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<p>FERNANDO COSTA FURLANI</p><p>[Turma: 2º T]</p><p>RESUMO DO LIVRO “ÉTICA”</p><p>de Adolfo Sánchez Vázquez</p><p>Trabalho de Graduação apresentado à</p><p>Faculdade de Direito da Universidade</p><p>Presbiteriana Mackenzie, como</p><p>exigência parcial para satisfazer os</p><p>requisitos da Disciplina ‘Ética e</p><p>Cidadania Aplicada ao Direito II’</p><p>Professor: Marcos Peixoto Mello Gonçalves</p><p>São Paulo</p><p>2004</p><p>SUMÁRIO</p><p>CAPÍTULO I - OBJETO DA ÉTICA ............................................................... 4</p><p>CAPÍTULO II - MORAL E HISTÓRIA .......................................................... 7</p><p>CAPÍTULO III - A ESSÊNCIA DA MORAL ................................................ 12</p><p>CAPÍTULO IV - A MORAL E OUTRAS FORMAS DE</p><p>COMPORTAMENTO HUMANO .................................................... 15</p><p>CAPÍTULO V - RESPONSABILIDADE MORAL,</p><p>DETERMINISMO E LIBERDADE ................................................. 17</p><p>CAPÍTULO VI - OS VALORES ..................................................................... 20</p><p>CAPÍTULO VII - A AVALIAÇÃO MORAL ................................................ 23</p><p>CAPÍTULO VIII - A OB RIGATORIEDADE MORAL ............................... 27</p><p>CAPÍTULO IX - A REALIZAÇÃO DA MORAL ......................................... 31</p><p>CAPÍTULO X - FORMA E JU STIFICAÇÃO DOS JUÍZOS</p><p>MORAIS .............................................................................................. 35</p><p>CAPÍTULO XI - DOUTRINAS ÉTICAS FUNDAMENTAIS ..................... 43</p><p>REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ................................................................ 52</p><p>4</p><p>CAPÍTULO I - OBJETO DA ÉTICA</p><p>1. Problemas Morais e Problemas Éticos</p><p>Nas situações efetivas e reais que ocorrem no dia-a-dia de todos os indivíduos,</p><p>surgem problemas quando as decisões e ações deles são objeto de julgamento</p><p>pelos demais membros do grupo social. Tais problemas não afetam apenas um</p><p>indivíduo, mas também outras pessoas, e pode até mesmo afetar a comunidade</p><p>como um todo. Em tais situações, as pessoas pautam seu comportamento por</p><p>normas que julgam mais adequadas cumprir, e é quando se pode dizer que o</p><p>homem age moralmente, ou seja, é o resultado de uma decisão refletida – e não</p><p>espontânea.</p><p>Destarte, de um lado temos os atos das pessoas, e do outro temos o juízo dos</p><p>demais indivíduos sobre tais atos; ambos se pautam por certas normas de</p><p>conduta.</p><p>Desse plano prático-moral se passa à reflexão sobre os comportamentos</p><p>práticos, surgindo então a teoria moral – ou a passagem da moral vivida para a</p><p>moral reflexa. Tal passagem, que coincide com o início do pensamento</p><p>filosófico, marca a entrada na análise dos problemas éticos.</p><p>Os problemas prático-morais cuidam das situações concretas, enquanto os</p><p>problemas éticos são de natureza genérica, de caráter teórico, de quem investiga</p><p>a moral.</p><p>O problema da essência do ato moral remete a outro problema crucial: o da</p><p>responsabilidade; responsabilidade por ter tomado uma decisão de agir num</p><p>sentido e não em outro. A liberdade da vontade de escolher sempre gera uma</p><p>responsabilidade, que pode ser um fator limitador para a total “liberdade” de</p><p>escolha entre dois comportamentos.</p><p>A teoria da moral não se pode distanciar das questões prático-morais, posto que</p><p>são sua própria razão de ser.</p><p>5</p><p>2. O Campo da Ética</p><p>A ética, por ser disciplina teórica que estuda a moral, deve se limitar a explicar,</p><p>esclarecer ou investigar uma determinada realidade, pois seu valor como teoria</p><p>está naquilo que explica, e não no fato de prescrever ou recomendar com vistas à</p><p>ação em situações concretas.</p><p>Quando se ocupa de analisar a prática moral de uma sociedade de determinada</p><p>época, a ética deve meramente esclarecer o fato de os membros daquele grupo</p><p>social terem recorrido a práticas morais diferentes e até opostas.</p><p>Por ser ciência que estuda a moral, a ética nem se identifica com princípios de</p><p>moral em particular, nem fica indiferente a eles.</p><p>A ética deve fornecer a compreensão racional de um aspecto real e efetivo do</p><p>comportamento dos homens, pautados em fatos de valor.</p><p>3. Definição da Ética</p><p>A ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em</p><p>sociedade.</p><p>A ética procura determinar a essência da moral, e as condições objetivas e</p><p>subjetivas do ato moral, as fontes de avaliação moral, a natureza e função dos</p><p>juízos morais, os critérios de justificação desses juízos e o princípio que rege a</p><p>mudança de diferentes sistemas morais.</p><p>Seu caráter científico deve aspirar à racionalidade e objetividade, e proporcionar</p><p>conhecimentos comprováveis. A moral é objeto da ciência ética, podendo sofrer</p><p>influência desta.</p><p>Hoje em dia já há uma diferenciação clara entre a moral e a ética, que nem</p><p>sempre ocorreu.</p><p>4. Ética e Filosofia</p><p>Dada a sua pretensão de estudar cientificamente o comportamento humano</p><p>moral, a ética se opõe à concepção tradicional que a reduzia a um simples</p><p>6</p><p>capítulo da filosofia. Em tempos remotos, enquanto ainda não se havia</p><p>elaborado um saber científico, a filosofia se apresentava como uma espécie de</p><p>“saber total” que tratava de tudo. Modernamente, porém, abre-se espaço para um</p><p>conhecimento científico verdadeiro; e a ética, como outras ciências, desprende-</p><p>se do tronco comum da filosofia para se ocupar de um objeto específico de</p><p>investigação com metodologia própria e racionalidade.</p><p>Embora ética se desprenda do seu tronco, volta e meia se remete a ele, dada a</p><p>sua inegável riqueza e vitalidade.</p><p>Considerando o comportamento moral do homem, que não é algo estável e sim</p><p>dinâmico que sofre constantes variações ao longo do tempo, a ética tem como</p><p>fundamento a concepção filosófica do homem, que nos dá um panorama</p><p>generalizado deste como ser social, histórico e criador.</p><p>5. A Ética e Outras Ciências</p><p>A ética inegavelmente se relaciona com outras ciências, como por exemplo a</p><p>psicologia, quando a ética precisa compreender as leis que regem as motivações</p><p>internas, subjetivas do ato moral – que é o comportamento do indivíduo.</p><p>Entretanto, há que se saber separar a ética das demais ciências, como da</p><p>psicologia, por exemplo.</p><p>Outrossim, a antropologia e a sociologia são ciências que contribuem para a</p><p>ética, por analisar os indivíduos sob a óptica de seus relacionamentos sociais.</p><p>Mas a ética tampouco se reduz à sociologia.</p><p>Dado o processo de sucessão dos comportamentos morais na humanidade, a</p><p>antropologia e a história propõem à ética um problema fundamental: o de</p><p>determinar se existe um progresso moral.</p><p>A ciência jurídica também dá suas contribuições, uma vez que trata de normas</p><p>impostas com caráter de obrigação exterior e de forma coercitiva,</p><p>diferentemente das normas morais, que não são exteriores nem coercitivas.</p><p>7</p><p>A ciência das relações econômicas também se relaciona com a ética, na medida</p><p>em que modificam a moral dominante em dada sociedade, e também na medida</p><p>em que os fenômenos econômicos colocam problemas morais no cotidiano das</p><p>pessoas.</p><p>CAPÍTULO II - MORAL E HISTÓRIA</p><p>1. Caráter Histórico da Moral</p><p>Historicamente, o conjunto de normas e regras de dada comunidade</p><p>representadas pela moral sofre variações ao longo do tempo. Ocorre a sucessão</p><p>de certas morais sobre outras morais, podendo-se falar da moral da Antigüidade,</p><p>da moral feudal da Idade Média, da moral burguesa na sociedade moderna, etc.</p><p>A ética considera a moral mutável com o tempo.</p><p>Portanto, a origem da moral se situa fora da história – ela é anistórica, ou anti-</p><p>histórica, e esse a-historicismo segue três direções fundamentais:</p><p>a) Deus como origem ou fonte da moral: quando as normas morais</p><p>derivam de um poder sobre-humano; as raízes da moral estão fora e</p><p>acima do homem, e não nele próprio.</p><p>b) A natureza como origem ou fonte da moral: a conduta moral do</p><p>homem seria mero aspecto da conduta natural e biológica. As</p><p>qualidades morais teriam origem nos instintos, e</p><p>ruína do mundo antigo, o regime de escravidão dá espaço para o de</p><p>servidão, organizando-se, com base neste, a sociedade medieval como um todo.</p><p>Tal sociedade era caracterizada por sua estratificação e hierarquização, bem</p><p>como uma profunda fragmentação econômica e política.</p><p>Neste contexto, a religião cristã garante a unidade social desta sociedade, uma</p><p>vez que a Igreja comanda a vida intelectual e espiritual de todos. Todos os</p><p>aspectos da vida medieval são carregados de conteúdo religioso.</p><p>A Ética Religiosa</p><p>A filosofia cristã parte de um conjunto de verdades a respeito de Deus, que é</p><p>concebido como um ser bom, onisciente e todo-poderoso, criador do mundo e do</p><p>homem. Assim, tudo o que o homem é define-se não em relação à comunidade</p><p>humana, ou ao universo, mas, antes de tudo, em relação a Deus. A essência da</p><p>46</p><p>felicidade é a contemplação de Deus; o amor humano é subordinado ao divino, e</p><p>a ordem sobrenatural tem a primazia sobre a ordem natural humana.</p><p>O cristianismo pretende elevar o homem de uma ordem terrestre para uma</p><p>ordem sobrenatural, na qual possa viver uma vida plena, feliz e verdadeira, sem</p><p>as desigualdades e injustiças terrenas.</p><p>Segundo a ética cristã, todos os homens são iguais perante Deus. Esta mensagem</p><p>de igualdade confrontava-se com a realidade de um mundo social em que os</p><p>homens conviviam com a mais espantosa desigualdade: escravos e homens</p><p>livres, servos e senhores feudais, etc. A igualdade prometida, porém, deve ser</p><p>concebida em um plano espiritual. Na Idade Média, a igualdade só podia ser</p><p>espiritual, por isso ela coexistia com a mais profunda desigualdade social,</p><p>enquanto não fossem criadas as condições sociais para uma igualdade efetiva.</p><p>Ou seja, quando era completamente ilusório e utópico propor-se a realização de</p><p>uma igualdade real entre os homens, a mensagem cristã tinha um profundo</p><p>conteúdo moral, lançando os objetivos da vida terrena para alcançar uma</p><p>sociedade justa no mundo espiritual.</p><p>O fim supremo da ética cristã é regular o comportamento dos homens visando à</p><p>ordem sobrenatural. Assim, o fim ou valor supremo é colocado fora do homem,</p><p>isto é, em Deus.</p><p>A religião cristã oferece aos homens certos princípios supremos morais que, por</p><p>virem de Deus, têm para ele o caráter de imperativos absolutos e</p><p>incondicionados.</p><p>A Ética Cristã Filosófica</p><p>O cristianismo não é filosofia, mas religião. Apesar disto, faz-se filosófica na</p><p>Idade Média para justificar, através da razão, o domínio das verdades reveladas.</p><p>47</p><p>Naquele tempo, dizia-se que a filosofia é serva da teologia. Assim, subordinava-</p><p>se, também, a ética à teologia.</p><p>Na elaboração conceitual dos problemas filosóficos em geral, e morais em</p><p>particular, aproveita-se a herança da Antigüidade (particularmente de Platão e</p><p>Aristóteles), submetendo-a a um processo de cristianização.</p><p>Santo Agostinho incorpora as idéias de Platão de purificação da alma e sua</p><p>ascensão libertadora até eleva-se à contemplação das idéias, mas transforma-as</p><p>na elevação cética até Deus, culminando no êxtase de felicidade que não pode</p><p>ser alcançada neste mundo. A ética agostiniana se contrapõe ao racionalismo</p><p>ético dos gregos ao sublinhar o valor da experiência pessoal, da interioridade, da</p><p>vontade e do amor.</p><p>São Tomás de Aquino sustenta uma ética baseada na de Aristóteles, porém</p><p>também cristianizando sua moral e sua filosofia. Deus é o bem objetivo ou fim</p><p>supremo, cuja posse causa felicidade, que é um bem subjetivo. E é nesse ponto</p><p>que ele se afasta de Aristóteles, pois para este a felicidade é o bem último. Mas,</p><p>assim como Aristóteles, a contemplação, o conhecimento (como visão de Deus),</p><p>é o meio mais adequado para alcançar o fim último. Atém-se à tese do homem</p><p>como ser social ou político e inclina-se para uma monarquia moderada, ainda</p><p>que considere que todo o poder derive de Deus e o poder supremo caiba à Igreja.</p><p>4. A Ética Moderna</p><p>É a ética dominante desde o século XVI até princípios do século XIX, com</p><p>tendência antropocêntrica, e que atinge seu ponto culminante na ética de Kant.</p><p>I. A Ética Antropocêntrica no Mundo Moderno</p><p>A ética moderna é cultivada na nova sociedade que sucede à sociedade feudal da</p><p>Idade Média, a qual se caracteriza por mudanças econômicas (desenvolvimento</p><p>das relações capitalistas de produção); sociais (fortalecimento da burguesia, que</p><p>48</p><p>se preocupa com a extensão de seu poder econômico e luta para impor a sua</p><p>hegemonia política através de uma série de revoluções); estatais (criação de</p><p>grandes Estados modernos, únicos e centralizados); e religiosas (a religião deixa</p><p>de ser a forma ideológica dominante).</p><p>Nessa nova sociedade o homem adquire um valor pessoal, não só como ser</p><p>espiritual, mas também como ser corpóreo, sensível; e não só como ser dotado</p><p>de razão, mas também de vontade.</p><p>O homem aparece no centro da política, da ciência, da arte e da moral. Há a</p><p>transferência do centro de Deus para o homem, que se apresenta como o</p><p>absoluto.</p><p>II. A Ética de Kant</p><p>É a mais perfeita expressão da ética moderna. O ponto de partida da Ética de</p><p>Kant é o factum (o fato) da moralidade. O problema da moralidade exige que se</p><p>proponha a questão do fundamento da bondade dos atos, ou em que consiste o</p><p>bom. Para Kant, o único bom em si mesmo é a boa vontade. A bondade de uma</p><p>ação não se deve procurar em si mesma, mas na vontade com que se fez. É boa a</p><p>vontade que age por puro respeito ao dever.</p><p>Se o homem age por puro respeito ao dever e não obedece a outra lei a não ser a</p><p>que lhe dita a sua consciência moral, é legislador de si mesmo (como pessoa</p><p>moral). Sendo assim, para Kant, parece profundamente imoral tomar o homem</p><p>como o meio, porque todos os homens são fins em si mesmos e, como tais,</p><p>fazem parte do mundo da liberdade ou do reino dos fins.</p><p>Por conceber o comportamento moral como pertencente a um sujeito autônomo</p><p>e livre, ativo e criador, Kant é o ponto de partida de uma filosofia e de uma ética</p><p>na qual o homem se define antes de tudo como ser ativo, produtor ou criador.</p><p>49</p><p>5. A Ética Contemporânea</p><p>Incluem-se aqui não apenas as éticas atuais, mas as que continuam tendo</p><p>influência desde seu surgimento no século XIX – como as de Kierkegaard,</p><p>Stirner ou Marx.</p><p>A ética contemporânea surge numa época de contínuos progressos científicos e</p><p>técnicos e de um imenso desenvolvimento das forças produtoras, que acabam</p><p>por questionar a própria existência da humanidade, e conhece um novo sistema</p><p>social – o socialismo. No plano filosófico, a ética contemporânea se apresenta</p><p>como reação contra o formalismo e o racionalismo abstrato kantiano,</p><p>principalmente ao absolutismo de Hegel.</p><p>Os rumos principais nos quais se orientam as doutrinas fundamentais</p><p>contemporâneas no campo da ética são os seguintes:</p><p>I. De Kierkegaard ao Existencialismo: Kierkegaard é considerado o pai do</p><p>existencialismo, sendo tido como “anti-Hegel”. Ao contrário de Hegel, para</p><p>Kierkegaard o que vale é o homem concreto, a sua subjetividade – e não seu</p><p>caráter abstrato e universal, contrapondo a Hegel seu irracionalismo absoluto e o</p><p>seu individualismo radical. Kierkegaard distingue três estágios na existência</p><p>individual, na seguinte ordem hierárquica: religioso, ético e estético. Max</p><p>Stirner segue no mesmo sentido, e até dá um passo além: a moral é praticamente</p><p>impossível na individualidade. O existencialismo de Jean-Paul Sartre renova nos</p><p>dias contemporâneos a orientação individualista e irracionalista de Kierkegaard,</p><p>mas com algumas diferenças, por exemplo: para Sartre, Deus não existe;</p><p>portanto, resta somente o homem como fundamento sem fundamento dos</p><p>valores. Para Sartre, o homem é liberdade, e esta é a única fonte de valor, e o</p><p>valor supremo.</p><p>50</p><p>II. O Pragmatismo. Como filosofia e doutrina ética, o Pragmatismo surge e se</p><p>difunde nos EUA, com S. Pierce, W. James e J. Dewey. O progresso científico e</p><p>técnico desse país criaram</p><p>as condições para esta filosofia antiespeculativa e</p><p>atenta às questões práticas, ao pragmatismo, que por sua vez consiste em uma</p><p>variante utilitarista marcada pelo egoísmo, e como mais uma versão do</p><p>subjetivismo e do irracionalismo.</p><p>III. Psicanálise e Ética. Fundada por Freud, as teses da psicanálise foram</p><p>submetidas a um processo de revisão pelos seus outros ramos, seguidos por</p><p>Adler, Jung, Sullivan e Fromm. A psicanálise clássica, de Freud, tem uma</p><p>concepção naturalista do homem, e Fromm vem completá-la integrando-lhe os</p><p>fatores sociais. A base da psicanálise é o inconsciente do homem, onde se</p><p>armazenam recordações, desejos ou impulsos reprimidos, que lutam coma a</p><p>consciência para escapar de sua repressão. Para Freud, a energia que se</p><p>manifesta no inconsciente é de natureza sexual e se chama libido, que quando</p><p>reprimida acarreta perturbações psíquicas. Freud ainda distingue três zonas da</p><p>personalidade: o id, o ego e o superego. A contribuição de Freud à ética se dá no</p><p>seguinte sentido: se o ato moral é o praticado de forma consciente e livre, os atos</p><p>praticados por uma motivação inconsciente estão excluídos do campo moral.</p><p>Entretanto, a versão de Fromm da psicanálise, por considerar seu aspecto social,</p><p>oferece maiores contribuições à ética do que a psicanálise clássica de Freud.</p><p>IV.O Marxismo</p><p>O marxismo critica as morais do passado e evidencia as bases teóricas e práticas</p><p>de uma nova moral. Marx tenta mostrar que o homem é práxis; é um ser</p><p>produtor, transformador, criador. Além disso, o homem é um ser social, e</p><p>também um ser histórico. Chega ele à tese entre o desenvolvimento das forças</p><p>produtivas e das relações de produção. Ao mudar a base econômica, muda</p><p>também a moral.</p><p>51</p><p>Marx acredita no caráter histórico-social da moral. Aprofunda-se ele na nova</p><p>moral, com que ele está entusiasmado, indo em busca dos aspectos das classes</p><p>sociais e suas implicações, e das forças de produção; concluindo, Marx acredita</p><p>que o homem tem o dever de interferir na transformação da sociedade, pois há a</p><p>possibilidade de se voltar à barbárie e de o homem não consiga subsistir.</p><p>V. Neopositivismo e Filosofia Analítica</p><p>Aqui estão as correntes éticas contemporâneas que acabam por concentrar sua</p><p>atenção na análise da linguagem moral, começando com G.E. Moore. Moore</p><p>afirma que o bom é indefinível, e existe como propriedade não natural, e conclui</p><p>que ele só pode ser captado por meio da intuição. Seus seguidores – os</p><p>intuicionistas – contribuem para endossar suas teses. O próximo passo depois do</p><p>intuicionismo foi o dado pelos positivistas lógicos. Em seguida se abre espaço</p><p>para o emotivismo ético, cuja conclusão é de que os termos éticos têm somente</p><p>um significado emotivo, e as proposições morais carecem de valor científico.</p><p>Embora sejam inegáveis as contribuições dadas pelos filósofos analíticos na</p><p>investigação da linguagem moral, não se pode esquecer de que a linguagem</p><p>moral é o meio pelo qual as relações efetivas se manifestam no mundo real. Não</p><p>se pode reduzir a tarefa da ética à análise da linguagem moral, sob pena de</p><p>abstrair dela o seu aspecto ideal de seus juízos e termos morais, sendo a</p><p>investigação analítica insuficiente. Entretanto, todas estas contribuições parecem</p><p>fazer parte da incessante dinâmica histórico-social da moral.</p><p>52</p><p>REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA</p><p>SÁNCHEZ VÁZQUEZ, Adolfo. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,</p><p>2002.</p><p>poderiam ser</p><p>encontradas até mesmo nos animais.</p><p>c) O Homem como origem e fonte da moral: considera o homem como</p><p>detentor de uma essência eterna e imutável inerente a todos os</p><p>indivíduos; assim, a moral constituiria um aspecto desta maneira de</p><p>ser, que permanece através das mudanças históricas e sociais.</p><p>8</p><p>Nas três concepções, há a coincidência quanto à busca da origem e da fonte da</p><p>moral fora do homem concreto. Além disso, acentua-se o caráter histórico da</p><p>moral, onde ocorrem as mudanças históricas na moral, que levam a questionar</p><p>acerca (i) das causas ou fatores que determinam as mudanças, e (ii) do seu</p><p>sentido ou direção – se há ou não um progresso moral.</p><p>2. Origens da Moral</p><p>A moral surge quando o homem atinge sua natureza social, sendo membro de</p><p>uma coletividade, onde ele sente que precisa se comportar de certo modo por ter</p><p>uma consciência de sua relação com os demais.</p><p>O trabalho do homem também adquire um caráter coletivo, e o fortalecimento</p><p>da coletividade se torna uma necessidade vital para vencer as dificuldades de</p><p>sobrevivência; é então que surgem uma série de normas não escritas que irão</p><p>beneficiar a comunidade, e assim nasce a moral, para conciliar o comportamento</p><p>individual com os interesses coletivos.</p><p>Os indivíduos, então, passam a julgar o comportamento alheio como “bom”/útil</p><p>ou “mau”/nefasto para manter a coletividade. A questão do benefício da</p><p>comunidade é a origem do que modernamente chamamos de virtudes ou vícios.</p><p>O conceito de justiça corresponde também ao mesmo princípio coletivista, seja</p><p>no sentido de igualdade na distribuição, seja no de fazer a reparação de um mal</p><p>causado a um membro da coletividade.</p><p>Destarte, nas comunidades primitivas o aspecto coletivo absorve o individual,</p><p>dizendo-se ser uma moral pouco desenvolvida, em contraposição com a moral</p><p>mais elevada, baseada na responsabilidade pessoal. O progresso da moral se dá</p><p>em virtude das novas condições econômico-sociais, particularmente o</p><p>aparecimento da propriedade privada e a divisão da sociedade em classes.</p><p>9</p><p>3. Mudanças Histórico-Sociais e Mudanças da Moral</p><p>O aumento generalizado da produtividade de trabalho tornou possível estocar</p><p>quantidades excedentes de produtos, criando assim condições para que surgisse</p><p>a desigualdade de bens entre chefes de família que antes repartiam igualmente</p><p>os frutos em razão de sua necessidade mútua. Tal situação possibilitou ainda a</p><p>apropriação privada dos bens ou produtos de trabalho alheio, e daí o</p><p>antagonismo entre pobres e ricos. A propriedade privada acentuou a divisão</p><p>entre os homens livres e os escravos, e fez surgir uma moral própria de cada</p><p>uma dessas condições de escravidão ou de liberdade, sendo dominante a moral</p><p>dos homens livres, tanto no campo prático como no teórico – não só porque se</p><p>baseava na moral dos filósofos da Antigüidade, mas também porque a moral dos</p><p>escravos não se conseguia alçar a um nível teórico.</p><p>Com o desaparecimento do mundo Antigo, assentado na escravidão, nasce a</p><p>sociedade feudal, cujo regime econômico-social se baseia na divisão em duas</p><p>classes sociais fundamentais: a dos senhores feudais e a dos camponeses servos.</p><p>Embora suas condições de vida continuassem difíceis, os servos já eram</p><p>formalmente reconhecidos como seres humanos, em vez de coisas.</p><p>Na pirâmide social de então se incluía a Igreja, que também possuía seus feudos;</p><p>além disso, devido ao seu papel preponderante, a moral da Idade Média estava</p><p>impregnada de conteúdo religioso, mas havia também as morais próprias dos</p><p>nobres e dos cavaleiros.</p><p>Aos poucos surgiu uma nova classe social: a burguesia, com sua moral peculiar,</p><p>que era a dos trabalhadores assalariados – princípio da lei de produção de mais-</p><p>valia econômica – e que também exigia mão-de-obra livre. A economia passa a</p><p>ser regida pela lei do máximo lucro, que gera uma moral própria: uma moral</p><p>muito individualista que dá lugar ao espírito de posse e ao egoísmo, tendo</p><p>também métodos brutais de exploração do trabalho humano em busca da mais-</p><p>valia. Tal situação evolui para o capitalismo baseado em métodos científicos e</p><p>racionalizados de produção em série, e deste passo evolui ainda para um maior</p><p>10</p><p>respeito aos trabalhadores e à preocupação com seus interesses e necessidades,</p><p>mas tudo visando ao benefício da empresa onde ele trabalha, visando maior</p><p>produtividade.</p><p>Ao longo de séculos, os mais diversos modos de exploração do homem pelo</p><p>homem no capitalismo e a violência usada por conquistadores nas colônias se</p><p>deu sem que se levantassem problemas morais para seus executores. Esta</p><p>situação muda nos tempos modernos, quando se começa a recorrer à moral na</p><p>tentativa de justificar as opressões. Entretanto, aos poucos os povos subjugados</p><p>começam a desenvolver sua própria moral: com sua honra, a fidelidade aos seus,</p><p>etc.</p><p>A conclusão da exposição anterior é de que a moral vivida realmente na</p><p>sociedade muda historicamente de acordo com as reviravoltas fundamentais</p><p>verificadas no desenvolvimento social.</p><p>Uma nova moral, autenticamente humana, implicará numa grande mudança de</p><p>atitude, menos individualista e com mais espírito coletivista; entretanto, essa</p><p>nova moral está longe de ser atingida, pois são necessárias várias mudanças de</p><p>ordem econômica, social e política.</p><p>4. O Progresso Moral</p><p>Já vimos que a moral se desenvolve ao longo do tempo de acordo com o</p><p>momento histórico e social. É importante sabermos comparar as diversas morais</p><p>já havidas para determinar qual delas se apresenta mais avançada, ou mais</p><p>elevada. O progresso moral não pode ser concebido independentemente do</p><p>progresso histórico-social, mas não se limita a este; destarte, é mister saber</p><p>diferenciar uma coisa da outra.</p><p>Pode-se usar como índice de progresso humano quando ocorre um</p><p>desenvolvimento das forças produtivas. Porém isto não basta, posto que o</p><p>homem produz somente em sociedade. Portanto, outro critério de progresso</p><p>humano reside no tipo de organização social e no grau correspondente de</p><p>11</p><p>participação dos homens na sua praxis social. Há ainda outro índice: o da</p><p>produção de bens culturais, como no campo da ciência e da arte. Todos esses</p><p>índices – atividade produtiva, social e espiritual – são usados conjuntamente</p><p>para avaliar o sujeito do progresso histórico: o homem social.</p><p>Há de se atentar para os fatos de que o progresso histórico é fruto da atividade</p><p>coletiva consciente dos homens, e também de que tal progresso se dá em ritmos</p><p>diferentes nos diversos povos.</p><p>Tiram-se duas conclusões das características do progresso histórico-social:</p><p>(a) ele cria as condições necessárias para o progresso moral; e (b) ele pode afetar</p><p>negativa ou positivamente os homens de dada sociedade sob o ponto de vista</p><p>moral.</p><p>O primeiro fator de medição do progresso moral é a ampliação da “esfera</p><p>moral” na vida social. Isto se dá quando os indivíduos passam a reger seus atos</p><p>por normas internas ou de ordem íntima e subjetiva, e não mais por normas</p><p>externas, como a coação ou estímulos materiais como maior recompensa</p><p>econômica.</p><p>O segundo fator é a elevação do caráter consciente e livre do comportamento</p><p>dos indivíduos ou dos grupos sociais, e pelo conseqüente crescimento da</p><p>responsabilidade destes indivíduos ou grupos no seu comportamento moral.</p><p>Assim, o progresso moral é inseparável do desenvolvimento da livre</p><p>personalidade.</p><p>O terceiro índice de progresso moral é o grau de articulação e de coordenação</p><p>dos interesses coletivos e pessoais. A moral dita superior ocorre quando há um</p><p>equilíbrio entre os interesses da comunidade e os estritamente individuais.</p><p>O progresso moral também se dá na negação e na reafirmação de alguns</p><p>elementos morais anteriores; os mais elevados – como a solidariedade, por</p><p>exemplo – adquirem certa universalidade e se mantêm na história.</p><p>12</p><p>CAPÍTULO III - A ESSÊNCIA DA MORAL</p><p>Propõe-se a seguinte definição de moral como ponto de partida:</p><p>a moral é um</p><p>conjunto de normas, aceitas livre e conscientemente, que regulam o</p><p>comportamento individual e social dos homens.</p><p>1. O Normativo e o Fatual</p><p>Encontramos na moram dois planos: (a) o normativo, constituído pelas normas</p><p>ou regras de ação, o dever-ser; e (b) o fatual, ou plano dos fatos morais,</p><p>constituído por atos humanos concretos, e portanto independentes do dever-ser.</p><p>Os fatos morais estão em constante interação com o normativo, posto que</p><p>sempre adquirem um significado moral positivo ou negativo; e o normativo não</p><p>existe independentemente do fatual, pois aponta para um comportamento</p><p>efetivo.</p><p>As normas existem e valem independentemente da medida em que sejam</p><p>cumpridas ou violadas.</p><p>2. Moral e Moralidade</p><p>A distinção entre moral e moralidade corresponde à indicada entre normativo e</p><p>fatual. Entretanto, o melhor é empregar um único termo: moral – mas</p><p>significando os dois planos, ou seja, o normativo e o prático.</p><p>3. Caráter Social da Moral</p><p>A moral possui, em sua essência, uma qualidade social, e portanto ela se</p><p>manifesta somente na sociedade. Essa socialidade se revela em três aspectos</p><p>fundamentais:</p><p>13</p><p>A) Cada pessoa, comportando-se moralmente, sujeita-se a determinados</p><p>princípios, valores ou normas morais válidas segundo a época histórica, a</p><p>sociedade e o tipo relação social dominante.</p><p>B) O comportamento moral é tanto de indivíduos como de grupos sociais</p><p>humanos, e tem caráter livre e consciente.</p><p>C) As idéias, normas e relações sociais surgem em decorrência de uma</p><p>necessidade social.</p><p>Para cumprir certas normas sociais, o poder coercitivo do Estado não é</p><p>suficiente; busca-se que os indivíduos aceitem íntima e livremente a ordem</p><p>social estabelecida, e aqui reside a função social da moral.</p><p>A moral possui um caráter social porque (a) os indivíduos se sujeitam a normas</p><p>social estabelecidas; (b) regula somente atos que acarretam conseqüências para</p><p>os outros; e (c) cumpre a função social de induzir os indivíduos a aceitar livre e</p><p>conscientemente determinados princípios, valores ou interesses.</p><p>4. O Individual e o Coletivo na Moral</p><p>O indivíduo pode agir moralmente apenas em sociedade. No nível da</p><p>regulamentação moral consuetudinária, o indivíduo sente sobre si a pressão do</p><p>coletivo. Entretanto, por mais fortes que sejam os elementos objetivos e</p><p>coletivos, a decisão e o ato respectivo emanam de um indivíduo que age livre e</p><p>conscientemente, assumindo uma responsabilidade individual. Por outro lado,</p><p>mesmo quando o indivíduo pensa que age em obediência exclusiva à sua</p><p>consciência, a uma suposta “voz interior”, e portanto pensa que decide sozinho</p><p>conforme sua consciência, ele não deixa de acusar a influência do mundo social</p><p>do qual faz parte.</p><p>A moral implica sempre uma consciência individual que faz suas ou interioriza</p><p>as regras de ação que se lhe apresentam com um caráter normativo.</p><p>14</p><p>5. Estrutura do Ato Moral</p><p>O ato moral há de ser analisado pelo seu motivo, e também pelo seu fim visado.</p><p>O motivo, como aspecto importante do ato moral, pode ser de naturezas várias,</p><p>inclusive inconscientes, e não pode ser objeto de aprovação ou desaprovação. O</p><p>fim do ato moral é (i) algo voluntário, ou seja, houve uma decisão de realizar o</p><p>fim escolhido, e (ii) pressupõe a escolha de um único fim em detrimento de</p><p>outros fins possíveis, por achar que o escolhido é preferível. A seguir, vem a</p><p>escolha dos meios para a consecução do fim escolhido, sendo que mesmo um</p><p>fim muito elevado não justifica meios baixos para a sua consecução. O ato</p><p>moral, ademais, supõe um sujeito real dotado de consciência moral.</p><p>A intenção também é um aspecto importante do ato moral, e elas não se podem</p><p>salvar moralmente, porque não podemos isolá-las dos meios nem dos resultados</p><p>– em outras palavras: meios e resultados maus não se justificam com intenções</p><p>boas.</p><p>6. Singularidade do Ato Moral</p><p>A singularidade, novidade e imprevisibilidade de cada situação real colocam o</p><p>ato moral num contexto particular que impede a possibilidade de ditar por</p><p>antecipação uma regra de realização – pretensão vã do casuísmo ou casuística,</p><p>que por sua vez empobrece a vida moral.</p><p>7. Conclusão</p><p>Os traços essenciais da moral são os seguintes:</p><p>1) A moral é uma forma de comportamento humano que compreende um</p><p>aspecto normativo (regras de ação) e outro fatual (atos de natureza prática).</p><p>2) A moral é um fato social; verifica-se somente em sociedade.</p><p>3) Embora a moral possua caráter social, o indivíduo nela desempenha papel</p><p>decisivo, dada a exigência de interiorização das normas e da sua adesão íntima a</p><p>elas.</p><p>15</p><p>4) O ato moral é uma unidade indissolúvel dos seus diversos elementos: motivo,</p><p>intenção, decisão, meios e resultados.</p><p>5) O ato moral concreto é parte de um contexto normativo em vigor em uma</p><p>determinada comunidade que lhe dá sentido.</p><p>6) O ato moral, sendo consciente e voluntário, supõe uma participação livre do</p><p>sujeito em sua realização.</p><p>Definição de moral: a moral é um sistema de normas, princípios e valores,</p><p>segundo o qual são regulamentadas as relações mútuas entre os indivíduos ou</p><p>entre estes e a comunidade, de tal maneira que estas normas, dotadas de um</p><p>caráter histórico e social, sejam acatadas livre e conscientemente, por uma</p><p>convicção íntima, e não de uma maneira mecânica, externa ou impessoal.</p><p>CAPÍTULO IV - A MORAL E OUTRAS FORMAS DE</p><p>COMPORTAMENTO HUMANO</p><p>1. Diversidade do comportamento Humano</p><p>As relações do homem com o mundo exterior, diferentemente do animal, são de</p><p>ordens muito diversas: trabalho, arte, conhecimento e religião. Além disso, as</p><p>relações dos homens entre si também são muitas: econômicas, políticas,</p><p>jurídicas, morais, etc. Cabe aqui examinar, em termos gerais, a distinção entre o</p><p>comportamento moral e outras formas do comportamento humano, a seguir.</p><p>2. Moral e Religião</p><p>Há duas teses sobre religião e moral: (i) a religião inclui certa moral; e (ii) Deus</p><p>como garantia da moral. Entretanto, a história da humanidade demonstra que a</p><p>moral não somente não se origina da religião como também é anterior a ela.</p><p>16</p><p>3. Moral e Política</p><p>Enquanto a moral regulamenta as relações mútuas entre os indivíduos e entre</p><p>estes e a comunidade, a política abrange as relações entre grupos humanos</p><p>(classes, povos ou nações). Na política, o indivíduo encarna uma função</p><p>coletiva, ao passo que agindo moralmente o elemento íntimo e subjetivo</p><p>desempenha um papel importante.</p><p>As relações extremas entre política e moral são: (i) a do moralismo abstrato, que</p><p>leva a reduzir a política à moral, e (ii) do realismo político, que defende a busca</p><p>de resultados a qualquer preço, sejam quais forem os meios empregados,</p><p>desconsiderando a moral.</p><p>4. Moral e o Direito</p><p>De todas as formas de comportamento humano, o jurídico, ou do direito, é o que</p><p>mais intimamente se associa com a moral, pois os dois estão sujeitos a normas</p><p>que regulam as relações do homem. Há algumas diferenças entre as duas</p><p>formas: (i) as normas morais são cumpridas pela convicção íntima dos</p><p>indivíduos, ao passo que as normas jurídicas são cumpridas por motivos formais</p><p>ou externos; (ii) a esfera da moral é mais ampla do que a do direito; (iii) a moral</p><p>não depende necessariamente do Estado, como o direito.</p><p>5. Moral e Trato Social</p><p>Também guardam relação com a moral os atos de trato social, como por</p><p>exemplo o cavalheirismo, a pontualidade, a galanteria, etc., que podem ou não</p><p>variar de um grupo social para outro, e de uma época para outra. O trato social</p><p>procura regulamentar formal e exteriormente a convivência dos indivíduos na</p><p>sociedade, mas sem o apoio da convicção e adesão íntima do sujeito (moral) e</p><p>sem a imposição coercitiva do cumprimento das regras (direito).</p><p>17</p><p>6. Moral e Ciência</p><p>As relações entre a moral e a ciência podem ser colocadas em dois planos: (a) o</p><p>que diz respeito à natureza da moral, e se é cabível falar-se</p><p>em caráter científico</p><p>da moral. Esta questão foi abordada ao definir ética como a ciência da moral; e</p><p>(b) o que diz respeito ao uso social da ciência, e aqui se fala do papel moral ou</p><p>da atividade do cientista.</p><p>A primeira questão enuncia o que alguma coisa é, e não o que deve ser. Assim, a</p><p>ética nos diz o que a moral é, mas não estabelece normas. A moral não é ciência,</p><p>e sim ideologia que pode se relacionar com as diversas ciências.</p><p>A segunda questão diz respeito à responsabilidade moral assumida pelo cientista</p><p>no exercício da sua atividade e pelas conseqüências sociais. O cientista não pode</p><p>ser indiferente diante das conseqüências sociais do seu trabalho, que pode ser</p><p>usado pra o bem ou para o mal da sociedade. Sob este aspecto, a ciência não</p><p>pode ser separada da moral.</p><p>CAPÍTULO V - RESPONSABILIDA DE MORAL, DETERMINISMO E</p><p>LIBERDADE</p><p>1. Condições da Responsabilidade Moral</p><p>O enriquecimento – ou progresso – da vida moral acarreta o aumento da</p><p>responsabilidade pessoal, e portanto a determinação das condições dessa</p><p>responsabilidade adquire importância primordial.</p><p>A chave da questão consiste em saber quais são as condições necessárias para</p><p>poder imputar a alguém uma responsabilidade moral por determinado ato, e elas</p><p>são duas: (a) que o sujeito conheça as circunstâncias e as conseqüências da sua</p><p>ação – ou seja, seu ato deve ser consciente; e (b) que a causa dos seus atos seja</p><p>interior, e não exterior, ou seja, em outro agente que o force a agir de certa</p><p>18</p><p>maneira, isto é: sua conduta deve ser livre. Pelo contrário, a ignorância de um</p><p>lado e a falta de liberdade do outro, permite eximir o sujeito da responsabilidade</p><p>moral.</p><p>2. A Ignorância e a Responsabilidade Social</p><p>A ignorância das circunstâncias, da natureza ou das conseqüências dos atos</p><p>humanos autoriza a eximir um indivíduo da sua responsabilidade pessoal, mas</p><p>essa isenção será justificada somente quando, por sua vez, o indivíduo em</p><p>questão não for responsável pela sua ignorância; ou seja, quando se encontra na</p><p>impossibilidade subjetiva (por motivos pessoais) ou objetiva (por motivos</p><p>históricos e sociais) de ser consciente do seu ato pessoal. Para ilustrar esta</p><p>questão, cita-se o caso de Aristóteles, que não poderia ser responsabilizado pela</p><p>sua ignorância em saber que o escravo também era um ser humano e não um</p><p>simples instrumento.</p><p>3. Coação Externa e Responsabilidade Moral</p><p>A coação externa pode anular a vontade do agente moral e eximi-lo da sua</p><p>responsabilidade pessoal, mas isto não pode ser tomado num sentido absoluto,</p><p>porque há casos em que, apesar das suas formas externas, sobra-lhe certa</p><p>margem de opção, e portanto de responsabilidade moral. Um exemplo de</p><p>exceção é o caso do processo de Nurenberg contra os principais dirigentes do</p><p>nazismo alemão, em que eles não podiam ser absolvidos de sua responsabilidade</p><p>moral.</p><p>4. Coação Interna e Responsabilidade Moral</p><p>Aqui há as hipóteses de doenças mentais, em que seu portador sente uma</p><p>vontade irresistível de agir de certo modo, sobre o qual o agente não tem</p><p>controle, como na cleptomania. Mas falando de pessoas normais – a maioria,</p><p>19</p><p>estas sempre têm controle sobre seus atos, por mais que sintam um ou outro</p><p>impulso.</p><p>5. Responsabilidade Moral e Liberdade</p><p>A responsabilidade moral pressupõe a possibilidade de decidir e agir vencendo a</p><p>coação externa ou interna. Somente haverá responsabilidade moral se existir</p><p>liberdade.</p><p>6. Três Posições Fundamentais no Problema da Liberdade</p><p>1ª – O determinismo é incompatível com a liberdade.</p><p>2ª – A liberdade é incompatível com qualquer determinação externa ao sujeito.</p><p>3ª – Liberdade e necessidade se conciliam.</p><p>7. O Determinismo Absoluto</p><p>A tese central é a seguinte: tudo é causado, e portanto não existe liberdade</p><p>humana nem responsabilidade social.</p><p>8. O Libertarismo</p><p>Ser livre significa decidir e operar como se bem desejar. A característica desta</p><p>posição é a contraposição entre liberdade e necessidade causal. A liberdade de</p><p>vontade, longe de excluir a causalidade – no sentido de romper a conexão causal</p><p>ou a negação total desta (indeterminismo) – pressupõe inevitavelmente a</p><p>necessidade causal.</p><p>9. Dialética da Liberdade e da Necessidade</p><p>As três tentativas mais importantes de superar dialeticamente a antítese entre</p><p>liberdade e necessidade causal foram elaboradas por Spinoza, Hegel e Marx-</p><p>Engels. Para Spinoza, não se pode conceber a liberdade independentemente da</p><p>necessidade. Hegel o complementa, afirmando que além desse fator há de ser</p><p>20</p><p>considerado o fator do desenvolvimento histórico quando se fala da liberdade –</p><p>a historicidade. Marx e Engels aceitam as duas teorias acima, e partem do</p><p>princípio que a liberdade é a consciência histórica da necessidade.</p><p>10. Conclusão</p><p>O ideal é a conciliação dialética entre a necessidade e a liberdade, em</p><p>conformidade com a solução de Marx e Engels. A responsabilidade moral</p><p>pressupõe necessariamente certo grau de liberdade, mas esta, por sua vez,</p><p>implica também inevitavelmente a necessidade causal. Responsabilidade moral,</p><p>liberdade e necessidade estão, portanto, entrelaçadas indissociavelmente no ato</p><p>moral.</p><p>CAPÍTULO VI - OS VALORES</p><p>Todo ato moral inclui a necessidade de escolher entre vários atos possíveis. O</p><p>comportamento moral faz parte da vida cotidiana de todos os indivíduos, e as</p><p>preferências por um ato sobre outro também. As preferências sempre envolvem</p><p>algum juízo de valor sobre os atos.</p><p>1. Que são os valores</p><p>Os valores podem ser atribuídos às coisas ou objetos naturais ou produzidos pelo</p><p>homem, bem como podem ser relativos à conduta humana, particularmente a</p><p>conduta moral. O objeto valioso não pode existir sem certa relação com um</p><p>sujeito, nem independentemente das propriedades naturais, sensíveis e físicas</p><p>que sustentam seu valor.</p><p>21</p><p>2. Sobre o valor econômico</p><p>O termo “valor” deriva da economia. Para que um objeto tenha valor de uso</p><p>deve satisfazer uma necessidade humana, independentemente de ser natural ou</p><p>produto do trabalho humano. Quando estes objetos se transformam em</p><p>mercadorias, adquirem duplo valor: de uso e de troca. O valor de troca é</p><p>adquirido pelo produto do trabalho humano ao ser comparado com outros</p><p>produtos. O valor de troca da mercadoria é indiferente ao seu valor de uso, ou</p><p>seja, é independente de sua capacidade de satisfazer uma necessidade humana</p><p>determinada.</p><p>3. Definição do valor</p><p>O valor não é propriedade dos objetos em si, mas propriedade adquirida graças</p><p>à sua relação com o homem como ser social. Mas, por sua vez, os objetos podem</p><p>ter valor somente quando dotados realmente de certas propriedades objetivas.</p><p>4. Objetivismo e subjetivismo axiológicos</p><p>O subjetivismo axiológico pode ser considerado como psicologismo axiológico,</p><p>visto que reduz o valor de uma coisa a um estado psíquico subjetivo. Uma</p><p>pessoa não deseja um objeto porque vale, mas este vale porque é desejado.</p><p>De acordo com a posição subjetivista, não existem objetos de valor em si</p><p>independentemente de qualquer relação com um sujeito. Esta tese recusa por</p><p>completo as propriedades do objeto, sejam naturais ou criadas pelo homem.</p><p>A tese do objetivismo axiológico rejeita o subjetivismo axiológico e afirma que</p><p>há objetos valiosos em si, independentemente do sujeito. Segundo essa teoria,</p><p>existe uma separação radical entre valor e bem (coisa valiosa) e entre valor e</p><p>existência humana.</p><p>5. A objetividade dos valores</p><p>22</p><p>Os valores não existem em si e por si independentemente dos objetos reais</p><p>(cujas propriedades objetivas se apresentam como propriedades valiosas –</p><p>humanas e sociais), nem tampouco independentemente da relação com o sujeito</p><p>(o homem social). Existem com uma objetividade social. Por conseguinte, os</p><p>valores existem unicamente em um mundo social, ou seja, pelo homem e para o</p><p>homem.</p><p>6. Os Valores Morais e Não Morais</p><p>Os</p><p>objetos úteis não encarnam valores morais, embora possam encontrar-se</p><p>numa relação instrumental com estes valores. A “bondade” instrumental ou</p><p>funcional de um objeto está alheia a qualquer qualificação moral, pois pode</p><p>servir de meio ou instrumento para realizar um ato moralmente bom ou um ato</p><p>moralmente mau. Os objetos devem ser excluídos do reino dos objetos valiosos</p><p>que podem ser qualificados moralmente. Quando o termo “bondade” se aplica a</p><p>eles (por exemplo, faca “boa”) deve ser entendido no sentido axiológico</p><p>adequado, e não propriamente moral.</p><p>Os valores existem unicamente em atos ou produtos humanos. Tão-somente o</p><p>que tem um significado humano pode ser avaliado moralmente – mas apenas os</p><p>atos realizados livremente, ou seja, de modo consciente e voluntário. Um</p><p>mesmo produto humano pode assumir vários valores, embora um deles seja o</p><p>determinante. Por exemplo: uma obra de arte pode ter não só um valor estético,</p><p>como também político, moral ou religioso. No entanto, nunca se pretende</p><p>deduzir desses valores o seu valor propriamente estético.</p><p>Um mesmo ato ou produto humano pode ser avaliado a partir de diversos</p><p>ângulos, podendo realizar diferentes valores. Mas ainda que os valores se juntem</p><p>num mesmo objeto, não devem ser confundidos. Os valores morais se encarnam</p><p>somente em atos ou produtos humanos realizados de modo consciente e</p><p>voluntário.</p><p>23</p><p>CAPÍTULO VII - A AVALIAÇÃO MORAL</p><p>1. Caráter concreto da avaliação moral</p><p>A avaliação moral compreende três elementos:</p><p>(a) o valor atribuível</p><p>(b) o objeto avaliado</p><p>(c) o sujeito que avalia</p><p>Numa caracterização geral da avaliação moral, a avaliação, por ter atribuição de</p><p>um valor constituído ou criado pelo homem, possui um caráter concreto,</p><p>histórico-social. Também é preciso considerar que se pode atribuir valor moral a</p><p>um ato se – e somente se – tiver ele conseqüências que afetam a outros</p><p>indivíduos, a um grupo social ou à sociedade inteira.</p><p>A avaliação é sempre atribuição de um valor por parte de um sujeito. Portanto,</p><p>pelo valor atribuído, pelo objeto avaliado e pelo sujeito que avalia, a avaliação</p><p>tem sempre um caráter concreto, ou seja, é a atribuição de um valor concreto</p><p>numa situação determinada.</p><p>Os itens a seguir se referem ao exame do valor moral fundamental: a bondade.</p><p>2. O bom como valor</p><p>O ato moral pretende ser uma realização do “bom”. Comportando-se</p><p>moralmente, os homens aspiram ao bem, isto é, a realizar atos moralmente bons.</p><p>Definir o bom implica definir o mau. De uma sociedade para outra, mudam as</p><p>idéias sobre o bom e o mau de acordo com as diferentes funções da moral</p><p>efetiva de cada época, e essas mudanças se refletem sob a forma de novos</p><p>conceitos nas doutrinas éticas. Nos povos primitivos o bom é, antes de tudo, a</p><p>valentia, enquanto o mau é a covardia. Com a divisão da sociedade em classes,</p><p>24</p><p>perde o seu significado universal humano. Na Idade Média é bom o que deriva</p><p>da vontade de Deus.</p><p>Nos tempos modernos, o bom é o que concorda com a natureza humana</p><p>concebida de uma maneira universal e abstrata que podemos definir no</p><p>pensamento ético como felicidade, prazer, boa vontade, utilidade. Mas também</p><p>pode ser caracterizado como verdade, poder, riqueza e Deus.</p><p>3. O bom como felicidade (eudemonismo)</p><p>Para Aristóteles, a felicidade é o mais alto dos bens e está no exercício da razão.</p><p>Isso significa que a felicidade está no alcance somente de uma parte privilegiada</p><p>da sociedade, da qual, refletindo a realidade de sua época, estavam excluídos os</p><p>escravos e as mulheres.</p><p>O pensamento ético moderno sustenta o direito dos homens de serem felizes</p><p>neste mundo, mas concebem a felicidade num plano abstrato, ideal, fora das</p><p>condições concretas da vida social que favorecem ou constituem obstáculos para</p><p>a consecução.</p><p>Ou seja, a tese de que a felicidade é o único bom resulta demasiado geral se não</p><p>se concretiza o seu conteúdo. Este conteúdo varia de acordo com as relações</p><p>sociais que o determinam e a cujos interesses serve. Portanto, não se pode</p><p>considerar – como adequada à natureza humana em geral – a felicidade que</p><p>hoje se reduz às tendências egoístas do indivíduo ou ao seu “espírito de posse”.</p><p>Numa sociedade na qual não vigore o princípio da propriedade privada nem a</p><p>onipotência do dinheiro, e na qual o destino pessoal não se possa conceber</p><p>separado da comunidade, os homens terão de buscar outro tipo de felicidade.</p><p>4. O bom como prazer (hedonismo)</p><p>As teses básicas do hedonismo ético, citadas abaixo, consideram prazer no</p><p>sentido de prazeres mais duradouros e superiores, como os intelectuais e os</p><p>estéticos.</p><p>25</p><p>1ª. Todo prazer ou gozo é intrinsecamente bom.</p><p>2ª. Somente o prazer é intrinsecamente bom.</p><p>3ª. A bondade de um ato ou experiência depende do (ou é proporcional à</p><p>quantidade de) prazer que contém.</p><p>As teses, quantitativas e qualitativas do hedonismo ético reduzem o “bom” a</p><p>reações psíquicas ou vivências subjetivas, deduzindo o juízo de valor a partir do</p><p>juízo de fato.</p><p>5. O bom como “boa vontade” (formalismo Kantiano)</p><p>Kant defende que o bom deve ser algo incondicionado, sem restrição alguma. A</p><p>felicidade está sujeita a certas condições, e se essas não se verificam não se pode</p><p>ser feliz. A boa vontade é uma determinação de fazer algo, de ser bom de uma</p><p>maneira absoluta, sem restrição alguma, em toda circunstância e em todo</p><p>momento, sejam quais forem os resultados ou as conseqüências da nossa ação,</p><p>ou seja, a vontade que age não só de acordo com o dever, mas pelo dever,</p><p>determinada, única e exclusivamente pela razão.</p><p>Contra esta concepção Kantiana da “boa vontade” , existem algumas objeções</p><p>mas em suma, por seu caráter ideal, abstrato e universal, oferece-nos um</p><p>conceito do bom totalmente inexeqüível neste mundo real e, portanto, inoperante</p><p>para a regulamentação das relações entre os homens concretos.</p><p>6. O bom como útil (utilitarismo)</p><p>Útil para quem? O utilitarismo concebe, portanto, o bom como o útil, mas não</p><p>num sentido egoísta ou altruísta, e sim no sentido geral de bom para o maior</p><p>número de homens.</p><p>Em que consiste o útil? A concepção pluralista sustenta que se os bens</p><p>intrínsecos que os nossos atos podem causar não se reduzem a um só, mas a uma</p><p>pluralidade dos mesmos, onde o bom não é só uma coisa – ou o prazer ou a</p><p>26</p><p>felicidade – mas várias coisas que podem, ao mesmo tempo, considerar-se como</p><p>boas.</p><p>7. Conclusões a respeito da natureza do bom</p><p>Os hedonistas e os eudemonistas consideram que os homens estão dotados de</p><p>uma natureza universal e imutável, que nos faz procurar o prazer ou a felicidade,</p><p>e exatamente nestes bens fazem consistir o bom. O formalismo Kantiano apela</p><p>para um homem ideal, abstrato e situado fora da história, cuja boa vontade</p><p>absoluta e incondicionada seria o único verdadeiro bom. Os utilitaristas põem o</p><p>bom em relação com o interesse dos homens e, ao mesmo tempo, procuram</p><p>encontrá-lo em certa relação entre o particular e o geral.</p><p>A relação entre o indivíduo e a comunidade varia com o tempo e com as</p><p>diferentes sociedades. Na sociedade moderna o bom só pode ocorrer realmente</p><p>na superação da cisão entre o indivíduo e a comunidade, ou na harmonização</p><p>dos interesses pessoais com os verdadeiramente comuns ou universais.</p><p>A realização do bom na superação do círculo estreito dos interesses</p><p>exclusivamente pessoais, no significado social da atividade do indivíduo, do</p><p>trabalho ou do estudo e na transformação das condições sociais, acarreta uma</p><p>peculiar relação determinada pela estrutura social. O egoísmo e suas opostas</p><p>manifestações – solidariedade, cooperação e ajuda mútua – são encorajadas ou</p><p>obstaculizadas de acordo com as condições concretas nas quais vivem os</p><p>homens. Por isso, o problema do bom como conjunção dos interesses pessoais e</p><p>dos interesses coletivos é inseparável do problema das bases e das condições</p><p>sociais que tornam possível a sua realização.</p><p>27</p><p>CAPÍTULO VIII - A OB RIGATORIEDADE MORAL</p><p>O comportamento moral é um comportamento obrigatório e devido. A</p><p>obrigatoriedade moral impõe deveres ao sujeito. Toda norma funda um dever.</p><p>1. Necessidade, Coação e Obrigatoriedade Moral</p><p>A obrigatoriedade moral não pode ser confundida com a simples necessidade</p><p>causal e tampouco com a coação externa ou interna. Estas formas de</p><p>“obrigação” tornam impossível a verdadeira obrigação moral.</p><p>2. Obrigação Moral e Liberdade</p><p>A obrigação moral supõe necessariamente uma liberdade de escolha, bem como</p><p>na determinação do comportamento, orientando-o numa certa direção. A</p><p>obrigação moral deve ser assumida livre e internamente pelo sujeito e não</p><p>imposta de fora.</p><p>3. Caráter Social da Obrigação Moral</p><p>O fator social é essencial na obrigação moral, mas não é algo estritamente</p><p>individual, mas também social.</p><p>4. A Consciência Moral</p><p>A consciência moral acarreta uma compreensão dos nossos atos, mas sob o</p><p>ângulo específico da moral. Além disso, o conceito de consciência está</p><p>estreitamente relacionado com o de obrigatoriedade, posto que implica em</p><p>avaliar e julgar nosso comportamento de acordo com certas normas conhecidas e</p><p>reconhecidas como obrigatórias. A consciência moral dos indivíduos, por ser um</p><p>produto histórico-social, está sujeita a um processo de desenvolvimento e de</p><p>mudança.</p><p>28</p><p>5. Teorias da Obrigação Moral</p><p>As teorias da obrigação moral nos respondem à questão de como devemos agir,</p><p>ou que tipo de atos somos moralmente obrigados a realizar.</p><p>As duas teorias predominantes são: (i) a denominada deontológica (de déon:</p><p>dever) – quando a obrigatoriedade de uma ação não depende das conseqüências</p><p>da própria ação ou da norma com a qual se conforma; e (ii) a chamada</p><p>teleológica (de telos: fim), quando a obrigatoriedade de uma ação deriva</p><p>unicamente de suas conseqüências.</p><p>Teorias da A) Deontológicas a) do ato</p><p>obrigação moral b) da norma</p><p>B) Teleológicas a) egoísmo ético</p><p>b) utilitarismo 1) do ato</p><p>2) da norma</p><p>6. Teorias Deontológicas do Ato</p><p>Há consenso entre as teorias deontológicas no sentido de que não se pode apelar</p><p>para uma norma geral a fim de decidir o que devemos fazer em cada situação</p><p>específica.</p><p>7. Teorias Deontológicas da Norma (A Teoria Kantiana da Obrigação</p><p>Moral)</p><p>Em cada caso particular, o dever deve ser determinado por normas válidas</p><p>independentemente das conseqüências de sua aplicação.</p><p>Pode-se dizer que os indivíduos agem realmente por dever e não obedecendo a</p><p>uma inclinação ou interesse por temor ou castigo, quando agem como seres</p><p>racionais. A exigência da razão assume a forma de um mandamento, ou um</p><p>29</p><p>imperativo, que Kant divide em categóricos e hipotéticos. Os categóricos rejeita</p><p>atos que não podem ser universalizados, e não admite exceção a favor de</p><p>ninguém. A teoria kantiana de obrigação moral é inoperante e inexeqüível para o</p><p>homem real.</p><p>8. Teorias Teleológicas (egoísmo e utilitarismo)</p><p>Estas teorias têm em comum o relacionar a nossa obrigação moral com as</p><p>conseqüências da nossa ação, ou seja, com o benefício que podem trazer, para</p><p>nós ou para os demais. A tese fundamental do egoísmo ético, defendida por</p><p>Thomas Hobbes e outros, é a seguinte: cada um deve agir de acordo com o seu</p><p>interesse pessoal, promovendo o que é bom ou vantajoso para si. Entretanto, as</p><p>observações empíricas fazem com que esta teoria não se sustente, posto que não</p><p>explica os atos praticados a favor do próximo em detrimento de si próprio. Ao</p><p>contrário, o utilitarismo se baseia em que devemos visar, acima de tudo, o</p><p>benefício dos outros. O utilitarismo se divide em utilitarismo do ato e da norma.</p><p>9. Utilitarismo do Ato e Utilitarismo da Norma.</p><p>Esta doutrina defende que devemos fazer aquilo que traz melhores resultados</p><p>para o maior número. Para aplicar esta tese aos casos concretos, em certo ponto</p><p>terá de ser feita a opção entre: fazer o maior bem para menor número de pessoas,</p><p>ou menor bem para um maior número de pessoas. Entretanto, há muitas</p><p>objeções de várias naturezas ao utilitarismo da norma, que o obrigam a passar do</p><p>geral ao particular e deste àquele numa espécie de círculo vicioso. O utilitarismo</p><p>da norma acaba coincidindo com a teoria deontológica – kantiana – da obrigação</p><p>moral.</p><p>30</p><p>10. Conclusões relativas à Obrigatoriedade Moral</p><p>1º) O defeito comum das teorias da obrigação moral consiste em partirem elas</p><p>de uma concepção abstrata do homem, fazendo com que a concepção da</p><p>obrigatoriedade moral também seja abstrata, alheia à sociedade e à história.</p><p>2º) A obrigação moral deve ser concebida como própria de um homem concreto</p><p>que, na sua prática moral real, vai modificando o conteúdo de suas obrigações</p><p>morais de acordo com as mudanças que se verificam no modo como a moral</p><p>cumpre a sua específica função social.</p><p>3º) A obrigatoriedade moral exige, em maior ou menor grau, uma adesão íntima,</p><p>voluntária e livre dos indivíduos às normas que regulam as suas relações numa</p><p>determinada comunidade. Por isto, o conceito de obrigatoriedade moral só tem</p><p>sentido no contexto da vida social, no seio de uma comunidade.</p><p>4º) O sistema de normas, e com isto, o conteúdo da obrigação moral muda,</p><p>historicamente, de uma sociedade para outra e, inclusive, no seio de uma mesma</p><p>comunidade. O permitido hoje foi proibido ontem. O que atualmente se proíbe,</p><p>talvez seja permitido amanhã. Contudo, seja qual for a época ou a sociedade de</p><p>que se trate, os homens sempre admitiram uma obrigatoriedade moral. Sempre</p><p>existiu um sistema de normas que define os limites do obrigatório e do não</p><p>obrigatório.</p><p>5º) Não é somente o conteúdo da obrigação moral que se modifica histórica e</p><p>socialmente – e, com ele, as normas que prescrevem determinada forma de</p><p>comportamento –, mas se modifica também o modo de interiorizar ou de</p><p>assumir as normas em forma de deveres.</p><p>6º) Nenhuma teoria – e ainda menos aquela que não conceba a obrigatoriedade</p><p>moral em função de necessidades sociais – pode indicar o que o homem deve</p><p>fazer em todos os tempos e em todas as sociedades. E, quando uma teoria faz</p><p>semelhante tentativa, fica-se diante do formalismo ou universalismo abstrato, no</p><p>qual caem não somente as doutrinas deontológicas (kantiana) mas também as</p><p>teleológicas (como a do utilitarismo da norma).</p><p>31</p><p>CAPÍTULO IX - A REALIZAÇÃO DA MORAL</p><p>Por realização da moral, há que se entender a encarnação dos princípios, valores</p><p>e normas de comportamento de uma dada sociedade, no âmbito coletivo e não só</p><p>no individual, ou seja, como processo social.</p><p>1. Os Princípios Morais Básicos</p><p>Em cada época a realização da moral é inseparável de alguns princípios básicos</p><p>– ou regras básicas de comportamento – cuja elaboração se dá na atividade</p><p>prática social e que regem efetivamente o comportamento das pessoas.</p><p>Tais princípios têm duas características: de um lado, respondem a uma</p><p>determinada necessidade social, e do outro, por serem propriamente</p><p>fundamentais, servem de fundamento para as normas que regulamentam o</p><p>comportamento em certo sentido em uma sociedade.</p><p>Embora o aspecto pragmático seja primordial nos referidos princípios morais,</p><p>estes também podem ser objeto de uma elaboração teórica, cuja finalidade é</p><p>fundamentar sua validade.</p><p>Em tempos de crise social, certos princípios morais básicos também podem</p><p>entrar em crise, que é solucionada quando tais princípios são substituídos por</p><p>outros mais adequados às novas exigências sociais. Entretanto, enquanto tal</p><p>substituição não ocorre, pode reinar durante algum tempo uma situação de</p><p>confusão e incerteza como se pode observar em nossa sociedade atualmente.</p><p>Como a realização da moral é a concretização de certos princípios, estes</p><p>guardam relação com as condições sociais às quais se referem, e mudam de</p><p>tempos a tempos para atender às aspirações e interesses que os inspiram.</p><p>32</p><p>2. A Moralização do Indivíduo</p><p>O ato moral implica consciência e liberdade. O verdadeiro agente moral é o</p><p>indivíduo, mas enquanto ser social, e não considerado na sua individualidade.</p><p>A realização da moral é uma tarefa individual, mas, dada a natureza social do</p><p>indivíduo, não é um assunto meramente individual. O conjunto de formas</p><p>características de comportamento peculiares de cada indivíduo, que formam uma</p><p>unidade indissolúvel, constituem o caráter de uma pessoa; o caráter é algo</p><p>adquirido, modificável e dinâmico. O indivíduo pode adquirir uma série de</p><p>qualidade morais sob o influxo da educação e da própria vida social – e tais</p><p>qualidades morais, quando realizadas numa situação concreta, são designadas</p><p>virtudes.</p><p>3. As Virtudes Morais</p><p>A virtude supõe uma disposição estável ou uniforme de comportar-se</p><p>moralmente de maneira positiva; isto é, de querer o bem. O seu oposto é o vício,</p><p>enquanto disposição também uniforme de querer o mal. Vale lembrar o</p><p>ensinamento de Aristóteles, segundo o qual “a virtude é um hábito”.</p><p>4. A Realização Moral como Empreendimento Coletivo</p><p>Há três tipos de fatores sociais que contribuem de forma diversa para a</p><p>realização da moral:</p><p>a) Relações econômicas, ou vida econômica da sociedade.</p><p>b) Estrutura ou organização social e política da sociedade.</p><p>c) Estrutura ideológica, ou vida espiritual da sociedade.</p><p>5. A Vida Econômica e a Realização da Moral.</p><p>A Vida Econômica da sociedade compreende a produção material de bens</p><p>destinados a satisfazerem as necessidades humanas: alimentar-se, vestir-se,</p><p>morar, etc. Compreendem-se também como as relações sociais que os homens</p><p>33</p><p>contraem nas relações de produção, por exemplo, na medida em que o</p><p>trabalhador é uma força produtiva e na medida em que a produção satisfaz suas</p><p>necessidades vitais.</p><p>Dentro das forças produtivas surgem problemas morais que não podem ser</p><p>descuidados. Como o homem é afetado pelo seu trabalho? Eleva-o como ser</p><p>humano ou o degrada? De que forma o uso dos meios ou instrumentos de</p><p>produção afetam o trabalhador em sua verdadeira natureza? Os problemas</p><p>morais da vida econômica surgem quando o homem é tratado como uma peça de</p><p>um sistema econômico, o “homem econômico”; tal fato é conflitante, já que não</p><p>se pode desprezar o ser humano concreto.</p><p>Significação Moral do trabalho humano – o trabalho como expressão exclusiva</p><p>da atitude humana tem em si um sentido moral, dado o fato de que o homem</p><p>deve trabalhar para ser verdadeiramente homem. Quem trabalha possui uma</p><p>humanidade que não lhe pertence, pois não contribui para conquistar e</p><p>enriquecer. Este é um caso onde o valor mudou com o passar do tempo: na</p><p>Grécia Antiga, o valioso era o ócio físico, e o trabalho era tido como de menor</p><p>categoria; exaltavam-se o estudo e a pesquisa.</p><p>Na Modernidade há o problema do trabalho alienado, pois o operário não vê no</p><p>seu trabalho uma atividade realmente sua mas sim um empobrecimento material</p><p>e espiritual. Neste caso o trabalho perde o seu conteúdo vital e criador,</p><p>propriamente humano, e com isso se atenua também a significação moral.</p><p>Moral e Consumo – observa-se ainda a alienação do consumidor, o “homem</p><p>econômico” não é somente produtor, mas também o consumidor, que,</p><p>pressionado pela propaganda, cria em si necessidades que não são propriamente</p><p>suas e adquire produtos que realmente não lhe são queridos. Assim como no</p><p>34</p><p>trabalho alienado o homem real não pertence a si mesmo, mas àqueles que o</p><p>manipulam ou o persuadem de modo sutil, podemos apontar duas graves</p><p>conseqüências: primeiramente, o homem como consumidor é rebaixado à</p><p>condição de coisa ou objeto manipulável; em segundo lugar, impedido de suas</p><p>escolhas livre e conscientemente, minam-se as bases do ato moral, restringindo-</p><p>lhe seu domínio moral.</p><p>Avaliação Moral da Vida Econômica – numa sociedade na qual o trabalho é</p><p>antes de tudo um meio para subsistir e não uma necessidade humana vital, na</p><p>qual domina o culto ao dinheiro e na qual um sujeito é avaliado pelo que possui</p><p>privadamente, tendo portanto a economia a sua moral apropriada.</p><p>6. A Estrutura Social e Política e a Vida Moral</p><p>A Família – chamada célula social, é nela em que se inicia o processo de</p><p>educação e formação da personalidade, e por isso tem grande importância do</p><p>ponto de vista moral. A família conservará um elevado valor moral para si e</p><p>para a sociedade se for uma comunidade livre, não egoísta, amorosa e racional.</p><p>As Classes Sociais – os indivíduos têm interesses e aspirações comuns como</p><p>membros de uma mesma classe social, e isso se dá de forma independente da</p><p>consciência do indivíduo. O fato de uma classe social se relacionar com uma</p><p>moral determinada não descaracteriza o comportamento individual livre,</p><p>consciente e responsável. Porém, mesmo com as escolhas próprias e livres, o</p><p>meio social no qual um indivíduo vive tem grande influência, já que cria</p><p>obstáculos ou favorece a realização da moral numa determinada sociedade.</p><p>O Estado – como instituição social, exerce poder efetivo sobre os membros da</p><p>sociedade. Nenhum Estado renuncia a vestir com um manto moral a sua ordem</p><p>35</p><p>jurídica, política e social, não excluindo a possibilidade de o próprio Estado</p><p>entrar em contradição com a moral devido às suas finalidades políticas.</p><p>Conclui-se, portanto, que seja favorecendo uma moral que lhe garante um apoio</p><p>mais profundo e sincero do que o meramente externo ou formal, seja</p><p>fomentando a privatização da mesma, o Estado sempre influencia, em um</p><p>sentido ou em outro, a realização da moral.</p><p>7. A Vida Espiritual da Sociedade e a realização da Moral</p><p>Nem só a produção material e as relações aqui implicadas esgotam a realização</p><p>da Moral. Em toda comunidade existem idéias dominantes de diversas ordens e</p><p>uma série de instituições que as difundem e realizam. São idéias políticas,</p><p>estéticas, jurídicas, instituições culturais e educativas, meios de comunicação de</p><p>massa. Mas, embora o indivíduo viva nesta atmosfera moral apresentada, legada</p><p>pela tradição e costumes, não significa que esteja privado por completo da</p><p>capacidade de decidir por si só. Atualmente tal fato tem crescido de maneira</p><p>acentuada, visto que a mídia massifica padrões de moral não visando o</p><p>desenvolvimento humano, e sim o lucro.</p><p>CAPÍTULO X - FORMA E JUSTIF ICAÇÃO DOS JUÍZOS MORAIS</p><p>1. A Forma Lógica dos Juízos Morais</p><p>A conformidade do comportamento com normas e regras, se expressam sob a</p><p>forma de juízos e estes podem assumir formas lógicas denominadas:</p><p>a) Enunciativas : “ x é y”;</p><p>b) Preferenciais : “ x é preferencial a y “; e</p><p>c) Imperativas : “ Deves fazer x”</p><p>36</p><p>2. Formas Enunciativas, Preferenciais e Imperativas</p><p>a) formas enunciativas</p><p>Pode ser um juízo factual, por exemplo: “Pedro é alto” ou um juízo de valor,</p><p>p.ex.: “Pedro é justo”, pois ser justo não é uma qualidade natural, como sua</p><p>altura, mas decorre da relação com uma necessidade ou finalidade.</p><p>b) formas preferenciais</p><p>É uma forma particular do juízo de valor, sob a forma de comparação, pela qual</p><p>se estabelece a valoração de x em relação a y, podendo se tratar de juízo de</p><p>conteúdo moral, p.e.: “É preferível enganar um doente a dizer-lhe a verdade” e</p><p>não moral, p.e.: “Este trabalho é preferível àquele outro”.</p><p>A preferibilidade evidencia o “ser mais valioso” de x em relação a y, sendo,</p><p>portanto, inseparável do valor, pois não são considerados entre si, mas em</p><p>relação a certa necessidade ou finalidade humana, considerando determinadas</p><p>condições ou circunstâncias concretas.</p><p>c) formas imperativas</p><p>Inicialmente cabe observar que para a forma imperativa ou normativa, diferente</p><p>das anteriores, que podem se referir a atos já realizados ou objetos existentes ou</p><p>a atos que se realizam ou objetos inexistentes, há uma exigência de realização:</p><p>algo que não é ou não existe deve ser realizado. Assim, o juízo assume a forma</p><p>de um mandamento ou exortação a que se</p><p>que se verifica a</p><p>necessidade x ou o interesse y, justifica-se a norma que exige o comportamento</p><p>adequado”.</p><p>41</p><p>II) A Justificação Prática: Toda norma implica numa exigência de realização,</p><p>sendo, portanto, o guia de uma ação. A norma moral, por sua vez, exige certas</p><p>condições reais para o seu cumprimento, e só pode ser justificada se se verificam</p><p>as condições reais para que a sua aplicação não se oponha às necessidades da</p><p>comunidade. Logo, “numa determinada comunidade na qual se verificam as</p><p>condições necessárias, justifica-se a norma que corresponde a tais condições.”</p><p>III) A Justificação Lógica: As normas não existem isoladas, mas formam parte</p><p>de um conjunto articulado ou sistema, que constituem o que se chama de</p><p>“código moral” da comunidade, que deve apresentar coerência interna e,</p><p>portanto, sem contraditoriedade. Logo, “uma norma se justifica logicamente se</p><p>demonstra a sua coerência e não-contraditoriedade com respeito às demais</p><p>normas do código moral do qual faz parte”.</p><p>IV) A Justificação Científica: Uma norma se justifica cientificamente quanto se</p><p>adapta aos conhecimentos científicos estabelecidos, ou pelo menos não entrem</p><p>em contradição com aqueles já comprovados.</p><p>Logo, “dado o nível de conhecimento alcançado pela sociedade, uma norma</p><p>moral se justifica cientificamente somente se baseada nesses conhecimentos ou</p><p>compatíveis com os mesmos”.</p><p>V) A Justificação Dialética: A história moral tem um sentido ascensional,</p><p>portanto, uma norma ou código moral se justificam pelo lugar que ocupam</p><p>dentro deste movimento progressivo. Na medida em que uma norma se</p><p>apresenta como um degrau ou uma fase do progresso de universalização da</p><p>moral, e não como algo estático e imutável, é possível falar de uma justificação</p><p>dialética. Logo, “uma norma moral se justifica dialeticamente quando contém</p><p>42</p><p>aspectos ou elementos que, no processo ascensional moral, se integram em um</p><p>novo nível numa moral superior”.</p><p>9. A Superação do Relativismo Ético</p><p>O relativismo ético parte do princípio de que diferentes comunidades julgam de</p><p>maneira diferente o mesmo tipo de atos, proclamando, portanto, que os juízos</p><p>morais, relativos a diferentes grupos sociais, justificam-se pelo contexto social.</p><p>Além disto, considera-os corretos, mesmo que diferentes ou opostos, porque</p><p>correspondem a necessidades e interesses de suas respectivas comunidades.</p><p>Assim, cada juízo moral ficaria justificado por esta referência e, portanto, todos</p><p>seriam igualmente válidos. É possível superar esta idéia?</p><p>Existe um progresso rumo a uma moral universal e humanista, a partir das</p><p>morais primitiva, passando pelas morais de classe, com suas limitações. Fala-se</p><p>de elevação a níveis morais mais altos na medida em que se afirmam os aspectos</p><p>morais: domínio de si mesmo, decisão livre e consciente, responsabilidade</p><p>pessoal, harmonização do indivíduo e do coletivo, etc.</p><p>Estes aspectos do comportamento moral define o lugar ocupado por uma norma</p><p>dentro do processo histórico-moral, e permite compreender se sua validade</p><p>caducou ou se conserva no processo. Permite, ainda, justificar dialeticamente a</p><p>validade de uma norma diante de outra que postulem atos humanos</p><p>diametralmente opostos. Tal justificação dialética nos impede de situar normas</p><p>diversas, relativas a diferentes comunidades ou a diversas épocas, no mesmo</p><p>plano, considerando-as igualmente válidas.</p><p>Conclui-se que a relatividade da moral não acarreta necessariamente um</p><p>relativismo, dado que nem todas as morais se encontram no mesmo plano,</p><p>porque nem todas têm a mesma validade.</p><p>43</p><p>CAPÍTULO XI - DOUTRINAS ÉTICAS FUNDAMENTAIS</p><p>1. Ética e História</p><p>As doutrinas éticas fundamentais nascem e se desenvolvem em diferentes</p><p>épocas e sociedades com respostas aos problemas básicos apresentados pelas</p><p>relações entre os homens, e particularmente pelo seu comportamento moral</p><p>efetivo. Por isso, as doutrinas éticas devem ser consideradas dentro de um</p><p>processo histórico de mudança e sucessão. Quando muda radicalmente a vida</p><p>social, muda também a vida moral – e os princípios, valores ou normas acabam</p><p>sendo substituídos por outros.</p><p>2. Ética Grega</p><p>A ética, analisada quer sob um aspecto descritivo-científico quer sob um aspecto</p><p>prescritivo-normativo, não pode ser desvinculada do contexto social em que é</p><p>pensada e praticada. Destarte, a cada momento histórico corresponde uma</p><p>corrente filosófica que traz em si uma concepção peculiar do que seja a ética e a</p><p>moral. Não só isso, lembra Vázquez, mas as doutrinas, para além da</p><p>correspondência que possuem com seu contexto histórico, político e econômico,</p><p>correlacionam-se entre si, negando-se e confirmando-se umas às outras.</p><p>Os primeiros estudos sistematizados da ética e da moral no Ocidente datam da</p><p>antiga civilização grega. Uma particularidade comum às diversas correntes que</p><p>ali tiveram o seu nascimento é certamente o viés político dado aos conceitos de</p><p>ética e moral. De fato, o surgimento e o apogeu das chamadas cidades-estados</p><p>influenciaram sobremaneira o pensamento dos principais pensadores da época.</p><p>Os sofistas, corrente filosófica anterior a grande reviravolta realizada pelo</p><p>pensamento socrático, deram o primeiro passo dos gregos naquela direção do</p><p>44</p><p>pensamento ocidental que teve seu nascimento oficial com Sócrates, qual seja, a</p><p>de um abandono de uma abordagem naturalista do conhecimento e a busca de</p><p>um conhecimento que tem no homem a sua origem.</p><p>Assim, os sofistas trocaram a preocupação de se tentar entender o mundo, o</p><p>universo e seu funcionamento e passaram a concentrar esforços na compreensão</p><p>e no estudo do homem. Tratava-se, contudo, da busca de um saber prático, que</p><p>pudesse ser utilizado na prática. Chegaram, neste sentido, a desenvolver a arte</p><p>da retórica, ferramenta discursiva à disposição dos homens que participavam do</p><p>campo político.</p><p>Sócrates retomará a abordagem antropológica (centrada no homem) dos sofistas</p><p>e desenvolvera sua própria corrente. No campo da ética e da moral, as idéias</p><p>básicas de seu pensamento são as de que a felicidade constitui o fim último do</p><p>homem, esta somente é alcançada através da prática do bem e, finalmente,</p><p>somente o homem que ignora o bem pratica o mal.</p><p>Já Platão, discípulo de Aristóteles, introduz um viés político claro em suas</p><p>concepções de ética e moral. Seu pensamento caracteriza-se por uma concepção</p><p>dualística do mundo, que estaria dividido no mundo perfeito das idéias e no</p><p>mundo imperfeito das sensações, e tripartida da alma, que seria composta pela</p><p>razão, vontade e apetite. Segundo Platão, o aperfeiçoamento da alma estaria em</p><p>certas virtudes cuja prática teriam relação com o desenvolvimento de cada uma</p><p>destas partes da alma.</p><p>Neste sentido, a prudência desenvolveria a razão, a fortaleza desenvolveria a</p><p>vontade e, finalmente, a temperança desenvolveria o apetite.</p><p>Aristóteles, discípulo de Platão, desenvolveu a teoria do ato e da potência. Todo</p><p>ser é ato de si mas potência de algo vindouro. Destarte, uma semente é ato de si,</p><p>mas é potência de uma futura árvore. O homem, nesta concepção, é ato de si</p><p>mas potência de algo superior, algo que é o fim último de sua existência. Para</p><p>45</p><p>Aristóteles, este fim seria um estado de plena felicidade, alcançável somente</p><p>através da meditação teórica e da prática de virtudes. É importante ressaltar que</p><p>o filósofo de Estagira concebia as virtudes como sendo o meio-termo de</p><p>extremos absolutos. Assim, por exemplo, a virtude justiça é o meio termo entre</p><p>o egoísmo e o esquecimento.</p><p>Tanto Platão quanto Aristóteles postulavam que a vida moral só poderia ganhar</p><p>efetividade no espaço e no cotidiano das cidades-estados, daí, portanto, o forte</p><p>viés político de suas teorias éticas.</p><p>3. Ética Cristã Medieval</p><p>Após uma longa luta, o cristianismo transforma-se na religião oficial de Roma</p><p>(séc. IV), impondo seu domínio durante dez séculos.</p><p>Com a</p>as condições para esta filosofia antiespeculativa e 
atenta às questões práticas, ao pragmatismo, que por sua vez consiste em uma 
variante utilitarista marcada pelo egoísmo, e como mais uma versão do 
subjetivismo e do irracionalismo. 
 
III. Psicanálise e Ética. Fundada por Freud, as teses da psicanálise foram 
submetidas a um processo de revisão pelos seus outros ramos, seguidos por 
Adler, Jung, Sullivan e Fromm. A psicanálise clássica, de Freud, tem uma 
concepção naturalista do homem, e Fromm vem completá-la integrando-lhe os 
fatores sociais. A base da psicanálise é o inconsciente do homem, onde se 
armazenam recordações, desejos ou impulsos reprimidos, que lutam coma a 
consciência para escapar de sua repressão. Para Freud, a energia que se 
manifesta no inconsciente é de natureza sexual e se chama libido, que quando 
reprimida acarreta perturbações psíquicas. Freud ainda distingue três zonas da 
personalidade: o id, o ego e o superego. A contribuição de Freud à ética se dá no 
seguinte sentido: se o ato moral é o praticado de forma consciente e livre, os atos 
praticados por uma motivação inconsciente estão excluídos do campo moral. 
Entretanto, a versão de Fromm da psicanálise, por considerar seu aspecto social, 
oferece maiores contribuições à ética do que a psicanálise clássica de Freud. 
 
IV.O Marxismo 
O marxismo critica as morais do passado e evidencia as bases teóricas e práticas 
de uma nova moral. Marx tenta mostrar que o homem é práxis; é um ser 
produtor, transformador, criador. Além disso, o homem é um ser social, e 
também um ser histórico. Chega ele à tese entre o desenvolvimento das forças 
produtivas e das relações de produção. Ao mudar a base econômica, muda 
também a moral. 
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Marx acredita no caráter histórico-social da moral. Aprofunda-se ele na nova 
moral, com que ele está entusiasmado, indo em busca dos aspectos das classes 
sociais e suas implicações, e das forças de produção; concluindo, Marx acredita 
que o homem tem o dever de interferir na transformação da sociedade, pois há a 
possibilidade de se voltar à barbárie e de o homem não consiga subsistir. 
 
V. Neopositivismo e Filosofia Analítica 
Aqui estão as correntes éticas contemporâneas que acabam por concentrar sua 
atenção na análise da linguagem moral, começando com G.E. Moore. Moore 
afirma que o bom é indefinível, e existe como propriedade não natural, e conclui 
que ele só pode ser captado por meio da intuição. Seus seguidores – os 
intuicionistas – contribuem para endossar suas teses. O próximo passo depois do 
intuicionismo foi o dado pelos positivistas lógicos. Em seguida se abre espaço 
para o emotivismo ético, cuja conclusão é de que os termos éticos têm somente 
um significado emotivo, e as proposições morais carecem de valor científico. 
Embora sejam inegáveis as contribuições dadas pelos filósofos analíticos na 
investigação da linguagem moral, não se pode esquecer de que a linguagem 
moral é o meio pelo qual as relações efetivas se manifestam no mundo real. Não 
se pode reduzir a tarefa da ética à análise da linguagem moral, sob pena de 
abstrair dela o seu aspecto ideal de seus juízos e termos morais, sendo a 
investigação analítica insuficiente. Entretanto, todas estas contribuições parecem 
fazer parte da incessante dinâmica histórico-social da moral. 
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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 
 
SÁNCHEZ VÁZQUEZ, Adolfo. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 
2002.

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