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Assédio Moral no Local de Trabalho - Estudo FGV

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produtividade algumas empresas brasileiras passam por cima até do respeito às necessidades 
fisiológicas básicas como beber, comer, urinar, ou mesmo, nas palavras da pesquisadora “a 
necessidade de sentir que existe uma consideração, um respeito pelas exigências do corpo”. 
(p. 151) Neste sentido, a sua pesquisa, junto a trabalhadores industriais, mostrou que a 
dignidade destes trabalhadores era atingida a partir de situações derivadas do 
relacionamento com as chefias e de medidas disciplinares que impediam o atendimento de 
necessidades orgânicas básicas. “Exigências sentidas como desumanas e/ou humilhantes; 
expressões que atingem os valores viris; proibições de usar o banheiro... Tudo isto parecia 
se articular para “quebrar” as resistências, humilhando, “desfibrando” e trazendo a 
submissão.” (Seligmann-Silva, 1994, p. 163-164) Abramo (1986), pesquisando metalúrgicos 
de São Bernando em 1978, relata o desrespeito à condição humana contido no excesso de 
 
 
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trabalho, na exposição do corpo e na desconsideração com que são tratados os 
trabalhadores. Esta autora relata: 
 
nem o espaço do banheiro era preservado. O olhar sempre vigilante da chefia não 
hesitava em invadi-lo, humilhando o trabalhador, destruindo qualquer possibilidade 
de defesa contra o cansaço, assim como qualquer limite de privacidade [..] Na porta 
do banheiro tinha um buraco grande onde o chefe ia olhar o cidadão se ele estava ou 
não fazendo as suas necessidades fisiológicas. (ABRAMO, 1986, P. 109 apud 
SELIGMANN-SILVA, 1994, p. 115) 
 
Margarida Barreto fez uma abrangente e delicada dissertação sobre as humilhações sofridas 
dentro do ambiente de trabalho. Seu trabalho “Uma jornada de humilhações” (2000) é uma 
das grandes referências ao tema desta violência no país. A partir de uma pesquisa iniciada 
em 1996 com 2072 trabalhadores de 97 empresas de grande e médio porte do ramo químico 
e plástico de São Paulo, ela denunciou um ambiente de trabalho repleto de medo, a 
reprodução da violência entre os colegas e os transtornos da saúde mental e física, o 
aumento do uso de drogas, a desistência do emprego e pensamentos suicidas, devido à 
exposição cotidiana dos trabalhadores e trabalhadoras a “uma jornada de humilhações”. 
Nesta pesquisa, ela descobriu que 42% dos trabalhadores entrevistados mencionavam 
vivência de situações de humilhações. Para esta pesquisadora a humilhação é patogênica, 
constitui risco à saúde e se inscreve nas relações autoritárias de poder, fortalecendo a 
inclusão pela exclusão. Esta pesquisadora, descrevendo as violências sofridas pelos 
trabalhadores entrevistados diz: 
 
as repreensões e ironias, discriminações e rebaixamentos, dominam a jornada, tornando-se 
públicas aos olhos dos colegas. O sentimento de traição e estranheza toma conta do 
adoecido. Já não reconhecem o que julgavam “ser seu” e o indivíduo flexível é “quebrado” 
emocionalmente, deixados ao abandono e sem forças de reagirem, sentem medo. (2000, p. 
161) 
 
Em outra parte deste trabalho, Barreto relata o que acontece com alguns trabalhadores 
quando voltam das licenças por motivos de saúde, eles: “são submetidos a brincadeiras que 
magoam pelas características depreciativas “é isto aí nós trabalhando e você numa boa” ou 
“ta ganhando sentado ein!” ou, “quer que eu te dê água na boca”[..] são falas como estas que 
ferem a dignidade gerando sofrimento e decepção.” (2000, p. 106).. a autora já denunciava o 
assédio moral, embora no país o termo ainda não fosse conhecido, ela relata que: 
 
 
 
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o sofrimento estampava-se nos gestos, nas lágrimas, nas falas, no silêncio às vezes 
prolongado, quando explicitavam as relações existentes no trabalho, em que as situações de 
humilhações eram freqüentes. A descoberta da unilateralidade de sua “devoção e 
sentimentos” à empresa após a humilhação sofrida instituía novas emoções como: o medo, 
tristeza, mágoa, ódio, raiva, revolta, vergonha, indignação, inutilidade e desvalorização, 
gerando em muitos a vontade de vingança, depressão e tentativas de suicídio. (2000, p. 124, 
grifo nosso) 
 
Esta pesquisadora também relata exemplos em que o assédio é dirigido contra o corpo físico 
e onde há diferenças entre os atos cometidos contra homens ou mulheres. Ela relata a 
história de uma trabalhadora negra que conta que: 
 
teve um dia que eu me senti muito humilhada no setor. Eles não deixaram eu ir no 
banheiro! Eles diziam que o banheiro era para fazer as necessidades em alguns 
minutos e voltar. E que eu demorava muito e isto prejudicava a 
produção.(BARRETO, 2005, p. 154) 
 
Assim, através de inúmeros relatos a autora vai desnudando as humilhações freqüentes, ela 
diz: 
 
a atitude de reduzir o outro com piadas, risos e sussurros é causa de angústia e medo que 
acentua o sofrimento. O rebaixamento repetitivo, a indiferença e menosprezo revelam um 
ambiente hostil e estranho que podem ser a causa de depressão e reafirmação da inutilidade.. 
Os laços de amizade e solidariedade se fragmentam, sentem-se excluídos e desprezados o 
que ocasiona grande tensão psicológica (BARRETO, 2000, p. 173 e 174, grifos nossos) 
 
Como já se pode notar, as falas mencionadas nestes trabalhos já trazem muitos exemplos de 
situações de assédio moral, de seus efeitos e já denunciavam vários exemplos de 
desrespeito, falta de solidariedade entre colegas e humilhações, embora neste momento este 
tema ainda não tivesse sido caracterizado no país. Além disto, estes relatos sugerem nuances 
culturais na maneira como as situações de assédio moral se apresentam no Brasil. 
 
No ano seguinte à defesa de Margarida, o artigo “Assédio moral e assédio sexual: face do 
poder perverso nas organizações” (Freitas, 2001), inspirado nas pesquisas conduzidas na 
França, inaugurou o uso do termo assédio moral no Brasil, contextualizando-o ao ambiente 
organizacional e social que vivemos, e relacionando-o, por exemplo, com os índices de 
desemprego. Freitas (2001) explicou que o assédio moral nas organizações nasce de forma 
insignificante e propaga-se pelo fato das vítimas não quererem formalizar a denúncia, 
deixando passar as insinuações e chacotas, regularmente acuadas e colocadas em estado de 
inferioridade, levando à queda na sua auto-estima. Neste mesmo trabalho, a autora denuncia 
 
 
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que o assédio só se torna possível porque é precedido de desqualificação da vítima, o que 
é aceito em silêncio ou endossado pelo grupo. Neste mesmo ano, o primeiro livro de 
Hirigoyen era lançado no país, ajudando a disseminar o conceito e estimulando os debates 
sobre este assunto. 
 
Alguns autores, tais como De Paula (2003), trouxeram a discussão do assédio para o campo 
das lideranças narcisistas. Para esta autora, o agressor-narcisista procura uma vítima da qual 
possa absorver a vida, extinguindo toda a sua libido, inclusive seu desejo de reagir. Segundo 
esta autora, as vítimas preferenciais costumam ser pessoas plenas de vitalidade, mas que 
temem a desaprovação e têm tendência a se culparem. Por outro lado, Freitas (2001) afirma 
que a perversidade não provém de problema psiquiátrico, mas de uma racionalidade fria, 
combinada a uma incapacidade de considerar os outros como seres humanos. Para esta 
autora, as agressões reanimam um processo inconsciente de destruição psicológica 
constituído de procedimentos hostis (evidentes ou escondidos) de um ou vários indivíduos, 
na forma de palavras sem significados, alusões, sugestões ou mesmo não-ditos, que 
efetivamente podem desestabilizar alguém, ou mesmo destruí-lo sem que os que o cercam 
intervenham. 
 
Heloani (2004) mostra que o fenômeno é muito mais complexo, ele diz que em uma 
sociedade baseada na fraternidade, o assédio moral não existiria, ou se restringiria a 
patologias individuais. Para este autor, o assédio é resultado de valores sociais que 
incentivam a competitividade,