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Assédio Moral no Local de Trabalho - Estudo FGV

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dificuldades para dormir; sono interrompido; acordar muito cedo; f) 
cansaço e debilidade: fatiga crônica; cansaço nas pernas; debilidade; desmaios; tremores. 
 
Embora estes problemas por si só sejam muito graves, duvidamos que sejam os únicos, 
porque provavelmente existem outros efeitos sobre a saúde física das vítimas, já que a 
maioria das pesquisas encontradas agrupa as manifestações físicas sob o nome de “doenças 
psicossomáticas”. Neste sentido, Dejours (1994) explica que "a somatização é um processo 
pelo qual o conflito que não pode encontrar saída mental vai desencadear no corpo 
desordens endócrino-metabólicas, ponto de partida de uma doença orgânica". 
 
 
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Hirigoyen (2001, p. 140-142) descobriu que 52% das vítimas apresentam transtornos 
psicossomáticos variados. Segundo a autora “depois de um determinado tempo de 
evolução.. os transtornos psicossomáticos estão quase sempre em primeiro plano. O corpo 
acusa a agressão antes que o cérebro, que se nega a ver o que não consegue compreender.” 
Ela conta que os transtornos psicossomáticos são impressionantes, ela menciona as pessoas 
que “engordam subitamente (15 a 20 kg em poucos meses), os problemas digestivos 
(gastralgias, colite, úlceras de estômago), os problemas endócrinos (problemas de tireóide, 
problemas com a menstruação), o aumento da hipertensão, mal-estar, vertigens, 
enfermidades da pele etc”. Esta autora faz um alerta bastante importante sobre como o 
trauma físico pode ter repercussão no psiquismo, do mesmo modo como o trauma 
emocional pode ter conseqüências somáticas. Portanto, as crescentes crises psicossomáticas 
podem ajudar a piorar o quadro psicológico, minando cada vez mais a saúde mental das 
vítimas. 
 
Por fim, Freitas lembra que as licenças-médicas, os acidentes de trabalho e, em última 
instância, os suicídios também dizem respeito ao corpo físico. No suicídio o que se mata é o 
corpo, é a perda total. Assim, Leymann (1996) descobriu que a situação de assédio moral é 
responsável por de 6% a 15% dos suicídios cometidos na Suécia. Barreto explica que 
“quando as punições e controles culminam em exclusão do quadro de trabalhadores quer 
seja através da política de dispensa temporária (lay-off), demissão estimulada ou por justa 
causa, são muitos os que desestruturam psicologicamente, perdem o rumo da própria vida e 
praticam suicídio” (2005, p. 37) 
 
Luna (2003) diz que, evidentemente, o suicídio é a conseqüência mais grave deste 
fenômeno, e o risco é especialmente alto entre profissionais qualificados que normalmente 
obtêm importante gratificação de seu trabalho. Leymann assinala que o suicídio pode ser 
interpretado como um último ato de rebeldia ou uma acusação póstuma. 
 
 
3.1.2 Conseqüência para a saúde mental 
 
 
 
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Talvez por herança de tantos anos de pesquisas deste tema por parte de psicólogos, os 
efeitos do assédio moral sobre a saúde mental das vítimas foram largamente estudados. Para 
as vítimas a situação de assédio moral é sentida como se fosse uma batalha, uma tortura, um 
pesadelo ou uma substância tóxica. (TRACY, LUTGEN-SANDVIK e ALBERTS, 2007) 
Mikklesen e Einarsen (2002a) descobriram que 25% da amostra reagia à situação de assédio 
como se fosse uma situação de perigo de vida. 
 
Para Grenier-Peze (2007b) os gestos de uma profissão são a fonte fundamental de 
estabilização da economia psicossomática, oferecendo à excitação pulsional uma saída 
socialmente positiva ao valor da sublimação. Tornar esta execução aleatória, paradoxal, 
humilhante, dia após dia, tem efeitos traumáticos sobre a psique. 
 
Assim não é difícil entender por que : 
 
Os efeitos psíquicos... são marcados pela presença do "horror". Isso porque implicam 
sempre a desestabilização da "identidade" e a perda dos signos de segurança da 
personagem em questão. A identidade em pauta aqui se refere, é claro, aos registros 
social e psíquico. Em decorrência disso, produz-se uma transformação crucial na 
economia psíquica do narcisismo do personagem atingido, que conduz freqüentemente à 
depressões severas e à destruição de sua imagem. Como o processo é geralmente 
sorrateiro e progressivo, a auto-estima da personagem afetado se esvazia pouco a pouco, 
conduzindo de uma maneira quase inapelável à sua destruição institucional. Não tendo 
com quem contar e confiar, no contexto do trabalho, aquela pode freqüentemente se 
atribuir, no fantasma, toda a responsabilidade pelo que ocorre. (BIRMAN, 2005) 
 
A gravidade deste tipo de violência e seus impactos psicológicos podem ser vistos nos 
resultados das pesquisas que apontam que as vítimas de situações de assédio moral sofrem: 
menos saúde mental e funções sociais (VAEZ, EKBERG e LAFLAMME, 2004; 
MIKKLESEN e EINARSEN, 2002a; HOEL e COOPER 2000); estresse pós-traumático - 
PTSD (DAVENPORT, SWARTZ e ELLIOTT, 1999; MIKKELSEN e EINARSEN, 2002a; 
ERIKSEN-JENSEN, 2004); dificuldade de se concentrar, reação exagerada a estímulos, 
ataques de pânico, sentimentos (idéias) suicidas ou homicidas (DAVENPORT, SWARTZ e 
ELLIOTT, 1999); auto-estima, visão do mundo e de outras pessoas ameaçada 
(MIKKLESEN e EINARSEN, 2002b); paranóia (BRODSKY, 1976); problemas 
psicossomáticos (MIKKLESEN e EINARSEN, 2002b); aumento no nível de estresse 
(MIKKLESEN e EINARSEN, 2002a; ASHFORTH, 1989); comportamentos agressivos e 
auto-agressivos (NIDLE, 1996); sinais de ansiedade, depressão e afetividade negativa no 
 
 
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quesito auto-estima. (ZAPF, 1999); paulatina despersonalização (HELOANI, 2004); e 
buscam alívio em condutas auto-lesivas ou nas drogas (GUIMARÃES E RIMOLI, 2006) 
 
Segundo pesquisa belga (SPF, 2005) o assédio moral levava as vítimas a sofrerem de: 
depressão (54%), recorrer ao abuso do álcool, medicamentos ou tabaco (10%), a 
deterioração severa da saúde mental (10%), tentativa de suicídio (3%) e problemas da 
memória (0.5%). Bjorklund (2004) mostrou que as conseqüências do assédio podem levar a 
disfunções no mecanismo de memória das vítimas e também no sistema cognitivo. Segundo 
este autor, as vítimas têm tempo de reação quase 50% maior que as pessoas que não são 
vítimas e cometem 72% mais erros que a amostra de controle. Segundo o autor, não há 
indícios que as vítimas tivessem estes problemas antes de começar a situação do assédio, o 
que sugere que são devidos ao trauma da situação. 
 
Uma pesquisa conduzida na Dinamarca concluiu que 76% das vítimas de assédio moral 
mostravam sintomas de post-traumatic stress disorder (transtorno de estresse pós-
traumático ou simplesmente a sigla em inglês PTSD) (MIKKELSEN e EINARSEN, 2002a). 
Segundo pesquisa de Leymann (1992), PTSD é o diagnóstico correto para 95% das vítimas 
de assédio moral. (LEYMANN 1992) 
 
O quadro abaixo resume o que conseguimos reunir sobre os efeitos relatados sobre a saúde 
mental das vítimas de uma situação de assédio. 
 
 
 
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Tabela 9- Efeitos sobre a saúde mental das vítimas 
Conseqüências sobre saúde mental Referência
Menos saúde mental e funções sociais Vaez, Ekberg & Laflamme, 2004; Mikklesen & Einarsen, 
2002; Hoel & Cooper 2000; SPF, 2005; Soares, 2002; Hoel & 
Giga, 2006; Di Martino et al, 2003; Alkimin, 2005
PTSD Davenport, Swartz & Elliott, 1999 Mikkelsen & Einarsen, 
2002; Eriksen-Jensen, 2004; Leymann, 1996; Soares, 2004; 
Leymann e Gustafsson, 1996; Di Martino et al, 2003; 
Soares, 2002; Hoel, Sparks & Cooper, 2002; Hirigoyen, 
2001; Piñuel y Zabala, 2003; Piñuel y Zabala, 2004
Dificuldade de se concentrar, diminuição na 
memória, reação exagera a estímulos, ataques de 
pânico, sentimentos (idéias) suicidas ou homicidas
Davenport, Swartz & Elliott, 1999; SPF, 2005; Bjorklund, 
2004; Bjorqvist et al, 1994; Barreto, 2000; Piñuel y Zabala, 
2004
Menos auto-estima Mikklesen & Einarsen, 2002; Zapf 1999; Ashforth, 1994; 
Grenier-Peze, 2001; Luna, 2003
Paranóia Brodsky, 1976; Di Martino