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Assédio Moral no Local de Trabalho - Estudo FGV

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trabalhadores de qualquer tipo de 
violência física ou mental dentro do trabalho e foi seguida pela aprovação de leis similares na 
Finlândia e Noruega. 
 
Além de ter identificado este fenômeno, que inaugurou o campo de estudos, e ter realizado 
inúmeros estudos empíricos, Leymann criou uma ferramenta para calcular a incidência de 
assédio moral. Era uma lista em forma de questionário, denominado LIPT- Leymann 
Inventory of Psychological Terrorization, que descrevia de maneira objetiva 45 atividades que 
seriam consideradas como atos de assédio moral. Esta ferramenta é ainda muito utilizada nas 
pesquisas atuais. Leymann faleceu em 1999, mas seus trabalhos influenciaram muitos 
pesquisadores de toda a Escandinávia, da Alemanha e da Espanha. 
 
Um segundo momento crucial das pesquisas sobre assédio moral aconteceu no Reino Unido a 
partir de dois programas de rádio da BBC em 1992. Os programas eram “Um abuso de Poder” 
e “De quem é a culpa afinal?” (traduções nossas), sob a responsabilidade da jornalista inglesa 
Andrea Adams, que havia passado por uma situação de assédio moral. Após estes programas, 
a jornalista recebeu inúmeras cartas de vítimas de assédio moral e, a partir daí, vários estudos 
foram conduzidos buscando compreender a gravidade e extensão deste problema na 
Inglaterra. (LEE, 2000) Vemos que esta jornalista atuou de maneira interessante com 
sindicatos, sendo que ajudou as pesquisas de um grande sindicato inglês, chamado Unison. 
Andrea Adams criou uma fundação para o combate deste problema organizacional através da 
divulgação de informações, esclarecimento de trabalhadores e auxílio às vítimas. Ela faleceu 
em 1995, mas o seu trabalho continua a ser referência nas pesquisas feitas no Reino Unido, 
Irlanda e Austrália. 
 
Outro momento importante da história sobre assédio moral se passou na Franca. A psiquiatra 
e psicoterapeuta familiar Marie-France Hirigoyen, lançou em dezembro de 1998 o livro “Le 
Harcèlement moral: la violence perverse au quotidien”, que se tornou rapidamente um best-
seller e foi traduzido para diversos idiomas, inclusive para o português. Ela aborda a violência 
 
 
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que acontece dentro de casa, entre o casal, e no trabalho, seja entre colegas ou entre chefe e 
subordinados. Este livro teve repercussão imediata, a autora recebeu inúmeras cartas de 
vítimas desta violência no trabalho e acabou lançando, em 2001, um livro específico sobre 
assédio moral no trabalho chamado de “Le malaise dans le travail, harcèlement moral: 
démêler le vrai du faux” (HIRIGOYEN, 2001), baseado em pesquisa conduzida com 193 
vítimas de assédio moral na França. A autora baseou-se em sua experiência clínica para expor 
detalhes dessas ocorrências. Estes livros incendiaram o debate em muitos países e 
influenciaram particularmente pesquisadores na França e América Latina, inclusive no Brasil. 
Vemos que a atuação desta pesquisadora repercutiu muito na sociedade, incentivando os 
debates. 
 
Consideramos, pois, que estes três pesquisadores, cada um em seu tempo, seu país e dentro de 
uma área de influência específica, foram fundamentais nos debates e nas pesquisas de outros 
pesquisadores mundo afora. Assim, Leymann influenciou particularmente o governo, André 
Adams envolveu os sindicatos e Hirigoyen trouxe o tema para toda a sociedade. Cada um 
deles forma um pilar das pesquisas sobre este assunto e lançou sementes para que o tema 
ganhasse repercussão mundial. 
 
 
6 Os dilemas conceituais 
 
Nestes 25 anos de pesquisas sobre assédio moral o campo avançou imensamente, mas ainda 
apresenta um desafio conceitual. Segundo Birman (2005) a palavra “assédio moral” ganhou 
franca notoriedade pública e tem sido desmesuradamente inflacionada no imaginário 
contemporâneo, provocando uma imprecisão no campo, pois o sentido torna-se quase 
evanescente e sem fronteiras bem traçadas. Faulx e Delvaux (2005) assinalam que outros 
temas aparecem e são utilizados como sinônimos de “assédio moral”, aumentando o risco de 
confusão. Einarsen (2005) faz um alerta dizendo que, embora existam muitas experiências 
desagradáveis clamando pela atenção de pesquisadores, temos de evitar a banalização do 
termo com o risco de que seja mal utilizado. 
 
Para Barreto (2005), o conceito hoje está cristalizado no Brasil, porém, ainda é pouco preciso, 
dando margens a empregos inadequados em toda situação de conflito, pressão e tensão e que 
 
 
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“também tem sido usado e confundido com outro conceito da área do direito que é dano 
moral, o que por si só justifica a necessidade de aprimorá-lo”. (BARRETO, p. 49) 
 
Para tentar esclarecer dúvidas e caracterizar claramente o nosso objeto de pesquisa, nos 
deteremos na questão conceitual, nas suas fronteiras, nos seus limites, nas diferenças com 
outros temas relacionados à violência do trabalho. 
 
Por ser um fenômeno multidisciplinar, por ter sido estudado por pesquisadores de distintas 
áreas, epela carência de diálogo entre estas áreas, não é incomum que dentro de um mesmo 
país este fenômeno receba nomes distintos. Ampliamos o trabalho de Guimarães e Rimoli 
(2006) e vemos que os termos mais usados nos diferentes países seriam os seguintes: na 
França - Harcèlement moral (assédio moral) e manipulação perversa; na Inglaterra, Austrália 
e Irlanda - bullying, harassment; nos Estados Unidos - moral harassment, emotional abuse, 
counter-productive work behavior, psychological harassment; na Escandinávia e países da 
Europa Central – mobbing; no Japão – ijime; em Portugal - coacção moral; nos países latino-
americanos e Espanha - acoso moral, acoso psicológico, hostigamiento laboral, psicoterror 
laboral ou psicoterrorismo e no Brasil - assédio moral, assédio psicológico, mobbing. Para 
Guimarães e Rimoli (2006, p. 184) “a diversidade de expressões obedece à variedade cultural 
e à ênfase que se deseja colocar sobre algum dos múltiplos aspectos que levam à violência 
psicológica no trabalho” mas elas alertam que “a tentativa de definição e descrição deste 
fenômeno em nível universal se vê comprometida e exige uma aproximação progressiva e um 
intercâmbio de conhecimentos, teorias, estudos e práticas trans-culturais”. Para Hoel (2004) 
assim como o termo assédio sexual está imbuído de significados que sugerem que seu 
entendimento pode variar de país a país, também o termo assédio moral tende a estar 
carregado de significados culturais. 
 
A nomenclatura é particularmente confusa na terminologia em inglês, sendo que emprega dois 
termos: “mobbing” e “bullying”. Di Martino, Hoel e Cooper (2003) dizem que há diferença 
entre os termos “bullying” e “mobbing”, sendo que o primeiro é usado para se referir à 
situação de assédio individual enquanto o último refere-se à situação em que o assédio parte 
de um grande número de agressores. Hirigoyen (2001) também faz distinção entre mobbing, 
bullying e assédio moral. Para ela o termo mobbing se refere a perseguições coletivas ou 
quando a violência parte da organização e inclui até a violência física. Bullying, por outro 
lado, seria um termo mais amplo, que abarca as piadas, as condutas com conotações sexuais 
 
 
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ou agressões físicas, tratando de uma violência com caráter individual mais do que 
organizacional. Por outro lado, na opinião desta autora o assédio moral diz respeito às 
agressões mais sutis e mais difíceis de advertir ou de provar e as agressões físicas ou 
discriminações estariam, a princípio, excluídas desta definição. 
 
Na opinião de Leymann (1996) o termo bullying deveria ser abandonado em favor do termo 
mobbing porque bullying tem a conotação de violência física e ameaças. Para este autor, o 
assédio (mobbing) é algo muito mais sutil, tem comportamentos mais sofisticados, tais como 
isolar socialmente a vítima. 
 
Segundo Chappel e Di Martino (2006) a distinção entre bullying (inicialmente se referia às 
situações