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Assédio Moral no Local de Trabalho - Estudo FGV

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cela, junto a outros detentos. Sentindo-se perdido, afrontou seus novos 
colegas de infortúnio e algumas horas depois estava sendo levada em camisa de força 
para um nosocômio, onde permaneceu sedado durante uma semana. Ao retornar para 
a casa, foi convencido pelos familiares a visitar um psiquiatra. E desde então usa 
antidepressivo. O novo curso de sua vida o deixou inquieto, sem confiança em si 
próprio. (Barreto, 2005, p. 16) 
 
Barreto, comparando os resultados dos seus estudos com os de pesquisadores fora do país, 
diz que o ato mais comum a todos os países foi a prática de isolar o outro, destruindo as 
redes de comunicação e forçando a vítima a desistir do emprego, pedindo demissão, “na 
medida em que se sente um inútil, um ninguém” (BARRETO, 2005, p. 62) 
 
Sobre os resultados específicos da sua pesquisa sobre assédio moral no país, Barreto (2005) 
descobriu que a região Sudeste concentrava o maior número de vítimas, com 63,8% das 
vítimas, seguida de 15,7% na região Sul e 12,4% na região Nordeste. Com relação à idade, 
60% tinham entre 30 e 50 anos, sendo que 85% das pessoas com mais de 50 anos que 
diziam ter sofrido assédio moral trabalhavam em empresas públicas . Além disto, a pesquisa 
apontou que 90,7% das vítimas eram funcionários com registro em carteira e em 69% dos 
 
 
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casos a empresa havia passado por um processo de reestruturação nos últimos dois anos. 
Esta pesquisa mostrou que os casos de assédio no Brasil são: 90% descendente, 2.5% 
horizontal, 6% misto e 1,5% ascendente sendo que há maior distribuição no setor de saúde, 
educação, bancos e comunicação. Há mais casos nas grandes e médias empresas e o 
processo é mais prolongado em empresa públicas. A família é o espaço onde as vítimas vão 
buscar ajuda (38%), seguindo dos amigos do bairro (21,5%), e outras pessoas na empresa 
(19%), o sindicato é procurado em 6% dos casos e o departamento de RH também em 6% 
dos casos. 
 
Os resultados desta pesquisa mostraram que o assédio moral não escolhe raça, cor, nem 
nível hierárquico, sendo que entre executivos “a manifestação do desprezo pelo outro que se 
questiona e se indigna é a causa mais comum de assédio com executivos... e advém muitas 
vezes de sua não participação em atos ilícitos internos ou externos como aqueles que 
quebram a concorrência.” (BARRETO, 2005, p. 178) 
 
Em relação a diferenças regionais observadas, Barreto (2005, p.104 e 105) conta que: 
na região Nordeste, por exemplo, predominam as atitudes que atentam contra a dignidade 
como, por exemplo, as fofocas, boatos, rumores e zombarias sobre a masculinidade e 
competência do trabalhador. O isolamento imposto funciona como castigo a “prova de 
fidelidade”com o ideário e compromissos da empresa, forçando a quebra da comunicação 
entre os pares e superiores... a política dos grandes proprietários de terra nas regiões nordeste 
e norte do país, continua baseada na oferta de emprego, pequenos favores, cooptações e 
baixos salários em troca da eterna gratidão e fidelidade de seus trabalhadores, que muitas 
vezes defendem com suas vidas a vida desses senhores. Mais por temor e sujeição que por 
respeito. Se desobedecerem e saírem da norma, conhecerão a força do afeto que repudia a 
ingratidão.. Na região Sul a tática mais usada é sobrecarregar de trabalho ou bloquear seu 
andamento, dando-lhes instruções confusas e até mesmo retirando todo o instrumental 
necessário à realização da tarefa. Com as mulheres predomina as instruções confusas, 
desqualificações, maledicências e atribuições de tarefas acima de sua competência para 
desqualificá-las. São controladas durante a jornada de trabalho até mesmo em suas 
necessidades fisiológicas (BARRETO, 2005, p. 105) 
 
Ela conta que na região Centro-Oeste há maior imposição para participar de atividades fora 
da jornada, muitas vezes marcando reuniões que começam duas horas antes do início do 
expediente. O discurso das dificuldades enfrentadas pela empresa passa por ameaças de 
desemprego e evoluem para gritos, empurrões e gestos de desprezo e telefonemas para 
familiares denunciando o comportamento infiel do trabalhador. Na região Sudeste a tática 
mais usada é bloquear o trabalho, ignorar e dar instruções confusas, retirando as ferramentas 
necessárias à realização da tarefa. 
 
 
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Quanto às diferenças nos setores de atuação, Barreto (2005) notou que no setor privado é 
comum o envio de cartas de advertência, e-mails, telegramas e telefonemas aos familiares. 
Nas instituições públicas brasileiras, as táticas usadas são: a transferência de setores, o 
rearranjo de funções, as tentativas de cooptação e o impedimento de realizar a tarefa. 
Barreto (2005) notou que a tática usada contra os homens é indireta, na medida em que se 
espera que o homem reaja às ameaças. Assim, evitam-se respostas físicas. Com as mulheres, 
os atos são sutis e com o tempo tornam-se explícitos, reforçando a lógica de que as mulheres 
são incapazes, confusas e medrosas. 
 
Quanto à reação da vítima ao processo, Barreto (2005) descreve-as como tendo: 
 
pensamentos ambíguos, contraditórios e repetitivos os fazem sofrer ao recordar que entregou 
sua vida e deu seu sangue à empresa. Ao ser demitido perde o trabalho e o contato real com 
as relações de produção, perdendo a si próprio. Ao ser forçado a desistir do emprego pela via 
do assédio moral é como se perdesse seu mundo interior. E sua vida é devastada por ideais 
inadequadas e confusas que podem levá-lo à morte, pois nada lhe resta (p. 158).. Muitos, em 
monólogo com as próprias emoções, se isolam dos pares em busca desesperada do prazer 
seqüestrado e trabalham cada vez mais, esperando o reconhecimento que dê satisfação e o 
reintegre na organização (p. 171) 
... revelar a humilhação sofrida é negar a coragem, o dever, a honrar, a virilidade. Talvez por 
isso, a humilhação seja omitida por aqueles que a vivem e sente, por vergonha. Vergonha de 
não saber e ser considerado incapaz, inútil. E por vergonha, toleram-se os mandos e 
desmandos dos chefes e o medo coletivo transforma-se em instrumento de produtividade. 
(p.174) 
... desistir do emprego para o assediado é inaceitável, pois a idéia de abandonar o emprego 
após as humilhações é como sentir derrotado em sua honra e dignidade. Apesar das 
humilhações sofridas, persiste a esperança que tudo possa mudar, que a empresa possa 
reconsiderar e requisitá-lo novamente. (BARRETO, 2005, p. 151) 
 
Finalmente, Barreto assinala que o assédio moral revelou-se como uma ferramenta 
importante na sociedade brasileira “para a estratégia de demissão sem direitos, 
especialmente para trabalhadores que ficaram afastados por doença de trabalho e após alta 
da previdência, gozam de estabilidade legal por um ano. Estes trabalhadores são 
considerados improdutivos e onerosos.” (BARRETO, 2005, p. 123) 
 
 
 
 
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2.1 Outras pesquisas 
 
A pesquisa de Guimarães et. al. (apud GUIMARÃES e RIMOLI, 2006) realizada com 
trabalhadores do gasoduto Brasil-Bolívia descobriu que 7% dos trabalhadores eram vítimas 
de situações de assédio moral. 
 
A pesquisa de Maciel et. al (2006) preparada para o Sindicato dos Bancários de Pernambuco 
ouviu 2.609 bancários de 25 estados e descobriu que 38,9 % revelaram ter passado por 
situações de assédio moral. Segundo esta pesquisa, a orientação sexual também leva a 
diferenças na freqüência de relatos das situações constrangedoras, sendo que os(as) 
homossexuais e bissexuais relatam uma proporção maior de situações. Segundo esta pesquisa, 
as pessoas que se declararam indígenas relataram um maior número de ocorrências do que as 
pessoas das outras raças embora essa diferença não seja significativa e nenhuma situação 
constrangedora tenha sido relatada em especial. 
 
A pesquisa de Martiningo Filho (2007) descobriu que, entre bancários, os alvos freqüentes 
de uma situação de assédio são as