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a revogação ou alteração do regulamento”. 
5.3.1.2 A ultra-atividade das normas coletivas 
Questão correlata à aplicação da condição mais benéfica quando normas trabalhistas se sucedem 
acerca de um mesmo tema é, por certo, aquela que diz sobre adotar-se a norma coletiva mais benéfica 
entre aquelas que são, entre si, consecutivas. A pergunta inquietante: poderia uma norma coletiva 
anterior prevalecer se a norma coletiva posterior reduz direitos do trabalhador? 
A ultra-atividade é o atributo da norma coletiva que a faz eficaz após encerrar-se o seu período 
de vigência. A ultra-atividade seria incondicionada quando o direito previsto na norma coletiva 
anterior não pudesse ser reduzido, sequer por outra norma coletiva. E é condicionada quando essa 
eficácia da norma coletiva precedente vigora até que outra norma coletiva sobrevenha, tratando da 
mesma matéria. Por muito tempo, entendeu-se que as convenções e acordos coletivos contêm cláusula 
de vigência e por isso os direitos neles assegurados não poderiam continuar vigorando após o prazo 
convencionado. Não se aceitava, no sistema brasileiro, a ultra-atividade em qualquer de suas 
modalidades. 
A questão vexatória não estava na eficácia da norma coletiva vigente à época do conflito mesmo 
quando essa norma era a menos benéfica, pois tal eficácia era e é condizente com o princípio da 
autodeterminação coletiva, que faz prevalecer a redução de direitos operada segundo a vontade da 
própria categoria de trabalhadores. A questão realmente embaraçosa estava no período de anomia 
jurídica que assim se estabelecia entre o final da vigência da norma coletiva anterior e a 
superveniência da norma coletiva seguinte. Era um período sem norma coletiva. 
 
 
Tal modo de pensar, estreitamente inspirado no prazo de vigência das normas coletivas, 
revelou-se inconsistente pelas razões principiológicas e pragmáticas ora referidas, a que se somam 
mais três relevantes razões: 
a) o prazo de vigência das normas coletivas não é uma opção das partes convenentes, pois a lei 
brasileira impede que ajustem, como pareceria mais consentâneo com o princípio da 
liberdade sindical, a vigência por tempo indefinido (a cláusula de vigência é uma imposição 
do artigo 614, §3o, da CLT); 
b) a regra da ultra-atividade não impede que os interessados estabeleçam prazo para a eficácia 
de cláusula específica, pois assim se daria com a chancela da vontade coletiva e em caráter 
excepcional, sem contaminar a regra geral de que os direitos laborais tendem à expansão, não 
à estagnação ou ao retrocesso; 
c) a exigência de prazo de vigência para as normas coletivas pode ser vista sob a perspectiva de 
que, em verdade, o sistema positivado pela Consolidação das Leis do Trabalho pressupõe 
uma sequência ininterrupta de normas coletivas, ao regular a negociação coletiva de sorte a 
que a regência por esse tipo de norma jurídica não sofra solução de continuidade; para 
alcançar esse desiderato, o art. 616, §3º da CLT dispõe que a agremiação sindical instaure o 
dissídio coletivo “dentro dos sessenta dias anteriores ao respectivo termo final, para que o 
novo instrumento possa ter vigência no dia imediato a esse termo” e, cumprido tal prazo, a 
sentença normativa que se obterá no dissídio coletivo “vigorará a partir do dia imediato ao 
termo final de vigência do acordo, convenção ou sentença normativa” (art. 867, parágrafo 
único, alínea b, da CLT) – extrai-se, portanto, que o sistema de direito do trabalho não 
consente com o hiato jurídico, com a existência de um tempo sem norma coletiva de trabalho. 
Até setembro de 2012, a construção jurisprudencial que predominava era contrária à ultra-
atividade da norma coletiva. A bem dizer, a ultra-atividade não prevalecia ante a orientação 
jurisprudencial consagrada na antiga redação da Súmula 277 do TST, que limitava a eficácia das 
convenções e acordos coletivos, não apenas das sentenças normativas, ao seu respectivo período de 
vigência. 
Mas eis que sobreveio a Segunda Semana do TST, instituída com a finalidade de os ministros 
examinarem a possível existência de temas candentes da jurisprudência ainda não sumulados e 
também a atualidade dos fundamentos de algumas súmulas da jurisprudência trabalhista, selecionadas 
após a livre indicação dos próprios magistrados e também de advogados, procuradores do trabalho, 
professores universitários, entidades sindicais e patronais. 
Com base na orientação jurisprudencial que até então vigorava, uma convenção coletiva cujo 
prazo de vigência se esgotasse estaria revogada, ainda que norma coletiva posterior sequer existisse ou 
fosse omissa a respeito da conquista obreira prevista na convenção anterior. O prazo de vigência, que é 
uma exigência (a nosso ver censurável) da lei, transmudava-se assim em obstáculo intransponível à 
ultra-atividade da norma coletiva, gerando vazios ou retrocessos normativos como prêmio para o 
empregador que se negasse à negociação com o sindicato representante dos seus empregados, tudo em 
contraste com as regras e práticas das negociações coletivas que se operam em tantos outros países do 
ocidente. 
Estudando a matéria, Roberto Pessoa e Rodolfo Pamplona referem-se a Argentina, Bélgica, 
México, Paraguai, Venezuela e Uruguai como estados nacionais que adotam a ultra-atividade absoluta 
ou incondicionadaclxiii, ou seja, sequer haveria a possibilidade, nesses países, de uma norma coletiva 
posterior revogar a vantagem assegurada em convenção ou acordo coletivo de trabalho, possibilidade 
que está prevista no texto que foi agora atribuído à Súmula 277 do Tribunal Superior do Trabalho. 
 
 
A nova redação da Súmula 277 preconiza a ultra-atividade condicionada, ou seja, a prevalência 
da vantagem assegurada coletivamente até que norma coletiva posterior modifique ou suprima a 
cláusula normativa que a contemplava a citada vantagem em favor dos trabalhadores. Essa orientação 
harmoniza a jurisprudência brasileira com o entendimento que prepondera em países como 
Alemanhaclxiv, Holanda clxvi, Itáliaclxvii clxviii, além de resgatar a regra prevista, por 
algum tempo, no art. 1º, clxix
clxv, Espanha e Portugal
§1º da Lei 8.542/1992 . 
Por tais e importantes razões, a nossa impressão sempre foi a de que a Súmula 277 do TST 
merecia uma inversão de sinal que afinasse a jurisprudência brasileira com a orientação predominante 
entre os povos que prestigiam a vontade coletiva e sobretudo com a atual Constituição Federal, pois é 
induvidoso que ela valoriza os processos de negociação coletiva, enaltecendo a necessária observância 
das convenções e acordos coletivos de trabalho (artigo 7o, XXVI). Com absoluta coerência, 
prescreveu, porém e em seguida, uma limitação ao poder normativo da Justiça do Trabalho, em seu 
artigo 114, §2o.: “Recusando-se qualquer das partes à negociação coletiva ou à arbitragem, é facultado 
às mesmas, de comum acordo, ajuizar dissídio coletivo de natureza econômica, podendo a Justiça do 
Trabalho decidir o conflito, respeitadas as disposições mínimas legais de proteção ao trabalho, bem 
como as convencionadas anteriormente”clxx. Em suma: o direito assegurado em norma coletiva de 
trabalho está revestido de grau elevado de intangibilidade, a ponto de ser insusceptível de modificação 
pelo Poder Judiciário e ser vulnerável apenas a alteração que sobrevier mediante outra norma coletiva. 
Se a sentença normativa não pode reduzir ou suprimir conquistas obreiras asseguradas mediante 
convenção ou acordo coletivo, infere-se que essas normas coletivas são as que já tiveram exaurido o 
seu período de vigência, ou seja, aquelas que vigoravam até a última data-base, pois se elas ainda 
estivessem vigorando decerto não seria instaurado o dissídio coletivo. E, se a sentença normativa não 
pode infringir o conteúdo das convenções e acordos coletivos de trabalho, induz-se que esse conteúdo 
subsiste, obviamente subsiste.