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mesmo, 
quando abolida a escravidão e proclamada a República. 
E havia, ademais, um claro obstáculo à ação protetiva do Estado. É que, além de o Estado 
liberal não agir – abstinha-se de intervir por pressupor a igualdade e a liberdade dos que protagonizam 
relações jurídicas –, esse modo de pensar justificou a revogaçãolxxxiv
lxxxv, ironiza:
 de leis, editadas ao tempo do 
Império, que regulavam a locação de serviços, também fazendo com que os legisladores civilistas não 
atentassem para a relevância social do trabalho. Comentando o projeto do Código Civil de 1916, 
Evaristo de Moraes, em obra publicada em 1905 
Efetivamente, a redação final do projeto do Código Civil Brasileiro – que temos presente – 
principia por epigrafar, à moda velha, o conjunto das relações dos trabalhadores ou assalariados, para 
com seus patrões ou empregadores: da locação de serviços. Dispensa ao assunto 22 artigos. Ao lado, o 
 
 
legislador cogitara da locação de casas, muito mais detalhadamente. Isso denuncia todo o espírito da 
grande obra republicana, sob o ponto de vista da legislação social... 
O Estado liberal se manteve inerte quando devia agir, estendendo a sua proteção em favor da 
hipossuficiência econômica do trabalhador individual. Ainda assim, o direito do trabalho no Brasil se 
construiu como uma resposta à pressão social, mas com participação tímida de normas coletivas, 
elaboradas mediante a ação direta dos trabalhadores, através de seus sindicatos. 
A Europa já havia vivenciado a reação do proletariado, alimentada por movimentos socialistas 
de largo espectro e contida pelas medidas compensatórias empreendidas pela social-democracia, 
quando o operariado brasileiro se insurgiu e obteve a intervenção estatal. O Estado brasileiro era 
liberal, mas estava atento à experiência europeia e, por isso, promulgou normas que regulavam a 
jornada de menores cujo trabalho era permitido a partir de oito anos de idade (Decreto 1313/1891), o 
privilégio de salário pago a trabalhadores rurais (Decreto 1150/1904) e uma das seis primeiras leis, em 
todo o mundo, sobre férias remuneradas, fixando-as em quinze dias para empregados de 
estabelecimentos comerciais, industriais, bancários e de instituições beneficentes (Lei 4982/1925), 
além do Código de Menores de 1927 (Decreto 17934-A), que proibía o trabalho de menores de doze 
anos e limitava o trabalho de outros menores. 
O Estado totalizante, da primeira era Vargas, consolidou a legislação trabalhista e, em 1943, 
editou a CLT. As indústrias de base, especialmente a siderurgia e a petroquímicalxxxvi, surgiram com a 
legislação trabalhista e a Justiça do Trabalho, tudo em um pacote de intevenção estatal que auspiciava 
a definitiva modernização do Brasil. A um só tempo, Vargas introduzia a fonte do problema – 
mediante o estímulo à industrialização de bens de capital e de consumo – e os métodos de solução, 
tentando queimar etapas do processo de industrialização vivenciado pelos países que compunham a 
economia central. 
A CLT foi seguida de legislação que contribuiu para a atenuação das condições adversas em que 
se dava o trabalho do empregado brasileiro, abrindo caminho para a constitucionalização dos direitos 
sociais de índole trabalhista. A Constituição de 1988 elevou, enfim, ao nível de direito fundamental as 
condições mínimas de trabalho a que pode ser submetido o empregado no Brasil, articulando-se assim 
com o princípio – que gravou em seu texto como fundamento da nossa República – da dignidade da 
pessoa humana. 
A Consolidação das Leis do Trabalho interveio em demasia, porém e contraditoriamente, na 
atuação dos sindicatos. Ao estudarmos a origem do direito coletivo do trabalho, vimos que a influência 
do ideário fascista deu ensejo, no Brasil dos anos 20, à intervenção do Estado no movimento sindical, 
a partir da adoção do princípio da unicidade sindical (um só sindicato representa a categoria em uma 
certa base territorial, sendo vedada a formação espontânea de uma nova entidade sindical), da 
instituição do imposto sindical (atualmente denominado contribuição sindical) e, até a Carta Política 
de 1988, através da investidura dos sindicatos através de Carta de Reconhecimento outorgada pelo 
Ministério do Trabalho. 
Tal intromissão do Estado, em assunto marcadamente corporativo, transindividual, neutralizou a 
atividade dos sindicatos brasileiros que representavam categorias economicamente fracas ou mal 
organizadas, no exato período em que políticas de pleno emprego permitiam a reivindicação de 
condições mais justas de trabalho sem a ameaça da retaliação patronal. 
 
 
 
4 FONTES DO DIREITO DO TRABALHO 
Augusto César Leite de Carvalho 
4.1 Conceito 
Que são fontes do direito? Certamente se está diante de uma metáfora, usando-se a palavra fonte 
para se exprimir origem ou fundamento. Origem ou fundamento do direito, por óbvio. Com 
Bobbiolxxxvii, poderíamos dizer que fontes do direito “são aqueles fatos ou atos dos quais o 
ordenamento jurídico faz depender a produção de normas jurídicas”. 
Para a doutrina positivista, a classificação das fontes deve levar em conta a supremacia da lei, 
como manifestação da soberania do Estado, distinguindo-se-as como fonte originária – é o poder 
originário, vale dizer, "a fonte das fontes", que dá unidade ao ordenamento jurídico – e fontes 
derivadas. Entre as fontes derivadas, encontram-se as fontes reconhecidas (o costume, por exemplo, 
que preexiste ao Estado, mas é por ele reconhecido ou recepcionado) e as fontes delegadas (o 
ordenamento jurídico, quando concebido como uma construção escalonada de normas, pressupõe a 
delegação do poder constituinte ao legislador ordinário e deste ao poder judiciário). Nota-se, porém, 
que essa classificação visualiza o direito sob o aspecto estritamente formallxxxviii. 
4.2 As fontes materiais e as fontes formais do direito 
Os autores, inclusive os laboralistas, preferem certamente classificar as fontes do direito em 
fontes materiais (também ditas reais ou primárias) e fontes formais. As fontes materiais são 
representadas pelos fatores sociais ou históricos determinantes no surgimento da norma e estas, as 
fontes formais, revelando-se nos mecanismos e modalidades mediante os quais o Direito transparece e 
se manifesta, na síntese feliz de Maurício Godinho Delgadolxxxix. A compreensão é facilitada se 
associamos as fontes materiais aos movimentos obreiros referidos no capítulo precedente, bem assim 
às teorias e princípios filosóficos que os fizeram afrontar o Estado burguês. 
As fontes formais se manifestam na Constituição, leis e outras espécies normativas que servem 
à exteriorização do direito – em verdade, a fonte formal não é a lei, mas sim a atividade legislativa. 
Por conseguinte, é fácil perceber que, cronologicamente, as fontes materiais antecedem as 
fontes formais, nestas se convertendo no instante em que o emissor virtual da norma elege, entre as 
condutas que a sociedade não repele por indesejáveis, aquela que deve ser prescrita em regra jurídica, 
garantida por sanção. Este é um momento de decisão, por isso dizendo Miguel Reale, sobre as fontes 
do direito, “que são (estas) sempre estruturas normativas que implicam a existência de alguém dotado 
de um poder de decidir sobre o seu conteúdo, o que equivale a dizer um poder de optar entre várias 
vias normativas possíveis, elegendo-se aquela que é declarada obrigatória, quer erga omnes, como 
ocorre nas hipóteses da fonte legal e da consuetudinária, quer inter partes, como se dá no caso da fonte 
jurisdicional ou na fonte negocial”xc. 
Em sendo editada a norma, ou melhor, em surgindo afinal a fonte formal de direito, vale 
recordar o que diz Bobbio, na introdução da obra A Era dos Direitos, a propósito do dilema com que 
se pode defrontar o operador do direito que, questionando o fundamento do direito aplicável a um caso 
concreto, esteja a buscar o componente