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impediu que evoluísse a construção 
jurisprudencial segundo a qual se aplica, aos domésticos, o mesmo prazo prescricional de cinco anos, 
com término virtualmente antecipado ao final do segundo ano que se seguir à extinção do contrato, 
previsto no art. 7º, XXIX da Constituiçãocclvii. 
Os estagiários, por sua vez, não se apresentam, como regra, na qualidade de empregados e a lei 
que rege a sua prestação de trabalho, a Lei 11.788/2008, não prevê a prescrição de suas respectivas 
pretensões. Ante a ausência de norma específica, poderia o aplicador do direito optar por declarar 
imprescritível a pretensão trabalhista dos estagiários ou fazê-la regida pelas regras genéricas do 
Código Civil. Entretanto, tem-se preferido adotar aos estagiários, por extensão, os prazos de prescrição 
referidos no art. 7º, XXIX da Constituiçãocclviii. 
Algo semelhante ocorre aos trabalhadores avulsos, que não são empregados mas têm 
assegurada, no art. 7º, XXXIV da Constituição, a equiparação de direitos com os trabalhadores com 
vínculo empregatício. É de se quesionar: Seria justo que a eles se estendesse, não um direito, mas a 
sua inexigibilidade, a eles se aplicando, assim, a prescrição prevista no art. 7º, XXIX do texto 
constitucional para a pretensão de empregados? 
Na mesma linha do que sucede a domésticos e estagiários, mas agora com o argumento de que a 
isonomia entre trabalhadores avulsos e empregados seria ampla, o suficiente para que eles fossem 
contemplados com bônus e ônus que proviessem dessa igualdade de tratamento, a jurisprudência logo 
 
 
se firmou na direção de afirmar que os trabalhadores avulsos estavam submetidos à prescrição do art. 
7º, XXIX da Constituição. 
Em um primeiro momento, vigeu, quanto aos trabalhadores avulsos portuários, a orientação 
jurisprudencial n. 384 da SBDI 1: “É aplicável a prescrição bienal prevista no art. 7º, XXIX, da 
Constituição de 1988 ao trabalhador avulso, tendo como marco inicial a cessação do trabalho ultimado 
para cada tomador de serviço”. Mas esse verbete foi cancelado por deliberação do Tribunal Pleno do 
TST, após os debates travados em meio à Segunda Semana do Tribunal Superior do Trabalho (10 a 14 
de setembro de 2012). 
Em rigor, a matéria exige detida reflexão. É que os personagens da atuação nos portos precisam 
ser bem compreendidos. Em primeiro lugar, os operadores portuários são empresas (com mais rigor, 
são pessoas jurídicas) responsáveis pela movimentação de passageiros e mercadorias, bem como de 
armazenagem destas, na área portuária, sobretudo dos portos explorados ou concedidos pela União 
(portos organizados). Nessa condição, os operadores portuários se responsabilizam pela remuneração 
do trabalhador avulso, conforme regulam os artigos 1º, §1º e 18, IV da Lei 8630/1993. 
Os operadores portuários constituem o Órgão Gestor de Mão de Obra e ao OGMO, assim 
constituído, cabe treinar, habilitar, contratar, dirigir e, sendo o caso, punir o trabalhador portuário, 
responsabilizando-se por arrecadar a sua remuneração junto ao operador portuário e a repassá-la ao 
avulso (artigos 18 e 19 da Lei 8.630/1993). Logo, o vínculo se estabelece diretamente entre o 
trabalhador portuário e o OGMO, não com o operador portuário a quem o avulso presta serviço, ou 
com o tomador dos serviços enfim. 
Parece-nos que a tendência jurisprudencial, com clara sinalização a partir do cancelamento da 
orientação jurisprudencial n. 384 da SBDI 1, é a de abolir a prescrição bienal nos casos de trabalho 
avulso, salvo se considerado, como termo incial do biênio, a data em que cancelado definitivamente o 
registro do trabalhador no OGMOcclix. Enquanto se mantiver o registro no OGMO e a atuação do 
trabalhador avulso na área portuária, incidirá somente a prescrição de cinco anos, apesar da lesão. 
 
 
 
7 EMPREGADO 
Augusto César Leite de Carvalho 
7.1 O conceito de empregado a partir da realidade social 
O direito do trabalho está vocacionado à regulação do vínculo jurídico que, nos moldes 
alinhados ao sistema capitalista e à concepção de empresa, envolve a atividade do homem em processo 
de produção de bens ou serviços. Houve, por isso, quem procurasse conceber o trabalhador, regido 
pelo direito laboral, como aquele que pertencesse a uma determinada classe social. Em suma, seria 
protegido pelo direito do trabalho o integrante da classe dos trabalhadores. A inexatidão dessa ideia 
fora, porém, anotada com acuidade cirúrgica pelo autor mexicano Mario de la Cuevacclx: 
O conceito classe social [...] é de natureza político-econômica, não é de natureza jurídica e não 
está apto a explicar a categoria jurídica trabalhador. Ademais, não se compreende por que é 
preciso que, antes de se definir a existência de uma relação jurídica de trabalho, deva-se colocar a 
pessoa dentre de uma classe social. Na realidade ocorre o inverso, ou seja, a existência de uma 
relação de trabalho determinará que o trabalhador, na perspectiva da posição que ocupa no 
fenômeno da produção, inclua-se na classe trabalhadora. 
O critério, aqui como no México, haveria de ser o legal. Se era inviável identificar o destinatário 
da tutela trabalhista a partir do conceito de classe social, restava a alternativa de a lei lhe traçar o 
perfil, indicando quem seria, afinal, o trabalhador protegido pelo novo ramo do direito – numa frase: 
quem haveria de ser o empregado. 
É curioso observar que o fato de as leis trabalhistas, nos vários países ocidentais, visarem à 
proteção do mesmo segmento social, não resultou na adoção de um conceito úniforme. A definição 
legal na Espanhacclxi, por exemplo, enaltece a voluntariedade (ou o caráter contratual), a onerosidade, a 
alteridade (que no direito brasileiro é referida como elemento acidental) e a subordinaçãocclxii. 
Veremos, em seguida, como se definiu o empregado em nossa ordem jurídica. 
7.2 Conceito legal de empregado. Requisitos da prestação laboral 
Bem se vê que a relação jurídica é definida, inclusive quanto à sua norma de regência, por um 
de seus sujeitos, o trabalhador. No Brasil, o conceito de empregado está contemplado no art. 3o da 
Consolidação das Leis do Trabalho, litteris: 
Considera-se empregado toda pessoa física que prestar serviços de natureza não eventual a 
empregador, sob a dependência deste e mediante salário. 
Desse conceito legal se extraem os quatro elementos básicos da prestação de trabalho que 
servem à identificação do empregado. A saber: 
 da alusão à pessoa física se infere a pessoalidade; 
 na referência ao serviço de natureza não eventual um segundo e decisivo elemento, a não 
eventualidade; 
 a dependência ao empregador implica, como veremos adiante, a subordinação jurídica; 
 ao lembrar o salário, como contrapartida do trabalho, o legislador enfatiza a onerosidade 
como quarto e derradeiro pressuposto da prestação laboral que denuncia a caracterização do 
empregado e, via de conseqüência, da relação jurídica de emprego. 
O conceito legal de empregado identifica o destinatário da proteção trabalhista, já o dissemos. O 
que parte expressiva da doutrina reclama, contudo, é a aparente fossilização dessa diretriz legal, que 
ignora a atual existência de outros trabalhadores subordinados carentes de proteção jurídica, deixando-
 
 
os ao desamparo, ao tempo em que estende seu manto protecionista em favor de altos-empregados 
(gerentes, diretores técnicos etc.), aptos à livre negociação... Em meio a vários excertos doutrinários, 
sempre no mesmo sentido, conclui Robortellacclxiii: 
A tendência é substituir a noção única de subordinação por subordinações diferenciadas, com a 
conseqüente gradação protetora, inclusive quanto aos limites de derrogabilidade da lei estatal 
através de contratos coletivos. 
O grau de proteção deve centrar-se mais na debilidade contratual do que na intensidade da 
subordinação; a necessidade econômica e social é que determinará