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Assédio Moral no Local de Trabalho - Estudo FGV

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cada vez mais realçado, neste mundo dito pós-moderno, onde as organizações 
trazem promessas sedutoras e satisfação imediata. 
 
O mundo do trabalho foi palco de grandes mudanças no último século, seja no cenário 
organizacional, seja nas relações de trabalho, dentro das empresas. Estas mudanças 
impactaram a maneira de organizar o trabalho e conseqüentemente a vida das pessoas e 
estimularam o aparecimento novos tipos de sofrimento. Enriquez (1997b, p. 13) lembra que 
“os cadáveres, reais ou simbólicos, acumulados há gerações atestam a realidade muitas vezes 
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violenta da vida organizacional”. Nossa intenção, no entanto, não é dividir a história do 
capitalismo em um “antes”, marcado por um período idílico dentro das empresas, e um 
“depois”, marcado pela violência e pelo sofrimento. Ao contrário, desde o começo do 
capitalismo existem relatos de sofrimento dentro do trabalho, embora se possa afirmar que em 
muitos aspectos o mundo do trabalho se tornou mais humano e que o último século 
testemunhou efetivas melhorias nas condições de trabalho. Apesar destas tantas mudanças e 
melhorias, os bastidores das organizações mostram que para muitas pessoas a vida no trabalho 
ainda é fonte de muito sofrimento. Não estamos nos referindo ao sofrimento ocasional 
decorrente de conflitos esporádicos que ocorrem em ambientes de trabalho, nem de diferenças 
de opinião e menos ainda às simpatias ou antipatias entre colegas. Estamos falando de um 
sofrimento tão intenso que, para muitas pessoas, certas situações vividas dentro do ambiente 
de trabalho podem ter conseqüências comparáveis às sofridas por pessoas que passaram por 
traumas de guerra (vide LEYMANN e GUSTAFSSON, 1996) e, em casos extremos, podem 
levar ao suicídio. 
 
A violência no trabalho aparece, há vários anos, como objeto de inúmeros estudos. 
Especificamente no campo das Ciências Sociais, encontramos diversos estudos que já 
apontaram para como o trabalho pode ser fonte de sofrimento e de traumas psicológicos. Há, 
por exemplo, um trabalho pioneiro de Brodsky (1976) que estudou os efeitos de diversas 
formas de abusos sofridos por trabalhadores nos Estados Unidos. Mais tarde, no começo de 
1980, as pesquisas realizadas na Suécia pelo psicólogo Heinz Leymann identificaram e 
caracterizaram um tipo específico de violência, chamado psico-terror ou mobbing (assédio 
moral). Esta violência era diferente das outras observadas por não ser física nem sexual, 
embora, posteriormente, alguns pesquisadores (por exemplo, FREITAS, 1999; BARRETO, 
2005; HIRIGOYEN, 2001) assinalassem que o assédio moral pode ser causa ou conseqüência 
de uma situação de assédio sexual. Heinz Leymann foi o primeiro a identificar a temática do 
assédio moral, a lhe dar contornos científicos e distingui-la como um problema com 
características específicas, modo de evolução, causas e conseqüências típicos. 
 
Desde o final da década de 1980 o tema vem sendo intensamente pesquisado, especialmente 
na Europa, por cientistas da área de Psicologia. No Brasil, a temática do assédio moral 
debutou há poucos anos nos meios acadêmicos através do artigo de Freitas (2001) e do 
lançamento, no mesmo ano, do primeiro livro de Marie-France Hirigoyen. Neste livro ela 
desvenda um tipo de relação perversa que, por vezes, ocorre dentro de um relacionamento, 
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dentro das relações familiares ou mesmo em uma empresa e que, apenas com palavras, 
subentendidos ou através de “olhares” chega a destruir alguém. Em seguida o tema atraiu a 
atenção de pesquisadores da área da Psicologia e Administração, sendo a primeira dissertação 
feita por Barreto em 2000. 
 
Ainda que muita gente não se espante quando o assunto é assédio moral no trabalho, este tema 
surpreendeu pela rapidez com que ganhou a atenção tanto de acadêmicos quanto de jornalistas 
e do público em geral. Segundo Faulx e Delvaux (2005), existem poucos casos de conceitos 
científicos que tenham sido aceitos de maneira tão rápida pela sociedade. Como será 
detalhado na parte 3 desta dissertação, hoje em dia o tema é objeto de estudo de pesquisadores 
de inúmeros países do mundo, sendo realmente uma preocupação mundial. Apenas para 
ilustração, através de uma experiência que realizamos durante a confecção deste trabalho 
testemunhamos que, no espaço de 30 dias, - entre maio e junho de 2007 - 20 mil novas 
ocorrências sobre assédio moral apareceram no site de buscas Google, passando de 223 mil 
para 245 mil registros encontrados. Em outubro de 2007 já eram 400 mil ,ou seja, em menos 
de cinco meses o número de ocorrências aumentou em 80%. 
 
Desde que este tema surgiu no país, ele atraiu a atenção da mídia, tendo sido escritos 
inúmeros artigos sobre este assunto. Atenção redobrada recentemente pelo caso na cadeia de 
lojas Marisa (vide CRIVELLI, 2007) e pelos três suicídios de executivos da Renault na 
França (vide NETTO, 2007). Estes são dois casos que apareceram, entre muitos outros, em 
jornais e revistas não-acadêmicas e comprovam que este é um assunto que não interessa 
somente às pessoas envolvidas, mas a toda sociedade. 
 
Mesmo assim, ainda não há no país um estudo que sistematize a literatura disponível e reúna 
o que as diversas Ciências Sociais já descobriram sobre assédio moral no trabalho. Não 
obstante a proliferação de estudos dentro do país e fora, eles se encontram segmentados e 
espalhados por diferentes áreas do conhecimento (Medicina, Psicologia, Administração etc.). 
Não há, até o momento, outro estudo em português que integre os conhecimentos disponíveis 
sobre este assunto na literatura brasileira e mundial, expondo as dimensões estruturais que 
possibilitam o aparecimento e a presença deste fenômeno nas empresas e descrevendo seus 
efeitos. 
 
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Parece oportuno, portanto, construir um alicerce conceitual do que se entende por assédio 
moral no Brasil e em alguns países no mundo, estudando a evolução do campo, principais 
contribuições, diferentes abordagens e entendimentos, resultados, estatísticas, análise de 
causas e conseqüências, bem como possíveis medidas preventivas. 
 
Percebemos que este tema encontra-se em fase semelhante à observada por Freitas (1989) em 
relação à Cultura Organizacional e verificamos existirem as mesmas razões para a escolha 
deste tipo de dissertação: a) trata-se de uma discussão recente e pouco conhecida, nota-se 
ainda bastante confusão com outros temas, tais como dano moral e assédio sexual; b) as 
pesquisas e estudos realizados sobre o assunto encontram-se espalhados em diversas fontes, 
principalmente em artigos de revistas estrangeiras; c) grande parte das publicações ainda não 
está disponível no país e é pouco conhecida por pesquisadores brasileiros; d) a diversidade de 
perspectivas apresentada pelos estudiosos dificulta uma breve revisão bibliográfica; e, por fim 
e) o fato de termos conseguido reunir material amplo sobre o assunto. 
 
Assim, ao final deste trabalho pretendemos ter respondidas as seguintes perguntas: 
 
- Como apareceu o tema assédio moral no trabalho? Qual é a cronologia do seu 
desenvolvimento? 
-Quais são as principais definições, diferenças de opiniões entre os principais estudiosos deste 
assunto e quais são os seus limites conceituais? 
-Como diferentes países estão tratando este problema e quais são os resultados de suas 
pesquisas? 
-Segundo pesquisas realizadas até o momento, quais são as causas, conseqüências, perfil dos 
agressores e das vítimas e comportamentos abusivos mais freqüentes? 
-Como este tema se apresenta nas pesquisas brasileiras? 
-Qual é a posição da legislação no Brasil sobre assédio moral no trabalho? 
-Segundo pesquisas disponíveis, quais são as estratégias ou mecanismos que podem ser 
desenvolvidos de prevenção e combate ao assédio moral? 
 
 
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1. Justificativas deste estudo 
 
Empreender uma jornada como a que leva a construção de uma dissertação