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Filosofia do Jornalismo

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da realidade moral, fatigado da sua própria condição, enjoado de liberdade... como se 
quisesse tomar férias da sua própria humanidade”, depois de haver experimentado em vão a 
felicidade da superação nietzscheana “em vez de se passar além do Bem e do Mal instalando-se 
o mundo do homem aquém da realidade moral. Em vez do super-homem, anuncia-se o sub-
homem... e assim se conseguirá uma super-sociedade de sub-homens:”170 
O derradeiro — e principal, na realidade — dos agentes do jornalismo é que oporá a 
decisiva reação a esta visão apocalíptica do mundo do futuro, mesmo por uma questão de 
sobrevivência. Sobrevivência do espírito, da criação, da polivalência que caracteriza a sua 
natureza e o seu ofício. Sobrevivência do jornalismo como informador e orientador do homem 
social, como impulsionador do bem comum. 
 
O JORNALISTA 
 
Máquina humana pensante, o jornalista que executa um trabalho criador e inovador, 
polimorfo e complexo, não admitirá jamais aquela sem dúvida maravilhosa capacidade de 
simplificação dos computadores eletrônicos como um satisfatório fim último. Se o público é 
passível de uma ilimitada admiração pelo progresso da técnica; se o editor se curva ante a 
excepcional produção da máquina, que lhe proporciona maiores lucros; se o técnico, com a sua 
insaciável curiosidade e a sua busca incessante da perfeição material, se deixa dominar, 
tornando-se, com a máquina, “um único ser monstruoso, réplica moderna dos centauros do mito 
antigo”,171 o jornalista — pela sua própria natureza e pela natureza do seu ofício — considerará 
sempre a máquina como “a doll, not an idol” — um brinquedo e não um ídolo — como o fêz G. K. 
Chesterton. Um precioso brinquedo, que nos pro porcionará confôrto e facilidades mas que, 
sobretudo, nos oferecerá tempo para pensar, cada dia mais longas pausas para meditação. O 
que o jornalista vê, antes de tudo, no desenvolvimento da técnica é a sua libertação do tempo, 
daquela pressão e daquela opressão do tempo, com que já Renaudot, no século XVII, justificava 
as claudicâncias do seu trabalho jornalístico, frente à objetividade que deveria informá-lo; é o 
fato de que o progresso técnico deve implicar sempre na liberação do espírito, numa 
transcendentalização que vem sendo o ideal perseguido pelo homem e pelas sociedades, desde 
as épocas mais remotas, na sua luta incessante contra as fôrças da natureza, visando colocá-las 
ao seu serviço. 
 No estudo sôbre as conseqüências do aumento constante do tempo não empregado no 
processo da economia, George Soule afirma que o “leisure class” (ócio de classe) se 
transformará em “leisure mass” (ócio da massa) e que o grande perigo reside em que “a 
tecnologia importa na arte de economizar o tempo mas sem ensinar ainda como utilizá-lo 
inteligentemente.”172 E se tem perguntado freqüentemente em que se ocupará o homem 
libertado, quais as funções dignas do seu estado que lhe seriam propostas para o emprêgo dos 
óeios. Esta questão vem sendo debatida nos círculos filosóficos e sociológicos e, de um modo 
 
170 Gustavo Corção – Obra cit. — págs. 17-18, 99 e 107. 
171 Paulo Sá — A técnica e os técnicos — Recife, 1957 — pág. 45. 
172 George Soule — Time for living New York, 1955 — pág. 17. 
geral, admite-se que, dada a redução prevista do tempo de serviço, as crescentes 
responsabilidades dos trabalhadores e as exigências das sociedades modernas, o homem deve 
elevar o seu nível cultural, a fim de “aproveitar melhor a vida e ser melhor cidadão.” E se isso é 
verdade para o homem comum, para qualquer categoria profissional, mais verdadeiro o será 
para o jornalista, cuja função de intérprete e orientador dos demais homens o coloca em posição 
de vanguardeiro na conquista dêste precioso “time for living”. 
 
 A Vocação do Jornalista — Já se definiu o jornalista como “o instrumento adequado de 
que se valem os fatos para converter-se em notícia.”173 Ao que ajuntaríamos: e, dêsse modo, 
impulsionar o homem e a sociedade à ação. Porque não se daria caráter essencial à sua 
atividade, fôsse ela meramente informativa, destinada a satisfazer curiosidades e entreter os 
espíritos. “Na verdade, refletindo o meio em tôdas as suas manifestações e, ao mesmo tempo, 
sôbre êle agindo, o jornal (jornalismo) sintetiza e traduz a substância da vida social, 
influenciando-lhe os rumos. Mas tudo evidentemente enquadrado nas liberdades ao seu alcance, 
isto é, naquelas que emanam do sistema político em primeiro lugar, e das outras limitações 
contingente, na maioria preponderantes, que se originam do sistema econômico. É em 
conseqüência disso que (como o constatou Wiekham Steed), a imprensa é o problema central da 
moderna democracia.”174 Para realizar êste trabalho de primeiro plano, é convocado o jornalista, 
aquêle que encontrou a sua vocação no servir de porta-voz e intérprete dos fatos sociais. Ensina 
Gregorio Marañon que a vocação é um “imperioso apêlo”, uma “voz interior que nos atrai para a 
profissão e o exercício de determinada atividade...” Todavia adverte, em seguida, que “a 
vocação autêntica nunca é platônica, mas implica imediatamente em servir ao objeto da 
vocação. Para descobrir, para escrever, para ensinar há que servir e, para isso, são necessários, 
antes de mais nada, dons inatos e magníficos da alma e da personalidade. A vocação, em último 
têrmo, não é mais, nestes casos, do que a aspiração de servir, uma aptidão ainda não 
revelada.”175 É pela formação cultural, pela sedimentação dos conhecimentos técnicos, pela 
prática do ofício, “pela miragem de certos episódios heróicos ou espetaculares”, pela glória que 
perseguimos ou pelas vantagens materiais que colhemos — que se revela esta aptidão, que 
aquêles dons vêm à tona, competindo-nos consolidá-los e desenvolvê-los. 
 
 
 A Curiosidade Comunicativa — O primeiro atributo do autêntico jornalista é a 
curiosidade comunicativa, que difere da curiosidade pura e simples porque se reveste de um 
insopitável desejo de passar adiante a informação obtida ou o fato testemunhado, ajuntando-lhe 
dados novos e comentários. Diante de uma ocorrência, o homem comum pára, informa-se e 
segue o seu caminho, indiferente, se tal fato não lhe diz respeito imediato; o intelectual e o 
cientista igualmente param, informam-se e prosseguem, quando muito retirando dela algumas 
inferências particulares ligadas à sua ordem cultural; o jornalista age diferentemente. A sua 
parada é mais longa ou mais intensa; a informação que colhe é mais completa e tem aplicação 
imediata porque êle lhe dá forma, julga-a, pesa-a, não em função aos seus próprios interêsses 
mas da sociedade de que se sente receptor e transmissor. Neste sentido é que o jornalista é 
aquêle “órgão constante e vivo de informação” Para êle, o fato tem um sentido que é preciso 
captar, definir, situar, comparar com outros, classificá-lo pela sua maior ou menor importância e, 
finalmente, exprimi-lo, divulgá-lo, comunicá-lo. 
Ao contrário de outros profissionais que podem repousar após o cumprimento de uma 
etapa de trabalho — o advogado em seguida a uma causa julgada; o médico, após o curso de 
uma assistência ao paciente — o jornalista está sempre em função, não se permite uma trégua, 
 
173 Octávio de la Suarée — Psicologia aplicada al periodismo — La Habana, 1944 pág. 32. 
174 Aristeu Achilles — Liberdades Democráticas — Liberdade de Imprensa — Rio, 1957 — pág. 11. 
175 Gregorio Marañon — Vocação e ética — Salvador, Ba., 1958 — págs. 16-17. 
desde que também os fatos se sucedem numa aglutinação dinâmica que provoca, sempre, no 
observador, uma reação que culmina na criação da notícia. “A conduta jornalística oscila como 
um pêndulo entre a reação e a situação. Suas alternativas são: a) conhecida a reação, presumir 
a situação que a produz; b) dada a situação, predizer a reação que produzirá. Esta última