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Logo, as melhores condições de trabalho asseguradas em convenção coletiva anterior não 
podem ser suprimidas mediante ação normativa do Estado (Poder Judiciário) ou pela ausência de 
negociação coletiva de trabalho. Somente uma nova convenção coletiva, nunca uma sentença 
normativa ou o vazio normativo, poderá reduzir direitos resultantes de negociação coletiva de 
trabalhoclxxi. 
Em verdade, a Seção de Dissídios Coletivos do TST vem emprestando ao art. 114, §2º da 
Constituição um alcance mais largo, uma intepretação teleológica mais consentânea com a intenção do 
poder constituinte, pois vem de proclamar a ultra-atividade das conquistas históricas da categoria, 
ainda quando a fonte do direito tenha episodicamente passado a ser não mais uma convenção ou 
acordo coletivo, e sim uma sentença normativa, como se pode extrair de aresto paradigmático: 
CLÁUSULA PREEXISTENTE. CONQUISTA DA CATEGORIA. A Constituição da República, 
no art. 114, § 2º, com a redação introduzida pela Emenda Constitucional nº 45/04, dispõe que no 
julgamento do dissídio coletivo de natureza econômica, pode a Justiça do Trabalho decidir o 
conflito, respeitadas as disposições mínimas legais de proteção ao trabalho, bem como as 
convencionadas anteriormente. Na hipótese, a garantia de emprego ao empregado portador de 
doença profissional ou ocupacional é um direito reconhecido à categoria, conquistado desde 1985, 
conforme revela a prova produzida nos autos. Nesse contexto, em que pese a norma coletiva 
imediatamente anterior possuir natureza heterônoma (sentença normativa), é plausível, do ponto de 
vista social e jurídico, a manutenção da cláusula de garantia de emprego que vem sendo 
convencionada ao longo dos anos pelas partes, constando, inclusive, nas normas coletivas 
autônomas celebradas individualmente com integrantes da categoria econômica, sobretudo quando 
se constata que os sindicatos suscitados postulam a exclusão sem apresentar razões de cunho 
econômico, social ou mesmo operacional que inviabilizem a manutenção do direito. Precedentes. 
Recurso ordinário conhecido e não provido (TST, Seção Especializada em Dissídios Coletivos, 
 
 
RODC 2010000-68.2008.5.02.0000, Rel. Min. Walmir Oliveira da Costa, julgado em 12/04/2010, 
DEJT 30/04/2010) 
Irresistível rematar que o entendimento contrário somente avultaria a posição desconfortável do 
trabalhador brasileiro, no início do terceiro milênio: inviabilizando-se a obtenção de condições mais 
justas de trabalho por meio de dissídio coletivo e se negando a sobrevigência das conquistas obtidas 
em conflitos coletivos precedentes, estar-se-ia estimulando o empregador à resistência, pura e simples. 
O empregador que não se oferecesse à negociação lograria obter a supressão das conquistas históricas 
da categoria obreira. 
Por isso, está a nova redação da Súmula 277 do TST a orientar: “As cláusulas normativas dos 
acordos coletivos ou convenções coletivas integram os contratos individuais de trabalho e somente 
poderão ser modificadas ou suprimidas mediante negociação coletiva de trabalho”. Em outras 
palavras: as cláusulas benéficas das convenções coletivas de trabalho seguem a regra geral de 
incorporar-se ao contrato, salvo se sobrevier condição ainda mais benéfica; à diferença, porém, do que 
sucede com outras normas trabalhistas, a cláusula normativa pode ser modificada ou suprimida, desde 
que o seja por norma coletiva posterior. 
5.3.2 Princípio da irrenunciabilidade 
Ao nada conduziria a fixação de salário e de jornada mínima, através de norma trabalhista, se 
aos sujeitos da relação de emprego fosse permitido ajustar aquele ou esta em dimensão menor. A 
impossibilidade de o empregado dispor do direito trabalhista é inerente, pois, à natureza deste, guarda 
pertinência com a ratio legis. Definida por Plá Rodriguez, a irrenunciabilidade vem a ser “a 
impossibilidade jurídica de privar-se voluntariamente de uma ou mais vantagens concedidas pelo 
direito trabalhista em proveito próprio”. 
Essa irrenunciabilidade é referida, às vezes, como indisponibilidade ou imperatividade. O 
caráter imperativo não é o da norma, porque toda norma o tem (enquanto ordem), mas concerne à 
peculiaridade de ser inderrogável (jus cogens) a norma trabalhista. Ao cogitar de indisponibilidade, 
parte da doutrina mantém a sua atenção voltada para a essência do princípio, porém lhe empresta 
maior amplitude, já que o direito indisponível não é apenas irrenunciável, mas igualmente 
insusceptível de ser objeto de transação. 
Renúncia e transação não se confundem mesmo. Aquela consiste em ato unilateral de 
disposição de direito incontroverso; esta, em ato bilateral que comporta o eventual sacrifício ou 
privação de direito controvertido. A controvérsia pode residir na existência do direito ou na ocorrência 
de seu fato gerador – dúvida haveria, por exemplo, sobre o direito a certo padrão salarial ou acerca de 
ter havido a prestação de trabalho que daria ensejo à remuneração. 
A distinção entre renúncia e transação pode ser mais bem percebida nos processos que tramitam 
perante a Justiça do Trabalho. Nestes, as partes são induzidas, sempre que possível, à conciliação, 
dada a natureza alimentar das prestações supostamente devidas pelo empregador ou, num pleonasmo, 
a premência de se prover alimentos. Ainda assim, o juiz deve recusar a homologação da proposta de 
acordo que importe renúncia, ante a certeza do direito e de seu fato gerador. Quando há incerteza sobre 
o direito ou quanto ao fato que o gera, opera-se a transação válida, apta a pôr fim ao litígio. 
Há mais, a propósito do princípio que ora analisamos: é bom ver que a mencionada 
indisponibilidade não tem o vício de consentimento como pressuposto necessário. Se pudéssemos 
imaginar que o direito do trabalho seria indisponível porque a vontade do empregado estaria 
presumidamente viciada, restaria sempre a opção da prova em contrário e, nesse caso, ressurgiria a 
eficácia dos contratos que malferissem os princípios que encerram a dignidade do trabalho humano. 
 
 
Assim, interessa perceber que o empregado não precisará provar que aceitara tal ou qual 
condição de trabalho porque cerceada a sua vontade, como ocorre em contratos paritários, no direito 
comum. No contrato trabalhista, a cláusula que previr aquém da garantia normativa é automaticamente 
substituída por esta garantia: a cláusula legal substitui a cláusula contratual. 
5.3.2.1. A indisponibilidade e a prescrição de pretensões trabalhistas 
A prescrição extintiva ou liberatória significa a inexigibilidade da pretensão quando o seu titular 
deixa escoar-se o prazo, estabelecido em lei, para deduzi-la em juízo. Difere da decadência porque o 
prazo previsto para esta inibe a constituição do direito, enquanto o implemento do prazo prescricional, 
sendo suscitado pelo devedor em processo judicial, inviabiliza o exercício do direito preexistente 
(mediante ação condenatória). 
Como são raros os direitos trabalhistas cujo nascimento depende de ação constitutivaclxxii, maior 
relevância tem, em nosso estudo, a prescrição trabalhista, especialmente aquela fundada no artigo 7o, 
XXIX, da Constituição, que, entre os direitos sociais do trabalhador urbano ou rural, prevê: 
[...] ação, quanto aos créditos resultantes das relações de trabalho, com prazo prescricional de 
cinco anos para os trabalhadores urbanos e rurais, até o limite de dois anos após a extinção do 
contrato de trabalho. 
A essa altura, poderia questionar-se o estudioso da ciência jurídica: não seria a prescrição 
trabalhista, sob o enfoque prático, a renúncia tácita de um direito irrenunciável? Se o direito 
trabalhista é indisponível e a sua inobservância faz nula a cláusula ou alteração contratual infringente, 
como compatibilizar a prescrição trabalhista com o axioma universal de que contra ato nulo o direito 
não prescreve? Duas regras são, aqui, inolvidáveis: 
I. A primeira