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Assédio Moral no Local de Trabalho - Estudo FGV

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podem gerar conflitos entre os 
funcionários efetivos e os prestadores de serviços, criando um ambiente de primeira e 
segunda classe para algumas categorias, o que estimula humilhações e exclusões. 
 
Além destas mudanças a autora menciona também que expatriações feitas de forma 
descuidada podem colocar os profissionais em situações de risco pessoal e profissional, 
tornando-os alvos fáceis para uma situação de assédio. Luna (2003) menciona os problemas 
relacionados com a crescente mobilidade dos trabalhadores, ele diz que a mobilidade 
geográfica também pode ser um fator que eleva as possibilidades de desencadeamento deste 
fenômeno na organização, pois aumenta o isolamento social, repercute negativamente no 
âmbito familiar e diminui significativamente as possibilidades de receber apoio social, tanto 
no ambiente de trabalho quanto fora deste. 
 
 
2.3 Fatores societais 
 
Nos itens anteriores analisamos as contribuições encontradas na literatura sobre as causas 
individuais e organizacionais que estariam estimulando o aparecimento de assédio moral no 
ambiente de trabalho, mas é preciso lembrar que as causas podem estar relacionadas 
também com as mudanças que ocorrem dentro da sociedade. 
 
Na primeira parte deste trabalho detalhamos as mudanças que ocorreram no capitalismo nos 
últimos anos, a liberalização dos mercados e a crescente pressão por mais e melhores 
resultados, defendemos que estes fatores levaram ao aumento da pressão dentro das 
 
 
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empresas e, consequentemente, ao aumento no número de casos de assédio como uma das 
maneiras de lidar com a pressão e como uma das maneiras de se livrar de trabalhadores. 
 
Alguns autores (por exemplo, HELOANI, 2004 e 2005; DARCANCHY, 2006) mencionam 
as exigências relacionadas com a globalização como uma das grandes propulsoras das 
situações de assédio moral. Vandekerckhove e Commers (2003), por sua vez, embora digam 
que as causas e circunstâncias facilitadoras do assédio possam ser atribuídas às atuais 
mudanças organizacionais, que acontecem dentro do contexto da globalização, defendem 
que não se pode atribuir as causas deste problema ao contexto da globalização. Para eles, 
problemas organizacionais não assediam empregados, pessoas, sim. Segundo eles, a culpa 
não recai sobre as mudanças organizacionais, mas sobre a transformação inadequada de 
poder e liderança como reação a estas mudanças. 
 
Neuman e Baron (apud SALIN, 2003b) enfatizam que a atual cultura da “sobrevivência do 
mais forte”, a pressão constante por eficiência violam as velhas noções de contratos 
psicológicos entre trabalhadores e empresários e “resultam em um ambiente onde a 
hostilidade e o comportamento agressivo é a norma, não a exceção” (p. 25 tradução nossa) 
Heloani (2004, p. 2) defende que a violência reflete “tal como uma imagem no espelho, as 
formas de poder constituídas socialmente. Se for certo que o furor expansionista do capital 
conquistou-nos financeiramente, é também exato que nesse processo de expansão 
comprometeu-se o nosso discernimento, ou melhor, nossa saúde moral.” Para este autor o 
assédio é: 
 
fruto de um processo cada vez mais intenso de globalização, de automação fabril, de 
informatização nos serviços e de agilização no processos, a hipercompetitividade é um 
fenômeno recente, que vem chegando ao Brasil e, efetivamente, estimula a 
instrumentalização do outro (HELOANI, 2004, P. 2) 
 
Assim não só as mudanças alteram o clima organizacional e estimulam a 
“instrumentalização” do outro (usando um termo caro a Heloani), mas também afetam 
profundamente a capacidade de alguém sair de uma situação de assédio, neste sentido 
Einarsen (2005) diz que 
 
em muitos países o assédio é ainda um tabu ou um fenômeno sem nomes, dificultando a 
capacidade das vítimas levantarem a voz e se defenderem... os aspectos sócio-econômicos 
 
 
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tais como o mercado de trabalho, impactam a capacidade de uma vítima trocar de emprego 
para escapar do assédio, enquanto a economia de um país e sua situação competitiva podem 
influenciar a maneira como os trabalhadores são tratados e a quantidade de atenção que as 
empresas estão disposta a dar para o aspecto humano da empresa. (EINARSEN, 2005, 
tradução nossa, grifo nosso) 
 
Assim, apesar de termos analisado as causas do assédio moral segundo características 
individuais, organizacionais ou societais, dificilmente se pode pensar em assédio somente 
como resultado de uma esfera, Zapf (1999) aponta que o assédio é um fenômeno 
multicausal. É preciso analisar o assédio moral como uma inter-relação de fatores 
individuais, fatores organizacionais que estimulam (ou se omitem) e fatores societais. 
 
 
3 Conseqüências do assédio moral 
 
 
3.1 Vítimas 
 
As conseqüências para as vítimas de uma situação de assédio moral são tão devastadoras e 
tão diversas, que um pesquisador poderia escrever uma dissertação somente sobre isto. 
Para facilitar o entendimento separamos em conseqüências para a saúde física da vítima, 
para a saúde mental e para a carreira. 
 
3.1.1 Conseqüências sobre a saúde física 
 
Para Einarsen e Raknes (apud EINARSEN, 2005), embora atos violentos e atos parecidos 
com o assédio moral ocorram com bastante freqüência na vida, quando eles acontecem com 
regularidade vêem associados com problemas severos de saúde. As pesquisas encontradas 
mostram que as conseqüências de uma situação de assédio moral sobre a saúde física do 
trabalhador são diversas, entre outras, as pesquisas citam: problemas de saúde (ZAPF, 
KNORZ e KULLA 1996); menos energia e vitalidade (VAEZ, EKBERG e LAFLAMME, 
2004); tensões musculares (DAVENPORT, SWARTZ e ELLIOTT, 1999); músculos 
doloridos, impossibilidade de descansar, palpitações, tontura (DAVENPORT, SWARTZ e 
ELLIOTT, 1999); problemas psicossomáticos e doenças físicas (EINARSEN e RAKNES, 
1995; NIEDL, 1995; ZAPF, KNORZ e KULLA, 1996). Leymann e Gustafson (1996), no 
 
 
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seu trabalho, descobriram que as vítimas apresentavam dores no peito, suores excessivos, 
boca seca, palpitações, falta de ar, dores nas costas, dores no pescoço, dores musculares, 
fraqueza nas pernas, desmaios, tremores, perda de apetite, diarréias, dores de estômago, etc. 
 
Os autores Baron Duque, Munduate Jaca e Blanco Barea, (2003) fizeram uma revisão 
bibliográfica sobre os transtornos associados com as situações de assédio e mencionam: as 
condutas sociais tendentes às adições, tais como o consumo de drogas, tabaco e abuso do 
álcool (CERVERA, et. al. 2001; PÉREZ DE HEREDIA, GONZÁLEZ Y RAMIREZ, 2001) 
as condutas auto-lesivas, como conflitos familiares, divórcios e suicídios (BOBES, 
GONZÁLEZ Y SAINZ, 1997; LEYMANN, 2007) e mesmo afecções fisiológicas como a 
hipertensão, transtornos dermatológicos, alterações digestivas e certas propensões a 
acidentes vasculares e coronários (BRUZICHES Y RINALDI, 2000; D’ELIA, 1997; 
LEYMANN, 1997; MAHLER, SCHMIDT, FARTASCHI, LOEW Y DIEPGEN 1998). 
 
Piñuel y Zabala (2003) descreve os resultados de um estudo sobre os efeitos do assédio 
sobre a saúde das vítimas. Segundo este autor o estudo estabeleceu seis tipos de efeitos 
perniciosos: a) efeitos cognitivos e hiper-reação psíquica: perdas de memória; dificuldade 
para se concentrar; depressão; apatia; irritabilidade; nervosismo/agitação; 
agressividade/ataques de fúria; sentimentos de insegurança; hipersensibilidade a atrasos; b) 
sintomas psicossomáticos de estresse: pesadelos; dores de estômago e abdominais; 
diarréias/colite; vômito; náuseas; falta de apetite; sensação de nó na garganta; isolamento; c) 
sintomas de desajustes do sistema nervoso autônomo: dores no peito; sudorese; boca seca; 
palpitação; sufoco; falta de ar; hipertensão arterial; d) sintomas de desgaste físicos 
resultantes de estresse prolongado: dores nas costas e nuca; dores musculares (fibromialgia); 
e) transtornos do sono: