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e da 
liberdade sindical. Em rigor, há, nessa dicotomia, uma necessária digressão semântica: dir-se-ia que a 
norma jurídica que regula a unicidade sindical (ou seja, não é permitido fundar mais de um sindicato 
para cada categoria e base territorial) descreve uma conduta e por isso estaria mais próxima do 
conceito de regra, não de princípio. A norma de textura aberta seria a liberdade sindical, ainda que por 
mal vezo – que também é nosso, por praticidade – denominamos um e outro de princípios. Sigamos, 
contudo, sem devotar maior atenção a essa importante distinção conceitual (princípio vs regra), dado 
que sem relevância para a análise a que ora nos propomos. 
Como pudemos verificar ao refletir sobre a origem do direito coletivo do trabalho, a unicidade 
sindical remonta a um tempo em que o modelo corporativista italiano, de caráter totalitário, negava o 
conceito de classe, subordinando os interesses individuais e grupais aos interesses gerais da produção 
nacional e do Estado. Ante o pressuposto de estar superada a concepção da sociedade com classes em 
eterno conflito, o corporativismo convertia os sindicatos em entidades de direito público ou, noutra 
perspectiva, transformava-os em entes privados que exerciam funções delegadas do Poder Público, 
sobretudo as de disciplinar a produção e o trabalho, bem assim a de arrecadar tributo – o imposto 
sindicalcxcvii - que o provesse de recursos financeiros indispensáveis à realização desse desiderato. 
O Decreto n. 19.770, de 1931, exigia a unicidade, a neutralidade e a nacionalidade dos 
sindicatos, impedindo que estes veiculassem a doutrina marxista – cuja vocação para a universalidade 
era uma ameaça ao regime que, como visto, também perseguia a totalidade – e extraindo do 
movimento associativo a característica, a ele tão própria, de congregar, naturalmente, trabalhadores 
predispostos ao combate das ações patronais que promovem o trabalho indigno, injusto, desumano. Se 
não contarmos o curto período de vigência da Constituição de 1934, que previa a pluralidade e a 
autonomia sindical, concluiremos que ordenamento jurídico brasileiro está, desde a década de 30, a 
impor a regra de o sindicato dever ser o único a representar uma dada categoria profissional, na base 
territorial que o seu estatuto delimitar. Assim se dá quanto à categoria profissional e, por igual, no 
tocante à categoria econômica, que reúne empregadores exercentes da mesma atividade econômica. 
A não ser nas hipóteses de categoria profissional diferenciada – em que o enquadramento do 
trabalhador depende da natureza do serviço por ele prestado –, desvenda-se a categoria a que pertence 
 
 
o empregado consultando-se a atividade econômica de seu empregador. Há, sempre, uma entidade 
sindical a representar os empresários que desenvolvem qualquer atividade, contrapondo-se a esse 
sindicato um outro, que representa empregados. Quando, do lado patronal ou dos empregados, a 
categoria não está organizada em torno de seu sindicato, representa-a a federação e, à falta desta, a 
confederação. A não ser nessa hipótese, à federação cabe a representação dos sindicatos (e não da 
categoria) e à confederação está adstrita a representar as federações. 
Até ser editada a Constituição de 1988, o sindicato devia ser, antes, uma associação 
profissional, que somente adquiria a investidura sindical – vale dizer, o direito de agir como sindicato, 
representando filiados, ou não, que integrassem a categoria – quando lhe era outorgada a Carta de 
Reconhecimento, pelo Ministério do Trabalho. Mesmo depois de se transformar em sindicato, a 
entidade sindical que agia em desacordo com a política oficial de governo podia sofrer intervenção do 
Estado. 
A Constituição em vigor não exige mais essa temporada como associação profissional e aboliu a 
necessidade de reconhecimento pelo Ministério do Trabalho para que se aperfeiçoe a investidura 
sindical, pois regula a matéria em seu artigo 8o, I, enaltecendo ser livre a associação profissional ou 
sindical, observado o seguinte: 
Art. 8º, I da CF – a lei não poderá exigir autorização do Estado par a fundação de sindicato, 
ressalvado o registro no órgão competente, vedadas ao Poder Público a interferência e a 
intervenção na organização sindical. 
Nota-se que a Carta de Reconhecimento não pode mais ser outorgada, formando-se o sindicato 
mediante o “registro no órgão competente”. Mas, a que órgão competente estaria o constituinte a 
referir-se? Seria o cartório de registro de pessoas jurídicas, que controla o registro de estatutos das 
sociedades civis? Ou seria o Ministério do Trabalho, que sempre possuiu o controle da unicidade, 
impedindo que novas entidades sindicais surjam para representar uma dada categoria, na mesma base 
territorial? 
Após polemizarem os tribunais e tratadistas, por alguns anos, a respeito desse questionamento, o 
Ministério do Trabalho editou sucessivas instruções normativas em que assumia a responsabilidade 
pelo Cadastro Nacional das Entidades Sindicaiscxcviii, embora a ressaltar, como o fez no intróito da 
Instrução Normativa n. 1, de 17 de julho de 1997, que o registro sindical, cujo controle ainda lhe cabe, 
é, como já decidiu o Supremo Tribunal Federalcxcix, um “ato vinculado, subordinado apenas à 
verificação de pressupostos legais, e não de autorização ou de reconhecimento discricionários”. 
Quando o requerimento de registro é publicado do Diário Oficial da União e alguma entidade 
sindical o impugna, reclamando a representação de empregados ou empregadores naquela base 
territorial, o Ministério do Trabalho nada decide (salvo quanto a regras de procedimento relativas ao 
encaminhamento da impugnação), aguardando que o Poder Judiciário, por provocação das partes 
interessadas, dirima o conflito. 
Sobre o princípio da liberdade sindical, insta reproduzir o teor da Convenção n. 87 da OIT, sem 
embargo de esta não ter sido ratificada pelo Brasil: 
Artigo 1º - Todo País-membro da Organização Internacional do Trabalho, para a qual esteja a 
vigor a presente Convenção, obriga-se a pôr em prática as seguintes disposições. 
Artigo 2º - Os trabalhadores e os empregadores, sem qualquer distinção e sem autorização prévia, 
têm o direito de constituir as organizações que julguem convenientes, assim como de se filiar a 
essas organizações, com a única condição de observar seus estatutos. 
Artigo 3º 
 
 
1. As organizações de trabalhadores e empregadores têm o direito de redigir seus estatutos e 
regulamentos administrativos, o de eleger livremente seus representantes, o de organizar sua 
administração e suas atividades, e de formular seu programa de ação. 
2. As autoridades públicas deverão se abster de toda intervenção que vise a limitar esse direito ou a 
dificultar seu exercício legal. 
Artigo 4º - As organizações de trabalhadores e de empregadores não estarão sujeitas à dissolução 
ou suspensão por via administrativa. 
Artigo 5º - As organizações de trabalhadores e de empregadores têm direito de se constituir 
federações e confederações, assim como de filiar-se às mesmas, e toda organização, federação ou 
confederação tem o direito de filiar-se a organizações internacionais de trabalhadores e de 
empregadores. 
Artigo 6º - As disposições dos artigos 2o, 3o e 4o desta Convenção aplicam-se às federações e 
confederações de organizações de trabalhadores e de empregadores. 
É comum se sustentar, com apoio na Convenção n. 87 da OIT, acima transcrita, que o princípio 
da liberdade sindical se expressa através da liberdade individual, da liberdade coletiva e da autonomia 
sindical. A liberdade individual é a de filiar-se ou não a sindicato e a de escolher o sindicato a que se 
filiar. Quanto à liberdade coletiva, têm-na os grupos de empregados e empregadores quando lhes é 
assegurado o direito de constituir novas entidades sindicais, aptas à defesa de seus interesses 
particulares. A autonomia