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sindical manifesta-se no poder, em que está investida a categoria, de 
estruturar internamente o sindicato, à sua conveniência. 
Podemos inferir do artigo 8o, II, da Constituição que a liberdade coletiva não está plenamente 
garantida, no Brasil, pois “é vedada a criação de mais de uma organização sindical, em qualquer grau, 
representativa de categoria profissional ou econômica, na mesma base territorial, que será definida 
pelos trabalhadores ou empregadores interessados, não podendo ser inferior à área de um Município”. 
Logo, os grupos sociais não podem constituir, livremente, novo sindicato que os represente, na mesma 
base territorial em que já sejam representados por sindicato anteriormente constituído. O controle da 
unicidade sindical cabe ao Ministério do Trabalho, conforme elucida a Súmula 677 do Supremo 
Tribunal Federal: 
Até que lei venha a dispor a respeito, incumbe ao Ministério do Trabalho proceder ao registro das 
entidades sindicais e zelar pela observância do princípio da unicidade. 
Esse rigor tem sido, porém, atenuado, pois o Supremo Tribunal Federal, não obstante exija o 
registro no Cadastro Nacional das Entidades Sindicais para que o sindicato adquira personalidade 
sindicalcc, tem reiterado que “a criação de novo sindicato por desmembramento de sindicato 
preexistente não viola o princípio da unicidade sindical, desde que respeitada a base territorial mínima 
de um município”cci. A permissão para que se reduza a base territorial alcança apenas as hipóteses de 
desmembramento, não afetando, portanto, os casos – mais delicados – de dissociação (art. 571 da 
CLT), em que empresas e respectivos trabalhadores estão concentrados em torno de atividades 
similares ou conexas e um de seus segmentos resolve descolar-se desse conjunto amorfo, para instituir 
novo sindicatoccii. 
Na mesma linha de mitigação da regra da unicidade sindical, o artigo 37, VI, da Constituição 
prescreve: “É garantido ao servidor público civil o direito à livre associação”. Como não há remissão 
ao artigo 8
cciii
o da mesma Carta Magna, dessume-se que a unicidade sindical não é exigida com o mesmo 
rigor no tocante à sindicalização de servidores públicos. Tratando da matéria, o Supremo Tribunal 
Federal decidiu que “a existência, na mesma base territorial, de entidades sindicais que representem 
estratos diversos da vasta categoria dos servidores públicos – funcionários públicos pertencentes à 
 
 
Administração direta, de um lado, cada qual com regime jurídico próprio – não ofende o princípio da 
unicidade sindical.” 
A última expressão da liberdade sindical é a que diz respeito à autonomia do sindicato para se 
organizar internamente. Vários foram os dispositivos da CLT que perderam fundamento de validade 
quando editada a Constituição em vigor, que veda ao Poder Público a interferência e a intervenção na 
organização sindical (artigo 8o, I). Há um preceito da CLT, o seu artigo 522, que teve, contudo, a sua 
eficácia restaurada em razão do modo abusivo como os sindicatos vinham investindo, em seus órgãos 
de direção, um número excessivo de empregados. A seu tempo, vamos estudar a estabilidade que o 
artigo 8o, VIII, da Constituição garante aos dirigentes sindicaiscciv. 
Deduz-se, portanto, que a unicidade sindical, para alguns indispensável na fase embrionária do 
sindicalismo brasileiro - ao tempo em que o seu oposto, a pluralidade, poderia dispersar os 
trabalhadores - e defendida por centrais sindicais e setores expressivos do patronato à época da 
Assembléia Nacional Constituinte (1988), está, hoje, a engessar a formação e a atuação dos sindicatos, 
nem sempre representativos. Dados estatísticosccv apresentados pelo IBGE, no final de 2002, 
informavam que apenas metade dos sindicatos realizavam negociações coletivas, não sendo ainda 
mais inexpressivo esse número em razão de 62% e 63% dos sindicatos atuantes nas regiões Sul e 
Sudeste, respectivamente, cumprirem a sua missão supostamente congênita, a de negociar para obter 
mais justas condições de trabalho. 
Há, portanto, quem sustente, por judiciosas razões, a possibilidade de o Judiciário brasileiro 
valer-se da textura aberta de nosso texto constitucional para promover uma necessária conciliação 
entre o princípio da liberdade sindical e a estrutura sindical em vigor no Brasil. Cristiano Paixão é 
enfático ao sustentar: 
É chegado o momento – ainda no campo do Direito Internacional e dos Direitos Humanos – de 
frisar um aspecto: o fato de a Convenção 87 ainda não ter sido ratificada pelo Brasil não significa 
que não possa vigorar, de forma efetiva, o primado da liberdade sindical no Brasil. Há várias 
normas internacionais em vigor, às quais o Brasil está vinculado, que versam sobre a organização 
sindical. Do conjunto dessas normas – e de suas relações com outros direitos humanos ligados ao 
mundo do trabalho – é possível concluir pela consagração, no plano internacional, da ideia de 
liberdade sindical.ccvi 
Concorre para esse desiderato, por igual, o fato relevante de a Organização Internacional do 
Trabalho, por meio da “Declaração da OIT sobre os Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho e 
seu Seguimento”, de junho de 1988, haver proclamado que: 
[...] todos os Membros, ainda que não tenham ratificado as Convenções, têm um compromisso 
derivado do simples fato de pertencer à Organização de respeitar, promover e tornar realidade, de 
boa fé e de conformidade com a Constituição, os princípios relativos aos direitos fundamentais que 
são objeto dessas Convenções, isto é: 
(a) a liberdade sindical e o reconhecimento efetivo do direito de negociação coletiva; 
(b) a eliminação de todas as formas de trabalho forçado ou obrigatório; 
(c) a efetiva abolição do trabalho infantil; e 
(d) a eliminação da discriminação em matéria de emprego e ocupação. 
Quando inclui a liberdade sindical entre os princípios que se revelam em uma das convenções 
fundamentais, a OIT lembra: a) que ao incorporar-se livremente à OIT, todos os Membros aceitaram 
os princípios e direitos enunciados em sua Constituição e na Declaração de Filadélfia, e se 
comprometeram a esforçar-se para atingir os objetivos gerais da Organização com o melhor de seus 
 
 
recursos e de acordo com suas condições específicas; b) que esses princípios e direitos se expressam e 
desenvolvem na forma de direitos e obrigações específicos em Convenções reconhecidas como 
fundamentais dentro e fora da Organizaçãoccvii. 
Se a unicidade sindical foi importante em um primeiro momento, porque assim se fortaleceram 
as entidades associativas que se formavam no conflagrado início do século XX, é certo, porém, que a 
herança do arbítrio estatalccviii, em cujo berço se forjou a ideia do monismo sindical, fez com que se 
preservassem associações sindicais forjadas por líderes políticos autoritários ou pelo próprio 
empregador, com o mal-disfarçado objetivo de neutralizar o espaço discursivo e reivindicatório que o 
sistema capitalista tolera, no ambiente empresarial. Soma-se ao peleguismo a criação de milhares de 
sindicatos, no Brasil, com o intuito pouco dissimulado de arrecadar a contribuição sindical – que seria 
obrigatória para todos os empregados e empregadores – ou, até há pouco tempo, indicar representantes 
classistas para a Justiça do Trabalho. 
Fato é, porém, que a unicidade sindical foi assimilada pela jurisprudência, como já visto, como 
uma regra constitucional a ser respeitada. São as chagas do corporativismo, ainda assim insuficientes 
para obscurecer a importância da negociação coletiva de trabalho, instrumento de solução dos 
conflitos coletivos que viabiliza a correção de injustiças e promove a adaptação da norma abstrata à 
realidade plural e complexa, prescindindo da intervenção estatal. 
5.3.8.2 A autodeterminação coletiva e a flexibilização do direito do trabalho. O princípio 
constitucional da proteção ao trabalhador 
Ao