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Filosofia do Jornalismo

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desencadeou-se, 
duraite os dois séculos seguintes, a mais cruel repressão de que há história. Nada obstante, os 
antigos “menanti”, “novellanti”, “repportisti” e “gazzettanti” — nomes que se davam aos 
repórteres e redatores das fôlhas manuscritas — se multiplicaram, agora unidos aos 
impressores, que se advertiram do bom negócio que representava a emissão de fôlhas com 
relatos de fatos da atualidade. Enquanto que perseguiam os jorfialistas em geral, os soberanos 
passaram a utilizar a imprensa como veículo de informações de seu interêsse e, naturalmente, 
de louvaminhas. Assim, em 1597, Rodolfo II, imperador, reune os editôres mais capazes para 
elaborar um mensário com notícias do Santo Império Romano -Germânico; e Luis XIII, na Fiança, 
concede a Theophraste Renaudot o privilégio de publicaf um hebdomadário — La Gazette — 
que, além de informações políticas inteiramente favoráveis ao govêrno real e do texto das 
ordenanças oficiais, inseria notícias de nascimentos, matrimônios, festas, divertimentos dos 
principais personagens da côrte, bem como crimes, processos, catástrofes e execuções. O 
Século XVII vê surgir a imprensa por tôda a Europa civilizada e na Nova Inglaterra, onde, em 
1638, em Cambridge, Mass., Stephen Daye instala uma impressora. É também nesse século, 
 
3 Carlos Rizzini — Obra cit. págs. 17-I8. 
4 Cit. por Rizzini — Obra cit. — pág. 22. 
5 Conf. Charles Gidel, cit. por Rizzini – pag. 21, 
 
exatamente em 1644, que Milton publica a sua Aeropagítica, que é a primeira defesa sistemática 
da liberdade de imprimir. 
 
 Primórdios do jornalismo brasileiro — No Brasil, apesar de não termos tido imprensa 
senão às vésperas do Ipiranga, nem por isso o colono português integrado na nossa vida, ou o 
nativo, deixou de praticar o jornalismo. A exemplo de outros povos, apelou para a informação e a 
sátira verbal, para o pasquim e a fôlha volante. Nos tempos mais remotos da colonização, era 
dos púlpitos das igrejas que se utilizavam os letrados oradores sacros para transmitir notícias e 
conselhos à comunidada Foi assim que frei Antônio Rosado, um ano antes da invasão flamenga, 
anunciou, em memorável sermão no convento do Carmo, a formação de poderosa esquadra que 
poderia transformar Olinda em Olanda, com a mudança apenas de uma letra; e que o padre 
Vieira tantas e tantas vêzes fêz jornalismo, utilizando ora o púlpito, como em 1640, na igreja de 
Nossa Senhora da Ajuda, na Bahia, “pelo bom suc esso das armas de Portugal contra as da 
Holanda”, cujas tropas ameaçavam a cidade do Salvador pela segunda vez, ora as cátedras dos 
coléos dos jesuitas. 
Nas cartas e relatórios redigidos por um português antipernambucano, espião a serviço 
do govêrno, delatando feitos fatos da Revolução de 1817 e descrevendo a situação em 
ernambuco no ano sêguinte, consta6 que “o padre Miguel, estre de Retórica e orador insigne, na 
primeira ominga da aresma de 1817, subiu ao púlpito na igreja do Corpo Santo, triz do Recife, e 
o texto do seu sermão foi: “Nunca tempus tabile die salutis”, em cujo discurso mostrou o quanto 
era dos homens a liberdade por êles mesmos acabrunhada ão houve subterfúgios nem rodeio 
ardiloso de que êle se valesse a fim de derramar no ânimo dos ouvintes a deI1e.ta, e nula 
contemplação para com os soberanos da uma vez que não se comportassem em conformidade 
igreja e Justiça dos vassalos. Dizia que David por um o fizera penitência tôda sua vida, e que os 
soberanos presente aplicavam o tempo devido a jejum e cilícios, tempos e renitências de agravo, 
e culpas inexpiáveis com o céu, tais como abandono do povo e da religião. 
Ele e seus colegas a profanam e suas pérfidas línguas só ousavam caluniar o Soberano, o 
Portador, o mais excelso dêsse santo culto, que respeitamos e adoramos. O clero, enfim, nunca 
foi mais danoso à religião nem suas práticas mais nocivas ao Estado.” O mesmo espião luso 
assinala que “as lojas de fazenda, e as boticas são os lugares onde ordinàriamente se falam de 
tôdas as novidades, nelas eu compareço a certas horas do dia ou da noite. Ouço nestes lugares, 
informo-me dos de fora; ouço dos de fora, informo-me nestes lugares, e tudo igualmente 
submeto às minhas reflexões.” 
Centros de divulgação de notícias eram as feiras, os Senados das Câmaras, os portos e 
os armazéns. As notícias oficiais eram transmitidas por bandos, dos qais eram incumbidos 
comandantes e capitães-mores, com acompanhamento de alguns soldados e tambores. Para o 
interior, seguiam bandeiras e tropas e, de engenho a engenho, de povoação a povoação, as 
notícias corriam pela bôca dos capitães do mato, dos tropeiros e mascates — como na Idade 
Média pela voz dos jograis. 
O pasquim — escrito em linguagem viperina e afixado nos muros, pôsto por debaixo das 
portas ou circulando de mão em mão às escondidas, às vêzes em prosa, doutras em verso, 
denunciava irregularidades, promovia invectivas e, ora justo ora injusto, atuava junto à opinião 
pública como os editoriais da imprensa dos nossos dias. A história guarda, nos seus registros, 
rastros dessa forma jornalística primitiva: Z- já em 1587, em Ilhéus, um almoxarife, de nome 
Jorge Martins, que afirmava ter Deus pés e mãos, escreveu um papel contra a Companhia de 
Jesus e os padres do lugar porque não lhe queriam dar a absolvição sem que se re tratasse da 
heresia, tendo sido mesmo denunciado à Santa Inquisição pelo jesuíta Antônio da Rocha. E dom 
 
6 Ministério da Educação e Cultura – Documentos Históriocos – Revolução de 1817 – Vol. CVII – Ed. Biblioteca 
Nacional- Rio,1955 – págs. 243-44. 
 
Luís Antônio de Sousa, capitão-mor em São Paulo, sentira na própria carne o aguilhão do 
pasquim, quando um tremendo requisitório contra a sua administração, em verso, foi 
misteriosamente colocado em sua mesa de trabalho, não sem antes ter sido exposto no adro da 
igreja de Santa Teresa, em noite de novena. Também na Bahia, em 1798, a chamada 
“Inconfidência Baiana” ou “Conspiração dos AIfaiates” abortou, sendo presos e executados vinte 
e três dos implicados porque um tal Luís Gonzaga das Virgens, soldado desertor, escrevera uns 
avisos atacando as a ridad es e exigindo postulados da Revolução Francesa – tais como a 
abertura dos portos, desclausura dos conventos e extinção dos mopólios — fazendo-os afixar às 
esquinas e adros da cidade. 
Da defesa apresentada por José Carlos Mairink da Silva Ferrão, secretário do Govêrno 
da Capitania de Pernambuco, antes, durante e após a Revolução de 1817 — o que o torna urna 
espécie de Talleyrand brasileiro — consta a decisiva influência de um “papel” na eclosão do 
movimento. Narra êle7 que “apareceu a célebre questão de uma prêta, em que figuravam um 
negociante europeu Firmin, e não sei que brasileiro, cujos papéis a favor e contra dizia-se que 
eram feitos por Bernardo Luís Ferreira Portugal e o Tenente Coronel Ajudante de Ordens do 
govêrno Alexandre Tomás de Aquino, nos quais papéis apareceram muitas indignidades que 
mais e mais exacerbavam os dois partidos.” Essa questão surgira em agôsto de 1816, quando 
uma escrava descontente da sua senho ra resolveu fugir e procurar senhor que a comprasse, 
dirigindo-se a um negociante chamado Alexandre Firmin. Êste ofereceu elevada importância pela 
escrava mas a sua dona reusou, exigindo a devolução da “pessoa que êle ilegitimamente tinha 
em seu poder”. A questão foi à Justiça e o advogado da senhora foi Bernardo Luís Ferreira 
Portugal, que requereu a osse para a suú constituinte. O juiz, porém, despachou em favor de 
Firmin e Portugal, “picado, e levado do mais feroz agastamento”, redigiu uma réplica da qual 
foram tiradas mil pias distribuidas na cidade. Neste “papel”, Portugal denunciava “certa classe de 
europeus” que julga que “a América é escrava e que tem direito ao vexame dos americanos”, 
que ia ao Brasil “não só traficar com os nossos