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se abre, mesmo para 
Norbert Hoerster, uma fissura no conceito puramente formal até aqui desenvolvido: “se o princípio da 
dignidade humana (...) somente pode ser sensatamente entendido no sentido que implica proteger as 
formas legítimas da autodeterminação humana, então é inevitável que a aplicação desse princípio 
esteja vinculada a um juízo valorativo moral”clvi. É que nem sempre a ilicitude se esgota na 
transgressão à lei, por vezes se configurando na ação que, embora socialmente reprovável, não está 
descrita em tipo penal algum. 
O formalismo e o individualismo de Kant sempre despertaram a crítica de outros grandes 
pensadoresclvii, mas convém não desprezar a elaboração, embasada em sua obra, de um conteúdo 
jurídico para o princípio da dignidade da pessoa humana. Importa perceber que o significado assim 
atribuído a esse princípio tem rica aplicação no âmbito do direito trabalhista, pois é causa primeira da 
tutela dos direitos sociais. Ainda mais quando esse seu conteúdo jurídico se reveste de força 
normativa, a exemplo do que sucede a todos os princípios constitucionais. 
A dignidade da pessoa humana é conceito que não se reporta ao sentido de dignidade vinculado 
ao modo de ser de uma conduta ou do agente (conduta digna de pessoa digna), mas é uma qualidade 
que precede e limita qualquer ação humana. Portanto, se a dignidade é uma qualificação comum a 
todos os seres humanos, a sua realização normativa terá sempre a igualdade como pressuposto. 
A evolução do conceito, a ponto de o princípio correlato ganhar a preferência dos Estados 
democráticos na decisão sobre o que haveria de dar unidade de sentido e valor aos seus sistemas de 
direitos fundamentais, não pode prescindir, ainda hoje, do significado que lhe deve ser atribuído a 
partir da distinção kantiana entre as coisas que têm preço e aquelas que, não podendo ser substituídas 
pelo equivalente, possuem dignidade. A razão e a vontade livre de que somente o homem é possuidor 
impediriam que as intervenções humanas não tivessem a pessoa como fim, tendo-a apenas como meio. 
Sob tais premissas, a sentença de Kant é definitiva: “a pessoa não pode ser tratada (por outra 
pessoa ou por si mesma) meramente como um meio, se não que tem que ser, em todo momento, 
 
 
utilizada como fim; nisso consiste a sua dignidade”. No mundo do trabalho, é possível reportar-se, 
conforme sobrevisto, a vários direitos sociais de índole trabalhista que se justificam na premissa 
kantiana. 
5.3 Princípios especiais do direito do trabalho 
É tradição, no direito do trabalho, seguir o modo como Plá Rodriguez sistematizou os princípios 
especiais desse ramo especial do direito privado. Ao seu modo de abordar o tema acrescemos somente 
a alusão aos postulados constitucionais e, dentre eles, a autonomia coletiva, com o objetivo de 
conferir-lhe atualidade. Nesse panorama, os princípios especiais de direito do trabalho são os 
seguintes: 
a) Princípio da proteção; 
b) Princípio da irrenunciabilidade; 
c) Princípio da continuidade; 
d) Princípio da primazia da realidade; 
e) Princípio da razoabilidade; 
f) Princípio da boa-fé; 
g) Princípio da igualdade de tratamento; 
h) Princípio da autodeterminação coletiva. 
5.3.1 Princípio da proteção 
O direito civil, ou sua versão mais vetusta, tem a igualdade como pressuposto. Imaginam-se 
pessoas que, por estarem em igual condição, podem instituir contratos entre si e, nestes, ajustar o que 
manifesta mais claramente a vontade de cada qual. O direito do trabalho, como já se percebeu, parte de 
pressuposto diverso: a desigualdade entre os contratantes. Por isso, relativiza o princípio da autonomia 
da vontade individual, que inspira o direito obrigacional comum e, para compensar a inferioridade 
econômica do empregado, estende-lhe uma rede de proteção, um rol de direitos mínimos e 
indisponíveis que asseguram a dignidade do trabalhador (dir-se-ia: do trabalho humano). Como afirma 
Couture, em remissão feita por Plá Rodriguez, “o procedimento lógico de corrigir as desigualdades é o 
de criar outras desigualdades”. 
As contituições republicanas vêm ressaltando essa tendência protecionista, quando incluem 
entre os direitos fundamentais os direitos sociais do trabalhador. Embora fosse maior tal preocupação 
no constituinte de 1988, é certo que, ao comentar o texto da Carta Política de 1967, já observava 
Pontes de Mirandaclviii: 
A desigualdade econômica não é, de modo nenhum, desigualdade de fato, e sim a resultante, em 
parte, de desigualdades artificiais, ou desigualdades de fato mais desigualdades econômicas 
mantidas por leis. O Direito que em parte as fez pode amparar e extinguir as desigualdades 
econômicas que produziu. Exatamente aí é que se passa a grande transformação da época 
industrial, com a tendência à maior igualdade econômica que há de começar, como já começou em 
alguns países, pela atenuação mais ou menos extensa das desigualdades. 
5.3.1.1 As regras in dubio pro operário, norma mais favorável e condição mais benéfica 
Em três momentos se revela, mais claramente, o princípio da proteção. Estamos a cuidar, nesse 
passo, das seguintes técnicas (ou princípios derivados, como prefere parte da doutrina): 
a) a regra in dubio pro operario 
b) a norma mais favorável 
c) a condição mais benéfica 
 
 
Sobre a regra in dubio pro operario, devemos frisar que se trata de técnica de interpretação: 
quando a norma permite interpretação dúbia ou mais de uma interpretação, deve prevalecer aquela que 
aproveita ao trabalhador. É importante relembrar que o direito do trabalho surgiu como uma técnica de 
proteção ao obreiro que, por ser economicamente hipossuficiente, estava por ajustar condições 
indignas de trabalho, aviltantes para o ser humano. Em princípio, toda norma trabalhista parte desse 
mesmo pressuposto e, se mais de um sentido lhe couber, é de preferir-se aquele que justifica a sua 
existência, ou seja, privilegia-se a exegese que se mostra apta a oferecer uma condição mais justa de 
trabalho. 
Quando enfatizamos estar versando sobre regra de interpretação é porque rejeitamos o uso, que 
a jurisdição trabalhista emprestou outrora à técnica in dubio pro operario, dizendo-a aplicável quando, 
no processo do trabalho, os elementos de prova produzidos por empregado e empregador 
apresentassem igual grau de convencimento. A orientação doutrinária e pretoriana, hoje prevalecente, 
consagra, ao revés, a regra de distribuição da carga probatória, como solução para o hipotético 
conflito, na consciência do julgador, à hora de valorar a prova. A dúvida sobre qual das partes 
produziu elemento de prova mais convincente não poderá beneficiar, necessariamente, ao empregado. 
Se couber ao empregado o onus probandi, deverá o mesmo se desvencilhar eficientemente do encargo, 
sob pena de ver sucumbir a sua pretensão. E o meio de prova eficaz é aquele que convence, tem força 
de persuasão, numa análise rigorosamente subjetiva. 
A técnica da norma mais favorável é de utilização frequente, aplicando-se, já agora, quando 
normas trabalhistas estão em aparente conflito. No direito comum, observa-se a hierarquia das normas, 
predisposta em forma piramidal. A partir da Constituição (que teria validade, segundo Kelsen, 
assegurada em norma pressuposta, a norma fundamental), as normas de escalão inferior teriam uma 
norma de escalão superior a fixar a autoridade legisladora ou a forma a ser observada por esta norma 
infra-ordenada. A norma supra-ordenada, ainda em consonância com as lições de Hans Kelsen, seria 
então o fundamento de validade da norma abaixo escalonada – a Constituição em relação às leis ou 
normas gerais, estas em relação às sentenças ou normas individuais. 
Logo, o conflito entre normas, no direito comum, é sempre aparente, resolvendo-se pela 
supremacia da norma acima escalonada, pelo critério da especialidade ou, em se tratando de normas 
com igual