A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
461 pág.
Carvalho_augusto_cesar_leite_direito_trabalho_versao003_dez2012

Pré-visualização | Página 35 de 50

quando o empregador pune de modo desigual um empregado em relação aos 
demais, que cometeram igual falta em idênticas circunstâncias e grau de participação. A doutrina e a 
jurisprudência trabalhista são pródigas na indicação de hipóteses em que o princípio da igualdade de 
tratamento merece ser referido. 
Por derradeiro, vale ressaltar, sob o escólio de Pinho Pedreiracxciii, que ao empregador cabe o 
ônus de provar o motivo justo que teria tornado lícita a desigualdade de tratamento, retirando-lhe a 
aparência de arbitrariedade; também que “o princípio do tratamento igual funciona somente em favor 
do empregado, jamais em benefício do empregador, constituindo um fator de alinhamento por cima. 
Não pode este exigir do empregado a devolução de uma prestação que os demais não receberam”. 
A bem dizer, o princípio constitucional revela um valor a ser alcançado, desafiando o Estado 
Democrático de Direito. Quando lhe atribuímos força normativa, apresenta-se o princípio não apenas 
como um item na pauta do legislador, mas sobretudo como uma meta a ser concretamente atingida 
pelos que atuam o direito positivo, sempre visando à sociedade ideal, mais justa e solidária. 
5.3.8 Princípio da autodeterminação coletiva 
As negociações coletivas de trabalho produzem normas trabalhistas e para tanto já mostravam 
talento mesmo antes de o Estado percebê-las. Ao despertar para a força da ação coletiva, o Estado 
reprimiu a atuação sindical, tolerou-a numa etapa histórica seguinte e, enfim, reconheceu a sua 
legitimidade. Mas houve tempo em que o regime fascista barrou o avanço do sindicalismo e o Estado 
nacionalista, por inspiração e obra de Benito Mussolini, disseminou-se em vários países, impondo ao 
sindicato a condição de órgão integrante de sua estrutura (estrutura estatal). 
O modelo fascista pressupunha o fim da luta de classes e, propondo então nova missão para o 
sindicato, dizia estar o mesmo apto à colaboração institucional entre capital e trabalho, subordinando-
se os interesses individuais e grupais aos interesses gerais da produção nacional e do Estado. Nascia o 
modelo corporativista italiano, adotado enfim pela comissão de procuradores do trabalho que 
 
 
elaborou a primeira versão de nossa CLT, especialmente na parte em que esta regula os conflitos 
coletivos. 
As ordenanças do governo militar aliado aboliram o ordenamento corporativo na Itália e o 
exemplo foi seguido pelas outras nações da Europa ocidental, tão logo teve fim a Segunda Guerra 
Mundial. Essa restauração da democracia sindical não ocorreu, porém e em sua plenitude, no Brasil, 
onde institutos como o monopólio da representação sindical, a contribuição compulsória ao sindicato 
único e o poder normativo da Justiça do Trabalho remanescem, denunciando a inspiração 
corporativista da nossa estrutura sindical. 
A doutrina e a jurisprudência têm reclamado, porém, uma nova organização sindical, em 
consonância com a liberdade sindical preconizada na Convenção n. 87 da OIT. Nessa medida, a 
Constituição editada em 1988 apresenta clara evolução ao prestigiar, em alguns de seus dispositivos, a 
negociação coletiva como mecanismo de solução dos conflitos trabalhistas que transcendem os 
interesses individuais dos trabalhadores, assim operando quando reconhece a validade das convenções 
e acordos coletivos de trabalho (artigo 7o, XXVI), autoriza a flexibilização da jornada e salário 
mediante concertação coletiva (artigo 7o, VI e XIII), enaltece a função conciliadora da Justiça do 
Trabalho e exige a precedência da negociação coletiva para que tenha curso o dissídio instaurado pelo 
sindicato obreiro ou patronal (artigo 114 e §§). 
Alguns autores invocam, porém, a nossa tradição – dir-se-ia de origem romano-germânica – de 
judicializar conflitos e regê-los por norma heterônoma, não devendo ser dócil o operador do direito do 
trabalho, no Brasil, à influência do costume anglo-saxão no sentido de remeter à via negocial toda e 
qualquer conquista obreira, suprimindo-se a instância judiciária. É eloqüente o trecho seguinte, 
extratado de artigo doutrinário subscrito pelo Ministro Orlando Teixeira da Costa, à época em que 
presidia o Tribunal Superior do Trabalhocxciv: 
O ideal, para esses arautos do contratualismo coletivo hodierno, é que não haja instituições 
jurídicas que visem à regulação de qualquer vínculo laboral, que as partes relacionadas pelo 
trabalho prescindam de qualquer presença estatal, por mínima que seja, que não exista nenhuma 
previsão de conduta para o estabelecimento de relações trabalhistas, pois, assim ocorrendo, melhor 
será para a livre atuação e para o predomínio daquele que dispuser objetivamente de hegemonia. 
Não se deve cogitar de interesses humanos, mas, tão-somente, de interesses econômicos, cuja 
preponderância identifica a tese em que se apóia: o materialismo capitalista. 
Pressupondo uma total liberdade de relacionamento, esquecem-se de que essas relações não são 
meramente simpáticas, mas se desenvolvem num clima formal, que exige comportamentos 
previsíveis. 
Eis o pensamento contratualista coletivo que se pretende (e já se está conseguindo) disseminar no 
Brasil. 
Intuímos, porém, que a negociação coletiva é imprescindível à adequação da norma às 
condições de trabalho novas ou advindas com a alta tecnologia, através da automação. Há necessidade, 
por vezes, de compatibilizar o salário, fixado à razão da quantidade de serviço, à produção maior 
obtida através da mecanização ou robotização do processo produtivo, eventualmente inadiável em 
vista da competição com empresas nacionais ou transnacionais que desenvolvem métodos mais 
avançados de produção. 
Ou, por outra, a negociação coletiva se faz útil para ajustar salário e jornada a tempos difíceis, 
em que a ameaça do desemprego pode ser atenuada com a colaboração do sindicato. Do mesmo modo, 
o progresso da tecnologia empregada em todos os setores da economia pode inovar condições de 
trabalho inusitadas, não regidas pela norma positivada mas carentes de regulação específica. Por 
exemplo, a maior produtividade nas atividades agrícola e pecuária obtida por uso da biotecnia, bem 
 
 
assim a transferência de informação através de modem ou telefonia móvel, que permite o controle do 
empregador à distância e, por igual, a realização do trabalho em local mais próximo do cliente ou da 
fonte produtora de matéria-prima. Todos esses avanços acontecem na área rural, na indústria ou no 
comércio, ocorrendo enfim no trabalho confinado em regiões inóspitas, em plataformas marítimas ou 
em locais de difícil acesso, com a venda mediante o teletrabalho ou o telemarketing etc. 
O que há de extraordinário na negociação coletiva, quando levada a termo pelo sindicato da 
categoria profissional (que congrega trabalhadores), é que a entidade sindical, diferente do empregado, 
não se encontra sob coação econômica, não teme a perda do emprego. O sindicato é o ser coletivo, que 
age impessoalmente em relação aos empregados, no confronto com o empresariado. Os dirigentes 
sindicais não podem ser despedidos, por emulação ou instinto persecutório, pelo empregador
cxcvi
cxcv e são 
livres para representar, a qualquer tempo e lugar, os interesses da categoria obreira . 
5.3.8.1 A autonomia coletiva e os princípios regentes da organização sindical. Unicidade sindical 
e liberdade sindical 
Não resta dúvida, contudo, quanto à necessidade de se liberar a organização sindical das 
amarras do modelo corporativista, o que certamente permitirá não somente a representação, mas 
sobretudo a representatividade dos sindicatos e, de conseguinte, será possível a estes intervir mais 
objetivamente na reordenação do método de trabalho em cada empresa ou segmento econômico. 
Há dois princípios que são, aparentemente, antinômicos, embora sejam normalmente referidos 
quando se estuda a estrutura sindical no Brasil. Estamos a tratar dos princípios da unicidade