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a impossibilidade de o empregado se fazer substituir 
por outro trabalhador sem a anuência, expressa ou tácita, do empregador, é elemento que domina na 
relação de emprego, ausentando-se somente em casos excepcionais. É esta, pois, a graduação do 
caráter essencial a que tanto nos referimos. 
7.2.2 A não eventualidade 
A doutrina tem enfatizado a distinção, que precisa ser recordada, entre não eventualidade e 
continuidade. O trabalho contínuo seria aquele desenvolvido a todo dia e hora, ressalvados os 
intervalos previstos em lei. A noção fundamental é o curso do tempo, ao exame da continuidade. 
Quando o propósito é o de verificar se a prestação de trabalho é ou não eventual, indaga-se, em vez 
disso, sobre sua causa. Tarso Genrocclxx observa que a prestação de trabalho eventual, como tudo o que 
é eventual, “carrega consigo duas características essenciais: depende de acontecimento incerto, de um 
lado, e, de outro, por isso mesmo, não pode ser previsto”. 
A incerteza do acontecimento que dá causa à prestação de trabalho (o rompimento inesperado 
da tubulação de água ou fios elétricos, a quebra inopinada de uma máquina etc.) e sua conseqüente 
imprevisibilidade (sob o prisma subjetivo) são lembradas em outras obras, destacando-se Martins 
Catharinocclxxi ao frisar, litteris: 
 Eventual significa casual, fortuito, que depende de acontecimento incerto. Mas, eventual em 
função de que e de quem? Do trabalho prestado por determinado trabalhador, ou da atividade do 
empregador? Eventualidade não é o mesmo que temporariedade ou transitoriedade. O empregado 
admitido a prazo (ver CLT, arts. 443 e 475, §2o) ou para trabalhar tempo reduzido não é, 
necessariamente, eventual. Assim ocorre, p. ex., com os empregados em experiência e os safristas 
[...], bem como com os contratados para trabalhar poucas horas por dia ou poucos dias por semana. 
Anota Catharino, em seguida, que não convergem, em direito comparado, as técnicas utilizadas 
para a verificação da não eventualidade. Critérios diferentes são adotados na Itália – onde “predomina 
o critério da descontinuidade ou da falta de profissionalidade do trabalho prestado por determinado 
trabalhador” – e no México e Brasil, países em que se segue o critério da natureza do trabalho em 
função da atividade da empresa. No Brasil, não eventual seria a prestação de trabalho reclamada para 
atender a necessidade normal ou permanente da empresa (o pintor na construção civil e o operador de 
caixa na casa bancária, mas também o enfermeiro permanentemente necessário aos serviços do 
ambulatório instalado na construção da fábrica e o motorista que serve ao gerente do banco, sem que o 
trabalhador não eventual, como já se sustentou, exerça ofício necessariamente voltado à atividade-fim 
da empresa). 
A orientação a que volvemos os olhos é sempre a mesma, sendo a seguinte a noção 
indispensável à compreensão da não eventualidade: a prestação de trabalho eventual é aquela que 
depende de fato incerto e imprevisto. Fora daí, estará presente um dos elementos essenciais do 
trabalho prestado na relação de emprego. 
Por fim, resta acentuar a diferença entre trabalhador eventual e o trabalhador intermitente, entre 
aquele e o trabalhador temporário, bem assim entre o citado trabalhador eventual e o trabalhador 
avulso, inclusive porque a este último o art. 7
cclxxii
o, XXXIV, da Constituição assegurou igualdade de 
direitos em relação ao trabalhador com vínculo empregatício . 
 
 
7.2.2.1 Distinção entre o trabalho não eventual e o trabalho intermitente 
Trabalhador intermitente ou adventício é aquele que presta serviço não eventual, mas 
descontínuo (os autores que designam a não eventualidade como continuidade evidentemente 
preferem referir o trabalho intermitente como periódico, em vez de descontínuo). São o safrista e o 
suplente, especialmente. 
Os trabalhadores safristas ou estacionários são, na lição de Orlando Gomes e Elson 
Gottschalkcclxxiii, aqueles “requisitados segundo as necessidades técnicas do estabelecimento; pela 
temporada (hotéis de turismo, cassinos, certos tipos de indústria, como a do sal); ou pelas estações do 
ano (colheita dos frutos, preparo e limpeza da terra)”. Os trabalhadores suplentes, à expressão dos 
mesmos mestres, são aqueles “que podem ser chamados para substituir o pessoal do quadro efetivo”, 
ou seja, os que ajustam contratos de substituição, provendo provisoriamente a vaga de empregados 
que se afastaram em razão de férias ou gozo de licença-gestante, por exemplo. 
 
7.2.2.2 Distinção entre o trabalho não eventual e o trabalho temporário 
O trabalhador temporário, por seu turno, é aquele regido, no Brasil, pela Lei 6019, de 1974, que 
o define como sendo “aquele prestado por pessoa física a uma empresa, para atender à necessidade 
transitória de substituição de seu pessoal regular e permanente ou a acréscimo extraordinário de 
serviços”. Cuida-se de hipótese em que a legislação brasileira, em caráter excepcional, admite a 
intermediação de mão-de-obra, permitindo que o empregador substitua o seu empregado efetivo por 
trabalhador recrutado através de empresa de trabalho temporário devidamente registrada no 
Departamento Nacional de Mão-de-Obra do Ministério do Trabalho. 
Na triangulação que se esboça entre o trabalhador temporário e a empresa de trabalho 
temporário e, no outro lado, entre esta e a empresa cliente ou tomadora do serviço, o polígono 
somente se forma quando, no caso de falência da empresa de trabalho temporário, advém a 
responsabilidade solidária da empresa cliente em relação aos créditos do trabalhador temporário. A 
não ser assim, cabe exclusivamente à empresa de trabalho temporário a responsabilidade pelo 
pagamento dos créditos do trabalhador, não havendo vínculo obrigacional entre o trabalhador 
temporário e a empresa cliente (art. 16 da Lei 6.019/74). 
O contrato entre a empresa cliente e a empresa de trabalho temporário tem vigência máxima de 
três meses em relação a cada empregado (salvo autorização do Ministério do Trabalho), será 
obrigatoriamente escrito e de seu instrumento constará expressamente "o motivo justificador da 
demanda de trabalho temporário, assim como as modalidades de remuneração da prestação de serviço" 
(art. 9o da Lei 6.019/74). 
A Lei 6.019/74 exige ainda que a condição de temporário seja registrada na CTPS do 
trabalhador assim contratado. Isso, porém, não o transforma em empregadocclxxiv. A nosso pensamento 
e não obstante o dissenso doutrinário e jurisprudencial, o trabalhador que presta serviço no 
estabelecimento de sociedade empresarial que não o contratara nem o remunera não se confunde com 
o empregado, salvo quando a empresa de trabalho temporário assim o contrata e o mantém em seus 
quadros permanentemente, para acudir a necessidade transitória de empresas clientes que se sucedem. 
A proteção a esse trabalhador, não sendo um empregado, é então dispensada pela citada Lei 6019 (o 
seu art. 12 enumera direitos) e, não há dúvida, pelo art. 7o da Constituição (não há mais controvérsia, 
portanto e verbi gratia, quanto a ser devido o 13o salário ao trabalhador temporário). 
 
 
7.2.2.3 Distinção entre o trabalho não eventual e o trabalho avulso 
Falta distinguir o trabalhador eventual do trabalhador avulso. O artigo 7o, XXXIV, da 
Constituição, ao assegurar “igualdade de direitos entre o trabalhador com vínculo empregatício 
permanente e o trabalhador avulso”, não converteu o trabalhador avulso em empregado, cuidando 
apenas de igualar direitos. 
Na prática, o trabalho avulso sempre foi compreendido como aquele que se realizava nos portos 
visando à carga e descarga das embarcações neles fundeadas. Como veremos adiante, a Lei 12.023, de 
2009, caracterizou como avulso também o trabalhador que faz o carregamento ou descarregamento de 
mercadorias em centros urbanos ou rurais, desde que o faça com a intermediação do sindicato que