A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
461 pág.
Carvalho_augusto_cesar_leite_direito_trabalho_versao003_dez2012

Pré-visualização | Página 47 de 50

aquisição não 
resulta do curso do tempo”cclii. Para José Jairo Gomes, afirma
ccliii
-se usualmente “que o exercício tardio de 
direito da personalidade não obstaculiza sua eficácia, por isso ele seria imprescritível. Todavia, não é 
correto falar-se em imprescritibilidade nesse caso, haja vista que a prescrição pressupõe a existência 
de pretensão. Esta decorre da violação a direito subjetivo. Note-se, porém, que a pretensão de 
reparação de reparação de danos decorrentes da ofensa perpetrada contra direito da personalidade 
sujeita-se à prescrição, mas, nesta hipótese, o que prescreve é a pretensão surgida com a violação do 
direito” . 
Não parece adequada a afirmação, com viés absoluto, de que seriam imprescritíveis as 
pretensões atinentes aos direitos da personalidade. O que não decai é o direito mesmo à titularidade 
dos bens e valores inatos à condição humana e necessários à celebração de negócios jurídicos, como a 
vida, a integridade física, a intimidade, a honra, a imagem, o nome enfim. A pretensão, com índole 
patrimonial, de que se repare eventual lesão a algum desses direitos da personalidade está quase 
invariavelmente condicionada à prescrição. 
 
 
O mais preeminente desses direitos, o direito à vida, gera pretensão cível ou penal prescritível 
quando tentado ou consumado o delito de eficácia letal. O tempo faz inexigíveis as postulações 
concernentes a homicídios ou infanticídios, por exemplo. Outro aspecto é aquele que diz sobre tornar-
se inexigível a reparação quando o prazo prescritivo já fluiu inteiramente a partir do nascimento da 
pretensão, mas a vulneração do direito inerente à personalidade ainda não cessou. 
É o que sucede, a bem ver, quando o empregado ainda se submete a fatores de risco na empresa 
em que contraiu, segundo tem ciência há mais de cinco anos, alguma doença profissional ou 
relacionada ao trabalho. A sua integridade física, sem a qual estaria inapto aos atos da vida civil, 
continua sofrendo a lesão, mas a pretensão estaria, por estranha razão, prescrita. A pronúncia de 
prescrição no tocante às prestações exigíveis há menos de cinco anos comprometeria o caráter 
irrenunciável, que o art. 11 do Código Civil consagra, dos direitos da personalidade. Parece mais 
consentâneo conceber-se prescrita apenas a pretensão alusiva às prestações devidas mais de cinco anos 
antes da propositura da ação. 
6.3.9 A lesão continuada e o termo inicial da prescrição 
Há lesões instantâneas com resultados instantâneos, a exemplo da queda do alto de um andaime 
que causa dor física, nada mais. Há lesões instantâneas com resultados permanentes, como a queda do 
mesmo andaime que gera um defeito físico irreversível – pode significar a vulneração de um direito 
fundamental, matéria versada no subitem anterior, mas decerto não se cuida de lesão permanente ou 
continuada. Há lesões, enfim, que são permanentes, porque a ação ou omissão lesiva continua 
incidindo no tempo, mantendo o seu efeito danoso e por vezes o potencializando. 
Sobre o tema, o direito penal é ilustrativo: ao Supremo Tribunal Federal coube, não raro, 
distinguir crime permanente de crime instantâneo com resultado permanente, fazendo-o com a 
costumeira pertinênciaccliv. E o fez porque, quando a ordem jurídica regula o termo inicial da 
prescrição incidente sobre os atos ilícitos permanentes, tal sucede no âmbito do direito penal para 
então se estabelecer que “a prescrição, antes de transitar em julgado a sentença final, começa a correr 
[...] nos crimes permanentes, do dia em que cessou a permanência” (art. 111, III, do Código Penal). 
Há, a propósito, ementa elucidativa do Tribunal Federal da 3ª Região a explicar: “Crime 
permanente é aquele cuja configuração depende da contínua atividade antijurídica do sujeito ativo, 
cuja cessação enseja o restabelecimento do bem lesado. É o que se verifica nos exemplos 
paradigmáticos adotados doutrinariamente (seqüestro, cárcere privado)”cclv. Na parte que interessa, 
enquanto se realiza a conduta ilícita e o seu resultado lesivo, não corre prescrição. 
Situação próxima é, ainda, a que se refere aos danos ambientais, a cujo respeito assentou o STJ: 
“A continuada violação do direito de propriedade dos recorridos por atos sucessivos de poluição 
praticados pela recorrente importa em que se conte o prazo prescricional do último ato praticado”cclvi. 
O direito do trabalho deve não ignorar uma regra jurídica que guarda consonância com a lógica 
do razoável, com a equidade, com a inafastabilidade da atividade jurisdicional frente a violações ou 
ameaças a direito e, em especial, com a valorização da dignidade humana: a lesão que não cessa, 
enquanto não cessa, haverá de corresponder a uma pretensão imune à prescrição. 
6.3.10 A pretensão que sobrevém à sua própria prescrição – uma heresia jurídica? 
Os danos materiais resultantes de doenças relacionadas com o trabalho consistem em 
indenização que “além das despesas do tratamento e lucros cessantes até ao fim da convalescença, 
incluirá pensão correspondente à importância do trabalho para que se inabilitou, ou da depreciação que 
ele sofreu”, na forma do art. 950 do Código Civil. 
Quer nas hipóteses em que há lesão instantânea com efeitos diferidos, quer nos casos de lesão 
permanente, a circunstância de iniciar-se a prescrição quando o empregado tem ciência inequívoca do 
 
 
fato gerador rende ensejo a duas situações que podem criar algum desconforto intelectual, pois 
contrariam a própria regra da actio nata: a) a pensão mensal configurar-se-ia, ao menos em parte, uma 
prestação vincenda que, sendo exigida mais de cinco anos após o conhecimento da doença pelo 
trabalhador, prescreveria antes de a sua cobrança realizar-se; b) as despesas de tratamento que acaso 
sobreviessem ao quinquênio prescritivo seriam exigíveis somente quando a pretensão correspondente 
já estaria prescrita. 
O contraponto, quanto à pensão, é a sua exigibilidade desde a lesão ao direito, não obstante a 
sua cobrança deva produzir-se em momento posterior. Em suma, a faculdade de postular a pensão a 
partir da ciência da lesão faria condizente o início, desde logo, do prazo prescricional. Se é válido 
dizer, porém, que a pensão mensal supre a ausência de salário – ou seja, de prestação de natureza 
alimentar – conclui-se defensável a tese de que, à semelhança dos alimentos stricto sensu, prescreveria 
a pensão relativa aos meses que distassem mais de cinco anos da propositura da ação, não o fundo do 
direito. 
Mais grave é a possibilidade de o trabalhador acidentado não se interessar por deduzir logo a 
sua pretensão reparatória e, ante a despesa para tratamento que sobrevenha mais de cinco anos depois, 
ter que resignar-se ante a constatação de estar alcançado pela prescrição total o desejo de ser 
ressarcido. A gravidade reside no aspecto de a despesa haver surgido quando o direito inquestionável 
de reembolso já era inexigível, força de prescrição. 
6.3.11 Prescrição contra domésticos, estagiários e avulsos 
A prescrição é um dado necessário? Quando a lei é omissa, haverá o seu intérprete encontrar, 
ainda que por analogia, um prazo de prescrição contra a pretensão que, não sendo assim, far-se-ia 
imprescritível? Ao que parece, caminhamos para consolidar uma resposta positiva a esses 
questionamentos, decerto a pretexto de enfatizar a importância do princípio da segurança jurídica, que 
de resto estabilizaria as relações sociais. É possível ilustrar essa tendência com três exemplos, aqueles 
que tocam aos empregados domésticos, aos estagiários e aos avulsos. 
Os empregados domésticos, como está visto, estão excluídos da proteção da CLT e são regidos 
pela Lei 5.859/1972 e pelos incisos do art. 7º da Constituição a que faz remissão o parágrafo único 
desse mesmo dispositivo constitucional. Nenhuma desssas normas contempla a prescrição das 
pretensões trabalhistas dos empregados domésticos, mas isso não