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não teria trajetória exitosa, porém, caso tivesse prescindido da greve, como meio 
de pressão para novas conquistas obreiras, e não houvesse instituído as convenções coletivas de 
trabalho, em detrimento do monopólio estatal na produção normativa. Esses três institutos (sindicato, 
direito de greve e convenção coletiva) percorreram a mesma estrada, sendo inicialmente proscritos, em 
seguida tolerados e, afinal, reconhecidos pela ordem jurídica. A história do sindicalismo, quando 
relacionada com a institucionalização das convenções coletivas e da greve, revela o modo como reagiu 
a classe operária à consagração, pela revolução burguesa, do princípio da autonomia da vontade 
individual. Em suma, os referidos institutos jurídicos expressam, hoje, o modo de atuação da vontade 
coletiva. 
2.2 O sindicalismo no sistema capitalista de produção 
É fato, porém, que o movimento sindical não incorporou aos seus objetivos a revolução 
socialista, ao menos como regra. No Ocidente capitalista, os sindicatos têm lutado, o mais das vezes, 
pela implementação de medidas compensatórias que são outorgadas aos trabalhadores pelo direito 
laboral, como observa Ricardo Antunesxlv: 
Pode-se dizer que junto com o processo de trabalho taylorista/fordista erigiu-se, particularmente 
durante o pós-guerra, um sistema de 'compromisso' e de 'regulação' que, limitado a uma parcela 
dos países socialistas avançados, ofereceu a ilusão de que o sistema de metabolismo social do 
capital pudesse ser efetiva, duradoura e definitivamente controlado, regulado e fundado num 
compromisso entre capital e trabalho mediado pelo Estado [...]. O 'compromisso fordista' deu 
origem, progressivamente, à subordinação dos organismos institucionalizados, sindicais e 
políticos, da era da prevalência social-democrática, convertendo esses organismos em verdadeiros 
cogestores do processo global de reprodução do capital. 
Por isso, era inevitável que o sindicalismo de enfrentamento cedesse lugar, gradualmente, a um 
novo modelo, que Ruprecht denomina sindicalismo de participação, no qual as corporações de 
 
 
trabalhadores consideram a possibilidade de colaborar na gestão da empresa e do Estado, reorientando 
assim a sua função social. É Alfredo Ruprecht quem nota: 
De La Cueva chama a atenção para essa evolução, observando que o sindicalismo pertence ao 
futuro e sonha com uma sociedade fundada na justiça social. Seu fim primordial era econômico: 
melhorar as condições de vida do trabalhador. No meado do século XIX, sua finalidade tinha um 
nítido traço político, uma vez que a convenção coletiva e sua ação não eram suficientes para obter 
o que desejava e, então, era preciso partir para a organização política mesmo. No começo deste 
século já deixa de ser exclusivamente um órgão de luta para se transformar num órgão de 
cooperaçãoxlvi. 
Não há como desvincular o movimento sindical da inserção dos direitos sociais em várias cartas 
políticas editadas a partir da Constituição mexicana de 1917 e da Constituição de Weimar (Alemanha), 
que alargaram assim o conteúdo e os horizontes dos direitos fundamentais (antes restritos aos direitos 
civis e direitos políticos). 
2.3 O sindicalismo sob intervenção totalitária 
Mas sofreu duro golpe o sindicalismo na década seguinte, por obra ou influência do regime 
fascista. Observam Wilson Batalha e Sílvia Marina Batalhaxlvii: 
[...] segundo a Declaração VI da Carta del Lavoro, as corporações (os sindicatos entre estas) 
constituíam a organização unitária das forças da produção e lhe representavam integralmente os 
interesses. Constituíam, portanto, órgãos do Estado, compostos de representantes dos 
trabalhadores e dos empregadores das várias categorias econômicas, atuando-se nelas a integração 
das forças econômicas e das forças políticas do País. Objeto de sua atividade era a disciplina da 
produção e do trabalho [...] Eram instituídas por decreto do Chefe do Governo. 
Esse sistema corporativista passou a vigorar nos vários países que se fizeram receptivos ou se 
renderam a tal concepção de Estado totalitário, a exemplo da França (durante a ocupação nazista), 
Alemanha, Espanha (sob o regime de Franco e da Falange), Portugal (sob o mando de Salazar) e 
Brasil, neste sob o Governo Vargas. 
O retorno à democracia sindical, com a possibilidade de ratificar a Convenção n. 87 da 
Organização Internacional do Trabalho, que cuida da liberdade de os sindicatos se constituírem e 
agirem na medida de sua legitimidade, teve lugar, nos países citados, após a derrocada das forças do 
Eixo e conseqüente fim da Segunda Grande Guerra. Menos no Brasil. 
 
 
 
3 HISTÓRIA DO DIREITO DO TRABALHO NO BRASIL 
Augusto César Leite de Carvalho 
3.1 Pré-história do direito do trabalho: trabalho escravo e corporações de arte e ofício no Brasil 
O trabalho de escravos, dos servos de gleba e dos aprendizes e companheiros em corporações de 
arte e ofício antecedeu o modo de prestar trabalho que, mais adiante, ambientou-se na empresa 
capitalista e provocou o surgimento do direito laboral. Mas também se costuma dizer que, no Brasil, o 
direito do trabalho não teria sido o resultado desse quadro evolutivo, migrando para a nossa ordem 
jurídica pela intervenção de Getúlio Vargas. 
Ainda que a teoria da generosidade getulista agrida a memória de todos quantos antes se 
integraram aos movimentos de insurreição contra a exploração do trabalho humanoxlviii, decerto que a 
universalidade do direito fundamental, especialmente do direito fundamental a um trabalho digno, 
torna irrelevante, em boa parte, a procura da realidade mais próxima, vale dizer, a discussão sobre o 
direito do trabalho vigente no Brasil ser um legado de nossas próprias agruras e conflitos ou, por outro 
lado, se a história do trabalho no Ocidente bastaria ao aparecimento de um direito laboral em nossas 
plagas. 
De toda sorte, dúvidas existem sobre a influência das formas antigas de organização do trabalho 
– especialmente a escravidão e as corporações – no modo de se organizar o trabalho no âmbito da 
empresa que emergiu com a primeira revolução industrial. Não há, por exemplo e à toda vista, relação 
de causalidade entre o trabalho escravo e a relação de emprego. O que há de extraordinário na história 
do trabalho humano, no Brasil, é a conversão do trabalhador escravo em trabalhador empregado, sem 
que se vivenciasse intensamente a experiência das corporações de arte e ofício. Esforcemo-nos, pois, 
por rememorar um pouco da pré-história do emprego, em terras brasileiras. 
3.1.1 As corporações de ofício na Europa e a analogia com o emprego 
O trabalho em regime gremial ou corporativo exibia algumas características coincidentes com a 
relação laboral própria da empresa capitalista, além de outras que o faziam diferente. As diferenças 
mais expressivas se encontravam no modo de se constituir a organização em que se realizava o 
trabalho. No plano das relações individuais, eram, porém, parecidas as condições em que se trabalhava 
sob as ordens dos mestres ou, mais adiante, dos empresários. 
As coincidências estavam presentes, por exemplo, na circunstância de que as ordenanças 
gremiais relativas ao período de prova, disciplina, duração do contrato e tempo de trabalho seguiam 
orientação análoga à que tem o atual direito do trabalhoxlix e também na peculiaridade de os 
aprendizes, companheiros e mestres serem trabalhadores livresl. 
Evidenciavam-se, porém, as dessemelhanças. A saber, a produção era sobretudo artesanal nas 
corporações de arte e ofício, a elas não se ajustando as ideias de alienação e divisão do trabalho. 
Ademais, a revolução industrial foi contemporânea ao fim do regime corporativo e, possivelmente, 
com este não se harmonizaria uma vez que a hierarquia interna das empresas não teria a formação 
profissional como pressuposto, sendo possível a qualquer pessoa, inclusive a mulheres e crianças, 
participar da cadeia