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complementação de proventos, prescrita igualmente estará a pretensão de receber a 
diferença correspondente na previdência complementar. 
6.3.7 A prescrição total de pretensão reparatória. A actio nata e os fundamentos da Súmula 278 
do STJ 
Antes de a justiça laboral apreciar a matéria alusiva aos danos morais e materiais resultantes de 
acidente de trabalho típico ou de doenças relacionadas com o trabalho, fazia-o a justiça comum. É 
natural que os novos juízes se abeberem da experiência acumulada pelos juízes de antes, que 
enfrentaram o tema por longo tempo e aprofundaram a sua análise. 
 
 
Quando houve de decidir sobre o marco inicial da prescrição que se opera contra a pretensão do 
trabalhador acidentado de obter a reparação do dano sofrido em razão do acidente, o Superior Tribunal 
de Justiça editou, para pôr cobro a controvérsias, a Súmula 278 de sua jurisprudência, a saber: 
O termo inicial do prazo prescricional, na ação de indenização, é a data em que o segurado teve 
ciência inequívoca da incapacidade laboral. 
Na ocasião, o STJ fez expressa referência ao art. 178, §6º, II do Código Civil de 1916, que dizia 
prescrever em um ano “a ação do segurado contra o segurador e vice-versa, se o fato que a autoriza se 
verificar no país, contado o prazo do dia em que o interessado tiver conhecimento do mesmo fato”. O 
art. 206, §1º, II, b do Código Civil de 2002 prevê, em igual sentido, que o citado prazo de prescrição 
flui a partir da “ciência do fato gerador da pretensão”. 
De fato, os cinco precedentesccxliii
ccxliv. E quando aquela Corte foi provocada a propósito de o 
verbete de sua súmula ser aplicável apenas a questões previdenciárias, decidiu que assim não sucedia 
porque o enunciado era pertinente, por igual, às pretensões fundadas no direito comum, deduzidas em 
face do empregadorccxlv
 citados como embasamento para a edição da Súmula 278 do 
STJ cuidam de ações movidas em face de seguradoras contratadas por empregadores, porquanto elas 
tenham resistido à pretensão reparatória
. 
A compreensão da “ciência inequívoca da incapacidade laboral” como termo inicial do prazo de 
prescrição atende, portanto, à diretriz legal, atendendo igualmente ao senso jurídico e sobretudo lógico 
de que os prazos de prescrição devem iniciar-se na data em que nasce a pretensão (actio nata), nunca 
antes. Mas a transposição dessa regra para as hipóteses nas quais o devedor acionado não é mais a 
companhia seguradora, mas sim a empregadora que causou o dano ou implementou condição de 
trabalho cujo risco gerou a predisposição para o evento danosoccxlvi, deve realizar-se com algum 
temperamento. 
Não se questiona, porque incensurável, a adoção da regra que Savigny denominou actio nata, 
ou seja, a de o prazo de prescrição se iniciar com “o nascimento do direito de ação, provocado pela 
violação de um direito subjetivo”ccxlvii. É importante observar, inclusive, que a jurisprudência 
trabalhista tem afirmado, decerto influenciada pelo modelo hermenêutico nascido no Superior 
Tribunal de Justiça, que a actio nata para a pretensão reparatória, alusiva a dano resultante de acidente 
ou doença relacionada com o trabalho, é a ciência inequívoca do mal e sua extensão. A partir daí seria 
aplicada a prescrição cível ou trabalhista, a depender de a lesão consumar
ccxlviii
-se antes ou depois da 
Emenda Constitucional 45, de 2004 (norma que fixou, em definitivo, a competência da Justiça do 
Trabalho para decidir a matéria) . 
Mas, se é indefectível dizer que o prazo prescricional não pode iniciar-se antes de surgir a 
pretensão, talvez não se possa dizer, com a mesma ênfase, que a prescrição afetaria, nesse caso, mais 
que as prestações correspondentes (pensão mensal, reembolso de despesas médicas etc.), também o 
fundo do direito. É como perguntar: seria de aplicar-se o mesmo entendimento quando a pretensão é 
deduzida em face do agente causador do dano (não da seguradora) e o dano ainda perdura? É lícito 
compreender que a pretensão se resolve definitivamente após o prazo prescricional, contado da ciência 
inequívoca, quando a vítima investe, não contra a sociedade seguradora (que dano nenhum lhe 
causou), mas sim contra a empresa que lhe subtraiu, à expressão de Pontes de Miranda, algum dos 
“direitos necessários a realização da personalidade e à sua inserção nas relações jurídicas”ccxlix? 
Em outros dizeres, a mesma interrogação: a prescrição há de se consumar se a relação jurídica é 
de outra grandeza, sobrepujando os mais estreitos limites dos liames securitários, e o dano cometido 
não esgota instantaneamente a sua ação lesiva, dado que ela se protrai no tempo e continua a gerar 
inaptidão, às vezes novas sequelas físicas? A título de ilustração, os braços e pernas esmagados por 
prensas mecânicas podem causar lesão e desconforto progressivos, nascendo o interesse de reparação 
 
 
muito após a dor da amputação, ou somente quando a necrose ou apoptose do membro parcialmente 
perdido não for mais suportável. Dos males oriundos da absorção do amianto, pode-se dizer que o 
derrame pleural no mesotelioma é comum e recidivante, podendo ressurgir quando passados mais de 
cinco anos da primeira vez em que foi diagnosticado; os sintomas da placa pleural podem revelar-se 
entre três e trinta anos; os da asbestose, de quinze a quarenta anos, pois curtos ou longos, às vezes 
muito longos, são os períodos de latênciaccl, tudo a fazer variado e incerto o tempo do diagnóstico 
definitivo. 
E se a doença osteomuscular relacionada ao trabalho é agravada pelas condições de trabalho 
impostas ao empregado que já recebeu o inditoso diagnóstico de LER-DORT? A prevalecer a opinião 
de que o transcurso do prazo prescritivo, a partir da ciência inequívoca da patologia, faz prescrita a 
pretensão reparatória, imuniza-se o empregador que persevera na exposição do empregado aos fatores 
de risco que o fizeram adoecer, quando lhe devia oferecer terapia e procedimento de reabilitaçãoccli. 
Na relação entre a companhia seguradora e a empresa segurada, a responsabilidade gravita em 
torno de um contrato bilateral da classe dos aleatórios, sem conteúdo ou interesse que o faça 
contagiado pelos direitos da personalidade. Mesmo quando o empregado, como terceiro prejudicado 
na relação securitária, postula a indenização diretamente da seguradora, o vínculo que o liga à 
seguradora é de natureza processual, posto que ela se subrogue na obrigação atribuível ao empregador, 
esta sim uma obrigação que remete ao interesse de proteger a integridade física do trabalhador, ou 
seja, um interesse que toca ao desenvolvimento de sua personalidade, à sua capacidade de ser sujeito 
de direitos e realizar os atos da vida civil. 
A aparente impropriedade de conspurcar, mediante prescrição total, a pretensão reparatória 
deduzida em face do empregador tem, como se verá em seguida, três desafios, todos de ordem 
jurídica, a superar: a) a lesão aos direitos da personalidade, mesmo quando os compreendemos como 
direitos imprescritíveis que induzem pretensões sujeitas a prescrição, geram direitos subjetivos cuja 
exigibilidade não cessa enquanto perdura a sua vulneração; b) a ordem jurídica não respalda, em 
princípio, a ideia de lesões permanentes corresponderem a prazos de prescrição que se iniciem antes 
de cessada a permanência; c) há pretensões, relativas a despesas por tratamento de saúde ou 
pensionamento, que são oriundas de acidentes de trabalho e somente se tornam exigíveis mais de cinco 
anos após nascer a primeira pretensão reparatória, não parecendo razoável que elas nasçam prescritas. 
A nosso ver, há campo para uma mais detida reflexão sobre a matéria. 
6.3.8 A prescrição em hipótese de lesão a direitos da personalidade 
Conforme Francisco Amaral, os direitos da personalidade são imprescritíveis “no sentido de que 
não há prazo para o seu exercício. Não se extinguem pelo não uso, assim como sua