</p><p>Cidade de Goiás não apresentava um planejamento para seu desenvolvimento sustentável</p><p>principalmente em relação ao turismo local que se mantinha singelo por falta de uma</p><p>gestão urbana que contribuísse para seu afluxo. Além disso, apresentava falta de</p><p>mecanismos que impedissem a retomada da extração mineral na região do Rio Vermelho</p><p>mesmo que remota, cujo trabalho poderia impactar em sua calha. Por fim, a avaliação</p><p>enaltece o quanto a cidade preservou as tradicionalidades relacionadas a culinária,</p><p>manifestações religiosas e civis, entre outros (BRASIL, 2005) e que foram tão pontuadas</p><p>no Dossiê de Goiás.</p><p>Paralelamente a avaliação da cidade pelos agentes do Monumenta, a antiga vila estava</p><p>na corrida para seu reconhecimento pela Unesco, outorgado em dezembro de 2001. No</p><p>dia 31 daquele mês, em meio ao festivo momento de seu reconhecimento como</p><p>Patrimônio da Humanidade, a cidade enfrentou uma das mais preocupantes catástrofes</p><p>naturais que comprometeu parte considerável de sua infraestrutura urbana, incluindo de</p><p>seu conjunto institucionalizado.</p><p>A enchente do Rio Vermelho (Figura 39) destruiu casas, comércios, pontes, museus e</p><p>marcos históricos como a Cruz do Anhanguera, além de ter impactado drasticamente a</p><p>avenida às margens do afluente conhecida popularmente como beira-rio e que</p><p>coincidentemente comprovou da pior maneira possível as preocupações apontadas pelo</p><p>GT a respeito da vazão do rio. Tal acontecimento colocou a cidade no âmago do Programa</p><p>Monumenta que rapidamente disponibilizou de recursos para contribuir diretamente na</p><p>reconstrução do recente Patrimônio Mundial juntamente ao Iphan, Governo Estadual e</p><p>Municipal, a Unesco e demais agentes preservacionistas locais.</p><p>156</p><p>Figura 39: Enchente do Rio Vermelho em 2001. Fonte: OLIVEIRA, et al. 2019.</p><p>Os trabalhos iniciaram na Cidade de Goiás em 2002 após a assinatura do Convênio de</p><p>Financiamento juntamente ao BID e apresentou uma trajetória marcada por grandes</p><p>feitos com investimentos que juntos somam valor acima dos cinco milhões de reais. O</p><p>programa alcançou na cidade prospecção considerável quanto a sua atuação</p><p>contemplando projetos em diferentes magnitudes e nichos e perpassou por quatro grupos</p><p>específicos, configurando uma área considerável do conjunto tombado da cidade:</p><p>I | Monumentos: Chafariz da Boa Morte, Museu das Bandeiras, Cruz do Anhanguera,</p><p>Igreja Nossa Senhora do Carmo e Mercado Municipal;</p><p>II | Espaços Públicos: Requalificação das margens do trecho urbano do Rio Vermelho</p><p>(beira-rio) e Praça da Liberdade (Largo do Coreto);</p><p>III | Projetos Patrocinados: Realização Festival de Poesia de Goyaz, Projeto de</p><p>mapeamento e inventário Estrada do Nascente: trilhas e caminhos de Vila Boa e</p><p>Consultorias para elaboração de projetos museográfico e museológico para o Museu das</p><p>Bandeiras e diagnóstico dos arquivos municipais;</p><p>IV | Projeto Frip: 102 edificações privadas contempladas.</p><p>Parte das áreas e objetos escolhidos pelo programa estavam diretamente relacionadas</p><p>aos bens destruídos pela enchente de 2001 como a Cruz do Anhanguera, a recuperação</p><p>da Igreja Nª. Sra. do Carmo, da beira-rio e de alguns imóveis privados. Ambos foram</p><p>inclusos posteriormente à inundação, entrando no programa como obras emergenciais</p><p>logo em 2002 e tendo o Governo Estadual como parceiro.</p><p>Apesar dos bons resultados, algumas incompatibilidades políticas também foram</p><p>acometidas gerando desgaste entre as gestões competentes e refletindo nas funções e</p><p>157</p><p>relações. Na cidade, a contrapartida financeira obrigatória para a implantação do</p><p>programa ficou a cargo do governo estadual e não da Prefeitura, o que acabou gerando</p><p>uma delicada relação entre algumas gestões municipais61 e demais agentes responsáveis</p><p>pelo programa na cidade62.</p><p>A convivência foi tão conflituosa que o próprio fundo de preservação não foi utilizado</p><p>durante alguns anos por causa da má administração da primeira equipe formada pela</p><p>prefeitura, que era obrigatoriamente a responsável por sua organização. Além disso,</p><p>alguns processos foram dificultados por causa de desavenças pessoais entre gestores</p><p>municipais e proprietários (GIANNECCHINI, 2019). A situação só foi controlada quando a</p><p>última gestão municipal assumiu tais questões por ter apresentado uma preocupação</p><p>maior com o patrimônio vilaboense.</p><p>Deste modo, para melhor organização e elucidação dos projetos, será interessante</p><p>analisá-los separadamente. Por isso, os abordaremos seguindo a divisão proposta acima,</p><p>a não ser pela igreja que não foi disponibilizada documentação a respeito e pelo Mercado</p><p>Municipal que retrataremos no item posterior63. Consideraremos como interessantes</p><p>para esta pesquisa apenas os grupos 1, 2 e 4 por estarem relacionados de forma mais</p><p>intrínseca a questões arquitetônicas e urbanísticas.</p><p>| Monumentos</p><p>Poucos foram os monumentos selecionados pelo Programa Monumenta na Cidade de</p><p>Goiás (Mapa 9) porque apresentavam bom estado de conservação. O primeiro projeto do</p><p>programa na cidade foi a reforma e restauração em 2002 do Chafariz da Boa Morte64 e de</p><p>parte de seu Largo. Por mais que o largo configura-se como espaço público, aqui o teremos</p><p>como parte das obras em monumentos pelo fato de o chafariz ter sido o real motivo da</p><p>sua inclusão ao programa. Em suma, o projeto beneficiou a estrutura do monumento em</p><p>61 O Programa Monumenta na Cidade de Goiás passou por quatro gestões municipais: 2001-2004, 2005-</p><p>2008, 2009-2012 e 2013-2016, sendo que a última diz respeito apenas ao período de finalização de algumas</p><p>obras.</p><p>62 Governo Estadual, Iphan e coordenadores do programa na Cidade de Goiás (UEP) representados por</p><p>pessoas ligadas ao ETEC-Goiás e à antiga AGEPEL – Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico Teixeira, hoje</p><p>nomeada como Secretaria de Estado de Cultura – Secult.</p><p>63 Inicialmente a reforma do Mercado Municipal foi tido como o carro-chefe das obras do Programa</p><p>Monumenta na Cidade de Goiás, tanto que teve projeto desenvolvido. Mas por conta do atraso no início de</p><p>suas obras e da finalização do programa, o Mercado entrou para o escopo das ações exercidas pelo PAC-</p><p>Cidades Históricas.</p><p>64 Também conhecido por Chafariz de Cauda.</p><p>158</p><p>si, mas sua principal contribuição foi para o largo com</p><p>a melhoria de seu paisagismo, a</p><p>troca do mobiliário urbano e das instalações elétricas do largo e a demolição do antigo</p><p>anfiteatro locado em frente ao chafariz, sendo esta última, a ação mais intrigante.</p><p>Mapa 9: Monumentos recuperados e restaurados pelo Programa Monumenta. Base cartográfica disponibilizada pelo</p><p>Escritório Técnico do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019.</p><p>Historicamente, os largos da Cidade de Goiás afirmaram-se como representativos</p><p>espaços de convivência, palcos para manifestações culturais e importantes frutos do</p><p>159</p><p>urbanismo colonial. Sua contribuição para com a imagem local é tamanha que desde as</p><p>primeiras investidas do Iphan na cidade, os mesmos foram considerados de imensurável</p><p>valor para os vilaboenses, tanto que na década de 1950 o próprio Largo do Chafariz</p><p>(Figura 40) teve seu conjunto arquitetônico e urbanístico tombado, assim como o Chafariz</p><p>que tornou-se em monumento emblemático da cidade e nos anos 1970 os do Coreto e do</p><p>Rosário também foram institucionalizados. A tríade de largos triangulares foi por várias</p><p>vezes objetos de olhares mais direcionados frente aos projetos de restruturação e</p><p>restauração da cidade.</p><p>Figura 40: Largo do Chafariz. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>O Largo do Chafariz sempre foi habitado pela elite vilaboense, sendo o espaço mais</p><p>nobre da cidade por muitos anos, senão até hoje, e em um dos lugares de convívio mais</p><p>monumentais pela sua proporção. Por este motivo a atuação do Monumenta no local</p><p>repercutiu em diferentes sentidos, principalmente por ter retomado um possível trauma</p><p>passado. Na década de 1970 o Largo passou por reforma onde postes de iluminação,</p><p>fiações aéreas e um anfiteatro (Figura 41) foram inseridos, descaracterizando o que para</p><p>os vilaboenses mais antigos era tido como um ambiente à vontade, livre e sem barreiras</p><p>físicas e acabou gerando incômodo entre Iphan e moradores.</p><p>160</p><p>Figura 41: Antigo anfiteatro do Largo do Chafariz. Fonte: Programa Monumenta in TAMASO, 2007.</p><p>Tamaso (2007, p.509) explana que o projeto produziu grande revolta nos vilaboenses</p><p>por não terem sido consultados pelo Iphan a priori e pelo órgão não ter considerado os</p><p>“usos e apropriações que os moradores faziam daquele lugar habitado e vivido por eles e</p><p>por suas famílias, algumas por mais de um século”. O anfiteatro construído para atender</p><p>a imagem turística que estava a ser iniciada na cidade, foi recebido com muitas críticas</p><p>por ter infringido o sentido histórico que o Largo apresentava para a antiga vila, tanto que</p><p>concomitantemente não fora utilizado durante anos. Assim, o uso do ambiente que estava</p><p>dentro de uma perspectiva local, tradicional e simbólica, foi colocado em meio a um novo</p><p>lugar de troca e preparado para ser consumido por quem visitaria a cidade, valorizando</p><p>mais quem vêm do que quem está.</p><p>Três décadas depois, o problemático anfiteatro retoma seu lugar dentro das políticas</p><p>preservacionistas, em que sua demolição é proposta pelo projeto incorporado ao</p><p>Monumenta por motivos de ser considerado um local degradado, sem uso e que não</p><p>contribuía para o bom funcionamento do Largo. O que anteriormente foi tido como uma</p><p>ambiência que refletia o desejo de desenvolvimento e consumo da imagem patrimonial</p><p>da cidade, em 2002 tornou-se em sinônimo de descaso e depredação. Tanto que sua</p><p>eliminação não foi tida como um problema a ser refutado, diferente de outros pontos que</p><p>foram apresentados na proposta projetual, que mais uma vez colocou em discordância</p><p>agentes preservacionistas e civis, assim como o ocorrido na década de 1970.</p><p>Além do anfiteatro, o projeto previa a retirada da via central ou alameda do Largo que</p><p>consequentemente promoveria o aumento do gramado, possibilitaria seu uso para</p><p>eventos maiores e resultaria no corte de algumas vegetações. Tais quesitos foram</p><p>desaprovados pelos vilaboenses presentes na apresentação da proposta, por serem</p><p>161</p><p>considerados de suma importância para a ambiência local. Para os moradores a retirada</p><p>da alameda causaria incômodo ao transferir o trânsito de veículos para as vias laterais</p><p>frente às casas e as árvores que por encontrarem-se ali há muito tempo, se tornaram em</p><p>parte da memória afetiva (TAMASO, 2007).</p><p>As modificações propostas para o Largo tinham por fundamento retomar a</p><p>originalidade do conjunto a época que não possuía vias o cortando, buscando eliminar as</p><p>interferências físicas construídas ao passar dos anos. Mas depois de idas e vindas as duas</p><p>modificações desaprovadas foram retiradas do corpo do projeto, mantendo-se apenas a</p><p>demolição do anfiteatro e as demais estruturações em relação a mobiliário urbano,</p><p>instalações elétricas e ao chafariz em si que teve seu calçamento trocado e seu reboco e</p><p>pintura refeitos</p><p>É interessante relacionar que as intenções apresentadas na proposta do Monumenta</p><p>foram de encontro as obras executadas pelo Iphan na década de 1970 no Quartel do XX</p><p>justamente por buscar retomar aquilo que um dia foi. Mas também, é contra as premissas</p><p>originais do próprio programa apresentadas pelos técnicos do BID, que visavam respeitar</p><p>as modificações das arquiteturas por serem consideradas reações dos processos</p><p>históricos que conformam o patrimônio. Além de que nos permite perceber o quanto a</p><p>negação da presença do anfiteatro fora atemporal, pois ao mesmo modo que</p><p>anteriormente o mesmo foi recusado e subutilizado pela população, foi este mesmo</p><p>desabono que o fez ser eliminado.</p><p>Fica claro que a falta de representatividade do anfiteatro para o ambiente que o</p><p>conformava o menosprezou ao ponto de ter primeiramente negado, depois esquecido e</p><p>ao final eliminado. Mas a falta de significado que o fez ser um objeto preterido pela</p><p>população, pelo Iphan e pelo Monumenta, cada qual em uma determinada época, já não</p><p>pode ser considerada em relação ao projeto que envolve a reconstrução da Cruz do</p><p>Anhanguera. Pelo contrário, enquanto o primeiro tornou-se em motivo de debates pela</p><p>sua falta de sentido, o segundo é marcado por conflitos ideológicos justamente pelos dois</p><p>lados que sua representação tem para com a cidade.</p><p>Considerada um dos símbolos da antiga vila, a Cruz do Anhanguera foi inaugurada em</p><p>1918 no local que hoje define-se pelo cruzamento da Rua Moretti Foggia com a Avenida</p><p>Sebastião Fleury Curado (Figura 42), onde um dia encontrava-se a Igreja da Lapa</p><p>destruída pela primeira enchente que marcou fisicamente a Cidade de Goiás em 1839. A</p><p>cruz de madeira feita originalmente por Bartolomeu Bueno da Silva, apoiada sobre uma</p><p>162</p><p>estrutura em alvenaria com pilares ao estilo neoclássico e construída para homenagear o</p><p>bandeirante, foi 100% destruída pela força das águas do Rio Vermelho em 2001, sendo</p><p>encontrada dois dias depois em meio aos escombros e apresentando algumas avarias.</p><p>Figura 42: Largo da Cruz do Anhanguera. Ano e autor desconhecido. Fonte: Acervo digital Iphan.</p><p>Segundo Tamaso (2007), com a destruição do monumento alguns embates sobre a</p><p>representatividade da Cruz adentraram no cotidiano da cidade. Enquanto de um lado</p><p>alguns personagens apoiavam a sua reconstrução, representados principalmente pela</p><p>elite cultural vilaboense, de outro e encabeçados por algumas figuras eclesiásticas locais,</p><p>incentivava-se a não afirmação da imagem do bandeirante que além de fundador do</p><p>antigo arraial estava atrelada a expropriação indígena, indicando-se sua não recolocação</p><p>e, sim, a construção de um novo monumento. Depois de algumas semanas de discussões</p><p>e sob a força do título de Patrimônio Mundial que a cidade agora possuía e por considerar</p><p>a cruz como parte deste patrimônio reconhecido e da história de Goiás, mesmo que não</p><p>tenha sido tombada isoladamente ou considerado como um marco relevante no Dossiê, a</p><p>Cruz teve sua reconstrução aprovada.</p><p>Inaugurado em junho de 2004, o monumento foi reconstruído do zero baseado em</p><p>fotos antigas (Figura 43) e seguindo</p><p>158</p><p>Mapa 10: Espaços Públicos– Programa Monumenta. Base cartográfica disponibilizada pelo</p><p>Escritório Técnico do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019. ................................ 170</p><p>Mapa 11: Monumentos recuperados e restauradas pelo PAC – Cidades Históricas. Base</p><p>cartográfica disponibilizada pelo Escritório Técnico do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo</p><p>autor. 2019. ........................................................................................................................................ 189</p><p>Mapa 12: Circuito da Procissão do Fogaréu. Base cartográfica disponibilizada pelo Escritório</p><p>Técnico do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019. .................................................. 217</p><p>SUMÁRIO |</p><p>INTRODUÇÃO | 20</p><p>CAPÍTULO I</p><p>DE ARRAIAL A PATRIMÔNIO | 28</p><p>1.1 | O Arraial que virou Cidade | 29</p><p>1.2 | Patrimônio: conceito em transformação | 44</p><p>1.2.1 | O patrimônio institucionalizado brasileiro | 47</p><p>1.3 | Patrimônio vilaboense: de indeferido a mundial | 59</p><p>1.3.1 | Dossiê de Goiás: o documento-monumento | 82</p><p>CAPÍTULO II</p><p>IMAGEM DA CIDADE E PATRIMÔNIO | 96</p><p>2.1 | Cenarização patrimonial: busca pela imagem ideal | 97</p><p>2.2 | Cenários para Cidade de Goiás | 103</p><p>2.3 | Normativas preservacionistas locais e outros casos exemplares | 115</p><p>2.3.1 | Luzes e pedras | 126</p><p>2.3.2 | Fachadas em cores | 130</p><p>2.3.3 | Mimetismo arquitetônico | 139</p><p>CAPÍTULO III</p><p>PATRIMÔNIO E SOCIEDADE: INVESTIMENTO, PRESERVAÇÃO E TURISMO | 146</p><p>3.1 | Programa Monumenta: conhecimento e investimento | 147</p><p>3.1.1 | Cidade de Goiás também é Monumenta | 154</p><p>3.2 | PAC-Cidades Históricas: novo pacto pela preservação | 181</p><p>3.2.1 | O programa nacional na perspectiva local | 187</p><p>3.3 | Turismo e Patrimônio Cultural: uma via de mão dupla | 205</p><p>3.3.1 | Práticas turísticas vilaboenses | 213</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS | 233</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS | 240</p><p>ANEXOS | 245</p><p>Igreja do Rosário</p><p>Foto: SOUZA, 2018.</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>21</p><p>O conceito de Patrimônio como conhecemos hoje está relacionado à diferentes</p><p>valores, tais como: memória, tradição, o saber fazer, questões econômicas, políticas,</p><p>sociais, estéticas, filosóficas e simbólicas, quer dizer, os modos como o homem se</p><p>relaciona com o espaço e os outros em um determinado recorte de tempo. Seu sentido</p><p>primeiro é o de herança, o que é deixado para os descendentes. Com o tempo, a ideia de</p><p>sua institucionalização surgiu com o intuito de selecionar bens que tornar-se-iam</p><p>representativos de um povo/estado/nação, dando início aos debates sobre os meios de</p><p>proceder a sua preservação.</p><p>Nos últimos tempos, é notório o quanto a valorização do passado tornou-se latente,</p><p>especialmente quando relacionada à temática patrimonial nas cidades. O patrimônio</p><p>tornou-se em um sinônimo de vínculo social e por influenciar diretamente nas vivências,</p><p>nos valores e em questões de representação e significado de uma sociedade, afirmou-se</p><p>como uma notável chave para compreendê-la (POULOT, 2009). Deste modo, esta pesquisa</p><p>propôs-se em compreender o patrimônio como articulador de ações institucionalizadas</p><p>ou não, no tecido urbano, e capaz de edificar imagens urbanas relacionadas a ele, em</p><p>detrimento do restante da cidade.</p><p>Dito isso, apresenta-se o conjunto arquitetônico e urbanístico institucionalizado</p><p>como patrimônio da Cidade de Goiás como objeto empírico. O interesse volta-se ao</p><p>histórico da cidade, marcado por tombamentos, intervenções e práticas culturais, e que a</p><p>fez estar inserida no contexto de patrimônio nacional e mundial. Experienciar a área</p><p>institucionalizada, suas edificações, espaços públicos e manifestações culturais que ali</p><p>ocorrem, revela que estes elementos são passíveis à transmissão da efetividade das</p><p>práticas preservacionistas implantadas. Além, também, de irradiar a perspectiva de</p><p>serem condicionantes da evolução da paisagem urbana colocada em questão, a luz de seu</p><p>patrimônio.</p><p>Trabalhar com o patrimônio da Cidade de Goiás é desenlace de uma relação construída</p><p>antes mesmo da minha existência. Desde sempre, escuto histórias de quando meus pais,</p><p>após casarem, mudaram para a cidade na década de 1980. Em suas memórias, a casa que</p><p>habitavam próxima ao centro antigo sempre esteve presente, assim como o rio, o casario</p><p>e as ruas “difíceis de andar”, que juntos criavam o cenário de suas lembranças. As</p><p>vivências de meus pais, as viagens com a escola, grupos católicos e amigos, fizeram</p><p>interessar-me pela antiga vila desde muito jovem, especialmente por suas festas,</p><p>culinária, arquitetura, poesias e pessoas.</p><p>22</p><p>A graduação em Arquitetura e Urbanismo, que me apresentou o patrimônio como</p><p>conceito e objeto de observação, me fez compreender em como as recordações do pai e</p><p>da mãe estavam relacionadas ao que hoje é Patrimônio Mundial. Compreendi a</p><p>importância e os dissabores dos chancelamentos para a história do patrimônio. Ao</p><p>escolher seguir carreira na academia, sabia que o patrimônio seria meu objeto empírico</p><p>inicial por ter gostado das avaliações que o mesmo me instigava. Aos poucos, fui</p><p>escrevendo meu interesse pelo conceito e buscando relacioná-lo aos contextos que</p><p>estavam à minha volta e nada mais justo seria criticá-lo cientificamente frente à cidade</p><p>patrimônio das minhas próprias vivências.</p><p>A Cidade de Goiás é resultado de um processo de construção singular em relação a</p><p>outras cidades setecentistas e de um histórico marcado por ganhos e perdas. Criado no</p><p>período das bandeiras paulistas, que por influência da descoberta do ouro desbravou</p><p>novas territorialidades Brasil afora, o antigo Arraial de Sant’Ana consolidou-se às</p><p>margens do Rio Vermelho no século XVIII. Tempos depois, tornou-se Villa Boa de Goyaz e</p><p>Capitania em 1736, materializando em seu pequeno tecido urbano as primeiras</p><p>edificações religiosas, militares, públicas e residenciais.</p><p>Aos poucos um modesto conjunto arquitetônico vernacular foi concebido seguindo</p><p>direcionamentos da coroa portuguesa, mas adaptados à realidade econômica, topográfica</p><p>e do clima local. Por conta do declínio aurífero ainda no século XVIII, a vila entrou em um</p><p>período de inércia, vindo a ser reconhecida como cidade apenas em 1818. Representou o</p><p>Estado como sua capital até 1937, ano da transferência do foro para Goiânia e, a partir de</p><p>então, deparou-se em meio ao sentimento de esquecimento.</p><p>A mudança, ao mesmo tempo que representa a perda mais simbólica à cidade, auxiliou</p><p>na sobrevivência da arquitetura tradicional vilaboense. Com poucas adequações feitas</p><p>pelo casario, especialmente sob influência de vertentes estilísticas que provinham da</p><p>Europa ou pelo desejo de modernização pós construção de Goiânia, o centro mais antigo</p><p>manteve preservada sua arquitetura de maneira louvável. Entremeio a perda, o início das</p><p>políticas preservacionistas com a criação do hoje conhecido Instituto do Patrimônio</p><p>Histórico e Artístico Nacional – Iphan, possibilitou à cidade escrever uma nova história</p><p>afirmando em escala mundial sua imagem de cidade colonial.</p><p>23</p><p>Em todo território nacional, o Iphan busca, desde 1937, proferir tombamentos1 e</p><p>ações preservacionistas em variados objetos culturais através de processos de definição</p><p>de valores e seleção. O órgão público que tem por função regulamentar a salvaguarda dos</p><p>bens nacionais, apresenta um percurso marcado por diferentes fases, permeadas por</p><p>ideais, políticas e práticas que foram evoluindo ao passar dos anos, mediante aos</p><p>preceitos mundiais da preservação do patrimônio. Inicialmente, o Iphan selecionava os</p><p>bens passíveis de preservação diante de valores históricos e artísticos. Naquele momento,</p><p>traduziu a identidade nacional como fruto do período colonial, definindo este como o</p><p>período mais valorizado em suas primeiras investiduras.</p><p>os parâmetros originais, além de ter sido estipulado</p><p>nova iluminação que o destacasse na paisagem. Um ponto interessante apontado em um</p><p>dos documentos do Iphan foi a substituição da Cruz de madeira original por uma réplica</p><p>existente no Museu das Bandeiras - Muban, trocando de lugar com esta e, assim, ficando</p><p>163</p><p>protegida65. Tal fato nos leva a observar que o monumento recolocado no costumeiro da</p><p>cidade tem por intuito representar o simbolismo que o conforma mais em forma de</p><p>imagem do que apresentá-lo como objeto autêntico. A cruz original, disputa entre os</p><p>vilaboenses, hoje é observada como parte do acervo do museu, contribuindo na ampliação</p><p>de suas significações e por consequência, de seu potencial turístico.</p><p>Figura 43: Largo da Cruz do Anhanguera. À esquerda: antes da enchente. Ano indeterminado. Fonte: Acervo digital</p><p>Iphan. À direita: após reforma do Monumenta. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Seguindo com os projetos do Programa Monumenta na cidade, por fim chegamos ao</p><p>último monumento selecionado, o referido Museu das Bandeiras localizado na antiga Casa</p><p>de Câmara e Cadeia (Figura 44). Diferente dos outros dois projetos que transitaram entre</p><p>ações físicas e representações antagônicas, a proposta para o Museu visou</p><p>especificamente melhorar sua infraestrutura e contribuir para com seu uso aos moldes de</p><p>um panorama atrativo e turístico. Conforme encontrado em documentos referentes à</p><p>obra66, o Museu foi escolhido mediante a sua importante função para com a Cidade de</p><p>Goiás ao conservar e apresentar em exposição permanente, objetos e documentos</p><p>relacionados a ocupação do Centro-Oeste. Além disso, seu estado de conservação que</p><p>mesmo em condição regular apresentava algumas anomalias e sua capacidade de tornar-</p><p>se sustentável, fundamentaram a sua inclusão ao programa.</p><p>65 Disponível em:</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/17137?discover?rpp=10&etal=0&query=cr</p><p>uz+do+anhanguera. Acesso em: 25 de fevereiro de 2020.</p><p>66 Disponível em:</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/10707?discover?rpp=10&etal=0&query=m</p><p>useu+das+bandeiras. Acesso em: 02 de março de 2020.</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/17137?discover?rpp=10&etal=0&query=cruz+do+anhanguera</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/17137?discover?rpp=10&etal=0&query=cruz+do+anhanguera</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/10707?discover?rpp=10&etal=0&query=museu+das+bandeiras</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/10707?discover?rpp=10&etal=0&query=museu+das+bandeiras</p><p>164</p><p>Figura 44: Museu das Bandeiras. Fachada frontal e anexo. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Os relatórios apontam que o edifício havia passado por restauração na década de 1980</p><p>utilizando de escassos recursos que foram disponibilizados, além de apresentar</p><p>manutenção deficiente e de manter-se apenas com fundos facultados pela 14ª</p><p>Superintendência Cultural/Iphan/MinC, necessitando, assim, por planos para sua</p><p>autossutentabilidade. As obras objetivaram-se aumentar sua prospecção turística ao</p><p>oferecer maior conforto e atratividade aos visitantes (turistas e locais), além de terem por</p><p>intuito proporcionar o aumento da arrecadação para o fundo de preservação. Nota-se que</p><p>a potencialidade do museu em ser objeto de consumo e geração de renda foi notado como</p><p>elemento chave para contribuir com o andamento do próprio programa na cidade.</p><p>O projeto executado no Muban promoveu a melhoria nas instalações sanitárias e</p><p>elétricas, a troca de telhas, pisos e forros de madeiras, o tratamento de infiltrações, a</p><p>substituição do reboco das paredes e sua repintura, a revisão e troca de algumas</p><p>esquadrias que estavam deterioradas, a demolição e reconstrução do calçamento interno</p><p>e externo e a melhor estruturação das exposições e de seu circuito de visitação. O museu</p><p>passou também por um processo de compatibilização de seus projetos de combate a</p><p>incêndio em relação a extintores, para-raios e rotas de fuga que estavam comprometidas</p><p>pela desorganização dos ambientes por causa de seus layouts, além de ter se adequado</p><p>quanto a acessibilidade por Pessoas com Deficiência – PCD com a inserção de cápsula de</p><p>mobilidade, rampas e banheiros específicos.</p><p>Em relação ao uso do Muban, o projeto propiciou o aproveitamento do anexo</p><p>localizado aos fundos da antiga cadeia para ofertar ambiente de consumo gastronômico</p><p>por meio da construção de um café. Nota-se a preocupação por parte dos agentes</p><p>responsáveis em multiplicar os serviços do museu, que além de exposições passaria a</p><p>oferecer um local destinado ao comércio. Montaner (2003) afirma que esta mudança nas</p><p>estruturas museais de grande parte do mundo se dão por conta da afluência maciça de</p><p>165</p><p>visitantes que implicaram no aumento dos usos por meio da inserção de novas áreas</p><p>dedicadas a práticas que se relacionam suas necessidades. Ao oferecer o café,</p><p>consequentemente o museu tornou-se mais atrativo, possibilitou a permanência do</p><p>visitante e contribuiu com para sua autossutentabilidade.</p><p>| Espaços Públicos</p><p>Foram dois os projetos veiculados ao Monumenta que interferiram em espaços</p><p>públicos propriamente ditos: a restruturação e restauração da Praça da Liberdade e a</p><p>requalificação da beira-rio. Se formos colocar em classificação as abrangências dos perfis</p><p>dos projetos executados pelo programa na Cidade de Goiás, estes foram os de segunda</p><p>maior proporção no contexto em questão, por terem impactado em um espaço maior e</p><p>consequentemente refletido na rotina dos transeuntes e nas manifestações</p><p>sociais/culturais que ali acontecem.</p><p>A Praça da Liberdade compõe o Largo do Coreto que até final do século XIX definia-se</p><p>por um espaço aberto, descampado e circuncidado por edificações que juntas definiam</p><p>seu formato triangular. Nesta mesma época a referida praça foi construída em frente à</p><p>Catedral de Sant’Ana (Igreja Matriz), juntamente ao pequeno Coreto em seu centro,</p><p>demolido e reconstruído na década de 1920 e mantendo-se preservado até a atualidade</p><p>(Figura 45). Popularmente conhecida também por Praça do Coreto ou da Matriz, é</p><p>considerada o centro do centro histórico e rodeada por comércios e pelos célebres Museu</p><p>da Boa Morte, Palácio Conde dos Arcos, além da Catedral, tendo uma presença irrisória de</p><p>casas. Tornou-se em um dos principais pontos de encontro de turistas e citadinos e sua</p><p>reforma pelo Monumenta contribuiu ativamente nesta função.</p><p>166</p><p>Figura 45: Coreto. SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Inicialmente, o projeto desenvolvido em 2005 pelo Monumenta sob os cuidados da</p><p>UEP-Goiás traçou diretrizes apenas para a Praça em si desconsiderando a ambientação</p><p>que a contorna. No Parecer Técnico da UCG67 indicou-se que o largo como um todo deveria</p><p>ser considerado dentro do programa de necessidades da proposta, pressupondo que a</p><p>ideia não era retomar sua feição original, mas construir um projeto que relacionasse</p><p>Praça, Largo e as edificações circundantes.</p><p>Segundo o documento, o projeto dispunha de olhares para os limites da praça de modo</p><p>restrito, onde modernizaria seu mobiliário, definiria lugares ajardinados sem estipulação</p><p>das vegetações e que por serem em escala maior diminuiria os passeios. Além disso,</p><p>reorientava os espaços de convivência e de circulação no entorno do Coreto,</p><p>aparentemente sem critério algum. Se assim fosse executado, o plano resultaria em uma</p><p>praça semelhante a existente, o que não justificaria o enfrentamento dos problemas</p><p>ocasionados por uma obra daquele porte.</p><p>Deste modo, os técnicos designaram que os caminhos na praça deveriam levar em</p><p>consideração o fluxo de pedestres e a localização do Coreto, convergindo para este. Os</p><p>67 Disponível em:</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/22430?discover?rpp=10&etal=0&query=mo</p><p>numenta. Acesso em: 02 de março de 2020.</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/22430?discover?rpp=10&etal=0&query=monumenta</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/22430?discover?rpp=10&etal=0&query=monumenta</p><p>167</p><p>pisos deveriam ser semelhantes aos encontrados no adro da Catedral, que por serem mais</p><p>lisos facilitariam o caminhar. Os mobiliários seriam locados estrategicamente de modo a</p><p>contribuir para a boa permanência de seus usuários, inseridos sob a sombra das árvores</p><p>e escolhidos modelos que condissessem com a realidade de uma cidade histórica. Ainda,</p><p>indicava-se que toda a pavimentação do largo deveria ser uniformizada, sendo utilizada</p><p>as pedras características das vias e com inclinação acompanhando o caimento das</p><p>mesmas.</p><p>Todas as pontuações levantadas foram justificadas sob a luz de se projetar um</p><p>ambiente que dialoga com as preexistências, valorizando-as. Era necessário que o projeto</p><p>para a praça alinhasse ao tecido urbano da Cidade de Goiás sem destoar do conjunto. Por</p><p>mais que a intenção dos técnicos não era retomar o antigo, assim como foi proposto no</p><p>Largo do Chafariz, o projeto para a Praça da Liberdade deveria contribuir com a imagem</p><p>do Largo do Coreto, mas restringindo ações que possivelmente poderiam enaltecer uma</p><p>certa contemporaneidade.</p><p>Após as mediações necessárias, a execução do projeto se iniciou em dezembro de 2005</p><p>e foi finalizando um ano depois. Por mais que a inclusão de todo o largo fora tão ponderada</p><p>para sua aprovação frente ao Monumenta, apenas o perímetro da praça teve seus serviços</p><p>finalizados. Sua pavimentação em pedras foi retirada, sendo reposta novas lajes</p><p>recortadas seguindo uma nova paginação, o meio-fio foi implantado, assim como a</p><p>execução da nivelação de todo o piso. Os canteiros que anteriormente eram definidos por</p><p>muretas agora encontram-se nivelados ao passeio. Toda a vegetação foi replantada com</p><p>outras espécies, incluindo palmeiras imperiais que ali nunca existiram (Figura 46).</p><p>Figura 46: Coreto. Palmeiras ao fundo, canteiros sem mureta e iluminação bucólica. SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>168</p><p>O Coreto, que é a única edificação da praça, foi restaurado tendo sua escada interna,</p><p>piso e instalações hidráulicas e elétricas trocados, além de seu telhado e ornamentações</p><p>das fachadas recuperados. Os chafarizes de bronze e mármore, locados fora e dentro da</p><p>praça respectivamente, foram também reformados onde o primeiro teve sua pintura</p><p>refeita e o segundo sua base demolida e reconstruída posteriormente em escala menor.</p><p>Toda a praça recebeu nova iluminação, assim como pontos de irrigação dentre os</p><p>canteiros.</p><p>Tamaso (2007) que acompanhou a reforma no momento de escrita de sua tese relata</p><p>que a obra não teve inauguração oficial, o que seria estranho para a cidade que sempre</p><p>organizou eventos para oficializar o lançamento das obras dentro do conjunto</p><p>institucionalizado. Segundo a autora, a nova praça foi recebida com estranhamento por</p><p>parte de alguns moradores, pois o projeto mudou o traçado e demais elementos</p><p>morfológicos, mantendo preservado apenas o Coreto. É perceptível o quanto as decisões</p><p>referentes aos projetos do Monumenta na Cidade de Goiás foram antagônicas em relação</p><p>as suas intenções e justificativas. Enquanto para alguns as restrições foram mais afiadas,</p><p>para outros sua modificação foi aprovada quase que por completo.</p><p>Analisando os documentos oficiais referentes a obra da Praça da Liberdade, encontra-</p><p>se um memorando datado do ano de 2006 que complementa a lógica de que cada projeto</p><p>foi fundamento e recebido de maneira individual, até mesmo pelos moradores. No</p><p>documento é abordado que alguns vilaboenses reivindicaram a reconstrução do espelho</p><p>d’água edificado na década de 1920 ao centro da praça (Figura 47) e demolido nos anos</p><p>1950. Comparando com o caso do Largo do Chafariz em que a população local desaprovou</p><p>a retomada de sua originalidade com a retirada da alameda central, agora um outro grupo</p><p>de moradores clamava a reinclusão de um objeto, que segundo os agentes do Iphan</p><p>encontrava-se na memória de poucas pessoas, não sendo referência para a maioria.</p><p>169</p><p>Figura 47: Antigo espelho d'água do Coreto. Ano e autor indefinido. Fonte: Acervo digital Iphan.</p><p>Do mesmo modo que o memorando retrata uma abordagem diferente da população,</p><p>também indica um posicionamento divergente dos próprios agentes responsáveis pelos</p><p>projetos na Cidade de Goiás. Para justificar a não reconstrução do espelho d’água,</p><p>alegaram que a escolha deveu-se pela busca de se ter um espaço que não apresentasse</p><p>falsos históricos. A intenção foi resguardar as marcas que o tempo impôs a praça, o que</p><p>na verdade foi pouco considerado quando deparamos com o projeto resultante, que não</p><p>só barrou qualquer tipo de retomada, assim como excluiu as próprias transformações</p><p>temporais. Além disso, esta narrativa levanta uma nova abordagem em relação ao</p><p>percurso traçado pelas políticas preservacionistas vilaboenses, que foi marcado por</p><p>processos de cenarização e falseamentos em diversas edificações.</p><p>Em 2006, junto a finalização da restruturação e restauração da Praça da Liberdade,</p><p>dava-se início ao segundo projeto do Monumenta em espaços públicos da Cidade de Goiás,</p><p>a requalificação das margens do trecho urbano do Rio Vermelho, que aqui</p><p>referenciaremos como beira-rio e que contribuiria para a restruturação de parte das áreas</p><p>afetadas pela enchente de 2001. No que condiz ao tamanho espacial, o projeto foi o maior</p><p>executado na cidade pelo programa, totalizando área superior a 46 mil metros quadrados</p><p>e abarcou fragmento correspondente a Fonte da Carioca até o Mercado Municipal (Mapa</p><p>10). De acordo com o anteprojeto68 da proposta, o perímetro escolhido seria dividido em</p><p>68 Disponível em:</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/21320?discover?rpp=10&etal=0&query=mo</p><p>numenta. Acesso em: 17 de março de 2020.</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/21320?discover?rpp=10&etal=0&query=monumenta</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/21320?discover?rpp=10&etal=0&query=monumenta</p><p>170</p><p>três partes para sua execução (Trecho 1 | Carioca - Trecho 2 | até a Praça da Prefeitura -</p><p>Trecho 3 | até o Mercado Municipal), onde cada uma apresentava determinadas</p><p>particularidades quanto a realidade encontrada e diferenças em relação as ações</p><p>efetuadas.</p><p>Mapa 10: Espaços Públicos– Programa Monumenta. Base cartográfica disponibilizada pelo Escritório Técnico do Iphan</p><p>da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019.</p><p>171</p><p>No Trecho 1, correspondente ao Largo da Carioca, foi previsto o reflorestamento de</p><p>espécies nativas e frutíferas e a transformação do largo em lugar de lazer com quadras</p><p>poliesportivas, churrasqueiras, área de camping, trilhas e estações de ginástica e a</p><p>adequação de edificações anexas ao largo em bar e lanchonete. O Trecho 2, definido pelos</p><p>fundos de quintais de algumas residências estaria reservado para reflorestamento das</p><p>margens do Rio Vermelho e inserção de algumas trilhas, configurando-se com lugar de</p><p>proteção ambiental e que permitiriam o melhor assoreamento do rio. Já no Trecho 3,</p><p>caracterizado por ser o fragmento urbano do projeto, seria feito um tratamento</p><p>paisagístico com o plantio de vegetações para sombreamento, a restruturação das</p><p>calçadas e calçamentos para caminhadas e tráfego de veículos que teriam sua</p><p>pavimentação trocada e dimensão alargada e, por fim, seria construída uma praça para</p><p>lazer e convivência, além do alargamento na parte considerada o gargalo do Rio Vermelho</p><p>que contribuía para as enchentes (Mapa 10) ao modo de melhorar sua vazão, sendo que</p><p>para isso seria preciso demolir a ponte de concreto existente próximo ao Mercado. Em</p><p>todos os trechos foi prevista a criação de diques em alguns pontos do rio para controlar o</p><p>fluxo da água, a inserção de mobiliário urbano e de projeto de sinalização e iluminação,</p><p>além de passarelas para interligar os dois lados do rio e da troca de algumas das pontes</p><p>de madeira por modelos</p><p>em concreto que seriam mais resistentes.</p><p>Na análise preliminar feita pela UEP69 ponderou-se necessário algumas alterações</p><p>para que o projeto fosse exequível do ponto de vista econômico, técnico e conceitual.</p><p>Indicava-se estudos de drenagem nas áreas pavimentadas e de fluxos das vias, a inclusão</p><p>da restauração da Fonte da Carioca por ser o único exemplar em toda beira-rio que é</p><p>tombado e que posteriormente ficou a cargo do Iphan a retirada das áreas de ginástica, de</p><p>churrasqueira e de camping que possivelmente poderiam colaborar com a degradação do</p><p>pela falta de manutenção a longo prazo. A demolição e reconstrução das pontes foram</p><p>barradas, assim como os mobiliários para sinalização que deveriam seguir os já feitos pelo</p><p>Iphan na cidade, o uso de pedras diferentes das existentes nas pavimentações e a</p><p>introdução das passarelas, pois se houvessem novas enchentes elas obstruiriam a vazão</p><p>e tornar-se-iam em instrumento de impacto caso fossem derrubadas. Para garantir a</p><p>69 Disponível em:</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/21320?discover?rpp=10&etal=0&query=mo</p><p>numenta. Acesso em: 17 de março de 2020.</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/21320?discover?rpp=10&etal=0&query=monumenta</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/21320?discover?rpp=10&etal=0&query=monumenta</p><p>172</p><p>sustentabilidade do projeto, sugeriu-se que quiosques fossem colocados em pontos</p><p>estratégicos para promover empregos e geração de renda, cumprindo assim uma das</p><p>metas do Monumenta.</p><p>É perceptível o quanto os agentes estavam preocupados não só com as questões que</p><p>envolvem o Rio Vermelho, mas também com a imagem do conjunto e de suas</p><p>particularidades patrimoniais. Todos os pontos que poderiam estabelecer uma leitura</p><p>contemporânea para o projeto e proporcionalmente ocasionariam em possíveis</p><p>caracterizações estranhas a paisagem, foram preteridos. Por mais que o Projeto beira-rio</p><p>era uma aposta hodierna sobre tudo que havia sido feito na Cidade de Goiás em relação a</p><p>seu patrimônio institucionalizado, as ações do mesmo manteriam a ambiência do</p><p>conjunto em sintonia, sem gerar grandes rupturas.</p><p>O principal foco do projeto era a questão do afluente e as enchentes que poderiam</p><p>acontecer novamente, motivo este que foi o chamariz para a inclusão da beira-rio no</p><p>Programa Monumenta. Em 2007, após as modificações solicitadas terem sido atendidas,</p><p>o pré-projeto foi aprovado para viabilizar as licitações necessárias, mas ainda assim seria</p><p>preciso apresentar os detalhamentos das partes que destinavam-se ao controle da bacia</p><p>hidrográfica do rio, além da especificação do projeto de drenagem que continuava</p><p>inexistente. Deste modo, a aprovação do início das obras ficou condicionada a finalização</p><p>de todos os trâmites necessários para que o corpo técnico compreendesse as informações</p><p>referentes a estas solicitações.</p><p>Apenas em 2008 o projeto final foi autorizado para construção, mas sua intervenção</p><p>mais contundente em relação ao Rio Vermelho seguiu sem aprovação. Segundo Caderno</p><p>Técnico70 da obra apresentado pelo Monumenta, de nada adiantaria aumentar a largura</p><p>do cais sem que a demolição da ponte de concreto fosse feita, pois assim seu</p><p>entroncamento continuaria a existir. Mesmo diante desta observação, em maio de 2010 a</p><p>obra iniciou, sendo previsto cerca de um ano para sua execução, mas mediante alguns</p><p>impasses legais no decorrer dos trabalhos o projeto foi finalizado apenas em 2014, quatro</p><p>anos após do fim do Programa Monumenta (Figura 48).</p><p>70 70 Disponível em:</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/21320?discover?rpp=10&etal=0&query=mo</p><p>numenta. Acesso em: 17 de março de 2020.</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/21320?discover?rpp=10&etal=0&query=monumenta</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/21320?discover?rpp=10&etal=0&query=monumenta</p><p>173</p><p>Figura 48: Áreas contempladas pelo Projeto Beira-rio. Programa Monumenta. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Dentre os problemas técnicos que postergaram o prazo de entrega estavam a</p><p>contratação da empresa71 responsável pela execução do projeto que obrigatoriamente</p><p>passou por procedimentos legais frente ao poder público. A oneração do Iphan e AGEPEL</p><p>em analisar e aprovar as etapas e demais solicitações feitas pela construtora,</p><p>principalmente sobre revisões nos projetos arquitetônicos, urbanísticos e paisagísticos</p><p>que careciam de detalhamentos técnicos. Além da inclusão de novas frente de trabalhos,</p><p>execuções errôneas por parte da empresa que precisaram ser refeitas e do atraso nos</p><p>pagamentos a construtora contratada. Mas o principal ponto que contribuiu para o</p><p>travamento do projeto foi a demora da pesquisa arqueológica em todo o perímetro,</p><p>trabalho este que antecederia toda e qualquer intervenção por catalogar os elementos que</p><p>deveriam manter-se preservados e que para liberação precisaria de aprovação via</p><p>Endosso Institucional72 e que só foi solicitada como elemento obrigatório após o início das</p><p>obras.</p><p>Entre os percalços enfrentados no decorrer da execução, três em específico</p><p>ocasionaram a paralização de parte das obras e merecem ser detalhados. Durante a</p><p>retirada do calçamento em outubro de 2010, um banco feito em pedra sabão, datado do</p><p>século XIX, foi parcialmente destruído (Figura 49). No levantamento arqueológico, o</p><p>mobiliário foi incluído como objeto de interesse a preservação, e deste modo foi</p><p>71 Marsou Engenharia.</p><p>72 Documento obrigatório para apresentação de projetos de pesquisa arqueológica ao Iphan, que seria</p><p>fornecido pelo Núcleo de Arqueologia da Universidade Estadual de Goiás – UEG.</p><p>174</p><p>necessária a recuperação e compensação do dano causado. A área em que o banco</p><p>ocupava teve sua obra paralisada por mais de um ano, até o momento em que as avarias</p><p>foram recuperadas pela construtora responsável. A demora justificou-se pela alta</p><p>burocracia que concerne todos os trâmites necessários para intervir no conjunto</p><p>tombado, entre a notificação ao Iphan do ocorrido e desenvolvimento e aprovação do</p><p>projeto.</p><p>Figura 49: Banco destruído. Fonte: Acervo digital Iphan. 2010</p><p>O segundo fato que prejudicou o encaminhamento da obra foi a nova enchente</p><p>ocorrida em janeiro de 2011, que mesmo em menor proporção comparada a de 2001,</p><p>alagou por completo o Largo da Carioca destruindo parte das obras que já haviam sido</p><p>praticamente finalizadas. As trilhas de chão batido precisaram ser refeitas e a Fonte, assim</p><p>como as quadras poliesportivas, necessitaram passar por processos de drenagem (Figura</p><p>50). Em 2012, nova cheia colocou em risco o projeto provocando o desmoronamento de</p><p>parte do cais (Figura 51), que segundo laudos foram causados em função do desgaste do</p><p>solo que vinha sofrendo infiltrações e provocando sua compactação. Fica claro que o</p><p>mesmo motivo que havia feito a beira-rio ser incluída no Monumenta, agora prejudicara</p><p>também sua própria requalificação e nenhum mecanismo estava sendo proposto para</p><p>impedir de modo mais certeiro que tal fatídico acontecesse.</p><p>175</p><p>Figura 50: Enchente do Rio Vermelho em 2011. Fonte: Acervo digital Iphan. 2011.</p><p>Figura 51: Cais destruído pela enchente de 2011. Fonte: Acervo digital Iphan. 2011.</p><p>Conforme abordado no item anterior, em 2010 o Programa Monumenta finalizou a</p><p>abertura de novas cartas de créditos para a inclusão de outros projetos, caminhando</p><p>apenas com as finalizações daqueles que estavam em curso. Na Cidade de Goiás o contrato</p><p>com o programa havia sido definido até 31 de dezembro de 2012, período este que</p><p>obrigatoriamente seria necessário o término de todas as obras vinculadas ao Monumenta.</p><p>Caso assim não fosse, os projetos não finalizados precisariam ter os recursos aplicados</p><p>pelo programa até então devolvidos e devidamente corrigidos.</p><p>Naquele ano a contrapartida financeira por parte do Governo Estadual referente ao</p><p>Projeto beira-rio</p><p>não havia sido feita ainda, o que mais uma vez paralisou por vários</p><p>meses a obra entre os anos de 2011 e 2012 por falta de pagamento a construtora,</p><p>colocando, assim, em risco seu encaminhamento. Após algumas movimentações em</p><p>caráter de urgência, fora acordado que o convênio seria prorrogado até junho de 2013,</p><p>permitindo que o projeto fosse finalizado e o Estado não ficasse inadimplente frente a</p><p>União. Por conta da suspensão das obras, as frentes de trabalho que estavam em aberto</p><p>176</p><p>acabaram gerando transtornos para a cidade ocasionados principalmente pelos canteiros</p><p>que obstruíam passagens e que com as chuvas tinham seus materiais espalhados.</p><p>O Projeto beira-rio, que muito contribuiria para a Cidade de Goiás, agora corria o risco</p><p>de ser encerrado sem o término das obras, deixando marcas inconclusas que afetariam a</p><p>imagem da cidade patrimônio. Apenas no primeiro semestre de 2013, após pagamento da</p><p>contrapartida estadual, a obra retoma suas atividades sendo que no final daquele ano,</p><p>depois da fiscalização proferida por técnico contratado pelo Iphan, constatou-se falhas na</p><p>execução relacionadas principalmente ao acabamento executado, ao material utilizado</p><p>que não faria jus a seus usos, ao desgaste provocado pelas sucessivas pausas e aos</p><p>processos de depredação causados por pessoas outras.</p><p>Como em 2013 o novo acordo com o Programa Monumenta seria finalizado e os</p><p>reparos necessários precisariam ser feitos, além das partes que ainda faltavam, a obra</p><p>passou a ficar sob o encargo do Plano Plurianual 2013-2016 da Prefeitura Municipal da</p><p>Cidade de Goiás, que diferente das gestões anteriores, contribuiu de forma mais ativa ao</p><p>endosso do programa ao lado da UEP e ao Iphan. No decorrer do ano de 2014 os ajustes</p><p>foram operados, assim como o cumprimento das metas do projeto, tendo finalizado</p><p>naquele ano.</p><p>| Projeto Frip</p><p>O Projeto Frip foi a frente de ações do Programa Monumenta que mais contribuiu com</p><p>a Cidade de Goiás. O primeiro edital para seleção dos interessados em ter suas</p><p>propriedades restauradas foi lançado em 2006. Mas antes disso, algumas unidades</p><p>residenciais que haviam sido prejudicadas pela enchente de 2001 foram contempladas</p><p>pelos insumos do programa e abordá-las, mesmo que suscintamente, é imprescindível</p><p>para compreender os indícios que caracterizaram o Frip dentro do contexto em questão,</p><p>pois tornaram-se referência ao que foi posteriormente executado nas demais unidades</p><p>inscritas.</p><p>Da mesma forma que a cheia do Rio Vermelho enredou prejuízo a monumentos e</p><p>espaços públicos, 7 imóveis privados foram totalmente destruídos, 16 tiveram danos</p><p>graves, 15 apresentaram perdas médias e 43 foram levemente afetados. Deste número,</p><p>14 casas foram recuperadas com verba do programa a fundo perdido e as demais tiveram</p><p>177</p><p>como apoiadores a Unesco, Iphan e Governo Estadual, todas fazendo parte do grupo de</p><p>obras emergenciais pós enchente (TAMASO, 2007).</p><p>Todas as casas recuperadas pelo Monumenta passaram pela restruturação de seus</p><p>telhados, fachadas e demais elementos afetados pelas águas. Mas ao mesmo modo que o</p><p>casario fora recuperado, os rompimentos arquitetônicos construídos em décadas</p><p>anteriores, principalmente naquelas residências originalmente concebidas no século</p><p>XVIII foram também eliminados. Segundo Tamaso (2007), 4 das 14 residências</p><p>emergenciais tiveram seus alpendres, vitrôs e demais itens que possivelmente eram</p><p>contrários a arquitetura colonial, retirados e/ou trocados.</p><p>Fica claro que as ações executadas pelo Iphan para fazer do conjunto um cenário ideal</p><p>a sua imagem colonial continuariam a acontecer no casario, respaldados também pelo</p><p>Monumenta. Paulatinamente anulavam-se as transformações temporais que as</p><p>edificações recebiam, fazendo do programa reflexo do modus operandi do Iphan na cidade,</p><p>só que agora efetivamente concluídos. O perímetro tombado seguiria caminhando na</p><p>perspectiva de imagem construída sob a luz de falsos históricos, consagrando uma</p><p>linguagem passada e apagando da paisagem o que levasse à cidade um outro sentido.</p><p>Estas modificações, de forma que tomaram como estereótipo os cânones coloniais,</p><p>desnaturalizando a identidade dos objetos, exigiram alterações estruturais e formais que</p><p>acabaram por provocar algumas discordâncias quanto a boa funcionalidade dos novos</p><p>elementos inseridos. Ao fazerem as trocas das esquadrias por exemplo, os modelos</p><p>escolhidos eram muito menores e por levarem em consideração a simetria em relação à</p><p>altura e distância característica do período, foram colocadas hora muito altas</p><p>impossibilitando a visibilidade da rua (Figura 52), hora muito baixas. No mais, as próprias</p><p>cores das fachadas foram reformuladas visando favorecer as indicações sobre a</p><p>colorimetria do conjunto que há alguns anos estavam sendo feitas principalmente por</p><p>conta do recente chancelamento mundial.</p><p>178</p><p>Figura 52: Janelas locadas acima do campo de visão da proprietária. Foto: Izabela Tamaso, 2002. Fonte: TAMASO,</p><p>2007.</p><p>Passada as obras emergenciais, os imóveis privados voltaram para as políticas do</p><p>Monumenta na Cidade de Goiás em 2006, conforme citado anteriormente, dois anos após</p><p>o lançamento do Projeto Frip em prospecção nacional. Para submeter suas propostas, os</p><p>proponentes precisariam apresentar informações do imóvel como endereço e dados do</p><p>proprietário, características físicas da edificação em relação a linguagem arquitetônica,</p><p>área e uso, fotografias quando possível, projeto de arquitetura detalhando o que seria</p><p>feito, memorial descritivo justificando o porquê da sua inclusão, cronograma físico da</p><p>obra e tabela orçamentária com a descrição dos custos.</p><p>Entre 2006 e 2007, 238 propostas foram inscritas e classificadas nos quatro editais</p><p>lançados no município, com 102 efetivamente gratificadas. O primeiro edital obteve</p><p>poucas submissões, tendo sido aprovado apenas 11 propostas, pois a conjuntura do</p><p>projeto ainda era nova para a cidade e os proprietários não sabiam ao certo sobre os</p><p>verdadeiros riscos e benefícios ou então não ficaram sabendo do Frip, pois sua divulgação</p><p>foi feita apenas por meio do Diário Oficial. De acordo com que os primeiros resultados</p><p>foram sendo apresentados e novas formas de divulgação foram feitas, o número de</p><p>interessados aumentou exponencialmente. A partir do segundo edital a UEP promoveu a</p><p>divulgação do Projeto por meio de anúncios em rádio e carros de som, além de cartilhas</p><p>179</p><p>distribuídas pelas ruas e estabelecimentos comerciais. Este novo documento obteve 56</p><p>propostas aprovadas, no terceiro o número subiu para 81 e no último edital 90 novas</p><p>concessões foram deliberadas (CARNEIRO, 2014).</p><p>A excelente adesão do Frip fez da Cidade de Goiás o município que obteve o maior</p><p>número de projetos inscritos e aprovados entre as 26 áreas prioritárias. Motivados</p><p>principalmente pela falta de recursos para manterem seus imóveis em bom estado de</p><p>conservação, pela disponibilização dos técnicos do programa em auxiliar no</p><p>desenvolvimento dos projetos daqueles que não podiam contratar escritório</p><p>especializado, muitos dos proprietários viram no programa uma oportunidade de terem</p><p>seus imóveis restaurados. Destarte, ao buscar os benefícios promovidos pelo Frip,</p><p>paralelamente também apoiariam a preservação do conjunto e o título de Patrimônio da</p><p>Humanidade.</p><p>Contraparte a boa aceitação do Projeto, o computo considerável de 136 unidades não</p><p>tiveram efeito em vias de fato. Segundo apresentado por Carneiro (2014), este montante</p><p>justificou-se por inúmeros motivos sejam eles financeiros, pois alguns proprietários não</p><p>possuíam renda suficiente para arcar com a parte incumbida a eles, principalmente</p><p>aqueles que se depararam com um custo final da obra maior do que o previsto, por</p><p>falecimento dos responsáveis após entrega dos requerimentos, pela dificuldade de reunir</p><p>os documentos necessários no período estipulado pela UEP após aprovação do projeto</p><p>e/ou pela</p><p>falta de informação a respeito dos procedimentos obrigatórios.</p><p>No mais, conforme abordado pela autora, outras unidades inscritas no último edital</p><p>não tiveram seus projetos encaminhados, que por ter aprovado um número de propostas</p><p>acima do que era possível em relação aos recursos disponíveis, acabaram por ser</p><p>excluídas. Mas um dos motivos que mais intriga e se torna pertinente a esta pesquisa</p><p>foram os casos dos proprietários que desistiram de dar encaminhamento as obras por não</p><p>concordarem com algumas proposições feitas pelos técnicos do Iphan nos pareceres</p><p>finais. Sugeriam-se a troca das esquadrias e varandas aos mesmos moldes do que havia</p><p>sido executado no grupo emergencial, assim como dos casos que o contrário aconteceu.</p><p>Antes de mais nada, é importante levantar a questão sobre as trocas das esquadrias</p><p>coloniais que por muitas vezes é fruto não só do desejo de se obter o que é novo, mas de</p><p>algumas tangentes referentes a valores de mercado e acessibilidade. Parafraseando</p><p>Giannecchini (2019, p.219), por conta da variedade de portas e janelas metálicas a custo</p><p>mais baixo e pela falta de alternativas organizadas pelos órgãos de preservação para</p><p>180</p><p>viabilizar a produção de materiais típicos a preço de mercado competitivo e acessível,</p><p>muitas pessoas, ao necessitarem, preferiram por substituí-las desconsiderando qualquer</p><p>ligação com a historicidade, memória ou tradicionalismo. Atendendo a isso, ao</p><p>Monumenta proferir fundos para que o casario fosse restaurado/recuperado, os agentes</p><p>aproveitaram a oportunidade para então mitigar esta carência ao estimular as</p><p>modificações.</p><p>Tal questão foi tão latente que muitos proponentes incluíram a troca de janelas e</p><p>portas metálicas por modelos similares as preexistentes coloniais, logo nas propostas</p><p>iniciais. Dentre os requerimentos do Projeto Frip na Cidade de Goiás enviadas para</p><p>aprovação e analisadas para a escrita desta pesquisa73, constatou-se que 27% solicitaram</p><p>a alteração. Ademais, foram incluídos serviços relacionados a cobertura (86%),</p><p>instalações elétricas (74%), trincas e infiltrações (55%), forro (35%), recuperação de</p><p>esquadrias de madeira existentes (36%), estrutura e estabilização (33%), piso (28%) e</p><p>construção de novos sanitários (13%). Todas as propostas requisitaram reforma das</p><p>fachadas, dando enfoque principalmente à reboco e pintura.</p><p>Fica claro que parte dos vilaboenses que inscreveram suas propostas e preferiram por</p><p>interrompê-las não se familiarizaram com a estetização padronizada ocasionada pelas</p><p>ações do Iphan, além de suas investidas para manter o patrimônio resguardado. Mas em</p><p>contrapartida, ao passo que a metodologia aplicada pelo órgão foi incorporada ao</p><p>cotidiano da cidade quase que de modo contínuo, tais práticas normalizaram-se, inclusive</p><p>dentro da própria sociedade civil. Tal fato rompeu com rupturas que poderiam ser ainda</p><p>maiores no tecido histórico da cidade ocasionadas por causa da simples falta de</p><p>informação e compreensão da importância do patrimônio enquanto representação para</p><p>a cidade.</p><p>Para tanto, 100% das submissões preocuparam-se principalmente com a fachadas das</p><p>edificações por estas serem parte assídua e popular da paisagem da cidade e que há muito</p><p>foi afirmada em evidência ao patrimônio tombado e dentro das normativas</p><p>preservacionistas locais. Os elementos morfológicos do casario apontados como objetos</p><p>a serem restaurados e/ou reformados pelo Monumenta foram em sua maioria as</p><p>73 É importante salientar que este autor não teve acesso a todas documentações relacionadas ao Projeto</p><p>Frip na Cidade de Goiás, pois mediante a pandemia do Covid-19 não foi possível reunir tais dados de modo</p><p>completo. Apenas 96 propostas disponibilizadas no Acervo Digital do Iphan, disponível no site:</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/, foram analisadas. Deste modo, a leitura desses projetos ficou</p><p>condicionada a um número restrito de documentos publicados, somados às pesquisas de CARNEIRO (2014),</p><p>GIANNECCHINI (2019), TAMASO (2007) e PROGRAMA MONUMENTA (2009).</p><p>181</p><p>características típicas das edificações elencadas pela Portaria de 1993 que deveriam</p><p>manter-se preservadas por representarem a tradicionalidade do saber fazer</p><p>arquitetônico vilaboense.</p><p>A atenção por parte dos moradores em reconfigurar suas casas e/ou comércios ao</p><p>passo de resgatar elementos que tinham sido remodelados como consequência de suas</p><p>mutações espontâneas, que é latente em qualquer tecido urbano, foi resultado de um</p><p>histórico de ações que buscaram instruir a importância da preservação e retomada da</p><p>imagem que fez da cidade objeto singular frente, principalmente, a Unesco. Outrossim,</p><p>por mais que na década de 1950 o tombamento era visto de modo antagônico pelos</p><p>vilaboenses, o Monumenta permitiu pela primeira vez que o patrimônio tornasse em uma</p><p>ferramenta para beneficiar o próprio morador do centro histórico, que até então</p><p>necessitava apenas de seus subterfúgios pessoais para poder realizar as medidas cabíveis</p><p>a preservação de seus bens.</p><p>Gianncecchini (2019) ao analisar os resultados do programa organizados por Simões</p><p>(2017), constata que mesmo que no decorrer de todo o processo algumas dificuldades</p><p>foram averiguadas, como a imprecisão do repasses financeiros para promover os</p><p>pagamentos dos contratados, a insuficiência de muitos dos recursos disponíveis para</p><p>conclusão das obras que demandavam serem revistos principalmente nos casos em que</p><p>as edificações estavam em estado alarmante de degradação, todos os 102 beneficiários se</p><p>deram por satisfeitos com o desfecho de seus projetos. Além disso, a ação do Monumenta</p><p>da cidade não só amparou o casario, assim como favoreceu a permanência de grande parte</p><p>dos proprietários em suas residências, atingindo uma das principais metas do Projeto</p><p>Frip, que foi permitir que o conjunto histórico continuasse tradicionalmente</p><p>apresentando um uso residencial.</p><p>3.2 | PAC-Cidades Históricas: novo pacto pela preservação</p><p>Em 21 de outubro de 2009, em meio ao discurso público feito pelo presidente à época</p><p>Luís Inácio Lula da Silva - Lula, em Ouro Preto-MG, o Programa de Aceleração do</p><p>Crescimento das Cidades Históricas – PAC-CH ou PAC-Cidades Históricas foi lançado como</p><p>investida do Governo Federal em auxiliar na preservação do patrimônio cultural. Através</p><p>182</p><p>dele, 44 cidades brasileiras74 de 20 estados receberam recursos para obras de</p><p>requalificação e recuperação de edifícios e espaços públicos divididos entre museus,</p><p>instituições de ensino, igrejas históricas, patrimônio ferroviário, equipamentos culturais,</p><p>fortes e fortalezas, casarões e residências, amparados em medidas administrativas e</p><p>legislativas.</p><p>Pertencente ao macro plano do PAC de 2007, o PAC-CH é fruto da ponte feita entre</p><p>MinC e Governo Federal para que o Iphan continuasse os projetos não concretizados pelo</p><p>Programa Monumenta, além de proporcionar a inserção de novos. No discurso de</p><p>lançamento75, o presidente apontou que o novo programa visava auferir audaciosamente</p><p>todas as cidades brasileiras que apresentassem conjuntos e sítios tombados em nível</p><p>federal, bens imateriais registrados ou em processo de chancelamento pelo Iphan. Seriam</p><p>investidos projetos que além de restaurar, suscitariam no desenvolvimento econômico,</p><p>urbano e social dos municípios, apoiados às atividades produtivas, tradicionais e ao</p><p>turismo cultural particularmente.</p><p>Quando apresentado, o PAC-CH objetivava-se preservar o patrimônio brasileiro e</p><p>valorizar a cultura nacional, promovendo o desenvolvimento socioeconômico com</p><p>qualidade de vida e sustentabilidade. Ademais, o novo programa ampliaria os usos das</p><p>edificações históricas ao instalar novas universidades, escolas, bibliotecas, museus, entre</p><p>outros, dentro de edifícios subutilizados e com potencial estrutural para comportar uma</p><p>nova demanda de funções. O PAC-CH, além de dar continuidade a algumas obras não</p><p>executadas, caminharia para vir a ser o novo Monumenta,</p><p>só que agora sob os cuidados</p><p>do Estado Nacional majoritariamente, tendo o projeto do BID como referência para sua</p><p>estruturação.</p><p>O PAC-CH seguiria articulando os poderes federais, estaduais, municipais e as</p><p>instituições privadas, creditando as municipalidades a responsabilidade pela conservação</p><p>dos bens patrimoniais. Assim como o anterior, o novo programa contribuiria com a</p><p>74 Antonina – PR, Aracaju – SE, Aracati – CE, Belém – PA, Belo Horizonte – MG, Cidade de Goiás – GO,</p><p>Congonhas – MG, Corumbá – MS, Cuiabá – MT, Diamantina – MG, Fernando de Noronha – PE, Florianópolis</p><p>– SC, Fortaleza – CE, Goiânia – GO, Iguape – SP, Itaparica – BA, Jaguarão – RS, João Pessoa – PB, Laguna – SC,</p><p>Manaus – AM, Maragogipe – BA, Marechal Deodoro – AL, Mariana – MG, Natal – RN, Olinda – PE, Ouro Preto</p><p>– MG, Parnaíba – PI, Pelotas – RS, Penedo – AL, Porto Alegre – RS, Recife – PE, Rio de Janeiro – RJ, Sabará –</p><p>MG, Salvador – BA, Santo Amaro – BA, Santo André – SP, São Cristóvão – SE, São João Del Rei – MG, São Luís</p><p>do Paraitinga – SP, São Luís – MA, São Miguel das Missões – RS, Serro – MG, Sobral – CE e Vassouras – RJ.</p><p>75 Pronunciamento feito pelo por Luís Inácio Lula da Silva em 21 de outubro de 2009 no lançamento do PAC-</p><p>Cidades Históricas em Ouro Preto-MG. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=-GcPYqe31xE.</p><p>Acesso em: 29 de março de 2020.</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=-GcPYqe31xE</p><p>183</p><p>sustentabilidade econômica das áreas históricas, incluindo o prosseguimento de ação</p><p>similar ao Projeto Frip, mas, agora, em proporção mais abrangente. Tornar-se-ia possível</p><p>que os proprietários, além de recuperar suas residências, poderiam adaptar edificações</p><p>para sua exploração econômica ao ofertar usos que assistissem o mercado turístico como</p><p>hotéis, pousadas, restaurantes, lojas e afins, o que havia sido pouco proporcionado até</p><p>então pelo Monumenta.</p><p>Aos moldes do Frip, os proprietários interessados deveriam inscrever suas propostas</p><p>em editais a serem lançados pelo Iphan pleiteando oportunidade de financiamentos a</p><p>juros especiais. A Caixa seria a agência financeira responsável pela operacionalização da</p><p>ação em todo o país, que após aprovação dos projetos pelas superintendências regionais</p><p>do instituto, os proponentes deveriam procurar o banco e encaminhar as negociações</p><p>diretamente.</p><p>Para introduzir-se no programa, os municípios junto ao estado e ao Iphan deveriam</p><p>formalizar Acordos de Preservação do Patrimônio Cultural – APPC que visariam</p><p>regimentar a gestão compartilhada e preparar um Plano de Ação apresentando um</p><p>planejamento de estratégias de preservação de seus patrimônios culturais enfocando na</p><p>territorialidade e convergindo para o desenvolvimento social e econômico, além de</p><p>seguirem os moldes do Sistema Nacional do Patrimônio Cultural-SNPC76. Como regras, as</p><p>propostas deveriam:</p><p>(1) Considerar todo o território municipal para suas análises, não se</p><p>restringindo ao perímetro protegido ou ao conjunto de bens isolados; (2)</p><p>Efetuar uma leitura global da cidade, considerando seus problemas e seus</p><p>desafios no tocante à preservação, urbanização, desenvolvimento social</p><p>e dinâmica social; (3) Patrimônio cultural deve ser o eixo central das</p><p>diretrizes e ações a serem propostas; (4) Garantir a participação social e</p><p>buscar o comprometimento dos entes que atuam no território; (5)</p><p>Considerar, dialogar e propor soluções capazes de integrar as políticas</p><p>públicas, e integrar-se com os planos e os programas elaborados em nível</p><p>local, regional, estadual e federal (...); (6) Definir prioridades, metas,</p><p>agentes responsáveis e prazos de forma objetiva e factível (BRASIL, 2014,</p><p>p.6).</p><p>Antes mesmo do lançamento do PAC-CH, o Iphan já havia impulsionado em maio de</p><p>2009 chamada pública conduzida aos 188 municípios pertencentes ao grupo com bens</p><p>chancelados pelo órgão para o início de uma elaboração conjunta dos Planos de Ação. Até</p><p>2010, um total de 140 cidades distribuídas em 22 estados haviam encaminhado seus</p><p>76 Desenvolvido em 2009 pelo Iphan, o SNPC orienta a atuação transversal do instituto unindo as três esferas</p><p>de governo ao setor privado e a sociedade civil organizada, sendo uma ruptura das suas formas de atuação.</p><p>184</p><p>Planos, abarcando 4.386 ações que previam a utilização de 8 bilhões de reais dos cofres</p><p>públicos, indo muito além do conferido até então pelo Monumenta, tanto em relação a</p><p>diversidade de municipalidades interessadas quanto aos valores pressentidos. Após o</p><p>recebimento dos Planos pelo Iphan, o instituto passaria a prestar orientação técnica aos</p><p>municípios e estados a respeito de projetos, editais e obras.</p><p>Mas mediante a não destinação de fundos pelo Governo Federal até 2012, o PAC-CH</p><p>enfrentou um período inerte retomando suas atividades apenas em 2013, que segundo</p><p>Carmo (2020) foi justificada por conta do contingenciamento orçamentário ocorrido</p><p>entres os anos 2010 e 2011. Naquele momento priorizava-se recursos às ações que já se</p><p>encontravam incluídas na Lei Orçamentária e que não correspondia ao Cidades Históricas,</p><p>a não ser alguns projetos ligados ao Monumenta, mas que foram finalizados sob a</p><p>responsabilidade do PAC em razão da finalização dos convênios.</p><p>Agora incorporado ao primeiro mandato de Dilma Rousseff e a segunda etapa do</p><p>PAC77 que obtinha mais recursos e parcerias entre estados e municípios, o programa abriu</p><p>processo seletivo em fevereiro daquele ano para que as 44 cidades selecionadas,</p><p>enviassem a discriminação dos projetos que seriam executados pelo programa. O grupo</p><p>de municípios escolhido teve por mérito seus reconhecimentos frente a Unesco (9</p><p>cidades) ou a urgente necessidade na salvaguarda de seus patrimônios em virtude de</p><p>processos de degradação e depredação a que estavam condicionados.</p><p>O resultado da seletiva demonstrou que o novo programa manteve os mesmos</p><p>padrões do Monumenta e até mesmo do governo federal ao direcionar suas iniciativas</p><p>para a preservação de bens que estavam de acordo a sinônimos de excepcionalidade, ou</p><p>seja, objetos relevantes frente as políticas preservacionistas proferidas até aquele</p><p>instante. No mais, a escolha dos objetos foco demonstrou que além de anteferir cidades</p><p>que possuem uma demanda turística contingencial por efeito de sua valorização</p><p>patrimonial, incluíram-se municípios que anos depois sediariam a Copa do Mundo FIFA</p><p>77 O PAC é dividido em duas etapas: PAC 1 que corresponde ao ano de seu lançamento, 2007, até final de</p><p>2010 e PAC 2 iniciado em 2011 e com término previsto para 2014, que por atrasos nas obras e má gestão,</p><p>encontra-se paralisado e sem previsão de retomada. O PAC-CH entrou no Eixo “Comunidade Cidadã” do PAC</p><p>2, que destinou-se a construção de creches, unidades básicas de saúde e pronto atendimento e</p><p>equipamentos culturais e esportivos.</p><p>185</p><p>201478 e as Olimpíadas de 2016 (Rio de Janeiro) e que obrigatoriamente se tornariam</p><p>objetos de interesse por parte do mercado turístico, econômico e político.</p><p>Segundo Leal (2017), a inclusão dessas cidades-sede demonstra o quanto seria</p><p>possível que o programa estivesse convergindo a articular-se com uma realidade que</p><p>estava muito próxima a época e que demandaria de ações sem precedentes, voltadas para</p><p>reformas e construções estruturais que atenderiam as necessidades destes macros</p><p>eventos esportivos. Se assim o for, o grupo de cidades selecionadas indica que a intenção</p><p>de contemplar núcleos urbanos menores e promover ações voltadas para a sua</p><p>sustentável promoção econômica, ficaste apenas nos discursos. Por mais que o programa</p><p>tenha selecionado municípios pouco conhecidos em âmbito nacional por seus</p><p>patrimônios, sua lista demonstra o quanto as de maior prospecção mantinham-se de</p><p>forma hegemônica avaliadas e apuradas a continuar recebendo os benefícios públicos.</p><p>Após análise dos projetos pela coordenação do PAC-CH, 425 ações foram aprovadas</p><p>sendo esperado o investimento de 1,6 bilhões de reais79 em obras em espaços e imóveis</p><p>de uso público,</p><p>somados a 300 milhões que seriam destinados para propriedades</p><p>privadas, o que tornaria o valor um feito inédito no percurso preservacionista nacional.</p><p>Conforme dados publicados pelo Ministério do Planejamento (BRASIL,2014), as ações</p><p>perpassariam por projetos de requalificação urbanística, infraestrutura, financiamento</p><p>para particulares, recuperação de monumentos, fomento às cadeias produtivas e para</p><p>promoção do patrimônio cultural, indo de encontro aos objetivos traçados em 2009. Mas</p><p>por incompatibilidade técnica entre Iphan e Caixa, o financiamento de imóveis privados</p><p>não deu encaminhamento, seguindo apenas os outros perfis de objetos.</p><p>Ademais, definiu-se que o Iphan atuaria diretamente nos projetos e estados e</p><p>municípios de forma indireta ficando encargo dos imóveis de uso público por meio dos</p><p>termos de compromissos que seriam assinados entre as partes e ou pelos acordos</p><p>contratuais firmados com a Caixa Econômica Federal. Ainda que as três jurisdições</p><p>estivessem delegadas às responsabilidades dentro do PAC-CH e a contribuição</p><p>transversal fosse um de seus objetivos, as funções foram estipuladas quase que de modo</p><p>hierárquico com Iphan no epicentro do programa. As municipalidades e autarquias</p><p>78 As cidades-sedes Copa do Mundo FIFA 2014: Belo Horizonte – MG; Brasília – DF; Cuiabá – MT; Curitiba –</p><p>PR, Fortaleza – CE; Manaus – AM; Natal – RN; Porto Alegre – RS; Recife – PE; Rio de Janeiro – RJ; Salvador –</p><p>BA e São Paulo – SP.</p><p>79 Distribuição de recursos do PAC-CH por região em milhões: Norte – 81,37; Nordeste – 729,27; Sul –</p><p>206,74; Sudeste – 542,32; Centro-Oeste – 79,93 (BRASIL, 2013).</p><p>186</p><p>estaduais atuariam em funções que se relacionavam mais à organização dos Planos e</p><p>demais procedimentos burocráticos/financeiros do que como gestores dos projetos obras</p><p>do bem propriamente dito.</p><p>Em 2013, o Iphan soltou edital para contratar por tempo determinado corpo técnico</p><p>competente às áreas de arquitetura, engenharia, logística e arqueologia com intuito de</p><p>suprir a demanda das atividades que estariam além da capacidade do órgão. Após</p><p>organização da estrutura administrativa, os projetos começaram a ter seus primeiros</p><p>contratos executados e paulatinamente as obras foram encaminhadas.</p><p>Em 2015, dois anos após o início do PAC-CH, 127 (30%) das 425 ações estavam em</p><p>trâmite, sendo que apenas 10 haviam sido concluídas, 60 estavam em processo de</p><p>execução e 57 sendo licitadas (LEAL, 2007). Em 2017 o número de obras finalizadas subiu</p><p>para 28 (BRASIL, 2017), saltando para 53 em 2018 (BRASIL, 2018). Até a última</p><p>sondagem feita em abril de 2020 na página online do PAC80, constatou-se que apenas 56</p><p>obras haviam sido inauguradas, totalizando aproximadamente 13,2%, um número baixo</p><p>para a previsão inicial.</p><p>Dentre as demais, 76 (aprox. 17,9%) encontram-se em estado preparatório, ou seja,</p><p>contratada, mas aguardando início da licitação, 23 (aprox. 5,5%) sob licitação em</p><p>andamento ou concluída e sem ordem de serviço, 194 (aprox. 45,7%) em fase de execução</p><p>de estudo, projeto, plano, assistência técnica ou desenvolvimento institucional e 73</p><p>(aprox. 17,2%) com suas obras dando por iniciadas. A baixa conclusão dos projetos é</p><p>reflexo da crise constitucional ocasionada no segundo mandato de Dilma Rousseff,</p><p>principalmente após seu impeachment em 2016. Após a saída da presidenta, o PAC-CH</p><p>caminhou morosamente na gestão de Michel Temer (2016-2018), principalmente pelos</p><p>atrasos dos pagamentos por parte do Governo Federal e dos processos jurídicos</p><p>atribuídos a muitas das construtoras contratadas pelo PAC, sob acusação de hiper</p><p>faturação das obras, fato que emperrou todos os eixos do programa81. Para tanto, com a</p><p>gestão presidencial em vigor (2019-2022) todas a obras vinculadas ao Cidades Históricas,</p><p>assim como as do PAC, foram paralisadas e sem previsão de retomada, dando a sugerir</p><p>que Programa de Aceleração e Crescimento tenha chegado a seu fim.</p><p>80 Disponível em: http://pac.gov.br/infraestrutura-social-e-urbana/pac-cidades-historicas. Acesso em: 24</p><p>de abril de 2020.</p><p>81 Muitas das obras vinculadas ao PAC estraram para o escopo de ações jurídicas da Operação Lava-Jato</p><p>movidas pela Polícia Federal, ficando nesta pesquisa a título de informação por uma questão estrutural da</p><p>escrita.</p><p>http://pac.gov.br/infraestrutura-social-e-urbana/pac-cidades-historicas</p><p>187</p><p>O PAC-Cidades Históricas, que inicialmente foi visto como uma política de renovação</p><p>do patrimônio cultural e urbano até então nunca vista no país, transformou-se em</p><p>sinônimo de obras abandonadas, projetos engavetados e edificações à espera de recursos,</p><p>embora 56 unidades foram finalizadas. Mesmo que o programa tenha passado por</p><p>paradigmas e benfeitorias hipoteticamente universais, é de grande apreço que os estudos</p><p>sobre o PAC-CH tenham como objetivo compreendê-lo considerando as particularidades</p><p>apresentadas por cada municipalidade, diante da heterogeneidade dos projetos, agentes</p><p>locais responsáveis e ambiências sociais.</p><p>3.2.1 | O programa nacional na perspectiva local</p><p>Em dezembro de 2010 as Prefeituras Municipais de Corumbá de Goiás, Pirenópolis,</p><p>Pilar de Goiás, Goiânia e Cidade de Goiás formalizaram junto a 14ª Superintendência</p><p>Regional do Iphan – Iphan/Goiás e governo estadual, os Acordos de Preservação do</p><p>Patrimônio Cultural – APPC, para poderem organizar e submeter seus Planos de Ação ao</p><p>PAC-Cidades Históricas. Após inscrição, apenas Goiânia e a Cidade de Goiás entraram no</p><p>grupo das 44 cidades selecionadas, dando início as primeiras reuniões técnicas entre os</p><p>agentes responsáveis para formalizar as intervenções a serem executadas.</p><p>Por meio da Portaria/Iphan/PAC CH nº 383 de 20 de agosto de 2013, foram definidos</p><p>os objetos a serem contemplados e o programa iniciou no Estado de Goiás investindo</p><p>pouco mais de 49 milhões de reais em projetos voltados para o melhoramento das</p><p>condições turísticas das cidades, sendo eles: (Cidade de Goiás) 1-Recuperação da Ponte</p><p>Cambaúba; 2- Restauração do Casarão da Escola de Artes Veiga Valle; 3-</p><p>Restauração do Mercado Municipal; 4- Restauração do Cine Teatro São Joaquim; 5-</p><p>Requalificação da Sede da Diocese de Goiás – instalação do Arquivo Diocesano; 6-</p><p>Restauração do Casarão da Prefeitura Municipal (Mapa 11); (Goiânia) 1-</p><p>Requalificação da Praça Cívica; 2- Restauração da Estação Ferroviária.</p><p>188</p><p>Município Obra Intervenção em Executor Valor Previsto</p><p>C. de Goiás</p><p>Recuperação da Ponte</p><p>Cambaúba</p><p>Imóvel Público ou</p><p>de Uso Público</p><p>Iphan/GO R$850.000,00</p><p>C. de Goiás</p><p>Restauração do Casarão da</p><p>Escola de Artes Veiga Valle</p><p>Imóvel Público ou</p><p>de Uso Público</p><p>Iphan/GO R$1.200.000,00</p><p>C. de Goiás</p><p>Restauração do Mercado</p><p>Municipal</p><p>Imóvel Público ou</p><p>de Uso Público</p><p>Município R$9.500.000,00</p><p>C. de Goiás</p><p>Restauração do Cine Teatro São</p><p>Joaquim</p><p>Imóvel Público ou</p><p>de Uso Público</p><p>Município R$9.000.000,00</p><p>C. de Goiás</p><p>Requalificação da Sede da</p><p>Diocese de Goiás – instalação do</p><p>Arquivo Diocesano</p><p>Espaço Público Iphan/GO R$1.350.000,00</p><p>C. de Goiás</p><p>Restauração do Casarão da</p><p>Prefeitura Municipal</p><p>Imóvel Público ou</p><p>de Uso Público</p><p>Município R$5.000.000,00</p><p>Goiânia</p><p>Requalificação da</p><p>Praça Cívica</p><p>Espaço Público Município R$15.850.000,00</p><p>Goiânia</p><p>Restauração da Estação</p><p>Ferroviária</p><p>Imóvel Público ou</p><p>de Uso Público</p><p>Município R$7.000.000,00</p><p>TOTAL PAC-CH GOIÂNIA R$22.850.000,00</p><p>TOTAL PAC-CH CIDADE DE GOIÁS R$26.900.000,00</p><p>VALOR GLOBAL R$49.750.000,00</p><p>Tabela 2: Resumo do PAC-Cidades Históricas no Estado de Goiás. Organizado pelo autor, 2020.</p><p>Por mais que em Goiânia apenas dois projetos tiveram custeio pelo PAC-CH, o valor</p><p>das obras foram quase que proporcionais ao recurso total destinado para a antiga capital</p><p>executar seus seis projetos (Tabela 2). Tal fato se deu por as obras da Cidade de Goiás</p><p>terem sido direcionadas a objetos isolados e em menor escala enquanto a Requalificação</p><p>da Praça Cívica e Restauração da Estação Ferroviária</p><p>se trataram de projetos que</p><p>desempenharam ações em edificações e nos espaços públicos que as incorporaram, com</p><p>área exponencialmente maior.</p><p>189</p><p>Mapa 11: Monumentos recuperados e restauradas pelo PAC – Cidades Históricas. Base cartográfica disponibilizada</p><p>pelo Escritório Técnico do Iphan da Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019.</p><p>190</p><p>Outro ponto que pode ser aferido, é que nas duas cidades, as prefeituras ficaram</p><p>responsáveis pela condução e realização de alguns projetos. Conforme abordado</p><p>anteriormente, o PAC-CH colocava o Iphan como o responsável direto dos processos</p><p>relativos a obras de intervenção, e como os municípios ficaram também imputados,</p><p>demonstra que houve uma descentralização nas execuções.</p><p>Sobre os projetos selecionados na Cidade de Goiás, objetos empíricos deste item,</p><p>nenhuma das intervenções supracitadas haviam sido propostas no Plano de Ação. De</p><p>acordo com o Relatório publicado pela Controladoria Geral da União – CGU82 (BRASIL,</p><p>2016), em 2010 o município havia incluído: (1) Requalificação urbanística das vias do</p><p>Centro Histórico visando medidas que intervissem em drenagem, mobilidade urbana,</p><p>sinalização e equipamentos urbanos83; (2) Requalificação Arquitetônica e Urbanística do</p><p>Complexo Turístico-Cultural do Antigo Matadouro Municipal; (3) Restauração e</p><p>Requalificação da Câmara Municipal, IBGE, Corpo de Bombeiros e Delegacia Regional de</p><p>Polícia; e (4) Recuperação, Proteção e Revitalização do Rio Vermelho e dos Córregos</p><p>Manoel Carlos e da Prata.</p><p>Conforme Relatório, no primeiro momento o município priorizou a eleição de ações</p><p>de infraestrutura urbana que seriam fundamentais para a qualidade de vida aos usuários</p><p>e moradores do conjunto histórico. Mas com a nova configuração da segunda fase do PAC-</p><p>CH, mudaram-se as ações prioritárias no programa em si, consagrando projetos que</p><p>visavam a requalificação de espaços urbanos e restauração de edifícios públicos. Sendo</p><p>assim, entre os primeiros objetos apontados os que poderiam se enquadrar nesse perfil</p><p>já haviam sido realizados, como o do antigo Matadouro que havia passado por obras entre</p><p>os anos de 2006 e 2008.</p><p>Fica claro que nos projetos de 2010 os agentes preservacionistas vilaboenses</p><p>incluíram objetos que dariam continuidade as obras do Programa Monumenta que</p><p>estavam sendo executadas naquele momento. Ao prever ações para o Rio Vermelho e para</p><p>o Largo do Matadouro, o Projeto Beira-rio do programa seria complementado, pois estas</p><p>áreas não faziam parte de seu endosso, mas eram adjacentes a seu perímetro de ação. Já</p><p>82 Relatório nº201603222, que avalia os Resultados da Gestão do Iphan/GO, relativos à recuperação,</p><p>restauração, requalificação e preservação do patrimônio cultural das Cidades Histórias. Disponível em:</p><p>http://www.portaldatransparencia.gov.br/. Acesso em 22 de março de 2020.</p><p>83 O projeto seria dividido em três etapas e setores: I – logradouros com calçamento em pedra, nos bairros</p><p>Santana e Carmo / II- logradouros com calçamento em bloco de concreto e/ou asfalto, nos bairros Alto</p><p>Santana, Leste, Rio da Prata e Araguary / III – logradouros com calçamento em bloco de concreto e/ou</p><p>asfalto, nos bairros Alto do Carmo, Padre Arnaldo e Santa Bárbara.</p><p>http://www.portaldatransparencia.gov.br/</p><p>191</p><p>em 2013, aproveitou-se da oportunidade da segunda fase do PAC-CH para incluir o</p><p>Mercado Municipal que anteriormente estava no grupo de obras previstas pelo</p><p>Monumenta, mas não havia sido executado por causa da sua finalização, fazendo deste</p><p>grupo, representantes de um plano novo e sem correlação com obras em andamento.</p><p>As obras do PAC-CH na Cidade de Goiás iniciaram em 2014 finalizando com a última</p><p>inauguração em 2018, sendo o primeiro município brasileiro a ter executado todos os</p><p>projetos selecionados. Tal feito demonstra o quanto o programa rompeu com a</p><p>inconclusão do Monumenta no contexto vilaboense e com os problemas que contornaram</p><p>o PAC-CH em outras localidades. Entre as falhas detectadas, o Relatório da CGU (BRASIL,</p><p>2016) aponta que os planejamentos orçamentários das intervenções apresentaram</p><p>deficiências, pois alguns não foram suficientes, havendo restrição quanto à</p><p>competitividade na convocatória para equipe responsável por pesquisa arqueológica que</p><p>ficou a cargo de uma empresa apenas84 e que é obrigatoriamente necessário em qualquer</p><p>intervenção em conjuntos históricos e, por fim, a aprovação para início das obras do Cine</p><p>Teatro e do Casarão da Prefeitura sem aprovação dos projetos básicos e executivos, o que</p><p>feria as próprias normativas do Iphan85.</p><p>Em relação aos projetos propriamente ditos, a partir daqui serão apresentadas</p><p>algumas ponderações sobre o que foi feito, tecendo sempre que possível uma reflexão</p><p>crítica sobre as obras em relação ao contexto de intervenções na cidade. Para esta</p><p>tessitura, poucos documentos foram encontrados, principalmente por se tratar de obras</p><p>ainda não analisadas pela literatura, ficando restritos quanto aos poucos publicados no</p><p>Acervo Digital do Iphan, em sites e relatório da CGU, além dos objetos propriamente ditos.</p><p>A primeira ação executada pelo PAC-CH na Cidade de Goiás foi a Recuperação da</p><p>Ponte Cambaúba (Figura 53), iniciada em janeiro de 2014 e inaugurada um ano depois,</p><p>sendo o único projeto que atuou sobre um local restritamente urbano. A ponte, que faz</p><p>conexão ao caminho que leva ao Largo da Carioca, é uma das cinco encontradas no</p><p>conjunto tombado que interligam os dois lados do Rio Vermelho. Com a enchente de 2011,</p><p>graves patologias foram provocadas principalmente em seu assoalho e guarda-corpo,</p><p>ferindo completamente sua estrutura. Dessa forma, ficou interditada por colocar em risco</p><p>o tráfego de pessoas, carros e demais transportes automotores.</p><p>84 Vestígio Arqueologia e Meio Ambiente, que também executou serviços durante o Programa Monumenta.</p><p>85 Art. 7º da Portaria/Iphan nº 420, em que define-se que as intervenções em bens patrimoniais só assim</p><p>poderão ser executadas após anuência do órgão federal.</p><p>192</p><p>Figura 53: Ponte Bocaiúva. Foto: SOUZA, 2019. Acervo pessoal.</p><p>A inclusão da ponte no PAC-CH supriu a falta do objeto no Projeto Beira-rio que havia</p><p>sido retirado por questão orçamentária, e visou a troca de seu sistema construtivo, que</p><p>anteriormente formado por fundações em bloco de concreto e pilares de madeira do tipo</p><p>paliteiro, atrapalhavam a vazão do rio. Frente a esse problema, principalmente com a alta</p><p>probabilidade de novas cheias acontecerem na cidade, seu vão foi aumentado e toda sua</p><p>estrutura refeita seguindo os moldes originais pela Construtora Amazonas Comércio e</p><p>Indústria Ltda, que também ficou responsável pela Restauração da Escola de Artes</p><p>Plásticas Veiga Valle (Figura 54).</p><p>Figura 54: Escola de Artes Veiga Valle. Foto: SOUZA, 2019. Acervo pessoal.</p><p>193</p><p>Transformado em escola de artes em 1968 e atendendo cerca de 250 alunos, o casarão</p><p>é fruto da adaptação de algumas residências do século XIX, assim como o ocorrido no</p><p>Quartel do XX e no Palácio Conde dos Arcos. A escola é referência na cidade ao oferecer</p><p>cursos de desenho, escultura, pintura, gravura, história da arte e canto-coral. Além de</p><p>restaurar o edifício preexistente, o projeto de 2014 com término em 2015, reorganizou as</p><p>salas de aula, instalou a diretoria, remodelou as baterias de banheiros e o jardim externo,</p><p>além de construir um novo anexo destinado a um ateliê de música e modelagem, frente a</p><p>limitação de espaço que a escola se encontrava.</p><p>Diferente do ocorrido em outras obras executadas na cidade, o novo anexo mesmo</p><p>apresentando algumas características arquitetônicas que se assemelham com os cânones</p><p>coloniais como as telhas capa de bica, nos permite à sua percepção como arquitetura mais</p><p>recente por conta de alguns elementos inseridos na fachada. Por mais que o ritmo nas</p><p>portas foram utilizados de maneira bem similar a realidade do conjunto setecentista e as</p><p>cores seguiram o padrão</p><p>cromático do entorno, o uso de portas de correr e trilhos</p><p>metálicos, que posicionados na fachada externa (Figura 55), traspassa o histórico de</p><p>limpezas de tudo aquilo que seria estranho a arquitetura colonial, tão exercido nos</p><p>casarios vilaboenses.</p><p>Figura 55: Anexo Escola de Artes Veiga Valle. Foto: SOUZA, 2019. Acervo pessoal.</p><p>194</p><p>Por mais simples que seja, o uso de um elemento tão pequeno é o suficiente para</p><p>absorver que o ateliê se trata de uma edificação posterior, mesmo que se comporte de</p><p>modo até mesmo sereno dentro do contexto da escola. Ao considerar que o PAC-CH tenha</p><p>tido o Iphan como seu principal coordenador, a aprovação deste projeto arquitetônico</p><p>demonstra que o rigor formal e estético tão valorizado pelos agentes do patrimônio,</p><p>estaria caminhando para uma nova fase, principalmente ao se considerar o que foi feito</p><p>nas demais obras do programa.</p><p>A Restauração do Mercado Municipal é um exemplo, mesmo que ainda tímida.</p><p>Significante fonte de renda da cidade, o equipamento foi instalado em meados do século</p><p>XIX próximo às margens do Rio Vermelho, com cômodos espacialmente divididos</p><p>paralelamente e uma grande varanda com arcada. Tornou-se no principal espaço de</p><p>comercialização de mercadorias, principalmente as voltada para a agropecuária. Ao longo</p><p>dos anos passou por inúmeras reformas estruturais, sendo a mais significativa em 1926</p><p>quando teve suas feições coloniais refeitas sob a luz da linguagem eclética (Figura 56).</p><p>Figura 56: Pavilhão eclético Mercado Municipal. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>O Mercado, definido por essa edificação, aos poucos tornou-se em um conjunto de</p><p>edificações e não mais representado por um único exemplar. Oliveira (et al. 2019) cita que</p><p>no início do século XX, a paisagem adjacente do estabelecimento apresentava outros</p><p>195</p><p>edifícios coloniais que disponibilizavam de usos similares, inseridos no tecido urbano de</p><p>modo a emoldurar um pátio central. Aos poucos todos esses pontos comerciais foram</p><p>definindo-se como pertencentes ao Mercado em si.</p><p>No início da década de 1970, dois novos pavilhões foram construídos adjacentes ao</p><p>eclético, seguindo uma arquitetura simples e popular a época, destinados ao comércio</p><p>sendo que o segundo, também era utilizado como rodoviária (Figura 57). Com o início do</p><p>Monumenta em 2009, o Iphan desenvolveu um projeto para a readequação de todo o</p><p>Mercado, tornando-o foco do programa na Cidade de Goiás. A proposta premeditava</p><p>construir um ambiente ao estilo mal, por meio da demolição dos anexos mais recentes, o</p><p>que demonstrava que o Iphan e Monumenta mais uma vez iriam apagar representações</p><p>arquitetônicas a favor da valorização do patrimônio. Seriam abatidos também dois blocos</p><p>à frente do eclético e outras edificações às margens mais próximas do rio, colocando o</p><p>bloco mais antigo em evidência e em sintonia ao afluente.</p><p>Figura 57: Pavilhões construídos na década de 1970. Fonte: OLIVEIRA et al, 2019.</p><p>Ademais, novas arquiteturas estavam propostas locadas de modo a formar um</p><p>cinturão envolto a uma grande praça, destinada a estacionamento em dias corriqueiros e</p><p>a eventos, feiras e demais manifestações em períodos sazonais. Segundo justificativa do</p><p>projeto86, os espaços entre os blocos se assemelhariam aos becos tradicionais do centro</p><p>histórico, além de se configurar como uma área aberta e teriam ações voltadas para</p><p>inserção de mecanismos quanto a acessibilidade. As novas inserções seguiriam as</p><p>características dos estabelecimentos comerciais típico coloniais, com linhas mais retas e</p><p>86 Disponível em:</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/16286?discover?rpp=10&etal=0&query=mo</p><p>numenta. Acesso em: 24 de março de 2020.</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/16286?discover?rpp=10&etal=0&query=monumenta</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/16286?discover?rpp=10&etal=0&query=monumenta</p><p>196</p><p>simples para contrapor a unidade antiga e teriam áreas avarandadas à frente assim como</p><p>o preexistente. Mas após algumas modificações, ficou decidido que os dois blocos em</p><p>frente ao eclético seriam mantidos (Figura 58), configuração que se encontra atualmente.</p><p>Figura 58: Pavilhões mantidos. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Prometia-se aproveitar das características coloniais, mas com o cuidado por utilizar</p><p>materiais que denunciariam a atualidade da arquitetura. Além disso, previa-se aspectos</p><p>que contribuíssem com a estrutura, conforto ambiental e lumínico, e sinalização. No mais,</p><p>baterias de banheiros, estacionamento, carga e descarga e projetos paisagísticos e de</p><p>acessibilidade completariam o programa de necessidades do Mercado. Em relação aos</p><p>usos, seria mantido os comerciais que ali existiam, mas que além de hortifrutigranjeiros,</p><p>novas conveniências ofertariam produtos artesanais da culinária típica goiana.</p><p>Conforme citado anteriormente, com a finalização do Monumenta o projeto do</p><p>Mercado foi migrado para o Plano de Ação da Cidade de Goiás no PAC-CH. Suas obras,</p><p>executadas pela Construtora Biapó e que aconteceram entre os anos 2014 e 2016</p><p>computaram em um projeto muito semelhante ao proposto pelo Monumenta (Figura 59).</p><p>Em relação ao resultado arquitetônico, os novos elementos inseridos utilizaram de</p><p>materiais diferentes assim como o previsto no projeto original, formando uma releitura</p><p>do pavilhão do século XIX e aos mantidos no centro do complexo.</p><p>197</p><p>Figura 59: Mercado Municipal reformado pelo PAC-Cidades Históricas. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Todos os pavilhões (século XIX, XX e XXI) apresentam seus pontos comerciais</p><p>setorizados lado a lado com parte avarandada à frente. As arquiteturas dialogam umas</p><p>com as outras por meio do uso de características físicas que as convergem, em cada</p><p>representa o período em que foi construída por conta dos materiais e formas utilizadas.</p><p>Os modelos dos pilares em arcada do pavilhão eclético refletidos nos blocos do século XX</p><p>sem os arcos e em alvenaria, nas novas edificações foram executados em madeira e</p><p>estrutura metálica utilizando de uma decifração mais contemporânea (Figura 60). Os</p><p>únicos elementos utilizados nos três objetos em modo homogêneo foram as portas e</p><p>telhados, sendo este último seguindo os parâmetros definidos na Portaria de 1993.</p><p>Figura 60: À esquerda: bloco eclético. À direita: blocos construídos pelo PAC-Cidades Históricas. Fotos: SOUZA, 2018.</p><p>Acervo pessoal.</p><p>Os acréscimos apresentam semelhanças à realidade do casario colonial que vista de</p><p>longe podem se mesclar, como telhados em duas águas, padronização nos cheios e vazios</p><p>das fachadas. A escolha dos materiais foi crucial para cumprir o intuito do projeto em não</p><p>falsear os recursos arquitetônicos tradicionais. Assim como o encontrado na Escola Veiga</p><p>Valle, o novo se assentou de modo a não ferir com a estética da edificação mais antiga, sem</p><p>198</p><p>provocar maiores disparidades entre suas partes, o que já pode ser visto nos casos do</p><p>Teatro, Prefeitura e Diocese.</p><p>Os três projetos tomaram partido de ações que até então não eram vistas no contexto</p><p>preservacionista vilaboense, rompendo de modo mais incisivo as metodologias traçadas</p><p>até ali. Com projetos arquitetônicos assinados pelo escritório soteropolitano A&P</p><p>Arquitetura e Urbanismo e obras realizadas pela empresa goiana Marsou Engenharia, as</p><p>três proposições foram muito além do que a Escola de Artes e Mercado acanhadamente</p><p>iniciaram em relação a intervenção de novas arquiteturas sobre preexistências.</p><p>A Restauração do Cine Teatro São Joaquim foi a ação mais polêmica dentre as</p><p>desenvolvidas pelo programa na cidade. Inicialmente fundado em 1857 em outro local, o</p><p>teatro, que passou a ser nomeado Cine Anhanguera, foi transferido para local onde</p><p>encontravam-se uma casa e um comércio (Figura 61) em meados do século XX, vizinhas a</p><p>sua antiga área, que foram adaptadas para receber seu uso.</p><p>Figura 61: Casario ao fundo da Cruz do Anhanguera, onde se encontra o Cineteatro São Joaquim. Fonte: Acervo digital</p><p>Iphan.</p><p>Na década de 1950, seguindo preceitos da arquitetura art déco (Figura 62), foi</p><p>construído no lugar do casario que o comportava uma nova edificação com altura</p><p>correspondente a quatro andares. A partir daquele momento, o cine afirmou-se como</p><p>199</p><p>equipamento relevante à Cidade de Goiás ao oferecer diversas peças teatrais, mostras de</p><p>cinema, shows e espetáculos de dança ao público, sendo um importante catalisador</p><p>cultural principalmente após as novas modificações estruturais ocorridas na década de</p><p>1990.</p><p>Figura 62: Teatro São Joaquim com traços art déco. Ano e autor desconhecido. Fonte: Acervo perfil "Cidade de Goiás",</p><p>facebook.</p><p>O projeto elaborado dentro do PAC-CH entre 2015 e 2016 teve por objetivo adequar a</p><p>edificação ao contexto do conjunto histórico, o que mais uma vez indicaria a continuidade</p><p>das metodologias aplicadas décadas anteriores. Para tal, o volume frontal do teatro foi</p><p>reduzido para se assemelhar a escala da vizinhança, sua fachada refeita seguindo</p><p>parâmetros coloniais e com materiais atuais, assim como sua cobertura, e toda a estrutura</p><p>interna foi atualizada para atender às exigências advindas pelos promotores de eventos e</p><p>as leis de acessibilidade (Figura 63) resultando em um projeto que integra a casca do</p><p>teatro à paisagem, mas também se inscreve ao conjunto como uma arquitetura</p><p>contemporânea em relação a seu interior.</p><p>200</p><p>Figura 63: Obra do PAC-Cidades Históricas para o Cine teatro São Joaquim. Fotos: Manuel Sá. Fonte: Archdaily, 2017.</p><p>O primeiro ponto crítico ao projeto se deu ao fato de a obra não ter sido resultado de</p><p>uma readequação e, sim, fruto de uma construção feita do zero, desde a sua fundação</p><p>estrutural. Para a execução, o edifício existente foi completamente demolido (Figura 64),</p><p>gerando euforia entre a sociedade vilaboense que denunciou ao Conselho de Arquitetura</p><p>e Urbanismo – CAU o ato cometido para que impedisse seu encaminhamento. Na</p><p>denúncia87, o proponente responsável definiu a demolição como um “crime contra o</p><p>patrimônio histórico da Cidade de Goiás mais uma vez, promovido pelo Iphan [...], órgão</p><p>que deveria protegê-lo e está aos poucos destruindo nossa história, através de demolições</p><p>e mutilações de prédios de várias épocas”. A queixa demonstra que aquela não seria a</p><p>primeira vez que o órgão havia incomodado a população com suas ações, principalmente</p><p>com as limpezas esteticistas na arquitetura local, definindo-as como “mutilações”.</p><p>87 Disponível em:</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/16483?discover?rpp=10&etal=0&query=cin</p><p>e+teatro+s%C3%A3o+joaquim. Acesso em: 24 de março 2020.</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/16483?discover?rpp=10&etal=0&query=cine+teatro+s%C3%A3o+joaquim</p><p>http://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/handle/123456789/16483?discover?rpp=10&etal=0&query=cine+teatro+s%C3%A3o+joaquim</p><p>201</p><p>Figura 64: Cine teatro demolido. Fonte: Acervo digital Iphan.</p><p>No mais, o denunciante apontou que o projeto apresentado pelo Iphan seria</p><p>equivocado, pois não estava com definição concreta quanto a sua forma e não teria</p><p>embasamento mediante ao valor milionário previsto para sua execução. Em resposta88, o</p><p>Iphan juntamente ao PAC-CH alegou que o projeto buscava contextualizar o edifício em</p><p>relação a seu entorno, fazendo do conjunto o verdadeiro protagonista da paisagem e não</p><p>o teatro, como era o caso. Por isso, escrutinava-se que o teatro se diluísse entre o casario</p><p>por meio da construção de uma nova edificação que não propunha ser fruto de um</p><p>simulacro ou um falso histórico e sim uma fachada que permitisse que o observador o</p><p>percebesse, mesmo que de perto, como uma edificação recente.</p><p>Para justificar a demolição foi argumentado que grande parte das edificações do</p><p>conjunto são datadas do período colonial, sendo que os construídos posteriormente em</p><p>sua maioria, mantiveram harmonia em relação a volumetria, ocupação à face da quadra e</p><p>ao uso de materiais tradicionais. Já o teatro, que não apresentava apreço arquitetônico</p><p>que o associasse aos valores considerados pelo Iphan e Unesco, assim como outras</p><p>edificações com as mesmas características discordantes, seriam passíveis de serem</p><p>adequados a uma melhor inserção ao perímetro institucionalizado.</p><p>Estas ponderações não só atestam a demolição do Teatro São Joaquim, assim como</p><p>defende todas as intervenções executadas na cidade que, de algum modo, extirparam da</p><p>paisagem incongruências à sua visão. Os projetos articulados na Agência do Banco do</p><p>88 Idem.</p><p>202</p><p>Brasil, no Colégio Sant’Anna, nos Largos do Chafariz e do Coreto, no Quartel do XX, assim</p><p>como em inúmeras residências, foram naquele momento justificados como fruto de um</p><p>processo de alinhamento de todo o conjunto a imagem colonial que o fez ser reconhecido</p><p>como patrimônio.</p><p>O ato de demolir o teatro e reconstruí-lo, mesmo que em sintonia a nova abordagem</p><p>de conceber arquiteturas mais atuais que se padeçam bem no tecido histórico, produz um</p><p>edifício que vai de encontro ao mimetismo arquitetônico abordado no capítulo anterior.</p><p>Além disso, demonstra que a retomada das características passadas e reconfiguradas sob</p><p>o tempo, só valem caso as edificações tenham tido relação direta com o período colonial.</p><p>Enquanto no Quartel do XX a sua forma original foi recuperada, o Teatro São Joaquim</p><p>precisou vir a chão para não ser novamente um exemplar déco e ter sua reformulação</p><p>estética justificada. Isso prova que por mais que o conjunto reconhecido pela Unesco</p><p>englobe inúmeras vertentes arquitetônicas, o que inclui o próprio teatro que está inserido</p><p>no coração do centro histórico, as discordantes à sua fundação ainda não são consideradas</p><p>passíveis de serem sustentadas na cenarização da paisagem vilaboense.</p><p>Já nos projetos de Requalificação da Sede da Diocese de Goiás – instalação do</p><p>Arquivo Diocesano e Restauração do Casarão da Prefeitura Municipal não aconteceu</p><p>o mesmo que no teatro. A sede diocesana foi incorporada ao PAC-CH para que um novo</p><p>centro de pesquisa fosse construído para disponibilizar à sociedade informações variadas</p><p>sobre a diocese de Goiás. O arquivo dispõe para consulta pública acervo com documentos</p><p>pertencentes a instituição religiosa como registros de batismo, casamento e óbitos</p><p>ocorridos entre o século XVIII e XX, além de inúmeras outras informações. Um novo bloco</p><p>edilício, além da criação de acessos e demais parâmetros estruturais foram executados</p><p>entre 2015 e 2016 para suprir a fragmentação das edificações que formavam a antiga sede</p><p>e que provocavam a descontinuidade de seus espaços (Figura 65).</p><p>203</p><p>Figura 65: Obra do PAC-Cidades Históricas para o Arquivo Diocesano. Fotos: Manuel Sá. Fonte: Archdaily, 2016.</p><p>O projeto da prefeitura, inaugurado em 2018, promoveu as restaurações do edifício</p><p>neoclássico datado do início do século XX, e da casa vizinha que foi adquirida pelos</p><p>insumos do programa para conseguir reunir todas as secretarias da autarquia que</p><p>estavam espalhadas pela cidade. Juntos ao novo anexo, construído ao fundo de ambos</p><p>para uni-los, o pequeno complexo além de sede das administrações do município, também</p><p>o é dos setores municipais de engenharia e arquitetura (Figura 66). Poucas exclusões</p><p>foram feitas, mais no sentido de melhor compor os ambientes internos e promover as</p><p>interligações dos blocos e não no de intervir na originalidade das fachadas.</p><p>204</p><p>Figura 66: Obra do PAC-Cidades Históricas para a Prefeitura Municipal. Fotos: Manuel Sá. Fonte: Archdaily, 2018.</p><p>Estes projetos remetem a uma reflexão sobre as relações entre passado e presente ao</p><p>aproveitarem de materiais que se assemelham aos tradicionais usados no casario do</p><p>período colonial como pedras e madeira, somados a estruturas metálicas e vidro, mas não</p><p>sendo necessariamente aplicados</p><p>Os núcleos urbanos setecentistas tiveram no órgão o respaldo necessário para se</p><p>tornarem foco das políticas culturais do país e, desde o princípio, tiveram prioridade em</p><p>serem selecionados como cidades patrimônio. Para tanto, agentes políticos e culturais</p><p>vilaboenses interessados pelas glórias que o patrimônio como objeto institucional</p><p>poderia angariar, viram no reconhecimento da Cidade de Goiás como patrimônio nacional</p><p>um caminho para reerguê-la como cidade histórica e recolocá-la em meio a um</p><p>sentimento de enaltecimento.</p><p>Por causa da simplicidade de seu casario e das poucas, mas consideráveis rupturas</p><p>morfológicas encontradas em seu tecido, os primeiros pedidos foram indeferidos pelo</p><p>instituto na década de 1940. Após um trabalho de insistência de seus agentes e seguindo</p><p>os parâmetros estabelecidos pelo Iphan, seletivos objetos, originalmente coloniais, foram</p><p>tombados nos anos 1950. Com mudanças ideológicas dentro do Iphan e a inclusão de</p><p>novas categorias em suas políticas, o conjunto arquitetônico e urbanístico vilaboense foi</p><p>reconhecido em 1978 como patrimônio nacional e, em 2001, “agraciado” com a categoria</p><p>de Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, conformando 40% do tecido urbano</p><p>da cidade.</p><p>O reconhecimento da Cidade de Goiás a patrimônio é resultado de um longo processo</p><p>movido pelas mais diversas instituições culturais, sejam elas locais ou “estrangeiras”. A</p><p>cada fase de tombamento, uma nova área do centro antigo da cidade foi inclusa entremeio</p><p>às políticas preservacionistas, colocando sua figura de representante dos setecentos como</p><p>a mais emblemática interface aos olhos dos patrimonialistas no Estado de Goiás. Esses</p><p>1 O tombamento corresponde a inscrição do bem reconhecido nos Livros do Tombo, como um meio jurídico</p><p>de protegê-lo, configurando-se como um objeto de interesse público sob a guarda do Estado. Os Livros são:</p><p>1 – Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico; 2 – Livro do Tombo Histórico; 3 – Livro do</p><p>Tombo das Belas Artes; 4 – Livro do Tombo das Artes Aplicadas.</p><p>24</p><p>mais de 70 anos desde o primeiro chancelamento foram marcados por inúmeras ações</p><p>que buscaram contribuir com a preservação e manutenção do bem institucionalizado. No</p><p>caminho, intervenções físicas e culturais afirmam os valores da arquitetura, do traçado</p><p>urbano e das manifestações sociais, que foram selecionados para representar a sociedade</p><p>vilaboense.</p><p>Paulatinamente, novos cenários foram construídos pelo perímetro patrimonial</p><p>estabelecendo uma ponte entre sua imagem idealizada e as intenções de reconhecê-la</p><p>em patrimônio mundial, assim como incentivá-la turística e economicamente. Desde</p><p>a década de 1970, sob a supervisão do Iphan, ocorreram intervenções em edificações e</p><p>espaços públicos do conjunto, objetivando-se estruturar o patrimônio à proporção que</p><p>incentiva seu uso e consumo, seja ele visual, histórico ou financeiramente. Como</p><p>resultado, o centro histórico tornou-se símbolo da cultura goiana, palco de trocas sociais</p><p>e objeto de interesse por parte de programas intervencionistas e de gestores culturais.</p><p>Neste sentido, surgem dúvidas pertinentes às imagens da Cidade de Goiás e que coloca</p><p>o patrimônio aqui elucidado em questão. Em que medida uma imagem idealizada da</p><p>cidade interferiu nas políticas e ações de conservação dos bens da antiga capital de Goiás?</p><p>Arrematando a preocupação apontada e considerando a valorização da arquitetura</p><p>colonial no contexto local, apropria-se do conjunto arquitetônico e urbanístico</p><p>institucionalizado objetivando-se a tecer uma narrativa que enlace intervenções</p><p>executadas a favor do cenário setecentista, e que é ausente na literatura goiana.</p><p>Considerando o lento compasso e fragmentação temporal das operações, opta-se por</p><p>adotar um período mais extenso que permitirá diagnosticar essa afirmação por meio de</p><p>casos exemplares que dialogam com a exposição.</p><p>Com a Cidade de Goiás inserida nas normativas do Iphan e Unesco, o conjunto assumiu</p><p>papel de representação da identidade goiana, nacional e, posteriormente, da mundial.</p><p>Dentro desse contexto, reformas em imóveis e nos elementos da morfologia urbana</p><p>valorizaram o que se encontra, retomaram o que um dia foi, construíram o que nunca</p><p>existiu ou camuflaram aquilo que é. Pelo tempo, as características morfológicas da</p><p>paisagem urbana tradicional ecoaram-se pelo conjunto e adjacências em forma de</p><p>simulacros, permanecendo nítida a imagem de vila aurífera das bandeiras. Outrossim, o</p><p>conjunto ajustou-se em espaço de manifestações culturais que sustentam a deglutição do</p><p>patrimônio.</p><p>25</p><p>Dividida em três partes, esta pesquisa reifica-se a complementar com singularidade a</p><p>história da arquitetura goiana que não conta com reflexões que compilam as obras feitas</p><p>na Cidade de Goiás relacionadas a afirmação de um cenário idealizado e como fruto de um</p><p>mesmo processo. Para sua viabilidade, utilizam-se as mais variadas fontes da literatura</p><p>científica aos documentos oficiais, da iconografia histórica ao objeto propriamente dito,</p><p>passando por teses, dissertações, artigos, relatórios de governo e, especialmente, os</p><p>levantamentos empírico e fotográfico pela área institucionalizada. Adquire-se, então, a</p><p>seguinte estrutura:</p><p>| Primeira parte: dedica-se construir uma linha de percepção cronológica envolvendo</p><p>a conformação socioespacial da Cidade de Goiás a partir do século XVIII, a evolução</p><p>conceitual do patrimônio como objeto institucional, tanto mundialmente quanto no</p><p>Brasil, as etapas de tombamento do patrimônio local amparadas aos aspectos que</p><p>envolvem o aumento do perímetro tombado e a valorização dos cânones coloniais e uma</p><p>descrição e reflexão crítica do Dossiê de Inscrição da Cidade de Goiás na lista do</p><p>Patrimônio da Humanidade. Esta etapa surge da necessidade de explanar em como as</p><p>particularidades de cada item convergem e justificam os paradigmas do sistema</p><p>patrimonial vilaboense.</p><p>| Segunda parte: a partir da compreensão da literatura contemporânea referente à</p><p>absorção do patrimônio como mecanismo de construção da imagem ideal das cidades,</p><p>busca-se apresentar casos que expõem a instauração de um processo de construção de</p><p>cenários no conjunto tombado vilaboense. Discute-se projetos intervencionistas que</p><p>restauraram, recuperaram e falsearam a arquitetura colonial, introduzindo o modus</p><p>operandi que é percebido em intervenções outras na Cidade de Goiás. Dirigindo o olhar</p><p>para a reestruturação arquitetônica e morfológica do conjunto e adjacências, aos moldes</p><p>de diretrizes e normativas preservacionistas locais, percebe-se que o patrimônio</p><p>vilaboense têm se tornado similar à imagem estipulada pelos agentes. As análises</p><p>agarram-se a iluminação pública, aos calçamentos, cores das fachadas e mimetismos</p><p>arquitetônicos, observando as justificativas, materialidades, formas e resultados.</p><p>| Terceira parte: complementando a tessitura, mostra-se a inserção do perímetro</p><p>institucionalizado no Programa Monumenta e Programa de Aceleração do Crescimento –</p><p>Cidades Históricas, que auxiliaram a reconstrução das perdas que o Rio Vermelho levou e</p><p>conferiram obras físicas ao sítio como mecanismo para sua sustentabilidade financeira.</p><p>Ao mesmo tempo que reverberaram nas ações, as limpezas das incongruências</p><p>26</p><p>arquitetônicas e urbanísticas à originalidade do conjunto, abriu-se espaço para uma nova</p><p>produção de projetos que veem no novo um modo de valorizar o antigo. Por fim, levanta-</p><p>se os efeitos ocasionados pelo turismo cultural que interfere na dinâmica do conjunto,</p><p>influencia a sua estruturação, promove seu uso e caracteriza novas imagens para o</p><p>patrimônio vilaboense.</p><p>27</p><p>Igreja São Francisco de Paula</p><p>e Casa do Bispo</p><p>Foto: SOUZA, 2018.</p><p>28</p><p>Capítulo I</p><p>DE ARRAIAL A PATRIMÔNIO</p><p>29</p><p>assim como foram no século XVIII. O anexo da</p><p>Prefeitura por ser em vidro, ficou leve e sem contrastar de forma negativa com as duas</p><p>preexistências além do próprio conjunto, criando uma relação até mesmo lúdica e</p><p>evocativa com a mata locada posterior as edificações. Da mesma forma que na diocese, ao</p><p>apresentar aberturas em seu muro frontal que muito se assemelham a esquadrias só que</p><p>em proporções diferenciadas, levou a edificação que está recuada para dentro do lote para</p><p>a rua. A fachada principal ficou retratada similar ao entorno, mas de modo diferente ao</p><p>utilizado na casa do Largo do Chafariz que buscou na imitação o meio mais viável à época.</p><p>Os dois projetos teceram uma relação entre o antigo e o contemporâneo de modo a</p><p>entender a construção de uma nova arquitetura consciente dos valores das</p><p>preexistências, tendo pouco utilizado de limpezas estéticas ou simulacros. Além de tudo,</p><p>estes projetos definitivamente indicam uma perspectiva que inova as práticas</p><p>preservacionistas na Cidade de Goiás e que seguem o que foi feito em outras cidades Brasil</p><p>afora, assim como no mundo89. As propostas respondem simbolicamente ao contexto do</p><p>89 Casos como Museu Rodin e Solar do Unhão em Salvador – BA e Praça das Artes e Pinacoteca, ambas na</p><p>capital paulista.</p><p>205</p><p>lugar, regularizando espaços que por falhas estruturais apresentavam patologias em seu</p><p>funcionamento, construindo dois novos equipamentos que ao mesmo tempo que atuam</p><p>como objetos funcionais, se tornaram símbolos de uma nova faceta aos cenários urbanos</p><p>da cidade.</p><p>3.3 | Turismo e Patrimônio Cultural: uma via de mão dupla</p><p>Segundo a Organização Mundial de Turismo - OMT, o turismo define-se pelas visitas</p><p>que um determinado viajante faz a locais diferentes do seu entorno habitual por período</p><p>inferior a um ano e sem o exercício de atividade remunerada. Os motivos para tais</p><p>deslocamentos se dão sob diversos aspectos como descanso, diversão, aprendizado e/ou</p><p>aperfeiçoamento profissional.</p><p>O turismo contemporâneo surgiu com a Revolução Industrial e se acentuou após a</p><p>Segunda Guerra Mundial, colocando-o como um negócio de rentabilidade e que cresce a</p><p>cada dia mais. Paulatinamente vem apresentando diferentes necessidades, buscando se</p><p>alimentar de novas produções e fazendo com que as cidades formatem novos produtos.</p><p>Gastal (2000) ao analisar a cidade como um produto relacionado a cultura e ao turismo,</p><p>afirma que com o encarecimento da sustentação das cidades por parte apenas de seus</p><p>moradores, fez com que algumas localidades descobrissem o poderio disponível nas</p><p>ofertas culturais e turísticas, fazendo com que os visitantes se tornassem em uma ideal</p><p>fonte de renda.</p><p>As movimentações implicadas pelo veio turístico contribuem para trocas culturais</p><p>entre os que recebem e aqueles que visitam, pois o ambiente visitado além de ser visto,</p><p>pode e deve ser sentido. Cada observador projeta naquilo que vê especificidades únicas,</p><p>relacionando o espaço consigo mesmo e conferindo significados. Assim, o consumo</p><p>turístico espalhou-se pelas cidades com o propósito de lazer e principalmente como</p><p>subsídio estatal, tornando-se em sinônimo de qualidade de vida em vários sentidos,</p><p>principalmente no que se relaciona ao macro campo cultural.</p><p>O turismo tornou-se em produto da sociedade capitalista industrial, desenvolvendo-</p><p>se na maioria das vezes a partir do consumo de bens culturais. Segundo dados da Unesco,</p><p>o turismo cultural é responsável por 40% das receitas do turismo mundial, impactando</p><p>206</p><p>positivamente na geração de empregos e crescimento econômico90. É exatamente este</p><p>tipo de turismo, o definido como cultural, que o abordaremos como o propulsor de alguns</p><p>dos efeitos resultantes do processo de patrimonialização instaurado na Cidade de Goiás.</p><p>Tal narrativa dá seguimento ao interesse de valorização da imagem da cidade por parte</p><p>dos agentes preservacionistas locais e contribui para a teorização referente ao dinamismo</p><p>provocado pela cenarização do conjunto tombado.</p><p>Até pouco tempo o turismo cultural era considerado por teóricos uma das seções para</p><p>qualificar os motivos por traz dos deslocamentos das pessoas. Com o passar dos anos e a</p><p>valorização do fator cultural frente as práticas e teorizações, o mesmo passou a estar</p><p>presente nos projetos turísticos, atuando na sua concepção, planejamento, gestão e</p><p>principalmente, em seu marketing91. Do mesmo modo que o próprio turista ao dispor de</p><p>novos requisitos para consumir o ambiente visitado, fez da própria cultura em elemento</p><p>formatado dentro de uma lógica que transforma os atrativos em produtos turísticos.</p><p>No que concerne a relação entre turismo e patrimônio cultural, o primeiro considera</p><p>o segundo como “aquele que se volta para certos tipos de atividades mais propriamente</p><p>culturais, tais como visitas a museus, a cidades históricas ou a roteiros temáticos”</p><p>(FUNARI,PINSKY, 2001, p.9), configurando-se como um aspecto importante do turismo</p><p>da atualidade, que valoriza demasiadamente destinos “chanceladamente” patrimoniais.</p><p>Desde a segunda metade do século XX, os bens culturais reconhecidos a patrimônio, sejam</p><p>eles materiais ou imateriais, tornaram-se em importantes elementos de atração turística,</p><p>além de itens de conscientização social e potenciais objetos mercadológicos. Sendo assim,</p><p>o turismo cultural não se refere apenas a espetáculos ou eventos, implicando também, na</p><p>existência e preservação de patrimônios.</p><p>Conforme abordado no capítulo anterior, os bens culturais ao possuírem valores</p><p>outros além da historicidade que o cerca, tornaram-se em indispensáveis objetos de</p><p>consumo e, assim, tais constituem-se muitas das vezes como a própria sustentação do</p><p>turismo local. Ao acreditarmos que a preservação do patrimônio cultural garante que a</p><p>sociedade tenha maiores possibilidades de perceber a si própria, pois ao preservar-se um</p><p>determinado bem este serve para testemunhar o passado e permite que um indivíduo,</p><p>90 Disponível em: https://pt.unesco.org/fieldoffice/brasilia/expertise/culture-development-brazil. Acesso</p><p>em: 11/03/2020.</p><p>91 Segundo Barreto Filho (2000, p.60) o “marketing turístico” define-se sendo “todas as ações no mercado</p><p>que visam captar e manter fluxos de turistas”, exigindo esforços de inúmeros grupos privados e públicos, e</p><p>estando presente em todo o mundo por justamente mostrar importância frente a geração de emprego e</p><p>renda, o que faz destes seus principais objetivos.</p><p>https://pt.unesco.org/fieldoffice/brasilia/expertise/culture-development-brazil</p><p>207</p><p>seja ele em coletivo ou não, se sinta pertencente a um mesmo conjunto cultural, fez com</p><p>que o turismo tornasse em um mecanismo que facilita tal experiência e</p><p>consequentemente em um objeto de interesse por parte das agências culturais.</p><p>Historicamente, o patrimônio cultural, economia e o turismo tornaram-se</p><p>pertencentes a uma mesma pauta de modo mais afiado na América Latina a partir de 1967</p><p>com a elaboração das Normas de Quito. Neste período, os países latino-americanos</p><p>passavam por um processo acelerado de desenvolvimento que desencadeava a</p><p>“multiplicação de ações intervencionistas, obras de infraestrutura e ocupação de extensas</p><p>áreas para a instalação de indústrias e construções imobiliárias que não alteraram, mas</p><p>deformaram por completo a paisagem” (OEA, 1967, p.3). Assim, seria preciso desenvolver</p><p>políticas oficiais por parte dos governos para “imprimir eficácia e práticas às medidas</p><p>protecionistas vigentes e de promover a revalorização do patrimônio monumental em</p><p>função do interesse público e para o benefício econômico da nação” (p.3), em que o Estado</p><p>deveria assumir, conforme a normativa, posturas frente a industrialização e urbanização</p><p>que colocava em risco a preservação dos bens registrados.</p><p>Em relação as intervenções feitas pela iniciativa privada, o documento apontava que</p><p>para incrementar o valor histórico e monetário do bem, a mesma pode atuar desde que</p><p>acompanhada</p><p>1.1 | O Arraial que virou Cidade</p><p>A primeira história do surgimento e formação do espaço urbano da atual Cidade de</p><p>Goiás não se difere dos processos encontrados em outros núcleos mineradores do período</p><p>colonial. Fruto das expedições bandeiristas pelo interior brasileiro em busca de minérios,</p><p>o aglomerado vilaboense surge na primeira metade do século XVIII, localizado entre</p><p>Minas Gerais e Mato Grosso, locais em que a extração aurífera já começara.</p><p>Segundo Luiz Palacín (1994), autor que apresenta uma vasta pesquisa sobre a história</p><p>do Estado de Goiás, diversas bandeiras aconteceram por terras goianas, mas foi a chefiada</p><p>por Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera filho, a mais significante para a Cidade de</p><p>Goiás. A caminhada iniciou em 1722 com saída de São Paulo, chegando na região do Rio</p><p>Vermelho em 1725, local da atual cidade. Ao encontrar jazidas de ouro na região, retorna</p><p>para São Paulo no mesmo ano, com o intuito de comunicar o achado. Em 1726 volta para</p><p>o território dos índios goyazes, fundando às margens do rio o Arraial de Sant’Ana,</p><p>tornando-se assim em Superintendente das Minas dos Goyazes.</p><p>Instalado em um terreno acidentado entre serras e morros, o Arraial contrapôs as</p><p>ordens da coroa que se regia dentro das normas impostas pelo Tratado de Tordesilhas</p><p>por encontrar-se além da linha do território português, se tornando “o primeiro núcleo</p><p>urbano para além do Tratado” (TAMASO, 2007, p.36). Conformando-se em ambos os lados</p><p>30</p><p>do Rio Vermelho e às suas margens, o arraial seguiu os mesmos parâmetros dos núcleos</p><p>urbanos do período colonial, os quais surgiram oficialmente a partir da construção de uma</p><p>pequena capela e ao sul do rio foi construída a capela de Santana em 1726, onde</p><p>atualmente encontra-se a Matriz de Santana que foi construída a partir de 1743. Além da</p><p>capela, o rio também se tornaria um elemento estruturador do traçado urbano.</p><p>Seguindo os estudos de Paulo Bertran sobre o desenvolvimento urbano do Arraial no</p><p>século XVIII, Coelho (1997) traz a luz, em sua dissertação de mestrado, que o primeiro</p><p>momento de sua ocupação de 1727 a 1730 fora incidental. Assim, é nomeado pelo fato da</p><p>aleatoriedade do aparecimento do que seriam as primeiras casas construídas em</p><p>Sant’Ana, sempre às margens do rio ou o mais próximo possível. Muito diferentes das</p><p>desenvolvidas nas cidades litorâneas, aquelas de Goiás eram precárias taperas e em sua</p><p>maioria cobertas com palha. Tais exemplares foram surgindo pelo vale para atender de</p><p>modo prático e rápido à necessidade dos bandeirantes paulistas e demais interessados</p><p>nas riquezas auríferas encontradas na região. Por esse motivo não havia preocupação com</p><p>a estrutura das mesmas.</p><p>Acredita-se que as primeiras vias e largos tenham sido desenhadas entre os anos de</p><p>1726 e 1727, sendo elas: Rua Cambaúba, dos Mercadores, Direita, do Rosário, do Horto e</p><p>da Fundição e os largos do Rosário e da Capela de Santana (Matriz), constituindo, assim,</p><p>o primeiro traçado urbano que interligava os dois extremos (Figura 1).</p><p>Figura 1: Primeiro traçado da Cidade de Goiás. Fonte: TAMASO, 2007. Editado pelo autor.</p><p>31</p><p>O período de 1730 a 1740 é definido como incidental e intencional com a construção</p><p>de edificações mais estruturadas por conta do aumento gradativo daqueles que chegavam</p><p>em busca de ouro, mesmo que ainda fossem presentes ocupações despretenciosas, sem</p><p>rigor formal. Foi nesse momento que os arredores da Igreja de Sant’Anna consolidou-se</p><p>com o surgimento de edificações sob os cânones de métodos construtivos mais</p><p>permanentes. (COELHO, 1997, p.93).</p><p>Nesta fase também foi construída a norte do Rio Vermelho em 1734 a primeira Igreja</p><p>de Nossa Senhora do Rosário, também conhecida como “igreja dos pretos” (Figura 9), que</p><p>foi demolida e reconstruída no início do século XX seguindo preceitos da arquitetura</p><p>neogótica. Tal aspecto delimita um fator típico do período colonial brasileiro em que os</p><p>agrupamentos urbanos dividiam-se socialmente em áreas destinadas a população negra</p><p>e a branca. Sendo assim, norte para o primeiro grupo e o lado sul do afluente, mais distante</p><p>do núcleo minerador e em um terreno mais elevado, para o segundo grupo.</p><p>No que diz respeito às edificações, houve uma adaptação dos conhecimentos a</p><p>realidade natural do local. Criou-se uma arquitetura ímpar, mais simples, de influência</p><p>popular e sem qualquer indício de erudição, mesmo tendo por base os programas</p><p>portugueses e paulistas executados Brasil afora. Tais ajustes tonificam a organicidade do</p><p>núcleo, apresentando uma ligação harmônica com os elementos naturais que estão</p><p>integrados ao espaço construído, tornando-se no futuro em um elemento crucial para o</p><p>reconhecimento da cidade o título de patrimônio cultural, conforme veremos adiante.</p><p>A partir de 1740 deu-se início ao momento de intencionalidade e intervenção, que</p><p>chega aos anos 1770 marcado pela consolidação de sua estrutura urbana impulsionada</p><p>pela escolha do Arraial de San’tana, agora chamada Vila Boa de Goiás, como sede</p><p>administrativa da capitania pela coroa em 1739. Fora dali e por conta dos processos de</p><p>mineração instaurados, outros arraiais já haviam sido fundados na região dos Goyazes,</p><p>sendo eles: Arraial da Barra, Ferreiro, Ouro Fino, Santa Rita, entre outros. Mas, em</p><p>contrapartida, o Arraial de Sant’Ana é escolhido pela coroa após “disputa” com o Arraial</p><p>de Meia Ponte, atual Pirenópolis (COELHO, 1997).</p><p>Eregida a vila e seguindo os preceitos portugueses da Carta Régia de 1936, Vila Boa de</p><p>Goiás se assentou sob a malha existente do Arraial e começou a estruturar e expandir-se</p><p>além do primeiro traçado, principalmente no que diz respeito a área sul do rio. Foi neste</p><p>período que demarcou o terceiro largo da vila, o atual Largo do Chafariz, acima do Largo</p><p>da Matriz, transformando-o em um dos seus pontos mais importantes.</p><p>32</p><p>Ali seria construído, alguns anos depois, o Batalhão da Infantaria Militar em 1747,</p><p>também conhecido como Quartel do XX, a Casa de Câmara e Cadeia em 1761, atual Museu</p><p>das Bandeiras (talvez o único exemplar que seguiu um projeto arquitetônico), e o Chafariz</p><p>da Boa Morte (conhecido como Chafariz de Cauda) em 1778 (Figura 2). Nota-se que a</p><p>arquitetura oficial instalou-se, em sua maioria, na região “branca” da cidade.</p><p>Figura 2: Quartel do XX (1), Casa de Câmara e Cadeia (2) e Chafariz da Boa Morte (3). Fotos: SOUZA, 2018. Acervo</p><p>pessoal.</p><p>Com a Carta enviada por D. João III ao governador de São Paulo, que além definir a</p><p>implantação de uma vila na capitania de Goiás, ordens urbanísticas foram instruídas para</p><p>a organização do agrupamento urbano, não muito diferentes das impostas em outras</p><p>regiões. O documento orientava que as novas residências deveriam alinhar-se frente às</p><p>ruas, retilineamente, conservando um padrão externo no que diz respeito às suas</p><p>fachadas frontais às vias, mesmo que seu interior fosse executado aos moldes dos</p><p>interesses e necessidades de seus proprietários (COELHO, 2007, p. 49).</p><p>A arquitetura colonial vilaboense foi construída seguindo o padrão tradicional</p><p>português com o uso do método “parede-meia”, que se define pela colagem lateral de</p><p>todas as edificações, resultando na definição das vias públicas e becos, sendo os últimos</p><p>configurados pelos fundos dos lotes. Desse modo, criou-se um ritmo de cheios e vazios em</p><p>sequência, por conta das esquadrias, inseridas quase que com a mesma distância entre</p><p>umas e outras e da homogeineidade de alturas das casas, que diferenciam apenas por</p><p>conta da posição topográfica (Figura 3). Tal aspecto foi fortalecido pelo fato de que as</p><p>construções, em sua maioria, eram térreas (é irrisório o número de sobrados</p><p>residenciais), o que demonstra o caráter simplório da realidade social, dada a falta de</p><p>recursos investidos na elaboração dessas edificações quando comparadas, por exemplo,</p><p>com algumas cidades mineiras do mesmo período.</p><p>33</p><p>Figura 3: Casario da Cidade</p><p>de Goiás. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Com lotes em maior número estreitos, as casas possuíam de um a três lanços</p><p>internamente, sendo raros os casos com quatro, o que diz muito sobre o poder aquisitivo</p><p>dos primeiros proprietários, pois quanto maior o número de lanços, maior é a casa. As de</p><p>um lanço correspondia àquelas com todos os cômodos de um lado do corredor, as de dois</p><p>com o corredor ao centro e quanto mais complexa for a setorização, maior era</p><p>progressivamente o número de lanços. Além disso, tratava-se de configurações espaciais</p><p>cujas tipologias edilícias também conformam ser um divisor social entre famílias. As casas</p><p>de um lanço obedeciam aos padrões “porta e janela” e “meia morada”, as de dois ou mais</p><p>lanços à “morada inteira” e “sobrado”, sendo, respectivamente, em ordem crescente, um</p><p>simbolismo de poder da época (Figura 4).</p><p>Cal, adobe, taipa, pau a pique, madeira, barro conformam os materiais mais utilizados</p><p>na construção da arquitetura colonial vilaboense. Enquanto em outras cidades auríferas</p><p>a pedra fora empregada com mais zelo em variadas edificações, na Cidade de Goiás o</p><p>material aparece como meio construtivo em poucas edificações, restringindo-se aos</p><p>exemplares religiosos. Do mesmo modo, a técnica de taipa-de-pilão, muito usada pelos</p><p>paulistas, também foi encontrada quase que restritamente nas igrejas e construções</p><p>oficiais. A técnica encontrou-se presente apenas nas paredes externas de poucas</p><p>residências de famílias mais estruturadas economicamente na época, conferindo uma</p><p>certa imponência diante das demais.</p><p>34</p><p>Figura 4: Tipologias edilícias encontradas na Cidade de Goiás.</p><p>A grande maioria da arquitetura residencial usou das técnicas de adobe e de pau a</p><p>pique para a construção das paredes, sendo usadas, respectivamente, para externas</p><p>(estruturais e muros) e internas (divisoras dos cômodos), revestidas com cal,</p><p>respaldando-se em um processo construtivo particular. Suas fundações definiam-se entre</p><p>três tipos: a corrida, que era contínua e geralmente feita de pedras; a em esteio, em que</p><p>pilares de madeira eram colocados pontualmente; e o uso das duas técnicas combinadas</p><p>em uma única unidade. Tais características são encontradas em outros territórios</p><p>nacionais variando em função das características topográficas, o que torna cada conjunto</p><p>único pela configuração orgânica que o terreno produz, algo muito presente nas cidades</p><p>coloniais.</p><p>Os telhados que são ponto forte da paisagem colonial, apresentavam no geral duas</p><p>águas, uma convergindo para a via e a outra para os quintais. Sendo feitos em madeira</p><p>com o uso de telhas coloniais ou capa de bica, as cumeeiras, terças e frechais eram</p><p>apoiados nas paredes. Suaves curvaturas em seus beirais e cumeeiras, fruto da passagem</p><p>do tempo, podem ser notadas atualmente além dos mais variados detalhes em suas</p><p>terminações: beira-sobeiras, guarda-pó, cachorros, cimalhas de madeira ou de tijolos.</p><p>Outro elemento característico eram as esquadrias feitas em madeira geralmente em</p><p>tons fortes constrastando com o branco das paredes. Em verga reta, curva em canga de</p><p>boi, arco plano ou abatido, folhas cegas e lisas ou apresentando detalhes almofadados e</p><p>em calha, abrindo para fora ou para dentro, eram as variações existentes e preservadas</p><p>até hoje em combinação com as ferragens artesanais, venezianas e guilhotinas em</p><p>caixilhos. Em certos casos há a presença de bandeiras em seu topo, abertas ou com</p><p>lâminas de malacachetas para vedação, material também usado em algumas das</p><p>guilhotinas por conta da dificuldade na obtenção do vidro, que passou a fazer parte das</p><p>esquadrias apenas a partir do final do século XIX.</p><p>35</p><p>Nas casas mais primitivas os pisos eram em chão batido, mas no decorrer do</p><p>desenvolvimento da vila, o uso de tabuados, seixo rolado, tijoleiras e mezanelas, essas</p><p>últimas no século XX, tornavam-se presentes nas casas. Nos sobrados residenciais, os</p><p>pisos superiores eram em madeira. Tais materiais demonstram, conforme Coelho (2007,</p><p>p. 57) sugere, “uma preocupação fundamental com a climatização da arquitetura” por</p><p>parte dos construtores, pois todos reagem em concordância com as técnicas construtivas</p><p>vernaculares, o que garantia maior conforto térmico aos ambientes.</p><p>Mediante ao aumento da população e da distância da Capitania Paulista, em 1744 é</p><p>criada a Capitania de Goiás, mas mantendo a regência sob os desígnios do núcleo paulista.</p><p>Apenas em 1749 que Vila Boa é definida como Capitania de Goiás, tendo D. Marcos de</p><p>Noronha, o Conde dos Arcos, nomeado a governador. Segundo Coelho (1997, p.96), nesta</p><p>fase não houve por parte dos governadores “uma preocupação efetiva com relação à</p><p>estrutura urbana da capital”. Mas, em contrapartida, foi neste recorte temporal em que foi</p><p>construída a Casa da Fundição do Ouro em 1750, o Palácio do Governador (atual Palácio</p><p>Condes dos Arcos) em 1751, ambos a partir de adaptações em edificações préexistentes,</p><p>assim como o Quartel do XX, e a Igreja São Francisco de Paula (Figura 5), em 1761, às</p><p>margens do Rio Vermelho.</p><p>Até 1753 a extração de ouro foi vantajosa, tendo a economia local sempre amparada</p><p>neste trabalho. Após este período, a produção aurífera entrou em declínio resultando na</p><p>saída de vários habitantes que foram em busca de encontrar meios de subsistência em</p><p>outros lugares. Em 1770 já não havia mais lavras de ouro a serem exploradas, o que</p><p>acarretou na intensificação da prática agropecuária por conta dos estímulos promovidos</p><p>pela província que a facilitavam, fazendo desta um modo para reerguer economicamente</p><p>a capitania frente a decadência aurífera (CHAUL, 2010).</p><p>Frente a crise qua a assolava é que se configura a última fase do desenvolvimento</p><p>urbano de Vila Boa no século XVIII, de 1770 a 1800, considerado por Coelho (1997, p.97)</p><p>como “período crítico”. Segundo o autor, para impedir a saída dos habitantes da capital</p><p>foram feitos grandes investimentos para sua restruturação urbana. Dentro das ações</p><p>feitas, constrói-se pontes, passeios públicos, as igrejas da Boa Morte em 1779, Santa</p><p>Bárbara em 1780, Nossa Senhora do Carmo em 1786 e Nossa Senhora da Abadia em 1790,</p><p>além do Chafariz da Carioca em 1772 (Figura 5) e o de Cauda, conforme citado</p><p>anteriormente. Além disso, houve a definição das primeiras posturas urbanas no que diz</p><p>36</p><p>respeito as intenções de um crescimento ordenado, onde demarcou-se “novas ruas para</p><p>quando a expansão se fizesse necessária” (p.97).</p><p>Figura 5: Igreja São Francisco de Paula (1), Igreja da Boa Morte (2), Igreja Santa Bárbara (3), Igreja N. Sra. do Carmo</p><p>(4), Igreja N. Sra. da Abadia (5), Fonte da Carioca (6). Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Segundo o Dossiê de Proposição da Cidade de Goiás ao título de Patrimônio Cultural</p><p>da Humanidade (2010), documento este que discutiremos ao decorrer deste capítulo,</p><p>entre início do século XIX até meados do século XX, a vila caracterizou-se dentro de uma</p><p>fase de adaptação e estagnação econômica, além da amortização de seu desenvolvimento</p><p>enquanto espaço urbano (Figura 6). É nesse meio tempo que em 1818, Vila Boa de Goiás</p><p>passa a chamar-se Goiás (hoje conhecida como Cidade de Goiás) ao receber os foros</p><p>de cidade, se mantendo como sede da província de Goiás e, posteriormente, com a</p><p>Independência do Brasil em 1825, capital do Estado de Goiás.</p><p>37</p><p>Figura 6: Evolução urbana da Cidade de Goiás do século XVIII a início do século XX. Fonte: DOSSIÊ, 2010. Organizado</p><p>pelo autor.</p><p>O século XIX é marcado pela resistência de uma cidade que enfrenta a lentidão de seu</p><p>crescimento, diferententemente do que havia acontecido no século anterior. Frente à</p><p>estagnação de sua expansão, é neste recorte temporal em que houve uma ruptura na</p><p>paisagem urbana com as transformações estilísticas da arquitetura local. Se até ali a</p><p>arquitetura colonial fora desenvolvida de modo hegemônico, a partir de meandros do</p><p>século XIX abre-se espaço para outras</p><p>vertentes que vinham sendo difundidas mundo a</p><p>fora, mesmo que sem interferir na estrutura urbana daquele trecho da cidade, que</p><p>permance quase intacta até os dias atuais.</p><p>Tais modificações foram tardias quando comparadas com outras capitais brasileiras</p><p>mediante as dificuldades enfrentadas economicamente. Além disso, o posicionamento</p><p>geográfico da Cidade de Goiás distante da capital federal Rio de Janeiro, dificultava a</p><p>chegada de informações sobre as transformações arquitetônicas que vinham ocorrendo</p><p>em outras cidades brasileiras. Assim, a inclusão de novas vertentes arquitetônicas de</p><p>influência europeia começava a surgir na cidade aos poucos, o que determinava o</p><p>interesse de recolocar a cidade dentro do contexto social e cultural que o país vinha</p><p>passando, principalmente em relação as grandes capitais.</p><p>38</p><p>Novas edificações de cunho eclético entraram no contexto da paisagem da cidade. O</p><p>Mercado Municipal e o Colégio Sant’Anna (Figura 7), ambos seguindo os cânones da</p><p>arquitetura em específico, impactando diretamente no visual do conjunto até então</p><p>apenas colonial. Em algumas preexistências do conjunto, além do ecletismo, a arquitetura</p><p>neoclássica se fez presente em adaptações fachadistas de intuito decorativo, sem que</p><p>interferissem na organização espacial e sistemas construtivos, como é o caso do Quartel</p><p>do XX e do Palácio Conde dos Arcos (Figura 8) e algumas unidades residenciais (Figura</p><p>11).</p><p>Figura 7: Mercado Municipal (1). Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal. Colégio Sant’Anna (2). Início da década de 1970.</p><p>Fonte: Autor desconhecido. Acervo digital do Iphan.</p><p>Figura 8: Quartel do XX (1). Fonte: Autor e ano indefinido. Acervo digital do Iphan. Palácio Conde dos Arcos (2). Foto:</p><p>SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Deste modo, ornamentações como cornijas, frisos, platibandas, balaústres, palmetas,</p><p>estátuas, pedestais, acrotérios, pinhas e, entre outros detalhes feitos com tijolos e/ou</p><p>argamassas à base de cal, transformaram algumas das edificações coloniais em diferentes</p><p>39</p><p>amplitudes. Quanto maior era o poder aquisitivo do proprietário, maior foi a</p><p>transformação fachadista e, concomitantemente, maior o destoamento da unidade</p><p>perante o conjunto. Outro marco da quebra da hegemonia colonial foi a construção da</p><p>nova Igreja do Rosário, finalizada em 1933 e no lugar da antiga, que segundo o Dossiê</p><p>(2010) é considerado um atentado a autenticidade da paisagem local, por ter impactado</p><p>diretamente nas características do largo (Figura 9). Foi também no início do Século XX</p><p>que exemplares art nouveau, art déco e neocoloniais começaram a pairar sobre o conjunto,</p><p>também em contextos fachadistas.</p><p>Figura 9: Antiga Igreja do Rosário com traços coloniais (1). Fonte: Autor e ano indefinido. Acervo digital do Iphan.</p><p>Nova Igreja do Rosário com traços neogóticos (2). Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Figura 10: Casas ecléticas “não intencionais”. Foto: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>Por mais que algumas edificações apresentem fachadas totalmente modificadas,</p><p>muitas residências datadas do período colonial receberam pequenas inserções</p><p>decorativas, produzindo, assim, um “ecletismo não intencional” (Figura 10). As</p><p>características coloniais das portas, janelas, paredes, telhados, em toda sua estrutura,</p><p>permanecem marcantes e preservadas, mas, agora, encontram-se em sintonia com os</p><p>40</p><p>sutis ornatos, sob os desígnios de diferentes linguagens arquitetônicas, pontuados aqui e</p><p>ali, sem desconfigurar o caráter original do exemplar. Nota-se o desejo de mudança, de</p><p>“modernização”, de ser e fazer parte do que seria o tempo atual para a época no que diz</p><p>respeito à arquitetura produzida, mesmo que de modo singelo e em conformidade com a</p><p>realidade social de cada morador.</p><p>Nas duas primeiras décadas do século XX houve a restruturação urbana local com a</p><p>chegada de energia elétrica, água canalizada, além da construção do Coreto no Largo da</p><p>Matriz em 1901, substituído por um novo em 1920 (TAMASO, 2007). Mas, em</p><p>contrapartida, foi em meio a este contexto que a Cidade de Goiás se deparou com uma de</p><p>suas maiores perdas. Em 1937 era fundada Goiânia, aos redores da antiga Campininha</p><p>das Flores (atual setor Campinas de Goiânia), a cerca de 180 km da antiga Vila Boa, e que</p><p>a partir de então era empossada à nova capital do Estado de Goiás.</p><p>A transferência da capital ocasionou impactos econômicos, políticos, sociais e</p><p>materiais na Cidade de Goiás. Dava-se início ao momento em que “o asfalto substituía a</p><p>pedra, assim como o tijolo ocupava o lugar do adobe e o carro atropelava o cavalo”</p><p>(OLIVEIRA, 2011, p.193). Muitas famílias se mudaram para a nova sede administrativa,</p><p>principalmente os funcionários públicos que foram transferidos. Diversas residências</p><p>ficaram abandonadas, imóveis públicos fechados e a degradação do patrimônio</p><p>imobiliário intensificada principalmente nos arredores do centro antigo. O esvaziamento</p><p>paulatino ocasionou o aumento da crise financeira local e propiciou ainda mais a</p><p>estagnação da cidade. De fato, a cidade e o vilaboense perdiam e, consequentemente, o</p><p>próprio goiano!</p><p>Paralelamente a isso, a Cidade de Goiás também era alimentada por um desejo de</p><p>modernização, de busca pela valorização aos mesmos moldes do que vinha ocorrendo em</p><p>Goiânia. O antigo núcleo tentava adentrar em um momento de “transformação,</p><p>exemplificado pela jovem capital, e não mais como subtração, como havia sido a sua</p><p>consolidação no passado aurífero” (OLIVEIRA, 2011, p.196). A intenção por parte da</p><p>população era de romper com o passado e, assim, visar o futuro que estava totalmente</p><p>ligado ao que vinha acontecendo na nova capital.</p><p>No mesmo ano da fundação de Goiânia era criado no Rio de Janeiro, até então capital</p><p>nacional, o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Sphan, dando início as</p><p>políticas preservacionistas nacionais. Enquanto a Cidade de Goiás encarava sua retórica</p><p>da perda, outras cidades brasileiras adentravam em discursos de preservação e</p><p>41</p><p>conservação de sua arte e história por meio do tombamento de parte de seus exemplares</p><p>arquitetônicos, como veremos ainda neste capítulo.</p><p>Segundo Tamaso (2007), foi em meio a estes paradigmas que começaram a surgir</p><p>interesses pela não perda material que a cidade passava ao ter acentuado o número de</p><p>edificações em estado de depredação, além do crescimento de obras de adaptação da</p><p>arquitetura local e a inserção de novas aos moldes modernos. Alguns agentes sociais</p><p>partiram da intenção de “garantir que a cidade não sucumbiria e recolocá-la</p><p>simbolicamente como singular, se não mais como centro político, agora pelo valor de um</p><p>passado glorioso, da história, da cultura e das tradições” (p.110). Assim, a cidade</p><p>continuaria dentro de um contexto social importante para o país, onde a transferência da</p><p>capital estimularia o seu reconhecimento a patrimônio.</p><p>A transferência do foro, o contexto político em que o Brasil se encontrava com os</p><p>processos de migração que vinham sendo incentivados pelo Governo Vargas e a vontade</p><p>de modernizar-se, além dos entraves proporcionados pelos primeiros tombamentos na</p><p>cidade e que veremos adiante, refletiu diretamente na forma espacial e visual da Cidade</p><p>de Goiás. Além das pequenas adições decorativas e novas construções abordadas</p><p>anteriormente, exemplares de uma arquitetura com cunho moderno ocuparam o lugar</p><p>que um dia foi espaço de uma unidade colonial (Figura 11).</p><p>Construídas em suma seguindo os cânones da vertente moderna a partir do final</p><p>da década de 1950, as novas residências fugiram do padrão do conjunto colonial com a</p><p>presença de recuos frontais e laterais e o uso de materiais e técnicas não vernaculares,</p><p>além da adição de alpendres (Figura 11).</p><p>Figura 11: Tipologias arquitetônicas. Fotos: SOUZA, 2018. Acervo pessoal.</p><p>A nova técnica fora propagada por todo o tecido urbano, inclusive em reformas das</p><p>antigas casas. Desse modo,</p><p>esquadrias metálicas e alpendres conformaram certas casas e,</p><p>internamente, as ambientações de algumas das preexistências foram sendo adaptadas às</p><p>42</p><p>novas necessidades dos moradores. Houve a inserção de quartos, banheiros e áreas</p><p>sociais por meio do uso de alvenarias de tijolos e cimento, além da concepção de espaços</p><p>que melhor se enquadrariam ao uso comercial que algumas casas passaram a ter. Se no</p><p>século XIX e início do XX as mudanças foram apenas estéticas, estas novas culminaram no</p><p>início de uma descaracterização do que havia sido preservado até então.</p><p>Foi a partir da década de 1960 que a cidade voltou a espraiar-se com a inserção de</p><p>novos bairros, principalmente nos sentidos noroeste, centro-oeste, sudeste e sudoeste,</p><p>configurando o espaço urbano atual da Cidade de Goiás (Mapa 1). Segundo Martins</p><p>(2004), foi neste momento que ocorreu dentro do conjunto colonial o desmembramento</p><p>dos lotes, a abertura de novas vias (como a Rua Alcides Jubé – via da atual Prefeitura</p><p>Municipal) e as transformações dos becos e vielas em vias com fachadas frontais. Até</p><p>então, estes se caracterizavam como vias secundárias para os fundos dos lotes e a partir</p><p>da construção de novas edificações tornaram-se em vias principais de acesso para estas</p><p>novas arquiteturas. Entretanto, por seguirem os preceitos tradicionais como o respeito</p><p>pela linearidade das fachadas sem recuos, mantiverem a harmonia do conjunto</p><p>preservada.</p><p>43</p><p>Mapa 1: Cidade de Goiás, 2018. Sem escala. Base cartográfica disponibilizada pelo Escritório Técnico do Iphan da</p><p>Cidade de Goiás. Editado pelo autor. 2019.</p><p>44</p><p>1.2 | Patrimônio: conceito em transformação</p><p>Choay (2001) afirma que as possíveis raízes para a conceituação contemporânea de</p><p>patrimônio estejam na definição de Monumento e Monumento Histórico. Amparada na</p><p>obra de Riegl – O culto moderno dos monumentos de 1903, a autora discorre que o</p><p>monumento é um instrumento universal produzido desde a Antiguidade com o intuito de</p><p>celebrar a memória. É definido como “tudo o que for edificado por uma comunidade de</p><p>indivíduos para rememorar ou fazer com que outras gerações de pessoas rememorem</p><p>acontecimentos, sacrifícios, ritos ou crenças" (CHOAY, 2001, p.18).</p><p>A partir do Renascimento (século XV) sua conceptualização ganhou outros sentidos</p><p>no contexto europeu, ao envolver além de valores artísticos, simbólicos e intelectuais, as</p><p>qualidades históricas que o concerne. Entre final do século XVIII e meados do XIX, os</p><p>primeiros mecanismos para sua preservação surgiram, além da sua definição como</p><p>Monumento Histórico, que segundo Choay (2001), foi oficializada em termos de registro</p><p>a partir da sua inclusão nos dicionários e literatura francesa.</p><p>Gradualmente, diferentes linguagens arquitetônicas foram contempladas pelas</p><p>condutas preservacionistas e como resultado do risco que o desenvolvimento das cidades</p><p>colocava para a conservação das preexistências. Para tanto, o Monumento Histórico</p><p>ganhou status e uma série de valores foram a ele atribuídos. Surgiu assim o conceito de</p><p>Patrimônio Histórico, fortalecendo o apego aos bens pertencentes a sociedade francesa</p><p>e que passaram a simbolizar signos culturais que auxiliam no fortalecimento da história</p><p>da própria Nação (CHOAY, 2001).</p><p>A noção de preservação abordou sentidos históricos e sociais interligados a formação</p><p>da identidade da França. Inserido nesta premissa, o patrimônio representava valores</p><p>históricos e artísticos ao reconhecimento dos bens, em concordância com aspectos</p><p>políticos e econômicos. A sua preservação como ação estatal, consolidou-se em vários</p><p>países europeus nas décadas posteriores e no século XX, cartas patrimoniais</p><p>internacionais foram difundidas para contribuir com a regulamentação das práticas.</p><p>Embora estes documentos não deem conta de modo completo da realidade social que</p><p>envolve certas sociedades, elas têm muito a dizer sobre a mentalidade dominante num</p><p>dado momento (SANT’ANNA, 2015), sobre o patrimônio em si.</p><p>Na década de 1930 surgiam as primeiras cartas patrimoniais: as homônimas Cartas</p><p>de Atenas, que deram continuidade sob os desígnios de diretrizes, muito do que vinha</p><p>45</p><p>sendo feito. Elaboradas pelo Escritório Internacional dos Museus da Sociedade das Nações</p><p>em 1931, e no Congresso Internacional de Arquitetura Moderna – CIAM em 1933,</p><p>respectivamente, seguiram preceitos do período moderno, partindo da conservação de</p><p>arquiteturas escolhidas seletivamente, pois nem todas as preexistências seriam passíveis</p><p>ao direito de perenidade. Apresentavam, assim, um aspecto restritivo em termos de</p><p>preservação e conservação, onde ambas reduziam o patrimônio a objetos isolados,</p><p>transformando-os em monumentos históricos e desconsiderando a manutenção do</p><p>território em si. O territóri, na verdade, poderia ser substituído por um espaço planejado,</p><p>útil, isto é, racional e funcional.</p><p>O patrimônio histórico que até então envolvia apenas edificações isoladas nos</p><p>processos de reconhecimento e preservação, na década de 1960 abarcou agrupamentos</p><p>de edifícios e a própria malha urbana. Esta nova abordagem já havia sido pontuada por</p><p>Gustavo Giovannoni sobre o Patrimônio Urbano, que para Choay (2001, p.200), aponta</p><p>que “o conceito de monumento histórico não poderia designar um edifício isolado,</p><p>separado do contexto das construções no qual se insere”.</p><p>Se por um lado o caráter monumentalista preconizado pelas Cartas de Atenas</p><p>perdurou durante algumas décadas, com a Carta de Veneza de 1964, fruto do Congresso</p><p>Internacional de Arquitetos e Técnicos de Monumentos Históricos patrocinado pela</p><p>Unesco, o termo monumento ampliou-se. Incluindo igualmente as grandes criações as</p><p>obras mais modestas que apresentavam um significado cultural plausível ao</p><p>reconhecimento, o referido documento tornou-se na principal referência para os outros</p><p>que surgiriam posteriormente e em uma das principais rupturas conceituais a respeito do</p><p>patrimônio, influenciando inclusive as políticas preservacionistas brasileiras.</p><p>Além de ser expressão de identidade nacional, o patrimônio histórico passou a galgar</p><p>a ser uma possível herança de um determinado povo, dando espaço para novos discursos,</p><p>agentes e bens, envolvendo assim conjuntos urbanos e rurais, posteriormente definidos</p><p>como sítios históricos. Deste modo se tornou inseparável da história do lugar que o</p><p>comporta, se configurando dentro de uma narrativa que reconhece o sítio como</p><p>testemunho histórico. Além do que, o ideal da unidade estilística arquitetônica tanto</p><p>defendida anteriormente, abriu-se para uma abordagem mais interdisciplinar ao</p><p>valorizar outras tessituras e a possibilitar a sua convergência entre novos</p><p>direcionamentos como meios da sua autopromoção.</p><p>46</p><p>A exemplo, temos a assimilação da pauta patrimonial como insumo para o</p><p>desenvolvimento das práticas turísticas e vice-versa. As Normas de Quito2 de 1967</p><p>preconizava que o turismo possibilitaria uma conservação mais sustentável nos</p><p>conjuntos latino-americanos, fomentando a economia urbana. Ademais, com o</p><p>surgimento de novas centralidades pelas cidades, o turismo poderia romper com o</p><p>descaso frente aos centros históricos. Conceito este que para Argan (2005) foi criado</p><p>para diferenciar os centros mais antigos do restante da cidade, caracterizando-o como</p><p>uma área especial que precisaria ser preservada, aos modos que impedissem a sua</p><p>destruição mediante as novas funções que envolviam os núcleos urbanos.</p><p>Em 1972, o patrimônio passou por uma nova reformulação com a Convenção relativa</p><p>à proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural promulgada pela Unesco. A</p><p>Convenção firmara sua ampliação, valorizando os cânones histórico, artístico e, sobretudo</p><p>cultural fundado nas noções de “integridade” e “autenticidade”. Associou-se à cultura ao</p><p>Patrimônio Natural com o intuito de inscrevê-los na Lista do Patrimônio da</p><p>Humanidade, divulgando e despertando a conscientização da sociedade</p>