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haverá de fazer uma concessão e perceberá a 
necessidade de estudarmos, isoladamente, os princípios, se recordar, desde logo, que estavam eles a 
formar entre as fontes materiais e também em meio às fontes formais do direito laboral. 
Alguns prosélitos da classificação que estamos a adotar (fontes materiais/fontes formais) 
enfatizam que os princípios têm função normativa (é norma generalíssima), mas não são propriamente 
fonte formal, porque esta, a exemplo da lei, é “uma norma desenvolvida em seu conteúdo e precisa em 
sua normatividade: acolhe e perfila os pressupostos de sua aplicação, determina com detalhe o seu 
mandato, estabelece possíveis exceções”. A lição é de Gordillo Cañascxxix, para quem o princípio, ao 
contrário da lei, “expressa a imediata e não desenvolvida derivação normativa dos valores jurídicos: 
seu pressuposto é sumamente geral e seu conteúdo normativo é tão evidente em sua justificação como 
inconcreto em sua aplicação”. 
Mas é certo que os princípios denunciam os valores que imperam na ordem jurídica e por isso 
são fonte material desta. Não sendo fonte formal de direito, revestem-se, porém, da característica de 
ser norma. A um só tempo, inspiram o legislador e suprem a atividade legislativa. 
Bem se vê, portanto, a importância dos princípios e assim se explica a atenção que se usa 
dedicar ao seu estudo. Num parêntese, é preciso frisar que se sustenta a função normativa dos 
princípios em outras searas do direito, não sendo esta uma orientação que anime, exclusivamente, os 
expoentes do direito do trabalho. Com tal ponto de vista, o constitucionalista Paulo Bonavidescxxx 
transcreve a lição sempre luminosa de Bobbio, extraída da obra Teoria dell’ Ordinamento Giuridico: 
Os princípios gerais são, a meu ver, normas fundamentais ou generalíssimas do sistema, as normas 
mais gerais. A palavra princípios leva a engano, tanto que é velha questão entre os juristas se os 
princípios gerais são normas. Para mim, não há dúvida: os princípios gerais são normas como 
todas as outras... Para sustentar que os princípios gerais são normas, os argumentos são dois, e 
ambos válidos: antes de mais nada, se são normas aquelas das quais os princípios gerais são 
extraídos, através de um procedimento de generalização sucessiva, não se vê por que não devam 
ser normas também eles... Em segundo lugar, a função para qual são extraídos e empregados é a 
mesma cumprida por todas as normas, isto é, a função de regular um casocxxxi. 
 
 
Tal peculiaridade dos princípios (são, a um só tempo, fontes materiais e normas de direito do 
trabalho), potencializa ainda uma característica que, regra geral, é-lhes inerente, qual seja: a norma 
que provém do princípio permite que dela o princípio se extraia. Há sempre essa via de mão-dupla 
que, a bem dizer, torna mais facilitada a tarefa de conferir a legitimidade que fará, quando presente, 
eficaz a norma trabalhista. 
Essa dupla função dos princípios (fonte material e norma), com ênfase para os princípios 
especiais do direito laboral, precisa ser mais bem esclarecida e, com esse propósito, cabe lembrar que 
o artigo 8o da CLT refere os princípios como um dos métodos de auto-integração do ordenamento 
jurídico, quando falta a lei trabalhista ou o contrato e essa lacuna precisa ser colmatada. A ser assim, 
apenas quando a norma escrita não oferece a solução para o conflito estaríamos aptos a recorrer às 
fontes formais secundárias, apelando para os princípios, principalmente do direito do trabalho. Nessa 
mesma linha, a lição de Plá Rodriguez, para quem os princípios assim se definem: 
[...] linhas diretrizes que informam algumas normas e inspiram direta ou indiretamente uma série 
de soluções, pelo que podem servir para promover e embasar a aprovação de novas normas, 
orientar a interpretação das existentes e resolver os casos não previstoscxxxii. 
Todavia, há princípios que têm sede na Constituição, conforme veremos adiante. Em relação a 
esses princípios constitucionais, não se aplica o artigo 8o da Consolidação das Leis do Trabalho, pois o 
conflito entre a norma maior e a regra legal inferior (exempli gratia, uma lei cujo preceito contrarie o 
postulado da isonomia, com matriz na Carta Magna) faz esta última ineficaz. Nessa hipótese de 
antinomia, é certo que o princípio constitucional não pode ser tratado como norma secundária. 
Está assentado que os princípios funcionam como fontes materiais e normas gerais do direito do 
trabalho. Mas há uma terceira função, a que eles se prestam, com inegável importância: referimo-nos 
ao auxílio que dão os princípios ao operador da norma trabalhista, quando instado ele a interpretá-la. 
Essa função interpretativa será percebida, em seguida, quanto tratarmos do princípio da proteção. 
Por ora, devemos sistematizar a matéria, a partir da carta constitucional, enlevando inicialmente 
a influência do princípio da dignidade humana na compreensão e aplicação de todo o direito do 
trabalho para, na sequência, e em boa parte inspirados na lição de Plá Rodriguez, passaremos a 
enumerar os princípios especiais do direito do trabalho, notadamente aqueles mais explorados pelos 
laboralistas que se dedicaram à principiologia. 
5.2 Preeminência do princípio constitucional da dignidade (da pessoa) humana 
A dignidade humana não é o único valor jurídico que, associando-se à realidade vivenciada 
pelos sujeitos da relação de trabalho, tem expressa referência no texto constitucional. Também se 
reporta a Constituição ao valor social do trabalho e, sempre que o faz, esforça-se por combiná-lo com 
a livre iniciativa e assim proclamar que a liberdade de empreendimento se legitima na exata medida 
em que se concilia com a função social que lhe é imanente. É o que se extrai, claramente, dos artigos 
1º, III e 170 da Carta Magna. 
O princípio da dignidade da pessoa humana igualmente não exaure a sua atuação no âmbito do 
direito laboral, pois interfere em setores variados da vida e do Direito. Mas, voltando os olhos à 
realidade dos que vivem um liame empregatício, uma tarefa deveras interessante seria a de identificar 
os direitos sociais que salvaguardariam, em qualquer sítio onde se realizasse o labor humano, as 
condições de trabalho mínimas, abaixo das quais não haveria trabalho digno. Estaríamos a contrastar a 
diversidade das pautas de direitos sociais com a necessária transcendentalidade de um atributo que é 
imanente ao gênero humano em qualquer atmosfera cultural, qual seja, a dignidade. 
Embora se alardeie que dignidade humana é um conceito impreciso, um conceito aberto, 
importa apurar o seu significado próximo, a sua latitude conceitual, com vistas a identificar, na 
expressão jurídica, um conteúdo propriamente normativo. A dignidade humana não pode ser um 
 
 
programa de ação, pois é antes uma norma que aspira efetividade. E é assim, sobremodo, quando se 
pretende distinguir a dignidade da pessoa humana, atentando-se, então, para a parte da expressão que 
faz referência ao homem concreto e individual, à sua realidade idiossincrática, inextensível desde logo 
a toda a humanidadecxxxiii. 
Ainda no plano semântico, nota-se que a palavra dignidade possui tríplice sentido, pois 
qualifica, à primeira vista, um modo de proceder e também a pessoa que assim procede: o sujeito é 
digno porque se comporta dignamente. O seu terceiro sentido – que nos interessa de imediato – não 
deriva de uma conduta, nem mesmo de um padrão de conduta, senão de uma qualidade inerente ao 
ente, homem ou mulher, não importando seu modo de conduzir-se. A dignidade da pessoa humana é, 
já agora, um pressuposto de qualquer conduta, um limite externo e de caráter tutelar imposto à ação 
que atinge o homem, que ao homem se refere. 
Estende-se esse limite ao mundo potencial dos contratos, vale dizer, à esfera de liberdade – que 
tem, paradoxalmente, também a dignidade humana como fundamento. Talvez por isso, e com alguma