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Assédio Moral no Local de Trabalho - Estudo FGV

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que minam o altruísmo e a generosidade. Freitas (2007b) 
lembra que o capitalismo tem esquecido que uma parte necessária de seu desenvolvimento e 
expansão é resultado da cooperação. Segundo esta autora, sem a cooperação, a competição 
torna-se mortífera e nefasta, podendo matar as próprias empresas e o ambiente onde operam. 
 
A partir de 2004 vemos que se multiplicam os trabalhos sobre este tema no país. Alkimin 
(2005) descreve de maneira muito clara e concisa o processo que acomete o trabalhador 
assediado como sofrendo: 
 
agressões reiteradas e sistemáticas, visando hostilizá-lo e isolá-lo do grupo, comprometendo 
sua identidade, dignidade pessoal e profissional, refletindo na perda da satisfação no 
trabalho e conseqüente queda na produtividade, além dos danos pessoais à vítima que 
somatiza e reverte em dano à saúde mental e física, acaba gerando, consequentemente, 
incapacidade para o trabalho e afastamento, desemprego e até o suicídio. (p. 45 e 46) 
 
 
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Não encontramos muitas pesquisas de campo destinadas a calcular a incidência deste 
fenômeno na sociedade brasileira – os únicos trabalho encontrados foram feitos por Barreto 
(2005), Scanfone e Teodósio (2004), Soboll (2006), Martiningo Filho (2007) e Guimarães 
et. al (2007). Por outro lado, os estudos feitos no Brasil buscam compor a amostra com 
funcionários de empresas privadas e pessoal administrativo, ao contrário do que acontece 
nas pesquisas fora do Brasil, onde muitas vezes a amostra era composta por enfermeiras, 
médicos e funcionários públicos (mas não de áreas administrativas). 
 
A propósito das pesquisas de campo encontradas no país, Scanflone e Teodósio (2004) 
apresentaram um estudo de caso feito com funcionários de uma agência bancária na cidade 
de Belo Horizonte. Elas concluíram que o assédio moral é um fenômeno presente e 
percebido pelos indivíduos da organização, porém poucas ações são realizadas no sentido de 
contê-lo ou minimizar seus efeitos. Estas pesquisadoras descobriram que 63% dos 
entrevistados pouco ou nada sabiam sobre o assédio moral e que muitos que diziam ter 
conhecimentos sobre assédio moral desconheciam que elementos como a perversidade, a 
repetição, a sistematização e a intenção de destruir o outro façam parte deste quadro de 
violência. 
 
Aguiar (2003) analisou juridicamente a ocorrência deste fenômeno através de estudo de 
cinco ações judiciais na Bahia e dos resultados destes processos. Sesso (2005) seguindo o 
mesmo caminho abordou este tema também pela ótica da jurisprudência, analisando a 
opinião dos juízes em seus pareceres judiciais de seis processos de assédio moral ocorridos 
no país. 
 
A tese de doutorado de Barreto (2005) tratou exclusivamente do tema assédio moral. Esta 
pesquisadora fundamentou suas conclusões a partir da análise de 2480 questionários e 20 
entrevistas (conversas clínicas) com vítimas. Ela definiu assim o assédio moral: 
 
uma forma sutil de violência que envolve e abrange múltiplos danos tanto de bens materiais 
quanto moral, no âmbito das relações laborais. O que se verifica no assédio é a repetição 
que viola intencionalmente os direitos do outro, atingindo sua integridade biológica e 
causando transtornos à saúde psíquica e física. Compreende um conjunto de sinais em que se 
estabelece um cerco ao outro sem lhe dar tréguas. Sua intencionalidade é exercer o domínio, 
quebrar a vontade do outro impondo término ao conflito quer pela via da demissão ou 
sujeição. (p. 49) 
 
 
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Contrariando aqueles que analisam o fenômeno como resultado da interação entre dois 
atores, Barreto (2005) afirma que o assédio moral está apoiado no poder coercitivo em que o 
“núcleo de sustentação é constituído pelo medo, a humilhação e o silêncio imposto... 
evitam-se explicações ou mesmo soluções na medida em que predomina entre os líderes 
uma atitude de fuga e, entre os pares, o pacto do silêncio e tolerância que rompe com as 
amizades.” (p. 179) Ela recusa as simplificações deste fenômeno que julgam se tratar de um 
fenômeno resultante da ação de um indivíduo perverso, ela diz que “Nas centenas de relatos 
que ouvimos, não há distúrbios psiquiátricos ou comportamentos narcísicos naqueles que 
assediam. Ao contrário, há racionalidade planejada e poder em ação [.. ]O que está em jogo 
é o lucro e as vantagens pessoais” (BARRETO, 2005, p. 17, grifo nosso) Em outra parte, ela 
novamente contesta a idéia de que o chefe tem uma personalidade narcísica, autoritária, 
invejosa e insegura e resgata a responsabilidade das empresas, segundo ela “a patologia 
individual daqueles que humilham é alimentada construída e fortalecida cotidianamente pela 
instituição que o produz.” (BARRETO, 2005, p. 181) 
 
Algumas ações descritas por Barreto parecem ser exclusivas da cultura brasileira, dado que 
não encontramos em outras pesquisa relatos deste tipo de humilhações, “desde a revista a 
saída da empresa, obrigando-as inclusive a se despir como usar polígrafo para detectar 
“falsas” informações. Usam ainda a prática humilhante de acusar de roubo quando querem 
demitir sem direitos um trabalhador, criam listas contra aqueles que entraram na justiça e 
denunciam desmandos.”(2005, p.33) Outra maneira em que este fenômeno aparece no país é 
“o cerceamento da livre ação associado ao controle rígido, muitas vezes ultrapassa o 
intramuros, alcançando os trabalhadores afastados, quer por doença ou acidente de 
trabalho”. Sobre as visitas domiciliares das assistentes sociais da empresa ela conta que 
“apesar da aparência ingênua, cuidadora e humanitária, está copiosamente sustentando por 
força e vigor na medida em que o outro se sente invadido, solitário e impotente, ante tal 
visita que invade a sua casa.”(2005, p. 34) 
 
Sobre outras formas de “humilhar”, rebaixar e ridicularizar os funcionários, esta pesquisa 
descreve a perversidade que esta ação pode atingir no Brasil. Uma empresa de bebidas de 
Manaus quando profetizava que um trabalhador era incompetente lhe dava 
 
 
 
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como recompensa um bode. [O trabalhador] deveria levá-lo para sua residência, cuidar do 
animal, para não emagrecer ou morrer. Independente das circunstâncias ou conseqüências 
que pudessem acontecer ao bode, o trabalhador seria multado. Os colegas, amigos, vizinhos 
e toda a comunidade olhavam esse ato profano e, de alguma forma, testemunhavam a 
“inabilidade” do trabalhador improdutivo. Muitos passavam a ridicularizá-lo, enquanto o 
trabalhador, cabisbaixo e envergonhado, arrastava pelas ruas o seu descrédito, incorporado e 
estampado na punição em forma de prêmio imposto. (2005, p. 35) 
 
Um caso de assédio moral ocorrido no país mostra como este pode ter efeitos nefastos sobre 
a saúde física, psíquica e familiar da vítima e mostra também como algumas empresas 
tratam seus funcionários como meros objetos, que não precisam sequer de explicações para 
uma demissão: 
 
um executivo do ramo químico, após anos trabalhando em uma grande empresa, foi 
demitido ao retornar de suas férias, sem qualquer explicação que o fizesse 
compreender as causas que determinavam o ato. Contou-nos que ao chegar à 
empresa, o segurança lhe informara que se dirigisse ao departamento pessoal. Ainda 
sem saber o que o aguardava, foi escoltado e logo depois dispensado sem grandes 
esclarecimentos. Tomaram-lhe o crachá, o notebook e as chaves do carro. Esvaziado 
do contato com o real, sentindo-se traído e sozinho, afastou-se envergonhado, sob o 
olhar interrogativo dos colegas. Foi tomado pela necessidade de fugir de si, da 
família, dos amigos. E assim, perambulou sem rumo até encontrar o primeiro ônibus 
que passava. Terminou em outro município, ao final da tarde. .. Com as idéias 
confusas, entrou no primeiro botequim que avistara e após algumas horas, estava 
alcoolizado. Em desarmonia consigo, desentendeu-se com os presentes e terminou 
seu dia numa