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Filosofia do Jornalismo

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da União Soviética onde o principal jornal — Pravda — 
com uma tiragem superior a três e meio milhões de exemplares, — é o órgão central do Partido 
Comunista, única agremiação política do país, refletindo, portanto, com absoluta fidelidade, o 
pensamento do Govêrno Comunista. Helene e Pierre Lazarett, em reportagem sôbre a imprensa 
soviética, escreveram: “as informações mais importantes são alvo de longos debates (na 
redação) e em primeiro lugar apresentadas ao Partido. Os assuntos dos editoriais são propostos 
ao Partido — a menos que sejam por êle sugeridos — e submetidos em última análise ao seu 
imprimatur. Êste contrôle do Partido sôbre o seu órgão central é substituído, no que se refere ao 
Izvestia — 1.500.000 exemplares de tiragem — pelo contrôle do govêrno; no que diz respeito ao 
Trud — diário dos trabalhadores sindicalizados — pela direção sindical; no que tange ao jornal 
do Exército, Estrêla Vermelha, pelo Ministério da Defesa Nacional; quanto à Litteraturnaia 
Gazetta, pelo Ministério da Cultura; o Komsomolakaia Pravda, pelo das Juventudes Comunistas, 
etc. Cada distrito provincial, cada república, tem o seu Pravda controlado pela seção local do 
Partido Comunista, conforme diretrizes chegadas de Moscou, e o iornal depende das 
autoridades governamentais.” Quanto ao caráter do jornalismo soviético, transcreve um editorial 
mesmo Pravda, de 5 de maio de 1955, quando se comemora ali o “Dia da Imprensa” (data da 
fundação do Pravda por Lenine, em 1912), através do qual se constata que a imprensa na URSS 
não é de informação “mas de combate, estreitamente dependente do Estado e do Partido.” Lê-se 
no editorial: “Nossa imprensa... sempre cumpriu com honra o papel de propagandista coletiva, de 
orientadora, de organizadora das massas... Ela deve auxiliar todos os trabalhadores a lhes 
 
145 Eliel C. BalIester — Derecho de Prensa — Buenos Aires, 1947 — pág. 108. 
 
aumentar a consciência da natureza dos objetivos fixados pelo Partido no desenvolvimento da 
economia nacional, da necessidade dêsses objetivos e de sua enorme. significação política... A 
obrigação mais importante dos jornais e revistas consiste em serem a sentinela vigilante dos 
grandes princípios e da adesão ao partido, da ciência, da literatura, da arte; em desfecharem 
uma luta implacável contra tôdas as manifestações da ideologia burguesa; em desenvolverem 
nas massas de trabalhadores o sentido elevado do dever social; em cultivarem no povo soviético 
a convicção inabalável da invencibilidade da nossa obra; em clamar seim descanso pelo 
contínuo refôrço do poderio da pátria, da capacidade de defesa do Estado soviético.”146 
Na excelente conferência que proferiu no Centro de Ciências Políticas do Instituto de 
Estudos Jurídicos de Nice, o prof. M. A. Rayski, da Universidade de Jornalismo de Varsóvia 
falando sôbre os processos jornalísticos no seu país, salientou que era justamente para garantir 
o direito constitucional dos cidadãos à liberdade de palavra, de imprensa e de reunião pondo-se 
à disposição do povo e das suas oganizações oficinas de impressão, estoques de papel e meios 
de transporte e comunicações que “êsses poderosos recursos materiais, sem os quais a 
imprensa moderna não pode existir, não se encontram nas mãos de particulares ou de grupos 
financeiros que, como se disse, agem de encontro aos interêsses da maioria: estão em poder do 
Estado popular.” E o Estado não priva, ao contrário, incita os cidadãos, a utilizarem os jornais 
com críticas sôbre todos os assuntos, exercendo, assim, uma “influência mais ou menos decisiva 
sôbre os negócios públicos. A imprensa tornou-se a grande tribuna da opinião no nosso país. A 
paixão, a tenacidade, a vontade das massas de combater os abusos e as injustiças se exprimem 
no fato de que milhares de cartas dos leitores chegam quotidianamente aos nossos jornais... A 
democracia burguesa jamais, mesmo em teoria, proporcionou possibilidades tão grandes ao 
povo para que possa exprimir sua opinião. O direito político e social à crítica está assegurado por 
leis em virtude das quais pessoas e instituições criticadas têm o dever de responder 
pùblicamente à crítica. A nossa legislação prevê, igualmente, sanções para todos os atos 
tendentes a limitar a liberdade de crítica.”147 
Estas citações visam fixar a absorção pelo Estado, nos países socialistas, das 
características do editor-idealista. Não houvesse a parte informativa e normativa oficial nos 
órgãos editados pelo Estado, com a divulgação dos atos do Executivo, dos projetos, das leis e 
dos debates parlamentares, das decisões e sentenças judiciárias — e nem poderíamos falar com 
justeza de um Estado-editor, como o entendemos, mas simplesmente de um grande e único 
Editor-idealista. Porque o jornalismo do Estado-editor é um jornalismo especializado, limitado, 
que não se faz panfletário e, mesmo quando opina, não o faz “contra”, mas exprime uma 
autoridade incontestável do ponto de vista legal. 
O jornalismo do Estado surgiu, além das motivações acima referidas, da imposição dos 
costumes e das leis, que exigem a divulgação oficial de certos e determinados atos jurídicos 
para torná-los válidos. E também, no que tange à imprensa, da seleção que, tanto os órgãos 
ecléticos como os ideológicos, fazem no noticiário dos atos oficiais, sòmente dando a público 
aquêles de maior ressonância, reclamados pelos leitores ou pela linha redacional. Tal seleção foi 
provocada, em quase todo o mundo, pelo racionamento da matéria prima, o papel, a celulóide, o 
tempo de emissão de rádio e TV; e, também, como já aludimos, pela impossibilidade, com os 
modernos meios de comunicações, de divulgação da totalidade dos fatos, mesmo daqueles 
“that’is fit to print”.148 
 
146 “Raios X da Rússia de Malenkov” – reportagem in Jornal do Comercio – Recife, 10-7-53. 
147 M. A. Rayski — “Les principes de Ia Iiberté de Ia presse en Pologne” in L’Opinion Publique — Paris, 1957 .— 
págs. 380-2. 
148 “Em alguns paises, como no nosso, a imprensa pretende fazer uma concorrência absurda ao “Diário Oficial”, 
publicando os despachos dos diretores de repartições, ocupando colunas inteiras com matérias que interessam a 
pequenos grupos de pessoas, tornando os jornais prolíxos, desertos de iniciativas, afogados numa onda escura e 
morna de deferimentos, indeferimentos, sele e volte querendo... Isso ocorre, entretanto não por culpa dos jornais 
mas do que nêles se reflete, isto é, “a tendência de transformar tôda a população em funcionários, á fim de que tudo 
 
O TÉCNICO 
 
Agente do jornalismo — como o editor, na ordem econômica, o jornalista, na ordem 
cultural e o público, na ordem social — é o técnico, na ordem mecânica, naquela ordem que os 
filósofos chamam do fazer. O técnico, o homem que domina a natureza das coisas, é aquêle 
intermediário entre a realização subjetiva de uma atividade e a sua realização objetiva, material. 
E se a “sociedade humana, na sua crescente complexidade, carece cada dia mais de 
intermediários”, essa necessidade é mais sentida no domínio das comunicações, “do fazer 
circular o que é do homem para que as coisas assimiláveis por natureza se tornem socialmente 
e atualmente assimiláveis.”149 O jornalismo, a que hoje se propõe seja denominado 
“comunicação das massas”, que, a princípio, como tôdas as atividades humanas, pràticamente 
não exigiu o técnico, pois êste se confundia com as figuras do jornalismo e do editor, foi aos 
poucos incorporando novos veículos; e a cada veículo utilizado reclamava o especialista, o 
técnico e a sua técnica. Da simples manufatura, evolui para o uso de processos e ferramentas 
simples e, depois, para o de mecanismos complexos, evolui para a mecanofatura. E então surge, 
como agente do jornalismo, o técnico — o homem que descobre, que aperfeiçoa, que emprega, 
que domina a máquina e