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regra é atinente ao aspecto de esses direitos imprescritíveis não 
impedirem a prescrição das prestações pecuniárias correspondentes. Por exemplo, o 
direito a alimentos é imprescritível, mas a pretensão para haver prestação alimentícia 
prescrevia em cinco anosclxxiii clxxiv e passa a prescrever em dois anos ; 
II. A segunda regra tem a ver com o grau de indisponibilidade que, a depender da 
origem, o direito trabalhista ostenta. Em vista disso, os juslaboralistas usam 
diferenciar a prescrição parcial (que alcança apenas as prestações exigíveis antes do 
prazo extintivo) da prescrição total (que atinge todas as prestações, inclusive aquelas 
com exigibilidade recente, caso a lesão tenha ocorrido antes do prazo liberatório). 
Em capítulo seguinte, reservado apenas ao tema da prescrição trabalhista, veremos que a 
indisponibilidade absoluta, que gera a prescrição apenas de parcelas exigíveis mais de cinco anos antes 
do ajuizamento da ação perante a Justiça do Trabalho, corresponde à lesão a direito previsto em lei. A 
indisponibilidade relativa, que corresponde à prescrição total, é concernente ao direito assegurado em 
outras fontes normativas, que na a estritamente legal. 
5.3.3 Princípio da continuidade 
A empresa, no mundo moderno, tem a propensão à continuidade. O empresário a quer 
duradoura, próspera, sempre lucrativa. Constituir uma empresa significa reunir e organizar os fatores 
de produção (matéria-prima, capital e trabalho) com vistas à produção de bens ou serviços. Portanto, o 
trabalho, ou melhor, a contratação de mão-de-obra vem a ser um elemento da empresa, como bem 
assentado por Evaristo de Moraes Filhoclxxv, litteris: 
 
 
A tendência do direito moderno faz-se no sentido de incorporar o contrato de trabalho ao 
organismo da empresa, na sua manifestação mais duradoura que é o estabelecimento. Deve-se esta 
transformação de ponto de vista ao direito do trabalho, já que o direito comercial do século XIX, 
muito preocupado com o lado patrimonial do estabelecimento, demorava-se mais na sua 
composição material, ou mesmo imaterial, mas sempre como coisa. Talvez em nenhum escritor 
daquela centúria poderemos encontrar os serviços expressamente colocados como elemento 
essencial da organização comercial ou industrial. 
A primeira noção é de conjunto. A organização que contém o contrato de trabalho como um de 
seus órgãos transfere a este algumas de suas características, entre estas a pretensão à continuidade. E, 
ainda nessa medida, é imperioso perceber que o direito do trabalho, vocacionado à proteção do 
trabalhador, não poderia olvidar a permanência, a conveniência de ser estável a relação jurídica que 
une empregado e empregador, na formulação de suas normas. 
Uma pioneira manifestação desse princípio da continuidade veio a ser a estabilidade no 
emprego, assegurada ao empregado brasileiro que contasse dez anos de serviço, na mesma empresa, 
até 1966 – a partir de 1967, a aquisição de estabilidade decenal era possível para os empregados que 
não optavam pelo regime do FGTS, não sendo mais possível (a aquisição da estabilidade decenal) 
desde quando editada a Constituição em vigor. É curioso notar que, no Brasil e fora do âmbito dos 
funcionários públicos, o direito à estabilidade surgiu em 1923, inicialmente em favor dos ferroviários e 
como forma de assegurar o provimento de fundos previdenciáriosclxxvi. 
Alguns autores, nacionais e estrangeiros, intitulam o princípio (da continuidade) como o da 
estabilidade, tal a relevância que dão ao direito de ser estável. Várias outras proposições e normas 
trabalhistas estão, porém, inspiradas no princípio da continuidade, algumas destas sendo enumeradas 
pelo professor Américo Plá Rodriguez: a preferência pelos contratos de duração indefinida; a 
amplitude para a admissão das transformações do contrato; a facilidade para manter o contrato, apesar 
dos descumprimentos ou nulidades em que se haja ocorrido; resistência em admitir a rescisão 
unilateral do contrato, por vontade patronal; a manutenção do contrato nos casos de substituição do 
empregador. 
Quando estudarmos as situações especiais em que se operam as alterações do contrato de 
emprego, a sucessão de empregadores, as causas de suspensão ou interrupção do contrato, os limites 
da alteração contratual e as restrições ao contrato a termo, será certamente dilucidada, inferida com 
ainda maior clareza, a importância do princípio em tela, a sua influência na elaboração da norma 
trabalhista. 
5.3.4 Princípio da primazia da realidade 
A lição é de Américo Plá Rodriguezclxxvii: “O princípio da primazia da realidade significa que, 
em caso de discordância entre o que ocorre na prática e o que emerge de documentos ou acordos, 
deve-se dar preferência ao primeiro, isto é, ao que sucede no terreno dos fatos”. Em suma, entre o que 
expressem os documentos e a realidade contrastante, prevalecerá sempre a realidade. 
Os exemplos podem ser em número expressivo. Mas podemos lembrar os contratos simulados 
de sociedade ou mesmo prestação autônoma de serviço, ou ainda a existência de contratos, 
igualmente forjados, de locação de veículo (com a inclusão de cláusula em que o locador se obriga a 
fornecer o motorista - dir-se-ia melhor: o trabalho do motorista). Quando, não obstante essa outra 
nomenclatura, nota-se a presença de todos os elementos distintivos do contrato de emprego (identificá-
los-emos ao estudarmos os sujeitos do citado contrato), a solução judicial acertada é o reconhecimento 
da relação empregatícia, assegurando-se ao empregado todos os direitos trabalhistas. 
Também no que concerne ao conteúdo (conjunto de prestações exigíveis) do contrato de 
emprego, não interessa saber se o empregado fora classificado como escriturário ou motorista. Se ele 
 
 
presta trabalho como digitador, legítima é a sua pretensão de ver equiparado o seu salário ao dos 
demais digitadores, por exemplo. 
O princípio da primazia da realidade é às vezes confundido com a teoria do contrato-realidade, 
esta última tendo sido proposta por Mario de La Cueva ao refletir sobre a natureza jurídica do contrato 
de trabalho. Vivia-se uma era de resistência à hegemonia do modelo capitalista e aos institutos que lhe 
eram afins, como a propriedade e o contrato. As teorias relacionista, sobretudo na Alemanha, e 
institucionalista, com origem na França, sustentavam o início da relação de trabalho a partir da 
incorporação do trabalhador no estabelecimento ou da adesão do trabalhador ao estatuto da empresa 
(instituição que, a exemplo de outras – família, igreja ou estado – pressupunha uma hierarquia e um 
estatuto), respectivamente. 
Essas teorias anticontratualistas não preponderaram, mas tiveram marcada influência na 
evolução do direito obreiro. A mencionada teoria do contrato-realidade surge como uma forma 
mitigada de se negar à relação de trabalho subordinado a origem em um contrato de natureza civil. 
Sustenta De La Cueva que o contrato de trabalho se aperfeiçoa quando se inicia a prestação laboral, e 
não ao tempo em que há o ajuste de vontades. Em pertinente passagem de sua obra, transladada por 
Plá Rodriguezclxxviii, elucida De La Cueva: 
A doutrina [...] não se fixou nessa característica do contrato de trabalho, que o distingue dos 
contratos de direito civil, e não se deu conta de que somente fica completo o primeiro pelo fato 
real de seu cumprimento, e de que é a prestação de serviço, e não o acordo de vontades, o que faz 
que o trabalhador se encontre amparado pelo Direito do Trabalho; ou dito em outras palavras, a 
prestação de serviço é a hipótese ou pressuposto necessário para a aplicação do Direito do 
Trabalho. 
Quando tratamos do princípio da primazia da realidade estamos em âmbito mais restrito. Já não 
mais nos ocupa a necessidade de indicar a natureza do contrato que dá origem ao vínculo de emprego, 
mas cuidamos de perceber, tão-somente,