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<p>GEOLOGIA E PEDOLOGIA</p><p>AULA 4</p><p>Profª Maria Carolina Stellfeld</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>A geologia do Brasil pode ser analisada de diferentes maneiras. Aqui</p><p>daremos ênfase às províncias estruturais e suas subdivisões que dão origem à</p><p>classificação geográfica dos grandes domínios morfoestruturais que a</p><p>geomorfologia estuda. Nesta aula, veremos onde o território brasileiro se encaixa</p><p>na placa tectônica sul-americana e sua configuração atual. Conheceremos</p><p>grandes estruturas geológicas como os crátons, as bacias sedimentares e as</p><p>faixas de dobramentos. Por fim, veremos a relevância da geologia na vida em</p><p>sociedade, desde a importância econômica da indústria primária até sua relação</p><p>com a ocupação humana no globo.</p><p>TEMA 1 – GEOLOGIA DA AMÉRICA DO SUL E PROVÍNCIAS ESTRUTURAIS</p><p>Em termos globais, o território brasileiro está na placa tectônica sul-</p><p>americana, em sua porção continental. Essa grande placa tem nos seus limites</p><p>principais a placa africana a oeste, separada pela cadeia meso-oceânica; a leste</p><p>está a Cordilheira dos Andes, que é produto da subducção da placa de nazca,</p><p>onde está o Oceano Pacífico.</p><p>Note que a placa sul-americana possui porções de crosta continental e</p><p>crosta oceânica, e isso pode acontecer com placas tectônicas. Nesse caso,</p><p>como mostra a Figura 1, toda a porção que está sob o Oceano Atlântico é crosta</p><p>oceânica, e as porções emersas fazem parte da porção de crosta continental.</p><p>3</p><p>Figura 1 − Situação da placa tectônica sul-americana, porção continental e</p><p>oceânica</p><p>Crédito: João Miguel A. Moreira.</p><p>O território brasileiro está numa posição conhecida como intraplaca,</p><p>distante das bordas das placas tectônicas, e essa posição nem sempre está</p><p>sujeita à dinâmica interna do planeta. É por isso que não são comuns no país</p><p>eventos como terremotos ou vulcanismo, visto que esses fenômenos estão</p><p>relacionados normalmente ao encontro de placas − convergentes, divergentes</p><p>ou conservativas. Em contrapartida, Chile, Argentina, Bolívia, Peru, Equador e</p><p>Colômbia estão sobre o orógeno da Cordilheira dos Andes e todos possuem</p><p>vulcões e consequentemente terremotos, pois, como já sabemos, lugares de</p><p>cordilheiras recentes são áreas muito ativas em relação à dinâmica interna do</p><p>planeta. Já países como as Guianas, Suriname, Paraguai e Uruguai, assim como</p><p>o Brasil, se situam em zonas tranquilas (intraplaca) da placa sul-americana.</p><p>É bom ressaltar que mesmo numa situação intraplaca, territórios estão</p><p>sujeitos a movimentações da crosta continental, e por vezes ouvem-se notícias</p><p>sobre sismos sentidos no estado do Acre ou no Nordeste. No caso do Acre,</p><p>podem ser reflexos da subsidência da placa oceânica do Pacífico sob a placa</p><p>4</p><p>sul-americana, que de tão profundo e extenso, pode ter movimentações que</p><p>chegam a refletir na superfície perto desse estado. No Nordeste, terremotos</p><p>pequenos podem acontecer em função das falhas transformantes, originadas</p><p>com a expansão do assoalho oceânico do Atlântico.</p><p>Ainda é necessário ter a noção de que hoje a placa sul-americana tem</p><p>essa configuração, porém essa constituição é resultante de colisões e</p><p>aglutinações continentais de placas tectônicas que existiram no tempo geológico</p><p>passado. Essa história geológica da formação da placa hoje é retratada no</p><p>contexto geológico do continente, com o afloramento de rochas deformadas,</p><p>metamorfisadas e também de corpos ígneos formados em profundidade, todos</p><p>hoje em superfície por conta das diversas movimentações tectônicas que esses</p><p>“pedaços” antigos de placas tiveram ao longo do tempo geológico.</p><p>Os terrenos geológicos da América do sul são distintos entre si, e há uma</p><p>clara separação entre compartimentos. A região do Brasil Central e a das</p><p>Guianas são consideradas escudos cristalinos e estão estáveis ao longo dos</p><p>últimos milhões de anos, predominando áreas planálticas nesses terrenos. A</p><p>Cordilheira dos Andes é classificada como uma faixa de dobramentos modernos,</p><p>com as maiores montanhas da América do Sul. Adjacentes a essas estruturas,</p><p>do lado leste, situam-se os chacos, os pampas, o pantanal e outras estruturas</p><p>que, atualmente, se encontram em subsidência, atuando como bacias</p><p>sedimentares recentes, recebendo sedimentos recentes provenientes das áreas</p><p>planálticas do escudo brasileiro e também da Cordilheira do Andes.</p><p>O Brasil tem um tamanho continental, portanto é esperado que haja</p><p>diferentes tipos de ambientes geológicos em seu território. As estruturas</p><p>geológicas que compõem a geologia brasileira já fizeram parte de diferentes</p><p>continentes, com tamanhos variáveis, ao longo do tempo geológico. Hoje, esses</p><p>pequenos pedaços de continentes estão agrupados por diferentes processos</p><p>geológicos e foram classificados em províncias estruturais (Almeida, 1977), que</p><p>moldam a geologia e a geomorfologia do Brasil (Figura 2).</p><p>5</p><p>Figura 2 − Províncias estruturais brasileiras</p><p>Crédito: João Miguel A. Moreira.</p><p>Essas províncias estruturais são compartimentações que têm</p><p>características de evolução semelhantes em aspectos como evolução</p><p>estratigráfica, processos tectônicos e feições metamórficas ou magmáticas. Elas</p><p>podem ser agrupadas em três grupos: escudos cristalinos, bacias paleozoicas e</p><p>faixas de dobramentos. Veremos em detalhes as características desses tipos de</p><p>terrenos no decorrer desta aula.</p><p>6</p><p>Figura 3 − Crátons, bacias sedimentares e faixas móveis proterozoicas no</p><p>território brasileiro</p><p>Crédito: João Miguel A. Moreira.</p><p>TEMA 2 – ESCUDOS CRISTALINOS</p><p>Os escudos cristalinos são áreas que estão em estabilidade tectônica</p><p>desde a idade proterozoica e se comportam como blocos rígidos, que podem ser</p><p>arqueados por processos tectônicos epirogênicos e envolvidos por faixas móveis</p><p>recentes ou antigas. Normalmente, têm estruturação complexa advinda dos</p><p>diversos ciclos tectônicos a que esses terrenos já foram submetidos,</p><p>apresentando grande espessura litosférica. São denominados cristalinos porque</p><p>sua composição normalmente é de rochas cristalinas, magmáticas ou</p><p>metamórficas, de composição majoritariamente granítica. Recebem o nome</p><p>também de complexo cristalino, embasamento ou ainda plataformas pré-</p><p>cambrianas.</p><p>As áreas de escudo cristalino têm estruturação firme e relativamente</p><p>plana, predominando em sua extensão relevos planálticos. Em função da</p><p>epirogênese, estão sujeitas a processos erosivos, tornando-se áreas-fontes de</p><p>sedimentos a serem acumulados nas porções mais baixas desses terrenos e</p><p>7</p><p>originando, por processos de acumulação, as bacias sedimentares. Dessa feita,</p><p>fica claro por que chamamos os escudos cristalinos também de embasamento,</p><p>pois é sobre essas rochas que se acumulam tais bacias. Quando um escudo é</p><p>recoberto por bacia sedimentar, normalmente chamamos de plataforma. Na</p><p>Figura 4, podemos observar a relação existente entre os escudos cristalinos e</p><p>as bacias sedimentares.</p><p>Figura 4 − Relação entre escudos cristalinos e bacias sedimentares</p><p>Fonte: Colégio Soledade, [S.d.].</p><p>Áreas cratônicas podem sofrer rifteamento, originando a separação de</p><p>blocos e consequentemente a deriva continental, abertura de oceano em um dos</p><p>braços de rifte, originando a separação de placas tectônicas, como previsto no</p><p>Ciclo de Wilson. Esse processo pode ser visto atualmente na região oeste da</p><p>África, denominada Rift Valley, rasgando o continente africano, como mostra a</p><p>Figura 5.</p><p>8</p><p>Figura 5 − Abertura continental originada no escudo cristalino africano</p><p>Crédito: João Miguel A. Moreira.</p><p>As principais características das áreas cratônicas são resumidas no</p><p>Quadro 1, a seguir.</p><p>Quadro 1 − Principais características das áreas cratônicas segundo Brito Neves</p><p>Áreas não submetidas à deformação nem a eventos termais importantes – não</p><p>afetadas pela atividade contemporânea das bordas das placas litosféricas.</p><p>Litosfera continental</p><p>meio espessa – 300 a 450 km, com material siálico na</p><p>ordem de 40 km.</p><p>Crescem de modo quelogênico – com núcleos hospedeiros circundados por</p><p>anéis de colagens de porções orogênicas proterozoicas e fanerozoicas nem</p><p>sempre ordenados.</p><p>O zoneamento tectônico de um cráton deve distinguir núcleos estáveis das</p><p>áreas marginais.</p><p>Em termos de tipos crustais continentais, a expressão global atual dos</p><p>domínios cratônicos é majoritária, com cerca de 23% em área e 47% em</p><p>volume.</p><p>Fonte: elaborado com base em Brito Neves, 1995.</p><p>9</p><p>Áreas de escudo cristalino ainda são importantes do ponto de vista</p><p>econômico, pois abrigam associações mineralógicas que formam depósitos</p><p>minerais, principalmente de ouro e ferro de idade arqueana. Em associação às</p><p>áreas cratônicas afloram rochas que recebem a denominação de greenstone</p><p>belts, que também são ricas em minerais metálicos, principalmente o ouro. Essa</p><p>associação de rochas ocorre em todo o globo que são representantes dos</p><p>primeiros continentes, portanto estão entre as rochas mais antigas do planeta e</p><p>do país.</p><p>No Brasil, os escudos cristalinos compõem aproximadamente 35% do</p><p>território, e os mais importantes representantes dessas estruturas são o Escudo</p><p>das Guianas, do Brasil Central e do Atlântico.</p><p>Os escudos das Guianas e parte do Escudo Central Brasileiro podem ser</p><p>inseridos no cráton Amazonas, cujas províncias estruturais são mostradas na</p><p>Figura 6. Essas províncias atualmente são cobertas pela Bacia do Amazonas,</p><p>cujos sedimentos foram depositados no período fanerozoico. Nesse</p><p>compartimento, chama a atenção a Província Carajás, de idade arqueana e que</p><p>é explorada pela Companhia Vale desde 1968. É a maior província mineral do</p><p>país, com mineralizações de ferro, cobre, ouro, manganês e alumínio.</p><p>Figura 6 − Compartimentação do cráton Amazonas em províncias estruturais</p><p>Crédito: João Miguel A. Moreira.</p><p>10</p><p>No Escudo Atlântico destacam-se as províncias São Francisco e</p><p>Borborema, nas quais estão situadas as rochas mais antigas da América do Sul.</p><p>Os litotipos são representados por complexos granito-gnaissico que formam</p><p>núcleos envolvidos por outras rochas cristalinas semelhantes como ortognaisses</p><p>e tonalítico-trondhjemítico-granodioríticos (TTG), mostrando a evolução por</p><p>eventos de acreção. Além disso, coexistem os greenstone belts, de idade</p><p>mesoarqueana, como os de Brumado, Guajeru, Ibitira e outros.</p><p>TEMA 3 – BACIAS SEDIMENTARES</p><p>As bacias sedimentares são as grandes estruturas regionais que recebem</p><p>sedimentos de áreas-fontes, durante milhões de anos, formando rochas</p><p>sedimentares nessas depressões. Sempre é bom lembrar que aqui falaremos</p><p>das bacias sedimentares mais recentes, sobretudo as formadas na Era</p><p>Paleozoica, mas bacias sedimentares ocorrem na crosta desde o início da</p><p>história geológica da Terra. Exemplo disso são estruturas como os greenstones</p><p>belts arqueanos, que foram bacias sedimentares em sua origem. Além disso,</p><p>nem sempre têm formato de bacia ou de prato, e suas formas variam de acordo</p><p>com seu posicionamento em relação à placa tectônica.</p><p>As bacias sedimentares e suas rochas estão dispostas em camadas</p><p>paralelas – estratos originados pela deposição dos sedimentos. Essas bacias</p><p>podem ter períodos de deposição e intervalos entre essas deposições, dando</p><p>origem a discordâncias erosivas, e normalmente estão associadas a uma</p><p>tectônica suave, com soerguimento de alguns arcos, e o metamorfismo, quando</p><p>presente, é de contato ou muito baixo grau. Exceções são bacias muito próximas</p><p>a arcos magmáticos, que podem sofrer interferências do próprio arco. A</p><p>estratigrafia relativa, por meio de fósseis, ajuda na compreensão dos processos</p><p>sedimentares envolvidos na formação de bacias.</p><p>Os critérios de classificação de bacias sedimentares se baseiam no</p><p>ambiente tectônico em que foram formadas. Nesse sentido, Martins Neto (2006)</p><p>propôs uma revisão da classificação, mostrada no Quadro 2.</p><p>11</p><p>Quadro 2 − Classificação de bacias sedimentares</p><p>Fonte: Martins Neto, 2006, p. 169.</p><p>Nesse quadro, é possível perceber que as bacias sedimentares são</p><p>divididas em dois tipos principais: aquelas formadas no interior da placa</p><p>tectônica; e as formadas próximas das bordas das placas tectônicas.</p><p>As bacias ditas intraplacas – é comum o termo intracratônicas – são</p><p>formadas no interior de uma placa tectônica, quase sempre por um processo de</p><p>subsidência da crosta, tornando um ambiente propício à deposição de</p><p>sedimentos. O exemplo clássico no Brasil é a bacia sedimentar do Paraná,</p><p>formada no paleozoico. Bacias sedimentares de fundos oceânicos, como uma</p><p>porção do Oceano Atlântico, hoje também são consideradas intraplacas.</p><p>Já as bacias formadas nas bordas das placas tectônicas variam conforme</p><p>os limites entre placas. A Figura 7 mostra diferentes ambientes de formação de</p><p>bacias sedimentares em bordas de placas: as do lado esquerdo, em ambiente</p><p>distensivo, e as do lado direito, em ambiente compressivo. Tenha em mente que</p><p>todas as áreas que são mais baixas topograficamente recebem sedimentos de</p><p>diferentes fontes, originando diversos locais propícios à sedimentação, e que se</p><p>transformarão em depósitos sedimentares com características próprias do seu</p><p>registro geológico.</p><p>12</p><p>Figura 7 − Bacias sedimentares formadas em bordas de placa tectônica</p><p>Crédito: Vectormine/Shutterstock.</p><p>Bacias de ambiente distensivo são do tipo rifte – formadas no início da</p><p>abertura continental (na Figura 4, na abertura do escudo existe também a</p><p>formação de uma bacia sedimentar do tipo rifte). Bacias do tipo margem passiva</p><p>também são de ambiente distensivo, se formam quando já existe presença de</p><p>placa oceânica, e os sedimentos se acumulam na borda da crosta continental.</p><p>Exemplos clássicos desse tipo de bacia são as de Campos e outras situadas na</p><p>plataforma continental brasileira.</p><p>Bacias em ambiente compressivo são de vários tipos: podem ser</p><p>formadas antes do arco magmático – (frontais ou antearco), estando próximas</p><p>das fossas submarinas, após o arco (retroarco), formadas entre o arco</p><p>magmático e a porção continental da crosta; ou ainda sobre o arco</p><p>(intramontanhas). Esse tipo de bacia tem dimensões reduzidas em comparação</p><p>às intracratônicas e de margem passiva.</p><p>Por fim, em ambiente transpressivo existem as bacias pull-apart formadas</p><p>em áreas distensivas entre falhas transcorrentes paralelas. Um exemplo clássico</p><p>é o Mar Morto.</p><p>As bacias sedimentares brasileiras mais importantes no contexto regional</p><p>são de idade fanerozoica e correspondem à bacia sedimentar da Amazônia, a</p><p>do Paraná e a da Parnaíba.</p><p>13</p><p>As bacias sedimentares têm importância econômica em função da busca</p><p>por petróleo e gás, por isso são muito detalhadas e estudadas. O Brasil possui</p><p>nove bacias sedimentares produtoras de petróleo: Campos (RJ), a maior</p><p>produtora; Espírito Santo; Tucano; Recôncavo; Santos; Sergipe-Alagoas;</p><p>Potiguar (do oeste do Ceará até a costa do Rio Grande do Norte); Ceará; e</p><p>Solimões. Na Figura 8, é possível observar as principais bacias sedimentares</p><p>brasileiras.</p><p>Figura 8 − Principais bacias sedimentares do Brasil</p><p>Crédito: João Miguel A. Moreira.</p><p>A Bacia de Santos é a mais explorada na atualidade e se estende desde</p><p>Santa Catarina até o litoral paulista. A Figura 9, a seguir, mostra o estudo da</p><p>sequência de deposição dessa bacia. Observe que ela teve diferentes fases de</p><p>deposição em distintos períodos geológicos nos últimos cem milhões de anos,</p><p>após o início da separação das placas sul-americana e africana.</p><p>14</p><p>Figura 9 − Seção geosísmica na Bacia de Santos, mostrando as sequências</p><p>estratigráficas sinrifte e pós-rifte e diápiros de sal próximos da quebra da</p><p>plataforma continental</p><p>Crédito: João Miguel A. Moreira.</p><p>TEMA 4 – FAIXAS MÓVEIS OU DE DOBRAMENTOS PROTEROZOICOS</p><p>As faixas móveis, ou cinturões de dobramentos, são áreas geradas por</p><p>uma tectônica ativa que</p><p>forma grandes dobramentos e falhamentos regionais,</p><p>construindo cadeias de montanhas. Estão associadas aos limites de placas</p><p>convergentes, tanto entre placas continentais quanto oceânicas ou de ambas.</p><p>Na colisão de placas, os processos de diastrofismo geram a orogênese, que</p><p>simplificadamente é um processo tectônico de encurtamento, espessamento e</p><p>consequente soerguimento da litosfera. Importante frisar que são áreas de</p><p>instabilidade tectônica, sujeitas a vulcanismo e terremotos.</p><p>Atualmente, o entendimento da formação de faixas móveis se dá de</p><p>maneira policíclica, isto é, pode haver diferentes processos de orogenia no</p><p>mesmo espaço, em tempos diferentes, gerando “colagens orogênicas” e</p><p>determinando uma origem composta das faixas móveis, impossibilitando a</p><p>existência de duas faixas móveis idênticas. Além disso, nem sempre a faixa</p><p>móvel completa os estágios evolutivos teóricos.</p><p>Portanto, as faixas móveis (ou cinturões de dobramento) estão</p><p>relacionadas à colisão de placas tectônicas, gerando cadeias de montanhas –</p><p>cordilheiras, e as mais conhecidas formadas no cenozoico são as Cordilheiras</p><p>dos Himalaias e a Cordilheira dos Andes. A Figura 10 mostra o orógeno formado</p><p>15</p><p>pela colisão das placas continentais euroasiática e indiana e que tem como</p><p>resultado a Cordilheira dos Himalaias.</p><p>Figura 10 − Faixa móvel cenozoica – Cordilheira dos Himalaias; em amarelo, o</p><p>dobramento das rochas provocado pela colisão</p><p>Crédito: Google Earth.</p><p>O Quadro 3 apresenta um resumo das principais características</p><p>geológicas das faixas móveis, segundo Brito Neves (1995).</p><p>Quadro 3 − Principais características geológicas e geofísicas das faixas móveis</p><p>Fundamental Constituem zonas de encurtamento e consequente</p><p>espessamento crustal e litosférico</p><p>Expressão</p><p>orográfica</p><p>Formam cadeias de montanhas, mas podem estar expressos</p><p>em linhas estruturais rebaixadas em função da idade,</p><p>compensação isostática, colapso e evolução geomorfológica</p><p>regional</p><p>Posição</p><p>relativa</p><p>Continente: intracontinentais e extracontinentais –</p><p>periféricas;</p><p>Plataformas: marginais ou proximais, distais ou interiores;</p><p>Placas: transpressionais, acrescionárias e colisionais</p><p>16</p><p>Idades Discriminadas de forma geral entre o proterozoico e o</p><p>fanerozoico; quando no proterozoico, são incluídas nos</p><p>crátons</p><p>Movimentos</p><p>tectônicos</p><p>A ordem de grandeza vertical pode ser expressa em dezenas</p><p>de quilômetros, e os movimentos laterais, de dezenas a</p><p>centenas; movimentos longitudinais de orogenia colisional</p><p>podem chegar a milhares de quilômetros</p><p>Arranjo Podem ser um faixa, par, bi-par, sistema (conjuntos</p><p>paralelos), região de dobramentos (conjuntos em mosaico);</p><p>é comum a presença de faixas circundando crátons</p><p>(quelogênese)</p><p>Fase evolutiva Pró-orogênicas, sin-orogênicas, pós-orogênica e ainda</p><p>transicional ao estágio plataformal</p><p>Assembleias</p><p>rochosas</p><p>Desde águas rasas continentais e magmatismo discreto até</p><p>ambientes marinhos profundos, com suítes ofiolíticas; a</p><p>análise dos conjuntos é o melhor parâmetro para</p><p>classificação</p><p>Área e volume Os orógenos fanerozoicos constituem cerca de 14% em área</p><p>e 27% em volume da crosta continental</p><p>Espessura</p><p>litosférica</p><p>Acima de 33 km até 90 km</p><p>Geotermas −</p><p>Isotermas</p><p>Relativamente mais elevadas do que das áreas cratônicas,</p><p>mesmo havendo um afastamento maior entre as isotermas</p><p>em função do espessamento crustal</p><p>Magnetometria Padrão complexo e cheio de quebras, exibindo larga faixa de</p><p>amplitudes; no geral, o trend de anomalias acompanhas as</p><p>maiores estruturas</p><p>Resistência −</p><p>fragilidade</p><p>Orógenos são naturalmente áreas de deformação</p><p>extensional e de linhas de menor resistência da litosfera</p><p>continental</p><p>Gravimetria Nos arcos magmáticos instalam-se zonas de anomalias</p><p>positivas e negativas, refletindo a zona de antearco e de</p><p>fossa, respectivamente</p><p>Fonte: elaborado com base em Brito Neves, 1995.</p><p>17</p><p>No território brasileiro não temos faixas móveis recentes, somente</p><p>representantes das que correspondem à idade proterozoica. Assim, no Brasil as</p><p>faixas móveis já sofreram com a dinâmica externa do planeta e atualmente o que</p><p>aflora são áreas de relevo movimentado ou cheio de morros. É comum observar</p><p>em imagens de satélite grandes dobras no terreno (Figura 11). As rochas</p><p>aflorantes são metamórficas em sua maioria, de diferentes composições.</p><p>Figura 11 − Cinturão de dobramentos antigo, região de Cárceres – MS</p><p>Crédito: Google Earth.</p><p>Ainda, as faixas móveis possuem importância econômica, pois agregam</p><p>minerais metálicos e também rochas ornamentais como mármores e granitos,</p><p>em funções dos processos geológicos que formaram tais estruturas. Nesse</p><p>ponto, faixas móveis importantes no país são a Brasília, a Paraguai-Araguaia e</p><p>a Atlântica, situadas nas províncias Tocantins e Mantiqueira.</p><p>TEMA 5 – IMPORTÂNCIA DA GEOLOGIA DO BRASIL</p><p>A geologia é uma ciência básica para os humanos. As culturas</p><p>desenvolvidas em nosso planeta estão intimamente relacionadas com as</p><p>paisagens ao seu redor, e a paisagem física é produto da geologia local. Além</p><p>disso, somos mais de 7 bilhões de pessoas, sempre crescendo e desenvolvendo</p><p>tecnologias e precisando cada vez mais de recursos naturais para atender às</p><p>suas demandas. Como parte da indústria primária, a geologia é fundamental</p><p>nesse processo e em outros.</p><p>18</p><p>A indústria mineral brasileira é composta principalmente por pequenas e</p><p>médias empresas e responsável por mais de 54 bilhões de dólares do PIB</p><p>brasileiro. A mineração é uma atividade industrial essencial à vida moderna, mas</p><p>provoca poluição sonora, da água e do ar, além de erosão e subsidência de</p><p>terrenos. Associa-se também aos impactos sociais negativos relacionados ao</p><p>conflito do uso do solo, geração de áreas degradadas e depreciação dos imóveis</p><p>vizinhos. Quando ela é realizada em ambientes urbanos, os problemas se</p><p>relacionam a vibrações, ruídos e impactos visuais advindos da movimentação</p><p>volumosa de terra. Porém, tais problemas normalmente são herdados do</p><p>passado, quando não eram aplicados técnicas e recursos modernos que</p><p>atendem à legislação e às reivindicações das populações locais.</p><p>O modelo de desenvolvimento brasileiro teve um incremento dos núcleos</p><p>urbanos a partir da década de 1970, pressionando a exploração dos recursos</p><p>naturais, principalmente para a indústria e a construção civil. A exploração</p><p>irregular associada ao uso intenso de minerais industriais de construção diminuiu</p><p>as jazidas e criou conflitos com outros usos do solo, resultando em áreas</p><p>degradadas no entorno de grandes cidades.</p><p>A degradação do solo também é resultado da intensificação da</p><p>agricultura, além do aumento por mineração e das áreas urbanas, prejudicando</p><p>áreas de recarga de aquíferos subterrâneos, além da degradação de regiões de</p><p>patrimônio paleontológico, espeleológico e arqueológico. Ainda, o desemprego</p><p>foi causa do aumento sobre recursos minerais, principalmente com garimpos de</p><p>gemas e ouro.</p><p>Mesmo assim, é importante falar que a mineração gera riqueza, avanço</p><p>tecnológico e bem-estar social, desde que respeitadas as melhores práticas do</p><p>desenvolvimento sustentável. Desse modo, é possível conciliar a extração dos</p><p>recursos naturais não renováveis com a preservação ambiental.</p><p>Outro fator a se considerar é que a sociedade ainda não enxerga as</p><p>características do meio físico quando ocupa os territórios. Nem sempre os</p><p>profissionais responsáveis pelo planejamento do uso e ocupação do solo estão</p><p>familiarizados com as características geológicas; por isso, não consideram</p><p>informações orientadoras e preventivas, pois não contam com auxílio de</p><p>profissionais das geociências para a interpretação dos dados. Então, é</p><p>necessário estabelecer uma comunicação mais direta entre os atores sociais,</p><p>públicos e a academia a fim de que os resultados sejam amplamente</p><p>19</p><p>disponibilizados para consulta e tomada de decisão. Atualmente é</p><p>possível</p><p>perceber que os órgãos públicos estão tornando acessíveis essas informações</p><p>por meio de Sistemas de Informações Geográficas; todavia, essas iniciativas</p><p>ainda são tímidas e devem ser incentivadas.</p><p>Portanto, profissionais das geociências são fundamentais no processo de</p><p>entendimento do meio físico e indispensáveis nos trabalhos relacionados ao</p><p>meio ambiente. Isso inclui o monitoramento contínuo dos processos evolutivos</p><p>do planeta e a redução de desastres naturais, e a conservação e gerenciamento</p><p>dos recursos minerais, energéticos, hídricos e agrícolas, além de indicar onde</p><p>dispor corretamente os resíduos gerados pelo progresso. Por isso, o</p><p>desenvolvimento sustentável é palavra certa para aqueles que entendem o</p><p>planeta e querem conservá-lo.</p><p>FINALIZANDO</p><p>Vimos nesta aula onde o território brasileiro se situa em termos globais no</p><p>que se refere às placas tectônicas. Estudamos as grandes estruturas geológicas</p><p>do país, que são divididas em províncias estruturais, ou seja, regiões com</p><p>semelhanças em sua gênese geológica. Tratamos em maior detalhe dos</p><p>grandes grupos estruturais que fazem parte do Brasil e também entendemos a</p><p>importância da geologia e das geociências em relação ao desenvolvimento</p><p>sustentável dos seres humanos no planeta Terra.</p><p>20</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ALMEIDA, F. F. M. et al. Províncias estruturais brasileiras. In: SIMPÓSIO DE</p><p>GEOLOGIA DO NORDESTE, 8., Campina Grande, 1977. Atas... Campina</p><p>Grande: SBG/NE, 1977. p. 363-391.</p><p>BIZZI, L. A. et al. (Ed.). Geologia, Tectônica e Recursos Minerais do Brasil.</p><p>Brasília: CPRM, 2003.</p><p>BRITO NEVES, B. B. D. Crátons e faixas móveis. São Paulo: Instituto de</p><p>Geociências da Universidade de São Paulo, 1995.</p><p>COLÉGIO SOLEDADE. Estruturas geológicas. [S.d.]. Disponível em:</p><p><https://www.colegiosoledade.com.br/sistema/arquivos/aulas_multimidia/16-</p><p>AULA%202%20-%20ESTRUTURAS%20GEOLOGICAS%20-</p><p>%202%20ANO.pdf>. Aceso em: 2 set. 2021.</p><p>CPRM – Serviço Geológico do Brasil. SGB Educa. Disponível em:</p><p><http://sgbeduca.cprm.gov.br/>. Acesso em: 2 set. 2021.</p><p>MARTINS NETO, M. A. Classificação de bacias sedimentares: uma revisão</p><p>comentada. Revista Brasileira de Geociências, v. 36, n. 1, p. 165-176, 2006.</p><p>TEIXEIRA, W. et al. (Org.). Decifrando a Terra. São Paulo: Companhia Editora</p><p>Nacional, 2009.</p>